o fumo esfumou-se


Olaré, leitor que inadvertidamente aqui viste parar.
A última vez que fumei o meu cachimbo foi no dia 18 de Agosto, pelas 3h00 da madrugada. Quer dizer, também fumei na noite do dia seguinte uns cigarros cravados à minha amiga Célia - que se divertia com o meu ritual de arrancar os filtros e amandá-los para cima do Zeca. Coisas da sardinhada, da vinhaça e dos líquidos que se seguiram, na simpática noitada na Sal Moura, comemorando o dia Intenacional da Fotografia. Daí para cá, nunca mais fumei. Já não aguentava mais. Estava a dar cabo da minha insanidade mentol, e das finanças. É verdade: um pacote de Borkum Riff Vanilla, mais os necessários filtros para o cachimbo Vauen custavam-me a módica quantia de 8€/dia. Andava a fumar uma mota de 600 contos por ano. Desisti do fumo e decidi comprar a mota.

Podia dar-me para pior.
;p

e prontos...


agora é só correr mundo e arredores

tá claro que me fico pelos arredores
;)

a evulssão du uomãi cem cabessa




A fotografia, captada em contexto que nada deve ao conteúdo que se apresenta aqui, é usada para representar a evolução rumo ao homem biónico que, para além de “optimizado” nas suas capacidades físicas – não fuma, não ingere álcool e copula agendado – complementa o seu porte físico com apêndices hi-tech, dilatando o seu porte atlético, levando-o a acreditar-se capaz de desafiar Hermes.
Mas notem que é um homem sem cabeça (animal racional superior - entendo que o superlativo é apenas por não existir termo comparativo à altura), pois para coordenar simplesmente o amontoado de músculos, basta um pequeno chip no alto do pescoço. Recusa-se este homem a olhar além do seu corpo, ou de um outro temporariamente adentro do seu espaço vital por razões de prazer ou procriação. E é nessa recusa de sair de si, de pensar e agir, que o homem cede à NÃO CULTURA.
Vem isto a propósito dos inúmeros livros que se publicam neste país, especialmente nesta época, supostamente para que os veraneantes ocupem o intelecto com ARTE (coisas que mudam a mente). Ora, escrever/publicar um livro é um acto de arte, e é um grito de guerra. Porém, tal coisa é impossível num país sem guerreiros. Os que publicam profusamente são, na maioria, gente comatosa, entrincheirada, aprisionada, ou engajada na conservação do statu quo. Um livro, qualquer livro a sério, de fotografia ou um romance, exige inquietude, angústia, raiva, desespero, revolta, ressentimento, temperamento trágico e conhecimento exterior a si. Exige o concurso de todas estas propriedades ou apenas de algumas, mas não seguramente as "qualidades" que escoam das páginas da maioria do que é publicado entre nós. Pura lerdice imprópria para exercitar a inteligência.
A única coisa que por cá se publica é folhetins de passeios de endinheirados meninos de outrora, hoje figuras de ecrãs. Isso, e biografias encomendadas, de putas demandando ajustes de contas. Comparativamente, este segundo tema merece mais crédito, pelos atributos éticos e morais das biografadas, mas não pela qualidade literária dos volumes produzidos.
Cuidem-se, pois, das obscenidades que as editoras apresentam nesta altura e rebusquem nas literaturas de épocas em que existiam escritores – gente que usava a cabeça e não apêndices de carbono –, as obras para vosso deleite intelectual. Fica uma sugestão: “A Derrocada da Baliverna”, de Dino Buzzatti.
A evitar: Reedições de Lobsang Rampa (que estas coisas da terceira visão são viciosas), ou os comoventes moralismos de Paulus Lepus.
Boas Férias.
F.Castelo

Coca Cola Time

Sentei-me num dos cantos da esplanada para, em cinco minutos, tomar a habitual meia-de-leite, ritual que acompanha o diário Glucophage (coisas de diabético). Ali, ao canto, o meu cachimbo não incomodava a jovem que, no centro da esplanada, tomava o seu pequeno-almoço. Em frente, do outro lado da pequena rua, uma equipa procedia à montagem de um toldo protector da montra da loja de recuerdos. Empoleirado, numa escada, um homem de meia-idade vai aparafusando os suportes do toldo, recebendo a assistência de um jovem Adónis moreno. A rapariga não desvia os olhos do exemplar latino, seguindo-lhe as idas e voltas à viatura de apoio. Cada movimento dele produz uma dentada na tosta que ela deglute afincadamente. Eu acompanho o deslumbramento da jovem e, findo o meu ritual, pago, levanto-me e abandono o local, deixando-a entregue ao seu sôfrego enlevo matinal.

O papel do Estado e a intervenção social nas sociedades contemporâneas


Ainda existe, no mundo ocidental, o Estado Providência, resultado das consequências da II Guerra Mundial,mas filho directo da grande Depressão de 1929. O Welfare State teve origem no pensamento keynesiano e surgiu com a intenção de usar a "política social" como um meio para se alcançar a eficiência económica. Rapidamente foi incorporado no Socialismo Fabiano inglês, no Socialismo Funcional Sueco e no Marxismo Austríaco.
Da mesma maneira que os mercados de trabalho e a organização da produção poderiam ser racionalizados mediante a adopção de regulamentações para se obter um nível mais alto de produtividade, também a esfera social deveria ser racionalizada através do uso de políticas sociais, sempre em benefício de maior eficiência nacional. Tais políticas teriam uma acção preventiva, direccionada para evitar o surgimento de problemas nos organismos político-sociais. Grande desiderato para um aparelho de estado que já vinha crescendo desde a Revolução Francesa e, sobretudo, com o despertar das nacionalidades.


E esse Estado que foi crescendo desmesuradamente foi, simultaneamente, dilatando a sua interferência, transformando-se num polvo que acaba por condicionar profundamente a vida dos cidadãos. As causas desta transformação radicam, sobretudo, na alteração da própria concepção da sua finalidade. Às atribuições iniciais do Estado: promulgar e aplicar leis; sancionar os abusos; arbitrar litígios; manter a ordem; garantir a segurança externa e a defesa dos interesses do colectivo; cobrar verbas para suportar as despesas do seu funcionamento, juntam-se novas funcionalidades e áreas de actuação de carácter normal: saúde pública; segurança de actividades que implicam riscos para a segurança das pessoas; organização das profissões e regulamentação do trabalho, bem como outras de carácter excepcional: enfrentar catástrofes; calamidades; epidemias; fomes; crises económicas; atribuir subsídio de desemprego e executar grandes obras públicas, bem como salvar empresas da insolvência financeira, áreas em que o Estado ora é coagido a intervir pela pressão da opinião pública ora age voluntária e antecipadamente pagando favores, serenando ânimos ou cativando simpatias eleitorais. Inequívoco, é o triunfo do Estado sobre os indivíduos e o triunfo dos grandes grupos económicos sobre o mundo. Com isto, nem os indivíduos nem as nações vêem os seus direitos respeitados. Países pobres são obrigadas à recessão, à não construção de escolas, a salários de miséria, a não cuidar da saúde pública. Perante situações destas os governos perdem autonomia e não conseguem concretizar políticas direccionadas ao bem comum.



