Bem podes insistir...

(a insistência do imbecil levou-me a recolocar este post em 2007.11.29)
Há por aí quem que ainda não tenha percebido que não escrevo para toda a gente, que não escrevo para qualquer um. Que nem o que escrevo aqui no blogue se destina ao público em geral, ou melhor, que não espero nem procuro leitores, nem audiência. O que aqui escrevo destina-se a escassa meia dúzia de pessoas e nem sempre para todos esses.
E que sempre escrevi, mesmo sem ter comentários. E que sei quem vem cá, e quando vêem, quer comentem ou não (sobretudo no caso das poucas pessoas a quem se destinam alguns dos posts).
E dou-me a esta prosápia toda porque aparece por aqui um idiota que ainda não percebeu que não me interessam para nada as suas opiniões. Em primeiro lugar porque não lhe reconheço o mínimo de inteligência. Não percebeu ainda que o considero um autêntico labrego, um bronco, e que o melhor que ele tem a fazer é devolver-me o cumprimento e ignorar-me.
Mas desconfio que esperar uma tal manifestação de inteligência elementar já será pedir muito à pessoa em questão.
Quando se ultrapassa um certo limite, das relações entre duas pessoas, já não é possível voltar atrás.
"Mas o burro não sabe, e continua à procura das cenouras."

Prédica feita pelo mui reverendo prior




«_Deus dixit Petro ubi sunt oves meæ; nescio, respondit autem Petrus_»

