o amor já não é o que era


Caro Dr. Coração:
Gosto de um rapaz que tem namorada, eu e uma amiga minha já gostamos dele ao mesmo tempo mas acabou muito mal a história.
Não sei porque é que dizem que o amor é bonito entre duas pessoas. Pessoas que se podem completar com uma só palavra, o que é muito bonito num mundo de sonho de fantasia, mas em um mundo real é tudo menos bonito.
Não sei se ainda acredito que alguém um dia me possa amar e ficar comigo, só sei que por amor já sofri muito. Tive um namorado que me apostou, traiu-me com a minha melhor amiga na altura, e (...) eu acreditava que ele era o homem da minha vida.
Mas estava a viver no meu mundo de sonho onde tudo é muito bonito e que eu sou correspondida por quem eu gosto. (...)
Eu agora gosto de um rapaz o problema é que ele não gosta de mim, eu sonho acordada, mas penso será que ele é igual ao meu ex e tenho medo deste sentimento que tenho dentro de mim. Tenho medo até de demonstra-lo.
O que é que eu posso fazer para conquista-lo. Por favor ajude-me. Será que o problema está em mim?
Inês.

Alguém pode dar uma ajuda à coitada da rapariga? Um bom conselho?

Quem foram os professores destes políticos?

Havia os que queriam ser aviadores, médicos, condutores de máquinas pesadas, pescadores e eu, que queria ser professor ou escritor – convém referir que elegíamos sempre uma alternativa à preferência principal, eis como o Paulinho, que sonhava vir a ser médico, não enjeitava a possibilidade de trocar o prontuário farmacêutico pela consola de comando de uma grua da construção civil. Era assim nos tempos da infância.
A panca de vir a ser professor foi-se atenuando com o passar do tempo e o contacto com esses espécimes enjaulados que, estoicamente, insistem nessa estranha missão de tentar ensinar qualquer coisa de útil ou importante aos infindáveis exércitos de térmitas que frequentam a instituição escolar. E o sonho eclipsou-se aí pelos finais dos anos 70, quando passei a sentir pena pelos professores. Quanto à alternativa, manteve-se como sonho até ter descoberto, em tempos mais recentes, que se pode escrever sem ser escritor. Escrever, simplesmente, passou a ser o meu desígnio.

Mas voltemos aos professores e à situação a que aqui venho dar eco, alfinetado pelo silêncio culpado. Parece-me uma causa justa mas, não conhecendo os meandros do assunto, já que sou apenas um indolente bate-chapas, opto por deixar aqui o eco, sem mais comentários, dirigido aos meus oito leitores habituais.

Professores trabalham mas não recebem. Leiam aqui. Já não fico admirado com o rumo que este país leva mas assusta-me a possibilidade de, qualquer dia, deixar de ficar revoltado com estas coisas.

o Allgarve a crescer


Eles levaram o Alqueva, nós ficámos com Ayamonte. Que merda de negócio. Mas já vai fazendo sentido o tal ALLGARVE.

O Meteorito de Lagos?



É um objecto de forma oval com cerca de 13cm de diâmetro, 7,8Kg de peso e um volume de aprox. 1600cm3, de onde resulta uma densidade de aprox. 4,87 g/cm3 *, tem coloração castanho avermelhado (crusta) e cinzento prateado, brilhante (interior). A impressão ao tacto, sendo muito semelhante à do chumbo revela, porém, tratar-se de matéria mais leve e mais dura – não sendo possível riscá-lo com a unha, ao contrário do chumbo.
O objecto foi recolhido durante uma escavação para construção de uma habitação, na zona do Cerro das Mós. Depois de resistir ao impacto repetido do martelo hidráulico da escavadora, soltou-se do substrato intersticial dos afloramentos calcários onde se encontrava alojada. O Sr. Rui recolheu a estranha pedra que resistiu ao poderoso embate da máquina que opera e guardou-a, como faz habitualmente quando encontra fósseis e pedras com formato ou constituição interessante.
Afigura-se possível tratar-se de um meteorito devido às suas características, sobretudo a evidente morfologia metálica, e ao facto de se encontrar num contexto geomorfológico completamente diferente. Aos aspectos concretos aduz-se a memória das gentes locais que dão como facto ocorrido, a queda de um meteorito nessa zona, em meados dos anos vinte do século passado. «eu teria pouco mais de cinco anos de idade e, numa madrugada, viu-se um clarão e ouviu-se um estrondo. No dia seguinte a minha tia disse-me - José, caíu um meteorito, uma pedra que caíu do céu, ali para os lados da Fonte Coberta.» José Carlos Vasquez. Lacobrigense . 87 anos de idade.
Sem dúvida que seria muito empolgante podermos identificar um achado desta natureza, em que o objecto passaria a ser conhecido, segundo a metodologia internacional, por Meteorito de Lagos. «Desde há muito, está estabelecido que o nome dado a um meteorito é o da localidade, aldeia ou vila, mais próxima do local da queda ou do achado» in. Meteoros, Meteoritos e Meteoróides – José Fernando Monteiro+ (Dept. Geologia - Fac. Ciências Univ. Lisboa). Acresce a importância decorrente do reduzido número de meteoritos existentes em museus públicos nacionais, pouco mais de uma dezena, contra cerca de 2400 em França, por exemplo.
Infelizmente, as alterações orogénicas produzidas pelos trabalhos de nivelamento da encosta já não permitem a identificação da cratera de impacto que, em todo o caso, não deveria ultrapassar um metro de diâmetro. Este aspecto, e o facto do objecto se encontrar a uma cota negativa de aproximadamente três metros – implicando uma deposição de inertes, posterior ao impacto, por via natural ou antrópica –, são óbices a uma imediata identificação positiva do objecto enquanto meteorito. Também não foi possível identificar no objecto uma crusta de fusão resultante da travessia da atmosfera pelo que se torna premente a sua análise por um especialista em geologia. Siderito, siderólito, ou apenas um “devaneólito”? Haja quem o esclareça.

*
Procedemos a uma rudimentar medição do volume, razão pela qual não a reputamos como muito exacta (num balde cheio de água mergulhamos a pedra e recolhemos a água transbordante que foi medida num recipiente graduado).

olha a grande novidade!

A corrupção do Estado
«A entrevista que João Cravinho deu na última quinta-feira é indispensável para perceber a corrupção. Cravinho diz duas coisas de uma importância crucial, em que esta coluna tem de resto insistido. Primeiro, que o grosso da corrupção “se faz” com uma ou outra “entorse” imperceptível, “de acordo com a lei”. Segundo, que por isso mesmo a polícia e os tribunais não podem ir longe e só se ocupam de casos menores. No fundo o Apito Dourado e operações do género são um espectáculo, que esconde os crimes de consequência.
Com grande coragem, Cravinho explica qual é o problema: e o problema é o de que certos lobbies se apoderaram de “órgãos vitais de decisões” do Estado ou de departamentos que as preparam. Ou, se quiserem, o de que o Estado se tornou o principal agente de corrupção.
Isto significa não que o Estado serve, não o interesse do país, como compreendido por este ou aquele partido, mas sim o interesse de lobbies com mais poder ou influência. E, no entanto, nunca se fala disto, embora toda a gente o saiba ou suspeite, a começar pelo presidente da República, porque os “negócios” conseguem inspirar um respeito e um temor que, por exemplo, o futebol não consegue e que manifestamente coíbem a imprensa e a televisão. O que se passa no interior de certos ministérios de que depende a orientação da economia nunca chega à rua. Como nunca chega à rua quem perdeu ou ganhou com os “projectos”, que o Estado autoriza ou financia. Ou quem é e donde vem o impecável pessoal que manda nisso tudo. Ainda anteontem o dr. Cavaco exigiu novas leis para assegurar o que ele chama a “transparência da vida pública”. Infelizmente novas leis não bastam.
Cravinho descreve o “choque” que sofreu com a complacência do PS perante a corrupção do Estado. Sofreria com certeza um “choque” igual, e talvez pior, no PSD. A verdade é que o “bloco central” se fundiu com o Estado. Não existe um Estado independente do “bloco central” e muito menos dos “negócios”, que o apoiam e sustentam: da banca e da energia, a quatro ou cinco escritórios de advogados. Cravinho, como Cavaco, não percebeu, ou preferiu omitir, que hoje não se trata de reformar uma parte inaceitável do regime, mas pura e simplesmente de mudar o regime. Se, por acaso caísse do céu a “transparência” que o dr. Cavaco deseja, metade da primorosa elite do nosso país marchava para a cadeia como um fuso.»
Vasco Pulido Valente in O Público de 2007-10-07
retirado, de: http://aspirinab.weblog.com.pt/
confirmado e corrigido pela leitura directa do artigo
(os destaques a bold são meus)

