Há bons músicos neste país, e, mais acima, este senhor

Eu hoje venho aqui falar
duma coisa que me anda a atormentar
e quanto mais eu penso mais eu cismo

como é que gente tão socialista
desiste de fazer o socialismo

é querer fazer arroz de cabidela
sem frango nem arroz nem a panela


Eu hoje venho aqui falar
duma coisa que me anda a atormentar
e quanto mais eu penso mais eu vejo
que esta grande obra de reconstrução
parece mas é uma acção de despejo
é como para instalar uma janela
atirar primeiro os vidros para a viela

Eu hoje venho aqui falar
duma coisa que me anda a atormentar
e penso e vejo de todas as cores
já libertaram pides e bombistas
deve ser para lá por trabalhadores
é como lançar cobras na cidade
e pôr dentro da jaula a liberdade

Eu hoje venho aqui falar
duma coisa que me anda a atormentar
e vejo e de ver tiro conselho
aquilo que é mesmo reforma agrária
é para alguns o demónio vermelho
esses querem é ver anjos cor-de-rosa
entre Castro Verde e Vila Viçosa

Eu amanhã posso não estar aqui
mas também, para o que eu aqui repeti...
é que eu não sou o único que acho
que a gente o que tem é que estar unida
unida como as uvas estão no cacho
unida como as uvas estão no cacho

PONTO FINAL


Esta cidadezita é mesmo muito pequena. Vejam lá, que a propósito da edição de um livreco que pretende apenas exercitar a escrita, impedir a continuada revisão do pouco que a incipiente escrituração encerra, estabelecer um ponto de partida no domínio da construção literária para outros voos possíveis, e porque foi apresentado e distribuído a escassa meia centena de convidados, amigos e responsáveis pelo incentivo a escrever e publicar; aos primeiros, porque os amigos servem para aguentar as estopadas, aos segundos porque devem arcar com a co-responsabilidade do resultado desse estímulo – decorrendo o evento nas margens de uma Cafetaria, e não como inicialmente previsto, apenas distribuído mão a mão a amigos e a três ou quatro pessoas cuja opinião técnica me interessa –, fui alvo de rasgados elogios. Assim aconteceu, logo na apresentação (o que é compreensível), mas também num jornal online e, até, entrevistado para uma rádio local. Só num meio tão pequeno um peido fugidio libertado no centro de um arraial popular pode constituir notícia.
Ah! E já me esquecia da referência no blogue local dos grilos falantes, essas consciências anónimas que abnegadamente prestam um judicioso serviço à comunidade – antes preenchido pelas lavadeiras nos tanques de S. João –, vejam lá, que também entendeu prestar homenagem a este sofrível escrevinhador, quase como se de um autor consagrado se tratasse. Bem Hajam! Pois que outra coisa poderei dizer?!
Bem sei que o fundamento destas manifestações se deve às amizades. Essas teias que teimam em ligar as pessoas, sobretudo nestes meios mais pequenos. Lá nisso, é giro. Mas quanto ao resto, ou eu nem percebo o quanto notório sou, ou a malta não tem mais nada para fazer ou de que falar ou… tá tudo doido.
Outra coisa que me deixa suspenso é o facto de algumas pessoas não acreditarem nesta coisa do exercício. Acham que é modéstia, que aquilo até é uma coisa muito porreira, etc e tal. Tão doidos!
Também já me ocorreu que alguns poderão pensar que é desculpabilização. A escrita é insignificante e o gajo, para se safar, diz que é apenas um exercício. Também estão doidos, está claro – que isto, quando ataca, é geral. O conto, se assim se pode chamar, é, não só uma escrita à margem - à margem de outras escritas a que dedico mais atenção -, mas um conjunto de quadros inicialmente desconexos que, depois, ganharam alguma ligação, embora mantendo vincadas incongruências - propositadas umas, involuntárias outras. É uma escrituração inserida no mesmo ciclo de exercícios que incluem as outras escritas que prossigo, no intuito de melhorar a forma. Pode ser que algum dia escreva algo verdadeiramente interessante mas, para isso, terá que ser redigido em feitio que me agrade (chegada à que gosto de ler nos escritores que admiro).
Mas, mais insólita, é a suspeita de que há ainda uns outros que pretendem vislumbrar ali, no livreco, empreendimento medonho: algum ataque, ou preparação de ataque, a terceiros ou a eles próprios. Ora, eu, que sempre consegui rir de mim próprio, das minhas patetices, das situações que as originaram e dos resultados que daí advieram - neste particular só sou diferente da maioria, na medida em que sou capaz de soltar esse riso, já que em termos de produção patética, por mais que me esforce, não consigo destacar-me dos demais, eles é que não têm consciência disto mas, adiante, ou não acompanho com os dedos no teclado o enfileirado de palavras que brotam não sei de onde. E então, havia de escrever e publicar algo para atacar terceiros? Com que propósito? Acertos de contas com gente que errou, talvez gente perversa e velhaca? Ora, isso seria dar maior importância a essas pessoas. Insanos, esses temerosos, pois claro.
Pois claro que a escrita do Claustro Fobias é uma preparação para outros “ataques”. Atacar a folha em branco, decorá-la com imagens desenhadas pelas palavras. Integrar num simples dado histórico, numa historieta, num aforismo, num incidente, elementos biográficos, um poema, o significado de um gesto ou de um olhar e muita, muita imaginação. Mas, tudo isso só tem valor, se estiver bem escrito. E para lá chegar preciso burilar estas construções. Gostam desta forma de escrever, gostam? Pois, eu não. Isto não me chega. Nem se aproxima daquilo que gosto de ler.
PONTO FINAL… temporário
;)

Os 5 (e o cão) no meu blogue

Respondendo ao repto que o Arion do blogue O Exilirado me lançou, indico 5 livros da minha vida.

Eleger terminantemente os 5 livros da minha vida seria tão estúpido como eleger o Maior Português de Sempre. Nem percebo o que andou o Helder Macedo a fazer por lá, não pertencia àquela trupe de idiotas.

