Os Espanhóis e Nós

Como bom algarvio dado às coisas da navegação descobri, na internet, uma página espanhola onde um dos autores discorre sobre o relacionamento entre os dois países ibéricos. Sendo assunto actual e, especialmente, pela acutilância do ponto de vista expresso, decidi inserir aqui o link do artigo (clicar no título).


Uma chamada de atenção, porém, para um facto cronológico relativo à Restauração da Independência: Embora para nós a data referencial seja 1640, para a historiografia espanhola apenas 1668 representa a data da efectiva cisão Ibérica, pois é nesse ano que é firmada a paz entre os dois reinos. Aliás, até 1665 (Batalha de Montes Claros - Alentejo) a Espanha tentou sempre retorquir pela força ao acto de restauração da independência e recuperar a coroa portuguesa. A referência ao ano de 1660, a que o autor alude, repetidamente, bem exemplifica a extensão desse cancro (generalizado a todos os nacionalismos) que é a manipulação historiográfica, que ele também denuncia.

recordações da Câmara Escura

Meia dúzia de passes

Tínhamos a sede do Centro de Estudos Subterrâneos (então, chamava-se GIAE – Grupo de Investigação Arqueológica e Espeleológica, inspirado pelo CIES de Coimbra, no distante ano de 1977), a funcionar no laboratório de processamento fotográfico do Estúdio CS. Ocupávamos a sala maior, de entrada. No interior, em dois compartimentos distintos, funcionavam os laboratórios de P&B e cor. Não pagávamos qualquer renda, pois contávamos com este desinteressado apoio do Mário Santos e do Bernardino, sócios, e fotógrafos dessa casa comercial estabelecida em pleno centro da cidade de Lagos.
Por vezes, como deferência para com tais facilidades concedidas (não só as instalações, como as muitas boleias para as grutas), eu ficava no laboratório a imprimir e revelar os passes. Noutras, tendo esse serviço já feito, ficava a esmaltar enquanto o Mário almoçava, em alturas em que o Bernardino andava pelos casamentos ou outras reportagens. Afinal, eu apenas seguia, e repetia, os passos do Carlos, o Presidente do grupo de espeleologia que, anos antes, assim fizera também. Agora, impossibilitado pelos estudos de medicina, em Lisboa.
É Verão de 79. Na obscuridade fresca do laboratório, à pálida luz avermelhada, de segurança, com os dedos mergulhados no líquido viscoso, faço dançar os rostos “espreitantes” dos quadradinhos de papel. E a mente vagueia por aí, à deriva, errante, como o percurso da morena de olhos brilhantes que retiro com cuidado do revelador e mergulho na tina de água que serve de banho de paragem. Um Óóóiiiiii... interrogativo, proveniente da entrada, desperta-me daquela catarse hipnotizante. É o Mário que vem da loja e vai para casa, almoçar: - Lianito, atão, tá tudo bem? Introduz-se, afastando o reposteiro negro e o pano rubro escurecido pela (suj)idade.
-Tá! Respondo. - Quer dizer que daqui a uma horinha tá tudo na esmaltadeira? Inquire ele.
...
São estas recordações de pedaços de tempo perdidos (ou encontrados) no negrume do laboratório, e outras, como quando mirava atentamente e aprendia como jogam as cabeças de luz com o fundo e, entre elas, como posicionar os difusores e sobretudo, aquela insistência, aquela ordem repetida vezes sem conta: - Endireite as costas! - Olhe para aqui! – Aqui... para a minha mão! (a mão esquerda, fechada e curvada, fazendo um bico com os dedos, que ele colocava sobre a Linhoff ). Então, o Márinho empurrava o disparador, e o clarão cegava-me, momentaneamente.
...
Nesses tempos racionalizava pouco do que via e aprendia, era a idade do desprendimento, da irresponsabilidade. Aquela idade em que temos a certeza de que as coisas hão-de vir ter connosco e não são necessários esforços ou preocupações acessórias. O que tivesse que acontecer aconteceria, mais tarde ou mais cedo.
De vez em quando pegava numa máquina, a Pentax Spotmatic ou a Rollei de formato 120, enfiava-lhe um rolo e ia passear pela cidade, à procura não sei de quê. Invariavelmente, seguia o caminho junto ao rio, próximo dos barcos, e disparava.
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A luz verde era um bluff, nunca consegui ver mais do que uma ténue amálgama leitosa e viscosa na superfície do rolo acabado de puxar do interior da tina vertical, qual serpente silenciosa a sair do buraco: - Tás a ver? Ainda não está bom. – Pois! Respondia eu, sem ver ponta de corno do filme que ele segurava nas mãos, a uns 20 cm da suposta “luz” verde.
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o Durst 7700 era um ampliador magnífico. Sentava-me no banco de tasca (daqueles de madeira, com um buraco ao centro para enfiar o dedo) e puxava a cabeça do ampliador agarrando nos dois punhos laterais, parecia um periscópio de um submarino. E como eu adorava aquela caixa de filtros, cheia de botões de afinação. Claro que nesses momentos de imaginação adolescente olhava de soslaio para o fundo da sala, não fosse abrir-se alguma tampa dos tanques de banho-maria da bancada de revelação cores e sair de lá um ser marinho ou, até, extraterrestre. Sim, porque às vezes o submarino transformava-se em nave espacial. A obscuridade é reveladora!
...
-Não estão prontas? - Então disse-me que estavam hoje à tarde! Esgrimia a mulher ao Márinho, escudado no balcão, dando voltas à manivela da registadora, fingindo-se ocupado: - Amanhã é que estão! Tivemos um problema com a electricidade. Faltou a luz no laboratório… foi problema na central eléctrica. Eu, passeava os olhos pelo material fotográfico da montra, como se não fosse nada comigo.
Falha eléctrica, uma merda! Esquecera-me das fotos da senhora dentro da esmaltadeira, porque me entretivera a enrolar umas escadas Pierre-Alain (tipo daquelas do circo). Afinal era ali a sede dos estudos subterrâneos. Quando, finalmente, me cheirou a coisa ruim, rodei a manivela do tambor espelhado mas já não fui a tempo para acudir aos “torrados” 6 passes.
F. Castelo