Deus disse a Pedro «que é das minhas ovelhas?» e Pedro respondeu «eu não sei d'ellas.»
Que bondade, que prudencia, que sabedoria, meus queridos irmãos, não devemos nós admirar em Pedro; que, mesmo no momento em que seu Divino Mestre lhe pergunta, onde estão as minhas ovelhas; responde com toda a delicadeza que não sabe d'ellas, porque essas ovelhas não estavam em estado de apparecerem perante o seu Senhor. Asneiras, meus caros ouvintes, eu não tinha esse genio, não sou mentiroso nem falso, não tenho papas na lingua, e se o Mestre me pergutasse, como a Pedro, onde estão as minhas ovelhas, eu logo lhe dizia sem mais cerimonia, foram pastar para casa do diabo, Senhor.
E com effeito, se Elle tivesse vindo hontem á noite perguntar-me pelas minhas ovelhas, que lhe havia eu de responder? Elle que recommenda tanto no seu Evangelho, que as ovelhas se conservem sempre separadas dos competentes bodes, o que teria Elle dito se visse essas mesmas ovelhas misturadas com os bodes, saltando uns em cima dos outros, e a fazerem gaifonas ao seu pastor!
Sim, amados irmãos, foi grande a balburdia, e ao aspecto de tal desordem, o amor pelo meu rebanho animou-se de um santo zelo e ardendo em fogo, corri de cajado na mão, para arrancar as minhas innocentes ovelhas das dentuças dos lobos encarniçados. Mas, ó dôr, ó desdita, ó patifaria! As minhas ricas ovelhinhas já não escutam a minha voz; já penetradas pelos agudos dardos d'aquelles diabos e inundadas pelos seus liquidos venenosos e seductores, estavam indoceis e levadas da breca. O meu cajado, outr'ora tão poderoso, não póde juntar senão um pequeno numero, que trago para o meu curral, onde as hei de ter fechadas e guardadas até que deem os fructos do seu arrependimento.
Mas vós, amados ouvintes, vós, os que fostes fieis, lamentae a desgraça de vossos irmãos; comportae-vos sempre bem, e tomae para exemplo esses grandes santos da antiguidade; menos um tal santo Agostinho, que, segundo izem, foi um grande pandigo, quando moço, e é por esse motivo que eu nunca vos fallo d'elle.
Fallemos antes d'aquelle santo Chrisologo, que diz que um cura é um sol, e os seus freguezes são uns átomos. Mas eu não sei que diabo de átomos vocês são! não me pagam a congrua, querem que os case de graça e ainda em cima dizem: «ora, estamos nas malvas para o _seu_ padre cura, elle não tem filhos para sustentar!» Vocês sabem la disso? Não sabem que nós outros padres, temos mais trabalho em os esconder, do que vocês em os fazer?...
Mas voltando á vacca fria, pensemos na vossa conversão, se ella é possivel. Julgo que a melhor maneira de o conseguir é fallando-vos das maroteiras que se fazem na freguezia. Por exemplo: o João da Canhota, regedor, sae á noite e se ha de vir ao sermão, vai-se metter em casa da Felicia do Frade, e não sae de lá senão de madrugada. Diz que vae tomar chá, mas imaginem os ouvintes que qualidade de chá elle não tomará...
Aqui não ha senão desordem e immoralidade. Immoralidade nos velhos, immoralidade nos moços, immoralidade nos grandes, immoralidade nos pequenos. Digo immoralidade nos velhos, porque esses velhos, raça damnada de Caim, depois de haverem passado toda a vida... em patuscadas e pandigas, ainda mesmo arrumados ao bordão e de cabeça calva, se vão metter em logares suspeitos! Infames velhos de Suzana! quando é que lhes acabarão as fúrias carnaes e burriçaes? Immoralidade nos moços. Os rapazes e as raparigas andam por essas ruas aos beijos e abraços, cantando cantigas indecentes e immoraes; ainda eu hontem ouvi a filha do Thomaz da Horta e o filho do Ignacio do Dente a cantarem o Pirolito que bate que bate! Ora não ha maior pouca vergonha, uns fedelhos que ainda cheiram a coeiros e já sabem o que isto quer dizer! Immoralidade nos grandes. Esses mariolões e essas mocetonas que vão todos os dias para o matto, sob pretexto de que vão buscar lenha, e por fim fazem por lá couzas do arco da velha... Lenha no forno queriam ellas, malditas!
E quando vão aos figos! O que acontece? As raparigas sobem para cima das arvores e os mariolões ficam em baixo, a olhar para cima e a dizer: Olha Antonia vejo-te os calcanhares, e as pernas, e os joelhos, e o...
Ponham cobro a este escandal-o, amados irmãos, são couzas que se não devem ver senão em certas occasiões. Eu não pego aos rapazes e ás raparigas que vão ao matto e comam por lá o seu figuinho e mesmo que subam ás figueiras, mas para evitar indecencias, as raparigas fiquem debaixo e os rapazes que lhes vão acima. Immoralidade nos pequenos. Essa gaiatada miuda que anda todos os dias a correr pelo adro cá da freguezia, onde estão as campas dos nossos antepassados, e que depois vão fazer as suas necessidades mesmo á porta da sachristia. Se não teem respeito pelos mortos, tenham ao menos compaixão pelos vivos, não póde uma pessoa entrar na egreja pela porta de traz sem ficar a bem dizer atolado até o nariz. Já disse ao sr. regedor da freguezia que pozesse mão n'estas cousas, mas por ora continúa a mesma marmelada á porta da sachristia.
Tambem é digno de reprehensão o comportamento d'essas mulheres casadas, que sem nenhuma consideração pelos seus maridos, se levantam do leito conjugal de madrugada, sob pretexto de levarem o gado ao campo, e depois de andarem lá por fóra a laurear, em pernas, recolhem-se para casa frias de neve, e vão-se outra vez metter na cama com os maridos e arripial-os sem piedade! Pobres homens! Se fosse comigo, que coça que ellas não levavam...
Tambem ha certa moça cá na freguezia, que eu trago d'olho ha dias, cá por certa cousa. Eu devia já dizer quem é, mas emfim por hoje limitar-me-hei só a mettel-a na sachristia e arrumar-lhe um lembrete... domingo direi quem é, se não tomar juizo... por agora saibam unicamente que é a unica na freguezia que usa ligas encarnadas... (_Pausa, rumor na egreja._)
Domingo, de hoje a oito dias, me alargarei mais sobre os homens, coçarei as mulheres casadas, e caírei em cima das solteiras, se não tomarem juízo d'aqui até lá. Sendo hoje dia de festa e estando a chuver far-se-ha a procissão só por baixo da egreja, pois eu não estou para apanhar alguma porrada d'agua. Não precisa vir toda a gente a ella, basta que de cada familia venha um varão.
A proposito de procissão, tenho a dizer-vos, amados ouvintes, que os santos cá da freguezia vão estando muito chimfrins. Eu não dava três vintens por elles. O São Miguel é que está assim mais direitinho, mas o diabo que está por baixo já não tem cornos; pois olhem, não ha na freguezia poucos homens ricos no caso de lh'os darem. O calvario também não está mau; todos os instrumentos da paixão estão em bom estado, falta-lhe só o gallo, mas a isso não direi nada, porque ha poucos na freguezia e as gallinhas precisam d'elles: no entanto se houver por ahi alguma dona de casa que tenha dois, que me mande para cá um.
Esta semana não ha jejum, podem comer tudo quanto quizerem e bebam-lhe melhor; ha só a bemaventurada santa rainha, que cura a tinha; é quinta feira, sexta feira ha feira e domingo é a festa de São Simão e São Judas. Tambem, não sei quem foi o diabo do animal que se lembrou de pôr Judas no calendario. Juro-vos, amados ouvintes, que se não fosse domingo não lhe fazia festa, era o que merecia o senhor S. Simão por caír na asneira de se ir metter com similhante tratante.
Mas acabemos com esta maçada. Ó _seu Zé_, accenda os sinos e mande tocar as vellas, accenda a agua benta e bote agua no thuribulo... não, enganei-me, faça o contrario de tudo isto. No entretanto façamos as nossas costumadas e ordinarias orações. Oremos pela conservação da nossa bemaventurada mãe catholica, apostolica e romana; pela _estripação_ da _cisma_ e abaixamento da hydropisia; oremos tambem pelos ricassos cá da freguezia, a fim de que Deus os mantenha na sua honesta pobreza; pois se fossem mais ricos punham-nos o pé no pescoço. Oremos pelos ausentes e pelos viajantes, afim de se deixarem por lá estar, se estão bem; oremos pelo feliz successo das mulheres pejadas, afim de que Deus lhes faça a mercê de largarem o fructo com a mesma facilidade e doçura com que o comeram. Oremos, n'uma palavra, pela conservação dos bens da terra, como salada, couves, batatas, pepinos e tomates, e pela extincção dos seus males, como formigas, lagartos, ortigas, pulgões e ratazanas... etc.
In http://www.gutenberg.org/wiki/