Agora são estes 5 e mais tarde seriam outros 5 diferentes. Mas cá vai.

fase juvenil: O Meu Pé de Laranja Lima - José Mauro de Vasconcellos
fase adolescente: O Despertar dos Mágicos - Louis Pauwels e Jacques Bergier
fase pré-adulta: Delta de Vénus - Anaïs Nin
fase adulta: O Arranca Corações - Boris Vian
fase senil: O Poema de Gilgamesh - (dum gajo de há 5 mil anos, certamente com graves problemas de cópula)

Porém, pela parte que me toca, esta coisa morre aqui porque não alimento cadeias de futilidades. Estou mais preocupado em continuar debruçado sobre o meu umbigo. Função para a qual edifiquei este blogue, com muito saqué, suor, e lágrimas... de riso.
E tudo isto porque não há um humorista capaz nesta treta de país. Fadistas, há-os para dar e vender, alguns palhaços, muitos actores de comédia mas humoristas a sério... népias.

Mistérios do Universo

Serão sempre mistérios insondáveis, autênticos enigmas que envolvem a tragicomédia caseira de um gajo a tentar evitar sujar-se com pingos de qualquer acepipe fluído. Nunca entenderei isto. Acho, mesmo, que a compreensão de tais mistérios nunca estará ao alcance dos homens. Não estamos preparados para tanta sapiência. Mas, se conseguíssemos atingir esse conhecimento, acredito que alcançaríamos a chave de todo o saber e, muito provavelmente, a revelação de que o Universo não é o imenso paradoxo que afigura. Daí, manter-se tal segredo na posse exclusiva do demiurgo. É compreensível.
Juro que desta vez tive cuidado! Fui previdente. Retirei as amoras da tigela grande com todo o cuidado, usando uma colher de sopa, e transportei-as aos pares, em deslocação a baixa altitude, para uma taça de vidro colocada ali mesmo ao lado – reparem que escolhi o vidro para poder vigiar in extremis toda a operação. Desta vez, fiz tudo como deve ser. Recolocada a tigela no frigorífico, peguei na taça repleta daquelas pseudobagas, que mais não são do que dezenas de drupas agregadas, muni-me de um garfo de sobremesa – resistindo ao impulso de espetar algumas pelo caminho –, e voltei para defronte dos computadores. À medida que a conversa com o Armindo ia decorrendo no Messenger, lá me ia regalando com o intenso sabor dos minúsculos e negros frutos, indiscriminadamente trespassados pelo subtil garfinho. De repente, uma ideia assaltou-me, e, com ela um arrepio percorreu-me a retaguarda. Ah… ah… ergui os braços, evitando tocar no quer que fosse, levantei-me e encaminhei-me para a casa de banho. Sem parcimónias recorri ao gel mais dispendioso que por lá havia e lavei as mãos meticulosamente. Despi a camisa do pijama de Verão e regressei com um sorriso triunfal à cadeira de empreita que serve o serviço computacional. Agora queria ver como é que o raio das amoras me iam tingir a roupa. Hehehehe… Tinha-as lixado. Confiante, retomei o ritmo das opíparas garfadas.
Nem demorou dois minutos, ou umas cinco linhas do diálogo acerca das críticas à minha recente publicação – sim, vai ser lançada na próxima semana mas já conta com recensões de insignes literatos. Mas quais dois minutos? aquilo foi só o tempo de reposicionar no cérebro as coordenadas dos caracteres do teclado e, quando confirmava que o “f” se encontra entre o “d” e o “g”, deparei com dois malditos pingos na barra de espaços. Arregalei os olhos e suspendi toda a actividade digital – e desconfio que, cerebral também. Horror dos horrores, ao varrer, em rápida panorâmica mental, o tabuleiro alfabetiforme, descobri mais vestígios da penetrante tonalidade arroxeada. Desta vez eram traços imprecisos, como micro rastos, plasmados em mais umas tantas teclas. Olhei para os dedos e fiquei completamente estupefacto. Estavam sujos! Mas como, meu Deus? Como, se nem toquei no raio das amoras? Absolutamente atónito, demorei no regresso ao mundo do teclado e dos dedos maculados e da conversa a que tardava responder. Isto não é possível! Isto não está a acontecer.
Vocês compreendem o meu alvoroço, não?! É que nódoas de amoras, romãs, nêsperas e coisas que tais dão direito a imediata discussão com 50% da camada associativa, qual estardalhaço em assembleia de sócios do Benfica. Mas eu continuava a não perceber como acontecera aquilo. Um relâmpago de lucidez, a experiência da meia-idade, o bom senso, ou a prudência, ou tudo isso nas doses certas, ditaram uma retirada táctica para a cozinha. Não sem antes explicar ao interlocutor internauta o desastre ocorrido – com consequente agravamento dos resultados, pois ainda espalhei a moléstia por outros caracteres do tabuleiro plástico.
Claro está que conclui o consumo das amoras dobrado sobre o balde do lixo. Com os poderosos detergentes da cozinha procedi à remoção das marcas da maldita tintagem e desisti de repetir a dose – contrariando os planos iniciais -, optando antes pelas uvas, fruta mais pacífica. Ah… mas muito mais pacífica, mesmo, meus senhores.
Retornado aos computadores (no plural, pois, de facto uso dois desktops, um para a net e o outro para os trabalhos fotográficos e textos mais sérios). O segundo choque gastronómico da noite sobreveio quando deparei com um estranho olho que me observava a partir da parte central dos boxers apijamados. Ali estava, um ser ciclópico de olho escuro mirando-me a partir de uma posição geográfica notoriamente particular e íntima, como uma malha de circunferência perfeita, uma mancha, um borrão, uma mácula… UMA NÓDOA DE AMORA!!!
Não sei o que é que vocês acham, mas eu estou convencido que ontem à noite aconteceu qualquer coisa estranha no Universo.

os pidescos e a bufaria

O Vítor Dias, do blogue "o tempo das cerejas" junta-se ao coro de vozes que denunciam algo de muito vergonhoso que vai lavrando pelo país, aqui. Pergunto-me como seria, se tais actos fossem protagonizados pelos social-democratas do PPD-PSD. Caía o Carmo e a Trindade? Bloqueavam-se pontes? Assistiríamos a uma insurreição popular? Será que ainda são necessárias mais provas de que vivemos numa das mais abjectas oclocracias?

Apetecia-me chamar-lhes FILHOS DA PUTA!


Apetecia-me chamar-lhes filhos da puta, mas não vale a pena. Para gente assim até seria um elogio.

