porque escrevo?

Muitas vezes me questiono acerca daquilo que motiva o processo de escrever. O que leva alguém a construir contos, histórias, romances, de carácter mais ou menos biográfico ou de pura ficção. Será a necessidade de comunicar, de contar aos outros algo que julgamos importante?

Ora sempre foi a ausência dessa necessidade que me impediu de publicar o pouco que escrevo. E que porventura me inibiu de escrever mais (e logo, melhor, por via da prática). Na realidade nunca tinha sentido com clareza esse chamamento, essa necessidade. A escrita nunca foi, para mim, mais do que um exercício disciplinador e ordenador das ideias e também nunca terá pretendido mais do que imitar o exemplo de escritores que produziram textos que me tocaram especialmente, incentivado portanto pela beleza dessas obras.

Então, porque escrevo? O que me impele a escrever é o facto de gostar de contar histórias pois antes de mais gosto de conversar, de ouvir e de contar histórias. Mas também desconfio que escrevo porque tu existes e sinto essa necessidade de te escrever. A ti, hipotético leitor. Alguém que, prenuncio, exista e seja o meu leitor sintonizado.

Ou será que escrevo para mim próprio? Pode a escrita ser como a Fotografia? Serão as palavras escritas como que uma fotografia da mente, do que se pensou, imaginou ou sentiu? Pode não interessar a ninguém senão ao próprio, que lê o que escreveu e relembra as suas vivências. Eis a escrita como um acto de solidão espiritual, um monólogo ou, por outro lado, um grito de revolta contra essa mesma solidão a que o escritor se rende, sem esperança de interlocutor.

Escrever pode ser uma forma de canalizar um grande caudal de água que brota incessantemente e que sem ser dirigida para uma saída rebenta com o reservatório que a pretende conter. Escrever pode, portanto, ser uma terapia! Como quando escrevo para burilar esteticamente as estranhas forças que me povoam e para sublimar este ímpeto criativo e dar voz ao turbilhão que sinto em mim. Mas também o faço porque descobri que poucas coisas me dão tanto prazer na vida.

Infelizmente, não produzo mais do que uma escrita simples e mais ou menos límpida, carente de enriquecimento a vários níveis. Mas entendo que para se alcançar uma produção literária de nível aceitável é necessário ler e escrever muito, insistir e ir melhorando. É o que tento fazer.

E agora sinto chegar o momento de tentar contar uma história ficcionada. Tenho consciência de que na escrita uma realidade pode prolongar-se involuntariamente em ficção ou uma ficção pode ganhar estatuto de coisa real. Porém, essa fusão entre verdadeiro e fictício não me perturba. A liberdade de recriar o real misturando-o com o imaginário é, de todo, lícita. Por aí sigo, num exercício de construção literária que, se mais não alcançar, será uma experiência enriquecedora para quem tanta importância atribui ao acto de escrever.

“O que é mais difícil não é escrever muito; é dizer tudo, escrevendo pouco” (Júlio Dantas)

Os textos deste gajo são de antologia

“A hipertextualidade da linguagem fotográfica corresponde a uma esotérica metamorfose do sujeito, organizada pelo princípio dialético da negatividade positiva e da positividade negativa. O sujeito fotográfico F. Castelo é uma mediação em processo, uma figura tipológica e topológica em devir. A visão fenomenológica da essencialidade da sua formação cultural não obnubila a visão da sua transcendentalidade denotativo-fotográfica. Ao interceptar os círculos da responsabilidade e da evidência denotativa/conotativa, da fidelidade e da autenticidade, o testemunho tende a suprimir toda a mediação.”

Professor Doutor Armindo de Jesus
Instituto Superior de Fotografia

hoje não há gravuras*


Gur-Gur e DaMog discutiam à sombra do enorme rochedo. Para Gur-Gur, desejoso de ensaiar a sua veia artística, aquela era a oportunidade esperada. Desejava ardentemente imitar os outros homens da tribo. “Expor” as imagens mágicas que a rocha cinzenta encerra. À cintura, enfiado numa faixa de pele de cabra, preparado, está o pico de pedra, uma das mãos segura um imponente fémur de urso, qual moca de combate, a outra mão desenha gravuras imaginárias no ar, enquanto argumenta com o mais velho. DaMog é que não está para isso. O velho, espécie de chefe da tribo, entende que não vale a pena perder tempo, os muitos dias necessários para gravar as imagens mágicas na pedra. Sabiam lá onde é que os seus quinquilhanetos decidiriam construir a barragem a que haveriam de chamar Bravura? Para quê tanto trabalho, então? Para depois as imagens ficarem submersas no fundo da represa, e os espíritos aí aprisionados? Não. Primeiro construíssem a bendita barragem, depois logo se veria onde gravar as evocações dos espíritos do veado e do urso, do tigre e do lobo, da fecundidade e da fertilidade, e os geometrismos mágicos, os heliocêntricos símbolos da vida. Assim decidira. Perto, alheios a esta discussão, homens acocorados em círculo separam lascas, trabalhando com punções de osso, sobre núcleos de sílex, donde resultam sugestivas pontas de lança em forma de folha de loureiro. Gur-Gur lançou um último olhar para o outro lado do vale, em direcção ao afloramento rochoso e, voltando-se para Norte, começou a caminhar para os campos de caça. Ao fundo, a algumas léguas de distância, enorme e dominadora, vestida de densa e rica vegetação, e coroada com um aro de neblina no topo, a montanha a que mais tarde viríamos a chamar de serra de Monchique, assiste silenciosa. Não era desta vez, ainda, que iria participar na Ourquema, o ritual de representação dos espíritos. Resignado, silencioso e lesto, afagando os laços de caça dobrados sobre o ombro esquerdo; seguro, no fémur de urso que Vaco, o irmão mais velho, lhe oferecera dias antes, e que lhe prolonga o braço direito, assim, ameaçador, Gur-Gur caminha. Talvez apanhe um veado. Quinze mil anos passaram para que pudéssemos descrever a resignação de Gur-Gur, filho de Laot-Gur, habitante do território que hoje corresponde ao concelho de Lagos. Gravar na Rocha, talvez noutra oportunidade.

