Teatro do Absurdo (revisto em 2007.06.25)

NOTA AOS LEITORES: Considerando o elevado número de leitores deste artigo, cumpre-me alertar para o facto de as ideias aqui expostas não passarem de opiniões do autor, simples espectador de Teatro - e sem qualquer formação académica, ou de outra índole, na área das artes. Alerto especialmente os estudantes para tratarem com a máxima reserva, e profundo sentido crítico, o conteúdo do presente artigo.
"O Futuro está nos Ovos" de Ionesco, por: OMINED, TeatrOficina e Grupo Dramático do Grupo Coral de Lagos - 2005


Teatro do Absurdo é uma designação genérica formulada pelo escritor e crítico (francês) inglês Martin Esslin para designar um importante acontecimento, no Teatro do século XX, que rompe com os conceitos tradicionais do teatro ocidental. O absurdo das situações mas também a desconstrução da linguagem*, enquanto tal, conferiu a este acontecimento um movimento dramático de marcada profundidade. Denunciar a futilidade do quotidiano, a existência despida de significado e colocar em cena a irracionalidade que grassa no mundo e onde a humanidade se perde, são os objectivos principais.

Nesta corrente se inscrevem, desde logo, o teatro de Beckett, Ionesco, Arrabal, e as primeiras peças de Adamov e de Genet. Bebendo nas fontes filosóficas, esta concepção da arte de representar encontra apoio nos escritos teóricos de Antonin Artaud e na noção brechtiana do efeito de distanciamento (um ajustamento da representação dos actores e da organização geral do espectáculo de modo a realçar a expressão da crítica social, tendo como finalidade o fortalecimento de uma consciência de classe nas massas). A aparente condição absurda da vida é um tema existencialista que encontramos também em Sartre e Camus, mas em que estes autores recorrem à dramaturgia convencional, desenvolvendo o tema segundo uma ordem racional.
Nesse ambiente pós-guerra floresce a tentação dos escritores pela experiência de um contacto mais directo com o público, evidenciam-se, pela importância das suas obras: Henri de Montherland (La Reine Morte, Fils de Personne, Malatesta, Le Maître de Santiago, Port-Royale, La Ville dont le Prince est un Enfant, La Guerre Civile); Albert Camus (Calígula, Le Malentendu, Les Justes, LÉtat de Siége, Requiem pour une Nonne, Les Possédes); Jean-Paul Sarte ( Les Mouches, Huis Clos, Morts sans Sépulture, Les Maines Sales, La P. Respectueuse, Le Diable e le Bom Dieu, Nekrassov, Les Séquestrés d’Altona). Depois surgem Jean Genet (Les Bonnes - 1947), E. Ionesco (A Cantora Careca e A Lição – 1950) e S. Beckett (À Espera de Godot - 1953), que iniciam a geração da abordagem expressionista, psicanalítica, que partindo de Rimbaud, Lautréamont, Jarry e Strindberg desaguam em Michaux, Kafka, Artaud e outros. É o tempo em que as angústias existenciais, as revoltas interiores, as tentações niilistas se cristalizam na sátira e na ironia repleta de humor negro. O teatro proclama uma vontade revolucionária de mudar a vida.
Indubitavelmente influenciado pela peça Huis Clos**, de Sartre, o Teatro do Absurdo não foi, porém, nem um movimento nem uma escola e todos os criadores implicados mostram-se extremamente individualistas formando um grupo muito heterogéneo. Em comum, partilham a rejeição do teatro tradicional e a adopção da caracterização psicológica, da coerência estrutural e do poder da comunicação pelo diálogo.

Nos anos 50, Samuel Beckett e Jean Vauthier - herdeiros de Alfred Jarry e dos surrealistas - introduzem o absurdo no seio da própria linguagem, pondo em evidência a dificuldade que temos em comunicar e compreender o verdadeiro sentido das palavras, e a consequente angústia de o não conseguirmos.

Recorrendo a processos de distanciação**** e de despersonalização estas peças desmontam as estruturas da consciência e da lógica da linguagem e expõem os anti-heróis sujeitos à sua fatalidade metafísica, seres errantes destituídos de referenciais, como que aprisionados por forças invisíveis num universo hostil. E é essa fragilidade que se denuncia ao mostrar o abismo que existe entre os princípios nobres que somos capazes de enunciar e eleger e a praxis do quotidiano.

As peças obedecem a uma lógica assente na caracterização psicológica e no estatuto das personagens, no enredo, nos objectos e no espaço – identificado/relacionado com a personagem.

Podemos identificar, na base do Teatro do Absurdo, o contributo de
Alfred Jarry (18731907) e como percursores: Guillaume Apollinaire (18801918); Antonin Artaud (18931948); Roger Vitrac (18991952); Julien Torma (19021933). Dos pioneiros, autores que vão impulsionar verdadeiramente este teatro d’avant-garde, destacam-se: Samuel Beckett (19061989); Arthur Adamov (19081970); Eugène Ionesco (19091994); Jean-Paul Sartre*** (1905 - 1980). E na galeria dos herdeiros constam: Boris Vian (19201959); Edward Albee (1928 – ); Harold Pinter (1930 – ); Slavomir Mrozek (1930 – ); Fernando Arrabal (1932 – ); Tom Stoppard (1937 – ).


* Os textos procuram “corromper” os seus significados tradicionais, criando novos contextos e permitindo novas leituras, por vezes num processo contínuo e vertiginoso.

** Em Hui Clos, Sartre reúne três mortos condenados a dialogar pela eternidade. Cada personagem é o inferno de outro na medida em que passa em revista a sua vida no intuito de a criticar. O inferno é, pois, a obrigação de ver a sua vida julgada pelos outros sem ter possibilidade de a modificar, de corrigir os erros, pois a morte pôs fim à faculdade de escolher. Sarte mostra, assim, que a existência é o lugar essencial para as nossas escolhas e para o exercício da nossa liberdade já que os nossos actos implicam uma responsabilidade à qual não nos podemos eximir.
*** É inquestionável o papel de Sartre no Teatro de Vanguarda. Já esta referência como um dos impulsionadores do Teatro do Absurdo é muito discutível. Porém, na dificuldade em estabelecer as fronteiras entre estes dois fenómenos culturais, e na ausência de conhecimento concreto sobre onde começa e termina a influência do teatro de vanguarda no teatro do absurdo, faço eco desta perspectiva enunciada por uma certa "escola" francesa de história do teatro.
**** "distanciação" no sentido brechtiano do termo, i. e. "afastar a familiaridade, onde possa haver qualquer identificação do espectador com as personagens, e qualquer atitude passiva, para suscitar uma atitude desperta e crítica, capaz de fazer apreender a lição social que a peça comporta" (in pimentanegra).
consultas:
História do Teatro, de Robert Pignarre – Publicações Europa-América, 1979

NOTA AOS LEITORES: Considerando o elevado número de leitores deste artigo, cumpre-me alertar para o facto de as ideias aqui expostas não passarem de opiniões do autor, simples espectador de Teatro - e sem qualquer formação académica, ou de outra índole, na área das artes. Alerto especialmente os estudantes para tratarem com a máxima reserva, e profundo sentido crítico, o conteúdo do presente artigo.

temperos da escrita

“... a arte do romance exige mais ressentimento do que o meu, e mais desejo de vingança, e mais conhecimento do mundo. Além de um temperamento trágico que nunca consegui reter...”
António Sousa Homem – Julho 2006

3º e último acto

O actor principal entra em palco e declama o seguinte texto: A ti, que sei que vens cá, frequentemente. Assim o revela o ACTIVEMETER deste blogue.

Nos próximos dias 5 e 7 de Setembro cumpre-se um ano desde que entraste no meu site e inseriste comentários insultuosos nas fotografias de várias raparigas, maioritariamente nas fotos de colegas nossas. Sempre entendi que não eram elas o alvo, mas eu. As verdadeiras razões para tal procedimento só tu as conhecerás, mas no meu entender procuravas atingir-me fazendo com que elas exigissem a remoção das suas imagens, desacreditando, assim, o site e o meu trabalho – de nível amador, diga-se em abono da verdade, mas despretensioso - e, porventura, criando-me problemas. E tudo isso, acredito, motivado por impulsos emotivos de raiz sentimental e despoletado pela tua relação, ou pretensão de relação, com uma determinada rapariga.