Ladravam os cães ajudando os homens no cerco ao bicho. Mostravam os dentes, ameaçadores, mas temiam atacar aquele animal desconhecido. A mulher assomou à porta e, intrigada, acabou por sair a investigar a causa da algazarra. Percorridos os curtos metros que a separavam do bando eufórico deparou com um texugo, agachado, voltando-se à vez para cada um dos cães que ousava aproximar-se mais, assumindo uma posição defensiva que intrigava os canídeos. A mulher, recordando memórias da juventude e do conhecimento das coisas da Serra exclamou: - Ahhh! É um texugo. Deixem o bicho que não faz mal nenhum!

Os homens acabaram com o alarido, chamando os cães e afastando-se do animal, como se o facto de o saberem texugo o transformasse em camarada de jogatanas de cartas ou de exultantes sessões de futebol em frente do televisor. Deixaram o texugo esgueirar-se para as moitas. Não falaram mais sobre o assunto e voltaram ao trabalho. Regressada às lides da cozinha escutou a mulher, uns minutos depois, a voz de um recém-chegado que ouvindo a história pergunta pelo bicho, que nunca vira um, que o queria ver. Os outros indicam-lhe o provável esconderijo do animal e ele para lá se encaminha rapidamente. A mulher, atarefada no seu trabalho, esqueceu o episódio.
Ao meio-dia, quando todos se sentavam à mesa para a refeição que a mulher ia servir, disse o tal retardatário, ignorante do mundo animal, em conversa com os outros: – Nunca tinha visto um bicho assim, com uns riscos no focinho… A mulher interrompeu-o : - Pois eu vi muitos na minha infância. São bonitos, e não fazem mal a ninguém. O homem atalhou de imediato, em voz bem viva e de rosto aberto em largo e generoso riso: - Pois este não faz mesmo mal nenhum, dei cabo dele à porrada.
Assim fizera. Levara consigo um pau comprido, não fosse o tal texugo revelar-se um animal perigoso. Afinal, não parecia nada perigoso mas, pelo sim pelo não, desalojou-o do improvisado covil, sob a densa ramagem de um arbusto enorme e, aproveitando a confusão do animal devido à presença dos cães, assestou-lhe umas valentes pauladas no lombo e na cabeça.
Foi mais ou menos assim que aconteceu no mês de Junho de 2007, na freguesia de Odiáxere, no concelho de Lagos.
Que raio posso dizer sobre isto senão que tal acontecimento é natural num país em que a maioria da população cada vez se afunda mais na mais abjecta ignorância. Tem este país investido largamente no fortalecimento desta prole de bárbaros, idiotas e débeis mentais que medem a inteligência pela capacidade de nomear os melhores e os piores jogadores de futebol, de saber quantos liftings faciais ou rectais fez a Tia asquerosa que só é gente na TV - essa TV que os alimenta a biberão com um inexaurível esgoto, essa televisão nacional que é o veículo privilegiado para a propagação da doutrina maior do regime: instalar e manter a ignorância e a boçalidade; intoxicar e desinformar; controlar assim, facilmente, a dócil manada de asnos.
Era apenas um inofensivo texugo, porra!

Saber mais sobre texugos em Portugal, clica aqui


por cima das nuvens



Dia de chuva. Chuva miudinha, da que cai para chatear. Dia de chumbo que acinzenta o ânimo e a alegria. Mas, lá por cima dessas nuvens radia o Sol iluminando o que, cá por baixo, teima em tristeza. Só quem já atravessou estas nuvens numa Asa Delta e descobriu um dia de Verão para lá dessa cortina horizontal de água suspensa percebe quão efémero, falso e enganador é o dia cinzento. Deixo que umas volutas de fumo se soltem do fiel cachimbo e deixo, também, que me enganem essas singelas fumaças, vendo-as ascender e engrossar as névoas suspensas lá em cima. Em breve cairão em lágrimas de um pranto que, esgotado, revelará um sorriso renovado. E amanhã poderá ser dia de praia.


são azougues marados


As palavras são como ímans.
Andam-me na cabeça,
polarizadas com a mesma carga,
recusando ligar-se.

Terei que aguardar
uma tempestade
que mude o sinal magnético
de algumas.


Ou isso,
ou continuo
o mesmo indolente
da treta.

Há por aí alguém que se meta comigo, que me irrite, que me faça eriçar o pêlo?

Sentimentos e Ilusões


A paixão é uma ilusão”, dizem alguns.

Como qualquer outro sentimento ou impressão também uma paixão pode revelar-se uma ilusão mas, da mesma forma que uma andorinha não faz a Primavera também uma paixão ilusória não tributa toda a Paixão. O problema não residirá na natureza arrebatadora e fugaz que caracteriza a maioria das paixões mas, mais, no facto de não a compreendermos e, por conseguinte, não aceitarmos o seu carácter singular. Singular, quanto à intensidade da sua essência. Singular, pelo facto desse fogo que arde tão visível nos deixar sensíveis apenas a determinados aspectos do alvo das nossas atenções mas, simultaneamente, ofuscados em relação a outros aspectos.

O problema reside na forma como lidamos com esse sentimento, como “negociamos” com a Paixão. A vida moderna, com o seu ritmo alucinante, mais os preconceitos e as convenções sociais, mais o crescente egoísmo de cada um de nós – somos cada vez mais exigentes com os outros e raramente atendemos ao reverso da medalha –, são factores que nos transformam em seres com pouca disponibilidade para aceitar as diferenças do outro, dificultando dessa forma a vivência da Paixão. Pelo menos, em relação à forma como ela tem integrado a cultura humana desde há mais de dois mil anos.

Assim, podemos identificar como causas que cada vez mais dificultam a ocorrência da paixão, a recusa de entrega incondicional ao outro e a incapacidade de aceitar aquilo que ele é - o conjunto das suas virtudes e defeitos. Insisto na importância deformadora desta exigência da perfeição. E como se isto não bastasse, concorre ainda o desconhecimento ou a incompreensão de que os sentimentos profundos não se estruturam sobre consensos feitos de cedências que buscam um qualquer compromisso ou denominador comum – coisa que não seria mais do que falsa harmonia, um autêntico pântano para a verdadeira Paixão.