Viva el Tango!




Ao que parece o Tango nasce no final do século dezanove resultando de uma mistura que reúne diversas formas musicais transportadas pelos imigrantes – italianos, espanhóis, e crioulos - os habitantes das Pampas, e integrando também sonoridades negras, sem excluir a possibilidade de influências da habanera cubana e do Tango andaluz. O Tango nasce, assim, do registo etnográfico das populações mais pobres que se fixam nos subúrbios de Buenos Aires. Começa por ser dança, cabendo ao povo a improvisação das letras – normalmente picantes - para as músicas mais conhecidas. Não sendo bem aceite a dança entre homens e mulheres abraçados, em público dançavam apenas homens. Daí a razão de se manter circunscrito, durante muito tempo, aos bordéis.
Tornado moda, através da sua exportação para Paris no início do século vinte, o Tango espalha-se ao resto do mundo. Um dos seus estilos, o Tango-canção, foi feito com o objectivo de musicar letras e com ele surgem os cantores de Tango.
Nos cabarés dos anos vinte o Tango sofre importantes modificações, a começar pelo facto dos executantes já não serem pequenos grupos que animam o ambiente dos bordéis, mas sim músicos profissionais que inovam quer em qualidade técnica quer em criatividade melódica. A eles se deve a introdução do uso do piano.Carlos Gardel é considerado o maior intérprete do Tango, mas desaparece no auge da sua carreira, vitimado em acidente de aviação em 1935. Porém, é ele que populariza o Tango fora da Argentina pois cantava em Paris, Nova York e noutras capitais do mundo, onde fascinava multidões. A década de 40 será uma das mais felizes e profícuas para o género e, uma vez mais, o Tango inicia um novo trajecto rumo a um lirismo e sentimentalismo mais profundos, desaparecendo de vez as temáticas dos bordéis e dos cabarés, a sua violência e a carga obscena. Impera a fórmula ultra-romântica e, agora, escrevem para o Tango muitos poetas famosos, com sólida formação cultural. É o auge do Tango.Na década de 50 surge o revolucionário Astor Piazzolla que rompe com o tradicionalismo e verte no tango influências de clássicos como Bach e Stravinsky, e também do Jazz. É de realçar o interessante trabalho que realizou com os seus vizinhos brasileiros, esses mestres do ritmo e do sentimento, que se traduziram em novas e enriquecedoras abordagens musicais.Entretanto, o Tango atinge um alto grau de profissionalismo ensombrado, apenas, pelo pontificado do Rock n'Roll que veio contribuir para um acentuado desinteresse comercial e para um decréscimo na criação e produção do género.No final do Século 20 o Tango regressou aos grandes palcos, ao cinema e aos salões de dança, e voltou com toda a paixão que lhe é característica. A vida contemporânea revela a solidão do Homem, essa esmagadora solidão. E a necessidade de cantá-lo, de chorá-lo, de dançá-lo, impõe-se e obtém resposta em meia dúzia de expressões musicais das quais o Tango é exemplo maior. O Tango nasceu para se dançar abraçado, para festejar o multiculturalismo e a miscigenação de povos de diferentes proveniências e raças. Os seus instrumentos são o piano, o violino, a guitarra, o contrabaixo e o bandoneón que é exclusivo do Tango.
Há uma nova geração de artistas que corre o mundo mostrando a sua arte. O Tango, expoente do encanto e sedução de/para homens e mulheres lembra que o que é maravilhoso na criatividade e sensibilidade humana não morre, renasce ad aeternum como a mítica Fénix.