A felicidade é um aborrecimento

A felicidade é um aborrecimento! A alegria por si só não é interessante, não tem conflitos. E a literatura faz-se de conflitos.

«O humor, para mim, não tem a ver com riso... É antes um “ponto de vista”. É a maneira como as minhas personagens se relacionam com o mundo, como elas olham para as coisas...E fazem-no de uma maneira humorística para poderem sobreviver.»

«Ele conta histórias da sua vida. Por vezes conta a verdade, outras é um grande mentiroso, mas essa é a sua maneira de lidar com as coisas.»
Lars Saabye Christensen, em entrevista a José Riço Direitinho in Ípsilon – Público 2007.09.21

Sou um gajo tão simples que podia ser uma personagem de um conto de Lars Christensen.



Mais um pequeno exercício de verborreia


Vivemos, hoje, no tempo da Arte. No tempo da acção simbólica. Da acção criativa que busca a totalidade. Nunca dedicamos tanto tempo e atenção à arte como agora. E nunca, antes, tantos participaram na criação artística, como hoje.
Uma dessas manifestações é a Banda Desenhada, ou histórias em quadrinhos. Essa arte sequencial - proposta de síntese entre imagens e textos - despertam a atenção pelo ritmo que conseguem transmitir e, sobretudo, pela "permanência" que a evolução do enredo encontra na continuidade/repetição da matriz iconográfica adoptada.
Tanto a noção de “arte" como a ideia de “artista" são intuições relativamente modernas. Coitado do homem primitivo.


defraudando o ser religioso

foto: "Maria Madalena", de efe


Mais facilmente respeito o que é partilhado/praticado por poucos do que o que é partilhado/praticado por muitos. Os poucos, representam menor perigo. Porque esse respeito não é conquistado nem atribuído, é imposto ou resulta de um acto de submissão.
Durante muito tempo respeitei, pensando que o fazia por razões éticas. Quando percebi que o fazia por submissão, submissão ao poder das massas, reflecti sobre o assunto e conclui que, se respeitava a religião por esta ser praticada por muitas pessoas, também teria que respeitar coisas como o nazismo e qualquer tipo de ditadura. Hoje, já não respeito.
Olhando para o que tenho vindo a aprender, não posso respeitar. E então a religião Católica, o maior embuste religioso e social que o Ocidente conheceu. Não esqueço que atearam fogueiras e, pior, mantiveram sociedades inteiras no obscurantismo e no mais miserável arcaísmo político-social (basta ver a diferença dos países que viveram e adoptaram a Reforma).
A nível religioso não passa de um embuste em que até os fundamentos sagrados foram plagiar aos antigos egípcios (a Santíssima Trindade, a ideia monoteísta, etc - aspectos já ensaiados por outras civilizações antes que Moisés largasse os cueiros). Bardamerda para todas as religiões que pregam a intervenção da Providência Divina e a necessária Resignação dos pobres, desprotegidos, expoliados e maltratados.
Não esqueço o puxão de orelhas que João Paulo II foi dar, no Brasil, aos sacerdotes que reclamavam mais Teologia da Libertação (o Cristianismo a favor dos Excluídos), proibindo-os de exercer cargos políticos (deixando para os corruptos profissionais a gestão da res-pública (?)). Não esqueço estas velhaquices que se fazem a coberto de quem prega o amor pelo próximo.
"...uma religião em que a divindade deixou morrer o seu (alegado) filho por uma questão de marketing, e detentora de um historial de séculos de intolerância, não será a mais indicada para nos pregar a paz e o amor pelo próximo..." - TheOldMan
Eis-nos na Fotografia de Intervenção. Na imagem portadora de mensagem (ainda que a imagem tenha sido, ao longo da história, construída para a massa submetida – Humberto Eco)


(de: comentários inseridos em fotos no CanalFoto em Setembro 2007)

Bem podes insistir...

(a insistência do imbecil levou-me a recolocar este post em 2007.11.29)
Há por aí quem que ainda não tenha percebido que não escrevo para toda a gente, que não escrevo para qualquer um. Que nem o que escrevo aqui no blogue se destina ao público em geral, ou melhor, que não espero nem procuro leitores, nem audiência. O que aqui escrevo destina-se a escassa meia dúzia de pessoas e nem sempre para todos esses.
E que sempre escrevi, mesmo sem ter comentários. E que sei quem vem cá, e quando vêem, quer comentem ou não (sobretudo no caso das poucas pessoas a quem se destinam alguns dos posts).
E dou-me a esta prosápia toda porque aparece por aqui um idiota que ainda não percebeu que não me interessam para nada as suas opiniões. Em primeiro lugar porque não lhe reconheço o mínimo de inteligência. Não percebeu ainda que o considero um autêntico labrego, um bronco, e que o melhor que ele tem a fazer é devolver-me o cumprimento e ignorar-me.
Mas desconfio que esperar uma tal manifestação de inteligência elementar já será pedir muito à pessoa em questão.
Quando se ultrapassa um certo limite, das relações entre duas pessoas, já não é possível voltar atrás.
"Mas o burro não sabe, e continua à procura das cenouras."

Prédica feita pelo mui reverendo prior




«_Deus dixit Petro ubi sunt oves meæ; nescio, respondit autem Petrus_»

