O Teatro dos cogumelos





Os cogumelos são seres sublimemente estéticos, admiravelmente plásticos, são assunto magnífico para fotografar, até para mim que nunca cultivei o gosto pela macro Fotografia.
Adicionalmente, deixam certas pessoas muito nervosas. Hehehe…são tão tontos, tão óbvios e previsíveis, que até aflige. Só demonstram a sua ignorância acerca da arte de Moliére. Como posso ter estima por gente assim?! Eu enceno Aristófanes e eles insistem representar Eurípides. Talvez percebam quando chegar a Plauto. Hehehe...



Entretanto, enquanto não dou as pancadinhas... de Moliére, claro, vou saboreando os fungi.
foto: Cantharellus cibarus e Boletus granulatus (ou Suillus bellini?) salteados.

Janeiro... Barroco

Janeiro é mês do Barroco. Dia 27, a Igreja de Santo António recebe palestra sobre Arte Barroca. O Padre António Vieira também entra nisto. E eu gosto do Barroco, pois gosto. E digam lá se não é interessante, a julgar pelo "extase da beata ludovica", sem falar no da santa Teresa. Ahhh, como é extasiante o barroco.



Bolas de sabão



(…) A AllBall Inc. – Portugal Branch funcionava num velho edifício de seis andares, na baixa da cidade, junto ao porto. O edifício possuía, no rés-do-chão, uma enorme loja onde se vendiam todo o tipo de bolas, para as várias modalidades desportivas. Também ali estavam localizados, nas traseiras, voltados para a doca, os armazéns dos produtos que a empresa comercializava. Nos restantes pisos funcionavam os outros serviços da sucursal da marca norte-americana.
(…)
A mando do Administrador-Geral, o chefe colocara-o em “isolamento”, avisando as funcionárias dos vários departamentos que não se deixassem fotografar para os calendários e catálogos de brincar que ele fazia – montando meticulosamente os rostos das colegas ao lado das estrelas das várias modalidades desportivas –, e que as jovens tanto apreciavam.
(…)
O chefe assemelhava-se fisicamente à personagem de comédia britânica mr. Bean. Comportamental e psicologicamente era mais ao género da personagem Waylon Smithers, o solicito assistente de mr. Burns da série animada “Os Simpsons”, sempre a lamber os sapatos do patrão e o chão que este pisa. Obedecendo cegamente às instruções superiores o chefe reduzira-lhe as solicitações de serviços atenuando, consequentemente, o seu volume de trabalho.
(…)
As secções que funcionavam ao lado do seu estúdio foram mudadas para outras dependências vazias, ou mal ocupadas, do enorme casarão. Assim, viu afastar-se a Secção de Controlo de Vendas e a de Informações em linha. Até a arrecadação da limpeza foi deslocada para outra ala do edifício. Isolamento, era a estratégia adoptada. Porém, não se tratava de um castigo por falta cometida. Era, antes, corolário da acção insidiosa de que fora alvo e contra a qual se revoltara. E essa revolta, revelada incómoda, havia que silenciar. A perversidade do poder ganhava.
A partir de então passou a ter por único vizinho, numa sala contígua, um símio que ouvia rádio, gritava e dava murros na parede quando os jogadores do F.C.Porto falhavam os remates, não se sabe se de contentamento ou irritação.
Não satisfeitos com o degredo ainda faziam inspecções periódicas ao local de trabalho, inquirindo sobre a sua ocupação, acerca do uso dos utensílios e ferramentas do seu mister, da quantidade de água que consumia, ou das folhas de papel que gastava. Um dia, chegaram a medir a quantidade de pigmento existente num tinteiro da impressora, não fosse andar a imprimir coisas não autorizadas.
(…)
Dado como mentalmente afectado, não só foi proscrito profissionalmente como tentaram afastá-lo do convívio social habitual. Até à professora dos tempos da primária fizeram chegar a mensagem de que não andava bem, e que ela nem devia continuar a responder aos postais que sazonalmente trocavam, dando conta da saúde dela e do sucesso dele, resultado de uma longa amizade começada, justamente, nos bancos da escola.
(…)
Já não ia tantas vezes ao exterior para sessões de fotografia artística com as sorridentes modelos que apresentavam os produtos. Agora, ocupava-se de trabalho mais individual, mais técnico, registando os produtos novos – igualmente para os catálogos oficiais da marca –, ou aplicando os seus conhecimentos de metrologia na verificação das dimensões, volumes e capacidades das mais variadas bolas.
(…)
Deixou vaguear o olhar pela sala. Na sua frente um poster com um gigantesco hemisfério seccionado prende a atenção pelas palavras coloridas de formatos variados: Pelota, Ball, Bal, Ballon, Palla, Pilka, Boll, Pilota, Pallo, Top, توپ , Топка. Bola, nos vários idiomas do mundo. Na parede posterior um armário exibe dezenas de bolas de futebol, desde as primeiras, com uma abertura por onde entra a câmara de borracha, a inglesa de couro do séc. XIX - ainda ostentando o tiento - até à mais recente Teamgeist, passando pela longa evolução das de cauchu e pela primeira totalmente sintética, a Azteca, estreada em 1986 no México, reviu Saltillo...
O toque do telefone suspendeu-lhe os pensamentos, e o resultado da breve conversa tida com alguém que desconhecia trouxe-lhe nova apreensão: porque diabos o andavam a aliciar com propostas de trabalho? Já na semana anterior recebera um e-mail da Finne e, agora, alguém que se dizia representante da Mikasa pretendia contratá-lo para um part-time! Que coisa tão estranha, sobretudo porque o seu contrato profissional não lhe permitia esse tipo de relacionamento com empresas concorrentes, e elas sabiam-no.
(…)


Excerto de: “Cambra D’ar”

U Ólgarve

«Foi notícia em Março do ano passado: o Governo português destinou 9 milhões de euros para o relançamento do Algarve como destino turístico, com a transmutação do Algarve em "Allgarve".

O Verão está à porta e quem tencionar passar férias no Algarve terá de consultar a página do… "Allgarve": http://www.allgarve.pt/. O texto que aí se encontra sob o tópico «O que é o Allgarve» é aterrador. Não falo de falhas triviais (gravosas todavia) na colocação dos acentos ("espirito" em vez de
espírito), no uso do hífen (ora "life-style", ora "lifestyle"), no recurso a maiúsculas (porquê Praia?). Refiro-me a erros estranhíssimos, que fazem pensar que o texto foi escrito em inglês e depois sujeito a tradução automática, sendo a versão em inglês igualmente péssima já.

«O programa de eventos "ALLGARVE" irá construir sobre o Algarve enquanto destino de oferta turística, acrescentando-lhe valor através da componente de animação.» Irá construir o quê? Construir é um verbo transitivo, precisa de complemento directo. O que quer que se construa, constrói-se «sobre o Algarve»: a preposição tem valor de assunto ou de lugar? O que se entende por «destino de oferta»? Não será «oferta de destino»? E o pronome lhe? Recupera que elemento na frase?

Outra passagem:
«Os visitantes do Algarve poderão assim ter um contacto de qualidade com o nosso país, vislumbrando a sua diversidade e estimulando-os a voltarem.» Sua do quê? Do Algarve ou do país? Pretende-se que os turistas vislumbrem, ou seja, que «tenham uma ideia imprecisa sobre algo»? Mais aberrante ainda: onde é que pára o sujeito de «estimulando-os»?