* Escrito e publicado em meados de 1995, em plena "Batalha do Côa". Em síntese, e para aqueles que não sabem do que falamos:

"
As gravuras não sabem nadar"
Como nunca tinha acontecido em Portugal, multiplicam-se acções cívicas para salvar as gravuras da submersão, que leva um jornalista a falar de gravuras "da consciência cívica". A acção dos arqueólogos é seguida de perto pelos estudantes que se organizam em associações para a defesa das gravuras: "Côa Vivo", Associação Juvenil Olho Vivo, "Movimento de salvaguarda da Arte do Côa", "Associação para a Defesa das Gravuras Rupestres do Foz Côa", constituída essencialmente por estudantes da Escola Secundária de Vila Nova de Foz Côa, a quem devemos o famoso slogan: "As gravuras não sabem nadar". Eles recebem o Presidente da República, que acaba por ir ver as gravuras em Fevereiro 95, pronunciando-se a favor da sua preservação. A organização de um "mega-acampamento" de jovens de todo o país em Vila Nova Foz Côa, em Abril 95, é o auge desse movimento juvenil a favor da arte do Côa. Organizam-se debates públicos sobre o tema em Lisboa e em Braga, onde a audiência de arqueólogos, historiadores e estudantes é aumentada pela presença de "cidadãos comuns". Multiplicam-se nesse ano artigos de opinião de pessoas oriundas dos mais variados horizontes, cujos autores defendem, na maioria, a preservação das gravuras.
Um "happy end" - Perante tanta resistência por parte da opinião pública, o Governo de Aníbal Cavaco Silva acaba por não tomar nenhuma decisão antes da eleições de Outubro 95. O recém-eleito primeiro-ministro, António Guterres, anuncia a suspensão das obras da barragem logo no primeiro dia de debate do programa do Governo no Parlamento. No final de 95, o projecto de barragem é definitivamente suspenso.
in http://www.uc.pt/fozcoa/batalha.html#nadar

O Neandertal


Deve o nome a um dos locais onde foram encontrados numerosos testemunhos da sua “cultura”, o vale do rio Neander, na Alemanha. O homo sapiens neandertalhensis é mais encorpado que o homem actual, mais baixo e musculoso. O indivíduo em questão, de idade oculta por farta cabeleira e barba espessa castanha, muito escura, encontra-se agachado no interior da lapa da Sabrosa (pequena gruta calcária situada a NE de Bensafrim – Lagos). Lentamente, deposita um a um, uma pequena colecção de fósseis - desses rolados, que ainda hoje se apanham na praia do Porto de Mós, na maré baixa - junto ao cadáver aí recentemente colocado, e que com a meia centena de conchas de pecten maximus (vieira), e um machado de pedra com gume resultante de duas faces afeiçoadas (biface Mustierense), constituem as oferendas rituais feitas ao defunto. O corpo inerte, magro, de um homem com cerca de trinta anos, um “velho”, parcialmente coberto por ocre vermelho, está deitado no chão, com o lado direito encostado à parede da gruta; as pernas, um pouco flectidas, descansam sobre uma estalagmite cónica, baixa e larga. A posição, não sendo a melhor, é a possível devido à exiguidade da caverna. Esta parte da cavidade não será acessível nos nossos dias, resultado de uma obstrução litogénica* ocorrida alguns milénios mais tarde.
Embora a cena se desenrole no interior de uma cavidade natural, esta não serve de habitação, senão de abrigo esporádico durante alguma tempestade mais temerosa ou quando os paquidermes se aproximam do local ocupado pelo clã, na planície vizinha.
Este quadro desenrola-se num passado distante, com mais de 30 mil anos, na região do continente europeu que terá assistido à extinção dos últimos homens de Neandertal, que provavelmente terão coexistido, na sua fase final, com o homo sapiens sapiens.
Do atrás relatado facilmente se conclui que ao Homem de Neandertal, coleccionador de objectos bizarros (fósseis p. ex.) e detentor de um comportamento espiritual (rituais funerários), não pode corresponder essa imagem de troglodita abrutalhado que arrasta a fêmea pelos cabelos e tudo resolve à mocada; ideias erradamente propaladas pelos ideais românticos do século XIX e intensamente exploradas pela cultura contemporânea do “fast-food/fast-symbol”.
Em homenagem ao “Neandertal”. Um simples humano que por cá passou.


obstrução litogénica* - obstrução provocada por crescimento de concreções (acção fisico-química fundada no ciclo hidrogenocarbonato de cálcio/calcite) ou acção mecânica da própria estrutura rochosa (abatimento estrutural). No texto original, escrito em 1996, referíamos uma obstrução clástica mas, devido à morfologia do terreno e ao conteúdo ficcional do texto relativo à inacessibilidade dessa parte da gruta nos nossos dias, entendemos, posteriormente, alterar a natureza desta obstrução.

F.Castelo, 1998

Um momento do Plistocénico


Há cerca de um milhão de anos nas cercanias desta terra a que hoje chamamos Lagos, um grupo de proto-humanos (daqueles a que haveríamos de chamar homo erectus ou “senhores do fogo”) espreitam por entre as ramagens baixas a manada de javalis que se rebolam nas margens do lago, soltando grunhidos de satisfação. Na mesma margem, mais adiante, um macho corpulento de presas magníficas foça na lama, talvez em busca de sementes dispersas.
Lentamente, um a um, de joelhos e cotovelos apoiados no chão, os “homens” vão avançando para uma posição frontal ao vento, descrevendo um arco de círculo que os aproxima da caça. Um ronco grave traça a quietude da paisagem. De cabeça baixa e olhar atento, perscrutando os ruídos da savana, o macho isolado volta-se na direcção dos “homens”, talvez denunciados por um descuidado agitar de folhagem. Tarde demais, a um salto o grupo alcança a manada e, de maxilas de veado em punho uns, outros erguendo seixos toscamente talhados, desferem golpes à direita e à esquerda, certeiros o suficiente para fazer jorrar o sangue quente das cabeças, gargantas e ventres. Alguns dos suínos que se encontram mais afastados fogem, avisados pelos grunhidos furiosos do dominante. Os caçadores, esses, já não saem dali até satisfazerem o seu apetite e saciarem a fome. Enquanto uns sugam o sangue que brota dos corpos escuros, outros já penetraram o crânio com a pedra pontiaguda e deliciam-se com as mioleiras alvas e macias.
Agora, já perto do crepúsculo, os únicos ruídos saem das bocas gulosas, do rasgar e trincar primeiro, depois os suspiros de satisfação e saciedade.
Ténue, e quase imperceptível, brame um auroque, lá longe na orla da savana.
O sol mergulha no horizonte, e a noite ergue-se inquietante. Os “homens”, agora em pausa, olham em redor e ensaiam, no seu interior, o pavor da escuridão que se aproxima, e com ela os rugidos dos grandes felinos.
Ao longe soam brados de quem chama insistentemente. Um dos caçadores, de pé, com um enorme semi-maxilar de veado numa mão e uma perna de javali na outra, meneia a cabeça e exclama algo. Os outros levantam-se de imediato e o grupo inicia uma caminhada pesada e cautelosa, de regresso à gruta que abriga o clã.