Deus disse a Pedro «que é das minhas ovelhas?» e Pedro respondeu «eu não sei d'ellas.»
Que bondade, que prudencia, que sabedoria, meus queridos irmãos, não devemos nós admirar em Pedro; que, mesmo no momento em que seu Divino Mestre lhe pergunta, onde estão as minhas ovelhas; responde com toda a delicadeza que não sabe d'ellas, porque essas ovelhas não estavam em estado de apparecerem perante o seu Senhor. Asneiras, meus caros ouvintes, eu não tinha esse genio, não sou mentiroso nem falso, não tenho papas na lingua, e se o Mestre me pergutasse, como a Pedro, onde estão as minhas ovelhas, eu logo lhe dizia sem mais cerimonia, foram pastar para casa do diabo, Senhor.
E com effeito, se Elle tivesse vindo hontem á noite perguntar-me pelas minhas ovelhas, que lhe havia eu de responder? Elle que recommenda tanto no seu Evangelho, que as ovelhas se conservem sempre separadas dos competentes bodes, o que teria Elle dito se visse essas mesmas ovelhas misturadas com os bodes, saltando uns em cima dos outros, e a fazerem gaifonas ao seu pastor!
Sim, amados irmãos, foi grande a balburdia, e ao aspecto de tal desordem, o amor pelo meu rebanho animou-se de um santo zelo e ardendo em fogo, corri de cajado na mão, para arrancar as minhas innocentes ovelhas das dentuças dos lobos encarniçados. Mas, ó dôr, ó desdita, ó patifaria! As minhas ricas ovelhinhas já não escutam a minha voz; já penetradas pelos agudos dardos d'aquelles diabos e inundadas pelos seus liquidos venenosos e seductores, estavam indoceis e levadas da breca. O meu cajado, outr'ora tão poderoso, não póde juntar senão um pequeno numero, que trago para o meu curral, onde as hei de ter fechadas e guardadas até que deem os fructos do seu arrependimento.
Mas vós, amados ouvintes, vós, os que fostes fieis, lamentae a desgraça de vossos irmãos; comportae-vos sempre bem, e tomae para exemplo esses grandes santos da antiguidade; menos um tal santo Agostinho, que, segundo izem, foi um grande pandigo, quando moço, e é por esse motivo que eu nunca vos fallo d'elle.
Fallemos antes d'aquelle santo Chrisologo, que diz que um cura é um sol, e os seus freguezes são uns átomos. Mas eu não sei que diabo de átomos vocês são! não me pagam a congrua, querem que os case de graça e ainda em cima dizem: «ora, estamos nas malvas para o _seu_ padre cura, elle não tem filhos para sustentar!» Vocês sabem la disso? Não sabem que nós outros padres, temos mais trabalho em os esconder, do que vocês em os fazer?...
Mas voltando á vacca fria, pensemos na vossa conversão, se ella é possivel. Julgo que a melhor maneira de o conseguir é fallando-vos das maroteiras que se fazem na freguezia. Por exemplo: o João da Canhota, regedor, sae á noite e se ha de vir ao sermão, vai-se metter em casa da Felicia do Frade, e não sae de lá senão de madrugada. Diz que vae tomar chá, mas imaginem os ouvintes que qualidade de chá elle não tomará...
Aqui não ha senão desordem e immoralidade. Immoralidade nos velhos, immoralidade nos moços, immoralidade nos grandes, immoralidade nos pequenos. Digo immoralidade nos velhos, porque esses velhos, raça damnada de Caim, depois de haverem passado toda a vida... em patuscadas e pandigas, ainda mesmo arrumados ao bordão e de cabeça calva, se vão metter em logares suspeitos! Infames velhos de Suzana! quando é que lhes acabarão as fúrias carnaes e burriçaes? Immoralidade nos moços. Os rapazes e as raparigas andam por essas ruas aos beijos e abraços, cantando cantigas indecentes e immoraes; ainda eu hontem ouvi a filha do Thomaz da Horta e o filho do Ignacio do Dente a cantarem o Pirolito que bate que bate! Ora não ha maior pouca vergonha, uns fedelhos que ainda cheiram a coeiros e já sabem o que isto quer dizer! Immoralidade nos grandes. Esses mariolões e essas mocetonas que vão todos os dias para o matto, sob pretexto de que vão buscar lenha, e por fim fazem por lá couzas do arco da velha... Lenha no forno queriam ellas, malditas!
E quando vão aos figos! O que acontece? As raparigas sobem para cima das arvores e os mariolões ficam em baixo, a olhar para cima e a dizer: Olha Antonia vejo-te os calcanhares, e as pernas, e os joelhos, e o...
Ponham cobro a este escandal-o, amados irmãos, são couzas que se não devem ver senão em certas occasiões. Eu não pego aos rapazes e ás raparigas que vão ao matto e comam por lá o seu figuinho e mesmo que subam ás figueiras, mas para evitar indecencias, as raparigas fiquem debaixo e os rapazes que lhes vão acima. Immoralidade nos pequenos. Essa gaiatada miuda que anda todos os dias a correr pelo adro cá da freguezia, onde estão as campas dos nossos antepassados, e que depois vão fazer as suas necessidades mesmo á porta da sachristia. Se não teem respeito pelos mortos, tenham ao menos compaixão pelos vivos, não póde uma pessoa entrar na egreja pela porta de traz sem ficar a bem dizer atolado até o nariz. Já disse ao sr. regedor da freguezia que pozesse mão n'estas cousas, mas por ora continúa a mesma marmelada á porta da sachristia.
Tambem é digno de reprehensão o comportamento d'essas mulheres casadas, que sem nenhuma consideração pelos seus maridos, se levantam do leito conjugal de madrugada, sob pretexto de levarem o gado ao campo, e depois de andarem lá por fóra a laurear, em pernas, recolhem-se para casa frias de neve, e vão-se outra vez metter na cama com os maridos e arripial-os sem piedade! Pobres homens! Se fosse comigo, que coça que ellas não levavam...
Tambem ha certa moça cá na freguezia, que eu trago d'olho ha dias, cá por certa cousa. Eu devia já dizer quem é, mas emfim por hoje limitar-me-hei só a mettel-a na sachristia e arrumar-lhe um lembrete... domingo direi quem é, se não tomar juizo... por agora saibam unicamente que é a unica na freguezia que usa ligas encarnadas... (_Pausa, rumor na egreja._)
Domingo, de hoje a oito dias, me alargarei mais sobre os homens, coçarei as mulheres casadas, e caírei em cima das solteiras, se não tomarem juízo d'aqui até lá. Sendo hoje dia de festa e estando a chuver far-se-ha a procissão só por baixo da egreja, pois eu não estou para apanhar alguma porrada d'agua. Não precisa vir toda a gente a ella, basta que de cada familia venha um varão.
A proposito de procissão, tenho a dizer-vos, amados ouvintes, que os santos cá da freguezia vão estando muito chimfrins. Eu não dava três vintens por elles. O São Miguel é que está assim mais direitinho, mas o diabo que está por baixo já não tem cornos; pois olhem, não ha na freguezia poucos homens ricos no caso de lh'os darem. O calvario também não está mau; todos os instrumentos da paixão estão em bom estado, falta-lhe só o gallo, mas a isso não direi nada, porque ha poucos na freguezia e as gallinhas precisam d'elles: no entanto se houver por ahi alguma dona de casa que tenha dois, que me mande para cá um.
Esta semana não ha jejum, podem comer tudo quanto quizerem e bebam-lhe melhor; ha só a bemaventurada santa rainha, que cura a tinha; é quinta feira, sexta feira ha feira e domingo é a festa de São Simão e São Judas. Tambem, não sei quem foi o diabo do animal que se lembrou de pôr Judas no calendario. Juro-vos, amados ouvintes, que se não fosse domingo não lhe fazia festa, era o que merecia o senhor S. Simão por caír na asneira de se ir metter com similhante tratante.
Mas acabemos com esta maçada. Ó _seu Zé_, accenda os sinos e mande tocar as vellas, accenda a agua benta e bote agua no thuribulo... não, enganei-me, faça o contrario de tudo isto. No entretanto façamos as nossas costumadas e ordinarias orações. Oremos pela conservação da nossa bemaventurada mãe catholica, apostolica e romana; pela _estripação_ da _cisma_ e abaixamento da hydropisia; oremos tambem pelos ricassos cá da freguezia, a fim de que Deus os mantenha na sua honesta pobreza; pois se fossem mais ricos punham-nos o pé no pescoço. Oremos pelos ausentes e pelos viajantes, afim de se deixarem por lá estar, se estão bem; oremos pelo feliz successo das mulheres pejadas, afim de que Deus lhes faça a mercê de largarem o fructo com a mesma facilidade e doçura com que o comeram. Oremos, n'uma palavra, pela conservação dos bens da terra, como salada, couves, batatas, pepinos e tomates, e pela extincção dos seus males, como formigas, lagartos, ortigas, pulgões e ratazanas... etc.
In http://www.gutenberg.org/wiki/

Viva el Tango!