E pensar que parte dos 9 milhões foi para pagar ao autor de um texto destes…»

In http://ciberduvidas.sapo.pt/index.php

alavancar

«"alavancar" é daquelas expressões em relação às quais apetece puxar imediatamente da pistola.»
Diz o João Gonçalves aqui, e eu concordo.

Um país, dois sistemas, ou de como as coisas tendem para os pares




Recebi há dias, pelo correio electrónico, um daqueles filmes que pretendem alertar para um futuro em que a supremacia económica da Ásia colocará os dois gigantes, China e Índia, no topo da pirâmide mundial. O filme referia os muitos estudantes sobredotados que ambos possuem, o facto de estudarem, já, respostas para problemas que ainda não existem mas que se supõem emergentes, e muitos outros aspectos tratados em quantidades astronómicas, do tipo: a China tem mais alunos sobredotados do que a totalidade dos alunos norte-americanos, etc. tudo, portanto, numa escala esmagadora. Curiosamente, o filme não contabiliza o número de vacas à solta nas ruas das cidades indianas, que é coisa que sempre me fez confusão, a mim e a qualquer automobilista português, para não falar nos italianos.


Esta coisa das grandezas trouxe-me agora à memória o José Duque, alentejano que veio para Lagos abraçar a faina marítima na arte do rapa e que, certo dia, em Sagres, olhando a imensidão do mar atlântico desabafou: - que granda pupriedade… e nem um chaparro têin?!


Seguia eu a caminho de ficar preocupado com estas assombrosas revelações, as do filme, quando uma reflexão acidental – que no meu caso deveria classificar como normal, pois, devido a uma queda ocorrida em criança, só reflicto acidentalmente – me fez perceber as mais recentes estratégias político-económicas ocidentais. E esta ponderação abortou o desassossego em progressão.


Tranquilizei-me e sorri, semicerrando os olhos, assim ao estilo de um manchu matreiro, observando um imaginário adversário que se encontraria na minha frente, o que era difícil pois na minha frente está a lareira e… coitado, retomemos o enredo:
- Ah, vocês pensavam que de lojinha em lojinha iam tomar conta disto tudo? Por esta altura o leitor já percebeu que esta fala é minha, quer dizer, sou eu, de olhos semicerrados, tipo fú-manchu com um roupão de veludo azul e vermelho e uns bigodes pendentes, com quase meio metro, unhas enormíssimas e o cabelo num carrapito, a enfrentar o opositor, vou continuar: - Ah… pensavam que os ocidentais decadentes estavam a dormir? Pois bem se vão tramar! O farol da cultura ocidental não dorme em serviço, os nossos amigos americanos já reagiram e, em tempo útil, adoptaram o vosso estratagema: "um país, dois sistemas". Chama-se a isto “passar a perna” ou, para melhor entenderem: “passal a pelna”.


Pois foi, os americanos acabaram de instituir o socialismo para os ricos, com especial atenção às espécies em sobressalto: banqueiros, especuladores e políticos; enquanto mantêm o capitalismo para os pobres. Um país, dois sistemas. Assim é que é!


E em Portugal seguimos o mesmo caminho. Peço desculpa, uma vez que mete socialismo será mais apropriado dizer que “seguimos a mesma via”, assim é que está correcto.


Então, orientais, pensavam que os lusitanos estavam a dormir? Naaa… é que nós temos cá dois partidos de gente astuta, atenta a essas estratégias de levantinos que desejam, desavergonhadamente, roubar o lugar que nos pertence por direito, diritto di vino ainda para mais.


Repare o leitor que sempre foi a argúcia dos nossos governantes que nos salvou aos ditames dos de levante. Ao longo de toda a História sempre assim foi. São estes que cantava o Poeta quando os dizia da ínclita geração, o Camões pois claro. Eu nunca acreditei nessa tese que defende que o Poeta se referia aos filhos da Filipa de Lencastre, digo isto porque fitei demoradamente, e por diversas vezes, com o meu semblante de manchu, o filho que está sentado ali na Praça da Música vai quase para meio século, e não lhe vi jeito de ser ínclito, ainda para mais cagado pelas gaivotas. E veja-se, agora que o taparam ninguém se ofendeu. Ora vá-se lá tapar o Afonso, ao berço da nacionalidade. Esse, sim, um autêntico ínclito. Havia de ser lindo, as mães bragantinas montavam logo um arraial de bordoada como fizeram com as criaturas brasileiras que procuravam ganhar a vida a coberto da lei da economia popular: uma mulher para muitos homens; mas isso é outra história, a que havemos de voltar lá mais para o Natal, ou mesmo na Páscoa se o Carnaval for curto.


Ele sabia que isto ia ser assim, o Camões, claro. O Magalhães deve ter segredado qualquer coisita. E o leitor sabe como o Magalhães é assim coiso e tal com o nosso primeiro, aquela cena dos dois indicadores a esfregar um no outro, o leitor sabe como é. Embora me pareça que o distinto navegador também passou a “pelna” no nosso primeiro ao ter-lhe apresentado o PC anão como coisa sua, quando apenas se aproveitou do Anoa que é o nome do Classmate PC na Indonésia. Enfim, já um navegador anterior tinha trazido rosas para outro príncipe, mas desconfio que eram rosas falsificadas, a julgar pelo roseiral que depois veio a frutificar cá no jardim à beira mar arroteado. Provavelmente comprou-as na primeira loja chinesa que encontrou ali para o norte de África, sem sequer ter ido lá abaixo ao Bojador, é que nem uma fotografia trouxe que atestasse o feito, caramba. Ora custava alguma coisa fazer umas fotos com o telemóvel? Bom, deixemos em paz esse nosso conterrâneo porque o coitado, envergonhado, escondeu-se dentro de uma saca de serrapilheira, e lá permanece.


O leitor, senão distraído, já reparou que tergiverso, mas em minha defesa digo que não tenho culpa das palavras ganharem independência e atirarem-se assim à maluca para o ecrã, construindo as coisas mais díspares como por exemplo falar neste preciso momento de chinesices, quando as posso comprar baratas ali na loja da esquina, sim, que isso da crise, inflações, deflações e recessões são coisas que qualquer honesto trabalhador pode tratar no divã do psicólogo. Abro um parêntesis, que não o sendo exactamente, serve o propósito, no que toca às inflações e para dizer que algumas se tratavam com as tais brasileiras de Bragança, agora parece que já não.


É tempo de regressar ao assunto principal que me trouxe a este exercício de escrita, e de forma sintética porque já não cabem mais letras na página do jornal.


Assim, venho por este meio apresentar o meu profundo agradecimento ao PS e ao PSD por nos terem colocado no caminho do sistema duplo. Finalmente! Desde o tempo do Scotex, logo copiado pela Renova, que me questionava porque raio não aplicavam tal solução à política?!
Em suma: O que seria deste país sem as vossas figuras gradas, os vossos gestores, administradores, assessores, colaboradores e todo o universo de outros habilidosos obradores que, admiravelmente, conseguiram formar em pouco mais de três décadas de democracia?! Foi tarefa árdua, com cursos intensivos, workshops à descrição, acções de formação incidindo da Informática à apanha de lapas passando pelo aperfeiçoamento técnico do lamber envelopes, e muito dinheiro gasto, muito dinheiro da madame Europa, mas vejam como resultou em cheio.


Caros senhores, acredito que o povinho está convosco, entusiasmado e pronto a prestar qualquer ajuda ou auxílio, ou ambas em simultâneo, que entendais necessário.


Com serenidade e confiança no futuro recordo um antigo desabafo do nosso mais alto magistrado, proferido em contexto que incluía a figura do funcionário público: - só mesmo esperar que morram!


