alea jacta est


«O homem agarra no cornu (trompa) de um legionário, e começa a caminhar rumo ao Rubicão, a tocar numa cadência arrebatadora. Passa à outra margem do rio, continua a tocar entre as árvores. É preciso eternizar este instante. César avança sobre a pequena ponte. A cada passo sente o peito a abrir-se, o corpo a lançar-se adiante.— Vamos onde nos chamam os sinais dos deuses e a injustiça de nossos inimigos! Alea jacta est! A sorte está lançada!»






Covardes morrem antes de morrer:
O sábio vive a morte uma só vez.
De tudo o que é estranho, e que já vi,
O mais estranho é o homem a temer,
Enquanto a morte, o necessário fim,
Vem ser só o não ser.

— Shakespeare,
Júlio César, II, II

COZINHA PORTUGUESA DO SÉCULO XV - GALINHA MOURISCA


Cortar aos bocados uma galinha gorda, levar ao fogo brando, com duas colheres de sopa de banha, algumas fatias de toucinho e um pouco de salsa, umas folhinhas de hortelã, sal e uma cebola bem grande.
Abafar e deixar dourar, mexendo de vez em quando. Cobrir a galinha com água suficiente para cozê-la. Estando quase cozida, juntar cebola verde, salsa, açafrão e hortelã, picando tudo bem miudinho e deitar na panela. Logo que a galinha esteja cozida, juntar quatro gemas de ovo batidas. Numa travessa funda, forrada com fatias de pão, despejar por cima a galinha.


foi tango



Não sei bem porque gosto de ouvir Tango. Não sei porque gosto mais de ver Tango do que qualquer outro espectáculo dançado. Sei que para além da sensualidade da dança e da música deliciosamente dramática, há mais qualquer coisa misteriosa, ou pelo menos intrigante. Será porque há ali uma perfeita comunhão entre a música e a dança? E quando os movimentos atingem um ritmo quase alucinante e nós, espectadores, começamos a torcer por um desenlace feliz?! Por vezes, até me esqueço de fotografar. O tango é porreiro.

O ditador... a SIC, e os espectadores

Artigo resultante de troca de comentários num post do blogue portugal dos pequeninos publicado no canallagos, revisto, e republicado aqui.

O ditador, a amiga, a francesa, a quiromante, a afilhada, a governanta, a outra mais nova, o choffeur, a condessa, o cardeal… a SIC, e os espectadores portugueses.

Vi a Soraia Chavez a seduzir Salazar e este a alternar entre uma pronúncia axim e outra assim. Vinguei-me! A SIC vingou-me daqueles meus amigos que dizem já ter visto um porco andar de bicicleta e que portanto já viram tudo. E como eu não vi tal façanha porcina…

Entretanto, arde a blogosfera em escritos incendiários, evocativos e explicativos do “porque Salazar faz falta”. Inflama-se lançando o anátema sobre a SIC que ousa vulgarizar a imagem do “grande estadista” que, no dizer de alguns: “governou uma nação pluri-continental do tamanho da Europa e consta que morreu pobre e nunca se deixou manipular pelos banqueiros ou plutocratas”; “Salazar ficou e está na História como um político de categoria mundial, um professor catedrático de finanças com obra publicada e realizada e um pensador político e social com muita actualidade”.

Um outro bloguista parece gritar até à rouquidão: “QUANTO MAIS TENTAREM DESVALORIZAR, O GRANDE ESTADISTA E PORTUGUES, MAIS O ELEVAM A UMA CATEGORIA SUPERIOR....PORQUE ELE ERA MESMO SUPERIOR. CHOCAR-ME-IA SE ELE GOSTASSE DE HOMENS, AGORA UM HOMEM COM H GRANDE GOSTA SEMPRE DO BELO, DO FEMININO, NADA DE CONFUSÕES. BEM TENTAM ESTES GANGS DENEGRIR ESSE GRANDE FILHO QUE A NAÇÃO NOS DEU.”

E a coisa segue, num coro rameloso: “Quando se começar a analisar a vida íntima destes hominídeos que tentam desesperadamente diminuir e achincalhar Salazar, então é o bonito!” e “Salazar foi o maior estadista do século XX, basta ler um pouco sobre o Estado Novo. É evidente, que para os malfeitores que nos governam, sentem necessidade de diminuir a grandiosidade de Salazar, é que se o povo começar a comparar vai perceber que anda a ser roubado desde o 25 de Abril.”

E eu discorro, placidamente (que estas coisas já não me revoltam): Pois, o povo anda a ser roubado mas não é apenas desde o 25 de Abril. Sem retornar ao Alentejo dos anos 50 e às campanhas do trigo que deixavam com fome quem nelas trabalhava, (assim mo diz a minha mãe, por experiência própria), fico-me pelo que vi em finais dos anos 60 e inícios dos 70: o povo que trabalhava nas fábricas da Indústria Conserveira, 12 ou 14 horas por dia, para receber um salário de miséria. Eu sei, porque estava lá. Já nessa altura alguém andava a roubar o povo, ou não?

Desgraçado país, este, em que, esquecida a ética e abandonados os valores do humanismo elementar no exercício da política, se recorre à evocação e se tenta recuperar a memória de um homem vulgar que só foi grande no autoritarismo a que submeteu o seu povo. Recatado, simples, honesto com o erário público? Pouco me interessa e nem discuto, aceitando por verdadeiro. E o resto? Quantos morreram e quantos viram as suas vidas trucidadas em nome de um ideal pátrio imperial e anacrónico – para meados do séc. XX – fundado em teorias patéticas como o lusotropicalismo?

Quanto custou a este país o imobilismo do Estado Novo, a proibição do liberalismo económico, o proteccionismo dispensado a meia dúzia de oligarcas, o cerceamento da iniciativa privada, o adiamento da construção de um estado moderno?