F. Castelo, 1998

Desencontros


No princípio era o verbo…
…na forma de uma epístola poética.
Poesia que dava conta do meu estado de espírito e de um intenso sentir. Um sentir incómodo, pois provinha de um sentimento inconsequente e irrealizável.

Revelei-o. E esse foi o meu primeiro erro.
Parti do princípio que ela reagiria a essa revelação como uma mulher da minha idade. Que idiotice a minha. Afinal era apenas uma jovem com pouco mais de metade da minha idade, como poderia alguma vez entender a singularidade do que lhe pedia?!

Coloquei-a num pedestal, chamei-lhe deusa e dediquei-lhe dezenas de poemas.
Compreensivelmente encantada com a produção poética e com o facto de ter sido eleita musa da arte de Orfeu foi aceitando, sem manifestação de rejeição, essa minha atenção. Até porque lhe reiterava constantemente o meu propósito objectivo, e único, o de construir uma amizade.

A adopção desse objectivo não era mais do que uma estratégia que visava a sublimação de um sentir que eu, lucidamente, encarava como total e completamente irrealizável. Mas passível de se sublimar na amizade. Essa amizade se encarregaria de, paulatinamente, impor ao domínio sentimental os libelos da razão. E de uma forma menos penosa do que qualquer outra opção terapêutica para o meu acidente emocional. Nisto acreditava eu.

Mas, de repente, sobreveio o afastamento. Ela afastou-me. Fê-lo através do silêncio. E essa data, a do início do afastamento, coincidindo com acções aleivosas de terceira pessoa sobre mim, aparentemente estranha a nós, conduziu-me, algum tempo depois, a considerar existir alguma relação entre ela e a pessoa que cometeu esses hediondos actos (houve outras coincidências e factos que concorreram também para a fundamentação desta suspeita). E daí ter ela optado pelo afastamento e pelo silêncio total?!

Questionei-a. E insisti, mas nunca obtive qualquer resposta. Atarantado pelo desconhecimento da razão da sua atitude, imaginei os mais improváveis cenários e testei as mais ridículas hipóteses, que revelaram apenas isso: que se tratavam de suposições erróneas.
A insistência cresceu, avivada pelas conjecturas que a ausência de diálogo permitiu, e promoveu, e rapidamente se transformou em perturbante incómodo para ela.

Mas, porque insistia eu?
Porque estava convicto de que ela me afastara em resultado de se sentir incomodada pela possibilidade de se ver associada à acção dessa terceira pessoa, pois tratava-se de uma atitude infame. Assim sugeriam os indícios. Porém, nunca acreditei, nem acredito, que tal acção tivesse contado quer com a participação activa dela, quer com o seu consentimento ou até mesmo com o seu conhecimento prévio.

E assim, achava eu injusto que, devido a uma acção perpetrada por terceiro, se comprometesse a relação de amizade que eu pretendia e desejava e em que estava decididamente empenhado com toda a minha sinceridade.

Depois, pratiquei e acumulei erros, primeiro com a continuada insistência em procurá-la para o diálogo que tanto desejava, e depois com provocaçõezinhas baseadas em exercícios de lógica, especulações e deduções elementares, tudo isto para a suscitar ao diálogo.

Claro que nada disto resultou. Recolhida na sua concha, comprometida com supostos e, porventura, rocambolescos protagonismos (saídos da minha dedução ou, mais provavelmente, da minha imaginação), ou desconfiando da possibilidade de ainda me animarem forças geradas no fogo sentimental, e hesitante na atitude a tomar em função disso, o certo é que ela esquivou-se peremptoriamente ao contacto comigo.

Por fim, a razão da minha insistência em falar com ela já não residia na necessidade de esclarecer a razão do afastamento, mas sim no imenso incómodo que me atormentava por não saber o que pensaria ela de mim, em consequência do desenrolar dos acontecimentos. Convicto de que ela tinha construído uma ideia errada, e injusta, a meu respeito, tal imagem tornava-se insuportavelmente torturante.

Numa primeira fase, quanto mais ela se esquivava mais eu suspeitava de que o fazia para ocultar algo relacionado com as conjecturas que lhe expusera. Agora, quanto mais eu insistia, mais a incomodava e mais ela acreditaria numa eventual paranóia, da minha parte. E quanto mais isto acontecia, mais incomodado eu ficava, e mais revoltado com o facto de ela não aceitar que uma simples conversa resolveria tudo. Conversa a dois, ou conversa com algum/a amigo/a presente. Tanto se me dava.

Daí, até considerar pérfida a atitude dela, foi um passo. Agora juntava à minha mágoa, a perfídia dela. E no entanto, não acreditava que ela fosse uma pessoa assim. Sempre acreditei que para além de me caber a culpa da falha desta relação idioticamente desencontrada, também somava profundos erros de apreciação/qualificação das acções dela. Mas ter-lhe-ia sido tão simples corrigir tudo isto com um diálogo, apenas.

Após ter-se zangado veementemente comigo, num discurso telefónico em que deixou bem claro o corte total desse monólogo que eu ia mantendo com ela, sobretudo pelos mails, e mais esporadicamente pelo telefone, manifestei num e-mail final o meu desapontamento com a atitude dela. Porém, agradecendo-lhe o facto de ter despertado em mim inopinadas sensibilidades. Primeiro a poesia, e agora a motivação para a construção de um conto ou uma história, mas que até poderá ser uma novela (mais dificilmente um romance). [Para escrever uma coisa assim é preciso ter algo para contar e, sobretudo, é preciso ter vivido e sentido algo interessante que possa ser reduzido a escrito. Finalmente, tenho algo com substância para enformar uma estrutura ficcional mais ampla, que obrigatoriamente extravasará o domínio das experiências pessoais e da realidade.]