fotos do espectáculo de "Tango Quatro" decorrido no Centro Cultural de Lagos em 2007.08.15

Os Condenados


«Jack Conrad (a superestrela do wrestling Steve Austin) é um prisioneiro que aguarda a execução da pena de morte numa prisão corrupta da América Central e que é "comprado" por um ganancioso produtor de televisão para participar num "reality show" ilegal. Levado para uma ilha deserta, Jack vê-se obrigado a participar num jogo de "matar ou morrer" com nove assassinos condenados à morte oriundos dos quatro cantos do mundo. Sem fuga possível - e com milhões de espectadores sedentos de violência não censurada -, Jack terá que utilizar toda a sua força para ser o vencedor do brutal jogo... e ganhar a sua liberdade.»
É sempre bom confirmar a imbecilidade dos americanos, perfeitamente demonstrada pela “arte maior” desses trogloditas, o cinema de Hollywood e, neste caso, sintetizada na legenda de apresentação da fita: 10 pessoas vão lutar, 9 vão morrer, e tu vais ver. Trata-se de pura poesia norte americana, claro.

3.000 horas de sol




«A Revolução Industrial foi muito simpática, foi uma necessidade, mas infelizmente tem sido levada ao exagero. Quando o mundo está todo ao dizer que atmosfera já não aguenta tanta poluição, há uma série de indivíduos a dizer que há uma quantidade de petróleo para gastar.
Podemos deixar de fazer asneiras. Podemos parar a destruição das florestas da Amazónia, da Indonésia, da África Central... Mas enquanto houver povos que precisam de dinheiro para viver e povos ricos que compram a madeira dessas florestas, o clima só vai mudar para pior. Quem tem culpa? Os povos ricos, com certeza, que andam sistematicamente à procura de ter tudo de bom aos pés da cama.
A água irá faltar na Península Ibérica (Portugal e Espanha), no Norte da China e Manchúria, na Austrália, na Nova Zelândia e na Tasmânia. O deserto do Sara está a ampliar-se para o Sul da Europa – isto foi absolutamente verificado no início dos anos oitenta por equipas de meteorologistas de Portugal, Espanha, França, Itália, Grécia e Turquia no âmbito de um programa conjunto chamado MEDALUS (...); Já nessa altura se concluiu que a linha de risco em Portugal já passava a norte do Tejo (...).
A América do Sul e a Europa do Norte serão as únicas regiões que, em 2025, não terão problemas de falta de água. Os meus colegas climatologistas dão-nos informações de que o famoso anticiclone dos Açores apresenta tendência para se estabelecer com muito maior frequência a sul das Ilhas Britânicas ou entre os Açores e a Madeira. Qualquer destas posições irá constituir uma barreira, um bloqueio; o anticiclone, estendendo-se em crista para nordeste em direcção à Escandinávia e em crista para sudoeste em direcção à América Central, vai fazer com que as chuvas não venham directamente para o Sul de França, Espanha e Portugal e tenham de dar a volta, indo chover provavelmente na Alemanha, na Polónia, na Europa Central, no Leste da França.
Já devíamos estar a pensar em dessalinizadores. Veja o caso exemplar do Porto Santo. A ilha não tem água, praticamente não chove e, no entanto, ninguém morre à sede. No continente não se faz a conversão da água do mar; mas devíamos estar a investir nessa tecnologia.
Escandaliza-me que já todos tenham chegado à conclusão de que o petróleo é altamente poluidor e Portugal tenha anunciado que vai fazer prospecção de petróleo ao largo da costa, para o que tem de gastar 36 a 38 milhões de euros. Não seria melhor aplicar esse dinheiro em fontes energéticas menos poluentes? Escandaliza-me que o Algarve tenha três mil horas de sol por ano – que é o máximo de horas de sol em todo o Mediterrâneo – e não façamos nenhuma utilização disso. (...)»
Excerto da entrevista de Anthimio de Azevedo no Notícias Magazine de 12.Ago.2007