A História não se repete, ciclicamente, como se tal estivesse inscrito num fado predeterminado pela divindade. Somos nós que repetimos os erros e, dessa forma, andamos às voltas em vez de avançar. E é um erro avaliar os políticos de hoje – mesmo que estes sejam péssimos, como são –, pela bitola de um ditadorzeco que só não deve ser esquecido porque devemos evitar repetir o erro de adoptar outra figura paternalista como o Dr. Salazar.

Entendo o desespero de quem não encontra na nossa história contemporânea, nem na praça pública de hoje, uma figura carismática, honesta e protectora (ao ponto de nos resolver todos os problemas; exorcizar os medos, proteger do vizinho do lado, do chefe, do drogado, do ladrão e do patrão), que sirva de modelo. Mas a essência da Democracia é assim, dispensa tutores e clama à participação de cada cidadão. Sem participação cívica e política resta-nos o regresso cíclico e errático à ilusão salazarista… ou sebastianista para os que sintam pudor em identificar-se com o Don Juan de Santa Comba Dão.

Quanto à produção da SIC, não merece mais do que um gracejo: Bem pode navegar na corrente da metaficção historiográfica, um sucedâneo de pós-modernismo que postula (numa das pronúncias videográficas do paizinho da nação): “Não foi axim, mas podia ter xido!”.

metahistória

A escrita que me interessa produzir não é um exercício do absurdo, ou réplica literária da dramaturgia de vanguarda, embora receba daqui alguma influencia – nomeadamente na apresentação dos distintos momentos (tradicionalmente capítulos), como quadros cénicos salpicados de atmosfera teatral. O que escrevo tenta inserir-se na linha da nova estirpe do romance histórico, moldada no pós-modernismo, que trata a história com uma independência absoluta. Nestas ficções pós-modernas, o “tratamento” dado à história recorre a paradoxos, exageros, a sucessões de elementos díspares aparentemente desordenados, atingindo por vezes a desconstrução total do facto histórico. Livre da sua natureza temporal linear, dessa tirania do discurso do contínuo, a história é apresentada como uma sequência de intercalações, uma sucessão de sobressaltos cronológicos.

Será coisa perturbadora mudar assim a história, mas esta peculiar opção literária vive do diálogo individual do autor com a história, procurando, entre outros aspectos, que as suas construções especulativas contestem a resignação perante a falsa inevitabilidade do facto pretérito, resultando um: - … se não foi assim, podia ter sido!

O alvo principal deste discurso irónico é o repositório dos factos estabelecidos bem como as interpretações desses factos. O devir histórico, na sua caminhada, apresenta-se como um desgaste de vidas, de opções e de oportunidades, uma vez que a escolha de uma única possibilidade implicou a eliminação das alternativas. Eis o campo de batalha desta ficção pós-moderna, a metaficção historiográfica, que elege a impossibilidade como propósito: as possibilidades perdidas, descartadas, do passado, são apresentadas como tendo realmente acontecido.

Tivesse eu a preocupação de escrever para os outros e este seria o móbil da minha acção, um desafio lançado ao leitor: Entre a “certeza” da história real que sobejamente conhece e a história possível que a ficção lhe apresenta forma-se um momentum de reconstrução do conhecimento, que compete ao leitor moldar até onde o seu interesse e as suas capacidades o permitam. Mas não é esse, exactamente, o meu motivo. Iniciado no conto Claustro Fobias, continuo o exercício da escrita, por um lado naquilo que respeita à forma, aperfeiçoando a sintaxe, procurando o equilíbrio entre a limpidez discursiva e os artifícios das figuras de estilo ou de um vocábulo mais pomposo, agora com o desafio acrescido que representa a construção de um texto que se inscreva na corrente da metaficção historiográfica; e por outro lado na utilização do léxico da primeira metade do séc. XV, especialmente a terminologia náutica desse período.

Esse é o exercício que me proponho realizar, escolhendo como ponto de partida cronológico, o ano de 1434, e o espaço físico, a cidade de Lagos. Mas são apenas pontos de partida, não sabendo ainda por onde, e quando, na linha do tempo, viajarão os personagens do(s) enredo(s). O mar e a navegação afirmam-se como moldura e fundo da narrativa. Os personagens, como Gil Eanes e outros, hão-de agir e interagir numa conformidade ora verosímil, ora desconcertante, ao sabor dos ventos e marés da imaginação, do desassossego e do inconformismo do autor.

O primeiro quadro já foi publicado aqui. Quer se trate de um capítulo meramente exploratório, quer venha a integrar o texto final, o mote está dado.

contos populares - "As Invasões Francesas"


Quando os franceses invadiram Portugal, precedeu-os a fama terrível das suas infâmias: uma história cheia de roubos, assassínios, crueldades, bestialidades, estupros, de toda a espécie de violências e crimes.
Perante duas irmãs contavam-se as façanhas horrorosas dos tais franceses:
- Eles roubam, matam os homens, violam as mulheres…
Subitamente, ouviu-se grande algazarra na rua, gritos e correrias. Eram os franceses que chegavam. Apavorados, os que ali estavam fugiram abandonando a casa, excepto as duas irmãs, que se deixaram ficar, tranquilas, sentadas na sala.
Os franceses entram de rompante, em magote, e elas fecham os olhos. Eles revolvem tudo, correm os cantos à casa, arrombam gavetas e armários, roubam todos os objectos de valor que encontram, olham para as duas irmãs, e retiram-se em tropel.
Ao ruído enorme que eles tinham feito sucede-se um silêncio lúgubre.
As manas, não ouvindo nada, abrem a medo os olhos: - ninguém.
Levantam-se, correm todas as divisões: - tudo deserto!
Vão à janela, o magote dos franceses seguia rua abaixo.
Umas das irmãs para a outra:
- Ò mana, então os franceses não violam?