Ao que parece o Tango nasce no final do século dezanove resultando de uma mistura que reúne diversas formas musicais transportadas pelos imigrantes – italianos, espanhóis, e crioulos - os habitantes das Pampas, e integrando também sonoridades negras, sem excluir a possibilidade de influências da habanera cubana e do Tango andaluz. O Tango nasce, assim, do registo etnográfico das populações mais pobres que se fixam nos subúrbios de Buenos Aires. Começa por ser dança, cabendo ao povo a improvisação das letras – normalmente picantes - para as músicas mais conhecidas. Não sendo bem aceite a dança entre homens e mulheres abraçados, em público dançavam apenas homens. Daí a razão de se manter circunscrito, durante muito tempo, aos bordéis.
Tornado moda, através da sua exportação para Paris no início do século vinte, o Tango espalha-se ao resto do mundo. Um dos seus estilos, o Tango-canção, foi feito com o objectivo de musicar letras e com ele surgem os cantores de Tango.
Nos cabarés dos anos vinte o Tango sofre importantes modificações, a começar pelo facto dos executantes já não serem pequenos grupos que animam o ambiente dos bordéis, mas sim músicos profissionais que inovam quer em qualidade técnica quer em criatividade melódica. A eles se deve a introdução do uso do piano.Carlos Gardel é considerado o maior intérprete do Tango, mas desaparece no auge da sua carreira, vitimado em acidente de aviação em 1935. Porém, é ele que populariza o Tango fora da Argentina pois cantava em Paris, Nova York e noutras capitais do mundo, onde fascinava multidões. A década de 40 será uma das mais felizes e profícuas para o género e, uma vez mais, o Tango inicia um novo trajecto rumo a um lirismo e sentimentalismo mais profundos, desaparecendo de vez as temáticas dos bordéis e dos cabarés, a sua violência e a carga obscena. Impera a fórmula ultra-romântica e, agora, escrevem para o Tango muitos poetas famosos, com sólida formação cultural. É o auge do Tango.Na década de 50 surge o revolucionário Astor Piazzolla que rompe com o tradicionalismo e verte no tango influências de clássicos como Bach e Stravinsky, e também do Jazz. É de realçar o interessante trabalho que realizou com os seus vizinhos brasileiros, esses mestres do ritmo e do sentimento, que se traduziram em novas e enriquecedoras abordagens musicais.Entretanto, o Tango atinge um alto grau de profissionalismo ensombrado, apenas, pelo pontificado do Rock n'Roll que veio contribuir para um acentuado desinteresse comercial e para um decréscimo na criação e produção do género.No final do Século 20 o Tango regressou aos grandes palcos, ao cinema e aos salões de dança, e voltou com toda a paixão que lhe é característica. A vida contemporânea revela a solidão do Homem, essa esmagadora solidão. E a necessidade de cantá-lo, de chorá-lo, de dançá-lo, impõe-se e obtém resposta em meia dúzia de expressões musicais das quais o Tango é exemplo maior. O Tango nasceu para se dançar abraçado, para festejar o multiculturalismo e a miscigenação de povos de diferentes proveniências e raças. Os seus instrumentos são o piano, o violino, a guitarra, o contrabaixo e o bandoneón que é exclusivo do Tango.
Há uma nova geração de artistas que corre o mundo mostrando a sua arte. O Tango, expoente do encanto e sedução de/para homens e mulheres lembra que o que é maravilhoso na criatividade e sensibilidade humana não morre, renasce ad aeternum como a mítica Fénix.

fotos do espectáculo de "Tango Quatro" decorrido no Centro Cultural de Lagos em 2007.08.15

Os Condenados


«Jack Conrad (a superestrela do wrestling Steve Austin) é um prisioneiro que aguarda a execução da pena de morte numa prisão corrupta da América Central e que é "comprado" por um ganancioso produtor de televisão para participar num "reality show" ilegal. Levado para uma ilha deserta, Jack vê-se obrigado a participar num jogo de "matar ou morrer" com nove assassinos condenados à morte oriundos dos quatro cantos do mundo. Sem fuga possível - e com milhões de espectadores sedentos de violência não censurada -, Jack terá que utilizar toda a sua força para ser o vencedor do brutal jogo... e ganhar a sua liberdade.»
É sempre bom confirmar a imbecilidade dos americanos, perfeitamente demonstrada pela “arte maior” desses trogloditas, o cinema de Hollywood e, neste caso, sintetizada na legenda de apresentação da fita: 10 pessoas vão lutar, 9 vão morrer, e tu vais ver. Trata-se de pura poesia norte americana, claro.

3.000 horas de sol




«A Revolução Industrial foi muito simpática, foi uma necessidade, mas infelizmente tem sido levada ao exagero. Quando o mundo está todo ao dizer que atmosfera já não aguenta tanta poluição, há uma série de indivíduos a dizer que há uma quantidade de petróleo para gastar.
Podemos deixar de fazer asneiras. Podemos parar a destruição das florestas da Amazónia, da Indonésia, da África Central... Mas enquanto houver povos que precisam de dinheiro para viver e povos ricos que compram a madeira dessas florestas, o clima só vai mudar para pior. Quem tem culpa? Os povos ricos, com certeza, que andam sistematicamente à procura de ter tudo de bom aos pés da cama.
A água irá faltar na Península Ibérica (Portugal e Espanha), no Norte da China e Manchúria, na Austrália, na Nova Zelândia e na Tasmânia. O deserto do Sara está a ampliar-se para o Sul da Europa – isto foi absolutamente verificado no início dos anos oitenta por equipas de meteorologistas de Portugal, Espanha, França, Itália, Grécia e Turquia no âmbito de um programa conjunto chamado MEDALUS (...); Já nessa altura se concluiu que a linha de risco em Portugal já passava a norte do Tejo (...).
A América do Sul e a Europa do Norte serão as únicas regiões que, em 2025, não terão problemas de falta de água. Os meus colegas climatologistas dão-nos informações de que o famoso anticiclone dos Açores apresenta tendência para se estabelecer com muito maior frequência a sul das Ilhas Britânicas ou entre os Açores e a Madeira. Qualquer destas posições irá constituir uma barreira, um bloqueio; o anticiclone, estendendo-se em crista para nordeste em direcção à Escandinávia e em crista para sudoeste em direcção à América Central, vai fazer com que as chuvas não venham directamente para o Sul de França, Espanha e Portugal e tenham de dar a volta, indo chover provavelmente na Alemanha, na Polónia, na Europa Central, no Leste da França.
Já devíamos estar a pensar em dessalinizadores. Veja o caso exemplar do Porto Santo. A ilha não tem água, praticamente não chove e, no entanto, ninguém morre à sede. No continente não se faz a conversão da água do mar; mas devíamos estar a investir nessa tecnologia.
Escandaliza-me que já todos tenham chegado à conclusão de que o petróleo é altamente poluidor e Portugal tenha anunciado que vai fazer prospecção de petróleo ao largo da costa, para o que tem de gastar 36 a 38 milhões de euros. Não seria melhor aplicar esse dinheiro em fontes energéticas menos poluentes? Escandaliza-me que o Algarve tenha três mil horas de sol por ano – que é o máximo de horas de sol em todo o Mediterrâneo – e não façamos nenhuma utilização disso. (...)»
Excerto da entrevista de Anthimio de Azevedo no Notícias Magazine de 12.Ago.2007