A globalização é o triunfo dos grupos económicos sobre o mundo. Tal triunfo não se preocupa com os consequentes problemas sociais. Urge reorientar a globalização numa outra direcção: rumo a uma globalização solidária.


O Estado não passou a ter, como objectivo novo e exclusivo, o desenvolvimento de uma política de inserção eficiente no mundo globalizado. O novo papel do Estado é adoptar medidas para conter a crescente desigualdade social. Cabendo especialmente aos países desenvolvidos, "pais do neo-liberalismo", preocupar-se em implementar programas que tenham por base a solidariedade para com os países subdesenvolvidos que adoptaram tardiamente, ou ainda nem adoptaram, o projecto neo-liberal. É que o impacto produzido pela globalização é sentido diferentemente em cada Estado e em cada estrato social.

A globalização assenta em factores apresentados como verdades incontornáveis: resulta exclusivamente das dinâmicas de mercado; é um fenómeno universal que integra e padroniza, e que promove a redução da soberania dos estados nacionais. Ora, se a globalização resultasse exclusivamente das dinâmicas do mercado não estaríamos perante uma nova ordem económica que qualquer governo teria total interesse em adoptar? E não é assustador pensar numa perspectiva de integração/padronização dirigida por uma incógnita institucional, sem rosto nem sede que pretende homogeneizar toda a humanidade?

Obviamente, dá para desconfiar que os construtores de tais pilares da globalização congregam forças de mercado e decisões políticas que, actuando ao lado da economia, nos conduzem a um processo de globalização diferenciado que exclui muitos e beneficia poucos; um projecto que aumenta o fosso entre ricos e pobres?!

Pudessem os estados continuar a exercitar o modelo de Estado Providência e poderiam mascarar este processo de globalização selvagem. Mas não podem porque o modelo está falido, ou melhor, a aplicação desonesta do modelo conduziu os estados à falência.

A intervenção social do Estado tem por objectivo integrar a população através da assistência e da segurança social, procurando a estabilização do sistema (político, social e económico). A existência do Estado Social justifica-se com a necessidade de corrigir as desigualdades materiais dos cidadãos, submetidos às leis do mercado, geradoras de profundas desigualdades. Da mesma maneira que os mercados de trabalho e a organização da produção poderiam ser racionalizados mediante a utilização de regulamentações sociais para se obter um nível mais alto de produtividade, também a esfera social deveria ser racionalizada através do uso de políticas tendentes a evitar o surgimento de problemas sociais. Pretende-se, pois, evitar a exclusão social, esse processo complexo que afecta conjuntos de pessoas que acumulam vulnerabilidades económicas, culturais, sociais e simbólicas. Nesse contexto, o Estado deve nortear a sua actividade tentando conseguir que a liberdade e a igualdade do indivíduo e dos grupos sejam reais e efectivas, de modo a permitir a participação de todos os cidadãos na vida política, económica, cultural e social.

O Estado Social surge como resposta à necessidade de regulação destas complexas relações sociais originadas, em larga medida, pela industrialização e pela urbanização. Entre os seus objectivos destacam-se dois essenciais: a garantia do bom funcionamento do mercado e a defesa dos direitos dos cidadãos na saúde, educação e alimentação. Com início no pós II Guerra Mundial e refinando-se ao longo da primeira metade do séc. XX, uma concepção de Estado Social, comummente designado por Estado Providência, vai desenvolver políticas públicas, aumentando o investimento nessas áreas essenciais. Hoje, na Europa, cerca de 40% do PIB é encaminhado para as políticas sociais.

O protagonismo do Estado na resolução e na diminuição dos desequilíbrios e disfunções sociais procedentes do capitalismo avançado, e sua directa intervenção na distribuição da riqueza e na prestação de serviços sociais, conduzem a que as exigências de bem-estar por parte dos indivíduos demandem, cada vez mais, as instituições públicas. Ora, não raro, a aplicação de medidas em resposta às solicitações dos indivíduos, dependem da existência de recursos financeiros, muitas vezes não contemplados nos orçamentos das entidades públicas. Por sua vez, a ausência de recursos financeiros e as crises económicas conduzem a uma crise de actuação social do Estado e, em consequência, à crise da sua legitimação, pois este tornou-se não apenas no destacado protagonista, mas também no mais importante alvo a quem se exige e a quem se atribui os fracassos do sistema. 

Enquanto há crescimento económico e alta arrecadação tributária, o Estado pode sofisticar-se com serviços públicos melhorados. Contudo, assistimos ao longo da segunda metade do século XX, e até aos nossos dias, ao agravamento dos problemas inerentes à economia os quais, acumulados a sucessivos erros de administração, conduziram a uma crise generalizada deste modelo. O Estado deixou de ter condições económicas para sustentar um Estado Providência nos moldes em que o fazia e começou a retirar vários direitos que os cidadãos tinham adquirido ao longo de décadas. 

Esta crise é explicada por duas correntes: uma de pendor neo-liberal que postula que se está a viver uma crise de governabilidade e a razão é o excesso de democracia, de controlo público sobre as empresas e sobre a economia, qualificando o modelo de estado como antieconómico já que desvia investimentos, provoca improdutividade, conduz à ineficácia e ineficiência do aparelho estatal negando, no fundo, o direito à liberdade e à propriedade privada; a outra corrente, de cunho neo-marxista atribui as culpas à crise fiscal resultante de um excesso de produção e ao facto do proprietário capitalista se apropriar integralmente dos resultados da produção, deixando o proletariado sem lucro e sem dinheiro para pagar impostos e, dessa forma, manter a viabilidade do modelo de estado social. Também criticam as políticas de privatização total, e vão mais longe, denunciando que o esgotamento do Estado resulta do confronto entre grupos que se batem pelo poder e pelo controlo da economia e que não se coíbem de esbanjar os dinheiros públicos em manifestações de fachada e produções eleitoralistas. Em síntese: A direita diz que não há dinheiro e é preciso patrocinar reformas. A esquerda diz que dinheiro há, ele está é mal distribuído. 

O que sabemos, concretamente, pois é o que observamos e sentimos no quotidiano, é que as alterações nas relações laborais e na organização do trabalho – desemprego estrutural, precariedade, flexibilização – resultantes dos avanços tecnológicos, da globalização económica, e do crescimento da competitividade, são os principais factores responsáveis pela diminuição das vantagens e direitos sociais adquiridos pela classe trabalhadora, e pelo aumento da pobreza e da exclusão, e que estas situações têm aumentado exponencialmente a solicitação de assistência social. 