Droga de Vida

Quando eu era pequeno, o Joe quis oferecer rebuçados holandeses, de aspecto suspeito, ao Paulinho. A vizinha Maria vendo aquilo, gritou, do quintal para a rua, que um estrangeiro estava a dar "rabeçades endrogados" aos moços pequenos. O Joe, intimidado pela gritaria daquele rosto rechonchudo e vermelhaço de irritação, esgueirou-se com o rebuçado preto na mão e, no rosto, um sorriso idiota, de "espreita" apanhado em flagrante. Quem diria! Aquele coiso redondo e parecido com um botão de macaco azul de serralheiro era um rebuçado com droga! O Joe virou à esquerda e esgueirou-se para o hotel, temeroso de alguma naifada de pai solícito, receio provocado pela miscelânea de preconceitos em que os nórdicos arrumam, na mesma prateleira mental: latinos; latino-americanos; ciganos; negros; índios e eteceteras de raça indefinida.
Nós, os moços, estávamos impressionados, demasiado excitados para continuarmos a brincar com carrinhos de lata à sombra da bagageira do velho Taunus. Quase fôramos vítimas de sequestro, ou suborno, ou outra treta qualquer, por parte de um estrangeiro. Raptados, imaginem! - raptados era uma boa tese, permitia-nos imaginar outras paragens, situações excitantes como nas aventuras d'Os Cinco. Imaginávamos, e a imaginação era boa. E a imaginação era a realidade. Ah...putos dum raio, penso hoje, à distância. E a vizinha Maria, agora à porta de casa, equilibrando os seus oitenta quilos de sabedoria na soleira de mármore rachado, dizia: - Vocês não aceitem coisas desta gente, ouviram?
Uns dias depois já conhecíamos o Joe que passava ali pela rua sempre a sorrir. Não lhe ligávamos muito, porque nos destruíra a emoção de um rapto, e os rebuçados, se não tinham droga, tinham outra caca qualquer que sabia a xarope para a tosse. Nem eram doces! E ainda por cima eram "emborrachados" como os supositórios. Que os metesse no c...!
Mais tarde, bastante mais tarde, em vésperas de ir para a tropa, andávamos todos "ganzados" com os charros de haxixe ou de óleo (porque a erva escasseava), e repudiávamos os poucos exemplos de consumo e consumidores de droga (das drogas duras), que conhecíamos.
Lembro-me que nos tempos da Secundária, um dia o S. levou uma seringa e um ampola de uma coisa qualquer e disse tratar-se de anfetaminas. Foi um gozo. A sacola foi jogada de mão em mão e acabou no chão, com todos a dançarem em cima. Éramos muito puritanos. Quer dizer, éramos mais do tipo conservador: ou fumas uns charros, ou tás quieto e não te metes em nada! Logo a seguir à tropa a malta voltou com as ideias mais aconchegadas e sentimos uma certa apreensão ao ver putos de doze e treze anos a injectarem, à noite, na rua.
As vidas têm uma corda que as puxam, invariavelmente, pelos caminhos antes percorridos por outras gerações, que é como quem diz: os dias sucedem-se às noites e estas, àqueles. E, de repente, damos conta que temos filhos, um clube de futebol ou recreativo, um computador, a tv cabo e que, na rua (e não só à noite), as coisas mudaram radicalmente. Onde ficaram aqueles rituais do xilom de água? Onde estão os jovens de olhos vivazes e alegria ampliada pela "pedra", os fumadores dos impressionantes "canhões" ou dos tradicionais "charros"?
As coisas mudaram completamente. As drogas de hoje são verdadeiramente drogas, capazes até, desconfio, de exterminarem algumas pragas de escaravelhos ou outros insectos pseudo-nocivos. Hoje, os apanhados pelo "pó" andam inchados como o peixe balão que está no Museu. O olhar já não é vivaço, os olhos parecem lanternas de arrumador de cinema, iluminados por lâmpadas de quatro volts e meio, das pequeninas. Da alegria, não sei.
Hoje, estas drogas matam rapidamente, no entanto os condenados ainda têm tempo para satisfazer algumas últimas vontades em liberdade (aparente, claro): subtrair uns auto-rádios; assaltar residências da vizinhança, tesourarias das escolas e Juntas de Freguesia; enfermarias dos postos médicos, etc. Só depois é que morrem! Normalmente sem grande estrilho mas, quando pensamos nas trajectórias das suas vidas, a idade com que desaparecem, as mutilações infligidas no seio da família, surgem então as interrogações.
E começamos, assim, a preocupar-nos com o rumo que as coisas levam. E tomamos uma atitude! Quer dizer, alguns tomam atitudes, outros tomam bicas e analisam o assunto e, outros ainda, tomam bicas, tomam notas, e escrevem prosas sobre o assunto. Então e as soluções? Pois é! Estas não vêm na última página de nenhum manual, nem tão pouco serão reveladas no final da aula. Alguém tem ideias? ESTÁ AÍ ALGUÉM? E agora desculpem lá, mas vou fazer o mesmo que vocês. Enfio os chinelos, reles imitação de ourela, comprados na loja dos 300 (mas custaram mil), afundo-me no cadeirão confortável, cruzo os braços e rendo homenagem ao Big Brother!

