Apetecia-me chamar-lhes FILHOS DA PUTA!


Apetecia-me chamar-lhes filhos da puta, mas não vale a pena. Para gente assim até seria um elogio.

Ladravam os cães ajudando os homens no cerco ao bicho. Mostravam os dentes, ameaçadores, mas temiam atacar aquele animal desconhecido. A mulher assomou à porta e, intrigada, acabou por sair a investigar a causa da algazarra. Percorridos os curtos metros que a separavam do bando eufórico deparou com um texugo, agachado, voltando-se à vez para cada um dos cães que ousava aproximar-se mais, assumindo uma posição defensiva que intrigava os canídeos. A mulher, recordando memórias da juventude e do conhecimento das coisas da Serra exclamou: - Ahhh! É um texugo. Deixem o bicho que não faz mal nenhum!

Os homens acabaram com o alarido, chamando os cães e afastando-se do animal, como se o facto de o saberem texugo o transformasse em camarada de jogatanas de cartas ou de exultantes sessões de futebol em frente do televisor. Deixaram o texugo esgueirar-se para as moitas. Não falaram mais sobre o assunto e voltaram ao trabalho. Regressada às lides da cozinha escutou a mulher, uns minutos depois, a voz de um recém-chegado que ouvindo a história pergunta pelo bicho, que nunca vira um, que o queria ver. Os outros indicam-lhe o provável esconderijo do animal e ele para lá se encaminha rapidamente. A mulher, atarefada no seu trabalho, esqueceu o episódio.
Ao meio-dia, quando todos se sentavam à mesa para a refeição que a mulher ia servir, disse o tal retardatário, ignorante do mundo animal, em conversa com os outros: – Nunca tinha visto um bicho assim, com uns riscos no focinho… A mulher interrompeu-o : - Pois eu vi muitos na minha infância. São bonitos, e não fazem mal a ninguém. O homem atalhou de imediato, em voz bem viva e de rosto aberto em largo e generoso riso: - Pois este não faz mesmo mal nenhum, dei cabo dele à porrada.
Assim fizera. Levara consigo um pau comprido, não fosse o tal texugo revelar-se um animal perigoso. Afinal, não parecia nada perigoso mas, pelo sim pelo não, desalojou-o do improvisado covil, sob a densa ramagem de um arbusto enorme e, aproveitando a confusão do animal devido à presença dos cães, assestou-lhe umas valentes pauladas no lombo e na cabeça.
Foi mais ou menos assim que aconteceu no mês de Junho de 2007, na freguesia de Odiáxere, no concelho de Lagos.
Que raio posso dizer sobre isto senão que tal acontecimento é natural num país em que a maioria da população cada vez se afunda mais na mais abjecta ignorância. Tem este país investido largamente no fortalecimento desta prole de bárbaros, idiotas e débeis mentais que medem a inteligência pela capacidade de nomear os melhores e os piores jogadores de futebol, de saber quantos liftings faciais ou rectais fez a Tia asquerosa que só é gente na TV - essa TV que os alimenta a biberão com um inexaurível esgoto, essa televisão nacional que é o veículo privilegiado para a propagação da doutrina maior do regime: instalar e manter a ignorância e a boçalidade; intoxicar e desinformar; controlar assim, facilmente, a dócil manada de asnos.
Era apenas um inofensivo texugo, porra!

Saber mais sobre texugos em Portugal, clica aqui


por cima das nuvens



Dia de chuva. Chuva miudinha, da que cai para chatear. Dia de chumbo que acinzenta o ânimo e a alegria. Mas, lá por cima dessas nuvens radia o Sol iluminando o que, cá por baixo, teima em tristeza. Só quem já atravessou estas nuvens numa Asa Delta e descobriu um dia de Verão para lá dessa cortina horizontal de água suspensa percebe quão efémero, falso e enganador é o dia cinzento. Deixo que umas volutas de fumo se soltem do fiel cachimbo e deixo, também, que me enganem essas singelas fumaças, vendo-as ascender e engrossar as névoas suspensas lá em cima. Em breve cairão em lágrimas de um pranto que, esgotado, revelará um sorriso renovado. E amanhã poderá ser dia de praia.


são azougues marados


As palavras são como ímans.
Andam-me na cabeça,
polarizadas com a mesma carga,
recusando ligar-se.

Terei que aguardar
uma tempestade
que mude o sinal magnético
de algumas.


Ou isso,
ou continuo
o mesmo indolente
da treta.

Há por aí alguém que se meta comigo, que me irrite, que me faça eriçar o pêlo?

Sentimentos e Ilusões


A paixão é uma ilusão”, dizem alguns.

Como qualquer outro sentimento ou impressão também uma paixão pode revelar-se uma ilusão mas, da mesma forma que uma andorinha não faz a Primavera também uma paixão ilusória não tributa toda a Paixão. O problema não residirá na natureza arrebatadora e fugaz que caracteriza a maioria das paixões mas, mais, no facto de não a compreendermos e, por conseguinte, não aceitarmos o seu carácter singular. Singular, quanto à intensidade da sua essência. Singular, pelo facto desse fogo que arde tão visível nos deixar sensíveis apenas a determinados aspectos do alvo das nossas atenções mas, simultaneamente, ofuscados em relação a outros aspectos.

O problema reside na forma como lidamos com esse sentimento, como “negociamos” com a Paixão. A vida moderna, com o seu ritmo alucinante, mais os preconceitos e as convenções sociais, mais o crescente egoísmo de cada um de nós – somos cada vez mais exigentes com os outros e raramente atendemos ao reverso da medalha –, são factores que nos transformam em seres com pouca disponibilidade para aceitar as diferenças do outro, dificultando dessa forma a vivência da Paixão. Pelo menos, em relação à forma como ela tem integrado a cultura humana desde há mais de dois mil anos.

Assim, podemos identificar como causas que cada vez mais dificultam a ocorrência da paixão, a recusa de entrega incondicional ao outro e a incapacidade de aceitar aquilo que ele é - o conjunto das suas virtudes e defeitos. Insisto na importância deformadora desta exigência da perfeição. E como se isto não bastasse, concorre ainda o desconhecimento ou a incompreensão de que os sentimentos profundos não se estruturam sobre consensos feitos de cedências que buscam um qualquer compromisso ou denominador comum – coisa que não seria mais do que falsa harmonia, um autêntico pântano para a verdadeira Paixão.

Mas é a natureza intensa e arrebatadora desse sentimento que nos garante que ele não é uma ilusão. Bem pelo contrário, esse pulsar ardente, esse estado de vigília em que todos os sentidos estão despertos – com todos os nervos à flor da pele –, é uma das maiores afirmações de que estamos vivos, é um grito do ser concreto. Portanto, a Paixão encontra-se exactamente nos antípodas da ilusão. Ou não passariam de ilusões todas as maravilhosas criações da sensibilidade humana: a música, a poesia, e todas as artes, sempre movidas pela inquietude dos sentidos que a paixão provoca.