Contos populares - "O Poder da Publicidade"

Aqui há uns anos andou pelas vilas do interior, um homem que dizia ter inventado um unguento milagroso para a cura das hemorróidas. Mal chegava a cada terra, espalhava anúncios por todas as lojas, pelas ruas, afixava em taipais e tapumes de obras, nas paredes, expositores, postes de iluminação, enfim, por todo o lado.

Era um cartaz colorido, em papel macio, com grafismos apurados, que dava conta da sua miraculosa invenção. Decorridas duas ou três semanas, o inventor abandonava a terra com os bolsos cheios de dinheiro. E por toda a parte por onde passava, mesmo pelas terras mais saudáveis em questão de hemorroidal, o mal surgia logo, replicado por todo o lado. Cu que fosse cu, logo ganhava a enfermidade.

Tal ocorrência deixava as pessoas pensativas, cismando como aconteceria tal coisa. Como é que este homem, apenas pela sua presença, conseguia desabrochar tantas hemorróidas? Eram povoações inteiras de cu adoentado. Como conseguia despertar essas coisas adormecidas no mais fundo de cada um? Numa vila em que não havia um único caso de hemorroidal recenseado até então, passava ele todo o dia a atender clientes, vendendo a pomada mágica.

Finalmente, um dia descobriu-se o mistério. Os cartazes que profusamente distribuía, feitos em papel fino, suave e macio, eram logo destinados à aplicação usual dada a todos os papéis semelhantes a que se deitava mão. Só que o papel destes anúncios era preparado com um produto químico que fazia despertar as malfadadas glândulas rectais. Ora, cada um que os usava, transformava-se logo em potencial cliente do especialista. E assim enriqueceu este engenhoso empreendedor.

Moral da história: nunca subestimes o poder da publicidade!

A Bela e o monstro


(...)

A Bela e o Monstro... é quase óbvio.
Exactamente. Mas a criança é convidada a lidar com isso. E com o universo das metamorfoses, quando a criança é levada a tratar com afecto e compaixão uma criatura disforme. Em A Bela e o Monstro, ela nunca supôs que por baixo do monstro de aparência terrível havia um príncipe encantado. E percebe que se eu não conheço o outro, se não dou tempo a que o outro se transforme perante mim, então não posso ter uma relação correcta com ele. Não posso julgar as coisas pela sua aparência. Lidamos com uma coisa que depois se revela como sendo outra. E há, sobretudo, a capacidade de amar e de respeitar a diferença, a compreensão de que o afecto e a compaixão provocam metamorfoses na relação com o outro.
excerto de entrevista de Vítor Quelhas a Notícias Magazine - 11.04.2004
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pintura digital de Bruno Santos

O Teatro dos cogumelos





Os cogumelos são seres sublimemente estéticos, admiravelmente plásticos, são assunto magnífico para fotografar, até para mim que nunca cultivei o gosto pela macro Fotografia.
Adicionalmente, deixam certas pessoas muito nervosas. Hehehe…são tão tontos, tão óbvios e previsíveis, que até aflige. Só demonstram a sua ignorância acerca da arte de Moliére. Como posso ter estima por gente assim?! Eu enceno Aristófanes e eles insistem representar Eurípides. Talvez percebam quando chegar a Plauto. Hehehe...



Entretanto, enquanto não dou as pancadinhas... de Moliére, claro, vou saboreando os fungi.
foto: Cantharellus cibarus e Boletus granulatus (ou Suillus bellini?) salteados.

Janeiro... Barroco

Janeiro é mês do Barroco. Dia 27, a Igreja de Santo António recebe palestra sobre Arte Barroca. O Padre António Vieira também entra nisto. E eu gosto do Barroco, pois gosto. E digam lá se não é interessante, a julgar pelo "extase da beata ludovica", sem falar no da santa Teresa. Ahhh, como é extasiante o barroco.



