Dorme Bobi, dorme

Os miúdos ouviram-nos ganir no contentor do lixo e levaram para casa os quatro cachorros, ainda de olhos fechados. No mesmo dia, distribuíram-nos pelos amigos. Fiquei com um macho, o único que viria a sobreviver. Calhou-me criar o Bobi. Os biberões, as limpezas e os mimos, o levantar da noite e do sono, de duas em duas horas, durante as primeiras semanas…
E o Bobi foi vencendo as poucas probabilidades de sobreviver. Cresceu e tornou-se num amigo simpático.Guardava o lar com o seu ladrar irritante, era paciente com os miúdos e, como muitos outros da sua espécie, adorava bolachas.
Gosto de escrever, mas deixo o resto das memórias do Bobi entregue às imagens.
O Bobi adormeceu hoje, para sempre.
Dorme Bobi, dorme.
Bobi "O Leão das Estepes"

Bobi "O Cão que ri"
Bobi "o cãocrodilo"
Bobi "o cãolifante"
Bobi...bolachinha, bolachinha?
Bobi e Gabi

Bobi "o sorrateiro"

BOBI (1995 - 2009)
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Koniec

A Virgem Margarida



Só hoje tomei conhecimento desta notícia publicada no Correio da Manhã de 29 de Abril, da qual transcrevo um excerto e comento seguidamente.

«Margarida Menezes tem 26 anos e é virgem por convicção. Recusa ter relações sexuais de uma noite, uma semana ou de um mês. À espera do príncipe encantado, Margarida criou o Clube das Virgens mas lamenta que durante mais de um ano não tenham surgido sócias. “Agora, o meu desejo é que as sócias finalmente apareçam.” Até agora, apenas recebeu mensagens de virgens anónimas e até de homens que assumiram a sua virgindade. “Respondi-lhes que não podia aceitá-los porque a minha ideia era só para as mulheres”, esclareceu. Margarida deu o primeiro beijo na boca aos 22 anos, mas a relação com o Paulo não durou um mês. Curiosamente, diz que o desejo dos homens em possuir uma mulher virgem é um falso mito. “Sinto que até se afastam quando lhes digo que sou virgem”, revela Margarida.
Continua virgem porque é muito romântica. “Também por falta de sorte. Ainda não conheci o meu príncipe encantado que virá num cavalo branco”, confessa.»


«Recusa ter relações sexuais de uma noite, uma semana ou de um mês» – Caramba, ninguém disse à rapariga que as relações sexuais não duram tanto tempo?
«criou o Clube das Virgens mas lamenta que…não tenham surgido sócias» - Pois, as sócias não têm tempo para essas coisas, andam ocupadas perdendo a virgindade e confirmando-o repetidamente, incrédulas.
«deu o primeiro beijo na boca aos 22 anos, mas a relação com o Paulo não durou um mês» - Tava-se mesmo a ver que o desgraçado ia aguentar muito mais tempo como se fosse um S.Paulo feito de pau e não um Paulo de pau feito.
«o desejo dos homens em possuir uma mulher virgem é um falso mito. “Sinto que até se afastam quando lhes digo que sou virgem”» – E estavas à espera de quê? Uns devem achar que és portadora de H1N1, outros que terás algum problema psicológico e os últimos encaram a tarefa defenestrativa com pouco entusiasmo porque dá mais trabalho do que prazer, ainda por cima tratando-se de hímen calcificado pelo tempo.
«À espera do príncipe encantado…» – Oh rapariga, abre os olhos, os príncipes encantados são quase todos gay’s, isso vê-se logo num gajo vestido com colants e sorriso pepsodent montado num cavalo branco!

Olha, nem sei que te diga.
Parabéns! Continua assim?!

PS – Já consideraste a hipótese do Convento?

sobre o blogue Mesa-Redonda

Considerando as explicações prestadas pelo "mesa-redonda", suficientemente convincentes, removo o post que deu origem ao mail que me foi enviado.


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Como não percebo o alcance da lamúria postada, episodicamente, no mesa-redonda, em que o seu autor se insurge contra perseguições movidas pelo poder a pessoa(s) desse blogue, volto a deixar em modo "público" as considerações e mensagens que sobre esse blogue anónimo inseri aqui no claustro fobias. E aqui ficam, porque não é claro que não exista manobra de incriminação por parte dos verdadeiros autores da "mesa" sobre a minha pessoa. Aproveito para lhes desejar Boas Festas, já que deixei de os visitar desde finais de Outubro.