Hoje, procuramos moldar os outros à nossa imagem. Fazer com que se adaptem àquilo que somos. E que outra coisa se poderia esperar da cultura “fast-food”, do “pronto-a-vestir” e da “abertura fácil”, desta cultura de clichés repetidos ad aeternum?! Queremos tudo segundo um padrão por nós previamente definido (ou definido por outros e por nós inconscientemente integrado), tudo por encomenda. Mas as pessoas ainda não são fabricadas com ingredientes previamente definidos e seleccionados. O conjunto das nossas experiências pessoais, e o carácter único e diferenciador de cada um de nós, ainda garante uma razoável independência dos sentimentos em relação à cultura globalizante e igualizada que os mesmos humanos constroem. Valha-nos isso ou, então, sim, a Paixão seria uma simples quimera.

Nesta matéria, havendo problema para o qual se procure solução, não saberei eu indicá-la mas, em todo o caso, desconfio que passa por “rodar o objecto”, procurando os seus aspectos positivos, ainda que se trate de um objecto/acontecimento, aparentemente, exclusivamente negativo. Nada de mau do que me aconteceu na vida foi exclusivamente mau. Todos os acontecimentos negativos possuem um ou outro aspecto positivo, temos é que descobri-lo. E dar-lhe uso.

A ti, que dizes que a paixão é uma ilusão, desejo-te felicidades e faço votos de que venhas a conhecer, e viver, uma verdadeira paixão – ainda que raramente a Felicidade e a Paixão coexistam pacificamente.

claustro fobias VII (excerto)

II

António, encostado ao balcão, desviou a sua atenção das bolhas de gás em ascensão vertical no interior do copo de imperial e acompanhou, com o olhar, o grupo que deixava o bar rumo à noite estival algarvia. O alegre bando, de sete ou oito pessoas, terminara uma petiscada de chouriça assada, e outros condutos tradicionais, convenientemente regada com tinto de qualidade, suporte generoso para as conversas de navegações lacobrigenses, quer as da Internet quer as dos Descobrimentos. Sem outro motivo de atenção, António escutara, disfarçadamente, parte das conversas. Discretamente, sim, que isso de ouvir conversas alheias não é bonito - mas que culpa tinha ele se já não falavam só os falantes mas o licor também?! Suspirou de enfado, agora que terminava o único motivo de distracção e, com isso, ficasse ele em perigo de se remeter aos pensamentos de sempre, àquelas ideias em beco, tão enviesadas, estéreis e confrangedoras meditações.
Transposta a porta envidraçada, a animada tertúlia encontrou-se no exterior, admirando a enorme lua cheia que conferia ao casario fronteiro um aspecto estranho por via das sombras projectadas entre si e que a fraca iluminação pública não conseguia atenuar. Era uma esplêndida noite primaveril.
O homem saiu da sombra do prédio em construção avançando, hesitante e gingão, na sua reduzida estatura. Trazia, colocados, uns auscultadores enormes, de aparelhagem áudio, com o fio helicoidal pendurado ao longo da camisa escura; nesta triste figura de ar grotesco apresentou-se, balbuciando: - Boa noite. - Sou o Henriques.
(texto integral em pdf no cimo da página de entrada)

toda a gente é uma barata


"Só quem tem dinheiro é que se pode dar ao luxo de pensar no amanhã longínquo; quem não tem, preocupa-se com o amanhã do dia seguinte.” - Vanus de Blog em comentário no blogue TheOldMan
“Não é quem tem dinheiro que se preocupa com o amanhã longínquo. Isso é apenas uma “pose” como qualquer outro tique de “tia”, e fica tão bem como ter uma empregada chamada Matilde…” - Resposta de TheOLdMan a Vanus de Blog.

Gastam rios de dinheiro em sensibilização e educação ambiental. Fazem conferências, palestras, acções, brincam com os putos e inventam canções. Distribuem t-shirts, panfletos, jogos educativos, aqui e ali apõem autocolantes explicativos, dão voz a ilhas ecológicas e nome próprio às caixas de recolha de pilhas. Incentivam a adopção do sistema de separação do lixo, até o substituem, eufemisticamente, por “resíduos sólidos” aplicando o termo a toda a lixarada que produzimos. Enfim, perfumam a porcaria com Channel N9 (desde a porcaria matéria à porcaria mental) mas nada disso muda a mentalidade das pessoas, no essencial. Pudera, para além do eco obtido, com maior ou menor sucesso, junto da população escolar - a mais receptiva -, o grosso do problema mantém-se inalterado face a uma população a caminhar para o envelhecimento e em que as classes economicamente mais desfavorecidas não estão receptivas à "reciclagem" das mentes. E desenganem-se os peritos em ecologias e outras teorias quando obtêm sorrisos e anuências por resposta, julgando efectivada a conversão à sua mensagem, porque o que as gentes desejam mesmo é que lhes desamparem a loja. É assim em grande parte das periferias das cidades e nos aglomerados humildes de gente que vive “à rasca”. E eu compreendo-os. Porque raios hão-de colaborar na protecção de um mundo do qual não colhem as boas coisas? E podem ser criticados/responsabilizados por isso? Escutem o TheOldMan:“Só divido a responsabilidade quando compartilho igualmente das vantagens".

a beleza de Cleópatra


«Surgiu há dias com grande destaque mais uma descoberta "sensacional". Afinal Cleópatra não era uma beleza, contrariamente ao que sempre se pensou, isto de acordo com uma moeda em que se representa a efígie da famosa Cleópatra VII, a última da uma famosa linhagem da Dinastia Macedónica (Lágida) do Egipto.
Ora bem, a verdade é que esta moeda é conhecida há muitos anos, o que leva a perguntar qual o objectivo desta operação de marketing. Provavelmente a necessidade absoluta de aparecer, de ser comentado, visto, falado, etc. Esta discussão, afinal fútil, sobre a beleza da rainha egípcia também não é novidade nenhuma.
Quanto à fantasia que é a identificação física de Cleópatra com célebres actrizes, não apenas Elizabeth Taylor, mas também outras de quem já ninguém se lembra, como Claudette Colbert e a fabulosa Vivian Leigh, deixemo-la para os estudiosos do cinema e também para os que, como eu, têm saudades dos bons tempos do peplum e do cinema sem pipocas.
A História Antiga e a Arqueologia estão sob uma investida de vulgarização sem qualidade e de inaceitáveis operações ditas estratégicas, que, maioritariamente, mais não visam que apreender públicos, logo, verbas.
Já agora, alguém se interrogou sobre a evolução dos padrões de beleza? Basta olhar as senhoras de Rubens ou de Boucher, ou a Vénus de Arles, retocada para ficar ao gosto da corte do Rei Sol, para que se compreenda toda esta infantilidade intelectual. Até porque quem o feio ama, bonito lhe parece...»
Vasco Gil Soares Mantas (FLUC)

A este respeito ia tecer algumas considerações sobre o assunto da beleza e da sua reprodução artística quando me lembrei de algo que li, escrito por um velho colega meu – um bloguista do camandro. Aqui vai.