Bolas de sabão



(…) A AllBall Inc. – Portugal Branch funcionava num velho edifício de seis andares, na baixa da cidade, junto ao porto. O edifício possuía, no rés-do-chão, uma enorme loja onde se vendiam todo o tipo de bolas, para as várias modalidades desportivas. Também ali estavam localizados, nas traseiras, voltados para a doca, os armazéns dos produtos que a empresa comercializava. Nos restantes pisos funcionavam os outros serviços da sucursal da marca norte-americana.
(…)
A mando do Administrador-Geral, o chefe colocara-o em “isolamento”, avisando as funcionárias dos vários departamentos que não se deixassem fotografar para os calendários e catálogos de brincar que ele fazia – montando meticulosamente os rostos das colegas ao lado das estrelas das várias modalidades desportivas –, e que as jovens tanto apreciavam.
(…)
O chefe assemelhava-se fisicamente à personagem de comédia britânica mr. Bean. Comportamental e psicologicamente era mais ao género da personagem Waylon Smithers, o solicito assistente de mr. Burns da série animada “Os Simpsons”, sempre a lamber os sapatos do patrão e o chão que este pisa. Obedecendo cegamente às instruções superiores o chefe reduzira-lhe as solicitações de serviços atenuando, consequentemente, o seu volume de trabalho.
(…)
As secções que funcionavam ao lado do seu estúdio foram mudadas para outras dependências vazias, ou mal ocupadas, do enorme casarão. Assim, viu afastar-se a Secção de Controlo de Vendas e a de Informações em linha. Até a arrecadação da limpeza foi deslocada para outra ala do edifício. Isolamento, era a estratégia adoptada. Porém, não se tratava de um castigo por falta cometida. Era, antes, corolário da acção insidiosa de que fora alvo e contra a qual se revoltara. E essa revolta, revelada incómoda, havia que silenciar. A perversidade do poder ganhava.
A partir de então passou a ter por único vizinho, numa sala contígua, um símio que ouvia rádio, gritava e dava murros na parede quando os jogadores do F.C.Porto falhavam os remates, não se sabe se de contentamento ou irritação.
Não satisfeitos com o degredo ainda faziam inspecções periódicas ao local de trabalho, inquirindo sobre a sua ocupação, acerca do uso dos utensílios e ferramentas do seu mister, da quantidade de água que consumia, ou das folhas de papel que gastava. Um dia, chegaram a medir a quantidade de pigmento existente num tinteiro da impressora, não fosse andar a imprimir coisas não autorizadas.
(…)
Dado como mentalmente afectado, não só foi proscrito profissionalmente como tentaram afastá-lo do convívio social habitual. Até à professora dos tempos da primária fizeram chegar a mensagem de que não andava bem, e que ela nem devia continuar a responder aos postais que sazonalmente trocavam, dando conta da saúde dela e do sucesso dele, resultado de uma longa amizade começada, justamente, nos bancos da escola.
(…)
Já não ia tantas vezes ao exterior para sessões de fotografia artística com as sorridentes modelos que apresentavam os produtos. Agora, ocupava-se de trabalho mais individual, mais técnico, registando os produtos novos – igualmente para os catálogos oficiais da marca –, ou aplicando os seus conhecimentos de metrologia na verificação das dimensões, volumes e capacidades das mais variadas bolas.
(…)
Deixou vaguear o olhar pela sala. Na sua frente um poster com um gigantesco hemisfério seccionado prende a atenção pelas palavras coloridas de formatos variados: Pelota, Ball, Bal, Ballon, Palla, Pilka, Boll, Pilota, Pallo, Top, توپ , Топка. Bola, nos vários idiomas do mundo. Na parede posterior um armário exibe dezenas de bolas de futebol, desde as primeiras, com uma abertura por onde entra a câmara de borracha, a inglesa de couro do séc. XIX - ainda ostentando o tiento - até à mais recente Teamgeist, passando pela longa evolução das de cauchu e pela primeira totalmente sintética, a Azteca, estreada em 1986 no México, reviu Saltillo...
O toque do telefone suspendeu-lhe os pensamentos, e o resultado da breve conversa tida com alguém que desconhecia trouxe-lhe nova apreensão: porque diabos o andavam a aliciar com propostas de trabalho? Já na semana anterior recebera um e-mail da Finne e, agora, alguém que se dizia representante da Mikasa pretendia contratá-lo para um part-time! Que coisa tão estranha, sobretudo porque o seu contrato profissional não lhe permitia esse tipo de relacionamento com empresas concorrentes, e elas sabiam-no.
(…)


Excerto de: “Cambra D’ar”

U Ólgarve

«Foi notícia em Março do ano passado: o Governo português destinou 9 milhões de euros para o relançamento do Algarve como destino turístico, com a transmutação do Algarve em "Allgarve".

O Verão está à porta e quem tencionar passar férias no Algarve terá de consultar a página do… "Allgarve": http://www.allgarve.pt/. O texto que aí se encontra sob o tópico «O que é o Allgarve» é aterrador. Não falo de falhas triviais (gravosas todavia) na colocação dos acentos ("espirito" em vez de
espírito), no uso do hífen (ora "life-style", ora "lifestyle"), no recurso a maiúsculas (porquê Praia?). Refiro-me a erros estranhíssimos, que fazem pensar que o texto foi escrito em inglês e depois sujeito a tradução automática, sendo a versão em inglês igualmente péssima já.

«O programa de eventos "ALLGARVE" irá construir sobre o Algarve enquanto destino de oferta turística, acrescentando-lhe valor através da componente de animação.» Irá construir o quê? Construir é um verbo transitivo, precisa de complemento directo. O que quer que se construa, constrói-se «sobre o Algarve»: a preposição tem valor de assunto ou de lugar? O que se entende por «destino de oferta»? Não será «oferta de destino»? E o pronome lhe? Recupera que elemento na frase?

Outra passagem:
«Os visitantes do Algarve poderão assim ter um contacto de qualidade com o nosso país, vislumbrando a sua diversidade e estimulando-os a voltarem.» Sua do quê? Do Algarve ou do país? Pretende-se que os turistas vislumbrem, ou seja, que «tenham uma ideia imprecisa sobre algo»? Mais aberrante ainda: onde é que pára o sujeito de «estimulando-os»?

E pensar que parte dos 9 milhões foi para pagar ao autor de um texto destes…»

In http://ciberduvidas.sapo.pt/index.php

alavancar

«"alavancar" é daquelas expressões em relação às quais apetece puxar imediatamente da pistola.»
Diz o João Gonçalves aqui, e eu concordo.

Um país, dois sistemas, ou de como as coisas tendem para os pares




Recebi há dias, pelo correio electrónico, um daqueles filmes que pretendem alertar para um futuro em que a supremacia económica da Ásia colocará os dois gigantes, China e Índia, no topo da pirâmide mundial. O filme referia os muitos estudantes sobredotados que ambos possuem, o facto de estudarem, já, respostas para problemas que ainda não existem mas que se supõem emergentes, e muitos outros aspectos tratados em quantidades astronómicas, do tipo: a China tem mais alunos sobredotados do que a totalidade dos alunos norte-americanos, etc. tudo, portanto, numa escala esmagadora. Curiosamente, o filme não contabiliza o número de vacas à solta nas ruas das cidades indianas, que é coisa que sempre me fez confusão, a mim e a qualquer automobilista português, para não falar nos italianos.


Esta coisa das grandezas trouxe-me agora à memória o José Duque, alentejano que veio para Lagos abraçar a faina marítima na arte do rapa e que, certo dia, em Sagres, olhando a imensidão do mar atlântico desabafou: - que granda pupriedade… e nem um chaparro têin?!


Seguia eu a caminho de ficar preocupado com estas assombrosas revelações, as do filme, quando uma reflexão acidental – que no meu caso deveria classificar como normal, pois, devido a uma queda ocorrida em criança, só reflicto acidentalmente – me fez perceber as mais recentes estratégias político-económicas ocidentais. E esta ponderação abortou o desassossego em progressão.