Lamentavelmente, tal atitude, custou-me a mim uma relação de amizade que, tendo-se iniciado nessa altura, ficou irremediavelmente comprometida. Ainda assim, não te condeno nem te desejo mal. Aconselho-te é, e sem falsos moralismos (e quem sou eu para pregar moral aos outros?), a seres mais ponderado nas tuas atitudes, sobretudo com os colegas de trabalho, pois ao longo dos últimos meses fui ouvindo vários relatos de atitudes tuas, profundamente reprováveis, e em que algumas pessoas ficaram verdadeiramente ofendidas contigo. Não acredito que desejes incompatibilizar-te com toda a gente, por isso fica a advertência para teres mais cuidado. Pela minha parte, e no que me toca, perdoo-te e encerro definitivamente este assunto.
Já o mesmo não posso fazer com a rapariga que me magoou profundamente, pois que senti como uma deplorável perfídia a atitude que ela adoptou em relação a mim. De qualquer forma também esse assunto fica encerrado - agora que tenho a certeza que ela já sabe o que penso dela e que apresentei a minha versão dos factos perante os/as colegas a quem ela, estouvadamente, terá apresentado outra versão.
Reduzi a escrito tudo o que se passou, numa forma ficcionada. Aproveitei o ter algo para contar para exercitar a minha medíocre escrita. Não tenciono, nem nunca tencionei, publicar. Se “ameacei” tornar tal escrito público foi apenas, para, no teu caso obrigar-te a reflectires sobre o teu ignóbil acto e, no caso dela, para que, sentindo-se incomodada com as acusações que lhe dirigi, se obrigasse ao que sempre se recusou, a dialogar (neste caso não surtiu efeito, espero ter tido mais sorte no teu).Tal escrito destina-se exclusivamente aos olhos de duas ou três pessoas com capacidade para rever, corrigir, aconselhar alterações aos aspectos formais. Esta atitude insere-se num percurso de aprendizagem da escrita, que é, para mim, assunto muito mais importante do que os enredos da vida social e a própria Fotografia.
Consideração final: Já passei por duas grandes empresas que, tal como esta instituição, integravam centenas de trabalhadores. Em ambas testemunhei inúmeros casos de conflitos, atritos e choques entre o pessoal. Não estou admirado nem chocado com o acontecido agora. É natural nas relações sociais entre pessoas e mais ainda em empresas de grandes dimensões. No entanto, quando não se abre a porta ao diálogo as coisas podem atingir proporções incontroláveis e, por vezes, dramáticas. Não foi o caso. Não me parece que tal pudesse ter acontecido, mas fica a advertência para os mais inexperientes.

FIM do 2º ACTO

INTERVALO

Aproveito para agradecer o empenho de todos os intervenientes nesta peça, que tanto gozo me está a dar. Porém, atrevo-me a apontar alguns aspectos menos conseguidos e, nomeadamente chamar a atenção da Direcção Cénica para a manifesta falta de qualidade da prestação de alguns actores. Quer o J quer a M deviam sair de cena, pois estão a representar muito mal e, assim, a comprometer o trabalho e o prazer disto tudo. Não percebo porque só agora entrou o P, mesmo no final do Acto, sem ter tido tempo para desenvolver uma relação concreta com F. Também acho que o papel da actriz principal deveria ter mais falas, mas sobre isto já discutimos tanto. Bem sei que representar uma peça que se inscreve no mais puro estilo do Absurdo, e fazê-lo ao sabor do improviso e da espontaneidade dos actores, com recurso a breve e sintética orientação cénica é tarefa árdua e espinhosa mas há aspectos que saltam à vista. E nada pior que o óbvio e o fútil para desmotivar os espectadores.
A bem da nossa companhia teatral e do sucesso da peça.
F.

murmúrios

a empatia para com os sentimentos
cresce nos silêncios.
Jorge Coli – Historiador de Arte


as coisas mais importantes
ouvem-se no silêncio profundo.
F.Castelo - Historiador do Nada

toma lá Anton, à laia de SINOPSE

Anton disse...AINDA ANDAS ÁS VOLTAS COM ESSA MERDA? CAGA-TE NISSO, PÁ! UM GAJO SUPER-FRUSTADO E UMA PITA ORGULHOSA MERECEM MAIS ATENÇÃO DO QUE OS PROJECTOS?:SSANTA PACIÊNCIA, PÁ!
E pode-se ao menos saber que raio estás a escrever? É poesia ou é prosa? É romance, ficção científica ou uma biografia. Olha, podias era fazer uma fotobiografia. Uma fotobiografia minha, que sou um tipo interessante. LOL...
 
É uma história simples, a que vamos contar. No essencial gira em torno de uma atitude pérfida de uma jovem, a quem chamaremos Sara, que troca a construção de uma amizade com um homem mais velho, a quem vamos chamar Pedro, para proteger um acto hediondo executado por um jovem pretendente ao seu coração, a quem vamos chamar Totó (em homenagem ao brilhante actor de cinema italiano dos anos 50).
O acto vergonhoso, materializado na inserção de insultos e comentários aleivosos nas fotos de várias jovens existentes no site de Pedro e, entre elas, à própria Sara (embora de forma acentuadamente diferenciada, em que a raiva terá substituído adjectivos por reticências), terá sido executado a partir do computador de Sara - pelo que se depreende que após ter descoberto a prática de tal insanidade a jovem terá cortado relações com o falhado sedutor.
Pedro, logo que descobre o enredo, confronta a jovem com tal possibilidade e, em consequência disso, e a partir desse momento, Sara afasta-se - ou afasta Pedro. Jamais iria reconhecer o seu envolvimento, ainda que involuntário, num acto tão vergonhoso e ultrajante.Refira-se que ao insultar as jovens, o autor nada mais procurava do que atingir Pedro e fazer com que, sentindo-se ofendidas as pessoas retratadas exigissem a remoção das suas fotos do site deste e, entre elas, a da jovem que era alvo das suas intenções de conquista, e que no entender do comediante Totó estava a ser sobrevalorizada na sua aparência, com consequente ampliação do “mercado” de candidatos às atenções da deslumbrante rapariga.
Reunindo as evidências que denunciavam a sórdida trama: Escassos dias após a inserção dos comentários insultuosos, Sara terminou definitivamente os contactos por correio electrónico com Pedro, anulou a conta de e-mail que possuía, e mais tarde até reformatou o computador (plausivelmente, temia que Pedro comparasse os dados identificativos do seu computador, através das suas visitas ao blogue de poemas que ele lhe dedicara ou constantes nos mails que ela enviasse, com os dados existentes no registo dos tais comentários insultuosos).
Às insistentes tentativas de Pedro para que Sara anuísse num encontro para uma conversa esclarecedora respondia esta, sempre, com um lacónico: - “fica para outro dia”. Mas ao telefone respondia à reiterada pergunta de Pedro: - “estou a incomodar-te?”, com um sereno: -“não Pedro, não me estás a incomodar, quando me sentir incomodada, digo-te.”. E, assim, não se atrevia a rapariga a afastar em definitivo a hipótese de uma tal conversa nem, por outro lado, consentia no diálogo tão repetidamente solicitado por Pedro. E desta forma ia Pedro acumulando uma crescente incomodidade. Já não era só o incómodo provocado pelo desconhecimento das razões que a levaram a afastá-lo mas também acrescido pela suspeita de que a estaria a incomodar, mais o facto de não imaginar, sequer, o que poderia pensar ela da atitude dele.
Por vezes, decepcionado e desolado com a atitude de Sara, Pedro ia construindo outras razões para a justificar, tentando desculpá-la e, deseperadamente, manter por ela o elevado apreço que o conduzira a propor-lhe uma relação de amizade - que ela aceitara inicialmente. E no entanto teria sido suficiente uma breve conversa em que bastaria a Sara dizer que entre tantas doidices que Pedro enunciava sempre havia um pormenor verdadeiro mas que ela não queria discuti-lo, mas antes pedia-lhe que esquecesse tudo aquilo e que continuassem amigos. E bastaria apenas isso para demover Pedro da sua irascível e, por vezes, doentia busca da verdade. Mesmo sabendo ele que por vezes não é a verdade que triunfa, ou nem sequer é desejada.
Depois, as coisas precipitaram-se. Numa só semana, dois encontros fortuitos, em situações inusitadas, e numa tarde de sábado outonal, a repetida circulação de Pedro pelo local onde encontrara o automóvel de Sara estacionado, terão levado a rapariga a entender que estava a ser alvo de uma doentia perseguição por parte de Pedro (ou será que, desejosa de se livrar desta embaraçante situação, calculistamente aproveitou essa insistência de Pedro e a mascarou de “intuito persecutório delirante” que em breve expôs perante colegas de trabalho e amigos?!).
De qualquer forma, Sara achava que possuía, agora, um elemento à medida de esgrimir como arma de intimidação a Pedro, para que este calasse a história que tanto a incomodava. E, de resto, não seria nada difícil convencer qualquer auditório da veracidade das suas queixas, pois até podia mostrar dezenas de mensagens patético-emotivas e outros tantos poemas sentimentais que Pedro lhe dedicara.
O facto dele apenas a ter solicitado para uma relação de amizade, sem nunca ter declarado qualquer intenção de outra natureza não interessava para nada. Agora, podia, finalmente, calar essa voz incómoda que ameaçava revelar o grotesco episódio dos desvairados insultos e da possível ligação à sua pessoa. Sim, dizemos “possível” porque, no fundo, estas questões não passam de conjecturas alicerçadas em evidências que, embora pertinentemente reveladoras, não passam disso mesmo: Simples conjecturas, nascidas da interpretação de factos e atitudes, do exercício da dedução, mas sobretudo alimentadas no silêncio suspeito e comprometedor, da linda Sara.
Mas ela não contava com o carácter obstinado de Pedro, que jamais aceitaria uma atitude tão perversa. Não, sem antes tentar demonstrar à jovem que ultrapassara o limite do tolerável em matéria de relações humanas e sociais. Era muito jovem, ainda - mais jovem do que Pedro inicialmente supusera - mas com tal atitude denunciava que precisava aprender, de chofre, aquilo que naturalmente deveria ir assimilando, paulatinamente, ao longo da vida. O mais odioso de tudo, para Pedro, fora o longo silêncio a que ela votara a relação deles. E isso constituía a profunda mágoa que o dilacerava.etc... etc...
Ó Anton, olha que me deste uma ideia muito interessante. Em vez da “novela” que estou a escrever, a hipótese de um enorme poema também não está mal, não. E acho que posso utilizar, na mesma, a linha de crédito que tenho para uma edição de uma centena de exemplares até 200 páginas, no novo sistema de impressão electrónica digital, embora a editora sempre se tenha referido a um livro em estilo literário de romance, ou prosa no género.
;D

