Perguntou se eram pesadelos que o atormentavam ao que respondeu que não porque quase nem dormia. Sonhava às vezes, mas acordado. Via imagens de homens primitivos assustados que se afastavam da água com medo de nela submergirem e se afogarem, e que tinham medo do escuro. Um medo animal, visceral, intuitivo de quando ficavam mais vulneráveis às feras, aos predadores.
Também ele tinha medo do escuro, um medo que partilhava com esses homens primevos. E depois, era o silêncio, um silêncio impenetrável que os ruídos da rua, a melopeia da cidade, os gritos das crianças a caminho da escola, batiam nesse muro de silêncio que o envolvia e resvalavam para a sarjeta, uma sarjeta enorme de bocarra escura gradeada, jazendo lá em baixo, no fim da alameda.
Desperto, eram as memórias de outros medos. O medo de não suportar a carga de trabalho, o medo de perder o emprego, o medo de não ter dinheiro. E reflectia que, afinal apenas tinha medo de coisas que conhecia e não, como lhe fizeram crer durante tanto tempo, o medo do desconhecido.
Porque sentia aqueles medos? Seria por transportar em si um ideal de perfeição e excelência, a par, e em conflito com a consciência da sua mediocridade? E as coisas novas, as mudanças que o mantinham afastado do mundo exterior e recluso em si próprio, não constituiriam mais um medo, talvez emergente do receio de falhar? E não seria, isto, consequência de um orgulho desmedido, que o levava a estabelecer um padrão de comportamento inatingível para ele e para os outros?
Ali estava, no espelho, exactamente real, duplo: o homem que tem consciência e confessa os seus erros, as suas fraquezas, os seus medos, e o outro, o que os pratica e sente. Pois os dois não são o mesmo.
Mas ele sabia que Júlio César também tivera medo do escuro. Sabia que os psiquiatras identificavam tais fobias com transtornos emocionais, ansiedades provocadas pelo ritmo de vida anormal à natureza humana. A pressão da expectativa, a espera do amanhã e das respostas colocadas hoje. Estes, não eram medos racionais.
Ligou o telecérebro e pronunciou, em voz clara, a palavra “Fobia”. Logo o aparelho respondeu: - Fobia, é uma palavra de origem grega phobos que significa acção de horrorizar, amedrontar. É um estado de angústia que se traduz por uma violenta reacção em evitar o agente causador da fobia, e que sobrevêm de modo relativamente persistente, quando certos objectos ou situações têm lugar, são mencionados ou, simplesmente, imaginados.
Respirou fundo e fechou os olhos, ouvindo atentamente as palavras debitadas pelo aparato, esperançoso de que aquela explicação científica lhe removesse todos os medos que sabia infundados. Que aquelas palavras lhe apoiassem a razão. Que tudo aquilo desaparecesse de vez. E a voz modulada, tranquila e afável continuou: - Os medos são intensos e opressivos diante da situação ou objecto específico. A denominação das diversas fobias observa geralmente uma relação etimológica com as situações que as despoletam. As fobias específicas como a claustrofobia p. ex., começam no final da infância embora a agorafobia se forme mais frequentemente entre os 20 e 30 anos de idade. As fobias são medos desproporcionais diante de situações, objectos ou animais, que, geralmente, não causam efeitos semelhantes a outras pessoas. Para que exista uma fobia tem que se verificar uma série de requisitos; deve tratar-se de um medo desproporcional com respeito à situação que o provoca; a sua vítima procura evitar essa situação pois conhece os efeitos. Porém, o indivíduo possui consciência plena da irracionalidade do seu temor mas é incapaz de o controlar…
Bruscamente, desligou o telecérebro, horrorizado com o que acabara de ouvir. Correu para o guarda-roupa esgueirando-se para o seu interior e trancou as portas de tabuinhas trincadas. Ali, estava a salvo.
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Considerando que apenas sofro de fobia das alturas, não sei porque raio escrevi isto. Desconfio de uma obsessão relacionada com o título do blogue: pretensa necessidade de o justificar?!