Presumo que cometi novo erro, pois esta revelação terá sido entendida como um acto revanchista. É o quanto posso especular a partir da convicção de que ela passou a comentar estes factos com os amigos. Procura apoio? Procura atingir-me? Por enquanto não me sinto atingido, nem incomodado. E espero não vir a sentir-me assim.

"O paradoxo não é meu. Sou eu"
(F. Pessoa)

Teatralidades

O jovem congelou ao entrar em cena e, estático, mais não fez do que balbuciar a fala, de olhar arregalado e vítreo. Ali, imóvel, na esquerda baixa. A expressão descontrolada do rosto, e o movimento incerto do braço direito flectido, pairando vago, transformaram-no num ser grotesco, quase irreal, que nos arrancou, a nós, espectadores, profusas gargalhadas de puro gozo. E continuou, alternando o tom monocórdico discursivo com umas inflexões guturais incompreensíveis que nos inchavam o rosto de galhofa e soltavam lágrimas de gáudio.

Esperei-o à saída. Vinha cabisbaixo, abatido, miserável. Coloquei-me à sua frente exibindo, no alto do sobretudo e sob o meu admirável chapéu à Bogart, um sorriso de gratidão, e disparei com firmeza:
- Foste grande, pá. Magnífico!
Levantou a cabeça, e do rosto triste e pesaroso saiu, à meia voz, e em tom de confissão:
- Aquilo não era assim. Eu é que não consegui…
- Qual quê! Atalhei, não lhe deixando margem para protestos.
– Foste Sublime!
- O grande actor não é o que se mascara e encarna a personagem com um rigor inaudito e virtuoso. Grande, grande mesmo, é aquele que despe as máscaras e se mostra, revelando um outro eu que é seu, que é ele. E depois, todos os que me fazem rir merecem a minha admiração. Aliás, detesto, e sempre detestei pessoas que se levam demasiado a sério. Que se levam completa e permanentemente a sério. São anormais e inumanos. São bestas. Portanto, parabéns! Ainda que tenhas ficado decepcionado e desiludido, o que fizeste foi sublime.
Olhou-me com alguma curiosidade mas não respondeu. Continuei:
- Agora vais passar aquela porta, percorrer o átrio e descer as escadarias. Mas não o faças com esse semblante abatido, de derrota, de falhanço. Ergue a cabeça e abre um sorriso, o sorriso do atrevido que ousou ir além do habitual, do tradicional, do óbvio, do banal.
Deixei-o seguir à minha frente e, pela postura e andar decidido que foi adoptando e pelas manifestações de simpatia que outros espectadores lhe dispensaram, já na rua, percebi que levava o tal sorriso nos lábios.
A minha felicidade completou-se quando abotoei o sobretudo, enrolei o cachecol e enfrentei a noite fria na passeata de meio quilómetro que me conduziria a casa.
A vida é uma coisa tão simples. Porque me esqueço tantas vezes desse facto?

F. Castelo
2006-01-31

prosa poética em carta ao jeito de 600

Mui estimada e formosa donzela, acontecendo continuar a ser alvo de episódicas inquietudes sentimentais provocadas pela preciosa existência da vossa pessoa, e não obtendo qualquer resposta às simples interpelações que vos endereço, resta-me ir suavizando este miserável existir entrecortando momentos de alegre lucidez com irrequietos acometidos de coração, quando não melancólicos e absortos estados de espírito, que muito me mofinam a alma. Confinado assim, por vós, cruel princesa, às coisas do imaginário, quiçá por receio (infundado, vos garanto) de que desatine o coração em bater mais do que deverá, qual corcel em desabrido galope por montes e vales, sem freio nem mão que o tolha, eis-me imaginando interrogativas questões que vos colocaria, se vós fosseis pessoa de dar resposta. Triste sorte a minha, pois que o não sois. Assim me fico na hipotética inquirição.
Ride-vos, entretanto. Que mais não vos posso dar (porque vós não o aceitais, que assim se entenda). Mas ride-vos com gosto, com muita alegria. Por mim, bem deveria rir todo o mundo para vós, juntando em vosso coração a maior felicidade que o Universo permitisse.
Avanço.
E começo, repetindo-me (o que prova que infanções ou homens bons, quando apaixonados, andam igualmente parvos): - Existe algum donzel ou cavaleiro pelo qual vosso coração suspira, sim, ou não? Se existe tal homem, tão cheio de sorte, dizei-me ó mais linda princesa: - Diz-vos ele em cada dia que o Sol brilha, todos os dias da vida, que sois vós a mais linda de todas? Não me respondas que “tal coisa não é preciso”, pois não é uma questão de necessidade, é uma questão de merecimento. Assim o mereceis vós, gentil e doce dama.
E agora intercedo por mim: Se ele não diz tal, posso dizer-vos eu? Todos os dias? Se SIM, mandarei um pombo-correio com tal mensagem. Saiba ele o caminho e evitar a soltura das gaivotas e sereis recebedora dessas justas e puras homenagens de preito.
Sabendo-me homem nem sempre de perfeito juízo e por bastas vezes até um bocado irracional, mas cumprindo também alimentar esse lado menor da personalidade, por isso pergunto: - De que Signo sois? Balança, Aquário ou Capricórnio, ou um dos outros será? Bem gostaria de consultar os astros. Talvez as que brilham na abóbada celeste me respondam, cousa que vós tanto brilhando cá em baixo o não fazeis. Que estrela caprichosa sois, menina.
Uma última questão vos coloco, à qual não respondereis, pois claro. Mas ainda assim aqui deixo: - Querendo convosco conviver um pouco, para o que vos poderei convidar? Para um bailar, um passeio, ou um simples jantar? Dizei-me, amiga (não me dizendo nada, claro está).
E termino.
Bem mandada e entregue deveria ser esta missiva, escrita a pena sobre pergaminho, e devidamente lacrada. Mas assim não será, por receio de espiões dessa gente que não acredita em amores e paixões.
Junto tanta coragem como a que a Gil Eanes usou para passar além do Bojador e… atrevo-me a oferecer-vos um beijo. Aceitai, por amor, amizade, caridade ou … economia. Sim, porque sendo oferta vale a pena aproveitar, neste mundo louco em que até para mandar um beijo para o lixo, também é preciso pagar.
Assim, beijo a vossa linda mão.
PS: E não aguardo resposta. Seria tortura, como da Inquisição.