os meus humores



Gostar de uma personagem pública (um artista ou um político p. ex.) resulta grandemente da empatia gerada entre nós e a personagem. O mesmo se aplica a um programa de TV, um filme, um livro, etc. Nestas coisas (como em muitas outras), a dimensão emocional obnubila o exercício da racionalidade. E isto, para dizer que nunca assisti a um programa completo da série “Gato Fedorento” embora tenha visto alguns sketches. E desse pouco, ficou-me a impressão de se tratar de um programa incipiente, fútil e ridículo. Temo, agora, ter julgado demasiado superficialmente o programa, sobretudo porque é do ridículo que trata. Porém, não consigo afastar a minha dúvida metódica, e permanente: Porque será que gosto do que escrevem Woddy Allen, Miguel Esteves Cardoso, e a equipa do Gato Fedorento (versão blogue), mas não gosto dos seus “discursos” nas versões cinematográficas e televisivas? Será porque “… Existe na comunicação por imagem algo de radicalmente limitativo… a imagem é o resumo visual e indiscutível de uma série de conclusões a que se foi chegando através da elaboração cultural; e a elaboração cultural que se serve da palavra transmitida por escrito, é apanágio da elite dirigente, ao passo que a imagem final é construída para a massa submetida…” ? [apetece-me ser mauzinho, e o Umberto Eco dá uma mãozinha]
Achei interessante, a entrevista em que Ricardo Araújo Pereira (um dos membros da equipa do Gato Fedorento) dá a Chantal Féron na edição deste mês da revista Psicologia. Reproduzo aqui um brevíssimo excerto.
Fiquei curioso, e tentado a colocar de novo a minha paciência à prova, frente à porcaria da janela mágica. Depois direi.


Há quem diga que o humor é uma forma de agressividade...
... Freud [também] diz que tem a ver com a teoria da superioridade, mas só que aplicada a nós próprios, ou seja, a propósito da divisão do ego, é o superego a rir-se do ego, portanto somos nós que nos encontramos superiores a nós próprios em algum motivo e é nessa altura que ele diz que surge o humor puro. O humor principal é aquele que fazemos sobre nós próprios e é interessante, essa agressividade voltada contra nós, isso tem muitas leituras e muitos aspectos inseridos.
Tem humor em relação a si próprio?
Sim, aliás eu acho que é difícil ter em relação aos outros se não tivermos em relação à nos, pelo menos numa fase, o humor primordial é esse, é essa noção de que nós somos ridículos. Essa noção do nosso próprio ridículo é fundamental, e eu tenho sorte de ser mesmo muito ridículo!

5418

- Tem calma, pá! E, eu, que já me preparava para lhe virar as costas e sair dali, estaquei, contrariado.
- Precisamos da tua ajuda.
- O Velho diz que sabes o que isto é. Disse o coronel, já próximo, esticando o braço para mostrar um quadrado de papel meio amassado, com um número inscrito e duplamente sublinhado.
- O que eu sei sabe o Velho também! Tudo o que sei foi ele que me ensinou. Respondi-lhe de supetão.
- Pois, não sei. Ele disse que não sabia, mas que tu saberias. Retorquiu o oficial superior.
- E os nossos amigos da ilha também não sabem. Não fazem ideia do que seja. Quer dizer, pode ser muitas coisas, qualquer coisa. Apenas um número de quatro algarismos, é muito vago. Já testamos tudo. As relações são muito ténues. As hipóteses são infinitas.
- Porque raio terá ele dito isso? Disparei, franzindo os sobrolhos em manifestação de estranheza pela afirmação e, simultaneamente, de desagrado pela presença dos antigos “camaradas de armas” do Serviço de Informações. Peguei no papel que o meu antigo comandante de companhia estendia e examinei o conteúdo.
- Que é que ele sabe da minha situação actual? Sabe em que me ocupo?
- Sabe que trabalhas em Fotografia, sim.
- Sabe que trabalho em Fotografia. Em informação. Em...grafismos. Então não se tratará de um cripto normal. O Velho acha que não será nada de matemática, nenhum código permutável. Aposta em algo relacionado com a minha área.
Olhei demoradamente para os quatro algarismos juntinhos, o número 5418. Por baixo, duas linhas quase paralelas, em sublinhado firme. O cérebro vazou-se-me de repente. Não encontrava significado para a merda de um número de quatro algarismos anotado num bocado de papel manhoso.
- Lamento. Não me ocorre nada. Apresentado assim, sem mais, não chega. Pode ser tanta coisa.
Continuei a olhar o papel e percebi o tipo de entendimento que fará o boi quando olha para um palácio. Grafismos. A ideia da hipotética relação que o velho estabelecera rebolava-me nos neurónios, mas não curto-circuitava nada. Cansado, baixei o braço e retirei de cena o malfadado e enigmático papelote.
A uns três metros de distância, junto à entrada da sala de reuniões, um jovem imaculadamente fardado de branco, com o galão de luneta distintivo dos subtenentes da Armada olhava-me, estático. Lembrou-me uma noiva angelical. Estive prestes a mandar-lhe um piropo provocador, que faria rir os participantes da reunião subitamente interrompida pela incursão daquele mini-destacamento de quatro militares de aspecto estranho. Os outros envergavam fatos de combate, sem quaisquer distintivos que não um discreto bordado no peitoral esquerdo, um símbolo quase ininteligível, mas que eu bem conhecia.
O coronel, de cabelo platinado, olhos profundos e feição grave concluiu, fixando-me intensamente nos olhos.
- Ok! Então não podes ajudar.
Rodou nos calcanhares, pediu desculpa aos presentes, pela inesperada interrupção e, sem dar tempo a interpelações de esclarecimento pela atitude, deu dois passos em direcção à saída. Parou ao ouvir o meu ténue:
- Espere lá. Será que o Velho aposta mesmo que isto é um grafismo?
Algarismos... dois riscos, duas linhas.
- Que é que anda sobre duas linhas, coronel?
Nem dei tempo para a resposta do oficial superior:
- Que é que anda sobre duas linhas e é identificado por um número de quatro algarismos?
- Os comboios?! Excalmou ele.
- Um comboio da C.P., sim. Tentem a lista de composições da CP. Talvez exista o número 5418.
Já “a noiva”, de olhar siderado, teclava no telemóvel para a pergunta que recolheu como resposta de alguém do outro lado do feixe hertziano:
- Composição da CP, tráfego regional... Porto/Lisboa, ou Coimbra...
Era, de facto, um comboio.
Agora, de semblantes avivados, a equipa precipitava-se, a um tempo, para a saída do edifício centenário. Já na ombreira da porta, o coronel lançou a questão final:
- Olha lá, só para confirmar, isto diz-te alguma coisa: “a mãe e a filha do eleito”?
Olhei-o, frontalmente, e respondi serenamente:
- A mãe e a filha do profeta. A mãe, e a filha favorita de Maomé tinham o mesmo nome, Fat’ma. Fátima!
- Pois, bate certo. Fizeste o mesmo raciocínio que o Velho.
- Vamos! Exclamou enfaticamente para os homens que o acompanhavam. E saíram, apressados. Não sem que, antes, o jovem marinheiro se aproximasse, de sorriso aberto e mão estendida, solicitando um cumprimento há muito esperado e que, supostamente, muito o honrava. Apertei, com pouca convicção e meio entediado, a mão firme que me apresentava. Nunca nutri grande apreço por quem me admira. Não acredito que seja capaz de me ensinar algo de interessante ou importante, pois se valoriza tanto o pouco que sei e sou.
Nem me preocupei com mais lucubrações sobre os enigmas. Embora desabituado, rapidamente voltei aos tempos em que as questões se sucediam em catadupa, sem que nos preocupássemos com uma resposta final. Essa não era a nossa preocupação. Seria a de outrem, mas não a nossa. Não passávamos de simples brain-stormers, pesquisadores de pepitas no meio de uma imensa cascalheira de palavreado, preocupados em produzir discursos sintéticos, por vezes esterilmente incoerentes, outras vezes mais enigmáticos do que o problema que os despoletava. Mais tarde, alguém recolheria as peças e montaria o puzzle.
Próximo da cidade, as pás de um helicóptero agitavam o ar num ruído sincopado, grave e intimidador de máquina poderosa. Depois, o som foi-se diluindo noutros ares, mais distantes.
Não voltaram.
Que alívio.