Os ectoplasmas



Há gente que muda do estado sólido para o estado ectoplásmico e nem dá conta disso. Há coisa mais ridícula do que julgar-se no pensamento ou nos cuidados de outrem que, afinal, pura e simplesmente o ignora integralmente, sem o mínimo esforço?! Um destes seres já tinha passado a essa condição, de invisível, há algum tempo, o outro operou a transformação recentemente. Ambos têm em comum o facto de deterem uma ideia muito própria acerca da amizade – que evocam futilmente – e continuarem a remoer azedumes. Vem isto a propósito de me chamarem a atenção para palavras ditas e escritas que atestam algum mal-estar em relação à minha pessoa. Ora descansem lá que não tenho nenhum pensamento, nenhum comentário, nenhuma atitude para cada um de vós. Fiquem em Paz. E porque não fazem o mesmo em relação a mim? Ignorem-me. Agradeço-vos, do fundo do coração.



o mundo ideal

«Cada vez que ligo a televisão, as telenovelas, concursos imbecis e imbecilizantes, big-brothers e quejandos, Maya's e demais vendedores de banha da cobra, fazem-me pensar na sociedade retratada em Fahrenheit 451. A diferença essencial é que não é necessário queimar livros, estes colectam pó nas prateleiras das livrarias, com excepções que são muitas vezes instrumentos que cumprem a mesma função dos «bombeiros» do mundo de Bradbury: a construção de um mundo «ideal» onde ser acéfalo e ignorante constitui a mais prezada virtude... »

Só dois?


Que balança utilizar para julgar as ofensas feitas aos outros? A balança da Psicologia facilmente me absolveria ou arquivaria o processo. Sem grandes exames bem podia remeter para a natureza competitiva e os instintos de sobrevivência. A balança da moral racional, a que estabelece os princípios éticos em que acredito, essa, leva-me à auto-condenação.
Se há um desígnio superior em tudo, e alguma espécie de equilíbrio justiceiro que rege a nossa vivência, aceito os sofrimentos entendendo-os como punições para as minhas faltas. Expio-as com a conformação do faltoso.
Se nada existe de transcendental, nem demiurgo algum que estabeleça uma justiça neste universo, então os meus padecimentos são consequência de deficiências genéticas e psicossomáticas a que se somam erros e excessos cometidos, e dos quais sou o grande culpado. Mereço tais sofrimentos, até porque sempre esteve ao meu alcance a livre escolha para evitar tais erros.
Podia ocupar cargos de destaque nos órgãos directivos das associações a que pertenço. Não o faço porque quem erra não deve desempenhar esse tipo de funções nem alcançar tais protagonismos. As pessoas públicas devem ser exemplos da moral e da virtude.
Não uma moral qualquer, como essas vinculadas às culturas religiosas que constituem heranças bizarras e distorcidas, como a judaico-cristã: diferenciadora; desigual; resignacionária; reaccionária; castradora, numa palavra, desumana. Mas sim uma moral racional sustentada numa ética evidente, clara e universal.
E da virtude equacionada e defendida pela maitê socrática. Por isso, olho com desprezo para esses vigaristas reincidentes que ocupam cargos públicos, quaisquer que sejam, de maior ou menor notoriedade. Por muito menos do que isso, eu não o faço. Irrita-me que outros o façam. Não devíamos permitir tal coisa.
Falhei. E os erros são nódoas que as qualidades, muitas ou grandes, jamais encobrirão pois são como buracos negros, minúsculos e invisíveis, que tudo devoram, precipitando no seu interior matéria e luz – venturas, alegrias e sorrisos que infalivelmente povoam a vida de qualquer um. Sou duro e exigente? Pois sou. Mas sou-o mais comigo do que com os outros.
Por um lado, prezo a vida e ainda me encanto com o que tem de belo mas, simultaneamente, vou desejando que ela corra rumo ao final e, quando acontecer e for conduzido diante de Anúbis, exibirei um sorriso de desdém e dir-lhe-ei: eu já me julguei e sentenciei, agora é a vez de te julgar a ti, ó deus de merda.
Na outra hipótese, a que perfilho, não estará lá nenhum juiz mas, unicamente, o oblívio – pois esse túnel de luz de que falam, mais não é que o extinguir da chama interior que nos anima.
Mas que treta é esta? Em que sarjeta sombria e malcheirosa mergulhei? Alto aí. Em vez de investir sobre territórios tão tenebrosos, será melhor contar-vos uma anedota.
A madre Teresa de Calcutá chega ao céu depois de mais um dia extenuante e pede a Deus o jantar. Recebendo uma sandes de pão de centeio, olhou para baixo e viu os que estavam no inferno a comer um opíparo banquete. No dia seguinte aconteceu a mesma coisa e a madre, intrigada, perguntou: - Meus Deus, porque é que nós só comemos pão de centeio e eles, no inferno, comem tão grande banquete? Responde-lhe o demiurgo: - Teresa, achas que vale a pena cozinhar para duas pessoas?