F. Castelo
;D

poema a umas mãos

Foram as mãos. Aquelas mãos brancas, pequenas e delicadas, que numa manhã de Inverno me seduziram e encaminharam o olhar para aquele rosto sereno, angular, com uma boca distinta e uns olhos escuros enormes. Fiquei impressionado.
Meses depois, exposta, ali, à minha frente, com risos largos que revelam a beleza de uma boca povoada de perfeitos e alvos dentes, e os mesmos lindos e brilhantes olhos que lhe iluminam o rosto, por vezes misterioso, traindo naquele momento a fugaz emoção da experiência nova, a curiosidade e, até, alguma insegurança, frente à luneta mágica que a explora, eis que de repente me atinge em cheio.
Acertou mesmo no meio de mim. Com toda a brutalidade. Foi faca, foi bala, foi bomba, foi mais, foi um autêntico aríete que me implodiu o ser.
E foi ela, também, talvez com o olhar hipnótico, que me reconstruiu outro. Um novo ser, com um novo olhar, escravo de uma nova e profunda paixão, mais profunda do que qualquer alicerce de qualquer muralha de qualquer castelo. Uma avassaladora paixão, como jamais sentira.
… E nos dias seguintes milhões foram as facas que se enterraram no meu peito. Sucumbi, ajoelhado, vergado sobre a força que me constringe este peito, possuído por esta angústia medonha que me cerca, implacável, como uma escuridão insidiosa.
Nos dias seguintes andei errante, caminhando pelas ruas da cidade, às voltas, procurando, por não saber dela. De onde vinha, onde estava. E, gradualmente, uma monstruosa inquietude foi-me invadindo até à mais pequena molécula de mim, e a todas as partes de mim. E respirar era difícil. E parar era impossível. E queria chorar. Queria, tanto, conseguir chorar. Chorar com toda a força. Mas as lágrimas não fluíram. Não houve gotas para refrescar esta caminhada ao calvário.Perdi-me do que era antes e, assim, perdido, ando. Não me reencontrei ainda. Nem sei o que sou agora.… Neste estado de profunda catarse agarrei um lampejo de impulso racional e estabeleci o plano, diabólico, de assassinar esta paixão que me consome. Exorcizá-la. Não me escondendo, nem a evitando a ela, a das mãos lindas. Antes, procurando a sua companhia para primeiro, acalmar o turbilhão em que me transformara e para depois poder reconstruir uma realidade. A realidade da impossibilidade. Assim, afogo ilusões que acredito não poder transformar em vida nova. Numa nova vida. E recordo o poema que pede ao tempo para voltar atrás. Vã ilusão, confirmo. E sofro…tanto.…
E hoje vejo-a. Sem a procurar, é ela que vem, e sorrio-lhe, e sorri-me. Falamos. Mas não destas coisas, que ignora completamente. Toca-me suavemente no braço, como quem acaricia uma pena, com uma daquelas mãos que adoro, pequena, alva e delicada, para se aproximar e espreitar um postal que admiro. E o quinto dia do meu novo ser consome-se nesta efémera tranquilidade. Mas a dor continua, aqui, mesmo no cimo do peito, profunda, dominadora, esmagadora.
E as lágrimas continuam a não correr. E precisava tanto delas, para drenar este sofrimento que me consome, tanto como os áridos campos de hoje clamam por gotas providenciais que os venham aspergir e salvar da impiedosa seca. Assim mesmo.... Agora sossego um pouco. Tenho a promessa de tocar as mãos. Aquelas mãos brancas, pequenas e delicadas. De as pintar, gravar na tela onde poderei admirá-las, para sempre.E depois, … não sei. Talvez me reencontre, ou talvez fique perdido para sempre nesse limbo, para onde Afrodite me expulsou.

A HUMANIDADE EM 10 SEGUNDOS


"Naqueles dias em que te sentires orgulhoso dos grandes feitos da humanidade (ir à Lua, a compreensão do Universo, os computadores e a Internet) faz como eu, vem aqui e olha para estas fotografias durante 10 segundos."

Fotografia: Kevin Carter
Fotografia publicada em março de 1993 no “New York Times” e responsável pela ascensão de Kevin Carter como fotógrafo.
Em 1994, Kevin ganhou o Prêmio Pulitzer de Fotografia. Embora a fotografia seja impactante, o abutre não estava tão próximo do menino como a fotografia sugere — facto que continua causando controvérsias entre jornalistas e fotógrafos.
O garoto da foto chamava-se Kong Nyong e sobreviveu ao abutre, morreu em 2007.

Kevin Carter, o fotógrafo, suicidou-se em 1994. 

Entrevista ao Notícias de Lagos (excerto)

....
NL- Comecemos pela tua actividade de fotógrafo, como é que começaste e que lugar é que a Fotografia ocupa na tua vida?
F.Castelo- Comecei a fotografar em 1977, numa abordagem exclusivamente amadora, em 1979 entrei para o Centro de Estudos Subterrâneos que tinha a sua sede num laboratório de fotografia do “Estúdio CS”. O ambiente de laboratório/estúdio, e os ensinamentos do Mário Santos, proporcionaram-me as bases da Fotografia. Mais tarde trabalhei no Laboratório Industrial Montecolor, na distribuição das fotos pelo Algarve, e esse contacto com o meio, com os profissionais e com alguns mestres da Fotografia permitiu-me evoluir mais um pouco. Actualmente, como técnico profissional de audiovisuais da Câmara Municipal, a Foto reportagem ocupa 90% dessa actividade, embora a minha paixão seja o retrato. Afinal, a alma da Fotografia. Mas é a vertente do hobby que mais tem contribuído para a minha evolução como fotógrafo. Desde os fóruns de discussão temática à exibição das minhas fotos e visualização dos trabalhos de outros fotógrafos na Internet, tudo isso me ocupa 2 a 3 horas por dia. É uma escola de aprendizagem contínua.