Defio

Não aceitou dialogar, ouvir os meus motivos ou esclarecer as minhas dúvidas. Insisti, voltei a insistir, e essa ânsia por um diálogo redentor e apaziguador, mas eternamente adiado, transformou-se num incómodo para ela. Em consequência disso, chateada, zangou-se e afastou-se ainda mais. De nada serviu escrever-lhe pois nunca me respondeu. De nada serviu telefonar-lhe pois escudou-se sempre num laconismo espartano. E, assim, não permitiu a justificação dos meus actos. Com tal atitude de desprezo autista remeteu-me para uma angústia permanente, por achar eu que não tendo ela compreendido as minhas acções, as terá erradamente interpretado.
Depois, certamente ainda incomodada, transmitiu a terceiros as suas interpretações e “certezas”, seguramente erradas, acerca dos meus actos. E agora, a minha necessidade de justificação já não se dirige exclusivamente a uma pessoa, mas a um público cuja dimensão desconheço em absoluto. Resta-me, pois, considerar a hipótese de divulgação de um texto ficcional (ou biográfico), expondo o meu ponto de vista, as razões e as mágoas.
O silêncio é como um imenso deserto mas, ainda assim, um deserto por vezes revelador e, até, mesmo, estimulante. E no meio de um deserto, de um enorme e gigantesco deserto, que mais restará a um viajante solitário para além da criatividade?!
Só escrevo, produtivamente, quando estou sob pressão da inquietude, da angústia, da raiva, do desespero, ou da revolta. Só incomodado consigo canalizar a minha criatividade para o acto discursivo que verte em escrita o enorme caudal desse rio de sentimentos que brotam do meu interior.
Depois, apaziguado e sereno, regresso à indolência psicossomática de indígena da orla mediterrânica.
Sed en fine la knabino gajnas.
E sorrio, ternamente.

Mário Cláudio dixit

Ana Marques Gastão entrevistando Mário Claúdio sobre o seu novo romance “Camilo Broca”, consegue revelar a dimensão gigantesca da simplicidade do autor. E é na honestidade intelectual de Mário Claúdio, parcialmente exposta nessa entrevista publicada na Revista 6ª do D.N. 50123 de 23.06.2006, que ressalta a grandeza do autor e a importância dessa honestidade. Retenho, como lições de experiência do autor e, para mim, mais do que motivos de reflexão, factores de identificação, os excertos que transcrevo.
...
MC - ... Nenhum escritor que se preze ousará reflectir sobre o quer que seja sem simultaneamente se debruçar sobre si mesmo. Quando se trata de escrita, e não de um mero alinhamento de palavras, é a carne que se empenha no trabalho, e não a redacção mais ou menos bonitinha.
...
ANM – Até que ponto realidade e ficção se cruzam, de que modo biografia e obra se conjugam? De que forma inversa, como num espelho invertido, deformado?
MC – A biografia, já alguém o disse, não é mais do que um romance com notas de rodapé. No meu caso falar disso, ou de ficção, equivale a afixar etiquetas aproveitáveis aos teóricos, mas irrelevantes para os praticantes de um texto criativo.
...
ANM – Triunfo do Amor Português não esquece os amores de Ana e Camilo. A culpa, sublinhada por Agustina, também admiradora do escrito [Camilo Castelo Branco], surge como motor da narrativa, da imaginação. Um pouco de Freud aliado ao virtuosismo da forma?
MC- A vulgata freudiana é inseparável do nosso dia-a-dia. eu sou um homem comum.
...
ANM – Escaparam-lhe as personagens ou conseguiu domá-las?
MC – Escaparam-me constantemente. O ficcionista que não vá afinal a reboque das suas personagens bem melhor fará se procurar outro ofício.
...
ANM – quando escreve vai ao fundo de si ou esconde-se por detrás da elaboração romanesca, das personagens que, nalguns casos, tem reinventado?
MC – Creio que ir ao fundo de nós mesmos equivale a escondermo-nos da imagem para consumo externo. Sou um homem muito social, mas procuro a verdade por detrás de cada diálogo travado com os irmãos.
...
ANM - Que é, a seu ver, o romancista? Um caçador cruel?
MC – Acho que é às vezes um patife, de longe a longe um anjo, na maior parte dos casos um homem à conta com as suas misérias.
...
ANM – As mulheres, como Carolina Rita, surgem contra o lugar-comum no seu romance: com uma força inabalável e nem sempre mulheres-anjo?
MC – A inocência de que falo só poderá alcançar-se por meio de uma certa diabolização. As contadoras de histórias sabem disso. Inventam um discurso para se apropriarem dos seus lances. Não há forma mais perfeita de liberdade.
ANM – tem dito que nada lhe pertence quando escreve. O “incriado” não passa também pela reconstrução da sua história interior, mais íntima?
MC – O efeito construtivo da escrita é muitas vezes enganoso. Tece-se e destece-se a mesma manta, e é nessa tarefa que os dias se edificam. Se um texto recria a nossa história, a verdade é que também a destrói a todo o momento.
...

Estou de férias. Desenrasquem-se!


"...uma religião em que a divindade deixou morrer o seu (alegado) filho por uma questão de marketing, e detentora de um historial de séculos de intolerância, não será a mais indicada para nos pregar a paz e o amor pelo próximo..."
TheOldman

uma filosofia na vida

a minha filosofia de vida

As coisas importantes da vida descobrem-se numa fase em que a experiência e o tempo vivido permitem reflectir, avaliar, relacionar e decidir. Porquanto nos avisem sobre a relatividade das verdades, permitem-nos decidir. E decidir é importante. Não há muito, descobri: que não gosto de viajar; que gosto das pessoas, de falar, de conviver, dos sorrisos; que é difícil ser protagonista sem atropelar os outros; que é mais intenso o prazer de dar (atenção, carinho, amor) do que o prazer de receber; que, no essencial, o mundo e a vida se estruturam em torno de três eixos fundamentais, que são:

1- Poesia, música e matemática – ver e perceber o belo, cultivar o gosto pelo belo, interrogar e tentar perceber o mundo que nos cerca;

2 - Filosofia – apreender a razão, exercitar a racionalidade; ser racional mas, sobretudo, construir o espaço para a imaginação e construir os dogmas que nos devem orientar.

3 - Ambiente - viver em harmonia com a Natureza, sendo racional e dispensando algumas das, supostas, novas conquistas ou comodidades do progresso e da modernidade, que mais não são do que embustes aos sentidos e profundas acções degradantes do ambiente e comprometedoras do seu/nosso futuro.

Da inter relação de todos estes factores, e da sua adopção de forma harmoniosa, depende o alcançar do equilíbrio existencial. Só resta ensaiar esta fórmula, repetindo o exercício ad aeternum. O homem que se realiza não é o homem que atinge a realização, mas aquele que caminha permanentemente na sua direcção.

mais uma historieta


Terminei hoje um pequeno trabalho que comecei há seis anos. Na realidade, não representa mais do que uns três meses de trabalho a tempo parcial. A dezena e meia de páginas também não encerra mais do que três páginas de escrita inédita, descontadas as citações e transcrições e o espaço ocupado pelas gravuras. Isto é, para produzir um pequeno texto que resume o moroso trabalho de investigação sobre uma associação que perfaz este ano 75 anos de existência, foi necessário tal dispêndio de tempo com as tarefas de recolha de depoimentos orais, pesquisa de fontes escritas, confrontação dos dados e, finalmente, a construção do texto final.

E foi nesse final que fiquei a cismar acerca da produtividade de alguns investigadores que, no mesmo espaço temporal (consideremos os tais três meses), completam o circuito que vai da investigação (documental, imagética, epigráfica, etc), reflexão e formulação de soluções, até à redacção e edição, p. ex., da monografia de um sítio, em livro com mais de uma centena de páginas. Como é, isto, possível? Acaso se produz um trabalho destes como se da escrita de um romance se tratasse?

Concluo, portanto, que faço parte dessa gigantesca mole de incapazes e improdutivos portugueses com os quais este país jamais avançará… em frente.


E em frente… é o Oceano.

Que tristeza sentimos quando nos apercebemos da realidade. Afinal, não passo de um medíocre. Eu, que até sei nadar.

"Roubar ideias de uma pessoa é plágio. Roubar de várias, é pesquisa."
Lincoln Ferreira

Um exercício de escrita

A ideia é contar a história de um desencontro entre duas pessoas que, devido a esse desencontro, nunca chegam a desenvolver qualquer tipo de relação. Factores exógenos, mas sobretudo as dúvidas e desconfianças dele, são as causas dessa dessintonia que compromete a relação de amizade em que ele tanto investe e que ela, embora hesitante, parece aceitar.
Só é possível construir uma história assim, se existir algum tipo de experiência pessoal que constitua a raiz a partir da qual a ficção avança.
E essa experiência existe.
Porém, tendo ocorrido num espaço de tempo relativamente recente e tendo deixando mágoas, desapontamentos e ressentimentos, afigura-se importante estabelecer um interregno para, então, com menor envolvimento com a realidade, se construir o enredo ficcional e os seus meandros.
Outro aspecto importante que recomenda a adopção desse hiato temporal prende-se com a necessidade de minimizar a influência das reacções emotivas, agora, ainda vívidas, na construção dos caracteres psicológicos dos personagens.
Em síntese, tratar-se-á de uma narrativa em que se rebuscam nas vivências do quotidiano, elementos descritivos, retratos psicológicos, experiências e situações para a edificação do corpus textual.
Não há nenhuma preocupação ou intenção moralista, lírica, cronística, romântica… pois trata-se apenas de um exercício de escrita.
Quem sabe se, até, os leitores do blogue não poderão participar na construção da história?!

