Natal?

"O italiano Piergiorgio Welby, que sofria de distrofia muscular progressiva e que há alguns meses pedia a suspensão do tratamento médico que o mantinha com vida, abrindo um amplo debate sobre a eutanásia na Itália, morreu nesta quinta-feira aos 60 anos."

A mesma Igreja que dá o perdão a um qualquer assassino e celebra missa pela sua alma, condena, excomunga e recusa celebrar a mesma homilia por um ser humano que, em sofrimento atroz e continuado, decide pôr fim à sua vida.
Esta recusa em reconhecer o direito de cada um dispor da sua vida, é uma das mais abjectas e ultrajantes atitudes da Igreja. Já em tempos de João Paulo II, a sua condenação pública dos movimentos latino-americanos da “teologia da libertação”, desmascarou claramente o arcaísmo e o distanciamento que a Igreja mantém em relação à realidade e aos problemas da civilização contemporânea.
Continua a ser uma Igreja que pretende estar mais próxima de Deus do que dos Homens. E uma Igreja, assim, agarrada a dogmas tão arredados da condição humana, só vai cavando a sua própria sepultura. E ainda bem, porque tamanho ninho de hipocrisia só merece mesmo é apodrecer. Apodrecer lentamente, para que não se “construam” mais mártires ou falsos profetas.

Bom Dezembro, e melhor Janeiro, para todos.

Um Conto de Natal


Eram quatro homens de meia-idade sentados no chão do segundo patamar da escadaria do metro. Tocavam instrumentos estranhos produzindo uma exótica e doce melodia e a criança dançava. Era uma menina com pouco mais de três anos de idade que se contorcia graciosamente ao som da música. Dançava, e sorria. Sorriu sempre, enquanto os transeuntes apressados entravam e saíam do metro. Num cartaz ao lado lia-se: Não queremos dinheiro, apenas um sorriso. Fosse pela sonoridade musical e beleza estética do conjunto ou pela mensagem inédita, os passantes hesitavam, suspendendo o ritmo do trânsito quotidiano e escutavam aquela singular banda de rua. Depois, prosseguiam na sua azáfama mas, agora, com um sorriso nos lábios e uma pequena alegria nos corações.

Anos volvidos, a pequena que então dançara no metro, pisava os maiores palcos da Europa e era aplaudida pela sua performance de dançarina, e pelo sorriso radiante que sempre ostentava, em público ou em privado, na actividade artística ou nos momentos mais reservados da sua vida.

Com mil cuidados, reservas e previdências fora educada na eterna presença do sorriso, na artificialidade de uma existência preenchida pela felicidade, sem margem para a tristeza, sem conhecer o sofrimento, sentir a mágoa, ou a mais simples desilusão.

No seu vigésimo aniversário conheceu um jovem de quem esperou um sorriso eterno, como o seu. Mas tal não era possível. O jovem não podia sorrir vinte e quatro horas por dia.

Pela primeira vez na sua vida encontrou a tristeza, sentiu a mágoa, experimentou o sofrimento e, desiludida, suicidou-se.

Há duas pessoas em mim

Há duas pessoas em mim.
De um lado há um sacana,
sentado à sombra de uma árvore,
que aceita a necessidade de ser egoísta
para poder escrever sem transigir
nas convenções, nos preconceitos
e nas hipocrisias do quotidiano.
Do outro lado há um homem
que se comove com o pardal juvenil
que cai da árvore.
Entre os dois, apenas a verdade
que interessa:
a árvore.