Mas é a natureza intensa e arrebatadora desse sentimento que nos garante que ele não é uma ilusão. Bem pelo contrário, esse pulsar ardente, esse estado de vigília em que todos os sentidos estão despertos – com todos os nervos à flor da pele –, é uma das maiores afirmações de que estamos vivos, é um grito do ser concreto. Portanto, a Paixão encontra-se exactamente nos antípodas da ilusão. Ou não passariam de ilusões todas as maravilhosas criações da sensibilidade humana: a música, a poesia, e todas as artes, sempre movidas pela inquietude dos sentidos que a paixão provoca.

Hoje, procuramos moldar os outros à nossa imagem. Fazer com que se adaptem àquilo que somos. E que outra coisa se poderia esperar da cultura “fast-food”, do “pronto-a-vestir” e da “abertura fácil”, desta cultura de clichés repetidos ad aeternum?! Queremos tudo segundo um padrão por nós previamente definido (ou definido por outros e por nós inconscientemente integrado), tudo por encomenda. Mas as pessoas ainda não são fabricadas com ingredientes previamente definidos e seleccionados. O conjunto das nossas experiências pessoais, e o carácter único e diferenciador de cada um de nós, ainda garante uma razoável independência dos sentimentos em relação à cultura globalizante e igualizada que os mesmos humanos constroem. Valha-nos isso ou, então, sim, a Paixão seria uma simples quimera.

Nesta matéria, havendo problema para o qual se procure solução, não saberei eu indicá-la mas, em todo o caso, desconfio que passa por “rodar o objecto”, procurando os seus aspectos positivos, ainda que se trate de um objecto/acontecimento, aparentemente, exclusivamente negativo. Nada de mau do que me aconteceu na vida foi exclusivamente mau. Todos os acontecimentos negativos possuem um ou outro aspecto positivo, temos é que descobri-lo. E dar-lhe uso.

A ti, que dizes que a paixão é uma ilusão, desejo-te felicidades e faço votos de que venhas a conhecer, e viver, uma verdadeira paixão – ainda que raramente a Felicidade e a Paixão coexistam pacificamente.

claustro fobias VII (excerto)

II

António, encostado ao balcão, desviou a sua atenção das bolhas de gás em ascensão vertical no interior do copo de imperial e acompanhou, com o olhar, o grupo que deixava o bar rumo à noite estival algarvia. O alegre bando, de sete ou oito pessoas, terminara uma petiscada de chouriça assada, e outros condutos tradicionais, convenientemente regada com tinto de qualidade, suporte generoso para as conversas de navegações lacobrigenses, quer as da Internet quer as dos Descobrimentos. Sem outro motivo de atenção, António escutara, disfarçadamente, parte das conversas. Discretamente, sim, que isso de ouvir conversas alheias não é bonito - mas que culpa tinha ele se já não falavam só os falantes mas o licor também?! Suspirou de enfado, agora que terminava o único motivo de distracção e, com isso, ficasse ele em perigo de se remeter aos pensamentos de sempre, àquelas ideias em beco, tão enviesadas, estéreis e confrangedoras meditações.
Transposta a porta envidraçada, a animada tertúlia encontrou-se no exterior, admirando a enorme lua cheia que conferia ao casario fronteiro um aspecto estranho por via das sombras projectadas entre si e que a fraca iluminação pública não conseguia atenuar. Era uma esplêndida noite primaveril.
O homem saiu da sombra do prédio em construção avançando, hesitante e gingão, na sua reduzida estatura. Trazia, colocados, uns auscultadores enormes, de aparelhagem áudio, com o fio helicoidal pendurado ao longo da camisa escura; nesta triste figura de ar grotesco apresentou-se, balbuciando: - Boa noite. - Sou o Henriques.
(texto integral em pdf no cimo da página de entrada)

toda a gente é uma barata


"Só quem tem dinheiro é que se pode dar ao luxo de pensar no amanhã longínquo; quem não tem, preocupa-se com o amanhã do dia seguinte.” - Vanus de Blog em comentário no blogue TheOldMan
“Não é quem tem dinheiro que se preocupa com o amanhã longínquo. Isso é apenas uma “pose” como qualquer outro tique de “tia”, e fica tão bem como ter uma empregada chamada Matilde…” - Resposta de TheOLdMan a Vanus de Blog.

Gastam rios de dinheiro em sensibilização e educação ambiental. Fazem conferências, palestras, acções, brincam com os putos e inventam canções. Distribuem t-shirts, panfletos, jogos educativos, aqui e ali apõem autocolantes explicativos, dão voz a ilhas ecológicas e nome próprio às caixas de recolha de pilhas. Incentivam a adopção do sistema de separação do lixo, até o substituem, eufemisticamente, por “resíduos sólidos” aplicando o termo a toda a lixarada que produzimos. Enfim, perfumam a porcaria com Channel N9 (desde a porcaria matéria à porcaria mental) mas nada disso muda a mentalidade das pessoas, no essencial. Pudera, para além do eco obtido, com maior ou menor sucesso, junto da população escolar - a mais receptiva -, o grosso do problema mantém-se inalterado face a uma população a caminhar para o envelhecimento e em que as classes economicamente mais desfavorecidas não estão receptivas à "reciclagem" das mentes. E desenganem-se os peritos em ecologias e outras teorias quando obtêm sorrisos e anuências por resposta, julgando efectivada a conversão à sua mensagem, porque o que as gentes desejam mesmo é que lhes desamparem a loja. É assim em grande parte das periferias das cidades e nos aglomerados humildes de gente que vive “à rasca”. E eu compreendo-os. Porque raios hão-de colaborar na protecção de um mundo do qual não colhem as boas coisas? E podem ser criticados/responsabilizados por isso? Escutem o TheOldMan:“Só divido a responsabilidade quando compartilho igualmente das vantagens".