Lá para o fim do Verão, talvez.

;)

porque escrevo?

Muitas vezes me questiono acerca daquilo que motiva o processo de escrever. O que leva alguém a construir contos, histórias, romances, de carácter mais ou menos biográfico ou de pura ficção. Será a necessidade de comunicar, de contar aos outros algo que julgamos importante?

Ora sempre foi a ausência dessa necessidade que me impediu de publicar o pouco que escrevo. E que porventura me inibiu de escrever mais (e logo, melhor, por via da prática). Na realidade nunca tinha sentido com clareza esse chamamento, essa necessidade. A escrita nunca foi, para mim, mais do que um exercício disciplinador e ordenador das ideias e também nunca terá pretendido mais do que imitar o exemplo de escritores que produziram textos que me tocaram especialmente, incentivado portanto pela beleza dessas obras.

Então, porque escrevo? O que me impele a escrever é o facto de gostar de contar histórias pois antes de mais gosto de conversar, de ouvir e de contar histórias. Mas também desconfio que escrevo porque tu existes e sinto essa necessidade de te escrever. A ti, hipotético leitor. Alguém que, prenuncio, exista e seja o meu leitor sintonizado.

Ou será que escrevo para mim próprio? Pode a escrita ser como a Fotografia? Serão as palavras escritas como que uma fotografia da mente, do que se pensou, imaginou ou sentiu? Pode não interessar a ninguém senão ao próprio, que lê o que escreveu e relembra as suas vivências. Eis a escrita como um acto de solidão espiritual, um monólogo ou, por outro lado, um grito de revolta contra essa mesma solidão a que o escritor se rende, sem esperança de interlocutor.

Escrever pode ser uma forma de canalizar um grande caudal de água que brota incessantemente e que sem ser dirigida para uma saída rebenta com o reservatório que a pretende conter. Escrever pode, portanto, ser uma terapia! Como quando escrevo para burilar esteticamente as estranhas forças que me povoam e para sublimar este ímpeto criativo e dar voz ao turbilhão que sinto em mim. Mas também o faço porque descobri que poucas coisas me dão tanto prazer na vida.

Infelizmente, não produzo mais do que uma escrita simples e mais ou menos límpida, carente de enriquecimento a vários níveis. Mas entendo que para se alcançar uma produção literária de nível aceitável é necessário ler e escrever muito, insistir e ir melhorando. É o que tento fazer.

E agora sinto chegar o momento de tentar contar uma história ficcionada. Tenho consciência de que na escrita uma realidade pode prolongar-se involuntariamente em ficção ou uma ficção pode ganhar estatuto de coisa real. Porém, essa fusão entre verdadeiro e fictício não me perturba. A liberdade de recriar o real misturando-o com o imaginário é, de todo, lícita. Por aí sigo, num exercício de construção literária que, se mais não alcançar, será uma experiência enriquecedora para quem tanta importância atribui ao acto de escrever.

“O que é mais difícil não é escrever muito; é dizer tudo, escrevendo pouco” (Júlio Dantas)

Os textos deste gajo são de antologia

“A hipertextualidade da linguagem fotográfica corresponde a uma esotérica metamorfose do sujeito, organizada pelo princípio dialético da negatividade positiva e da positividade negativa. O sujeito fotográfico F. Castelo é uma mediação em processo, uma figura tipológica e topológica em devir. A visão fenomenológica da essencialidade da sua formação cultural não obnubila a visão da sua transcendentalidade denotativo-fotográfica. Ao interceptar os círculos da responsabilidade e da evidência denotativa/conotativa, da fidelidade e da autenticidade, o testemunho tende a suprimir toda a mediação.”

Professor Doutor Armindo de Jesus
Instituto Superior de Fotografia

hoje não há gravuras*


Gur-Gur e DaMog discutiam à sombra do enorme rochedo. Para Gur-Gur, desejoso de ensaiar a sua veia artística, aquela era a oportunidade esperada. Desejava ardentemente imitar os outros homens da tribo. “Expor” as imagens mágicas que a rocha cinzenta encerra. À cintura, enfiado numa faixa de pele de cabra, preparado, está o pico de pedra, uma das mãos segura um imponente fémur de urso, qual moca de combate, a outra mão desenha gravuras imaginárias no ar, enquanto argumenta com o mais velho. DaMog é que não está para isso. O velho, espécie de chefe da tribo, entende que não vale a pena perder tempo, os muitos dias necessários para gravar as imagens mágicas na pedra. Sabiam lá onde é que os seus quinquilhanetos decidiriam construir a barragem a que haveriam de chamar Bravura? Para quê tanto trabalho, então? Para depois as imagens ficarem submersas no fundo da represa, e os espíritos aí aprisionados? Não. Primeiro construíssem a bendita barragem, depois logo se veria onde gravar as evocações dos espíritos do veado e do urso, do tigre e do lobo, da fecundidade e da fertilidade, e os geometrismos mágicos, os heliocêntricos símbolos da vida. Assim decidira. Perto, alheios a esta discussão, homens acocorados em círculo separam lascas, trabalhando com punções de osso, sobre núcleos de sílex, donde resultam sugestivas pontas de lança em forma de folha de loureiro. Gur-Gur lançou um último olhar para o outro lado do vale, em direcção ao afloramento rochoso e, voltando-se para Norte, começou a caminhar para os campos de caça. Ao fundo, a algumas léguas de distância, enorme e dominadora, vestida de densa e rica vegetação, e coroada com um aro de neblina no topo, a montanha a que mais tarde viríamos a chamar de serra de Monchique, assiste silenciosa. Não era desta vez, ainda, que iria participar na Ourquema, o ritual de representação dos espíritos. Resignado, silencioso e lesto, afagando os laços de caça dobrados sobre o ombro esquerdo; seguro, no fémur de urso que Vaco, o irmão mais velho, lhe oferecera dias antes, e que lhe prolonga o braço direito, assim, ameaçador, Gur-Gur caminha. Talvez apanhe um veado. Quinze mil anos passaram para que pudéssemos descrever a resignação de Gur-Gur, filho de Laot-Gur, habitante do território que hoje corresponde ao concelho de Lagos. Gravar na Rocha, talvez noutra oportunidade.

* Escrito e publicado em meados de 1995, em plena "Batalha do Côa". Em síntese, e para aqueles que não sabem do que falamos:

"
As gravuras não sabem nadar"
Como nunca tinha acontecido em Portugal, multiplicam-se acções cívicas para salvar as gravuras da submersão, que leva um jornalista a falar de gravuras "da consciência cívica". A acção dos arqueólogos é seguida de perto pelos estudantes que se organizam em associações para a defesa das gravuras: "Côa Vivo", Associação Juvenil Olho Vivo, "Movimento de salvaguarda da Arte do Côa", "Associação para a Defesa das Gravuras Rupestres do Foz Côa", constituída essencialmente por estudantes da Escola Secundária de Vila Nova de Foz Côa, a quem devemos o famoso slogan: "As gravuras não sabem nadar". Eles recebem o Presidente da República, que acaba por ir ver as gravuras em Fevereiro 95, pronunciando-se a favor da sua preservação. A organização de um "mega-acampamento" de jovens de todo o país em Vila Nova Foz Côa, em Abril 95, é o auge desse movimento juvenil a favor da arte do Côa. Organizam-se debates públicos sobre o tema em Lisboa e em Braga, onde a audiência de arqueólogos, historiadores e estudantes é aumentada pela presença de "cidadãos comuns". Multiplicam-se nesse ano artigos de opinião de pessoas oriundas dos mais variados horizontes, cujos autores defendem, na maioria, a preservação das gravuras.
Um "happy end" - Perante tanta resistência por parte da opinião pública, o Governo de Aníbal Cavaco Silva acaba por não tomar nenhuma decisão antes da eleições de Outubro 95. O recém-eleito primeiro-ministro, António Guterres, anuncia a suspensão das obras da barragem logo no primeiro dia de debate do programa do Governo no Parlamento. No final de 95, o projecto de barragem é definitivamente suspenso.
in http://www.uc.pt/fozcoa/batalha.html#nadar