Tranquilizei-me e sorri, semicerrando os olhos, assim ao estilo de um manchu matreiro, observando um imaginário adversário que se encontraria na minha frente, o que era difícil pois na minha frente está a lareira e… coitado, retomemos o enredo:
- Ah, vocês pensavam que de lojinha em lojinha iam tomar conta disto tudo? Por esta altura o leitor já percebeu que esta fala é minha, quer dizer, sou eu, de olhos semicerrados, tipo fú-manchu com um roupão de veludo azul e vermelho e uns bigodes pendentes, com quase meio metro, unhas enormíssimas e o cabelo num carrapito, a enfrentar o opositor, vou continuar: - Ah… pensavam que os ocidentais decadentes estavam a dormir? Pois bem se vão tramar! O farol da cultura ocidental não dorme em serviço, os nossos amigos americanos já reagiram e, em tempo útil, adoptaram o vosso estratagema: "um país, dois sistemas". Chama-se a isto “passar a perna” ou, para melhor entenderem: “passal a pelna”.


Pois foi, os americanos acabaram de instituir o socialismo para os ricos, com especial atenção às espécies em sobressalto: banqueiros, especuladores e políticos; enquanto mantêm o capitalismo para os pobres. Um país, dois sistemas. Assim é que é!


E em Portugal seguimos o mesmo caminho. Peço desculpa, uma vez que mete socialismo será mais apropriado dizer que “seguimos a mesma via”, assim é que está correcto.


Então, orientais, pensavam que os lusitanos estavam a dormir? Naaa… é que nós temos cá dois partidos de gente astuta, atenta a essas estratégias de levantinos que desejam, desavergonhadamente, roubar o lugar que nos pertence por direito, diritto di vino ainda para mais.


Repare o leitor que sempre foi a argúcia dos nossos governantes que nos salvou aos ditames dos de levante. Ao longo de toda a História sempre assim foi. São estes que cantava o Poeta quando os dizia da ínclita geração, o Camões pois claro. Eu nunca acreditei nessa tese que defende que o Poeta se referia aos filhos da Filipa de Lencastre, digo isto porque fitei demoradamente, e por diversas vezes, com o meu semblante de manchu, o filho que está sentado ali na Praça da Música vai quase para meio século, e não lhe vi jeito de ser ínclito, ainda para mais cagado pelas gaivotas. E veja-se, agora que o taparam ninguém se ofendeu. Ora vá-se lá tapar o Afonso, ao berço da nacionalidade. Esse, sim, um autêntico ínclito. Havia de ser lindo, as mães bragantinas montavam logo um arraial de bordoada como fizeram com as criaturas brasileiras que procuravam ganhar a vida a coberto da lei da economia popular: uma mulher para muitos homens; mas isso é outra história, a que havemos de voltar lá mais para o Natal, ou mesmo na Páscoa se o Carnaval for curto.


Ele sabia que isto ia ser assim, o Camões, claro. O Magalhães deve ter segredado qualquer coisita. E o leitor sabe como o Magalhães é assim coiso e tal com o nosso primeiro, aquela cena dos dois indicadores a esfregar um no outro, o leitor sabe como é. Embora me pareça que o distinto navegador também passou a “pelna” no nosso primeiro ao ter-lhe apresentado o PC anão como coisa sua, quando apenas se aproveitou do Anoa que é o nome do Classmate PC na Indonésia. Enfim, já um navegador anterior tinha trazido rosas para outro príncipe, mas desconfio que eram rosas falsificadas, a julgar pelo roseiral que depois veio a frutificar cá no jardim à beira mar arroteado. Provavelmente comprou-as na primeira loja chinesa que encontrou ali para o norte de África, sem sequer ter ido lá abaixo ao Bojador, é que nem uma fotografia trouxe que atestasse o feito, caramba. Ora custava alguma coisa fazer umas fotos com o telemóvel? Bom, deixemos em paz esse nosso conterrâneo porque o coitado, envergonhado, escondeu-se dentro de uma saca de serrapilheira, e lá permanece.


O leitor, senão distraído, já reparou que tergiverso, mas em minha defesa digo que não tenho culpa das palavras ganharem independência e atirarem-se assim à maluca para o ecrã, construindo as coisas mais díspares como por exemplo falar neste preciso momento de chinesices, quando as posso comprar baratas ali na loja da esquina, sim, que isso da crise, inflações, deflações e recessões são coisas que qualquer honesto trabalhador pode tratar no divã do psicólogo. Abro um parêntesis, que não o sendo exactamente, serve o propósito, no que toca às inflações e para dizer que algumas se tratavam com as tais brasileiras de Bragança, agora parece que já não.


É tempo de regressar ao assunto principal que me trouxe a este exercício de escrita, e de forma sintética porque já não cabem mais letras na página do jornal.


Assim, venho por este meio apresentar o meu profundo agradecimento ao PS e ao PSD por nos terem colocado no caminho do sistema duplo. Finalmente! Desde o tempo do Scotex, logo copiado pela Renova, que me questionava porque raio não aplicavam tal solução à política?!
Em suma: O que seria deste país sem as vossas figuras gradas, os vossos gestores, administradores, assessores, colaboradores e todo o universo de outros habilidosos obradores que, admiravelmente, conseguiram formar em pouco mais de três décadas de democracia?! Foi tarefa árdua, com cursos intensivos, workshops à descrição, acções de formação incidindo da Informática à apanha de lapas passando pelo aperfeiçoamento técnico do lamber envelopes, e muito dinheiro gasto, muito dinheiro da madame Europa, mas vejam como resultou em cheio.


Caros senhores, acredito que o povinho está convosco, entusiasmado e pronto a prestar qualquer ajuda ou auxílio, ou ambas em simultâneo, que entendais necessário.