Os ectoplasmas



Há gente que muda do estado sólido para o estado ectoplásmico e nem dá conta disso. Há coisa mais ridícula do que julgar-se no pensamento ou nos cuidados de outrem que, afinal, pura e simplesmente o ignora integralmente, sem o mínimo esforço?! Um destes seres já tinha passado a essa condição, de invisível, há algum tempo, o outro operou a transformação recentemente. Ambos têm em comum o facto de deterem uma ideia muito própria acerca da amizade – que evocam futilmente – e continuarem a remoer azedumes. Vem isto a propósito de me chamarem a atenção para palavras ditas e escritas que atestam algum mal-estar em relação à minha pessoa. Ora descansem lá que não tenho nenhum pensamento, nenhum comentário, nenhuma atitude para cada um de vós. Fiquem em Paz. E porque não fazem o mesmo em relação a mim? Ignorem-me. Agradeço-vos, do fundo do coração.



o mundo ideal

«Cada vez que ligo a televisão, as telenovelas, concursos imbecis e imbecilizantes, big-brothers e quejandos, Maya's e demais vendedores de banha da cobra, fazem-me pensar na sociedade retratada em Fahrenheit 451. A diferença essencial é que não é necessário queimar livros, estes colectam pó nas prateleiras das livrarias, com excepções que são muitas vezes instrumentos que cumprem a mesma função dos «bombeiros» do mundo de Bradbury: a construção de um mundo «ideal» onde ser acéfalo e ignorante constitui a mais prezada virtude... »

Só dois?


Que balança utilizar para julgar as ofensas feitas aos outros? A balança da Psicologia facilmente me absolveria ou arquivaria o processo. Sem grandes exames bem podia remeter para a natureza competitiva e os instintos de sobrevivência. A balança da moral racional, a que estabelece os princípios éticos em que acredito, essa, leva-me à auto-condenação.
Se há um desígnio superior em tudo, e alguma espécie de equilíbrio justiceiro que rege a nossa vivência, aceito os sofrimentos entendendo-os como punições para as minhas faltas. Expio-as com a conformação do faltoso.
Se nada existe de transcendental, nem demiurgo algum que estabeleça uma justiça neste universo, então os meus padecimentos são consequência de deficiências genéticas e psicossomáticas a que se somam erros e excessos cometidos, e dos quais sou o grande culpado. Mereço tais sofrimentos, até porque sempre esteve ao meu alcance a livre escolha para evitar tais erros.
Podia ocupar cargos de destaque nos órgãos directivos das associações a que pertenço. Não o faço porque quem erra não deve desempenhar esse tipo de funções nem alcançar tais protagonismos. As pessoas públicas devem ser exemplos da moral e da virtude.
Não uma moral qualquer, como essas vinculadas às culturas religiosas que constituem heranças bizarras e distorcidas, como a judaico-cristã: diferenciadora; desigual; resignacionária; reaccionária; castradora, numa palavra, desumana. Mas sim uma moral racional sustentada numa ética evidente, clara e universal.
E da virtude equacionada e defendida pela maitê socrática. Por isso, olho com desprezo para esses vigaristas reincidentes que ocupam cargos públicos, quaisquer que sejam, de maior ou menor notoriedade. Por muito menos do que isso, eu não o faço. Irrita-me que outros o façam. Não devíamos permitir tal coisa.
Falhei. E os erros são nódoas que as qualidades, muitas ou grandes, jamais encobrirão pois são como buracos negros, minúsculos e invisíveis, que tudo devoram, precipitando no seu interior matéria e luz – venturas, alegrias e sorrisos que infalivelmente povoam a vida de qualquer um. Sou duro e exigente? Pois sou. Mas sou-o mais comigo do que com os outros.
Por um lado, prezo a vida e ainda me encanto com o que tem de belo mas, simultaneamente, vou desejando que ela corra rumo ao final e, quando acontecer e for conduzido diante de Anúbis, exibirei um sorriso de desdém e dir-lhe-ei: eu já me julguei e sentenciei, agora é a vez de te julgar a ti, ó deus de merda.
Na outra hipótese, a que perfilho, não estará lá nenhum juiz mas, unicamente, o oblívio – pois esse túnel de luz de que falam, mais não é que o extinguir da chama interior que nos anima.
Mas que treta é esta? Em que sarjeta sombria e malcheirosa mergulhei? Alto aí. Em vez de investir sobre territórios tão tenebrosos, será melhor contar-vos uma anedota.
A madre Teresa de Calcutá chega ao céu depois de mais um dia extenuante e pede a Deus o jantar. Recebendo uma sandes de pão de centeio, olhou para baixo e viu os que estavam no inferno a comer um opíparo banquete. No dia seguinte aconteceu a mesma coisa e a madre, intrigada, perguntou: - Meus Deus, porque é que nós só comemos pão de centeio e eles, no inferno, comem tão grande banquete? Responde-lhe o demiurgo: - Teresa, achas que vale a pena cozinhar para duas pessoas?