A resolução da crise do Estado Previdência não deve acontecer com base num nivelamento “por baixo”, com a redução ou supressão dos direitos sociais fundamentais dos trabalhadores, pois isso aumentará ainda mais as desigualdades sociais com a expansão da pobreza, da miséria, da violência, numa total violação dos direitos humanos e dos princípios que norteiam a formação e a existência dos estados de direito, democráticos e sociais. 

Suspender o modelo de estado social que temos construído e vivido no último meio século é como saltar de um comboio em movimento. Seria um suicídio para o próprio estado moderno. Entendo que a solução para a crise instalada passa, forçosamente, pela informação clara e isenta dos indivíduos, de forma a contar com a sua compreensão e o seu empenho, a par da adopção de atitudes de honestidade moral e intelectual por parte dos políticos e dirigentes e, sobretudo, pelo forte incremento na educação pois não se formam cidadãos responsáveis sem o envolvimento da educação. A consciência desta formulação, das suas implicações e da situação que se vive actualmente no nosso País, coloca-me sérias e profundas apreensões no que respeita à nossa capacidade e vontade em adoptar e concretizar, serena e eficazmente, as necessárias reformas.

“É penoso dizê-lo, mas sem mais uma revisão constitucional, que institua um Estado social subsidiário, em vez de um Estado social-burocrático de direcção central, gratuito e universal, não será fácil a nenhum governo resolver o problema do País”. Em “O Peso do Estado”, Mário Pinto, PÚBLICO de 3 de Janeiro de 2005

Reflexão sucedânea do trabalho “O Estado e a intervenção social nos dias de hoje” realizado para a disciplina de História da Idade Contemporânea que teve como fontes principais, entre outras:

AROLA, Ramon Llongueras “ A Intervenção Social: Uma Acção Construtiva?” – Revista de Ciências da Educação. Lorena, ano 4, nº6, 2002
Bernardo Kliksberg – “Repensando o Estado para o Desenvolvimento Social: Superando Dogmas e Convencionalismos” CORTEZ EDITORA – São Paulo, 1998
Eduardo Vítor Rodrigues, “O Estado-Providência e os processos de exclusão social: Considerações teóricas e estatísticas em torno do caso português” http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/1477.pdf
O Estado Social: modelo espanhol e modelo brasileiro – Francisco das C. Lima Filho http://www.boletimjuridico.com.br/doutrina/texto.asp?id=891

A Barca Bela ou de como a bela foi na barca

Martim saltou para a barca e um dos homens firmou as mãos na laje do cais, empurrando-a, afastando a embarcação. A correnteza da maré era tão fraca que nem ajudou a vencer a escassa milha1 que separa o velho cais da foz da ribeira, encastrada nos areais, para lá da praia de S. Roque2. Trabalharam os remos.
Iam para Alvor por mor de reparar o mastro quebrado da barca. Não que não houvesse mãos capazes de o fazer no burgo mas por respeito pelo contrato de assistência da marca. Assim ordenara Gil Eanes interpretando a proverbial avareza do seu amo, o senhor Infante D. Henrique. Para quê pagar tal serviço a artesãos do lugar se, a parca distância, tinham um serviço gratuito?! Assim ajustava o auto de garantia firmado na compra da barca, num stand da feira náutica de Alvor, no dia dezoito de Fevereiro do ano da graça de MCDXXXI (mil quatrocentos e trinta e um - para a malta recém formada pelo sistema de ensino português não entender como um cartão de memória digital).
Não esperava Martim encontrar um ínvido funcionário no estaleiro de Alvor, homem de meia-idade, calvo, de estranho tino e paciência mínima. Que não, que tal reparação nunca poderia ser executada com tal rapidez, argumentava o tonsurado calafate. Que sim, respondia o imberbe marinheiro do escudeiro Eanes, que tal houvera sido combinado uma semana antes entre o seu amo e o mestre do estaleiro. A barca teria de ficar operacional para a empresa que se avizinhava. Era urgente, exclamava o jovem lacobrigense de feição pueril - por vezes enganadora do seu género - ao obstinado alvoreiro.
Descansando da pesada remada que vencera a baía e a corrente do rio, acolhidos na sombra dos decaídos barracos de apetrechos do estaleiro, os oito remadores aguardavam o desenrolar da discussão. Para lá da faixa de sombra projectada no terreiro lamacento, sob a inclemente baforada algarvia do astro rei, fulge o rosto irado do mancebo e rebrilha a calva do recepcionista da instalação náutica. Por esta altura pensarão os remadores que a demanda vai descambar em pancadaria, enquanto deslizam olhares duvidosos na apreciação dos franzinos bicípites do arrais da barca, revelando falta de robustez para brandir convenientemente um remo. A barca assiste, serenamente, ao arrazoado diálogo que o seu mastro partido originou, baloiçando-se, alheada, nas águas cristalinas provenientes da serra de Monchique que ali se caldeiam com as do oceano.
Não se chega a vias de facto, nem saberemos se tal iria acontecer. A intervenção do mestre carpinteiro, entretanto chegado ao bulício, determina que os serventes alem o batel e que se apressem nas reparações.
A companha maruja regressa à cidade a pé, depois de franqueada à margem poente da foz alvorina, desviando-se episodicamente do extenso areal da meia praia para breves incursões aos laranjais e vinhas que bordejam a doirada moldura da baía. O jovem ocupa a frente do pelotão, num porte altivo, sacudido apenas quando enterra um dos pés nas areias quentes que a maré alta deixou por caminho, alheio ao chamamento das guloseimas que amiúde experimentou, então à sorrelfa de trabalhos e empenhamentos ordenados pelo seu amo. Segue orgulhoso, brilhando-lhe os olhos esverdeados onde se reflecte, esbatida, a alvura do casario da cidade que se aproxima.
(…)
O senhor Infante está na Vila! E logo tremeram os serventes da sua casa, os gentis-homens e outros destacados cidadãos da urbe, tremendo crianças e mulheres, das virtuosas às toleradas, senhoras, trapeiras, donzelas de coifa ou descabeladas padeiras, tremeram as alimárias citadinas sob a cangalha das bilhas da água que distribuem, agitaram-se as grasnentas gaivotas e, até, os barcos em manobra ou ancorados estremeceram: desamarra-me! Parecia gritar o barinel. -Que quero partir rio baixo, à deriva. Parecia assim, mas não seria apenas singelo baloiçar das águas em correnteza ditada pela estrela lunar?
Imerecido e injusto juízo é o destas fracas gentes acerca deste dignatário da ínclita geração.
(...)
1 – Inicialmente, igual a mil passos, a milha acabou sendo modificada para cerca de três vezes essa distância. A distância a que aludimos não seria superior a 600m.
2 – Crê-se que a barra da ribeira de Bensafrim terá, ao longo da Idade Média e Moderna, alternado a sua localização entre a indicada no texto e a actual, devido a processos de assoreamento e desassoreamento das referidas barras.

merdas do calor

Faço poemas como se cuspisse. Ou melhor, como se escarrasse. Com o mesmo desprendimento desse impulso secundário. Fazer poemas, tal como ler ou fotografar, afasta-me do que verdadeiramente gosto, escrever prosa – mordaz, humorística, o drama, ou a ficção – por isso maltrato essas actividades. E toda a gente gosta mais dos meus poemas do que dessa outra escrituração que exercito. Isso ainda me indispõe mais com a escrita poética. Isto vem a propósito de ter escrito isto em cinco minutos, enquanto ia trocando considerações sobre poesia acidental com a Mena G, no messenger.