a beleza de Cleópatra


«Surgiu há dias com grande destaque mais uma descoberta "sensacional". Afinal Cleópatra não era uma beleza, contrariamente ao que sempre se pensou, isto de acordo com uma moeda em que se representa a efígie da famosa Cleópatra VII, a última da uma famosa linhagem da Dinastia Macedónica (Lágida) do Egipto.
Ora bem, a verdade é que esta moeda é conhecida há muitos anos, o que leva a perguntar qual o objectivo desta operação de marketing. Provavelmente a necessidade absoluta de aparecer, de ser comentado, visto, falado, etc. Esta discussão, afinal fútil, sobre a beleza da rainha egípcia também não é novidade nenhuma.
Quanto à fantasia que é a identificação física de Cleópatra com célebres actrizes, não apenas Elizabeth Taylor, mas também outras de quem já ninguém se lembra, como Claudette Colbert e a fabulosa Vivian Leigh, deixemo-la para os estudiosos do cinema e também para os que, como eu, têm saudades dos bons tempos do peplum e do cinema sem pipocas.
A História Antiga e a Arqueologia estão sob uma investida de vulgarização sem qualidade e de inaceitáveis operações ditas estratégicas, que, maioritariamente, mais não visam que apreender públicos, logo, verbas.
Já agora, alguém se interrogou sobre a evolução dos padrões de beleza? Basta olhar as senhoras de Rubens ou de Boucher, ou a Vénus de Arles, retocada para ficar ao gosto da corte do Rei Sol, para que se compreenda toda esta infantilidade intelectual. Até porque quem o feio ama, bonito lhe parece...»
Vasco Gil Soares Mantas (FLUC)

A este respeito ia tecer algumas considerações sobre o assunto da beleza e da sua reprodução artística quando me lembrei de algo que li, escrito por um velho colega meu – um bloguista do camandro. Aqui vai.

“A pintura e, em geral, a arte imitativa, por um lado, realiza a sua obra mantendo-se afastada da verdade, por outro, dirige-se àquilo que em nós existe de mais afastado da inteligência, fazendo-se sua amiga e companheira por nada de são nem de verdadeiro.”
Platão – República, X


Se quiser saber mais sobre a questão da beleza de Cleópatra julgada pela sua representação numa moeda, veja aqui, em inglês: http://www.ncl.ac.uk/press.office/press.release/content.phtml?ref=1171452331

claustro fobias - I




Remava o mais novo, calado e ouvindo o cadenciado mergulhar dos remos na água fria e invisível que a noite escondia. Avançavam lentamente naquele mar chão, de águas de chumbo. O outro falava invectivando pela enésima vez as faculdades mentais do remador: - És um imbecil, um parvo, uma autêntica cabeça de abóbora. Desde que enxofraste o juízo com essa ideia louca de quereres casar com uma freira, só fazes disparates. Onde já se viu, deixares acabar o gasóleo da traineira? E ainda faltam umas boas seis milhas para alcançar terra. Que burro! Mas que grande burro!

Natal?

"O italiano Piergiorgio Welby, que sofria de distrofia muscular progressiva e que há alguns meses pedia a suspensão do tratamento médico que o mantinha com vida, abrindo um amplo debate sobre a eutanásia na Itália, morreu nesta quinta-feira aos 60 anos."

A mesma Igreja que dá o perdão a um qualquer assassino e celebra missa pela sua alma, condena, excomunga e recusa celebrar a mesma homilia por um ser humano que, em sofrimento atroz e continuado, decide pôr fim à sua vida.
Esta recusa em reconhecer o direito de cada um dispor da sua vida, é uma das mais abjectas e ultrajantes atitudes da Igreja. Já em tempos de João Paulo II, a sua condenação pública dos movimentos latino-americanos da “teologia da libertação”, desmascarou claramente o arcaísmo e o distanciamento que a Igreja mantém em relação à realidade e aos problemas da civilização contemporânea.
Continua a ser uma Igreja que pretende estar mais próxima de Deus do que dos Homens. E uma Igreja, assim, agarrada a dogmas tão arredados da condição humana, só vai cavando a sua própria sepultura. E ainda bem, porque tamanho ninho de hipocrisia só merece mesmo é apodrecer. Apodrecer lentamente, para que não se “construam” mais mártires ou falsos profetas.

Bom Dezembro, e melhor Janeiro, para todos.

Um Conto de Natal


Eram quatro homens de meia-idade sentados no chão do segundo patamar da escadaria do metro. Tocavam instrumentos estranhos produzindo uma exótica e doce melodia e a criança dançava. Era uma menina com pouco mais de três anos de idade que se contorcia graciosamente ao som da música. Dançava, e sorria. Sorriu sempre, enquanto os transeuntes apressados entravam e saíam do metro. Num cartaz ao lado lia-se: Não queremos dinheiro, apenas um sorriso. Fosse pela sonoridade musical e beleza estética do conjunto ou pela mensagem inédita, os passantes hesitavam, suspendendo o ritmo do trânsito quotidiano e escutavam aquela singular banda de rua. Depois, prosseguiam na sua azáfama mas, agora, com um sorriso nos lábios e uma pequena alegria nos corações.

Anos volvidos, a pequena que então dançara no metro, pisava os maiores palcos da Europa e era aplaudida pela sua performance de dançarina, e pelo sorriso radiante que sempre ostentava, em público ou em privado, na actividade artística ou nos momentos mais reservados da sua vida.

Com mil cuidados, reservas e previdências fora educada na eterna presença do sorriso, na artificialidade de uma existência preenchida pela felicidade, sem margem para a tristeza, sem conhecer o sofrimento, sentir a mágoa, ou a mais simples desilusão.

No seu vigésimo aniversário conheceu um jovem de quem esperou um sorriso eterno, como o seu. Mas tal não era possível. O jovem não podia sorrir vinte e quatro horas por dia.

Pela primeira vez na sua vida encontrou a tristeza, sentiu a mágoa, experimentou o sofrimento e, desiludida, suicidou-se.

Há duas pessoas em mim

Há duas pessoas em mim.
De um lado há um sacana,
sentado à sombra de uma árvore,
que aceita a necessidade de ser egoísta
para poder escrever sem transigir
nas convenções, nos preconceitos
e nas hipocrisias do quotidiano.
Do outro lado há um homem
que se comove com o pardal juvenil
que cai da árvore.
Entre os dois, apenas a verdade
que interessa:
a árvore.