O limpa fossas


Para lá da importância do seu teor, confesso que a outra razão que me impeliu a escrever o presente texto respeita ao facto de, finalmente, ter surgido a oportunidade para utilizar este magnífico título.
Numa reportagem televisiva, recente, tomei conhecimento da história deste homem que se recusa a pagar a taxa de saneamento básico exigida pelos Serviços Municipais de uma autarquia da região de Lisboa (penso que se trata de Sintra). O munícipe argumenta que não possuindo ligação à rede de esgotos, mas sim uma fossa, não tem obrigação de pagar essa taxa. Nisto, dá-lhe razão a Inspecção Geral da Administração do Território (IGAT), após consulta realizada.
Da parte dos Serviços Municipalizados recolhe-se o depoimento de um técnico que enfatiza a entrada em serviço de uma Estação de Tratamento de Águas Residuais pelo que o pagamento dessa taxa é devido por todos os munícipes. Mas, o nosso bom homem não desiste da sua pretensão e para evitar a cobrança dessa taxa, junto à factura da água, até abriu um furo artesiano na sua propriedade. Por outro lado, contra argumenta que já paga o serviço do Limpa Fossas de cada vez que o requisita.
Aqui, abro um parêntesis pois interessa debruçarmo-nos sobre a reportagem em si. E uma vez mais se constata que não nos é fornecida toda a informação que seria necessária para a apreciação deste caso. Trata-se de uma peça informativa medíocre que denuncia o estado do jornalismo televisivo no nosso país. Aquilo que interessa às televisões é, unicamente, o "cabeçalho" da notícia e o respeito escrupuloso pela duração máxima da peça (segundo indicações de especialistas preocupados com o "arrefecimento" do interesse do telespectador). E assim, vivemos bombardeados por esse lixo informativo que só confirma que a Televisão constitui a maior "labreguice" cultural que transportámos para o novo milénio.
Esgotado o gozo de assistir à estóica revolta contra o Sistema, protagonizada por aquele munícipe transformado em herói à la minute, assaltaram-me as dúvidas, legítimas, de quem se sente defraudado pela suposta informação televisiva. Assim, seria interessante confirmar que a situação anterior consistia em proceder à remoção e transporte dos dejectos e sua libertação num rio ou no mar - vulgar em muitos municípios - e a nova situação consiste em remover e transportar os dejectos para uma estação de tratamento de águas residuais (ETAR) onde o produto é tratado e devolvido ao ambiente em condições inofensivas.
E aqui surge a questão: porque é que o munícipe se recusa a pagar pelo serviço de tratamento dos dejectos que produz? E o apresentador informativo (é a nova designação do antigo repórter) poderia ter, em seguida, questionado os Serviços Municipalizados noutra perspectiva: porque não resolvem o problema suprimindo essa taxa de saneamento aos munícipes nestas condições, mas aumentando o preço do serviço do Limpa Fossas? E talvez tivesse como resposta: é que muitas das pessoas que têm fossas nas suas habitações possuem fracos recursos económicos e assim estaríamos a agravar a sua condição económica e social! Também ficámos sem saber se o referido munícipe, ao recusar pagar a taxa de saneamento, procede à reciclagem total do lixo que produz ou se o deposita, furtivamente, no colector do vizinho.
E agora vamos à reflexão final. Porque é que não se critica o sistema contributivo da Previdência Social que integra o princípio da solidariedade, em que uns contribuem mais do que outros e, desta forma, se garante a prestação, inclusive, àqueles que nunca contribuíram e, por outro lado, tantos se acotovelam para criticar as incipientes medidas de protecção ambiental que, timidamente, têm vindo a surgir no nosso país? Então esta questão não merece um tratamento com base na solidariedade social em que, em primeiro lugar, todos devem contribuir com um pouco e, em segundo, aqueles que mais poluem, mais devem pagar?
Entretanto este teso munícipe brande, qual grotesco D. Quixote, uma lança embotada, ferrugenta e anacrónica que só colhe simpatias, temporárias, porque alimenta as “notícias a peso" e desperta a rebeldia contra o poder (qualquer poder), latente em cada um de nós. Claro que não estamos perante o acto de indisciplina social de um Agostinho da Silva que sempre recusou, e nunca possuiu, cartão de contribuinte. Mas isso era outra notícia, divertida q.b. para televisões e governantes. Até porque se tratava de um distinto Professor de Filosofia. Aqui, o caso é diferente e o nosso munícipe será, indubitavelmente, cilindrado pelo Sistema que ousa combater e engolido pelo seu aliado Limpa Fossas.
2001-05-13

De falha em falha, até à falha final.

É caricato como algumas mentes pouco dadas à reflexão se aventuram a esgrimir convicções assentes numa experiência de vida pressupondo que essa experiência, apenas porque foi vivida, representa a verdade. De uma penada é varrida a razão kantiana que tantas objecções levanta à validade absoluta do conhecimento empírico.

Nivelar por cima, sem cultivar uma atitude elitista (pois, se o elitismo se instalar será por acção natural), será, sempre, exercício mal interpretado, sobretudo por aqueles que defendem que a validade do conhecimento reside nas práticas acumuladas de uma vida.
Rejeito as atitudes que definem a cultura por classes, posturas provenientes de uns que se julgam mais cultos, quer os que as manifestam petulantemente de uma posição aparentemente superior, quer os que fazem da boçalidade um arauto apologético da pureza de uma certa “cultura popular”.
Mas que é hilariante, lá isso, é. Cinismo de quem ri, ou falha de quem está a aprender?
A minha promessa é esta: Falharei mais vezes, até ao fim. E ninguém me impedirá de o fazer.
«Tenta outra vez. Falha outra vez. Falha melhor.»
Samuel Beckett
cínico: pessoa sem pudor, indiferente ao sofrimento (ignorância) alheio.



reescrita em Ago 2014:
É caricato como algumas mentes pouco dadas à reflexão se aventuram a esgrimir convicções assentes na sua experiência de vida pressupondo que essa experiência, apenas porque foi vivida, representa a verdade. De uma penada é varrida a razão kantiana e as suas objecções à validade absoluta do conhecimento empírico, assim como a riqueza de conhecimento que advém do confronto de experiências diferentes.
Nivelar por cima será sempre um exercício mal interpretado, sobretudo por aqueles que defendem que a validade do conhecimento reside nas práticas acumuladas de uma vida, ou por aqueles programados no conceito laudatório da mediania (leia-se mediocridade) e da suposta igualdade universal.
Rejeito os arautos da verdade, sejam daqueles que se manifestam petulantemente do alto de alguma cátedra, seja dos que fazem da boçalidade a apologia de uma certa “cultura popular”.

Discuta-se, porque da discussão nasce a luz. Mas apenas entre quem fale a mesma língua, sob pena de se estabelecer menos que cacofonia. Isto é, verifique-se previamente o entendimento dos conceitos e a igualdade dos significados. Sem isso, discutir é tempo perdido.

ui, ui... é de ler a entrevista do António Arnaut à Visão


No social, há sinais graves: nos supermercados pedem-se aparas de frango e as marmitas regressaram às empresas...
E aqui em Coimbra há muita gente a ir à sopa dos pobres! Tenho amigos no Banco Alimentar e como maçon sei a que carências a maçonaria tem acudido. Já não é só um problema de pobres, chegou ao empregado de escritório. É uma depressão económica e psíquica que abala os alicerces do País. Sobretudo quando, da parte de quem governa não há palavras de conforto nem um comportamento à medida do que o País precisa. Mesmo assim, há gastos sumptuários, grandes festas e inaugurações.

As pessoas também se endividam em nome de outros «valores»...
A banca tem grande responsabilidade no endividamento. O Governo que assuma a soberania! A banca tem uma função social importante, mas não pode ter lucros fabulosos, quase não pagar impostos, esfolar vivas as pessoas e ainda ir ver se há alguma coisa depois de mortas! No fundo, o capitalismo selvagem gerou novas formas de escravatura. Um país sozinho não pode defender-se disso, mas não me conformo: há uma verdadeira ditadura do capital sobre o trabalho. Nem Salazar permitiu o domínio do Estado pelos capitalistas.
Lerei nas entrelinhas a crítica a uma certa maçonaria que tem sido usada como sede de lobbys de interesses pessoais e corporativos de carácter económico, sob a batuta de "malta do PS"?!

António Arnaut, fundador do PS, ex-Ministro dos Assuntos Sociais e antigo grão-mestre do Grande Oriente Lusitano, deu uma entrevista à VISÃO em que arrasa Sócrates, acusa Correia de Campos e diz que o PS «perdeu alma e identidade»


resposta a um comentário

(a insistência do obtuso levou-me a recolocar este post em 2007.11.30)


Anónimo disse...

Hoje roubei um naco tempo à minha música para ler o teu Claustro Fobias. Eis a minha crítica simples, não sei de literatura por isso não vale a pena teres medo. Sei que não sou do grupo de pessoas das quais te interessa saber a opinião ou a avaliação do livro.

Morreu uma freira e deixou algumas palavras a serem gravadas na lage tumular da sua campa.
Qualquer coisa como isto:
"Nasci virgem,vivi virgem, entreguei-me a deus, a nosso senhor jesus cristo,e morri virgem". O canteiro olhou para as palavras e começou a gravação. Uns dias depois, alguns familiares e amigos da freira foram buscar a lápide e para surpresa sua estava escrito na pedra, "Nunca fui Fodida". Indignados -Então o que é isto ?
Resposta do canteiro - Era o que ela queria dizer !
Meu caro Castelinho, no Claustro Fobias abriste o cofre das palavras de ouro, consultaste compêndios e manuais, para dizeres que um pobre diabo qualquer fornicou uma freira.
O canteiro foi muito mais prático.
Tenho dito...