Dom Sebastião e o Vidente

«... Apesar do seu mester de puta, fora sempre uma mulher temente a Deus, nunca deixando de dar esmolas para a Igreja ou de ir nas procissões de penitentes quando o trabalho lho permitia e, durante os anos de encarceramento nas prisões do Santo Ofício, suplicara em vão por um padre que a ouvisse em confissão, mas tal privilégio era apenas concedido aos moribundos e nem esse parco consolo lograra obter dos inquisidores.
Ao contrário de muitas companheiras de ofício, jamais se entregara a práticas de feitiçaria, nem usara receitas ou filtros para prender um amante, como abafar um peixe vivo na madre e servir-lho cozido, feito de que se gabava a amiga Angustias, amassar e moldar uma broa nas nádegas para lha oferecer acabada de sair do forno, segundo aconselhava a azougada Rosália ou ainda fazer-lhe beber uma mistura do seu próprio sémen com o sangue das suas regras, remédio infalível oferecido pela velha Francisca, de um bordel de Sevilha. Os inquisidores tinham certamente arrancado essas acusações à sua criada, às companheiras daquela noite lhe bastara o seu engenho e arte, além da beleza do rosto e da perfeição do corpo que, para bem e para mal dos seus pecados, lhe pusera aos pés, rendida em carne e espírito e com a bolsa aberta, a realeza de Espanha.
À vista do seu corpo nu, nem mesmo os padres inquisidores que lhe davam os tratos haviam escapado à tentação do desejo e ao pecado da luxúria. Apesar do terror e do sofrimento, não pudera deixar de ver o brilho lascivo dos olhos fugidios, o suor e a vermelhidão dos rostos convulsionados pelo alvoroço do sexo e do sangue, enquanto lhe afastavam as coxas e lhe escanhoavam a sedosa cabeleira entre as pernas, metendo-lhe os dedos brutais na vagina ou usando umas agulhas compridas para lhe esquadrinharem os lábios e o clítoris à procura do estigma maléfico, da marca da feiticeira, quando se inclinavam para lhe perguntar onde tens escondida a Garra do Diabo?, as línguas lambendo os beiços secos da volúpia com que observavam as contorções do seu corpo preso ao potro, arqueando-se a cada volta das cordas que lhe esticavam os braços e as pernas, até os seios parecerem rebentar-lhe no peito e as nádegas e coxas abrirem os seus íntimos, resguardos à concupiscência daquelas naturezas que os hábitos negros, os cilícios e os jejuns não logravam amortalhar: fornicaste com o Demo? praticaste o acto nefando da sodomia?
Não saberia dizer se era o remorso, se o medo do Inferno ou apenas a sua torpe perversidade que levava os padres inquisidores a encarniçarem-se com requintes de pasmosa crueza contras as partes do seu corpo que amantes poetas haviam outrora glorificado em canções e vilancicos já olvidados. Com os ossos quebrados e deformados, violada e sodomizada por toda a sorte de objectos rombos ou cortantes da infernal panóplia dos seus algozes que a rasgavam e mutilavam até à inconsciência da dor, usada e abusada na cela pelos carcereiros e guardas na impunidade da escuridão e do abandono, a sua pele de nácar e rosas tornara-se num pergaminho enrugado por roxas cicatrizes, donde pendiam as pregas dos seios queimados, sem mamilos, e a boca do seu corpo, fonte de desejos e duelos, era agora uma fossa pútrida a destilar venenos.
(...)
Um fio do pálido sol de Dezembro incidia nos cabelos do Desejado, arrancando-lhe fulgores de cobre que lhe manchavam o rosto de uma poeira dourada, acentuando o brilho azulado dos olhos. “Bastião! Bastião!”, gritou Luna Diaz com todas as forças do seu peito, erguendo as mãos para a tribuna, mas o nome que a sua dor soltou e a língua mutilada não pôde articular soou como um ronco animalesco de agonia que fez estremecer de asco el-rei D. Sebastião.»

“D. Sebastião e o Vidente”, de Deana Barroqueiro, Porto Editora 2006

"o paradoxo não é meu, sou eu"

Tenho opinião formada sobre certas coisas e formatada sobre outras. Sobre outras, ainda, não tenho qualquer opinião – coisa que me alegra muito. Porém, cheguei à conclusão de que discordo de mim próprio em muitas das coisas sobre as quais tenho uma opinião. O mais paradoxal, porém, é o facto de não concordar com esta opinião aqui expressa.

Ó Mestre, as homilias da Sagrada Igreja de Blog incluem o tintol, certo?



Uma substância química encontrada no vinho tinto pode ajudar a manter o coração "geneticamente jovem"
Investigadores da Universidade de Wisconsin-Madison descobriram que o polifenol resveratrol parece capaz de parar as mudanças no funcionamento dos genes do coração associadas à idade. Os efeitos parecem imitar os obtidos com uma dieta baixa em calorias - conhecida por prolongar a vida. Acredita-se que o resveratrol, também encontrado em uvas e romãs, pode ser uma das causas para o chamado "paradoxo francês" – a relativa longevidade dos franceses apesar de sua dieta rica em gorduras animais, prejudiciais ao funcionamento das artérias. Outros estudos já indicaram que um copo de vinho tinto durante as refeições pode ajudar a combater problemas do coração. Os cientistas de Wisconsin pesquisaram os efeitos do resveratrol em ratos de "meia-idade", olhando para o impacto no funcionamento dos genes do coração. O processo natural de envelhecimento em seres humanos e outros animais é marcado por mudanças nas funções de milhares de genes do órgão. Apesar de as consequências exactas dessas mudanças não serem totalmente compreendidas, acredita-se que contribuam para o enfraquecimento gradual do coração.
Epa, aí vem uma procissão de sorridentes ratos de meia-idade .
;)

[dois minutos não tinham ainda passado...]
Mas uma pesquisadora do Imperial College, em Londres, que examinou os efeitos do resveratrol em doenças do pulmão, disse que a substância não fica no corpo tempo suficiente para ter qualquer efeito. "A molécula de resveratrol é rapidamente retirada da corrente sanguínea e metabolizada pelo fígado", disse Louise Connelly. "Para obter qualquer efeito, você teria de beber galões de vinho, o que não é recomendável", completou. Connelly disse que a única maneira de os seres humanos absorverem os efeitos do resveratrol seria o desenvolvimento de uma forma da substância que superasse esse problema.
TINHA QUE SER UMA GAJA A LIXAR ISTO!!! E abstémia, aposto.

meio ambiente ou ambiente?