O limpa fossas


Para lá da importância do seu teor, confesso que a outra razão que me impeliu a escrever o presente texto respeita ao facto de, finalmente, ter surgido a oportunidade para utilizar este magnífico título.
Numa reportagem televisiva, recente, tomei conhecimento da história deste homem que se recusa a pagar a taxa de saneamento básico exigida pelos Serviços Municipais de uma autarquia da região de Lisboa (penso que se trata de Sintra). O munícipe argumenta que não possuindo ligação à rede de esgotos, mas sim uma fossa, não tem obrigação de pagar essa taxa. Nisto, dá-lhe razão a Inspecção Geral da Administração do Território (IGAT), após consulta realizada.
Da parte dos Serviços Municipalizados recolhe-se o depoimento de um técnico que enfatiza a entrada em serviço de uma Estação de Tratamento de Águas Residuais pelo que o pagamento dessa taxa é devido por todos os munícipes. Mas, o nosso bom homem não desiste da sua pretensão e para evitar a cobrança dessa taxa, junto à factura da água, até abriu um furo artesiano na sua propriedade. Por outro lado, contra argumenta que já paga o serviço do Limpa Fossas de cada vez que o requisita.
Aqui, abro um parêntesis pois interessa debruçarmo-nos sobre a reportagem em si. E uma vez mais se constata que não nos é fornecida toda a informação que seria necessária para a apreciação deste caso. Trata-se de uma peça informativa medíocre que denuncia o estado do jornalismo televisivo no nosso país. Aquilo que interessa às televisões é, unicamente, o "cabeçalho" da notícia e o respeito escrupuloso pela duração máxima da peça (segundo indicações de especialistas preocupados com o "arrefecimento" do interesse do telespectador). E assim, vivemos bombardeados por esse lixo informativo que só confirma que a Televisão constitui a maior "labreguice" cultural que transportámos para o novo milénio.
Esgotado o gozo de assistir à estóica revolta contra o Sistema, protagonizada por aquele munícipe transformado em herói à la minute, assaltaram-me as dúvidas, legítimas, de quem se sente defraudado pela suposta informação televisiva. Assim, seria interessante confirmar que a situação anterior consistia em proceder à remoção e transporte dos dejectos e sua libertação num rio ou no mar - vulgar em muitos municípios - e a nova situação consiste em remover e transportar os dejectos para uma estação de tratamento de águas residuais (ETAR) onde o produto é tratado e devolvido ao ambiente em condições inofensivas.
E aqui surge a questão: porque é que o munícipe se recusa a pagar pelo serviço de tratamento dos dejectos que produz? E o apresentador informativo (é a nova designação do antigo repórter) poderia ter, em seguida, questionado os Serviços Municipalizados noutra perspectiva: porque não resolvem o problema suprimindo essa taxa de saneamento aos munícipes nestas condições, mas aumentando o preço do serviço do Limpa Fossas? E talvez tivesse como resposta: é que muitas das pessoas que têm fossas nas suas habitações possuem fracos recursos económicos e assim estaríamos a agravar a sua condição económica e social! Também ficámos sem saber se o referido munícipe, ao recusar pagar a taxa de saneamento, procede à reciclagem total do lixo que produz ou se o deposita, furtivamente, no colector do vizinho.
E agora vamos à reflexão final. Porque é que não se critica o sistema contributivo da Previdência Social que integra o princípio da solidariedade, em que uns contribuem mais do que outros e, desta forma, se garante a prestação, inclusive, àqueles que nunca contribuíram e, por outro lado, tantos se acotovelam para criticar as incipientes medidas de protecção ambiental que, timidamente, têm vindo a surgir no nosso país? Então esta questão não merece um tratamento com base na solidariedade social em que, em primeiro lugar, todos devem contribuir com um pouco e, em segundo, aqueles que mais poluem, mais devem pagar?
Entretanto este teso munícipe brande, qual grotesco D. Quixote, uma lança embotada, ferrugenta e anacrónica que só colhe simpatias, temporárias, porque alimenta as “notícias a peso" e desperta a rebeldia contra o poder (qualquer poder), latente em cada um de nós. Claro que não estamos perante o acto de indisciplina social de um Agostinho da Silva que sempre recusou, e nunca possuiu, cartão de contribuinte. Mas isso era outra notícia, divertida q.b. para televisões e governantes. Até porque se tratava de um distinto Professor de Filosofia. Aqui, o caso é diferente e o nosso munícipe será, indubitavelmente, cilindrado pelo Sistema que ousa combater e engolido pelo seu aliado Limpa Fossas.
2001-05-13