Até vi estrelas


Há duas coisas que sempre pensei deixar para a ociosidade da aposentação: a Astronomia e a Botânica. Assuntos de que pouco ou nada sei, ainda que me despertem a curiosidade.
Há dias, deportado para o quintal em companhia do meu “melhor amigo de quatro patas”, no decurso do exercício desse vício que nos queima diante dos olhos outros tantos euros como os que se volatilizam nas mãos dos nossos queridos governantes, segui o percurso ascendente da voluta de fumo expirado e pousei os olhos numa linda estrela de pulsar avermelhado.
É uma das estrelas mais notórias do quadrante Este do firmamento, nesta altura do ano. Desta vez, irritado pelo peso da ignorância, tomei a decisão de procurar identificar o astro em questão. E já agora, as outras quatro ou cinco estrelas mais proeminentes da abóbada celeste nocturna.
Regressei ao computador e à Internet e procurei um programa de mapas do céu. Acabei por descarregar e instalar o SkyMap.
Corrido o programa depressa introduzi as coordenadas geográficas de Lagos, escolhi a vista do quadrante Este e apreciei a miríade de pontinhos luminosos que salpicaram o ecrã negro. Um círculo irregular indicou a posição da Lua naquele momento, elemento referencial que me ajudaria a identificar as estrelinhas. Imprimi a imagem exposta no monitor (invertida, pois seria ridículo imprimir uma folha a negro) e, munido do papel ponteado, voltei à companhia do Bobi e das iluminárias celestes.
Identificado o alinhamento das três estrelas centrais da constelação de Orion, que se apresentava mesmo no centro do meu enquadramento panorâmico, descobri que a tal estrela que pulsava avermelhada era nada menos do que a famosa Betelgueuse.
E seguiu-se uma entusiasmante sessão de identificação de outras galáxias e sóis prestigiados (sobretudo pelas minhas leituras da colecção Argonauta): Aldebaran, Rigel, Procyon, etc.
Nessa noite é que vi as estrelas.

Referendo Sobre a Despenalização do Aborto


- uma posição -
«O que está em discussão não é a liberalização do aborto, nem sequer se se é a favor ou contra. Em causa está, tão só, a despenalização do aborto. E alguém pensa que as mulheres que abortam o fazem com espírito festivo e leviano?» Anónimo na Internet.



Abortar é uma decisão que, embora possa ser discutida com maridos ou namorados, em última análise diz respeito apenas à mulher pois o grau de envolvência do homem depende da profundidade da relação estabelecida entre o casal, e essa é muito variável. Assim, ao votarem pela despenalização, os homens não estarão apenas a marcar a sua posição sobre o assunto mas, sobretudo, a dar um voto de confiança às mulheres e a colocar o centro da decisão onde ele realmente pertence. Trata-se de deixar em aberto a possibilidade de cada mulher poder fazer essa escolha. E essa possibilidade dever ser garantida pois corresponde a uma das liberdades fundamentais do indivíduo.


Por outro lado, se invocamos valores éticos e morais, então já chega de ignorar as terríveis consequências do aborto clandestino, situação resultante da Lei em vigor no nosso país. E aqui reside o cerne da questão. Será que a despenalização do aborto destina-se apenas a evitar a chaga social do aborto clandestino? Penso que não. A despenalização vai também permitir à mulher que pretende realizar um aborto, o contacto com técnicos de saúde, nomeadamente na área da psicologia, criando oportunidades e condições para melhor avaliar a sua posição. Assim o revela a experiência de países em que o aborto é legal, e que registam uma considerável percentagem na reconsideração das suas posições e, consequentemente, das suas decisões finais. E é fácil compreender isto se considerarmos que na situação actual a mulher tem que tomar uma decisão tão difícil num ambiente de quase total isolamento, sem qualquer apoio e em condições de fragilidade psicológica e emocional. Só por si, este facto constituiria razão suficiente para dizer SIM à despenalização da IVG.


«Como acho que abortar é matar um ser humano começo sempre por dizer que, para mim, a vida começa na fecundação. Eu gostava que, pelo menos uma vez, alguém favorável ao aborto dissesse quando começa a vida para ele.» Anónimo, na Internet.


Paradoxalmente, muitos dos que pretendem defender os inocentes pré-nascituros de tão vil acto, são os mesmos que abençoam as guerras que devoram tantos jovens, como alguém muito bem disse: «...as guerras alimentam-se de fetos crescidos cujas mães trataram e acarinharam durante cerca de vinte anos.» E são também os mesmos que dinamizam campanhas não só contra a despenalização do aborto mas também contra o uso de contraceptivos, nomeadamente a pílula do dia seguinte, existindo até farmácias que se recusam a vendê-la (o que é ilegal!), apelidando-a de método abortivo, quando a Organização Mundial de Saúde afirma que «as pílulas anticoncepcionais de emergência não interrompem a gravidez e, por conseguinte, não constituem uma forma de aborto». Até apetece perguntar: e para estas hipocrisias não há referendo?


O Bispo do Porto não concorda com a penalização das mulheres que praticam o aborto. Em entrevista ao EXPRESSO, D. Armindo Lopes Coelho assume esta discordância com a posição oficial da Igreja, mas explica que a única solução para o problema é a criação de condições sociais para que as famílias possam criar os filhos.


Mas como, entretanto, os nossos governantes não conseguem criar essas condições, respondo SIM à pergunta: Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?
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gosto de outras paragens, mas não do acto de viajar

Que é como quem diz: gosto de estar, mas não de ir e vir. Sempre fui assim. Quando se aproxima a viagem agendada aperta-se-me qualquer coisa no fundo do estômago. Irritam-me os horários, as ligações e mudanças de transporte, a bagagem. Depois, é a sensação de preferir estar noutro lá que não aquele, ou mesmo estar cá. Enfim.
Os artigos que encontrei na net referentes ao velho sonho da teletransportação - suscitados pelos livros e filmes de ficção científica - dão conta do estado actual do conhecimento da "mecânica quântica" (espero que o termo seja correcto).
Aqui ficam as transcrições e os respectivos endereços.