É verdade que a palavra ambiente também é adjectivo e que meios, há muitos, pelo que a expressão meio ambiente não está errada mas, por uma questão de preferência pessoal uso apenas a palavra ambiente para designar aquilo que muitos definem como meio ambiente. Seja o termo meio ambiente um pleonasmo ou não, a verdade é que por força de uso exagerado já não reconheço autenticidade na expressão. Acontece o mesmo com a expressão desenvolvimento sustentado que, abusivamente, se utiliza nas mais disparatadas aplicações. É apenas uma questão de "inflação" do vocabulário.

que é que ele fazia ao pilim?




Durante a Guerra da Restauração (1640-1668), a fé dos soldados portugueses atribuía a Santo António o êxito das acções militares, tanto que D. Pedro II, por alvará de 24 de Janeiro de 1668, determinou que, “por tão patriótico serviço”, fosse alistado como praça no Regimento de Infantaria de Lagos. No dia 12 de Setembro de 1683, D. Afonso VI promoveu Santo António ao posto de capitão. Em 25 de Março do ano de 1777, D. Hércules António Carlos Luiz Joseph Maria de Albuquerque e Araújo de Magalhães Homem, major comandante do regimento de Lagos, lavrava em auto e endereçava ao rei pedido para que o santo fosse promovido a major. Está registado: “certifico que não existe alguma nota relativa a Santo António, de mau comportamento ou irregularidade praticada por ele: nem de ter sido em tempo algum açoitado, preso, ou de qualquer modo punido durante o tempo que serviu como soldado raso no regimento: Que durante todo o tempo, em que tem sido capitão, vai quase para cem anos, constantemente cumpriu seu dever com o maior prazer à frente de sua companhia, em todas as ocasiões, em paz e em guerra, e tal que tem sido visto por seus soldados vezes sem número, como eles todos estão prontos para testemunhar: e em tudo o mais tem-se comportado sempre como fidalgo e oficial: e por todos estes motivos acima referidos considero-o muito digno e merecedor do posto de major agregado ao nosso regimento, e de quaisquer outras honras, graças ou favores que aprouver a S. M. conferir-lhe. Em testemunho do que assinei meu nome, hoje 25 de Março do ano N. S. J. C. 1777. Magalhães Homem”. No posto de capitão, Santo António recebia um soldo de 10.000 réis, que lhe foi abonado até 1779, ano em que passou a vencer o de 15.000 réis, como consta do livro de vencimentos e de vários mapas do regimento, existentes no Arquivo Histórico Militar.

Alice, no país das maravilhas

"De acordo Com O Correio da Manhã, Maria Monteiro, filha do antigo Ministro António Monteiro e que actualmente ocupa o cargo de adjunta do porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros vai para a Embaixada portuguesa em Londres.
Para que a mudança
fosse possível, José Sócrates e o ministro das Finanças descongelaram a título excepcional uma contratação de pessoal especializado.
Contactado pelo jornal, o porta-voz Carneiro
Jacinto explicou que a contratação de Maria Monteiro já tinha sido decidida antes do anúncio da redução para metade dos conselheiros e adidos das embaixadas.
As medidas de contenção avançadas pelo actual governo, nomeadamente o congelamento das progressões na função pública, começam a dar frutos.
Os sacrifícios pedidos aos portugueses permitem assegurar a carreira desta jovem de 28 anos que, apesar da idade, já conseguiu, por mérito próprio e com uma carreira construída a pulso, atingir um nível de rendimento mensal superior a 9000 euros.
É desta forma que se cala a boca a muita gente que não acredita nas potencialidades do nosso país, os zangados da vida que só sabem criticar a juventude, ponham os olhos nesta miúda.
A título de curiosidade, o salário mensal da nossa nova adida de imprensa da embaixada de Londres daria para pagar as progressões de 193 técnicos superiores de 2ª classe, de 290 Técnicos de 1ª classe ou de 290 Assistentes Administrativos.
O mesmo salário
daria para pagar os salários de, respectivamente, 7, 10 e 14 jovens como a Maria, das categorias acima mencionadas, que poderiam muito bem despedir-se, por força de imperativos orçamentais. Estes jovens sem berço, que ao contrário da Maria tiveram que submeter-se a concurso, também ao contrário da Maria já estão habituados a ganhar pouco e devem habituar-se a ser competitivos.
A nossa Maria
merece. Também a título de exemplo, seriam necessários os descontos de IRS de 92 Portugueses com um salário de 500 Euros a descontarem à taxa de 20%.
Novamente, a nossa Maria merece!"

Merece, em nome do Progresso, do grande Choque Tecnológico!



amadores, é o que é


Pelos vistos o meu “vigilante Nº1" deixou de me visitar, ou terá mudado de “visual”?! É que o bip-bip soube sempre da presença do coiote (nestes episódios, apropriadamente denominado: Desertus-operativus Idioticus). Será que o coiote se cansou, mesmo, ou estará por aí à espreita?
É coisa lixada, eu sei. É como fazer perguntas a alguém, conhecendo de antemão as respostas. Serve apenas para dar, ao inquirido, a oportunidade de mentir. E eles mentem, coitados!

BIIIIIP! BIIIIP!!!