Logo, já sabem, figuras gradas, se precisarem de uma contribuição para esquifes, é só pedir. Eu dou!


E longa vida aos dois sistemas! Já chega de vivermos apenas com um.
Agora quero ver o tal senhor repetir: - É o sistema!!!
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Escrever pelo prazer de escrever. Escrever para melhorar a escrita. Cada vez mais, menos preocupado em "comunicar" com hipotéticos leitores. Porque são poucos os que lêem e desses, nem todos o fazem com a devida atenção.
Este artigo foi publicado num jornal local online e ninguém acusou a incongruência da referência à estátua de Afonso Henriques em Braga. Nenhum dos leitores, que comigo o comentou, se referiu ao “erro”. Continuo, pois, a achar que não vale a pena escrever para os outros. Continuarei a escrever para mim.

Cap. 36* - O Salário do Poeta



(…)
Os risinhos petulantes faziam-se ouvir na plateia, provenientes do balcão. Era o general, em palco, que suscitava tal galhofa devido ao seu chapéu e ao facto de trazer contratado um poeta que lhe haveria de fazer versos laudatórios. Assim o desejava, e esperava, o velho ditador, preso ao fio da vida pela recordação dos seus dias de poder, agora afrontado pelos fantasmas e medos que criou.
Era essa conotação com o poeta original, sentado no extremo oposto, lá em baixo, na plateia, que suscitava a mordacidade do grupo.
Pobres criaturas, crendo que a representação ocorria unicamente no palco. Ingénuas no saber de não serem mais do que marionetas, como os outros, suspensos nas cordas de quem, em cena, os faz representar. O teatro também é assim, mas o grupinho não suspeita sequer. Nem poderiam, pois não passam de leitores de Paulo Coelho, revistas cor-de-rosa e boletins astrológicos.
No palco, o diálogo dramatiza-se entre o poeta ajustado e o vil contratador e, lá em cima, nas últimas cadeiras, as insolências continuam, em voz sumida, quase murmúrio, receosa de ser escutada na plateia; seguida dos costumeiros risinhos contidos. Não fossem os microfones omnidireccionais colocados no auditório, justamente para registar os ruídos e observações da assistência e, de facto, nem seriam ouvidas...
Mais tarde, os actores haveriam de desgostar de tal atitude desrespeitadora do seu trabalho. – Gente gira, mas boçal. Diriam.
Nem tanto, diria eu. Se dissesse algo. Mas eu não estava disponível, entretido na observação das reacções aos produtos que introduzo no meu laboratório de cobaias: mais uns eléctrodos aqui, uma incisão lobotómica ali… continuam a mexer, e reagem. Bom sinal!
(…)


Excerto do Cap. 36 da prosa “cambra d’ar” (título provisório)

Há coisas que… só aos pares.


Manhã cedinho, uma dezena de jovens a caminho da escola e alguns adultos que vão trabalhar aguardam na paragem do bairro. O autocarro detém-se e o homem de meia-idade sobe os degraus, quase empurrado pela impetuosidade dos jovens que procuram ocupar os seus bancos preferidos. Subitamente, um dos sapatos do homem engancha a virola no rebordo do último degrau e salta-lhe do pé; caindo aos trambolhões, regressa ao empedrado da rua. Atrapalhado, o homem não reage com a necessária presença de espírito, alertando o condutor. Ora, este, verificando não haver mais ninguém na paragem, fecha a porta e inicia a marcha, sabendo que a algazarra dos estudantes terminará com o carro em movimento. Ainda meio confuso o homem permanece de pé, imóvel, olhando para o sapato que se afasta, para lá da porta envidraçada. Nos dois lugares contíguos à entrada, dois rapazolas trocam sorrisos cúmplices deliciados com o transtorno do velho.
Transformado o pensamento, vencida a inércia, o homem descalça o outro sapato e, após recuperar o equilíbrio da sacudidela provocada pela mudança de velocidade, abre a janela sobre a cabeça dos jovens, e atira-o para a rua. Estupefactos, os rapazes fitam o homem; ele, sentindo a sua incompreensão, explica: - Assim, se alguém encontrar o primeiro, também encontrará o outro, e pode ser que precise….
Vem isto a propósito de passarmos o tempo a perder coisas e sentirmos esses acontecimentos como uma arrelia, uma injustiça até, resultando por vezes em situação penosa. Ora, associada a qualquer perda está sempre uma mudança (cá está… coisas emparelhadas). E a mudança tanto pode ser negativa, como positiva. Num caso ou noutro, o importante é perceber que uma certa dose de desprendimento das coisas e até, dos conceitos, é desejável, neste mundo de objectos, convencionalismos e atitudes que se permutam por baixo valor e sem grande dispêndio racional.
Prosseguia eu neste desassossego mental quando olhei para a foto que viria a ilustrar este devaneio escrito e logo nova questão surgiu, ao relembrar uma passagem de texto lido há dias: “Um belo par de sapatos faz a mulher sentir-se tão poderosa que pode mudar totalmente a maneira como ela se porta”. Reparem, inadvertidos leitores, como já saltei do sapato de um reformado para os pés de uma mulher.
Não vou procurar explicações para obsessões com sapatos, que isso deve ser coisa vastamente estudada mas, será que o sapato realiza a conquista de um símbolo de identidade e, consequentemente, de afirmação e de poder? É certo que o sapato de salto alto pode fazer prodígios na aparência de uma mulher. Além de a fazer mais alta, altera a postura de outras partes do corpo. Uma suposta pesquisa, publicada na revista inglesa European Urology, indica que o uso do salto alto poderá ajudar a relaxar e a fortalecer os músculos da região pélvica, relacionados com o orgasmo. Um outro estudo, de origem brasileira, conclui que o uso de salto alto pode evitar problemas de varizes pois parece melhorar em cerca de 30% o bombeamento do sangue. Do outro lado da barricada, porém, estão um sem número de ortopedistas que atribuem ao salto alto inúmeros problemas nos pés, como calos, joanetes, inflamações nas unhas e problemas nos tornozelos. Mais um par de teses antagónicas, portanto.
Não faço a mínima ideia – nem isso me interessa –, se as mulheres se submetem aos sapatos para que os homens se submetam a elas (é evidente que deixo fora da equação aspectos simples como o prazer que o conforto de um bom sapato pode proporcionar), se os homens é que são subjugados pelo salto alto das mulheres; tão-pouco me interessa determinar se os automóveis estão para os homens como os saltos altos para as mulheres; nem mesmo explorar outras considerações sobre essas peças com que protegemos os vinte e seis ossinhos de cada pé.
Teria o maior prazer em deixar a imaginação rodar livremente e partilhar os resultados convosco, se não urgisse dar um fim ao episódio do sapato… ou melhor, do par de sapatos deixados na via pública pelo passageiro do autocarro.
Emanuel é uma personagem díspar, bem conhecido no bas-fond citadino. Sem posses, que consumiu há muito: o emprego, o automóvel, o mobiliário e uma panóplia de tarecos; tudo foi diluído em água destilada e injectado nas veias, sob o signo de um pó esbranquiçado. Foi ele que apanhou o sapato que o homem deixara cair do autocarro. Foi Emanuel que lutou com um velho pastor alemão, seu co-domiciliado habitual no jardim central, ali perto, resgatando o outro sapato à bestial dentadura canina. Depois, bastaram dois tacos de madeira e uns pregos, rebuscados no desperdício da carpintaria do Aníbal, para inventar uns proficientes saltos altos. E eis Emanuel com o seu magnetismo animal renovado, confiante, tentando o sucesso e a fortuna, a postos para calcorrear avenidas, entrar em prédios monumentais, fazer-se receber em distintos gabinetes de gente importante que, ouvindo-o, poderá ajudar.
É tudo uma questão de coisas… aos pares.