Teletransporte

"... a equipa de Eugene Polzik conseguiu teletransportar foi a informação quântica de uma nuvem de átomos de césio para outra nuvem situada meio metro ao lado. Mas deu um salto gigantesco ao conseguir ler a informação quântica original (à tempeatura ambiente, e não a poucos graus Kelvin) sem a destruir. Este era um dos grandes óbices ao processo do teletransporte e está bem patente no princípio da incerteza de Heisenberg. E o que é que vamos fazer com isto? Saltar directamente da cama para o posto de trabalho sem necessidade de estar em filas de transporte? Fazer a barba e encher o bandulho pelo “caminho”? Ainda não. As aplicações imediatas são na comunicação e computação quântica, para a qual já há protótipos em curso. Traduzindo por miúdos: computadores e comunicações estonteantemente mais rápidos. Isso, sim, é um futuro próximo."
http://inacreditavel.ioio.info/
Danish scientists achieve advanced quantum teleportation
at http://www.iskenderiye.com/wordpress/?cat=12078


Teatro do Absurdo (revisto em 2007.06.25)

NOTA AOS LEITORES: Considerando o elevado número de leitores deste artigo, cumpre-me alertar para o facto de as ideias aqui expostas não passarem de opiniões do autor, simples espectador de Teatro - e sem qualquer formação académica, ou de outra índole, na área das artes. Alerto especialmente os estudantes para tratarem com a máxima reserva, e profundo sentido crítico, o conteúdo do presente artigo.
"O Futuro está nos Ovos" de Ionesco, por: OMINED, TeatrOficina e Grupo Dramático do Grupo Coral de Lagos - 2005


Teatro do Absurdo é uma designação genérica formulada pelo escritor e crítico (francês) inglês Martin Esslin para designar um importante acontecimento, no Teatro do século XX, que rompe com os conceitos tradicionais do teatro ocidental. O absurdo das situações mas também a desconstrução da linguagem*, enquanto tal, conferiu a este acontecimento um movimento dramático de marcada profundidade. Denunciar a futilidade do quotidiano, a existência despida de significado e colocar em cena a irracionalidade que grassa no mundo e onde a humanidade se perde, são os objectivos principais.

Nesta corrente se inscrevem, desde logo, o teatro de Beckett, Ionesco, Arrabal, e as primeiras peças de Adamov e de Genet. Bebendo nas fontes filosóficas, esta concepção da arte de representar encontra apoio nos escritos teóricos de Antonin Artaud e na noção brechtiana do efeito de distanciamento (um ajustamento da representação dos actores e da organização geral do espectáculo de modo a realçar a expressão da crítica social, tendo como finalidade o fortalecimento de uma consciência de classe nas massas). A aparente condição absurda da vida é um tema existencialista que encontramos também em Sartre e Camus, mas em que estes autores recorrem à dramaturgia convencional, desenvolvendo o tema segundo uma ordem racional.
Nesse ambiente pós-guerra floresce a tentação dos escritores pela experiência de um contacto mais directo com o público, evidenciam-se, pela importância das suas obras: Henri de Montherland (La Reine Morte, Fils de Personne, Malatesta, Le Maître de Santiago, Port-Royale, La Ville dont le Prince est un Enfant, La Guerre Civile); Albert Camus (Calígula, Le Malentendu, Les Justes, LÉtat de Siége, Requiem pour une Nonne, Les Possédes); Jean-Paul Sarte ( Les Mouches, Huis Clos, Morts sans Sépulture, Les Maines Sales, La P. Respectueuse, Le Diable e le Bom Dieu, Nekrassov, Les Séquestrés d’Altona). Depois surgem Jean Genet (Les Bonnes - 1947), E. Ionesco (A Cantora Careca e A Lição – 1950) e S. Beckett (À Espera de Godot - 1953), que iniciam a geração da abordagem expressionista, psicanalítica, que partindo de Rimbaud, Lautréamont, Jarry e Strindberg desaguam em Michaux, Kafka, Artaud e outros. É o tempo em que as angústias existenciais, as revoltas interiores, as tentações niilistas se cristalizam na sátira e na ironia repleta de humor negro. O teatro proclama uma vontade revolucionária de mudar a vida.
Indubitavelmente influenciado pela peça Huis Clos**, de Sartre, o Teatro do Absurdo não foi, porém, nem um movimento nem uma escola e todos os criadores implicados mostram-se extremamente individualistas formando um grupo muito heterogéneo. Em comum, partilham a rejeição do teatro tradicional e a adopção da caracterização psicológica, da coerência estrutural e do poder da comunicação pelo diálogo.

Nos anos 50, Samuel Beckett e Jean Vauthier - herdeiros de Alfred Jarry e dos surrealistas - introduzem o absurdo no seio da própria linguagem, pondo em evidência a dificuldade que temos em comunicar e compreender o verdadeiro sentido das palavras, e a consequente angústia de o não conseguirmos.

Recorrendo a processos de distanciação**** e de despersonalização estas peças desmontam as estruturas da consciência e da lógica da linguagem e expõem os anti-heróis sujeitos à sua fatalidade metafísica, seres errantes destituídos de referenciais, como que aprisionados por forças invisíveis num universo hostil. E é essa fragilidade que se denuncia ao mostrar o abismo que existe entre os princípios nobres que somos capazes de enunciar e eleger e a praxis do quotidiano.

As peças obedecem a uma lógica assente na caracterização psicológica e no estatuto das personagens, no enredo, nos objectos e no espaço – identificado/relacionado com a personagem.

Podemos identificar, na base do Teatro do Absurdo, o contributo de
Alfred Jarry (18731907) e como percursores: Guillaume Apollinaire (18801918); Antonin Artaud (18931948); Roger Vitrac (18991952); Julien Torma (19021933). Dos pioneiros, autores que vão impulsionar verdadeiramente este teatro d’avant-garde, destacam-se: Samuel Beckett (19061989); Arthur Adamov (19081970); Eugène Ionesco (19091994); Jean-Paul Sartre*** (1905 - 1980). E na galeria dos herdeiros constam: Boris Vian (19201959); Edward Albee (1928 – ); Harold Pinter (1930 – ); Slavomir Mrozek (1930 – ); Fernando Arrabal (1932 – ); Tom Stoppard (1937 – ).


* Os textos procuram “corromper” os seus significados tradicionais, criando novos contextos e permitindo novas leituras, por vezes num processo contínuo e vertiginoso.