Meu caro anónimo.


Se eu quisesse dizer que um pobre diabo qualquer fornicou uma freira, tê-lo-ia dito. Só que o que eu quis fazer foi um exercício de escrita.
Certamente poderíamos reduzir toda a literatura a pequenas e concisas frases, isto é, podíamos varrer a Literatura da face do planeta e do espírito das pessoas – até já houve vários índex e autos de fé aos livros, queimados em fogueiras públicas.
E em certa medida é isso que vai acontecendo. No concelho de Lagos p. ex., ao submeterem-se crianças de um grupo do 1º ciclo a um “trabalho de casa” que implicaria consultar alguns livros, as educadoras descobriram que o auxílio dos pais tinha consistido em consultar revistas de notícias sociais, vulgo revistas cor-de-rosa (c. 50%), jornais (c. 13%), enciclopédias (2%), e os restantes 32% não fizeram qualquer consulta. Ninguém abriu um livro! Provavelmente, não se lembraram da música, ou teriam consultado a literatura inclusa nos CD’s do Quim Barreiros e do Emanuel.
É verdade que poderíamos reduzir o Conto Claustro Fobias a isso, se ao menos estivesse certo. Como erraste no género de um dos intervenientes isso prova que não dominaste a “literatura”. Não compreendeste a coisa. Talvez devido às "palavras de ouro"?!
Meu caro, se reduzíssemos tudo a tão pouco não nos faziam falta poetas, escritores, filósofos…nem músicos, pois bastava assobiar ou trautear uma merda qualquer - bastavam-nos os canteiros de lápides.
O recurso às “palavras de ouro” é uma das condições da Literatura. Marca a diferença entre o homem das cavernas que diz “oinc…oinc” para exprimir um simples “gosto de ti” e o homem culto que diz (neste caso até é uma mulher a dizer):


Sentei-me na varanda dos teus olhos

E fiz um poema ao branco das flores

Foi o poema mais belo que fiz

Não tinha expressões roubadas aos dicionários do difícil

Não necessitou dos pássaros de Llorca

Não falou das areias do deserto

Nem do fogo da noite que arde

Ou de voos envoltos em branco de luar

Tinha a tranquilidade dos eremitas

E o silêncio da tarde onde a tarde se cala

Tinha o fresco da madrugada e o vermelho do sol

Do dia que nasce a esperança que ri.

O poema mais bonito que já fiz

Dizia apenas

Gosto de ti...

(Maria)


Porém, assiste-te o direito e a liberdade de escolheres o “oinc…oinc”. Respeito, mas não partilho a tua opinião. Como já to tinha dito.

:p


Há bons músicos neste país, e, mais acima, este senhor

Eu hoje venho aqui falar
duma coisa que me anda a atormentar
e quanto mais eu penso mais eu cismo

como é que gente tão socialista
desiste de fazer o socialismo

é querer fazer arroz de cabidela
sem frango nem arroz nem a panela


Eu hoje venho aqui falar
duma coisa que me anda a atormentar
e quanto mais eu penso mais eu vejo
que esta grande obra de reconstrução
parece mas é uma acção de despejo
é como para instalar uma janela
atirar primeiro os vidros para a viela

Eu hoje venho aqui falar
duma coisa que me anda a atormentar
e penso e vejo de todas as cores
já libertaram pides e bombistas
deve ser para lá por trabalhadores
é como lançar cobras na cidade
e pôr dentro da jaula a liberdade

Eu hoje venho aqui falar
duma coisa que me anda a atormentar
e vejo e de ver tiro conselho
aquilo que é mesmo reforma agrária
é para alguns o demónio vermelho
esses querem é ver anjos cor-de-rosa
entre Castro Verde e Vila Viçosa

Eu amanhã posso não estar aqui
mas também, para o que eu aqui repeti...
é que eu não sou o único que acho
que a gente o que tem é que estar unida
unida como as uvas estão no cacho
unida como as uvas estão no cacho

PONTO FINAL


Esta cidadezita é mesmo muito pequena. Vejam lá, que a propósito da edição de um livreco que pretende apenas exercitar a escrita, impedir a continuada revisão do pouco que a incipiente escrituração encerra, estabelecer um ponto de partida no domínio da construção literária para outros voos possíveis, e porque foi apresentado e distribuído a escassa meia centena de convidados, amigos e responsáveis pelo incentivo a escrever e publicar; aos primeiros, porque os amigos servem para aguentar as estopadas, aos segundos porque devem arcar com a co-responsabilidade do resultado desse estímulo – decorrendo o evento nas margens de uma Cafetaria, e não como inicialmente previsto, apenas distribuído mão a mão a amigos e a três ou quatro pessoas cuja opinião técnica me interessa –, fui alvo de rasgados elogios. Assim aconteceu, logo na apresentação (o que é compreensível), mas também num jornal online e, até, entrevistado para uma rádio local. Só num meio tão pequeno um peido fugidio libertado no centro de um arraial popular pode constituir notícia.
Ah! E já me esquecia da referência no blogue local dos grilos falantes, essas consciências anónimas que abnegadamente prestam um judicioso serviço à comunidade – antes preenchido pelas lavadeiras nos tanques de S. João –, vejam lá, que também entendeu prestar homenagem a este sofrível escrevinhador, quase como se de um autor consagrado se tratasse. Bem Hajam! Pois que outra coisa poderei dizer?!
Bem sei que o fundamento destas manifestações se deve às amizades. Essas teias que teimam em ligar as pessoas, sobretudo nestes meios mais pequenos. Lá nisso, é giro. Mas quanto ao resto, ou eu nem percebo o quanto notório sou, ou a malta não tem mais nada para fazer ou de que falar ou… tá tudo doido.
Outra coisa que me deixa suspenso é o facto de algumas pessoas não acreditarem nesta coisa do exercício. Acham que é modéstia, que aquilo até é uma coisa muito porreira, etc e tal. Tão doidos!
Também já me ocorreu que alguns poderão pensar que é desculpabilização. A escrita é insignificante e o gajo, para se safar, diz que é apenas um exercício. Também estão doidos, está claro – que isto, quando ataca, é geral. O conto, se assim se pode chamar, é, não só uma escrita à margem - à margem de outras escritas a que dedico mais atenção -, mas um conjunto de quadros inicialmente desconexos que, depois, ganharam alguma ligação, embora mantendo vincadas incongruências - propositadas umas, involuntárias outras. É uma escrituração inserida no mesmo ciclo de exercícios que incluem as outras escritas que prossigo, no intuito de melhorar a forma. Pode ser que algum dia escreva algo verdadeiramente interessante mas, para isso, terá que ser redigido em feitio que me agrade (chegada à que gosto de ler nos escritores que admiro).
Mas, mais insólita, é a suspeita de que há ainda uns outros que pretendem vislumbrar ali, no livreco, empreendimento medonho: algum ataque, ou preparação de ataque, a terceiros ou a eles próprios. Ora, eu, que sempre consegui rir de mim próprio, das minhas patetices, das situações que as originaram e dos resultados que daí advieram - neste particular só sou diferente da maioria, na medida em que sou capaz de soltar esse riso, já que em termos de produção patética, por mais que me esforce, não consigo destacar-me dos demais, eles é que não têm consciência disto mas, adiante, ou não acompanho com os dedos no teclado o enfileirado de palavras que brotam não sei de onde. E então, havia de escrever e publicar algo para atacar terceiros? Com que propósito? Acertos de contas com gente que errou, talvez gente perversa e velhaca? Ora, isso seria dar maior importância a essas pessoas. Insanos, esses temerosos, pois claro.
Pois claro que a escrita do Claustro Fobias é uma preparação para outros “ataques”. Atacar a folha em branco, decorá-la com imagens desenhadas pelas palavras. Integrar num simples dado histórico, numa historieta, num aforismo, num incidente, elementos biográficos, um poema, o significado de um gesto ou de um olhar e muita, muita imaginação. Mas, tudo isso só tem valor, se estiver bem escrito. E para lá chegar preciso burilar estas construções. Gostam desta forma de escrever, gostam? Pois, eu não. Isto não me chega. Nem se aproxima daquilo que gosto de ler.
PONTO FINAL… temporário
;)

Os 5 (e o cão) no meu blogue

Respondendo ao repto que o Arion do blogue O Exilirado me lançou, indico 5 livros da minha vida.