Palavras de ouro



O homem que sabe ler fala com os ausentes e mantém vivos os que já morreram. Comunica-se com o universo, não conhece o tédio, viaja, ilude-se. Mas quem lê e não sabe escrever é mudo. - Carlo Dossi
Por vezes, um bom resumo pode dizer mais sobre um romance do que um livro de duzentas páginas. - Umberto Eco
A leitura após certa idade distrai excessivamente o espírito humano das suas reflexões criadoras. Todo o homem que lê de mais e usa o cérebro de menos adquire a preguiça de pensar. - Albert Einstein
É mais necessário estudar os homens do que os livros. - François La Rochefocauld
Ou escreves algo que valha a pena ler, ou fazes algo acerca do qual valha a pena escrever. - Benjamim Franklin
Seria melhor aprender a fazer amor correctamente, em vez de nos embrutecermos com um livro de história. - Boris Vian

Fulgência

Admirava a estrela vermelha, a mais brilhante da constelação Orion, rodada a cabeça quase para Leste, quando o silêncio possível do tranquilo bairro desta pequena cidade foi interrompido por uma porta que se abre e uma voz de mulher gritando:
- Alexandre! Alexandre! Ó Alexaaandre!
E a resposta da voz imberbe, meio sumida na distância, respondendo:
- Vou jááá!!!
Ouvi a porta fechar-se e veio-me à ideia o movimento constante das ondas “em cada recuo, um recomeço”.
E não sei porquê.
Betelgueuse continuou a cintilar.

Portugal foi, é e será sempre um estado corporativo e salazarento

«A realidade dos nossos dias permanece muito longe de se distinguir desse passado recente. Em boa verdade, os tiques do estado salazarento estão quase todos por aí. Onde existia uma União Nacional, passou a haver um rotativismo do Bloco Central. Os interesses das corporações – mais fortes e interventivas do que nunca – continuam a ditar parte substantiva da acção dos governos. O estatismo amancebado com o corporativismo domina. O culto do chefe, ainda que este seja temporalmente mais efémero, continua. O respeitinho é muito lindo, e quem tem que pagar contas ao fim do mês sabe bem o que a vida custa a ganhar. O Venerando Chefe de Estado permanece o Venerando Chefe de Estado. Sempre seguido por inúmeras procissões de lacaios sorridentes em cada grande confraternização da portugalidade, devidamente assinalada por um descerramento de uma lápide, uma fita cortada, uma jantarada deglutida. Os abusos e as arbitrariedades - sempre legalmente fundamentadas e a Bem da Nação, claro! – são o nosso dia-a-dia.

Em conclusão, Portugal foi, é e será sempre um estado corporativo e salazarento. Mesmo antes do nascimento de António de Oliveira Salazar, e certamente muito para além da sua morte.»

tirado daqui

EU CONCORDO!

sábias palavras

“…e toda a gente sabe que a inteligência, em questão de fé política, é um elemento negativo.”

A Epidemia, in “A Derrocada da Baliverna”, de Dino Buzzati

No país dos dótôres e engenhêros

«Hoje, foi-me dado ouvir Fernando Santo, Bastonário da Ordem dos Engenheiros declarar, que 50% dos licenciados em engenharia, que se propõem a reconhecimento na respectiva Ordem, reprovam. Não são reconhecidos. Técnica e cientificamente valem nada.»
E a coisa já vem de longe...

Ler mais aqui

Não ficaria tão preocupado, compreende?

No momento da aterragem, com o avião oscilando num perigoso banking a baixa altitude, puxei o crucifixo para fora da camisa e, de olhos cerrados, beijei a imagem.
Aterrámos bem. Afinal, aquilo era o procedimento normal.
……..
O jornalista insistia em puxar-me pela manga do casaco enquanto as balas silvavam em torno de nós, espalmando-se contra a rocha do socalco onde nos encontrávamos. O homem estava estupefacto com a minha loucura, ali exposto às balas. Virei a cabeça para lhe sorrir no exacto momento em que uma das balas me perfurou o blusão de cabedal e se alojou no braço. Fiquei surpreendido e deixei-me cair para o lado do que me puxava. – Ó homem, você é doido? Você levou um tiro! E eu, meio aparvalhado, ainda disse: - Porra, o gajo falhou! Será um novato? Já pensou se fui atingido por uma bala de um puto que aguardou meses a fio pela autorização de participar num ataque? A bala pode estar suja, até mesmo oxidada. Esta merda pode infectar, já viu? Se o gajo tivesse acertado eu não ficaria tão preocupado, compreende? Só espero que a merda da bala não esteja infectada. Inch Allah!
E desmaiei.
É no que dá, ler coisas assim.

um dos mais bonitos dos que por cá navegam



O Southern Mystral é um dos iates mais bonitos dos que navegam nas águas de Lagos. Ora digam lá que não é?!
para ver mais barquinhos destes, clicar aqui

o fumo esfumou-se


Olaré, leitor que inadvertidamente aqui viste parar.
A última vez que fumei o meu cachimbo foi no dia 18 de Agosto, pelas 3h00 da madrugada. Quer dizer, também fumei na noite do dia seguinte uns cigarros cravados à minha amiga Célia - que se divertia com o meu ritual de arrancar os filtros e amandá-los para cima do Zeca. Coisas da sardinhada, da vinhaça e dos líquidos que se seguiram, na simpática noitada na Sal Moura, comemorando o dia Intenacional da Fotografia. Daí para cá, nunca mais fumei. Já não aguentava mais. Estava a dar cabo da minha insanidade mentol, e das finanças. É verdade: um pacote de Borkum Riff Vanilla, mais os necessários filtros para o cachimbo Vauen custavam-me a módica quantia de 8€/dia. Andava a fumar uma mota de 600 contos por ano. Desisti do fumo e decidi comprar a mota.

Podia dar-me para pior.
;p

e prontos...


agora é só correr mundo e arredores

tá claro que me fico pelos arredores
;)