Governo protege e alimenta uma oligarquia. Tal como num Estado Fascista

Ignorantes, mentirosos ou demagogos?
29.05.2008, António Vilarigues
Em Maio de 2008, os preços dos combustíveis em Portugal eram superiores aos cobrados na maioria dos países da União Europeia
1. 'Não há qualquer intuito de aliviar a carga fiscal dos produtos petrolíferos', garantiu Teixeira dos Santos. O ministro da Economia, Manuel Pinho, disse que 'é falso' que os impostos sobre os combustíveis em Portugal sejam mais elevados do que a média da União Europeia. José Sócrates pergunta aos jornalistas se 'acham bem que quem não tem carro financie a gasolina?' e afirma que 'utilizar o dinheiro de todos os portugueses para financiar a gasolina (...) é transferir (o peso do custo da gasolina) do consumidor para o contribuinte'. 'Esquecendo' que os custos dos combustíveis utilizados na produção, transformação, armazenamento, transporte e distribuição dos produtos também entram na formação dos preços.
2. Miguel Ganhão, no jornal Correio da Manhã, informa-nos que os sete elementos da comissão executiva da GalpEnergia ganharam no ano passado 3,3 milhões de euros em salários (remuneração fixa mais uma componente variável). O que significa que, em média, cada executivo levou para casa 1315 euros brutos por dia. Mas, como não contabilizou as viaturas de serviço, os cartões de crédito, as ajudas de custo, a gasolina, os telemóveis, etc., pode-se afirmar, sem receio de enganos, que os 1315 euros por dia foram líquidos.
3. Em Maio de 2008, os preços dos combustíveis em Portugal, quer se inclua ou não impostos (e ainda não considerando os últimos aumentos), eram superiores aos cobrados na maioria dos países da União Europeia. É isto que afirma e demonstra o economista Eugénio Rosa.
Mas, afinal, como se formam os preços que nos cobram as petrolíferas em Portugal? A generalidade das empresas calcula os preços dos seus produtos de forma a cobrir os seus custos efectivos e adicionar uma margem de lucro. As petrolíferas não. Elas recolhem os valores dos preços dos produtos refinados (gasolina, gasóleo, etc.) no mercado de Roterdão em cada semana e depois calculam a média em relação a cada produto. É o valor assim obtido para cada um dos produtos que é o preço, sem impostos, a que vendem os combustíveis em Portugal.
Só que, como é evidente, esse preço de Roterdão incorpora a especulação que se verifica todos os dias no mercado internacional do petróleo. Especulação determinada pela entrada maciça dos chamados fundos de investimento, cujas aplicações se multiplicaram, como indica Eugénio Rosa, por 30 vezes nos últimos meses. Objectivo? Controlar a oferta, o que estão a conseguir, e assim imporem preços especulativos e, consequentemente, embolsarem gigantescos lucros. O que está a suceder.
Para se ter uma ideia de como a Galp, e as outras petrolíferas, se estão a aproveitar da situação é necessário ter presente um facto fundamental. Os combustíveis que as petrolíferas vendem em cada dia que passa foram produzidos com petróleo comprado entre dois a dois meses e meio antes. E o custo do petróleo assim adquirido é obviamente inferior ao preço do petróleo que é utilizado pelas petrolíferas para calcular os preços de venda, sem impostos, dos combustíveis que cobram aos portugueses. Os dados oficiais da Direcção-Geral de Energia aí estão para o confirmar (http://ocastendo.blogs.sapo.pt/279907.html).
Tudo isto se passa com o conhecimento e perante a passividade, para não dizer mesmo a conivência, do Governo e da Autoridade da Concorrência.

Nota final: Tenho acompanhado com interesse crescente a intensa actividade de Paulo Teixeira Pinto. Passados mais de cinco meses, continuo sem perceber o porquê de ter sido dado como 'inapto para trabalhar' por uma junta médica. E estar por isso a receber de reforma 35 mil euros mês. Agradeço aos leitores que me esclareçam se esta falta de compreensão é só minha. Especialista em Sistemas de Comunicação e Informação

vulgaris personae

Está a baixar a qualidade das pessoas? Olho em redor e só vejo afastarem-se aqueles que considero melhores, ou a serem afastados por outros, mauzinhos. Nunca tive consideração por pessoas que considero piores do que eu, com quem dificilmente aprenderia algo interessante, não perco tempo com elas. É coisa de egoísta, de quem não quer dar mas apenas receber, bem sei; mas, não tendo grande consideração por mim próprio, sempre esperei que o relacionamento com gente superior me influenciasse, transformando-me numa pessoa melhor. E fico preocupado, porque perco essa influência benigna. Ou será que, no fundo, essas pessoas não são piores do que eu mas, tão-somente, semelhantes a mim, gente medíocre? Como raios hei-de saber, se esta limitação imposta pela minha mediocridade não me permite avaliar isto comme il faut?!

do Camilo

Camilo Castelo Branco - Amor de Perdição
(edição genética e crítica de Ivo Castro)
recensão crítica por João Dionísio aqui
Outro resultado da análise do manuscrito é a percepção de que Camilo não tem ao escrever «um plano completo da narrativa, com todos os pormenores das suas peripécias» (p.69) e a caracterização da escrita camiliana sustentada por esta análise vai bastante além do estereótipo da redacção mental como oposta ao artesanato no papel (p. 70).
Eu, quando escrevo coisa mais extensa, nem tenho sequer a definição concreta do enredo e, sem isto, como poderia ter o plano completo da narrativa? Artesanato no papel, ou indecisão nas opções do conteúdo?
A ver se leio, e aprendo alguma coisa.

Justo

Acabei o trabalho somativo para a disciplina de História Contemporânea, sobre o tema "O Estado e a intervenção social nos dias de hoje", mas apetecia-me era enviar o texto abaixo, recebido há pouco por mail (mas que já conhecia desde meados de 2007), à laia de trabalho académico. Até porque se enquadra perfeitamente na dimensão de texto exigida pela docente. Porém, desta vez poupo a coitada da Professora, ou da Auxiliar, ao choque da leitura do desassombrado libelo que um revoltado compatriota nosso endereça aos governantes. Aos que se sentirem chocados com o vocabulário reproduzido só posso dizer que vos arriscais a ser justos como o c.......

«Justo é o CARALHO.
Parece que o Primeiro-ministro terá dito que desta vez os sacrifícios serão distribuídos de forma mais justa. Mais Justa é o CARALHO!!!