Eleger terminantemente os 5 livros da minha vida seria tão estúpido como eleger o Maior Português de Sempre. Nem percebo o que andou o Helder Macedo a fazer por lá, não pertencia àquela trupe de idiotas.

Agora são estes 5 e mais tarde seriam outros 5 diferentes. Mas cá vai.

fase juvenil: O Meu Pé de Laranja Lima - José Mauro de Vasconcellos
fase adolescente: O Despertar dos Mágicos - Louis Pauwels e Jacques Bergier
fase pré-adulta: Delta de Vénus - Anaïs Nin
fase adulta: O Arranca Corações - Boris Vian
fase senil: O Poema de Gilgamesh - (dum gajo de há 5 mil anos, certamente com graves problemas de cópula)

Porém, pela parte que me toca, esta coisa morre aqui porque não alimento cadeias de futilidades. Estou mais preocupado em continuar debruçado sobre o meu umbigo. Função para a qual edifiquei este blogue, com muito saqué, suor, e lágrimas... de riso.
E tudo isto porque não há um humorista capaz nesta treta de país. Fadistas, há-os para dar e vender, alguns palhaços, muitos actores de comédia mas humoristas a sério... népias.

Mistérios do Universo

Serão sempre mistérios insondáveis, autênticos enigmas que envolvem a tragicomédia caseira de um gajo a tentar evitar sujar-se com pingos de qualquer acepipe fluído. Nunca entenderei isto. Acho, mesmo, que a compreensão de tais mistérios nunca estará ao alcance dos homens. Não estamos preparados para tanta sapiência. Mas, se conseguíssemos atingir esse conhecimento, acredito que alcançaríamos a chave de todo o saber e, muito provavelmente, a revelação de que o Universo não é o imenso paradoxo que afigura. Daí, manter-se tal segredo na posse exclusiva do demiurgo. É compreensível.
Juro que desta vez tive cuidado! Fui previdente. Retirei as amoras da tigela grande com todo o cuidado, usando uma colher de sopa, e transportei-as aos pares, em deslocação a baixa altitude, para uma taça de vidro colocada ali mesmo ao lado – reparem que escolhi o vidro para poder vigiar in extremis toda a operação. Desta vez, fiz tudo como deve ser. Recolocada a tigela no frigorífico, peguei na taça repleta daquelas pseudobagas, que mais não são do que dezenas de drupas agregadas, muni-me de um garfo de sobremesa – resistindo ao impulso de espetar algumas pelo caminho –, e voltei para defronte dos computadores. À medida que a conversa com o Armindo ia decorrendo no Messenger, lá me ia regalando com o intenso sabor dos minúsculos e negros frutos, indiscriminadamente trespassados pelo subtil garfinho. De repente, uma ideia assaltou-me, e, com ela um arrepio percorreu-me a retaguarda. Ah… ah… ergui os braços, evitando tocar no quer que fosse, levantei-me e encaminhei-me para a casa de banho. Sem parcimónias recorri ao gel mais dispendioso que por lá havia e lavei as mãos meticulosamente. Despi a camisa do pijama de Verão e regressei com um sorriso triunfal à cadeira de empreita que serve o serviço computacional. Agora queria ver como é que o raio das amoras me iam tingir a roupa. Hehehehe… Tinha-as lixado. Confiante, retomei o ritmo das opíparas garfadas.
Nem demorou dois minutos, ou umas cinco linhas do diálogo acerca das críticas à minha recente publicação – sim, vai ser lançada na próxima semana mas já conta com recensões de insignes literatos. Mas quais dois minutos? aquilo foi só o tempo de reposicionar no cérebro as coordenadas dos caracteres do teclado e, quando confirmava que o “f” se encontra entre o “d” e o “g”, deparei com dois malditos pingos na barra de espaços. Arregalei os olhos e suspendi toda a actividade digital – e desconfio que, cerebral também. Horror dos horrores, ao varrer, em rápida panorâmica mental, o tabuleiro alfabetiforme, descobri mais vestígios da penetrante tonalidade arroxeada. Desta vez eram traços imprecisos, como micro rastos, plasmados em mais umas tantas teclas. Olhei para os dedos e fiquei completamente estupefacto. Estavam sujos! Mas como, meu Deus? Como, se nem toquei no raio das amoras? Absolutamente atónito, demorei no regresso ao mundo do teclado e dos dedos maculados e da conversa a que tardava responder. Isto não é possível! Isto não está a acontecer.
Vocês compreendem o meu alvoroço, não?! É que nódoas de amoras, romãs, nêsperas e coisas que tais dão direito a imediata discussão com 50% da camada associativa, qual estardalhaço em assembleia de sócios do Benfica. Mas eu continuava a não perceber como acontecera aquilo. Um relâmpago de lucidez, a experiência da meia-idade, o bom senso, ou a prudência, ou tudo isso nas doses certas, ditaram uma retirada táctica para a cozinha. Não sem antes explicar ao interlocutor internauta o desastre ocorrido – com consequente agravamento dos resultados, pois ainda espalhei a moléstia por outros caracteres do tabuleiro plástico.
Claro está que conclui o consumo das amoras dobrado sobre o balde do lixo. Com os poderosos detergentes da cozinha procedi à remoção das marcas da maldita tintagem e desisti de repetir a dose – contrariando os planos iniciais -, optando antes pelas uvas, fruta mais pacífica. Ah… mas muito mais pacífica, mesmo, meus senhores.
Retornado aos computadores (no plural, pois, de facto uso dois desktops, um para a net e o outro para os trabalhos fotográficos e textos mais sérios). O segundo choque gastronómico da noite sobreveio quando deparei com um estranho olho que me observava a partir da parte central dos boxers apijamados. Ali estava, um ser ciclópico de olho escuro mirando-me a partir de uma posição geográfica notoriamente particular e íntima, como uma malha de circunferência perfeita, uma mancha, um borrão, uma mácula… UMA NÓDOA DE AMORA!!!
Não sei o que é que vocês acham, mas eu estou convencido que ontem à noite aconteceu qualquer coisa estranha no Universo.

os pidescos e a bufaria

O Vítor Dias, do blogue "o tempo das cerejas" junta-se ao coro de vozes que denunciam algo de muito vergonhoso que vai lavrando pelo país, aqui. Pergunto-me como seria, se tais actos fossem protagonizados pelos social-democratas do PPD-PSD. Caía o Carmo e a Trindade? Bloqueavam-se pontes? Assistiríamos a uma insurreição popular? Será que ainda são necessárias mais provas de que vivemos numa das mais abjectas oclocracias?