“A pintura e, em geral, a arte imitativa, por um lado, realiza a sua obra mantendo-se afastada da verdade, por outro, dirige-se àquilo que em nós existe de mais afastado da inteligência, fazendo-se sua amiga e companheira por nada de são nem de verdadeiro.”
Platão – República, X


Se quiser saber mais sobre a questão da beleza de Cleópatra julgada pela sua representação numa moeda, veja aqui, em inglês: http://www.ncl.ac.uk/press.office/press.release/content.phtml?ref=1171452331

claustro fobias - I




Remava o mais novo, calado e ouvindo o cadenciado mergulhar dos remos na água fria e invisível que a noite escondia. Avançavam lentamente naquele mar chão, de águas de chumbo. O outro falava invectivando pela enésima vez as faculdades mentais do remador: - És um imbecil, um parvo, uma autêntica cabeça de abóbora. Desde que enxofraste o juízo com essa ideia louca de quereres casar com uma freira, só fazes disparates. Onde já se viu, deixares acabar o gasóleo da traineira? E ainda faltam umas boas seis milhas para alcançar terra. Que burro! Mas que grande burro!

Natal?

"O italiano Piergiorgio Welby, que sofria de distrofia muscular progressiva e que há alguns meses pedia a suspensão do tratamento médico que o mantinha com vida, abrindo um amplo debate sobre a eutanásia na Itália, morreu nesta quinta-feira aos 60 anos."

A mesma Igreja que dá o perdão a um qualquer assassino e celebra missa pela sua alma, condena, excomunga e recusa celebrar a mesma homilia por um ser humano que, em sofrimento atroz e continuado, decide pôr fim à sua vida.
Esta recusa em reconhecer o direito de cada um dispor da sua vida, é uma das mais abjectas e ultrajantes atitudes da Igreja. Já em tempos de João Paulo II, a sua condenação pública dos movimentos latino-americanos da “teologia da libertação”, desmascarou claramente o arcaísmo e o distanciamento que a Igreja mantém em relação à realidade e aos problemas da civilização contemporânea.
Continua a ser uma Igreja que pretende estar mais próxima de Deus do que dos Homens. E uma Igreja, assim, agarrada a dogmas tão arredados da condição humana, só vai cavando a sua própria sepultura. E ainda bem, porque tamanho ninho de hipocrisia só merece mesmo é apodrecer. Apodrecer lentamente, para que não se “construam” mais mártires ou falsos profetas.

Bom Dezembro, e melhor Janeiro, para todos.

Um Conto de Natal


Eram quatro homens de meia-idade sentados no chão do segundo patamar da escadaria do metro. Tocavam instrumentos estranhos produzindo uma exótica e doce melodia e a criança dançava. Era uma menina com pouco mais de três anos de idade que se contorcia graciosamente ao som da música. Dançava, e sorria. Sorriu sempre, enquanto os transeuntes apressados entravam e saíam do metro. Num cartaz ao lado lia-se: Não queremos dinheiro, apenas um sorriso. Fosse pela sonoridade musical e beleza estética do conjunto ou pela mensagem inédita, os passantes hesitavam, suspendendo o ritmo do trânsito quotidiano e escutavam aquela singular banda de rua. Depois, prosseguiam na sua azáfama mas, agora, com um sorriso nos lábios e uma pequena alegria nos corações.

Anos volvidos, a pequena que então dançara no metro, pisava os maiores palcos da Europa e era aplaudida pela sua performance de dançarina, e pelo sorriso radiante que sempre ostentava, em público ou em privado, na actividade artística ou nos momentos mais reservados da sua vida.

Com mil cuidados, reservas e previdências fora educada na eterna presença do sorriso, na artificialidade de uma existência preenchida pela felicidade, sem margem para a tristeza, sem conhecer o sofrimento, sentir a mágoa, ou a mais simples desilusão.

No seu vigésimo aniversário conheceu um jovem de quem esperou um sorriso eterno, como o seu. Mas tal não era possível. O jovem não podia sorrir vinte e quatro horas por dia.

Pela primeira vez na sua vida encontrou a tristeza, sentiu a mágoa, experimentou o sofrimento e, desiludida, suicidou-se.

Há duas pessoas em mim

Há duas pessoas em mim.
De um lado há um sacana,
sentado à sombra de uma árvore,
que aceita a necessidade de ser egoísta
para poder escrever sem transigir
nas convenções, nos preconceitos
e nas hipocrisias do quotidiano.
Do outro lado há um homem
que se comove com o pardal juvenil
que cai da árvore.
Entre os dois, apenas a verdade
que interessa:
a árvore.

Até vi estrelas


Há duas coisas que sempre pensei deixar para a ociosidade da aposentação: a Astronomia e a Botânica. Assuntos de que pouco ou nada sei, ainda que me despertem a curiosidade.
Há dias, deportado para o quintal em companhia do meu “melhor amigo de quatro patas”, no decurso do exercício desse vício que nos queima diante dos olhos outros tantos euros como os que se volatilizam nas mãos dos nossos queridos governantes, segui o percurso ascendente da voluta de fumo expirado e pousei os olhos numa linda estrela de pulsar avermelhado.
É uma das estrelas mais notórias do quadrante Este do firmamento, nesta altura do ano. Desta vez, irritado pelo peso da ignorância, tomei a decisão de procurar identificar o astro em questão. E já agora, as outras quatro ou cinco estrelas mais proeminentes da abóbada celeste nocturna.
Regressei ao computador e à Internet e procurei um programa de mapas do céu. Acabei por descarregar e instalar o SkyMap.
Corrido o programa depressa introduzi as coordenadas geográficas de Lagos, escolhi a vista do quadrante Este e apreciei a miríade de pontinhos luminosos que salpicaram o ecrã negro. Um círculo irregular indicou a posição da Lua naquele momento, elemento referencial que me ajudaria a identificar as estrelinhas. Imprimi a imagem exposta no monitor (invertida, pois seria ridículo imprimir uma folha a negro) e, munido do papel ponteado, voltei à companhia do Bobi e das iluminárias celestes.
Identificado o alinhamento das três estrelas centrais da constelação de Orion, que se apresentava mesmo no centro do meu enquadramento panorâmico, descobri que a tal estrela que pulsava avermelhada era nada menos do que a famosa Betelgueuse.
E seguiu-se uma entusiasmante sessão de identificação de outras galáxias e sóis prestigiados (sobretudo pelas minhas leituras da colecção Argonauta): Aldebaran, Rigel, Procyon, etc.
Nessa noite é que vi as estrelas.