a evulssão du uomãi cem cabessa




A fotografia, captada em contexto que nada deve ao conteúdo que se apresenta aqui, é usada para representar a evolução rumo ao homem biónico que, para além de “optimizado” nas suas capacidades físicas – não fuma, não ingere álcool e copula agendado – complementa o seu porte físico com apêndices hi-tech, dilatando o seu porte atlético, levando-o a acreditar-se capaz de desafiar Hermes.
Mas notem que é um homem sem cabeça (animal racional superior - entendo que o superlativo é apenas por não existir termo comparativo à altura), pois para coordenar simplesmente o amontoado de músculos, basta um pequeno chip no alto do pescoço. Recusa-se este homem a olhar além do seu corpo, ou de um outro temporariamente adentro do seu espaço vital por razões de prazer ou procriação. E é nessa recusa de sair de si, de pensar e agir, que o homem cede à NÃO CULTURA.
Vem isto a propósito dos inúmeros livros que se publicam neste país, especialmente nesta época, supostamente para que os veraneantes ocupem o intelecto com ARTE (coisas que mudam a mente). Ora, escrever/publicar um livro é um acto de arte, e é um grito de guerra. Porém, tal coisa é impossível num país sem guerreiros. Os que publicam profusamente são, na maioria, gente comatosa, entrincheirada, aprisionada, ou engajada na conservação do statu quo. Um livro, qualquer livro a sério, de fotografia ou um romance, exige inquietude, angústia, raiva, desespero, revolta, ressentimento, temperamento trágico e conhecimento exterior a si. Exige o concurso de todas estas propriedades ou apenas de algumas, mas não seguramente as "qualidades" que escoam das páginas da maioria do que é publicado entre nós. Pura lerdice imprópria para exercitar a inteligência.
A única coisa que por cá se publica é folhetins de passeios de endinheirados meninos de outrora, hoje figuras de ecrãs. Isso, e biografias encomendadas, de putas demandando ajustes de contas. Comparativamente, este segundo tema merece mais crédito, pelos atributos éticos e morais das biografadas, mas não pela qualidade literária dos volumes produzidos.
Cuidem-se, pois, das obscenidades que as editoras apresentam nesta altura e rebusquem nas literaturas de épocas em que existiam escritores – gente que usava a cabeça e não apêndices de carbono –, as obras para vosso deleite intelectual. Fica uma sugestão: “A Derrocada da Baliverna”, de Dino Buzzatti.
A evitar: Reedições de Lobsang Rampa (que estas coisas da terceira visão são viciosas), ou os comoventes moralismos de Paulus Lepus.
Boas Férias.
F.Castelo

Coca Cola Time

Sentei-me num dos cantos da esplanada para, em cinco minutos, tomar a habitual meia-de-leite, ritual que acompanha o diário Glucophage (coisas de diabético). Ali, ao canto, o meu cachimbo não incomodava a jovem que, no centro da esplanada, tomava o seu pequeno-almoço. Em frente, do outro lado da pequena rua, uma equipa procedia à montagem de um toldo protector da montra da loja de recuerdos. Empoleirado, numa escada, um homem de meia-idade vai aparafusando os suportes do toldo, recebendo a assistência de um jovem Adónis moreno. A rapariga não desvia os olhos do exemplar latino, seguindo-lhe as idas e voltas à viatura de apoio. Cada movimento dele produz uma dentada na tosta que ela deglute afincadamente. Eu acompanho o deslumbramento da jovem e, findo o meu ritual, pago, levanto-me e abandono o local, deixando-a entregue ao seu sôfrego enlevo matinal.

O papel do Estado e a intervenção social nas sociedades contemporâneas


Ainda existe, no mundo ocidental, o Estado Providência, resultado das consequências da II Guerra Mundial,mas filho directo da grande Depressão de 1929. O Welfare State teve origem no pensamento keynesiano e surgiu com a intenção de usar a "política social" como um meio para se alcançar a eficiência económica. Rapidamente foi incorporado no Socialismo Fabiano inglês, no Socialismo Funcional Sueco e no Marxismo Austríaco.
Da mesma maneira que os mercados de trabalho e a organização da produção poderiam ser racionalizados mediante a adopção de regulamentações para se obter um nível mais alto de produtividade, também a esfera social deveria ser racionalizada através do uso de políticas sociais, sempre em benefício de maior eficiência nacional. Tais políticas teriam uma acção preventiva, direccionada para evitar o surgimento de problemas nos organismos político-sociais. Grande desiderato para um aparelho de estado que já vinha crescendo desde a Revolução Francesa e, sobretudo, com o despertar das nacionalidades.


E esse Estado que foi crescendo desmesuradamente foi, simultaneamente, dilatando a sua interferência, transformando-se num polvo que acaba por condicionar profundamente a vida dos cidadãos. As causas desta transformação radicam, sobretudo, na alteração da própria concepção da sua finalidade. Às atribuições iniciais do Estado: promulgar e aplicar leis; sancionar os abusos; arbitrar litígios; manter a ordem; garantir a segurança externa e a defesa dos interesses do colectivo; cobrar verbas para suportar as despesas do seu funcionamento, juntam-se novas funcionalidades e áreas de actuação de carácter normal: saúde pública; segurança de actividades que implicam riscos para a segurança das pessoas; organização das profissões e regulamentação do trabalho, bem como outras de carácter excepcional: enfrentar catástrofes; calamidades; epidemias; fomes; crises económicas; atribuir subsídio de desemprego e executar grandes obras públicas, bem como salvar empresas da insolvência financeira, áreas em que o Estado ora é coagido a intervir pela pressão da opinião pública ora age voluntária e antecipadamente pagando favores, serenando ânimos ou cativando simpatias eleitorais. Inequívoco, é o triunfo do Estado sobre os indivíduos e o triunfo dos grandes grupos económicos sobre o mundo. Com isto, nem os indivíduos nem as nações vêem os seus direitos respeitados. Países pobres são obrigadas à recessão, à não construção de escolas, a salários de miséria, a não cuidar da saúde pública. Perante situações destas os governos perdem autonomia e não conseguem concretizar políticas direccionadas ao bem comum.



A globalização é o triunfo dos grupos económicos sobre o mundo. Tal triunfo não se preocupa com os consequentes problemas sociais. Urge reorientar a globalização numa outra direcção: rumo a uma globalização solidária.


O Estado não passou a ter, como objectivo novo e exclusivo, o desenvolvimento de uma política de inserção eficiente no mundo globalizado. O novo papel do Estado é adoptar medidas para conter a crescente desigualdade social. Cabendo especialmente aos países desenvolvidos, "pais do neo-liberalismo", preocupar-se em implementar programas que tenham por base a solidariedade para com os países subdesenvolvidos que adoptaram tardiamente, ou ainda nem adoptaram, o projecto neo-liberal. É que o impacto produzido pela globalização é sentido diferentemente em cada Estado e em cada estrato social.

A globalização assenta em factores apresentados como verdades incontornáveis: resulta exclusivamente das dinâmicas de mercado; é um fenómeno universal que integra e padroniza, e que promove a redução da soberania dos estados nacionais. Ora, se a globalização resultasse exclusivamente das dinâmicas do mercado não estaríamos perante uma nova ordem económica que qualquer governo teria total interesse em adoptar? E não é assustador pensar numa perspectiva de integração/padronização dirigida por uma incógnita institucional, sem rosto nem sede que pretende homogeneizar toda a humanidade?

Obviamente, dá para desconfiar que os construtores de tais pilares da globalização congregam forças de mercado e decisões políticas que, actuando ao lado da economia, nos conduzem a um processo de globalização diferenciado que exclui muitos e beneficia poucos; um projecto que aumenta o fosso entre ricos e pobres?!

Pudessem os estados continuar a exercitar o modelo de Estado Providência e poderiam mascarar este processo de globalização selvagem. Mas não podem porque o modelo está falido, ou melhor, a aplicação desonesta do modelo conduziu os estados à falência.

A intervenção social do Estado tem por objectivo integrar a população através da assistência e da segurança social, procurando a estabilização do sistema (político, social e económico). A existência do Estado Social justifica-se com a necessidade de corrigir as desigualdades materiais dos cidadãos, submetidos às leis do mercado, geradoras de profundas desigualdades. Da mesma maneira que os mercados de trabalho e a organização da produção poderiam ser racionalizados mediante a utilização de regulamentações sociais para se obter um nível mais alto de produtividade, também a esfera social deveria ser racionalizada através do uso de políticas tendentes a evitar o surgimento de problemas sociais. Pretende-se, pois, evitar a exclusão social, esse processo complexo que afecta conjuntos de pessoas que acumulam vulnerabilidades económicas, culturais, sociais e simbólicas. Nesse contexto, o Estado deve nortear a sua actividade tentando conseguir que a liberdade e a igualdade do indivíduo e dos grupos sejam reais e efectivas, de modo a permitir a participação de todos os cidadãos na vida política, económica, cultural e social.

