Deve o nome a um dos locais onde foram encontrados numerosos testemunhos da sua “cultura”, o vale do rio Neander, na Alemanha. O homo sapiens neandertalhensis é mais encorpado que o homem actual, mais baixo e musculoso. O indivíduo em questão, de idade oculta por farta cabeleira e barba espessa castanha, muito escura, encontra-se agachado no interior da lapa da Sabrosa (pequena gruta calcária situada a NE de Bensafrim – Lagos). Lentamente, deposita um a um, uma pequena colecção de fósseis - desses rolados, que ainda hoje se apanham na praia do Porto de Mós, na maré baixa - junto ao cadáver aí recentemente colocado, e que com a meia centena de conchas de pecten maximus (vieira), e um machado de pedra com gume resultante de duas faces afeiçoadas (biface Mustierense), constituem as oferendas rituais feitas ao defunto. O corpo inerte, magro, de um homem com cerca de trinta anos, um “velho”, parcialmente coberto por ocre vermelho, está deitado no chão, com o lado direito encostado à parede da gruta; as pernas, um pouco flectidas, descansam sobre uma estalagmite cónica, baixa e larga. A posição, não sendo a melhor, é a possível devido à exiguidade da caverna. Esta parte da cavidade não será acessível nos nossos dias, resultado de uma obstrução litogénica* ocorrida alguns milénios mais tarde.
Embora a cena se desenrole no interior de uma cavidade natural, esta não serve de habitação, senão de abrigo esporádico durante alguma tempestade mais temerosa ou quando os paquidermes se aproximam do local ocupado pelo clã, na planície vizinha.
Este quadro desenrola-se num passado distante, com mais de 30 mil anos, na região do continente europeu que terá assistido à extinção dos últimos homens de Neandertal, que provavelmente terão coexistido, na sua fase final, com o homo sapiens sapiens.
Do atrás relatado facilmente se conclui que ao Homem de Neandertal, coleccionador de objectos bizarros (fósseis p. ex.) e detentor de um comportamento espiritual (rituais funerários), não pode corresponder essa imagem de troglodita abrutalhado que arrasta a fêmea pelos cabelos e tudo resolve à mocada; ideias erradamente propaladas pelos ideais românticos do século XIX e intensamente exploradas pela cultura contemporânea do “fast-food/fast-symbol”.
Em homenagem ao “Neandertal”. Um simples humano que por cá passou.
obstrução litogénica* - obstrução provocada por crescimento de concreções (acção fisico-química fundada no ciclo hidrogenocarbonato de cálcio/calcite) ou acção mecânica da própria estrutura rochosa (abatimento estrutural). No texto original, escrito em 1996, referíamos uma obstrução clástica mas, devido à morfologia do terreno e ao conteúdo ficcional do texto relativo à inacessibilidade dessa parte da gruta nos nossos dias, entendemos, posteriormente, alterar a natureza desta obstrução.
F.Castelo, 1998
Embora a cena se desenrole no interior de uma cavidade natural, esta não serve de habitação, senão de abrigo esporádico durante alguma tempestade mais temerosa ou quando os paquidermes se aproximam do local ocupado pelo clã, na planície vizinha.
Este quadro desenrola-se num passado distante, com mais de 30 mil anos, na região do continente europeu que terá assistido à extinção dos últimos homens de Neandertal, que provavelmente terão coexistido, na sua fase final, com o homo sapiens sapiens.
Do atrás relatado facilmente se conclui que ao Homem de Neandertal, coleccionador de objectos bizarros (fósseis p. ex.) e detentor de um comportamento espiritual (rituais funerários), não pode corresponder essa imagem de troglodita abrutalhado que arrasta a fêmea pelos cabelos e tudo resolve à mocada; ideias erradamente propaladas pelos ideais românticos do século XIX e intensamente exploradas pela cultura contemporânea do “fast-food/fast-symbol”.
Em homenagem ao “Neandertal”. Um simples humano que por cá passou.
obstrução litogénica* - obstrução provocada por crescimento de concreções (acção fisico-química fundada no ciclo hidrogenocarbonato de cálcio/calcite) ou acção mecânica da própria estrutura rochosa (abatimento estrutural). No texto original, escrito em 1996, referíamos uma obstrução clástica mas, devido à morfologia do terreno e ao conteúdo ficcional do texto relativo à inacessibilidade dessa parte da gruta nos nossos dias, entendemos, posteriormente, alterar a natureza desta obstrução.
F.Castelo, 1998


...e eu sem uma 135! E o espectáculo a prosseguir devagar... devagarinho. Como quem hesita, o dançarino "passeia" pelo palco...ao ritmo do pigarrear de umas gargantas apertadas, lá para o meio da assistência. Com meia hora de lentos volteios, a dança perde o seu segundo espectador. O dançarino, esse, constrói poses de deslumbrante efeito plástico, moldando o corpo no contorno das sombras, e dos sons.
A dança continua mas, agora o som avança e a luz recua para 1 obscuridade que não revela, logo, os reparos em que vem o artista. Estrebucham os de cá, por não compreenderem o de lá. Solta-se uma voz em despeitado desabafo de ininteligível mensagem. Eu, dividido entre permanecer acoitado na plateia ou correr 400m até à Câmara e agarrar a Canon, atendi aos 100kg que calam mais fundo e continuei-me por ali. Acariciei a Olympus, deslizando o indicador pelas curvas superiores até ao gatilho do zoom. Afinal, era com ela que estava, para quê pensar noutras? A soirée dançante escorregava para o clímax e eu não o sabia...
Movimento...at last! A descoragem afoga os impropérios na mescla da génese vocal e, paridos por bocas medrosas logo se esborracham no chão, sem eco, sem história, sem transmissão. Apenas um ignoto mal-estar trespassa o ambiente. - Mas, ele só tem aquele avental? perguntou um murmúrio claro. E a miúda da cochia da 6ªfila, estupefacta (estúpida de facto?) pergunta à mãe, ou tia: - O homem está nú? A pergunta fez ricochete na esquerda baixa, junto à porta de serviço, atingindo todos, no ir à Cafetaria, no fim (porque tanta força mental exige recarga!). Eu, fico-me, digitalmente apático. Afinal tive todo o tempo espreitando pela janelinha, longe. Apenas, testemunha!