São 23 horas, cheguei agora a casa e trabalhei hoje doze horas. O meu filho já esta a dormir. Este ano já paguei em impostos e multas dezenas de milhares de euros, todos os meses pago um balúrdio de TSU, tenho custos financeiros indescritíveis por causa da forma como é cobrado o IVA, pago o PEC sobre um rendimento que pode não acontecer e este filho da puta vem-me dizer que os sacrifícios serão distribuídos de forma mais justa??? O CARALHO!!!
Tenho semanas durante o ano em que trabalho 20 horas por dia, este fim-de-semana não sabia sequer que dia era, no dia da greve de uma chusma de paneleiros andei na estrada a pagar portagens e a trabalhar para poder pagar impostos, comecei numa puta duma garagem sozinho e dei trabalho a uma carrada de gente a quem pago o IRS, a Segurança Social, Seguros de Trabalho e todas as taxas que o estado me exige, não negoceio salários brutos, por isso que vão para o CARALHO com as contribuições dos trabalhadores, pago salários decentes e recuso-me a pagar o salário mínimo a seja quem for, investi e perdi, arranjei-me, voltei a investir e falhei de novo, recuperei e investi de novo e consegui.
E estes paneleiros do CARALHO vêm agora dizer-me que os sacrifícios são distribuídos de forma justa???; como o Guterres que fodeu o pais todo com o rendimento mínimo garantido, a pior opção económica de sempre, nem sabem sequer o que é não dormir, desesperar, cair e levantar sem pedir um tostão que seja ao filho da puta do estado?! Nem subsidio de desemprego nem o CARALHO?! E tenho que ouvir todos os dias as queixinhas dos policias, dos funcionários, dos professores com horário zero (!), dos funcionários dos correios, dos anacletos e afins, que fujo ao fisco, que exploro os trabalhadores, que tenho que pagar mais impostos, que sou um parasita?!
Já paguei todos os impostos de facturas que até agora não consegui cobrar (IVA e IRC), paguei IRC sobre stocks que não sei se algum dia conseguirei vender e os sacrifícios são distribuídos de forma justa?! Justo é o CARALHO.
Os 2000 funcionários da CM de Albufeira trabalham das 9h às 15h com intervalo para almoço e de caminho a mesma CM entrega e paga serviços a empresas privadas; decidiram mudar a escada da parte velha, fecharam-na, derrubaram a antiga e colocaram a estrutura em metal, e após quinze dias retiraram a mesma estrutura e colocaram-na em madeira! E ainda queriam fazer um elevador até à praia!!! E eu pago. Num qualquer Instituto mais de 50 chulos tratam de 9(!) putos. E eu pago. Substituem administradores pagando indemnizações, contratam o Fernando Gomes e o Nuno Cardoso (!!!!). E eu pago. Inventam Institutos e Fundações. E eu pago. Inventam as SCUTS. E eu pago. O PEC. E eu pago. O Presidente apela ao patriotismo. E eu pago.
Sr. Presidente, com todo o respeito que me merece: Vá-se foder! Você e os camaradas no avião fretado para irem passear para a China.
A CM de Paredes de Coura faz Parques de estacionamento sem trânsito. E eu pago. O anacleto Sá Fernandes rebenta com o CARALHO do orçamento da CM de Lisboa. E eu pago. O Sócrates vai à bola de avião Falcon da Força Aérea. E eu pago. Sacrifícios???!! De quem, CARALHO?! Prestam-me um serviço de merda na saúde, a educação é tão miserável que sou obrigado a por o meu puto num colégio privado, nem me atrevo a cobrar dividas em Tribunal devido à miséria que é a Justiça. E pago. Preciso de uma puta de uma cirurgia e tenho dezasseis mil pessoas em lista de espera, pelo que se não tivesse um seguro de saúde estaria como milhares de desgraçados que se calhar já morreram. E eu e eles pagamos. Os sacrifícios são distribuídos de forma justa? Como, CARALHO?!
E aquela esfinge paneleira de óculos que preside ao Banco de Portugal, que ganha mais que o secretário do tesouro dos E.U.A., está à espera de colectar mais 0,03% do PIB com o aumento do IVA? Pois tenho uma pequenina novidade para o reconhecido génio. Talhos, advogados, lares, lojas de móveis e outros pequenos negócios que conheço já têm a contabilidade e pagam impostos em Espanha e eu, assim seja possível, no ano da graça de 2008 pagarei todo o IVA, IRC e contribuições em Vigo. A chulice destes filhos da puta que vá cobrar ao CARALHO!!! E quero que se foda a solidariedade e a conversa de merda porque não me sai do corpo para o dar a chulos. Por alma de quem? Mais Justo?!»

O desmantelamento da PJ

Eu já tinha dito aqui que o Director Nacional da PJ era o “director da comissão liquidatária” da própria instituição. Liquidatária da, já, escassa independência que esta possui em relação ao poder político. Ao perder a tutela do Ministério da Justiça para se integrar, ao lado da GNR, PSP e SEF, sob a tutela do Ministério da Administração Interna, a PJ vê coarctada essa independência, e aumentado o controlo directo por parte dos governantes. Excelente estratégia para abafar as investigações de crimes praticados pela classe política. Aposto que a classe, e os amigos endinheirados – financiadores e beneméritos das dinâmicas eleitorais e de negócios menos claros –, deixarão de ser alvo de investigação de crimes de pedofilia, lenocínio, corrupção e demais velhaquices em que são pródigos. Outra coisa não era de esperar do PS, sendo certo que o meu PSD também tem culpas no cartório. E siga a palhaçada na república das bananas fundada pelo iluminado Soares.

De facto...

Um: - Olha que o “facto” agora já é para ser escrito sem “c”!!!
Outro: - Olha que o reparo, vindo de quem não consegue construir uma frase aplicando correctamente a sintaxe da língua portuguesa, é, no mínimo, caricato. Quero lá saber das novas formas do grafismo da língua! Não percebes que a aplicação prática do acordo é algo que acontecerá gradualmente? Aposto que já foste comprar um “tratado do acordo”, não? Nunca vi, como hoje, tantos expoentes da iliteracia pronunciando-se sobre tais questões. Nenhum escritor deixará de usar a ortografia que sempre utilizou, de um dia para o outro, nenhum poeta sucumbirá aos ditames de qualquer acordo. É nas salas de aula e nos manuais escolares que o acordo iniciará a sua prática. Quanto ao resto deixemo-lo ao sabor do tempo e da adopção progressiva por parte de quem escreve, e da actualização dos programas informáticos de correcção ortográfica. Que raios querem discutir? A Língua é dinâmica, como a língua que saboreia, modula o som e apimenta o beijo. E o seu dinamismo deve ser natural, como naturais são estas coisas.
Uma discussão, aqui.

Por um ensino afectivo


As principais diferenças do ensino entre a Itália e Portugal fundam-se no facto da Itália ter exportado uma invenção de dúbia virtude no que toca à aplicação no nosso país já que, até ao momento, apenas parece servir para sacar mais dinheiro aos papás dos estudantes e permitir o desinvestimento do estado na área do ensino superior. Falo do tal Processo de Bolonha. Ao invés, o nosso país, sempre mortinho para imitar e seguir modas e ditames da estranja, limitou-se a importar o dito acordo. Isto já era mau, mas o pior vem a seguir.
O fosso maior do nosso atraso é demonstrado modelarmente pelo facto dos alunos das escolas portuguesas recorrerem aos telemóveis para matar o tédio das aulas enquanto, na Itália, país muito mais avançado e distante deste cu da Europa, uma professora de Matemática permitir aos seus alunos que a apalpem*. E eles, serena e ordeiramente, aguardam a sua vez. Que maravilha, que avançada concepção de educação e ensino.
Será que a brilhante professora instituiu também um sistema de prémios para os bons alunos? Tipo: ao melhor colegial, uma noite de “prática da trigonometria do triângulo”, seguida de “Rotações”; ao segundo, uma sessão de “Estatística aplicada ao felatio” e ao terceiro um exercício de “Cálculo de Probabilidades de esfreganço, em nu integral”. E poderia seguir por aí fora, com prémios como: “teoria das circunferências adjacentes – recuperações da memória da amamentação”; “O strip tease e o Espaço – uma outra visão”; “Equações de Cunnilingus”; “Proporcionalidade Inversa e Representações Gráficas nas Manipulações Digitais ”; “Quantidade de Orgasmos – Os números reais. Inequações”.
Educativamente, aposto que seria coisa muito positiva ou, como se diz hoje: tipo, bué de fixe! contribuindo, simultaneamente, para exercitar a libido e acalmar as hormonas pululantes dos jovens. Imaginam o apego com que os nossos estudantes se agarrariam aos livros? Então poderíamos apregoar com toda a propriedade: Jovem, o estudo realiza as tuas mais profundas aspirações! Desgraçadamente, tais cogitações não passam de vislumbres de um ensino que podia ser efectivamente verdadeiro e, verdadeiramente... afectivo.