Referendo Sobre a Despenalização do Aborto


- uma posição -
«O que está em discussão não é a liberalização do aborto, nem sequer se se é a favor ou contra. Em causa está, tão só, a despenalização do aborto. E alguém pensa que as mulheres que abortam o fazem com espírito festivo e leviano?» Anónimo na Internet.



Abortar é uma decisão que, embora possa ser discutida com maridos ou namorados, em última análise diz respeito apenas à mulher pois o grau de envolvência do homem depende da profundidade da relação estabelecida entre o casal, e essa é muito variável. Assim, ao votarem pela despenalização, os homens não estarão apenas a marcar a sua posição sobre o assunto mas, sobretudo, a dar um voto de confiança às mulheres e a colocar o centro da decisão onde ele realmente pertence. Trata-se de deixar em aberto a possibilidade de cada mulher poder fazer essa escolha. E essa possibilidade dever ser garantida pois corresponde a uma das liberdades fundamentais do indivíduo.


Por outro lado, se invocamos valores éticos e morais, então já chega de ignorar as terríveis consequências do aborto clandestino, situação resultante da Lei em vigor no nosso país. E aqui reside o cerne da questão. Será que a despenalização do aborto destina-se apenas a evitar a chaga social do aborto clandestino? Penso que não. A despenalização vai também permitir à mulher que pretende realizar um aborto, o contacto com técnicos de saúde, nomeadamente na área da psicologia, criando oportunidades e condições para melhor avaliar a sua posição. Assim o revela a experiência de países em que o aborto é legal, e que registam uma considerável percentagem na reconsideração das suas posições e, consequentemente, das suas decisões finais. E é fácil compreender isto se considerarmos que na situação actual a mulher tem que tomar uma decisão tão difícil num ambiente de quase total isolamento, sem qualquer apoio e em condições de fragilidade psicológica e emocional. Só por si, este facto constituiria razão suficiente para dizer SIM à despenalização da IVG.


«Como acho que abortar é matar um ser humano começo sempre por dizer que, para mim, a vida começa na fecundação. Eu gostava que, pelo menos uma vez, alguém favorável ao aborto dissesse quando começa a vida para ele.» Anónimo, na Internet.


Paradoxalmente, muitos dos que pretendem defender os inocentes pré-nascituros de tão vil acto, são os mesmos que abençoam as guerras que devoram tantos jovens, como alguém muito bem disse: «...as guerras alimentam-se de fetos crescidos cujas mães trataram e acarinharam durante cerca de vinte anos.» E são também os mesmos que dinamizam campanhas não só contra a despenalização do aborto mas também contra o uso de contraceptivos, nomeadamente a pílula do dia seguinte, existindo até farmácias que se recusam a vendê-la (o que é ilegal!), apelidando-a de método abortivo, quando a Organização Mundial de Saúde afirma que «as pílulas anticoncepcionais de emergência não interrompem a gravidez e, por conseguinte, não constituem uma forma de aborto». Até apetece perguntar: e para estas hipocrisias não há referendo?


O Bispo do Porto não concorda com a penalização das mulheres que praticam o aborto. Em entrevista ao EXPRESSO, D. Armindo Lopes Coelho assume esta discordância com a posição oficial da Igreja, mas explica que a única solução para o problema é a criação de condições sociais para que as famílias possam criar os filhos.


Mas como, entretanto, os nossos governantes não conseguem criar essas condições, respondo SIM à pergunta: Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?
.



thanks to: http://semiramis.weblog.com.pt/ e http://theoldman.blogspot.com/

gosto de outras paragens, mas não do acto de viajar

Que é como quem diz: gosto de estar, mas não de ir e vir. Sempre fui assim. Quando se aproxima a viagem agendada aperta-se-me qualquer coisa no fundo do estômago. Irritam-me os horários, as ligações e mudanças de transporte, a bagagem. Depois, é a sensação de preferir estar noutro lá que não aquele, ou mesmo estar cá. Enfim.
Os artigos que encontrei na net referentes ao velho sonho da teletransportação - suscitados pelos livros e filmes de ficção científica - dão conta do estado actual do conhecimento da "mecânica quântica" (espero que o termo seja correcto).
Aqui ficam as transcrições e os respectivos endereços.



Teletransporte

"... a equipa de Eugene Polzik conseguiu teletransportar foi a informação quântica de uma nuvem de átomos de césio para outra nuvem situada meio metro ao lado. Mas deu um salto gigantesco ao conseguir ler a informação quântica original (à tempeatura ambiente, e não a poucos graus Kelvin) sem a destruir. Este era um dos grandes óbices ao processo do teletransporte e está bem patente no princípio da incerteza de Heisenberg. E o que é que vamos fazer com isto? Saltar directamente da cama para o posto de trabalho sem necessidade de estar em filas de transporte? Fazer a barba e encher o bandulho pelo “caminho”? Ainda não. As aplicações imediatas são na comunicação e computação quântica, para a qual já há protótipos em curso. Traduzindo por miúdos: computadores e comunicações estonteantemente mais rápidos. Isso, sim, é um futuro próximo."
http://inacreditavel.ioio.info/
Danish scientists achieve advanced quantum teleportation
at http://www.iskenderiye.com/wordpress/?cat=12078


Teatro do Absurdo (revisto em 2007.06.25)

NOTA AOS LEITORES: Considerando o elevado número de leitores deste artigo, cumpre-me alertar para o facto de as ideias aqui expostas não passarem de opiniões do autor, simples espectador de Teatro - e sem qualquer formação académica, ou de outra índole, na área das artes. Alerto especialmente os estudantes para tratarem com a máxima reserva, e profundo sentido crítico, o conteúdo do presente artigo.
"O Futuro está nos Ovos" de Ionesco, por: OMINED, TeatrOficina e Grupo Dramático do Grupo Coral de Lagos - 2005


Teatro do Absurdo é uma designação genérica formulada pelo escritor e crítico (francês) inglês Martin Esslin para designar um importante acontecimento, no Teatro do século XX, que rompe com os conceitos tradicionais do teatro ocidental. O absurdo das situações mas também a desconstrução da linguagem*, enquanto tal, conferiu a este acontecimento um movimento dramático de marcada profundidade. Denunciar a futilidade do quotidiano, a existência despida de significado e colocar em cena a irracionalidade que grassa no mundo e onde a humanidade se perde, são os objectivos principais.