O Neandertal


Deve o nome a um dos locais onde foram encontrados numerosos testemunhos da sua “cultura”, o vale do rio Neander, na Alemanha. O homo sapiens neandertalhensis é mais encorpado que o homem actual, mais baixo e musculoso. O indivíduo em questão, de idade oculta por farta cabeleira e barba espessa castanha, muito escura, encontra-se agachado no interior da lapa da Sabrosa (pequena gruta calcária situada a NE de Bensafrim – Lagos). Lentamente, deposita um a um, uma pequena colecção de fósseis - desses rolados, que ainda hoje se apanham na praia do Porto de Mós, na maré baixa - junto ao cadáver aí recentemente colocado, e que com a meia centena de conchas de pecten maximus (vieira), e um machado de pedra com gume resultante de duas faces afeiçoadas (biface Mustierense), constituem as oferendas rituais feitas ao defunto. O corpo inerte, magro, de um homem com cerca de trinta anos, um “velho”, parcialmente coberto por ocre vermelho, está deitado no chão, com o lado direito encostado à parede da gruta; as pernas, um pouco flectidas, descansam sobre uma estalagmite cónica, baixa e larga. A posição, não sendo a melhor, é a possível devido à exiguidade da caverna. Esta parte da cavidade não será acessível nos nossos dias, resultado de uma obstrução litogénica* ocorrida alguns milénios mais tarde.
Embora a cena se desenrole no interior de uma cavidade natural, esta não serve de habitação, senão de abrigo esporádico durante alguma tempestade mais temerosa ou quando os paquidermes se aproximam do local ocupado pelo clã, na planície vizinha.
Este quadro desenrola-se num passado distante, com mais de 30 mil anos, na região do continente europeu que terá assistido à extinção dos últimos homens de Neandertal, que provavelmente terão coexistido, na sua fase final, com o homo sapiens sapiens.
Do atrás relatado facilmente se conclui que ao Homem de Neandertal, coleccionador de objectos bizarros (fósseis p. ex.) e detentor de um comportamento espiritual (rituais funerários), não pode corresponder essa imagem de troglodita abrutalhado que arrasta a fêmea pelos cabelos e tudo resolve à mocada; ideias erradamente propaladas pelos ideais românticos do século XIX e intensamente exploradas pela cultura contemporânea do “fast-food/fast-symbol”.
Em homenagem ao “Neandertal”. Um simples humano que por cá passou.


obstrução litogénica* - obstrução provocada por crescimento de concreções (acção fisico-química fundada no ciclo hidrogenocarbonato de cálcio/calcite) ou acção mecânica da própria estrutura rochosa (abatimento estrutural). No texto original, escrito em 1996, referíamos uma obstrução clástica mas, devido à morfologia do terreno e ao conteúdo ficcional do texto relativo à inacessibilidade dessa parte da gruta nos nossos dias, entendemos, posteriormente, alterar a natureza desta obstrução.

F.Castelo, 1998

Um momento do Plistocénico


Há cerca de um milhão de anos nas cercanias desta terra a que hoje chamamos Lagos, um grupo de proto-humanos (daqueles a que haveríamos de chamar homo erectus ou “senhores do fogo”) espreitam por entre as ramagens baixas a manada de javalis que se rebolam nas margens do lago, soltando grunhidos de satisfação. Na mesma margem, mais adiante, um macho corpulento de presas magníficas foça na lama, talvez em busca de sementes dispersas.
Lentamente, um a um, de joelhos e cotovelos apoiados no chão, os “homens” vão avançando para uma posição frontal ao vento, descrevendo um arco de círculo que os aproxima da caça. Um ronco grave traça a quietude da paisagem. De cabeça baixa e olhar atento, perscrutando os ruídos da savana, o macho isolado volta-se na direcção dos “homens”, talvez denunciados por um descuidado agitar de folhagem. Tarde demais, a um salto o grupo alcança a manada e, de maxilas de veado em punho uns, outros erguendo seixos toscamente talhados, desferem golpes à direita e à esquerda, certeiros o suficiente para fazer jorrar o sangue quente das cabeças, gargantas e ventres. Alguns dos suínos que se encontram mais afastados fogem, avisados pelos grunhidos furiosos do dominante. Os caçadores, esses, já não saem dali até satisfazerem o seu apetite e saciarem a fome. Enquanto uns sugam o sangue que brota dos corpos escuros, outros já penetraram o crânio com a pedra pontiaguda e deliciam-se com as mioleiras alvas e macias.
Agora, já perto do crepúsculo, os únicos ruídos saem das bocas gulosas, do rasgar e trincar primeiro, depois os suspiros de satisfação e saciedade.
Ténue, e quase imperceptível, brame um auroque, lá longe na orla da savana.
O sol mergulha no horizonte, e a noite ergue-se inquietante. Os “homens”, agora em pausa, olham em redor e ensaiam, no seu interior, o pavor da escuridão que se aproxima, e com ela os rugidos dos grandes felinos.
Ao longe soam brados de quem chama insistentemente. Um dos caçadores, de pé, com um enorme semi-maxilar de veado numa mão e uma perna de javali na outra, meneia a cabeça e exclama algo. Os outros levantam-se de imediato e o grupo inicia uma caminhada pesada e cautelosa, de regresso à gruta que abriga o clã.


F. Castelo, 1998

Desencontros


No princípio era o verbo…
…na forma de uma epístola poética.
Poesia que dava conta do meu estado de espírito e de um intenso sentir. Um sentir incómodo, pois provinha de um sentimento inconsequente e irrealizável.

Revelei-o. E esse foi o meu primeiro erro.
Parti do princípio que ela reagiria a essa revelação como uma mulher da minha idade. Que idiotice a minha. Afinal era apenas uma jovem com pouco mais de metade da minha idade, como poderia alguma vez entender a singularidade do que lhe pedia?!

Coloquei-a num pedestal, chamei-lhe deusa e dediquei-lhe dezenas de poemas.
Compreensivelmente encantada com a produção poética e com o facto de ter sido eleita musa da arte de Orfeu foi aceitando, sem manifestação de rejeição, essa minha atenção. Até porque lhe reiterava constantemente o meu propósito objectivo, e único, o de construir uma amizade.

A adopção desse objectivo não era mais do que uma estratégia que visava a sublimação de um sentir que eu, lucidamente, encarava como total e completamente irrealizável. Mas passível de se sublimar na amizade. Essa amizade se encarregaria de, paulatinamente, impor ao domínio sentimental os libelos da razão. E de uma forma menos penosa do que qualquer outra opção terapêutica para o meu acidente emocional. Nisto acreditava eu.

Mas, de repente, sobreveio o afastamento. Ela afastou-me. Fê-lo através do silêncio. E essa data, a do início do afastamento, coincidindo com acções aleivosas de terceira pessoa sobre mim, aparentemente estranha a nós, conduziu-me, algum tempo depois, a considerar existir alguma relação entre ela e a pessoa que cometeu esses hediondos actos (houve outras coincidências e factos que concorreram também para a fundamentação desta suspeita). E daí ter ela optado pelo afastamento e pelo silêncio total?!

Questionei-a. E insisti, mas nunca obtive qualquer resposta. Atarantado pelo desconhecimento da razão da sua atitude, imaginei os mais improváveis cenários e testei as mais ridículas hipóteses, que revelaram apenas isso: que se tratavam de suposições erróneas.
A insistência cresceu, avivada pelas conjecturas que a ausência de diálogo permitiu, e promoveu, e rapidamente se transformou em perturbante incómodo para ela.

Mas, porque insistia eu?
Porque estava convicto de que ela me afastara em resultado de se sentir incomodada pela possibilidade de se ver associada à acção dessa terceira pessoa, pois tratava-se de uma atitude infame. Assim sugeriam os indícios. Porém, nunca acreditei, nem acredito, que tal acção tivesse contado quer com a participação activa dela, quer com o seu consentimento ou até mesmo com o seu conhecimento prévio.

E assim, achava eu injusto que, devido a uma acção perpetrada por terceiro, se comprometesse a relação de amizade que eu pretendia e desejava e em que estava decididamente empenhado com toda a minha sinceridade.

Depois, pratiquei e acumulei erros, primeiro com a continuada insistência em procurá-la para o diálogo que tanto desejava, e depois com provocaçõezinhas baseadas em exercícios de lógica, especulações e deduções elementares, tudo isto para a suscitar ao diálogo.

Claro que nada disto resultou. Recolhida na sua concha, comprometida com supostos e, porventura, rocambolescos protagonismos (saídos da minha dedução ou, mais provavelmente, da minha imaginação), ou desconfiando da possibilidade de ainda me animarem forças geradas no fogo sentimental, e hesitante na atitude a tomar em função disso, o certo é que ela esquivou-se peremptoriamente ao contacto comigo.

Por fim, a razão da minha insistência em falar com ela já não residia na necessidade de esclarecer a razão do afastamento, mas sim no imenso incómodo que me atormentava por não saber o que pensaria ela de mim, em consequência do desenrolar dos acontecimentos. Convicto de que ela tinha construído uma ideia errada, e injusta, a meu respeito, tal imagem tornava-se insuportavelmente torturante.

Numa primeira fase, quanto mais ela se esquivava mais eu suspeitava de que o fazia para ocultar algo relacionado com as conjecturas que lhe expusera. Agora, quanto mais eu insistia, mais a incomodava e mais ela acreditaria numa eventual paranóia, da minha parte. E quanto mais isto acontecia, mais incomodado eu ficava, e mais revoltado com o facto de ela não aceitar que uma simples conversa resolveria tudo. Conversa a dois, ou conversa com algum/a amigo/a presente. Tanto se me dava.

Daí, até considerar pérfida a atitude dela, foi um passo. Agora juntava à minha mágoa, a perfídia dela. E no entanto, não acreditava que ela fosse uma pessoa assim. Sempre acreditei que para além de me caber a culpa da falha desta relação idioticamente desencontrada, também somava profundos erros de apreciação/qualificação das acções dela. Mas ter-lhe-ia sido tão simples corrigir tudo isto com um diálogo, apenas.