NL- Ser Fotógrafo implica saber olhar de forma diferente. Como vês a cidade e as suas mudanças nestes últimos anos? E as próprias pessoas?
F. Castelo- A cidade é bela, eleva-se sobranceira ao rio, com uma magnífica baía, inúmeros edifícios históricos e atractivos naturais suficientes para nos apaixonarmos pela paisagem e, paulatinamente, vai reunindo alguns aspectos de um pulsar urbano que só se encontra em cidades de maior dimensão. É evidente que não gosto das construções altas e que elas se assumem como “poluição visual” no contexto paisagístico que acabei de salientar. Sei que são os custos da urbanidade e da modernidade, mas será que não se poderia fazer um descontosito?! Que fosse um custo mais baixo?! Aflige-me pensar que a breve prazo não poderei fotografar nenhuma panorâmica das muralhas porque as construções, privadas e públicas, vão ocultando o amuralhado. E o perfil da cidade visto de longe, do mar ou dos Palmares por exemplo já é assustador. É pena.
No que respeita ao relacionamento com as pessoas, no âmbito da minha actividade, é notório que a difusão do uso da Internet e as inovações tecnológicas trouxeram uma grande desconfiança em relação ao acto fotográfico. De facto, deparo com uma dificuldade crescente em fotografar pessoas. Para não falar do problema de fotografar jovens e da apreensão que logo se levanta com relação à pedofilia. Mesmo agora relembro um episódio (risos) ocorrido em 2003 à porta do Cinema com uns fotógrafos do movimento “fotoalternativa” que trouxe a Lagos integrados na exposição “ponto.com”. Era noite, e o Aniceto Barbosa preparava-se para fotografar uns adolescentes (a quem ele tinha pedido para posarem, e que aceitaram), mas a um segundo do click um dos moços exclama em voz de pregão: ISTO É PÓS PEDÓFILOS?! Eu tenho esse momento registado porque estava próximo, junto à parede do Mullens. E o irreverente Aniceto suspendeu a fotografia e, decepcionado, murmurou-me: isto tá lixaaaado! (risos)
NL- E a actividade que desempenhas na Câmara Municipal, realiza-te enquanto “homem da imagem”?
F.Castelo- Sim. Porque gosto do que faço e porque integro uma equipa de gente criativa, de várias áreas, e também porque somos dirigidos com garra. E, se por um lado, a informação municipal não oferece tantos desafios e estímulos como a imprensa, por outro lado tem-me possibilitado realizar trabalhos mais elaborados e minuciosos. Em comum com a imprensa temos a celeridade da produção e os dead lines apertados, que muitas vezes nos põem em alta rotação. Para além da actividade na Câmara Municipal de Lagos, em que a Foto-reportagem é o trabalho mais requisitado, tenho outros projectos dos quais destaco: “Gente de Cá” e “Fios de Luz”. O primeiro pretende registar o maior número de lacobrigenses, no intuito de construir um arquivo de época, um registo de um tempo, o meu tempo. Entusiasma-me a ideia de “imortalizar” as pessoas. Registar o seu rosto para a eternidade. Penso que será um espólio valioso para a futura Fototeca Municipal. E por outro lado é uma espécie de demanda quixotesca, um exorcizar da inquietude e do inconformismo deixado pela destruição legal que teve lugar em 1992 ou 1993 (ordem de despejo e incineração) de um dos mais importantes arquivos fotográficos de Lagos. Perderam-se milhares de clichés de passes de pessoas de Lagos, Vila do Bispo e Aljezur.
O segundo projecto é mais de busca estética, uma experimentação que nalguns casos entrará no domínio da Fotografia conceptual, um exercício em que pretendo que cada foto seja cerca de 90% de preto e 10% de branco, respeitando o leitmotiv que elegi para este projecto: “a luz é como o azeite, basta um fio para temperar”. Estes projectos desenvolvem-se, em parte, no LAC- Laboratório de Actividades Criativas (antiga Cadeia), onde tenho uma cela (risos), digo: um estúdio. Já agora, aproveito para oferecer a possibilidade de fotografar quem quiser ser retratado, mas advirto que não são fotos tipo passe, pois não respeitando as normas de enquadramento e cor do fundo, não poderão ser usadas para BI’s ou passaportes. Para isso existem casas da especialidade. As fotos deste projecto, sendo propriedade minha, têm contudo utilização condicionada pela autorização do retratado e serão guardadas no meu arquivo pessoal e no arquivo da Câmara Municipal - como forma de garantir que o registo digital não se perderá e que irá integrar o espólio da tão esperada Fototeca, ou Imagoteca Municipal.

NL- Com o desenvolvimento das novas tecnologias, as máquinas digitais, os telemóveis que fotografam, qual vai ser o futuro da Fotografia na tua perspectiva?
F. Castelo- Encaro esse progresso como um mecanismo libertador da Fotografia e espero que a transforme em algo tão natural e aceitável por todos, que as pessoas deixem de se “encolher” quando estão sob a mira da objectiva. Nessa altura será mais fácil fazer Fotografia, boas fotografias. E não temo que essa universalização da Fotografia a desvirtue ou retire o trabalho aos fotógrafos. Repara que não é pelo facto de todos sabermos escrever que os escritores ficaram sem actividade. Porque escrever BEM, com a tinta na caneta ou com a luz na máquina fotográfica, continuará a exigir o concurso da imaginação, da sensibilidade, da intencionalidade criativa, em suma continuará a ser necessário exercitar o intelecto. Certamente iremos assistir ao pulular da pimbalhice fotográfica, já iniciada há alguns anos (lomografia, pseudo-conceptualismos e abstracionismos etc.), mas isso também é natural e tem o seu lugar na Fotografia.
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publicado aqui em Ago de 2006

Os Espanhóis e Nós

Como bom algarvio dado às coisas da navegação descobri, na internet, uma página espanhola onde um dos autores discorre sobre o relacionamento entre os dois países ibéricos. Sendo assunto actual e, especialmente, pela acutilância do ponto de vista expresso, decidi inserir aqui o link do artigo (clicar no título).