Nesta corrente se inscrevem, desde logo, o teatro de Beckett, Ionesco, Arrabal, e as primeiras peças de Adamov e de Genet. Bebendo nas fontes filosóficas, esta concepção da arte de representar encontra apoio nos escritos teóricos de Antonin Artaud e na noção brechtiana do efeito de distanciamento (um ajustamento da representação dos actores e da organização geral do espectáculo de modo a realçar a expressão da crítica social, tendo como finalidade o fortalecimento de uma consciência de classe nas massas). A aparente condição absurda da vida é um tema existencialista que encontramos também em Sartre e Camus, mas em que estes autores recorrem à dramaturgia convencional, desenvolvendo o tema segundo uma ordem racional.
Nesse ambiente pós-guerra floresce a tentação dos escritores pela experiência de um contacto mais directo com o público, evidenciam-se, pela importância das suas obras: Henri de Montherland (La Reine Morte, Fils de Personne, Malatesta, Le Maître de Santiago, Port-Royale, La Ville dont le Prince est un Enfant, La Guerre Civile); Albert Camus (Calígula, Le Malentendu, Les Justes, LÉtat de Siége, Requiem pour une Nonne, Les Possédes); Jean-Paul Sarte ( Les Mouches, Huis Clos, Morts sans Sépulture, Les Maines Sales, La P. Respectueuse, Le Diable e le Bom Dieu, Nekrassov, Les Séquestrés d’Altona). Depois surgem Jean Genet (Les Bonnes - 1947), E. Ionesco (A Cantora Careca e A Lição – 1950) e S. Beckett (À Espera de Godot - 1953), que iniciam a geração da abordagem expressionista, psicanalítica, que partindo de Rimbaud, Lautréamont, Jarry e Strindberg desaguam em Michaux, Kafka, Artaud e outros. É o tempo em que as angústias existenciais, as revoltas interiores, as tentações niilistas se cristalizam na sátira e na ironia repleta de humor negro. O teatro proclama uma vontade revolucionária de mudar a vida.
Indubitavelmente influenciado pela peça Huis Clos**, de Sartre, o Teatro do Absurdo não foi, porém, nem um movimento nem uma escola e todos os criadores implicados mostram-se extremamente individualistas formando um grupo muito heterogéneo. Em comum, partilham a rejeição do teatro tradicional e a adopção da caracterização psicológica, da coerência estrutural e do poder da comunicação pelo diálogo.

Nos anos 50, Samuel Beckett e Jean Vauthier - herdeiros de Alfred Jarry e dos surrealistas - introduzem o absurdo no seio da própria linguagem, pondo em evidência a dificuldade que temos em comunicar e compreender o verdadeiro sentido das palavras, e a consequente angústia de o não conseguirmos.

Recorrendo a processos de distanciação**** e de despersonalização estas peças desmontam as estruturas da consciência e da lógica da linguagem e expõem os anti-heróis sujeitos à sua fatalidade metafísica, seres errantes destituídos de referenciais, como que aprisionados por forças invisíveis num universo hostil. E é essa fragilidade que se denuncia ao mostrar o abismo que existe entre os princípios nobres que somos capazes de enunciar e eleger e a praxis do quotidiano.

As peças obedecem a uma lógica assente na caracterização psicológica e no estatuto das personagens, no enredo, nos objectos e no espaço – identificado/relacionado com a personagem.

Podemos identificar, na base do Teatro do Absurdo, o contributo de
Alfred Jarry (18731907) e como percursores: Guillaume Apollinaire (18801918); Antonin Artaud (18931948); Roger Vitrac (18991952); Julien Torma (19021933). Dos pioneiros, autores que vão impulsionar verdadeiramente este teatro d’avant-garde, destacam-se: Samuel Beckett (19061989); Arthur Adamov (19081970); Eugène Ionesco (19091994); Jean-Paul Sartre*** (1905 - 1980). E na galeria dos herdeiros constam: Boris Vian (19201959); Edward Albee (1928 – ); Harold Pinter (1930 – ); Slavomir Mrozek (1930 – ); Fernando Arrabal (1932 – ); Tom Stoppard (1937 – ).


* Os textos procuram “corromper” os seus significados tradicionais, criando novos contextos e permitindo novas leituras, por vezes num processo contínuo e vertiginoso.

** Em Hui Clos, Sartre reúne três mortos condenados a dialogar pela eternidade. Cada personagem é o inferno de outro na medida em que passa em revista a sua vida no intuito de a criticar. O inferno é, pois, a obrigação de ver a sua vida julgada pelos outros sem ter possibilidade de a modificar, de corrigir os erros, pois a morte pôs fim à faculdade de escolher. Sarte mostra, assim, que a existência é o lugar essencial para as nossas escolhas e para o exercício da nossa liberdade já que os nossos actos implicam uma responsabilidade à qual não nos podemos eximir.
*** É inquestionável o papel de Sartre no Teatro de Vanguarda. Já esta referência como um dos impulsionadores do Teatro do Absurdo é muito discutível. Porém, na dificuldade em estabelecer as fronteiras entre estes dois fenómenos culturais, e na ausência de conhecimento concreto sobre onde começa e termina a influência do teatro de vanguarda no teatro do absurdo, faço eco desta perspectiva enunciada por uma certa "escola" francesa de história do teatro.
**** "distanciação" no sentido brechtiano do termo, i. e. "afastar a familiaridade, onde possa haver qualquer identificação do espectador com as personagens, e qualquer atitude passiva, para suscitar uma atitude desperta e crítica, capaz de fazer apreender a lição social que a peça comporta" (in pimentanegra).
consultas:
História do Teatro, de Robert Pignarre – Publicações Europa-América, 1979

NOTA AOS LEITORES: Considerando o elevado número de leitores deste artigo, cumpre-me alertar para o facto de as ideias aqui expostas não passarem de opiniões do autor, simples espectador de Teatro - e sem qualquer formação académica, ou de outra índole, na área das artes. Alerto especialmente os estudantes para tratarem com a máxima reserva, e profundo sentido crítico, o conteúdo do presente artigo.

temperos da escrita

“... a arte do romance exige mais ressentimento do que o meu, e mais desejo de vingança, e mais conhecimento do mundo. Além de um temperamento trágico que nunca consegui reter...”
António Sousa Homem – Julho 2006

3º e último acto

O actor principal entra em palco e declama o seguinte texto: A ti, que sei que vens cá, frequentemente. Assim o revela o ACTIVEMETER deste blogue.

