Saudades da enfusa


Lembro-me, como se fosse anteontem, daquela enfusa com o corpo de barro escurecido pela humidade e uma pequena tábua na boca para evitar a entrada de insectos ou de algum escafelo caído das altas paredes da fábrica. Na calidez do estio, a meio da tarde, com a sonolência que pedia folga mediterrânica lutando com a música quase imperceptível da velha telefonia a válvulas, retirava cuidadosamente a tabuinha, escolhia o ângulo e a distância a que colocava a caneca e, inclinando a enfusa, despejava a água fresca. E quando inclinava a cabeça para deixar o refrescante fluido encher a boca e escorrer pela goela, admirava a enorme nave da fábrica de conservas com as suas traves metálicas e telhas de cimento e, cá em baixo, emolduradas pelas máquinas de azeitar, cravar e lavar latas, via o rectângulo de mulheres que repetiam as operações de preparar as cavalas ou as sardinhas cozidas; sentadas nos seus bancos corridos, de lenço branco na cabeça, ensimesmadas no trabalho e nas preocupações domésticas que a mente não deixava ao portão da entrada. Três ou mais vezes ao dia a operária a quem calhava esgotar a enfusa lá a levava à torneira para a voltar a encher. E quando se partia, de velhice ou acidente, provocava consternação geral, não obstante tratar-se dum utensílio barato que qualquer uma das mulheres se apressava a repor com outra adquirida no mercado semanal. Era assim nesses tempos, sem frigoríficos, nem garrafas com tampas para coleccionar, sem dispensadores automáticos nem garrafões de marcas publicitadas na TV e nos jornais. Apenas um recipiente de barro, matéria da terra que possui a propriedade de refrescar a temperatura da água, conferindo-lhe juntamente um ligeiro sabor característico. Era assim, com essa simplicidade, que vivia e morria a sede.
.

1 comentário:

Kruzes Kanhoto disse...

As coisas destas que eu parti...era um desastrado do caraças!