F.Castelo/2000

se este não foi o primeiro post, terá sido um dos primeiros

290 lugares, 80 pessoas. Aos 20 minutos ouviu-se um incerto protesto e saiu a primeira pessoa. O "ponto" imaginário murmura: - Estátua! E logo o dançarino se imobiliza, reincide a cena...ibidem...outra vez...assisto, incrédulo, a um espectáculo "feito de encomenda" para fotografar (e só tenho a digital!), disparo...irrespirando...escuto as incomodidades das cadeiras (ou do espectáculo) nos cús irrequietos...


...e eu sem uma 135! E o espectáculo a prosseguir devagar... devagarinho. Como quem hesita, o dançarino "passeia" pelo palco...ao ritmo do pigarrear de umas gargantas apertadas, lá para o meio da assistência. Com meia hora de lentos volteios, a dança perde o seu segundo espectador. O dançarino, esse, constrói poses de deslumbrante efeito plástico, moldando o corpo no contorno das sombras, e dos sons.




A dança continua mas, agora o som avança e a luz recua para 1 obscuridade que não revela, logo, os reparos em que vem o artista. Estrebucham os de cá, por não compreenderem o de lá. Solta-se uma voz em despeitado desabafo de ininteligível mensagem. Eu, dividido entre permanecer acoitado na plateia ou correr 400m até à Câmara e agarrar a Canon, atendi aos 100kg que calam mais fundo e continuei-me por ali. Acariciei a Olympus, deslizando o indicador pelas curvas superiores até ao gatilho do zoom. Afinal, era com ela que estava, para quê pensar noutras? A soirée dançante escorregava para o clímax e eu não o sabia...


Movimento...at last! A descoragem afoga os impropérios na mescla da génese vocal e, paridos por bocas medrosas logo se esborracham no chão, sem eco, sem história, sem transmissão. Apenas um ignoto mal-estar trespassa o ambiente. - Mas, ele só tem aquele avental? perguntou um murmúrio claro. E a miúda da cochia da 6ªfila, estupefacta (estúpida de facto?) pergunta à mãe, ou tia: - O homem está nú? A pergunta fez ricochete na esquerda baixa, junto à porta de serviço, atingindo todos, no ir à Cafetaria, no fim (porque tanta força mental exige recarga!). Eu, fico-me, digitalmente apático. Afinal tive todo o tempo espreitando pela janelinha, longe. Apenas, testemunha!

Inserido em Mar.2002 no site colectivo foto@pt