Nos próximos dias 5 e 7 de Setembro cumpre-se um ano desde que entraste no meu site e inseriste comentários insultuosos nas fotografias de várias raparigas, maioritariamente nas fotos de colegas nossas. Sempre entendi que não eram elas o alvo, mas eu. As verdadeiras razões para tal procedimento só tu as conhecerás, mas no meu entender procuravas atingir-me fazendo com que elas exigissem a remoção das suas imagens, desacreditando, assim, o site e o meu trabalho – de nível amador, diga-se em abono da verdade, mas despretensioso - e, porventura, criando-me problemas. E tudo isso, acredito, motivado por impulsos emotivos de raiz sentimental e despoletado pela tua relação, ou pretensão de relação, com uma determinada rapariga.

Lamentavelmente, tal atitude, custou-me a mim uma relação de amizade que, tendo-se iniciado nessa altura, ficou irremediavelmente comprometida. Ainda assim, não te condeno nem te desejo mal. Aconselho-te é, e sem falsos moralismos (e quem sou eu para pregar moral aos outros?), a seres mais ponderado nas tuas atitudes, sobretudo com os colegas de trabalho, pois ao longo dos últimos meses fui ouvindo vários relatos de atitudes tuas, profundamente reprováveis, e em que algumas pessoas ficaram verdadeiramente ofendidas contigo. Não acredito que desejes incompatibilizar-te com toda a gente, por isso fica a advertência para teres mais cuidado. Pela minha parte, e no que me toca, perdoo-te e encerro definitivamente este assunto.
Já o mesmo não posso fazer com a rapariga que me magoou profundamente, pois que senti como uma deplorável perfídia a atitude que ela adoptou em relação a mim. De qualquer forma também esse assunto fica encerrado - agora que tenho a certeza que ela já sabe o que penso dela e que apresentei a minha versão dos factos perante os/as colegas a quem ela, estouvadamente, terá apresentado outra versão.
Reduzi a escrito tudo o que se passou, numa forma ficcionada. Aproveitei o ter algo para contar para exercitar a minha medíocre escrita. Não tenciono, nem nunca tencionei, publicar. Se “ameacei” tornar tal escrito público foi apenas, para, no teu caso obrigar-te a reflectires sobre o teu ignóbil acto e, no caso dela, para que, sentindo-se incomodada com as acusações que lhe dirigi, se obrigasse ao que sempre se recusou, a dialogar (neste caso não surtiu efeito, espero ter tido mais sorte no teu).Tal escrito destina-se exclusivamente aos olhos de duas ou três pessoas com capacidade para rever, corrigir, aconselhar alterações aos aspectos formais. Esta atitude insere-se num percurso de aprendizagem da escrita, que é, para mim, assunto muito mais importante do que os enredos da vida social e a própria Fotografia.
Consideração final: Já passei por duas grandes empresas que, tal como esta instituição, integravam centenas de trabalhadores. Em ambas testemunhei inúmeros casos de conflitos, atritos e choques entre o pessoal. Não estou admirado nem chocado com o acontecido agora. É natural nas relações sociais entre pessoas e mais ainda em empresas de grandes dimensões. No entanto, quando não se abre a porta ao diálogo as coisas podem atingir proporções incontroláveis e, por vezes, dramáticas. Não foi o caso. Não me parece que tal pudesse ter acontecido, mas fica a advertência para os mais inexperientes.

FIM do 2º ACTO

INTERVALO

Aproveito para agradecer o empenho de todos os intervenientes nesta peça, que tanto gozo me está a dar. Porém, atrevo-me a apontar alguns aspectos menos conseguidos e, nomeadamente chamar a atenção da Direcção Cénica para a manifesta falta de qualidade da prestação de alguns actores. Quer o J quer a M deviam sair de cena, pois estão a representar muito mal e, assim, a comprometer o trabalho e o prazer disto tudo. Não percebo porque só agora entrou o P, mesmo no final do Acto, sem ter tido tempo para desenvolver uma relação concreta com F. Também acho que o papel da actriz principal deveria ter mais falas, mas sobre isto já discutimos tanto. Bem sei que representar uma peça que se inscreve no mais puro estilo do Absurdo, e fazê-lo ao sabor do improviso e da espontaneidade dos actores, com recurso a breve e sintética orientação cénica é tarefa árdua e espinhosa mas há aspectos que saltam à vista. E nada pior que o óbvio e o fútil para desmotivar os espectadores.
A bem da nossa companhia teatral e do sucesso da peça.
F.

murmúrios

a empatia para com os sentimentos
cresce nos silêncios.
Jorge Coli – Historiador de Arte


as coisas mais importantes
ouvem-se no silêncio profundo.
F.Castelo - Historiador do Nada

toma lá Anton, à laia de SINOPSE

Anton disse...AINDA ANDAS ÁS VOLTAS COM ESSA MERDA? CAGA-TE NISSO, PÁ! UM GAJO SUPER-FRUSTADO E UMA PITA ORGULHOSA MERECEM MAIS ATENÇÃO DO QUE OS PROJECTOS?:SSANTA PACIÊNCIA, PÁ!
E pode-se ao menos saber que raio estás a escrever? É poesia ou é prosa? É romance, ficção científica ou uma biografia. Olha, podias era fazer uma fotobiografia. Uma fotobiografia minha, que sou um tipo interessante. LOL...
 