Com serenidade e confiança no futuro recordo um antigo desabafo do nosso mais alto magistrado, proferido em contexto que incluía a figura do funcionário público: - só mesmo esperar que morram!


Logo, já sabem, figuras gradas, se precisarem de uma contribuição para esquifes, é só pedir. Eu dou!


E longa vida aos dois sistemas! Já chega de vivermos apenas com um.
Agora quero ver o tal senhor repetir: - É o sistema!!!
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Escrever pelo prazer de escrever. Escrever para melhorar a escrita. Cada vez mais, menos preocupado em "comunicar" com hipotéticos leitores. Porque são poucos os que lêem e desses, nem todos o fazem com a devida atenção.
Este artigo foi publicado num jornal local online e ninguém acusou a incongruência da referência à estátua de Afonso Henriques em Braga. Nenhum dos leitores, que comigo o comentou, se referiu ao “erro”. Continuo, pois, a achar que não vale a pena escrever para os outros. Continuarei a escrever para mim.

Cap. 36* - O Salário do Poeta



(…)
Os risinhos petulantes faziam-se ouvir na plateia, provenientes do balcão. Era o general, em palco, que suscitava tal galhofa devido ao seu chapéu e ao facto de trazer contratado um poeta que lhe haveria de fazer versos laudatórios. Assim o desejava, e esperava, o velho ditador, preso ao fio da vida pela recordação dos seus dias de poder, agora afrontado pelos fantasmas e medos que criou.
Era essa conotação com o poeta original, sentado no extremo oposto, lá em baixo, na plateia, que suscitava a mordacidade do grupo.
Pobres criaturas, crendo que a representação ocorria unicamente no palco. Ingénuas no saber de não serem mais do que marionetas, como os outros, suspensos nas cordas de quem, em cena, os faz representar. O teatro também é assim, mas o grupinho não suspeita sequer. Nem poderiam, pois não passam de leitores de Paulo Coelho, revistas cor-de-rosa e boletins astrológicos.
No palco, o diálogo dramatiza-se entre o poeta ajustado e o vil contratador e, lá em cima, nas últimas cadeiras, as insolências continuam, em voz sumida, quase murmúrio, receosa de ser escutada na plateia; seguida dos costumeiros risinhos contidos. Não fossem os microfones omnidireccionais colocados no auditório, justamente para registar os ruídos e observações da assistência e, de facto, nem seriam ouvidas...
Mais tarde, os actores haveriam de desgostar de tal atitude desrespeitadora do seu trabalho. – Gente gira, mas boçal. Diriam.
Nem tanto, diria eu. Se dissesse algo. Mas eu não estava disponível, entretido na observação das reacções aos produtos que introduzo no meu laboratório de cobaias: mais uns eléctrodos aqui, uma incisão lobotómica ali… continuam a mexer, e reagem. Bom sinal!
(…)


Excerto do Cap. 36 da prosa “cambra d’ar” (título provisório)

Há coisas que… só aos pares.


Manhã cedinho, uma dezena de jovens a caminho da escola e alguns adultos que vão trabalhar aguardam na paragem do bairro. O autocarro detém-se e o homem de meia-idade sobe os degraus, quase empurrado pela impetuosidade dos jovens que procuram ocupar os seus bancos preferidos. Subitamente, um dos sapatos do homem engancha a virola no rebordo do último degrau e salta-lhe do pé; caindo aos trambolhões, regressa ao empedrado da rua. Atrapalhado, o homem não reage com a necessária presença de espírito, alertando o condutor. Ora, este, verificando não haver mais ninguém na paragem, fecha a porta e inicia a marcha, sabendo que a algazarra dos estudantes terminará com o carro em movimento. Ainda meio confuso o homem permanece de pé, imóvel, olhando para o sapato que se afasta, para lá da porta envidraçada. Nos dois lugares contíguos à entrada, dois rapazolas trocam sorrisos cúmplices deliciados com o transtorno do velho.
Transformado o pensamento, vencida a inércia, o homem descalça o outro sapato e, após recuperar o equilíbrio da sacudidela provocada pela mudança de velocidade, abre a janela sobre a cabeça dos jovens, e atira-o para a rua. Estupefactos, os rapazes fitam o homem; ele, sentindo a sua incompreensão, explica: - Assim, se alguém encontrar o primeiro, também encontrará o outro, e pode ser que precise….
Vem isto a propósito de passarmos o tempo a perder coisas e sentirmos esses acontecimentos como uma arrelia, uma injustiça até, resultando por vezes em situação penosa. Ora, associada a qualquer perda está sempre uma mudança (cá está… coisas emparelhadas). E a mudança tanto pode ser negativa, como positiva. Num caso ou noutro, o importante é perceber que uma certa dose de desprendimento das coisas e até, dos conceitos, é desejável, neste mundo de objectos, convencionalismos e atitudes que se permutam por baixo valor e sem grande dispêndio racional.
Prosseguia eu neste desassossego mental quando olhei para a foto que viria a ilustrar este devaneio escrito e logo nova questão surgiu, ao relembrar uma passagem de texto lido há dias: “Um belo par de sapatos faz a mulher sentir-se tão poderosa que pode mudar totalmente a maneira como ela se porta”. Reparem, inadvertidos leitores, como já saltei do sapato de um reformado para os pés de uma mulher.
Não vou procurar explicações para obsessões com sapatos, que isso deve ser coisa vastamente estudada mas, será que o sapato realiza a conquista de um símbolo de identidade e, consequentemente, de afirmação e de poder? É certo que o sapato de salto alto pode fazer prodígios na aparência de uma mulher. Além de a fazer mais alta, altera a postura de outras partes do corpo. Uma suposta pesquisa, publicada na revista inglesa European Urology, indica que o uso do salto alto poderá ajudar a relaxar e a fortalecer os músculos da região pélvica, relacionados com o orgasmo. Um outro estudo, de origem brasileira, conclui que o uso de salto alto pode evitar problemas de varizes pois parece melhorar em cerca de 30% o bombeamento do sangue. Do outro lado da barricada, porém, estão um sem número de ortopedistas que atribuem ao salto alto inúmeros problemas nos pés, como calos, joanetes, inflamações nas unhas e problemas nos tornozelos. Mais um par de teses antagónicas, portanto.
Não faço a mínima ideia – nem isso me interessa –, se as mulheres se submetem aos sapatos para que os homens se submetam a elas (é evidente que deixo fora da equação aspectos simples como o prazer que o conforto de um bom sapato pode proporcionar), se os homens é que são subjugados pelo salto alto das mulheres; tão-pouco me interessa determinar se os automóveis estão para os homens como os saltos altos para as mulheres; nem mesmo explorar outras considerações sobre essas peças com que protegemos os vinte e seis ossinhos de cada pé.
Teria o maior prazer em deixar a imaginação rodar livremente e partilhar os resultados convosco, se não urgisse dar um fim ao episódio do sapato… ou melhor, do par de sapatos deixados na via pública pelo passageiro do autocarro.
Emanuel é uma personagem díspar, bem conhecido no bas-fond citadino. Sem posses, que consumiu há muito: o emprego, o automóvel, o mobiliário e uma panóplia de tarecos; tudo foi diluído em água destilada e injectado nas veias, sob o signo de um pó esbranquiçado. Foi ele que apanhou o sapato que o homem deixara cair do autocarro. Foi Emanuel que lutou com um velho pastor alemão, seu co-domiciliado habitual no jardim central, ali perto, resgatando o outro sapato à bestial dentadura canina. Depois, bastaram dois tacos de madeira e uns pregos, rebuscados no desperdício da carpintaria do Aníbal, para inventar uns proficientes saltos altos. E eis Emanuel com o seu magnetismo animal renovado, confiante, tentando o sucesso e a fortuna, a postos para calcorrear avenidas, entrar em prédios monumentais, fazer-se receber em distintos gabinetes de gente importante que, ouvindo-o, poderá ajudar.
É tudo uma questão de coisas… aos pares.