** Em Hui Clos, Sartre reúne três mortos condenados a dialogar pela eternidade. Cada personagem é o inferno de outro na medida em que passa em revista a sua vida no intuito de a criticar. O inferno é, pois, a obrigação de ver a sua vida julgada pelos outros sem ter possibilidade de a modificar, de corrigir os erros, pois a morte pôs fim à faculdade de escolher. Sarte mostra, assim, que a existência é o lugar essencial para as nossas escolhas e para o exercício da nossa liberdade já que os nossos actos implicam uma responsabilidade à qual não nos podemos eximir.
*** É inquestionável o papel de Sartre no Teatro de Vanguarda. Já esta referência como um dos impulsionadores do Teatro do Absurdo é muito discutível. Porém, na dificuldade em estabelecer as fronteiras entre estes dois fenómenos culturais, e na ausência de conhecimento concreto sobre onde começa e termina a influência do teatro de vanguarda no teatro do absurdo, faço eco desta perspectiva enunciada por uma certa "escola" francesa de história do teatro.
**** "distanciação" no sentido brechtiano do termo, i. e. "afastar a familiaridade, onde possa haver qualquer identificação do espectador com as personagens, e qualquer atitude passiva, para suscitar uma atitude desperta e crítica, capaz de fazer apreender a lição social que a peça comporta" (in pimentanegra).
consultas:
História do Teatro, de Robert Pignarre – Publicações Europa-América, 1979

NOTA AOS LEITORES: Considerando o elevado número de leitores deste artigo, cumpre-me alertar para o facto de as ideias aqui expostas não passarem de opiniões do autor, simples espectador de Teatro - e sem qualquer formação académica, ou de outra índole, na área das artes. Alerto especialmente os estudantes para tratarem com a máxima reserva, e profundo sentido crítico, o conteúdo do presente artigo.

temperos da escrita

“... a arte do romance exige mais ressentimento do que o meu, e mais desejo de vingança, e mais conhecimento do mundo. Além de um temperamento trágico que nunca consegui reter...”
António Sousa Homem – Julho 2006

3º e último acto

O actor principal entra em palco e declama o seguinte texto: A ti, que sei que vens cá, frequentemente. Assim o revela o ACTIVEMETER deste blogue.

Nos próximos dias 5 e 7 de Setembro cumpre-se um ano desde que entraste no meu site e inseriste comentários insultuosos nas fotografias de várias raparigas, maioritariamente nas fotos de colegas nossas. Sempre entendi que não eram elas o alvo, mas eu. As verdadeiras razões para tal procedimento só tu as conhecerás, mas no meu entender procuravas atingir-me fazendo com que elas exigissem a remoção das suas imagens, desacreditando, assim, o site e o meu trabalho – de nível amador, diga-se em abono da verdade, mas despretensioso - e, porventura, criando-me problemas. E tudo isso, acredito, motivado por impulsos emotivos de raiz sentimental e despoletado pela tua relação, ou pretensão de relação, com uma determinada rapariga.

Lamentavelmente, tal atitude, custou-me a mim uma relação de amizade que, tendo-se iniciado nessa altura, ficou irremediavelmente comprometida. Ainda assim, não te condeno nem te desejo mal. Aconselho-te é, e sem falsos moralismos (e quem sou eu para pregar moral aos outros?), a seres mais ponderado nas tuas atitudes, sobretudo com os colegas de trabalho, pois ao longo dos últimos meses fui ouvindo vários relatos de atitudes tuas, profundamente reprováveis, e em que algumas pessoas ficaram verdadeiramente ofendidas contigo. Não acredito que desejes incompatibilizar-te com toda a gente, por isso fica a advertência para teres mais cuidado. Pela minha parte, e no que me toca, perdoo-te e encerro definitivamente este assunto.
Já o mesmo não posso fazer com a rapariga que me magoou profundamente, pois que senti como uma deplorável perfídia a atitude que ela adoptou em relação a mim. De qualquer forma também esse assunto fica encerrado - agora que tenho a certeza que ela já sabe o que penso dela e que apresentei a minha versão dos factos perante os/as colegas a quem ela, estouvadamente, terá apresentado outra versão.
Reduzi a escrito tudo o que se passou, numa forma ficcionada. Aproveitei o ter algo para contar para exercitar a minha medíocre escrita. Não tenciono, nem nunca tencionei, publicar. Se “ameacei” tornar tal escrito público foi apenas, para, no teu caso obrigar-te a reflectires sobre o teu ignóbil acto e, no caso dela, para que, sentindo-se incomodada com as acusações que lhe dirigi, se obrigasse ao que sempre se recusou, a dialogar (neste caso não surtiu efeito, espero ter tido mais sorte no teu).Tal escrito destina-se exclusivamente aos olhos de duas ou três pessoas com capacidade para rever, corrigir, aconselhar alterações aos aspectos formais. Esta atitude insere-se num percurso de aprendizagem da escrita, que é, para mim, assunto muito mais importante do que os enredos da vida social e a própria Fotografia.
Consideração final: Já passei por duas grandes empresas que, tal como esta instituição, integravam centenas de trabalhadores. Em ambas testemunhei inúmeros casos de conflitos, atritos e choques entre o pessoal. Não estou admirado nem chocado com o acontecido agora. É natural nas relações sociais entre pessoas e mais ainda em empresas de grandes dimensões. No entanto, quando não se abre a porta ao diálogo as coisas podem atingir proporções incontroláveis e, por vezes, dramáticas. Não foi o caso. Não me parece que tal pudesse ter acontecido, mas fica a advertência para os mais inexperientes.

FIM do 2º ACTO

INTERVALO

Aproveito para agradecer o empenho de todos os intervenientes nesta peça, que tanto gozo me está a dar. Porém, atrevo-me a apontar alguns aspectos menos conseguidos e, nomeadamente chamar a atenção da Direcção Cénica para a manifesta falta de qualidade da prestação de alguns actores. Quer o J quer a M deviam sair de cena, pois estão a representar muito mal e, assim, a comprometer o trabalho e o prazer disto tudo. Não percebo porque só agora entrou o P, mesmo no final do Acto, sem ter tido tempo para desenvolver uma relação concreta com F. Também acho que o papel da actriz principal deveria ter mais falas, mas sobre isto já discutimos tanto. Bem sei que representar uma peça que se inscreve no mais puro estilo do Absurdo, e fazê-lo ao sabor do improviso e da espontaneidade dos actores, com recurso a breve e sintética orientação cénica é tarefa árdua e espinhosa mas há aspectos que saltam à vista. E nada pior que o óbvio e o fútil para desmotivar os espectadores.
A bem da nossa companhia teatral e do sucesso da peça.
F.

murmúrios

a empatia para com os sentimentos
cresce nos silêncios.
Jorge Coli – Historiador de Arte


as coisas mais importantes
ouvem-se no silêncio profundo.
F.Castelo - Historiador do Nada