O Estado Social surge como resposta à necessidade de regulação destas complexas relações sociais originadas, em larga medida, pela industrialização e pela urbanização. Entre os seus objectivos destacam-se dois essenciais: a garantia do bom funcionamento do mercado e a defesa dos direitos dos cidadãos na saúde, educação e alimentação. Com início no pós II Guerra Mundial e refinando-se ao longo da primeira metade do séc. XX, uma concepção de Estado Social, comummente designado por Estado Providência, vai desenvolver políticas públicas, aumentando o investimento nessas áreas essenciais. Hoje, na Europa, cerca de 40% do PIB é encaminhado para as políticas sociais.

O protagonismo do Estado na resolução e na diminuição dos desequilíbrios e disfunções sociais procedentes do capitalismo avançado, e sua directa intervenção na distribuição da riqueza e na prestação de serviços sociais, conduzem a que as exigências de bem-estar por parte dos indivíduos demandem, cada vez mais, as instituições públicas. Ora, não raro, a aplicação de medidas em resposta às solicitações dos indivíduos, dependem da existência de recursos financeiros, muitas vezes não contemplados nos orçamentos das entidades públicas. Por sua vez, a ausência de recursos financeiros e as crises económicas conduzem a uma crise de actuação social do Estado e, em consequência, à crise da sua legitimação, pois este tornou-se não apenas no destacado protagonista, mas também no mais importante alvo a quem se exige e a quem se atribui os fracassos do sistema. 

Enquanto há crescimento económico e alta arrecadação tributária, o Estado pode sofisticar-se com serviços públicos melhorados. Contudo, assistimos ao longo da segunda metade do século XX, e até aos nossos dias, ao agravamento dos problemas inerentes à economia os quais, acumulados a sucessivos erros de administração, conduziram a uma crise generalizada deste modelo. O Estado deixou de ter condições económicas para sustentar um Estado Providência nos moldes em que o fazia e começou a retirar vários direitos que os cidadãos tinham adquirido ao longo de décadas. 

Esta crise é explicada por duas correntes: uma de pendor neo-liberal que postula que se está a viver uma crise de governabilidade e a razão é o excesso de democracia, de controlo público sobre as empresas e sobre a economia, qualificando o modelo de estado como antieconómico já que desvia investimentos, provoca improdutividade, conduz à ineficácia e ineficiência do aparelho estatal negando, no fundo, o direito à liberdade e à propriedade privada; a outra corrente, de cunho neo-marxista atribui as culpas à crise fiscal resultante de um excesso de produção e ao facto do proprietário capitalista se apropriar integralmente dos resultados da produção, deixando o proletariado sem lucro e sem dinheiro para pagar impostos e, dessa forma, manter a viabilidade do modelo de estado social. Também criticam as políticas de privatização total, e vão mais longe, denunciando que o esgotamento do Estado resulta do confronto entre grupos que se batem pelo poder e pelo controlo da economia e que não se coíbem de esbanjar os dinheiros públicos em manifestações de fachada e produções eleitoralistas. Em síntese: A direita diz que não há dinheiro e é preciso patrocinar reformas. A esquerda diz que dinheiro há, ele está é mal distribuído. 

O que sabemos, concretamente, pois é o que observamos e sentimos no quotidiano, é que as alterações nas relações laborais e na organização do trabalho – desemprego estrutural, precariedade, flexibilização – resultantes dos avanços tecnológicos, da globalização económica, e do crescimento da competitividade, são os principais factores responsáveis pela diminuição das vantagens e direitos sociais adquiridos pela classe trabalhadora, e pelo aumento da pobreza e da exclusão, e que estas situações têm aumentado exponencialmente a solicitação de assistência social. 

A resolução da crise do Estado Previdência não deve acontecer com base num nivelamento “por baixo”, com a redução ou supressão dos direitos sociais fundamentais dos trabalhadores, pois isso aumentará ainda mais as desigualdades sociais com a expansão da pobreza, da miséria, da violência, numa total violação dos direitos humanos e dos princípios que norteiam a formação e a existência dos estados de direito, democráticos e sociais. 

Suspender o modelo de estado social que temos construído e vivido no último meio século é como saltar de um comboio em movimento. Seria um suicídio para o próprio estado moderno. Entendo que a solução para a crise instalada passa, forçosamente, pela informação clara e isenta dos indivíduos, de forma a contar com a sua compreensão e o seu empenho, a par da adopção de atitudes de honestidade moral e intelectual por parte dos políticos e dirigentes e, sobretudo, pelo forte incremento na educação pois não se formam cidadãos responsáveis sem o envolvimento da educação. A consciência desta formulação, das suas implicações e da situação que se vive actualmente no nosso País, coloca-me sérias e profundas apreensões no que respeita à nossa capacidade e vontade em adoptar e concretizar, serena e eficazmente, as necessárias reformas.

“É penoso dizê-lo, mas sem mais uma revisão constitucional, que institua um Estado social subsidiário, em vez de um Estado social-burocrático de direcção central, gratuito e universal, não será fácil a nenhum governo resolver o problema do País”. Em “O Peso do Estado”, Mário Pinto, PÚBLICO de 3 de Janeiro de 2005

Reflexão sucedânea do trabalho “O Estado e a intervenção social nos dias de hoje” realizado para a disciplina de História da Idade Contemporânea que teve como fontes principais, entre outras:

AROLA, Ramon Llongueras “ A Intervenção Social: Uma Acção Construtiva?” – Revista de Ciências da Educação. Lorena, ano 4, nº6, 2002
Bernardo Kliksberg – “Repensando o Estado para o Desenvolvimento Social: Superando Dogmas e Convencionalismos” CORTEZ EDITORA – São Paulo, 1998
Eduardo Vítor Rodrigues, “O Estado-Providência e os processos de exclusão social: Considerações teóricas e estatísticas em torno do caso português” http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/1477.pdf
O Estado Social: modelo espanhol e modelo brasileiro – Francisco das C. Lima Filho http://www.boletimjuridico.com.br/doutrina/texto.asp?id=891