É uma história simples, a que vamos contar. No essencial gira em torno de uma atitude pérfida de uma jovem, a quem chamaremos Sara, que troca a construção de uma amizade com um homem mais velho, a quem vamos chamar Pedro, para proteger um acto hediondo executado por um jovem pretendente ao seu coração, a quem vamos chamar Totó (em homenagem ao brilhante actor de cinema italiano dos anos 50).
O acto vergonhoso, materializado na inserção de insultos e comentários aleivosos nas fotos de várias jovens existentes no site de Pedro e, entre elas, à própria Sara (embora de forma acentuadamente diferenciada, em que a raiva terá substituído adjectivos por reticências), terá sido executado a partir do computador de Sara - pelo que se depreende que após ter descoberto a prática de tal insanidade a jovem terá cortado relações com o falhado sedutor.
Pedro, logo que descobre o enredo, confronta a jovem com tal possibilidade e, em consequência disso, e a partir desse momento, Sara afasta-se - ou afasta Pedro. Jamais iria reconhecer o seu envolvimento, ainda que involuntário, num acto tão vergonhoso e ultrajante.Refira-se que ao insultar as jovens, o autor nada mais procurava do que atingir Pedro e fazer com que, sentindo-se ofendidas as pessoas retratadas exigissem a remoção das suas fotos do site deste e, entre elas, a da jovem que era alvo das suas intenções de conquista, e que no entender do comediante Totó estava a ser sobrevalorizada na sua aparência, com consequente ampliação do “mercado” de candidatos às atenções da deslumbrante rapariga.
Reunindo as evidências que denunciavam a sórdida trama: Escassos dias após a inserção dos comentários insultuosos, Sara terminou definitivamente os contactos por correio electrónico com Pedro, anulou a conta de e-mail que possuía, e mais tarde até reformatou o computador (plausivelmente, temia que Pedro comparasse os dados identificativos do seu computador, através das suas visitas ao blogue de poemas que ele lhe dedicara ou constantes nos mails que ela enviasse, com os dados existentes no registo dos tais comentários insultuosos).
Às insistentes tentativas de Pedro para que Sara anuísse num encontro para uma conversa esclarecedora respondia esta, sempre, com um lacónico: - “fica para outro dia”. Mas ao telefone respondia à reiterada pergunta de Pedro: - “estou a incomodar-te?”, com um sereno: -“não Pedro, não me estás a incomodar, quando me sentir incomodada, digo-te.”. E, assim, não se atrevia a rapariga a afastar em definitivo a hipótese de uma tal conversa nem, por outro lado, consentia no diálogo tão repetidamente solicitado por Pedro. E desta forma ia Pedro acumulando uma crescente incomodidade. Já não era só o incómodo provocado pelo desconhecimento das razões que a levaram a afastá-lo mas também acrescido pela suspeita de que a estaria a incomodar, mais o facto de não imaginar, sequer, o que poderia pensar ela da atitude dele.
Por vezes, decepcionado e desolado com a atitude de Sara, Pedro ia construindo outras razões para a justificar, tentando desculpá-la e, deseperadamente, manter por ela o elevado apreço que o conduzira a propor-lhe uma relação de amizade - que ela aceitara inicialmente. E no entanto teria sido suficiente uma breve conversa em que bastaria a Sara dizer que entre tantas doidices que Pedro enunciava sempre havia um pormenor verdadeiro mas que ela não queria discuti-lo, mas antes pedia-lhe que esquecesse tudo aquilo e que continuassem amigos. E bastaria apenas isso para demover Pedro da sua irascível e, por vezes, doentia busca da verdade. Mesmo sabendo ele que por vezes não é a verdade que triunfa, ou nem sequer é desejada.
Depois, as coisas precipitaram-se. Numa só semana, dois encontros fortuitos, em situações inusitadas, e numa tarde de sábado outonal, a repetida circulação de Pedro pelo local onde encontrara o automóvel de Sara estacionado, terão levado a rapariga a entender que estava a ser alvo de uma doentia perseguição por parte de Pedro (ou será que, desejosa de se livrar desta embaraçante situação, calculistamente aproveitou essa insistência de Pedro e a mascarou de “intuito persecutório delirante” que em breve expôs perante colegas de trabalho e amigos?!).
De qualquer forma, Sara achava que possuía, agora, um elemento à medida de esgrimir como arma de intimidação a Pedro, para que este calasse a história que tanto a incomodava. E, de resto, não seria nada difícil convencer qualquer auditório da veracidade das suas queixas, pois até podia mostrar dezenas de mensagens patético-emotivas e outros tantos poemas sentimentais que Pedro lhe dedicara.
O facto dele apenas a ter solicitado para uma relação de amizade, sem nunca ter declarado qualquer intenção de outra natureza não interessava para nada. Agora, podia, finalmente, calar essa voz incómoda que ameaçava revelar o grotesco episódio dos desvairados insultos e da possível ligação à sua pessoa. Sim, dizemos “possível” porque, no fundo, estas questões não passam de conjecturas alicerçadas em evidências que, embora pertinentemente reveladoras, não passam disso mesmo: Simples conjecturas, nascidas da interpretação de factos e atitudes, do exercício da dedução, mas sobretudo alimentadas no silêncio suspeito e comprometedor, da linda Sara.
Mas ela não contava com o carácter obstinado de Pedro, que jamais aceitaria uma atitude tão perversa. Não, sem antes tentar demonstrar à jovem que ultrapassara o limite do tolerável em matéria de relações humanas e sociais. Era muito jovem, ainda - mais jovem do que Pedro inicialmente supusera - mas com tal atitude denunciava que precisava aprender, de chofre, aquilo que naturalmente deveria ir assimilando, paulatinamente, ao longo da vida. O mais odioso de tudo, para Pedro, fora o longo silêncio a que ela votara a relação deles. E isso constituía a profunda mágoa que o dilacerava.etc... etc...
Ó Anton, olha que me deste uma ideia muito interessante. Em vez da “novela” que estou a escrever, a hipótese de um enorme poema também não está mal, não. E acho que posso utilizar, na mesma, a linha de crédito que tenho para uma edição de uma centena de exemplares até 200 páginas, no novo sistema de impressão electrónica digital, embora a editora sempre se tenha referido a um livro em estilo literário de romance, ou prosa no género.
;D

os meus humores



Gostar de uma personagem pública (um artista ou um político p. ex.) resulta grandemente da empatia gerada entre nós e a personagem. O mesmo se aplica a um programa de TV, um filme, um livro, etc. Nestas coisas (como em muitas outras), a dimensão emocional obnubila o exercício da racionalidade. E isto, para dizer que nunca assisti a um programa completo da série “Gato Fedorento” embora tenha visto alguns sketches. E desse pouco, ficou-me a impressão de se tratar de um programa incipiente, fútil e ridículo. Temo, agora, ter julgado demasiado superficialmente o programa, sobretudo porque é do ridículo que trata. Porém, não consigo afastar a minha dúvida metódica, e permanente: Porque será que gosto do que escrevem Woddy Allen, Miguel Esteves Cardoso, e a equipa do Gato Fedorento (versão blogue), mas não gosto dos seus “discursos” nas versões cinematográficas e televisivas? Será porque “… Existe na comunicação por imagem algo de radicalmente limitativo… a imagem é o resumo visual e indiscutível de uma série de conclusões a que se foi chegando através da elaboração cultural; e a elaboração cultural que se serve da palavra transmitida por escrito, é apanágio da elite dirigente, ao passo que a imagem final é construída para a massa submetida…” ? [apetece-me ser mauzinho, e o Umberto Eco dá uma mãozinha]
Achei interessante, a entrevista em que Ricardo Araújo Pereira (um dos membros da equipa do Gato Fedorento) dá a Chantal Féron na edição deste mês da revista Psicologia. Reproduzo aqui um brevíssimo excerto.
Fiquei curioso, e tentado a colocar de novo a minha paciência à prova, frente à porcaria da janela mágica. Depois direi.