Após ter-se zangado veementemente comigo, num discurso telefónico em que deixou bem claro o corte total desse monólogo que eu ia mantendo com ela, sobretudo pelos mails, e mais esporadicamente pelo telefone, manifestei num e-mail final o meu desapontamento com a atitude dela. Porém, agradecendo-lhe o facto de ter despertado em mim inopinadas sensibilidades. Primeiro a poesia, e agora a motivação para a construção de um conto ou uma história, mas que até poderá ser uma novela (mais dificilmente um romance). [Para escrever uma coisa assim é preciso ter algo para contar e, sobretudo, é preciso ter vivido e sentido algo interessante que possa ser reduzido a escrito. Finalmente, tenho algo com substância para enformar uma estrutura ficcional mais ampla, que obrigatoriamente extravasará o domínio das experiências pessoais e da realidade.]

Presumo que cometi novo erro, pois esta revelação terá sido entendida como um acto revanchista. É o quanto posso especular a partir da convicção de que ela passou a comentar estes factos com os amigos. Procura apoio? Procura atingir-me? Por enquanto não me sinto atingido, nem incomodado. E espero não vir a sentir-me assim.

"O paradoxo não é meu. Sou eu"
(F. Pessoa)

Teatralidades

O jovem congelou ao entrar em cena e, estático, mais não fez do que balbuciar a fala, de olhar arregalado e vítreo. Ali, imóvel, na esquerda baixa. A expressão descontrolada do rosto, e o movimento incerto do braço direito flectido, pairando vago, transformaram-no num ser grotesco, quase irreal, que nos arrancou, a nós, espectadores, profusas gargalhadas de puro gozo. E continuou, alternando o tom monocórdico discursivo com umas inflexões guturais incompreensíveis que nos inchavam o rosto de galhofa e soltavam lágrimas de gáudio.

Esperei-o à saída. Vinha cabisbaixo, abatido, miserável. Coloquei-me à sua frente exibindo, no alto do sobretudo e sob o meu admirável chapéu à Bogart, um sorriso de gratidão, e disparei com firmeza:
- Foste grande, pá. Magnífico!
Levantou a cabeça, e do rosto triste e pesaroso saiu, à meia voz, e em tom de confissão:
- Aquilo não era assim. Eu é que não consegui…
- Qual quê! Atalhei, não lhe deixando margem para protestos.
– Foste Sublime!
- O grande actor não é o que se mascara e encarna a personagem com um rigor inaudito e virtuoso. Grande, grande mesmo, é aquele que despe as máscaras e se mostra, revelando um outro eu que é seu, que é ele. E depois, todos os que me fazem rir merecem a minha admiração. Aliás, detesto, e sempre detestei pessoas que se levam demasiado a sério. Que se levam completa e permanentemente a sério. São anormais e inumanos. São bestas. Portanto, parabéns! Ainda que tenhas ficado decepcionado e desiludido, o que fizeste foi sublime.
Olhou-me com alguma curiosidade mas não respondeu. Continuei:
- Agora vais passar aquela porta, percorrer o átrio e descer as escadarias. Mas não o faças com esse semblante abatido, de derrota, de falhanço. Ergue a cabeça e abre um sorriso, o sorriso do atrevido que ousou ir além do habitual, do tradicional, do óbvio, do banal.
Deixei-o seguir à minha frente e, pela postura e andar decidido que foi adoptando e pelas manifestações de simpatia que outros espectadores lhe dispensaram, já na rua, percebi que levava o tal sorriso nos lábios.
A minha felicidade completou-se quando abotoei o sobretudo, enrolei o cachecol e enfrentei a noite fria na passeata de meio quilómetro que me conduziria a casa.
A vida é uma coisa tão simples. Porque me esqueço tantas vezes desse facto?

F. Castelo
2006-01-31

prosa poética em carta ao jeito de 600

Mui estimada e formosa donzela, acontecendo continuar a ser alvo de episódicas inquietudes sentimentais provocadas pela preciosa existência da vossa pessoa, e não obtendo qualquer resposta às simples interpelações que vos endereço, resta-me ir suavizando este miserável existir entrecortando momentos de alegre lucidez com irrequietos acometidos de coração, quando não melancólicos e absortos estados de espírito, que muito me mofinam a alma. Confinado assim, por vós, cruel princesa, às coisas do imaginário, quiçá por receio (infundado, vos garanto) de que desatine o coração em bater mais do que deverá, qual corcel em desabrido galope por montes e vales, sem freio nem mão que o tolha, eis-me imaginando interrogativas questões que vos colocaria, se vós fosseis pessoa de dar resposta. Triste sorte a minha, pois que o não sois. Assim me fico na hipotética inquirição.
Ride-vos, entretanto. Que mais não vos posso dar (porque vós não o aceitais, que assim se entenda). Mas ride-vos com gosto, com muita alegria. Por mim, bem deveria rir todo o mundo para vós, juntando em vosso coração a maior felicidade que o Universo permitisse.
Avanço.
E começo, repetindo-me (o que prova que infanções ou homens bons, quando apaixonados, andam igualmente parvos): - Existe algum donzel ou cavaleiro pelo qual vosso coração suspira, sim, ou não? Se existe tal homem, tão cheio de sorte, dizei-me ó mais linda princesa: - Diz-vos ele em cada dia que o Sol brilha, todos os dias da vida, que sois vós a mais linda de todas? Não me respondas que “tal coisa não é preciso”, pois não é uma questão de necessidade, é uma questão de merecimento. Assim o mereceis vós, gentil e doce dama.
E agora intercedo por mim: Se ele não diz tal, posso dizer-vos eu? Todos os dias? Se SIM, mandarei um pombo-correio com tal mensagem. Saiba ele o caminho e evitar a soltura das gaivotas e sereis recebedora dessas justas e puras homenagens de preito.
Sabendo-me homem nem sempre de perfeito juízo e por bastas vezes até um bocado irracional, mas cumprindo também alimentar esse lado menor da personalidade, por isso pergunto: - De que Signo sois? Balança, Aquário ou Capricórnio, ou um dos outros será? Bem gostaria de consultar os astros. Talvez as que brilham na abóbada celeste me respondam, cousa que vós tanto brilhando cá em baixo o não fazeis. Que estrela caprichosa sois, menina.
Uma última questão vos coloco, à qual não respondereis, pois claro. Mas ainda assim aqui deixo: - Querendo convosco conviver um pouco, para o que vos poderei convidar? Para um bailar, um passeio, ou um simples jantar? Dizei-me, amiga (não me dizendo nada, claro está).
E termino.
Bem mandada e entregue deveria ser esta missiva, escrita a pena sobre pergaminho, e devidamente lacrada. Mas assim não será, por receio de espiões dessa gente que não acredita em amores e paixões.
Junto tanta coragem como a que a Gil Eanes usou para passar além do Bojador e… atrevo-me a oferecer-vos um beijo. Aceitai, por amor, amizade, caridade ou … economia. Sim, porque sendo oferta vale a pena aproveitar, neste mundo louco em que até para mandar um beijo para o lixo, também é preciso pagar.
Assim, beijo a vossa linda mão.
PS: E não aguardo resposta. Seria tortura, como da Inquisição.

F. Castelo
;D

poema a umas mãos

Foram as mãos. Aquelas mãos brancas, pequenas e delicadas, que numa manhã de Inverno me seduziram e encaminharam o olhar para aquele rosto sereno, angular, com uma boca distinta e uns olhos escuros enormes. Fiquei impressionado.
Meses depois, exposta, ali, à minha frente, com risos largos que revelam a beleza de uma boca povoada de perfeitos e alvos dentes, e os mesmos lindos e brilhantes olhos que lhe iluminam o rosto, por vezes misterioso, traindo naquele momento a fugaz emoção da experiência nova, a curiosidade e, até, alguma insegurança, frente à luneta mágica que a explora, eis que de repente me atinge em cheio.
Acertou mesmo no meio de mim. Com toda a brutalidade. Foi faca, foi bala, foi bomba, foi mais, foi um autêntico aríete que me implodiu o ser.
E foi ela, também, talvez com o olhar hipnótico, que me reconstruiu outro. Um novo ser, com um novo olhar, escravo de uma nova e profunda paixão, mais profunda do que qualquer alicerce de qualquer muralha de qualquer castelo. Uma avassaladora paixão, como jamais sentira.
… E nos dias seguintes milhões foram as facas que se enterraram no meu peito. Sucumbi, ajoelhado, vergado sobre a força que me constringe este peito, possuído por esta angústia medonha que me cerca, implacável, como uma escuridão insidiosa.
Nos dias seguintes andei errante, caminhando pelas ruas da cidade, às voltas, procurando, por não saber dela. De onde vinha, onde estava. E, gradualmente, uma monstruosa inquietude foi-me invadindo até à mais pequena molécula de mim, e a todas as partes de mim. E respirar era difícil. E parar era impossível. E queria chorar. Queria, tanto, conseguir chorar. Chorar com toda a força. Mas as lágrimas não fluíram. Não houve gotas para refrescar esta caminhada ao calvário.Perdi-me do que era antes e, assim, perdido, ando. Não me reencontrei ainda. Nem sei o que sou agora.… Neste estado de profunda catarse agarrei um lampejo de impulso racional e estabeleci o plano, diabólico, de assassinar esta paixão que me consome. Exorcizá-la. Não me escondendo, nem a evitando a ela, a das mãos lindas. Antes, procurando a sua companhia para primeiro, acalmar o turbilhão em que me transformara e para depois poder reconstruir uma realidade. A realidade da impossibilidade. Assim, afogo ilusões que acredito não poder transformar em vida nova. Numa nova vida. E recordo o poema que pede ao tempo para voltar atrás. Vã ilusão, confirmo. E sofro…tanto.…
E hoje vejo-a. Sem a procurar, é ela que vem, e sorrio-lhe, e sorri-me. Falamos. Mas não destas coisas, que ignora completamente. Toca-me suavemente no braço, como quem acaricia uma pena, com uma daquelas mãos que adoro, pequena, alva e delicada, para se aproximar e espreitar um postal que admiro. E o quinto dia do meu novo ser consome-se nesta efémera tranquilidade. Mas a dor continua, aqui, mesmo no cimo do peito, profunda, dominadora, esmagadora.
E as lágrimas continuam a não correr. E precisava tanto delas, para drenar este sofrimento que me consome, tanto como os áridos campos de hoje clamam por gotas providenciais que os venham aspergir e salvar da impiedosa seca. Assim mesmo.... Agora sossego um pouco. Tenho a promessa de tocar as mãos. Aquelas mãos brancas, pequenas e delicadas. De as pintar, gravar na tela onde poderei admirá-las, para sempre.E depois, … não sei. Talvez me reencontre, ou talvez fique perdido para sempre nesse limbo, para onde Afrodite me expulsou.