Uma chamada de atenção, porém, para um facto cronológico relativo à Restauração da Independência: Embora para nós a data referencial seja 1640, para a historiografia espanhola apenas 1668 representa a data da efectiva cisão Ibérica, pois é nesse ano que é firmada a paz entre os dois reinos. Aliás, até 1665 (Batalha de Montes Claros - Alentejo) a Espanha tentou sempre retorquir pela força ao acto de restauração da independência e recuperar a coroa portuguesa. A referência ao ano de 1660, a que o autor alude, repetidamente, bem exemplifica a extensão desse cancro (generalizado a todos os nacionalismos) que é a manipulação historiográfica, que ele também denuncia.

recordações da Câmara Escura

Meia dúzia de passes

Tínhamos a sede do Centro de Estudos Subterrâneos (então, chamava-se GIAE – Grupo de Investigação Arqueológica e Espeleológica, inspirado pelo CIES de Coimbra, no distante ano de 1977), a funcionar no laboratório de processamento fotográfico do Estúdio CS. Ocupávamos a sala maior, de entrada. No interior, em dois compartimentos distintos, funcionavam os laboratórios de P&B e cor. Não pagávamos qualquer renda, pois contávamos com este desinteressado apoio do Mário Santos e do Bernardino, sócios, e fotógrafos dessa casa comercial estabelecida em pleno centro da cidade de Lagos.
Por vezes, como deferência para com tais facilidades concedidas (não só as instalações, como as muitas boleias para as grutas), eu ficava no laboratório a imprimir e revelar os passes. Noutras, tendo esse serviço já feito, ficava a esmaltar enquanto o Mário almoçava, em alturas em que o Bernardino andava pelos casamentos ou outras reportagens. Afinal, eu apenas seguia, e repetia, os passos do Carlos, o Presidente do grupo de espeleologia que, anos antes, assim fizera também. Agora, impossibilitado pelos estudos de medicina, em Lisboa.
É Verão de 79. Na obscuridade fresca do laboratório, à pálida luz avermelhada, de segurança, com os dedos mergulhados no líquido viscoso, faço dançar os rostos “espreitantes” dos quadradinhos de papel. E a mente vagueia por aí, à deriva, errante, como o percurso da morena de olhos brilhantes que retiro com cuidado do revelador e mergulho na tina de água que serve de banho de paragem. Um Óóóiiiiii... interrogativo, proveniente da entrada, desperta-me daquela catarse hipnotizante. É o Mário que vem da loja e vai para casa, almoçar: - Lianito, atão, tá tudo bem? Introduz-se, afastando o reposteiro negro e o pano rubro escurecido pela (suj)idade.
-Tá! Respondo. - Quer dizer que daqui a uma horinha tá tudo na esmaltadeira? Inquire ele.
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São estas recordações de pedaços de tempo perdidos (ou encontrados) no negrume do laboratório, e outras, como quando mirava atentamente e aprendia como jogam as cabeças de luz com o fundo e, entre elas, como posicionar os difusores e sobretudo, aquela insistência, aquela ordem repetida vezes sem conta: - Endireite as costas! - Olhe para aqui! – Aqui... para a minha mão! (a mão esquerda, fechada e curvada, fazendo um bico com os dedos, que ele colocava sobre a Linhoff ). Então, o Márinho empurrava o disparador, e o clarão cegava-me, momentaneamente.
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Nesses tempos racionalizava pouco do que via e aprendia, era a idade do desprendimento, da irresponsabilidade. Aquela idade em que temos a certeza de que as coisas hão-de vir ter connosco e não são necessários esforços ou preocupações acessórias. O que tivesse que acontecer aconteceria, mais tarde ou mais cedo.
De vez em quando pegava numa máquina, a Pentax Spotmatic ou a Rollei de formato 120, enfiava-lhe um rolo e ia passear pela cidade, à procura não sei de quê. Invariavelmente, seguia o caminho junto ao rio, próximo dos barcos, e disparava.
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A luz verde era um bluff, nunca consegui ver mais do que uma ténue amálgama leitosa e viscosa na superfície do rolo acabado de puxar do interior da tina vertical, qual serpente silenciosa a sair do buraco: - Tás a ver? Ainda não está bom. – Pois! Respondia eu, sem ver ponta de corno do filme que ele segurava nas mãos, a uns 20 cm da suposta “luz” verde.
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o Durst 7700 era um ampliador magnífico. Sentava-me no banco de tasca (daqueles de madeira, com um buraco ao centro para enfiar o dedo) e puxava a cabeça do ampliador agarrando nos dois punhos laterais, parecia um periscópio de um submarino. E como eu adorava aquela caixa de filtros, cheia de botões de afinação. Claro que nesses momentos de imaginação adolescente olhava de soslaio para o fundo da sala, não fosse abrir-se alguma tampa dos tanques de banho-maria da bancada de revelação cores e sair de lá um ser marinho ou, até, extraterrestre. Sim, porque às vezes o submarino transformava-se em nave espacial. A obscuridade é reveladora!
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-Não estão prontas? - Então disse-me que estavam hoje à tarde! Esgrimia a mulher ao Márinho, escudado no balcão, dando voltas à manivela da registadora, fingindo-se ocupado: - Amanhã é que estão! Tivemos um problema com a electricidade. Faltou a luz no laboratório… foi problema na central eléctrica. Eu, passeava os olhos pelo material fotográfico da montra, como se não fosse nada comigo.
Falha eléctrica, uma merda! Esquecera-me das fotos da senhora dentro da esmaltadeira, porque me entretivera a enrolar umas escadas Pierre-Alain (tipo daquelas do circo). Afinal era ali a sede dos estudos subterrâneos. Quando, finalmente, me cheirou a coisa ruim, rodei a manivela do tambor espelhado mas já não fui a tempo para acudir aos “torrados” 6 passes.
F. Castelo