Palavras de ouro



O homem que sabe ler fala com os ausentes e mantém vivos os que já morreram. Comunica-se com o universo, não conhece o tédio, viaja, ilude-se. Mas quem lê e não sabe escrever é mudo. - Carlo Dossi
Por vezes, um bom resumo pode dizer mais sobre um romance do que um livro de duzentas páginas. - Umberto Eco
A leitura após certa idade distrai excessivamente o espírito humano das suas reflexões criadoras. Todo o homem que lê de mais e usa o cérebro de menos adquire a preguiça de pensar. - Albert Einstein
É mais necessário estudar os homens do que os livros. - François La Rochefocauld
Ou escreves algo que valha a pena ler, ou fazes algo acerca do qual valha a pena escrever. - Benjamim Franklin
Seria melhor aprender a fazer amor correctamente, em vez de nos embrutecermos com um livro de história. - Boris Vian

Fulgência

Admirava a estrela vermelha, a mais brilhante da constelação Orion, rodada a cabeça quase para Leste, quando o silêncio possível do tranquilo bairro desta pequena cidade foi interrompido por uma porta que se abre e uma voz de mulher gritando:
- Alexandre! Alexandre! Ó Alexaaandre!
E a resposta da voz imberbe, meio sumida na distância, respondendo:
- Vou jááá!!!
Ouvi a porta fechar-se e veio-me à ideia o movimento constante das ondas “em cada recuo, um recomeço”.
E não sei porquê.
Betelgueuse continuou a cintilar.

Portugal foi, é e será sempre um estado corporativo e salazarento

«A realidade dos nossos dias permanece muito longe de se distinguir desse passado recente. Em boa verdade, os tiques do estado salazarento estão quase todos por aí. Onde existia uma União Nacional, passou a haver um rotativismo do Bloco Central. Os interesses das corporações – mais fortes e interventivas do que nunca – continuam a ditar parte substantiva da acção dos governos. O estatismo amancebado com o corporativismo domina. O culto do chefe, ainda que este seja temporalmente mais efémero, continua. O respeitinho é muito lindo, e quem tem que pagar contas ao fim do mês sabe bem o que a vida custa a ganhar. O Venerando Chefe de Estado permanece o Venerando Chefe de Estado. Sempre seguido por inúmeras procissões de lacaios sorridentes em cada grande confraternização da portugalidade, devidamente assinalada por um descerramento de uma lápide, uma fita cortada, uma jantarada deglutida. Os abusos e as arbitrariedades - sempre legalmente fundamentadas e a Bem da Nação, claro! – são o nosso dia-a-dia.

Em conclusão, Portugal foi, é e será sempre um estado corporativo e salazarento. Mesmo antes do nascimento de António de Oliveira Salazar, e certamente muito para além da sua morte.»

tirado daqui

EU CONCORDO!

sábias palavras

“…e toda a gente sabe que a inteligência, em questão de fé política, é um elemento negativo.”

A Epidemia, in “A Derrocada da Baliverna”, de Dino Buzzati

No país dos dótôres e engenhêros

«Hoje, foi-me dado ouvir Fernando Santo, Bastonário da Ordem dos Engenheiros declarar, que 50% dos licenciados em engenharia, que se propõem a reconhecimento na respectiva Ordem, reprovam. Não são reconhecidos. Técnica e cientificamente valem nada.»
E a coisa já vem de longe...

Ler mais aqui

Não ficaria tão preocupado, compreende?

