De facto...

Um: - Olha que o “facto” agora já é para ser escrito sem “c”!!!
Outro: - Olha que o reparo, vindo de quem não consegue construir uma frase aplicando correctamente a sintaxe da língua portuguesa, é, no mínimo, caricato. Quero lá saber das novas formas do grafismo da língua! Não percebes que a aplicação prática do acordo é algo que acontecerá gradualmente? Aposto que já foste comprar um “tratado do acordo”, não? Nunca vi, como hoje, tantos expoentes da iliteracia pronunciando-se sobre tais questões. Nenhum escritor deixará de usar a ortografia que sempre utilizou, de um dia para o outro, nenhum poeta sucumbirá aos ditames de qualquer acordo. É nas salas de aula e nos manuais escolares que o acordo iniciará a sua prática. Quanto ao resto deixemo-lo ao sabor do tempo e da adopção progressiva por parte de quem escreve, e da actualização dos programas informáticos de correcção ortográfica. Que raios querem discutir? A Língua é dinâmica, como a língua que saboreia, modula o som e apimenta o beijo. E o seu dinamismo deve ser natural, como naturais são estas coisas.
Uma discussão, aqui.

Por um ensino afectivo


As principais diferenças do ensino entre a Itália e Portugal fundam-se no facto da Itália ter exportado uma invenção de dúbia virtude no que toca à aplicação no nosso país já que, até ao momento, apenas parece servir para sacar mais dinheiro aos papás dos estudantes e permitir o desinvestimento do estado na área do ensino superior. Falo do tal Processo de Bolonha. Ao invés, o nosso país, sempre mortinho para imitar e seguir modas e ditames da estranja, limitou-se a importar o dito acordo. Isto já era mau, mas o pior vem a seguir.
O fosso maior do nosso atraso é demonstrado modelarmente pelo facto dos alunos das escolas portuguesas recorrerem aos telemóveis para matar o tédio das aulas enquanto, na Itália, país muito mais avançado e distante deste cu da Europa, uma professora de Matemática permitir aos seus alunos que a apalpem*. E eles, serena e ordeiramente, aguardam a sua vez. Que maravilha, que avançada concepção de educação e ensino.
Será que a brilhante professora instituiu também um sistema de prémios para os bons alunos? Tipo: ao melhor colegial, uma noite de “prática da trigonometria do triângulo”, seguida de “Rotações”; ao segundo, uma sessão de “Estatística aplicada ao felatio” e ao terceiro um exercício de “Cálculo de Probabilidades de esfreganço, em nu integral”. E poderia seguir por aí fora, com prémios como: “teoria das circunferências adjacentes – recuperações da memória da amamentação”; “O strip tease e o Espaço – uma outra visão”; “Equações de Cunnilingus”; “Proporcionalidade Inversa e Representações Gráficas nas Manipulações Digitais ”; “Quantidade de Orgasmos – Os números reais. Inequações”.
Educativamente, aposto que seria coisa muito positiva ou, como se diz hoje: tipo, bué de fixe! contribuindo, simultaneamente, para exercitar a libido e acalmar as hormonas pululantes dos jovens. Imaginam o apego com que os nossos estudantes se agarrariam aos livros? Então poderíamos apregoar com toda a propriedade: Jovem, o estudo realiza as tuas mais profundas aspirações! Desgraçadamente, tais cogitações não passam de vislumbres de um ensino que podia ser efectivamente verdadeiro e, verdadeiramente... afectivo.

*Segundo notícia publicada hoje no herdeiro do Jornal do Incrível. Refiro-me, claro, ao Correio da Manhã.

Qual Lego


Resposta ao Mestre TheOldMan
Quando era miúdo o meu pai ofereceu-me um jogo daqueles que tentavam imitar essa invenção superior proveniente de terra viking, o LEGO, este talvez de origem espanhola – que nesses tempos ainda as lojas chineses não salpilhavam* a paisagem urbana e a nossa imaginação –, era uma caixa cheia de peças plásticas com buracos: chassis, tirantes, rodas dentadas, tubos, parafusos e porcas, e as respectivas chaves de bocas para fixar os componentes dos vários engenhos que o conjunto permitia construir. Uma maravilha para os dedos e para o cérebro de um puto de sete anos, digo-vos. Até hoje, foi, de todas as coisas que me ofereceram, a mais parecida com as palavras – embora muito aquém das possibilidades construtivas destas. Desfeita a caixa, esmagada pelo peso dos anos, gastas e dispersas as peças e as ferramentas que as juntavam, desaparecido o jogo nos confins da memória, não desapareceu, porém, esse prazer, essa vontade de juntar peças, inventar puzzles, montar edifícios, máquinas eficazes ou complexidades inoperantes, agora com as palavras. Mais além do que as construções estáticas que evocavam, e por vezes uma elementar acção dinâmica – lembro-me que podia construir uma grua porque existiam também roldanas, um fio e um gancho –, é com as palavras que consigo construir coisas mais robustas ou delicadas, fixas ou móveis, capazes de dar a volta ao Universo, coisas que permitem edificar cidades, criar mundos, viajar para todo o lado dentro e fora de mim. Continuo, pois, a brincar com aquele jogo, acrescentado de muitas e variadas formas, construindo, reconstruindo, empoleirando partes, equilibrando peças. É o que me permitem as palavras. E cada vez mais, à medida que vou aperfeiçoando as ferramentas, essas chaves de bocas que as colocam, acertam e apertam nos devidos lugares. Brincadeiras de miúdo, simplesmente. Quanto à loucura, vai saudável. Obrigado, mestre!
;)