Droga de Vida

Quando eu era pequeno, o Joe quis oferecer rebuçados holandeses, de aspecto suspeito, ao Paulinho. A vizinha Maria vendo aquilo, gritou, do quintal para a rua, que um estrangeiro estava a dar "rabeçades endrogados" aos moços pequenos. O Joe, intimidado pela gritaria daquele rosto rechonchudo e vermelhaço de irritação, esgueirou-se com o rebuçado preto na mão e, no rosto, um sorriso idiota, de "espreita" apanhado em flagrante. Quem diria! Aquele coiso redondo e parecido com um botão de macaco azul de serralheiro era um rebuçado com droga! O Joe virou à esquerda e esgueirou-se para o hotel, temeroso de alguma naifada de pai solícito, receio provocado pela miscelânea de preconceitos em que os nórdicos arrumam, na mesma prateleira mental: latinos; latino-americanos; ciganos; negros; índios e eteceteras de raça indefinida.
Nós, os moços, estávamos impressionados, demasiado excitados para continuarmos a brincar com carrinhos de lata à sombra da bagageira do velho Taunus. Quase fôramos vítimas de sequestro, ou suborno, ou outra treta qualquer, por parte de um estrangeiro. Raptados, imaginem! - raptados era uma boa tese, permitia-nos imaginar outras paragens, situações excitantes como nas aventuras d'Os Cinco. Imaginávamos, e a imaginação era boa. E a imaginação era a realidade. Ah...putos dum raio, penso hoje, à distância. E a vizinha Maria, agora à porta de casa, equilibrando os seus oitenta quilos de sabedoria na soleira de mármore rachado, dizia: - Vocês não aceitem coisas desta gente, ouviram?
Uns dias depois já conhecíamos o Joe que passava ali pela rua sempre a sorrir. Não lhe ligávamos muito, porque nos destruíra a emoção de um rapto, e os rebuçados, se não tinham droga, tinham outra caca qualquer que sabia a xarope para a tosse. Nem eram doces! E ainda por cima eram "emborrachados" como os supositórios. Que os metesse no c...!
Mais tarde, bastante mais tarde, em vésperas de ir para a tropa, andávamos todos "ganzados" com os charros de haxixe ou de óleo (porque a erva escasseava), e repudiávamos os poucos exemplos de consumo e consumidores de droga (das drogas duras), que conhecíamos.
Lembro-me que nos tempos da Secundária, um dia o S. levou uma seringa e um ampola de uma coisa qualquer e disse tratar-se de anfetaminas. Foi um gozo. A sacola foi jogada de mão em mão e acabou no chão, com todos a dançarem em cima. Éramos muito puritanos. Quer dizer, éramos mais do tipo conservador: ou fumas uns charros, ou tás quieto e não te metes em nada! Logo a seguir à tropa a malta voltou com as ideias mais aconchegadas e sentimos uma certa apreensão ao ver putos de doze e treze anos a injectarem, à noite, na rua.
As vidas têm uma corda que as puxam, invariavelmente, pelos caminhos antes percorridos por outras gerações, que é como quem diz: os dias sucedem-se às noites e estas, àqueles. E, de repente, damos conta que temos filhos, um clube de futebol ou recreativo, um computador, a tv cabo e que, na rua (e não só à noite), as coisas mudaram radicalmente. Onde ficaram aqueles rituais do xilom de água? Onde estão os jovens de olhos vivazes e alegria ampliada pela "pedra", os fumadores dos impressionantes "canhões" ou dos tradicionais "charros"?
As coisas mudaram completamente. As drogas de hoje são verdadeiramente drogas, capazes até, desconfio, de exterminarem algumas pragas de escaravelhos ou outros insectos pseudo-nocivos. Hoje, os apanhados pelo "pó" andam inchados como o peixe balão que está no Museu. O olhar já não é vivaço, os olhos parecem lanternas de arrumador de cinema, iluminados por lâmpadas de quatro volts e meio, das pequeninas. Da alegria, não sei.
Hoje, estas drogas matam rapidamente, no entanto os condenados ainda têm tempo para satisfazer algumas últimas vontades em liberdade (aparente, claro): subtrair uns auto-rádios; assaltar residências da vizinhança, tesourarias das escolas e Juntas de Freguesia; enfermarias dos postos médicos, etc. Só depois é que morrem! Normalmente sem grande estrilho mas, quando pensamos nas trajectórias das suas vidas, a idade com que desaparecem, as mutilações infligidas no seio da família, surgem então as interrogações.
E começamos, assim, a preocupar-nos com o rumo que as coisas levam. E tomamos uma atitude! Quer dizer, alguns tomam atitudes, outros tomam bicas e analisam o assunto e, outros ainda, tomam bicas, tomam notas, e escrevem prosas sobre o assunto. Então e as soluções? Pois é! Estas não vêm na última página de nenhum manual, nem tão pouco serão reveladas no final da aula. Alguém tem ideias? ESTÁ AÍ ALGUÉM? E agora desculpem lá, mas vou fazer o mesmo que vocês. Enfio os chinelos, reles imitação de ourela, comprados na loja dos 300 (mas custaram mil), afundo-me no cadeirão confortável, cruzo os braços e rendo homenagem ao Big Brother!

F.Castelo/2000

se este não foi o primeiro post, terá sido um dos primeiros

290 lugares, 80 pessoas. Aos 20 minutos ouviu-se um incerto protesto e saiu a primeira pessoa. O "ponto" imaginário murmura: - Estátua! E logo o dançarino se imobiliza, reincide a cena...ibidem...outra vez...assisto, incrédulo, a um espectáculo "feito de encomenda" para fotografar (e só tenho a digital!), disparo...irrespirando...escuto as incomodidades das cadeiras (ou do espectáculo) nos cús irrequietos...


...e eu sem uma 135! E o espectáculo a prosseguir devagar... devagarinho. Como quem hesita, o dançarino "passeia" pelo palco...ao ritmo do pigarrear de umas gargantas apertadas, lá para o meio da assistência. Com meia hora de lentos volteios, a dança perde o seu segundo espectador. O dançarino, esse, constrói poses de deslumbrante efeito plástico, moldando o corpo no contorno das sombras, e dos sons.




A dança continua mas, agora o som avança e a luz recua para 1 obscuridade que não revela, logo, os reparos em que vem o artista. Estrebucham os de cá, por não compreenderem o de lá. Solta-se uma voz em despeitado desabafo de ininteligível mensagem. Eu, dividido entre permanecer acoitado na plateia ou correr 400m até à Câmara e agarrar a Canon, atendi aos 100kg que calam mais fundo e continuei-me por ali. Acariciei a Olympus, deslizando o indicador pelas curvas superiores até ao gatilho do zoom. Afinal, era com ela que estava, para quê pensar noutras? A soirée dançante escorregava para o clímax e eu não o sabia...


Movimento...at last! A descoragem afoga os impropérios na mescla da génese vocal e, paridos por bocas medrosas logo se esborracham no chão, sem eco, sem história, sem transmissão. Apenas um ignoto mal-estar trespassa o ambiente. - Mas, ele só tem aquele avental? perguntou um murmúrio claro. E a miúda da cochia da 6ªfila, estupefacta (estúpida de facto?) pergunta à mãe, ou tia: - O homem está nú? A pergunta fez ricochete na esquerda baixa, junto à porta de serviço, atingindo todos, no ir à Cafetaria, no fim (porque tanta força mental exige recarga!). Eu, fico-me, digitalmente apático. Afinal tive todo o tempo espreitando pela janelinha, longe. Apenas, testemunha!

Inserido em Mar.2002 no site colectivo foto@pt