Há quem diga que o humor é uma forma de agressividade...
... Freud [também] diz que tem a ver com a teoria da superioridade, mas só que aplicada a nós próprios, ou seja, a propósito da divisão do ego, é o superego a rir-se do ego, portanto somos nós que nos encontramos superiores a nós próprios em algum motivo e é nessa altura que ele diz que surge o humor puro. O humor principal é aquele que fazemos sobre nós próprios e é interessante, essa agressividade voltada contra nós, isso tem muitas leituras e muitos aspectos inseridos.
Tem humor em relação a si próprio?
Sim, aliás eu acho que é difícil ter em relação aos outros se não tivermos em relação à nos, pelo menos numa fase, o humor primordial é esse, é essa noção de que nós somos ridículos. Essa noção do nosso próprio ridículo é fundamental, e eu tenho sorte de ser mesmo muito ridículo!

5418

- Tem calma, pá! E, eu, que já me preparava para lhe virar as costas e sair dali, estaquei, contrariado.
- Precisamos da tua ajuda.
- O Velho diz que sabes o que isto é. Disse o coronel, já próximo, esticando o braço para mostrar um quadrado de papel meio amassado, com um número inscrito e duplamente sublinhado.
- O que eu sei sabe o Velho também! Tudo o que sei foi ele que me ensinou. Respondi-lhe de supetão.
- Pois, não sei. Ele disse que não sabia, mas que tu saberias. Retorquiu o oficial superior.
- E os nossos amigos da ilha também não sabem. Não fazem ideia do que seja. Quer dizer, pode ser muitas coisas, qualquer coisa. Apenas um número de quatro algarismos, é muito vago. Já testamos tudo. As relações são muito ténues. As hipóteses são infinitas.
- Porque raio terá ele dito isso? Disparei, franzindo os sobrolhos em manifestação de estranheza pela afirmação e, simultaneamente, de desagrado pela presença dos antigos “camaradas de armas” do Serviço de Informações. Peguei no papel que o meu antigo comandante de companhia estendia e examinei o conteúdo.
- Que é que ele sabe da minha situação actual? Sabe em que me ocupo?
- Sabe que trabalhas em Fotografia, sim.
- Sabe que trabalho em Fotografia. Em informação. Em...grafismos. Então não se tratará de um cripto normal. O Velho acha que não será nada de matemática, nenhum código permutável. Aposta em algo relacionado com a minha área.
Olhei demoradamente para os quatro algarismos juntinhos, o número 5418. Por baixo, duas linhas quase paralelas, em sublinhado firme. O cérebro vazou-se-me de repente. Não encontrava significado para a merda de um número de quatro algarismos anotado num bocado de papel manhoso.
- Lamento. Não me ocorre nada. Apresentado assim, sem mais, não chega. Pode ser tanta coisa.
Continuei a olhar o papel e percebi o tipo de entendimento que fará o boi quando olha para um palácio. Grafismos. A ideia da hipotética relação que o velho estabelecera rebolava-me nos neurónios, mas não curto-circuitava nada. Cansado, baixei o braço e retirei de cena o malfadado e enigmático papelote.
A uns três metros de distância, junto à entrada da sala de reuniões, um jovem imaculadamente fardado de branco, com o galão de luneta distintivo dos subtenentes da Armada olhava-me, estático. Lembrou-me uma noiva angelical. Estive prestes a mandar-lhe um piropo provocador, que faria rir os participantes da reunião subitamente interrompida pela incursão daquele mini-destacamento de quatro militares de aspecto estranho. Os outros envergavam fatos de combate, sem quaisquer distintivos que não um discreto bordado no peitoral esquerdo, um símbolo quase ininteligível, mas que eu bem conhecia.
O coronel, de cabelo platinado, olhos profundos e feição grave concluiu, fixando-me intensamente nos olhos.
- Ok! Então não podes ajudar.
Rodou nos calcanhares, pediu desculpa aos presentes, pela inesperada interrupção e, sem dar tempo a interpelações de esclarecimento pela atitude, deu dois passos em direcção à saída. Parou ao ouvir o meu ténue:
- Espere lá. Será que o Velho aposta mesmo que isto é um grafismo?
Algarismos... dois riscos, duas linhas.
- Que é que anda sobre duas linhas, coronel?
Nem dei tempo para a resposta do oficial superior:
- Que é que anda sobre duas linhas e é identificado por um número de quatro algarismos?
- Os comboios?! Excalmou ele.
- Um comboio da C.P., sim. Tentem a lista de composições da CP. Talvez exista o número 5418.
Já “a noiva”, de olhar siderado, teclava no telemóvel para a pergunta que recolheu como resposta de alguém do outro lado do feixe hertziano:
- Composição da CP, tráfego regional... Porto/Lisboa, ou Coimbra...
Era, de facto, um comboio.
Agora, de semblantes avivados, a equipa precipitava-se, a um tempo, para a saída do edifício centenário. Já na ombreira da porta, o coronel lançou a questão final:
- Olha lá, só para confirmar, isto diz-te alguma coisa: “a mãe e a filha do eleito”?
Olhei-o, frontalmente, e respondi serenamente:
- A mãe e a filha do profeta. A mãe, e a filha favorita de Maomé tinham o mesmo nome, Fat’ma. Fátima!
- Pois, bate certo. Fizeste o mesmo raciocínio que o Velho.
- Vamos! Exclamou enfaticamente para os homens que o acompanhavam. E saíram, apressados. Não sem que, antes, o jovem marinheiro se aproximasse, de sorriso aberto e mão estendida, solicitando um cumprimento há muito esperado e que, supostamente, muito o honrava. Apertei, com pouca convicção e meio entediado, a mão firme que me apresentava. Nunca nutri grande apreço por quem me admira. Não acredito que seja capaz de me ensinar algo de interessante ou importante, pois se valoriza tanto o pouco que sei e sou.
Nem me preocupei com mais lucubrações sobre os enigmas. Embora desabituado, rapidamente voltei aos tempos em que as questões se sucediam em catadupa, sem que nos preocupássemos com uma resposta final. Essa não era a nossa preocupação. Seria a de outrem, mas não a nossa. Não passávamos de simples brain-stormers, pesquisadores de pepitas no meio de uma imensa cascalheira de palavreado, preocupados em produzir discursos sintéticos, por vezes esterilmente incoerentes, outras vezes mais enigmáticos do que o problema que os despoletava. Mais tarde, alguém recolheria as peças e montaria o puzzle.
Próximo da cidade, as pás de um helicóptero agitavam o ar num ruído sincopado, grave e intimidador de máquina poderosa. Depois, o som foi-se diluindo noutros ares, mais distantes.
Não voltaram.
Que alívio.