A Barca Bela ou de como a bela foi na barca

Martim saltou para a barca e um dos homens firmou as mãos na laje do cais, empurrando-a, afastando a embarcação. A correnteza da maré era tão fraca que nem ajudou a vencer a escassa milha1 que separa o velho cais da foz da ribeira, encastrada nos areais, para lá da praia de S. Roque2. Trabalharam os remos.
Iam para Alvor por mor de reparar o mastro quebrado da barca. Não que não houvesse mãos capazes de o fazer no burgo mas por respeito pelo contrato de assistência da marca. Assim ordenara Gil Eanes interpretando a proverbial avareza do seu amo, o senhor Infante D. Henrique. Para quê pagar tal serviço a artesãos do lugar se, a parca distância, tinham um serviço gratuito?! Assim ajustava o auto de garantia firmado na compra da barca, num stand da feira náutica de Alvor, no dia dezoito de Fevereiro do ano da graça de MCDXXXI (mil quatrocentos e trinta e um - para a malta recém formada pelo sistema de ensino português não entender como um cartão de memória digital).
Não esperava Martim encontrar um ínvido funcionário no estaleiro de Alvor, homem de meia-idade, calvo, de estranho tino e paciência mínima. Que não, que tal reparação nunca poderia ser executada com tal rapidez, argumentava o tonsurado calafate. Que sim, respondia o imberbe marinheiro do escudeiro Eanes, que tal houvera sido combinado uma semana antes entre o seu amo e o mestre do estaleiro. A barca teria de ficar operacional para a empresa que se avizinhava. Era urgente, exclamava o jovem lacobrigense de feição pueril - por vezes enganadora do seu género - ao obstinado alvoreiro.
Descansando da pesada remada que vencera a baía e a corrente do rio, acolhidos na sombra dos decaídos barracos de apetrechos do estaleiro, os oito remadores aguardavam o desenrolar da discussão. Para lá da faixa de sombra projectada no terreiro lamacento, sob a inclemente baforada algarvia do astro rei, fulge o rosto irado do mancebo e rebrilha a calva do recepcionista da instalação náutica. Por esta altura pensarão os remadores que a demanda vai descambar em pancadaria, enquanto deslizam olhares duvidosos na apreciação dos franzinos bicípites do arrais da barca, revelando falta de robustez para brandir convenientemente um remo. A barca assiste, serenamente, ao arrazoado diálogo que o seu mastro partido originou, baloiçando-se, alheada, nas águas cristalinas provenientes da serra de Monchique que ali se caldeiam com as do oceano.
Não se chega a vias de facto, nem saberemos se tal iria acontecer. A intervenção do mestre carpinteiro, entretanto chegado ao bulício, determina que os serventes alem o batel e que se apressem nas reparações.
A companha maruja regressa à cidade a pé, depois de franqueada à margem poente da foz alvorina, desviando-se episodicamente do extenso areal da meia praia para breves incursões aos laranjais e vinhas que bordejam a doirada moldura da baía. O jovem ocupa a frente do pelotão, num porte altivo, sacudido apenas quando enterra um dos pés nas areias quentes que a maré alta deixou por caminho, alheio ao chamamento das guloseimas que amiúde experimentou, então à sorrelfa de trabalhos e empenhamentos ordenados pelo seu amo. Segue orgulhoso, brilhando-lhe os olhos esverdeados onde se reflecte, esbatida, a alvura do casario da cidade que se aproxima.
(…)
O senhor Infante está na Vila! E logo tremeram os serventes da sua casa, os gentis-homens e outros destacados cidadãos da urbe, tremendo crianças e mulheres, das virtuosas às toleradas, senhoras, trapeiras, donzelas de coifa ou descabeladas padeiras, tremeram as alimárias citadinas sob a cangalha das bilhas da água que distribuem, agitaram-se as grasnentas gaivotas e, até, os barcos em manobra ou ancorados estremeceram: desamarra-me! Parecia gritar o barinel. -Que quero partir rio baixo, à deriva. Parecia assim, mas não seria apenas singelo baloiçar das águas em correnteza ditada pela estrela lunar?
Imerecido e injusto juízo é o destas fracas gentes acerca deste dignatário da ínclita geração.
(...)
1 – Inicialmente, igual a mil passos, a milha acabou sendo modificada para cerca de três vezes essa distância. A distância a que aludimos não seria superior a 600m.
2 – Crê-se que a barra da ribeira de Bensafrim terá, ao longo da Idade Média e Moderna, alternado a sua localização entre a indicada no texto e a actual, devido a processos de assoreamento e desassoreamento das referidas barras.

merdas do calor

Faço poemas como se cuspisse. Ou melhor, como se escarrasse. Com o mesmo desprendimento desse impulso secundário. Fazer poemas, tal como ler ou fotografar, afasta-me do que verdadeiramente gosto, escrever prosa – mordaz, humorística, o drama, ou a ficção – por isso maltrato essas actividades. E toda a gente gosta mais dos meus poemas do que dessa outra escrituração que exercito. Isso ainda me indispõe mais com a escrita poética. Isto vem a propósito de ter escrito isto em cinco minutos, enquanto ia trocando considerações sobre poesia acidental com a Mena G, no messenger.

Dom Sebastião e o Vidente

«... Apesar do seu mester de puta, fora sempre uma mulher temente a Deus, nunca deixando de dar esmolas para a Igreja ou de ir nas procissões de penitentes quando o trabalho lho permitia e, durante os anos de encarceramento nas prisões do Santo Ofício, suplicara em vão por um padre que a ouvisse em confissão, mas tal privilégio era apenas concedido aos moribundos e nem esse parco consolo lograra obter dos inquisidores.
Ao contrário de muitas companheiras de ofício, jamais se entregara a práticas de feitiçaria, nem usara receitas ou filtros para prender um amante, como abafar um peixe vivo na madre e servir-lho cozido, feito de que se gabava a amiga Angustias, amassar e moldar uma broa nas nádegas para lha oferecer acabada de sair do forno, segundo aconselhava a azougada Rosália ou ainda fazer-lhe beber uma mistura do seu próprio sémen com o sangue das suas regras, remédio infalível oferecido pela velha Francisca, de um bordel de Sevilha. Os inquisidores tinham certamente arrancado essas acusações à sua criada, às companheiras daquela noite lhe bastara o seu engenho e arte, além da beleza do rosto e da perfeição do corpo que, para bem e para mal dos seus pecados, lhe pusera aos pés, rendida em carne e espírito e com a bolsa aberta, a realeza de Espanha.
À vista do seu corpo nu, nem mesmo os padres inquisidores que lhe davam os tratos haviam escapado à tentação do desejo e ao pecado da luxúria. Apesar do terror e do sofrimento, não pudera deixar de ver o brilho lascivo dos olhos fugidios, o suor e a vermelhidão dos rostos convulsionados pelo alvoroço do sexo e do sangue, enquanto lhe afastavam as coxas e lhe escanhoavam a sedosa cabeleira entre as pernas, metendo-lhe os dedos brutais na vagina ou usando umas agulhas compridas para lhe esquadrinharem os lábios e o clítoris à procura do estigma maléfico, da marca da feiticeira, quando se inclinavam para lhe perguntar onde tens escondida a Garra do Diabo?, as línguas lambendo os beiços secos da volúpia com que observavam as contorções do seu corpo preso ao potro, arqueando-se a cada volta das cordas que lhe esticavam os braços e as pernas, até os seios parecerem rebentar-lhe no peito e as nádegas e coxas abrirem os seus íntimos, resguardos à concupiscência daquelas naturezas que os hábitos negros, os cilícios e os jejuns não logravam amortalhar: fornicaste com o Demo? praticaste o acto nefando da sodomia?
Não saberia dizer se era o remorso, se o medo do Inferno ou apenas a sua torpe perversidade que levava os padres inquisidores a encarniçarem-se com requintes de pasmosa crueza contras as partes do seu corpo que amantes poetas haviam outrora glorificado em canções e vilancicos já olvidados. Com os ossos quebrados e deformados, violada e sodomizada por toda a sorte de objectos rombos ou cortantes da infernal panóplia dos seus algozes que a rasgavam e mutilavam até à inconsciência da dor, usada e abusada na cela pelos carcereiros e guardas na impunidade da escuridão e do abandono, a sua pele de nácar e rosas tornara-se num pergaminho enrugado por roxas cicatrizes, donde pendiam as pregas dos seios queimados, sem mamilos, e a boca do seu corpo, fonte de desejos e duelos, era agora uma fossa pútrida a destilar venenos.
(...)
Um fio do pálido sol de Dezembro incidia nos cabelos do Desejado, arrancando-lhe fulgores de cobre que lhe manchavam o rosto de uma poeira dourada, acentuando o brilho azulado dos olhos. “Bastião! Bastião!”, gritou Luna Diaz com todas as forças do seu peito, erguendo as mãos para a tribuna, mas o nome que a sua dor soltou e a língua mutilada não pôde articular soou como um ronco animalesco de agonia que fez estremecer de asco el-rei D. Sebastião.»