No momento da aterragem, com o avião oscilando num perigoso banking a baixa altitude, puxei o crucifixo para fora da camisa e, de olhos cerrados, beijei a imagem.
Aterrámos bem. Afinal, aquilo era o procedimento normal.
……..
O jornalista insistia em puxar-me pela manga do casaco enquanto as balas silvavam em torno de nós, espalmando-se contra a rocha do socalco onde nos encontrávamos. O homem estava estupefacto com a minha loucura, ali exposto às balas. Virei a cabeça para lhe sorrir no exacto momento em que uma das balas me perfurou o blusão de cabedal e se alojou no braço. Fiquei surpreendido e deixei-me cair para o lado do que me puxava. – Ó homem, você é doido? Você levou um tiro! E eu, meio aparvalhado, ainda disse: - Porra, o gajo falhou! Será um novato? Já pensou se fui atingido por uma bala de um puto que aguardou meses a fio pela autorização de participar num ataque? A bala pode estar suja, até mesmo oxidada. Esta merda pode infectar, já viu? Se o gajo tivesse acertado eu não ficaria tão preocupado, compreende? Só espero que a merda da bala não esteja infectada. Inch Allah!
E desmaiei.
É no que dá, ler coisas assim.

um dos mais bonitos dos que por cá navegam



O Southern Mystral é um dos iates mais bonitos dos que navegam nas águas de Lagos. Ora digam lá que não é?!
para ver mais barquinhos destes, clicar aqui

o fumo esfumou-se


Olaré, leitor que inadvertidamente aqui viste parar.
A última vez que fumei o meu cachimbo foi no dia 18 de Agosto, pelas 3h00 da madrugada. Quer dizer, também fumei na noite do dia seguinte uns cigarros cravados à minha amiga Célia - que se divertia com o meu ritual de arrancar os filtros e amandá-los para cima do Zeca. Coisas da sardinhada, da vinhaça e dos líquidos que se seguiram, na simpática noitada na Sal Moura, comemorando o dia Intenacional da Fotografia. Daí para cá, nunca mais fumei. Já não aguentava mais. Estava a dar cabo da minha insanidade mentol, e das finanças. É verdade: um pacote de Borkum Riff Vanilla, mais os necessários filtros para o cachimbo Vauen custavam-me a módica quantia de 8€/dia. Andava a fumar uma mota de 600 contos por ano. Desisti do fumo e decidi comprar a mota.

Podia dar-me para pior.
;p

e prontos...


agora é só correr mundo e arredores

tá claro que me fico pelos arredores
;)

a evulssão du uomãi cem cabessa




A fotografia, captada em contexto que nada deve ao conteúdo que se apresenta aqui, é usada para representar a evolução rumo ao homem biónico que, para além de “optimizado” nas suas capacidades físicas – não fuma, não ingere álcool e copula agendado – complementa o seu porte físico com apêndices hi-tech, dilatando o seu porte atlético, levando-o a acreditar-se capaz de desafiar Hermes.
Mas notem que é um homem sem cabeça (animal racional superior - entendo que o superlativo é apenas por não existir termo comparativo à altura), pois para coordenar simplesmente o amontoado de músculos, basta um pequeno chip no alto do pescoço. Recusa-se este homem a olhar além do seu corpo, ou de um outro temporariamente adentro do seu espaço vital por razões de prazer ou procriação. E é nessa recusa de sair de si, de pensar e agir, que o homem cede à NÃO CULTURA.
Vem isto a propósito dos inúmeros livros que se publicam neste país, especialmente nesta época, supostamente para que os veraneantes ocupem o intelecto com ARTE (coisas que mudam a mente). Ora, escrever/publicar um livro é um acto de arte, e é um grito de guerra. Porém, tal coisa é impossível num país sem guerreiros. Os que publicam profusamente são, na maioria, gente comatosa, entrincheirada, aprisionada, ou engajada na conservação do statu quo. Um livro, qualquer livro a sério, de fotografia ou um romance, exige inquietude, angústia, raiva, desespero, revolta, ressentimento, temperamento trágico e conhecimento exterior a si. Exige o concurso de todas estas propriedades ou apenas de algumas, mas não seguramente as "qualidades" que escoam das páginas da maioria do que é publicado entre nós. Pura lerdice imprópria para exercitar a inteligência.
A única coisa que por cá se publica é folhetins de passeios de endinheirados meninos de outrora, hoje figuras de ecrãs. Isso, e biografias encomendadas, de putas demandando ajustes de contas. Comparativamente, este segundo tema merece mais crédito, pelos atributos éticos e morais das biografadas, mas não pela qualidade literária dos volumes produzidos.
Cuidem-se, pois, das obscenidades que as editoras apresentam nesta altura e rebusquem nas literaturas de épocas em que existiam escritores – gente que usava a cabeça e não apêndices de carbono –, as obras para vosso deleite intelectual. Fica uma sugestão: “A Derrocada da Baliverna”, de Dino Buzzatti.
A evitar: Reedições de Lobsang Rampa (que estas coisas da terceira visão são viciosas), ou os comoventes moralismos de Paulus Lepus.
Boas Férias.
F.Castelo

Coca Cola Time

Sentei-me num dos cantos da esplanada para, em cinco minutos, tomar a habitual meia-de-leite, ritual que acompanha o diário Glucophage (coisas de diabético). Ali, ao canto, o meu cachimbo não incomodava a jovem que, no centro da esplanada, tomava o seu pequeno-almoço. Em frente, do outro lado da pequena rua, uma equipa procedia à montagem de um toldo protector da montra da loja de recuerdos. Empoleirado, numa escada, um homem de meia-idade vai aparafusando os suportes do toldo, recebendo a assistência de um jovem Adónis moreno. A rapariga não desvia os olhos do exemplar latino, seguindo-lhe as idas e voltas à viatura de apoio. Cada movimento dele produz uma dentada na tosta que ela deglute afincadamente. Eu acompanho o deslumbramento da jovem e, findo o meu ritual, pago, levanto-me e abandono o local, deixando-a entregue ao seu sôfrego enlevo matinal.