A HUMANIDADE EM 10 SEGUNDOS


"Naqueles dias em que te sentires orgulhoso dos grandes feitos da humanidade (ir à Lua, a compreensão do Universo, os computadores e a Internet) faz como eu, vem aqui e olha para estas fotografias durante 10 segundos."

Fotografia: Kevin Carter
Fotografia publicada em março de 1993 no “New York Times” e responsável pela ascensão de Kevin Carter como fotógrafo.
Em 1994, Kevin ganhou o Prêmio Pulitzer de Fotografia. Embora a fotografia seja impactante, o abutre não estava tão próximo do menino como a fotografia sugere — facto que continua causando controvérsias entre jornalistas e fotógrafos.
O garoto da foto chamava-se Kong Nyong e sobreviveu ao abutre, morreu em 2007.

Kevin Carter, o fotógrafo, suicidou-se em 1994. 

Entrevista ao Notícias de Lagos (excerto)

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NL- Comecemos pela tua actividade de fotógrafo, como é que começaste e que lugar é que a Fotografia ocupa na tua vida?
F.Castelo- Comecei a fotografar em 1977, numa abordagem exclusivamente amadora, em 1979 entrei para o Centro de Estudos Subterrâneos que tinha a sua sede num laboratório de fotografia do “Estúdio CS”. O ambiente de laboratório/estúdio, e os ensinamentos do Mário Santos, proporcionaram-me as bases da Fotografia. Mais tarde trabalhei no Laboratório Industrial Montecolor, na distribuição das fotos pelo Algarve, e esse contacto com o meio, com os profissionais e com alguns mestres da Fotografia permitiu-me evoluir mais um pouco. Actualmente, como técnico profissional de audiovisuais da Câmara Municipal, a Foto reportagem ocupa 90% dessa actividade, embora a minha paixão seja o retrato. Afinal, a alma da Fotografia. Mas é a vertente do hobby que mais tem contribuído para a minha evolução como fotógrafo. Desde os fóruns de discussão temática à exibição das minhas fotos e visualização dos trabalhos de outros fotógrafos na Internet, tudo isso me ocupa 2 a 3 horas por dia. É uma escola de aprendizagem contínua.

NL- Ser Fotógrafo implica saber olhar de forma diferente. Como vês a cidade e as suas mudanças nestes últimos anos? E as próprias pessoas?
F. Castelo- A cidade é bela, eleva-se sobranceira ao rio, com uma magnífica baía, inúmeros edifícios históricos e atractivos naturais suficientes para nos apaixonarmos pela paisagem e, paulatinamente, vai reunindo alguns aspectos de um pulsar urbano que só se encontra em cidades de maior dimensão. É evidente que não gosto das construções altas e que elas se assumem como “poluição visual” no contexto paisagístico que acabei de salientar. Sei que são os custos da urbanidade e da modernidade, mas será que não se poderia fazer um descontosito?! Que fosse um custo mais baixo?! Aflige-me pensar que a breve prazo não poderei fotografar nenhuma panorâmica das muralhas porque as construções, privadas e públicas, vão ocultando o amuralhado. E o perfil da cidade visto de longe, do mar ou dos Palmares por exemplo já é assustador. É pena.
No que respeita ao relacionamento com as pessoas, no âmbito da minha actividade, é notório que a difusão do uso da Internet e as inovações tecnológicas trouxeram uma grande desconfiança em relação ao acto fotográfico. De facto, deparo com uma dificuldade crescente em fotografar pessoas. Para não falar do problema de fotografar jovens e da apreensão que logo se levanta com relação à pedofilia. Mesmo agora relembro um episódio (risos) ocorrido em 2003 à porta do Cinema com uns fotógrafos do movimento “fotoalternativa” que trouxe a Lagos integrados na exposição “ponto.com”. Era noite, e o Aniceto Barbosa preparava-se para fotografar uns adolescentes (a quem ele tinha pedido para posarem, e que aceitaram), mas a um segundo do click um dos moços exclama em voz de pregão: ISTO É PÓS PEDÓFILOS?! Eu tenho esse momento registado porque estava próximo, junto à parede do Mullens. E o irreverente Aniceto suspendeu a fotografia e, decepcionado, murmurou-me: isto tá lixaaaado! (risos)
NL- E a actividade que desempenhas na Câmara Municipal, realiza-te enquanto “homem da imagem”?
F.Castelo- Sim. Porque gosto do que faço e porque integro uma equipa de gente criativa, de várias áreas, e também porque somos dirigidos com garra. E, se por um lado, a informação municipal não oferece tantos desafios e estímulos como a imprensa, por outro lado tem-me possibilitado realizar trabalhos mais elaborados e minuciosos. Em comum com a imprensa temos a celeridade da produção e os dead lines apertados, que muitas vezes nos põem em alta rotação. Para além da actividade na Câmara Municipal de Lagos, em que a Foto-reportagem é o trabalho mais requisitado, tenho outros projectos dos quais destaco: “Gente de Cá” e “Fios de Luz”. O primeiro pretende registar o maior número de lacobrigenses, no intuito de construir um arquivo de época, um registo de um tempo, o meu tempo. Entusiasma-me a ideia de “imortalizar” as pessoas. Registar o seu rosto para a eternidade. Penso que será um espólio valioso para a futura Fototeca Municipal. E por outro lado é uma espécie de demanda quixotesca, um exorcizar da inquietude e do inconformismo deixado pela destruição legal que teve lugar em 1992 ou 1993 (ordem de despejo e incineração) de um dos mais importantes arquivos fotográficos de Lagos. Perderam-se milhares de clichés de passes de pessoas de Lagos, Vila do Bispo e Aljezur.
O segundo projecto é mais de busca estética, uma experimentação que nalguns casos entrará no domínio da Fotografia conceptual, um exercício em que pretendo que cada foto seja cerca de 90% de preto e 10% de branco, respeitando o leitmotiv que elegi para este projecto: “a luz é como o azeite, basta um fio para temperar”. Estes projectos desenvolvem-se, em parte, no LAC- Laboratório de Actividades Criativas (antiga Cadeia), onde tenho uma cela (risos), digo: um estúdio. Já agora, aproveito para oferecer a possibilidade de fotografar quem quiser ser retratado, mas advirto que não são fotos tipo passe, pois não respeitando as normas de enquadramento e cor do fundo, não poderão ser usadas para BI’s ou passaportes. Para isso existem casas da especialidade. As fotos deste projecto, sendo propriedade minha, têm contudo utilização condicionada pela autorização do retratado e serão guardadas no meu arquivo pessoal e no arquivo da Câmara Municipal - como forma de garantir que o registo digital não se perderá e que irá integrar o espólio da tão esperada Fototeca, ou Imagoteca Municipal.

NL- Com o desenvolvimento das novas tecnologias, as máquinas digitais, os telemóveis que fotografam, qual vai ser o futuro da Fotografia na tua perspectiva?
F. Castelo- Encaro esse progresso como um mecanismo libertador da Fotografia e espero que a transforme em algo tão natural e aceitável por todos, que as pessoas deixem de se “encolher” quando estão sob a mira da objectiva. Nessa altura será mais fácil fazer Fotografia, boas fotografias. E não temo que essa universalização da Fotografia a desvirtue ou retire o trabalho aos fotógrafos. Repara que não é pelo facto de todos sabermos escrever que os escritores ficaram sem actividade. Porque escrever BEM, com a tinta na caneta ou com a luz na máquina fotográfica, continuará a exigir o concurso da imaginação, da sensibilidade, da intencionalidade criativa, em suma continuará a ser necessário exercitar o intelecto. Certamente iremos assistir ao pulular da pimbalhice fotográfica, já iniciada há alguns anos (lomografia, pseudo-conceptualismos e abstracionismos etc.), mas isso também é natural e tem o seu lugar na Fotografia.
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publicado aqui em Ago de 2006