“D. Sebastião e o Vidente”, de Deana Barroqueiro, Porto Editora 2006

"o paradoxo não é meu, sou eu"

Tenho opinião formada sobre certas coisas e formatada sobre outras. Sobre outras, ainda, não tenho qualquer opinião – coisa que me alegra muito. Porém, cheguei à conclusão de que discordo de mim próprio em muitas das coisas sobre as quais tenho uma opinião. O mais paradoxal, porém, é o facto de não concordar com esta opinião aqui expressa.

Ó Mestre, as homilias da Sagrada Igreja de Blog incluem o tintol, certo?



Uma substância química encontrada no vinho tinto pode ajudar a manter o coração "geneticamente jovem"
Investigadores da Universidade de Wisconsin-Madison descobriram que o polifenol resveratrol parece capaz de parar as mudanças no funcionamento dos genes do coração associadas à idade. Os efeitos parecem imitar os obtidos com uma dieta baixa em calorias - conhecida por prolongar a vida. Acredita-se que o resveratrol, também encontrado em uvas e romãs, pode ser uma das causas para o chamado "paradoxo francês" – a relativa longevidade dos franceses apesar de sua dieta rica em gorduras animais, prejudiciais ao funcionamento das artérias. Outros estudos já indicaram que um copo de vinho tinto durante as refeições pode ajudar a combater problemas do coração. Os cientistas de Wisconsin pesquisaram os efeitos do resveratrol em ratos de "meia-idade", olhando para o impacto no funcionamento dos genes do coração. O processo natural de envelhecimento em seres humanos e outros animais é marcado por mudanças nas funções de milhares de genes do órgão. Apesar de as consequências exactas dessas mudanças não serem totalmente compreendidas, acredita-se que contribuam para o enfraquecimento gradual do coração.
Epa, aí vem uma procissão de sorridentes ratos de meia-idade .
;)

[dois minutos não tinham ainda passado...]
Mas uma pesquisadora do Imperial College, em Londres, que examinou os efeitos do resveratrol em doenças do pulmão, disse que a substância não fica no corpo tempo suficiente para ter qualquer efeito. "A molécula de resveratrol é rapidamente retirada da corrente sanguínea e metabolizada pelo fígado", disse Louise Connelly. "Para obter qualquer efeito, você teria de beber galões de vinho, o que não é recomendável", completou. Connelly disse que a única maneira de os seres humanos absorverem os efeitos do resveratrol seria o desenvolvimento de uma forma da substância que superasse esse problema.
TINHA QUE SER UMA GAJA A LIXAR ISTO!!! E abstémia, aposto.

meio ambiente ou ambiente?

É verdade que a palavra ambiente também é adjectivo e que meios, há muitos, pelo que a expressão meio ambiente não está errada mas, por uma questão de preferência pessoal uso apenas a palavra ambiente para designar aquilo que muitos definem como meio ambiente. Seja o termo meio ambiente um pleonasmo ou não, a verdade é que por força de uso exagerado já não reconheço autenticidade na expressão. Acontece o mesmo com a expressão desenvolvimento sustentado que, abusivamente, se utiliza nas mais disparatadas aplicações. É apenas uma questão de "inflação" do vocabulário.

que é que ele fazia ao pilim?




Durante a Guerra da Restauração (1640-1668), a fé dos soldados portugueses atribuía a Santo António o êxito das acções militares, tanto que D. Pedro II, por alvará de 24 de Janeiro de 1668, determinou que, “por tão patriótico serviço”, fosse alistado como praça no Regimento de Infantaria de Lagos. No dia 12 de Setembro de 1683, D. Afonso VI promoveu Santo António ao posto de capitão. Em 25 de Março do ano de 1777, D. Hércules António Carlos Luiz Joseph Maria de Albuquerque e Araújo de Magalhães Homem, major comandante do regimento de Lagos, lavrava em auto e endereçava ao rei pedido para que o santo fosse promovido a major. Está registado: “certifico que não existe alguma nota relativa a Santo António, de mau comportamento ou irregularidade praticada por ele: nem de ter sido em tempo algum açoitado, preso, ou de qualquer modo punido durante o tempo que serviu como soldado raso no regimento: Que durante todo o tempo, em que tem sido capitão, vai quase para cem anos, constantemente cumpriu seu dever com o maior prazer à frente de sua companhia, em todas as ocasiões, em paz e em guerra, e tal que tem sido visto por seus soldados vezes sem número, como eles todos estão prontos para testemunhar: e em tudo o mais tem-se comportado sempre como fidalgo e oficial: e por todos estes motivos acima referidos considero-o muito digno e merecedor do posto de major agregado ao nosso regimento, e de quaisquer outras honras, graças ou favores que aprouver a S. M. conferir-lhe. Em testemunho do que assinei meu nome, hoje 25 de Março do ano N. S. J. C. 1777. Magalhães Homem”. No posto de capitão, Santo António recebia um soldo de 10.000 réis, que lhe foi abonado até 1779, ano em que passou a vencer o de 15.000 réis, como consta do livro de vencimentos e de vários mapas do regimento, existentes no Arquivo Histórico Militar.

Alice, no país das maravilhas

"De acordo Com O Correio da Manhã, Maria Monteiro, filha do antigo Ministro António Monteiro e que actualmente ocupa o cargo de adjunta do porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros vai para a Embaixada portuguesa em Londres.
Para que a mudança
fosse possível, José Sócrates e o ministro das Finanças descongelaram a título excepcional uma contratação de pessoal especializado.
Contactado pelo jornal, o porta-voz Carneiro
Jacinto explicou que a contratação de Maria Monteiro já tinha sido decidida antes do anúncio da redução para metade dos conselheiros e adidos das embaixadas.
As medidas de contenção avançadas pelo actual governo, nomeadamente o congelamento das progressões na função pública, começam a dar frutos.
Os sacrifícios pedidos aos portugueses permitem assegurar a carreira desta jovem de 28 anos que, apesar da idade, já conseguiu, por mérito próprio e com uma carreira construída a pulso, atingir um nível de rendimento mensal superior a 9000 euros.
É desta forma que se cala a boca a muita gente que não acredita nas potencialidades do nosso país, os zangados da vida que só sabem criticar a juventude, ponham os olhos nesta miúda.
A título de curiosidade, o salário mensal da nossa nova adida de imprensa da embaixada de Londres daria para pagar as progressões de 193 técnicos superiores de 2ª classe, de 290 Técnicos de 1ª classe ou de 290 Assistentes Administrativos.
O mesmo salário
daria para pagar os salários de, respectivamente, 7, 10 e 14 jovens como a Maria, das categorias acima mencionadas, que poderiam muito bem despedir-se, por força de imperativos orçamentais. Estes jovens sem berço, que ao contrário da Maria tiveram que submeter-se a concurso, também ao contrário da Maria já estão habituados a ganhar pouco e devem habituar-se a ser competitivos.
A nossa Maria
merece. Também a título de exemplo, seriam necessários os descontos de IRS de 92 Portugueses com um salário de 500 Euros a descontarem à taxa de 20%.
Novamente, a nossa Maria merece!"

Merece, em nome do Progresso, do grande Choque Tecnológico!