De falha em falha, até à falha final.

É caricato como algumas mentes pouco dadas à reflexão se aventuram a esgrimir convicções assentes numa experiência de vida pressupondo que essa experiência, apenas porque foi vivida, representa a verdade. De uma penada é varrida a razão kantiana que tantas objecções levanta à validade absoluta do conhecimento empírico.

Nivelar por cima, sem cultivar uma atitude elitista (pois, se o elitismo se instalar será por acção natural), será, sempre, exercício mal interpretado, sobretudo por aqueles que defendem que a validade do conhecimento reside nas práticas acumuladas de uma vida.
Rejeito as atitudes que definem a cultura por classes, posturas provenientes de uns que se julgam mais cultos, quer os que as manifestam petulantemente de uma posição aparentemente superior, quer os que fazem da boçalidade um arauto apologético da pureza de uma certa “cultura popular”.
Mas que é hilariante, lá isso, é. Cinismo de quem ri, ou falha de quem está a aprender?
A minha promessa é esta: Falharei mais vezes, até ao fim. E ninguém me impedirá de o fazer.
«Tenta outra vez. Falha outra vez. Falha melhor.»
Samuel Beckett
cínico: pessoa sem pudor, indiferente ao sofrimento (ignorância) alheio.



reescrita em Ago 2014:
É caricato como algumas mentes pouco dadas à reflexão se aventuram a esgrimir convicções assentes na sua experiência de vida pressupondo que essa experiência, apenas porque foi vivida, representa a verdade. De uma penada é varrida a razão kantiana e as suas objecções à validade absoluta do conhecimento empírico, assim como a riqueza de conhecimento que advém do confronto de experiências diferentes.
Nivelar por cima será sempre um exercício mal interpretado, sobretudo por aqueles que defendem que a validade do conhecimento reside nas práticas acumuladas de uma vida, ou por aqueles programados no conceito laudatório da mediania (leia-se mediocridade) e da suposta igualdade universal.
Rejeito os arautos da verdade, sejam daqueles que se manifestam petulantemente do alto de alguma cátedra, seja dos que fazem da boçalidade a apologia de uma certa “cultura popular”.

Discuta-se, porque da discussão nasce a luz. Mas apenas entre quem fale a mesma língua, sob pena de se estabelecer menos que cacofonia. Isto é, verifique-se previamente o entendimento dos conceitos e a igualdade dos significados. Sem isso, discutir é tempo perdido.