Arre… inventei um vocábulo, ou uma palavra ó u camandro!!!
*SALPILHAVAM: dispersão de lojas chinesas pela paisagem do império imaginário conhecido por Portugal, com o intuito de extorsão subtil e persistente das moedas que sobram do exercício da nacional chulice dos bancos e do estado sobre os cidadãos do referido império imaginário.

O fobicoiso

Perguntou se eram pesadelos que o atormentavam ao que respondeu que não porque quase nem dormia. Sonhava às vezes, mas acordado. Via imagens de homens primitivos assustados que se afastavam da água com medo de nela submergirem e se afogarem, e que tinham medo do escuro. Um medo animal, visceral, intuitivo de quando ficavam mais vulneráveis às feras, aos predadores.
Também ele tinha medo do escuro, um medo que partilhava com esses homens primevos. E depois, era o silêncio, um silêncio impenetrável que os ruídos da rua, a melopeia da cidade, os gritos das crianças a caminho da escola, batiam nesse muro de silêncio que o envolvia e resvalavam para a sarjeta, uma sarjeta enorme de bocarra escura gradeada, jazendo lá em baixo, no fim da alameda.
Desperto, eram as memórias de outros medos. O medo de não suportar a carga de trabalho, o medo de perder o emprego, o medo de não ter dinheiro. E reflectia que, afinal apenas tinha medo de coisas que conhecia e não, como lhe fizeram crer durante tanto tempo, o medo do desconhecido.
Porque sentia aqueles medos? Seria por transportar em si um ideal de perfeição e excelência, a par, e em conflito com a consciência da sua mediocridade? E as coisas novas, as mudanças que o mantinham afastado do mundo exterior e recluso em si próprio, não constituiriam mais um medo, talvez emergente do receio de falhar? E não seria, isto, consequência de um orgulho desmedido, que o levava a estabelecer um padrão de comportamento inatingível para ele e para os outros?
Ali estava, no espelho, exactamente real, duplo: o homem que tem consciência e confessa os seus erros, as suas fraquezas, os seus medos, e o outro, o que os pratica e sente. Pois os dois não são o mesmo.
Mas ele sabia que Júlio César também tivera medo do escuro. Sabia que os psiquiatras identificavam tais fobias com transtornos emocionais, ansiedades provocadas pelo ritmo de vida anormal à natureza humana. A pressão da expectativa, a espera do amanhã e das respostas colocadas hoje. Estes, não eram medos racionais.
Ligou o telecérebro e pronunciou, em voz clara, a palavra “Fobia”. Logo o aparelho respondeu: - Fobia, é uma palavra de origem grega phobos que significa acção de horrorizar, amedrontar. É um estado de angústia que se traduz por uma violenta reacção em evitar o agente causador da fobia, e que sobrevêm de modo relativamente persistente, quando certos objectos ou situações têm lugar, são mencionados ou, simplesmente, imaginados.
Respirou fundo e fechou os olhos, ouvindo atentamente as palavras debitadas pelo aparato, esperançoso de que aquela explicação científica lhe removesse todos os medos que sabia infundados. Que aquelas palavras lhe apoiassem a razão. Que tudo aquilo desaparecesse de vez. E a voz modulada, tranquila e afável continuou: - Os medos são intensos e opressivos diante da situação ou objecto específico. A denominação das diversas fobias observa geralmente uma relação etimológica com as situações que as despoletam. As fobias específicas como a claustrofobia p. ex., começam no final da infância embora a agorafobia se forme mais frequentemente entre os 20 e 30 anos de idade. As fobias são medos desproporcionais diante de situações, objectos ou animais, que, geralmente, não causam efeitos semelhantes a outras pessoas. Para que exista uma fobia tem que se verificar uma série de requisitos; deve tratar-se de um medo desproporcional com respeito à situação que o provoca; a sua vítima procura evitar essa situação pois conhece os efeitos. Porém, o indivíduo possui consciência plena da irracionalidade do seu temor mas é incapaz de o controlar…
Bruscamente, desligou o telecérebro, horrorizado com o que acabara de ouvir. Correu para o guarda-roupa esgueirando-se para o seu interior e trancou as portas de tabuinhas trincadas. Ali, estava a salvo.


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Considerando que apenas sofro de fobia das alturas, não sei porque raio escrevi isto. Desconfio de uma obsessão relacionada com o título do blogue: pretensa necessidade de o justificar?!