*Segundo notícia publicada hoje no herdeiro do Jornal do Incrível. Refiro-me, claro, ao Correio da Manhã.

Qual Lego


Resposta ao Mestre TheOldMan
Quando era miúdo o meu pai ofereceu-me um jogo daqueles que tentavam imitar essa invenção superior proveniente de terra viking, o LEGO, este talvez de origem espanhola – que nesses tempos ainda as lojas chineses não salpilhavam* a paisagem urbana e a nossa imaginação –, era uma caixa cheia de peças plásticas com buracos: chassis, tirantes, rodas dentadas, tubos, parafusos e porcas, e as respectivas chaves de bocas para fixar os componentes dos vários engenhos que o conjunto permitia construir. Uma maravilha para os dedos e para o cérebro de um puto de sete anos, digo-vos. Até hoje, foi, de todas as coisas que me ofereceram, a mais parecida com as palavras – embora muito aquém das possibilidades construtivas destas. Desfeita a caixa, esmagada pelo peso dos anos, gastas e dispersas as peças e as ferramentas que as juntavam, desaparecido o jogo nos confins da memória, não desapareceu, porém, esse prazer, essa vontade de juntar peças, inventar puzzles, montar edifícios, máquinas eficazes ou complexidades inoperantes, agora com as palavras. Mais além do que as construções estáticas que evocavam, e por vezes uma elementar acção dinâmica – lembro-me que podia construir uma grua porque existiam também roldanas, um fio e um gancho –, é com as palavras que consigo construir coisas mais robustas ou delicadas, fixas ou móveis, capazes de dar a volta ao Universo, coisas que permitem edificar cidades, criar mundos, viajar para todo o lado dentro e fora de mim. Continuo, pois, a brincar com aquele jogo, acrescentado de muitas e variadas formas, construindo, reconstruindo, empoleirando partes, equilibrando peças. É o que me permitem as palavras. E cada vez mais, à medida que vou aperfeiçoando as ferramentas, essas chaves de bocas que as colocam, acertam e apertam nos devidos lugares. Brincadeiras de miúdo, simplesmente. Quanto à loucura, vai saudável. Obrigado, mestre!
;)

Arre… inventei um vocábulo, ou uma palavra ó u camandro!!!
*SALPILHAVAM: dispersão de lojas chinesas pela paisagem do império imaginário conhecido por Portugal, com o intuito de extorsão subtil e persistente das moedas que sobram do exercício da nacional chulice dos bancos e do estado sobre os cidadãos do referido império imaginário.

O fobicoiso

Perguntou se eram pesadelos que o atormentavam ao que respondeu que não porque quase nem dormia. Sonhava às vezes, mas acordado. Via imagens de homens primitivos assustados que se afastavam da água com medo de nela submergirem e se afogarem, e que tinham medo do escuro. Um medo animal, visceral, intuitivo de quando ficavam mais vulneráveis às feras, aos predadores.
Também ele tinha medo do escuro, um medo que partilhava com esses homens primevos. E depois, era o silêncio, um silêncio impenetrável que os ruídos da rua, a melopeia da cidade, os gritos das crianças a caminho da escola, batiam nesse muro de silêncio que o envolvia e resvalavam para a sarjeta, uma sarjeta enorme de bocarra escura gradeada, jazendo lá em baixo, no fim da alameda.
Desperto, eram as memórias de outros medos. O medo de não suportar a carga de trabalho, o medo de perder o emprego, o medo de não ter dinheiro. E reflectia que, afinal apenas tinha medo de coisas que conhecia e não, como lhe fizeram crer durante tanto tempo, o medo do desconhecido.
Porque sentia aqueles medos? Seria por transportar em si um ideal de perfeição e excelência, a par, e em conflito com a consciência da sua mediocridade? E as coisas novas, as mudanças que o mantinham afastado do mundo exterior e recluso em si próprio, não constituiriam mais um medo, talvez emergente do receio de falhar? E não seria, isto, consequência de um orgulho desmedido, que o levava a estabelecer um padrão de comportamento inatingível para ele e para os outros?
Ali estava, no espelho, exactamente real, duplo: o homem que tem consciência e confessa os seus erros, as suas fraquezas, os seus medos, e o outro, o que os pratica e sente. Pois os dois não são o mesmo.
Mas ele sabia que Júlio César também tivera medo do escuro. Sabia que os psiquiatras identificavam tais fobias com transtornos emocionais, ansiedades provocadas pelo ritmo de vida anormal à natureza humana. A pressão da expectativa, a espera do amanhã e das respostas colocadas hoje. Estes, não eram medos racionais.
Ligou o telecérebro e pronunciou, em voz clara, a palavra “Fobia”. Logo o aparelho respondeu: - Fobia, é uma palavra de origem grega phobos que significa acção de horrorizar, amedrontar. É um estado de angústia que se traduz por uma violenta reacção em evitar o agente causador da fobia, e que sobrevêm de modo relativamente persistente, quando certos objectos ou situações têm lugar, são mencionados ou, simplesmente, imaginados.
Respirou fundo e fechou os olhos, ouvindo atentamente as palavras debitadas pelo aparato, esperançoso de que aquela explicação científica lhe removesse todos os medos que sabia infundados. Que aquelas palavras lhe apoiassem a razão. Que tudo aquilo desaparecesse de vez. E a voz modulada, tranquila e afável continuou: - Os medos são intensos e opressivos diante da situação ou objecto específico. A denominação das diversas fobias observa geralmente uma relação etimológica com as situações que as despoletam. As fobias específicas como a claustrofobia p. ex., começam no final da infância embora a agorafobia se forme mais frequentemente entre os 20 e 30 anos de idade. As fobias são medos desproporcionais diante de situações, objectos ou animais, que, geralmente, não causam efeitos semelhantes a outras pessoas. Para que exista uma fobia tem que se verificar uma série de requisitos; deve tratar-se de um medo desproporcional com respeito à situação que o provoca; a sua vítima procura evitar essa situação pois conhece os efeitos. Porém, o indivíduo possui consciência plena da irracionalidade do seu temor mas é incapaz de o controlar…
Bruscamente, desligou o telecérebro, horrorizado com o que acabara de ouvir. Correu para o guarda-roupa esgueirando-se para o seu interior e trancou as portas de tabuinhas trincadas. Ali, estava a salvo.


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Considerando que apenas sofro de fobia das alturas, não sei porque raio escrevi isto. Desconfio de uma obsessão relacionada com o título do blogue: pretensa necessidade de o justificar?!