2009.11.26

Carta aberta ao blogue mesa-redonda

Caros bloguistas do Mesa-Redonda.
Já que estou bloqueado no Haloscan (outra vez) - não que me faça qualquer diferença até porque se só o descobri agora, isso revela que o meu interesse em comentar na mesa-redonda é escasso – então sejam coerentes e removam as ligações ao meu site e ao meu blogue, ainda que isso possa intensificar a suspeita de terceiros sobre o meu envolvimento na mesa-redonda, coisa que, me parece, vocês têm promovido sub-repticiamente ao longo dos tempos (enquanto as atenções estão viradas para fulano ou beltrano não estarão para o alvo certo?!). Enfim, seja isso ou não, pouco me importa. É verdade que poderia aceder ao vosso blogue a partir de outro PC mas não costumo fazê-lo. Não tenho de o fazer. Só descobri que estava bloqueado, alertado pelo asinino que criou um tal "nuninho&nunetes" e que aí me identifica como proprietário do Mesa-Redonda. Tentando responder a esse brincalhão deparei com o bloqueio. Até foi melhor assim. Querendo dizer alguma coisa, fá-lo-ei daqui, do meu claustro.
Tenho, como alguns concidadãos nossos, suspeitas sobre a vossa identidade. Porém, não a tenho partilhado com outros, achando piada, até, à irritação que o vosso anonimato provoca em certos meios. O que digo acerca das pessoas da mesa-redonda é o que sempre disse, afirmações vagas que nunca comprometeram ninguém. Até porque, na verdade, e objectivamente falando, não conheço a vossa identidade. Nunca participei em nenhuma actividade vossa, e não trocámos mais do que duas ou três mensagens versando a vossa utilização (a não utilização!), de fotos retiradas do meu site.
Termino, esclarecendo, para vossa tranquilidade, que não estou minimamente chateado com vocês. Não sei porque me bloquearam, até porque já faz bastante tempo que não insiro qualquer comentário na vossa “menza”.
Ficarei a pensar que temem que vá por lá comentar desabridamente, e denunciante, sentindo-me assustado ou incomodado por alguns acólitos do poder desconfiarem que integro o Mesa-Redonda? Ora, meus caros, aos que transformam tais suspeitas em convicções mando apanhar no cu, que é afinal de contas o mesmo tratamento que tenho recebido quando me meto na alquimia das suposições/convicções.
Saúde.

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Interessante questão levantada no blogue local da “má-língua” , num comentário a este post, convidando ao debate. Quer-me parecer que, ali, nenhum debate frutificará, como é hábito, pelo que respondo aqui no meu espaço (até porque estou bloqueado lá na “má-língua”, impedido, e muito bem, de opinar).
Pergunta o senhor “Intruso”: - Qual o impacto em termos de desenvolvimento económico, social, cultural, tecnológico que as rotundas tiveram no concelho de Lagos?

Assim de repente ocorrem-me estes factores:
Impacto económico: poupança em semáforos e energia eléctrica;
Impacto social: imobiliza os condutores alcoolizados e distrai os restantes das “diversões” da administração substituindo-as pela bem mais interessante “vertigem das rotundas”;
Impacto cultural: glorifica rotundamente os seios femininos, símbolo destacado da continuidade da raça humana;
Impacto tecnológico: promove a aquisição de amortecedores hi-tech para os automóveis e melhora a performance dos lacobrigenses nas curvas.
Assim de repente, é o que se me oferece dizer.
Vª Exª porém, decidirá.

;b

"The End" ou "Koniec" - Um suspiro no final da fita


Imperativos profissionais têm-me proporcionado, ao longo dos últimos 15 anos, o contacto com várias figuras públicas, apesar de desenvolver a minha actividade num cantinho de província, já de si, periférica. Faço-lhes o “boneco”, quer dizer, registo imagens de variadas situações envolvendo essas figuras. São, frequentemente, gente da política e do mundo do espectáculo, por vezes gente ligada às artes ou à cultura em geral, gente que costuma aparecer nas televisões.
É notório que, muitas vezes, a figura que vemos na TV não corresponde à pessoa “ao vivo”. Umas vezes decepcionam, outras surpreendem mas, quase sempre são diferentes daquilo que a TV revela. Raro, é a pessoa de carne o osso corresponder exactamente àquilo que a televisão nos mostra. Mas era assim com aquele senhor, sobejamente conhecido como o maior divulgador da Banda Desenhada e do Cinema de Animação – esse era exactamente o nome do seu programa televisivo que, notícias preocupantes, indicam ter sido substancialmente “apagado” dos arquivos da RTP.
Ao cabo de centenas de horas a vê-lo do lado de lá do ecrã, sorridente e simpático, tratando os espectadores por “amiguinhos”, chegou o dia de o conhecer pessoalmente.
Aconteceu no Cine – Teatro Império, em finais dos anos 70, num evento relacionado com Cinema de Animação. Acompanhava-me o meu colega de escola Henrique Carreiro e, no final da apresentação, abordámos o senhor. Movia-nos não só a emoção do contacto real com a personagem saída do ecrã mas, também, colocar algumas questões sobre publicação de B.D, pois por esse tempo ensaiávamos uma história de quadrinhos. E fomos recebidos com o habitual sorriso e uma inequívoca atenção. Foi uma breve conversa da qual já nem recordo todos os pormenores. Mas não esqueci a cordialidade e a simplicidade que aquele Senhor transmitia. Faleceu, hoje. Enriqueceu-nos com a sua passagem pela vida, relembro a animação dos países de Leste, sobretudo dos polacos, das personagens hilariantes de Tex Avery e muito especialmente o trabalho inovador do canadiano Norman McLaren, talvez um dos maiores contribuidores para a valorização da Animação como Arte.
Obrigado, Vasco Granja.

O Fado já não manda em Portugal...

Começo por dizer que até gosto de Fado, mas, felizmente, o Humor vai destronando a melancolia e o luto da expressão vocal maior do nacionalismo português. Para isso basta ligar a TV e assistir aos telejornais.
O Tribunal da Lousã foi assaltado e foram queimados vários processos. O Juiz presidente diz que é impossível saber o que foi destruído, mas o Ministério Público diz que vai fazer um inquérito e determinar o que ardeu. Pergunto, como é que vão fazer esse inventário?

A Pirataria não é penalizável?



A Fragata portuguesa Corte Real capturou 19 piratas mas libertou-os pouco depois (certamente não eram piratas como a da imagem), supostamente, porque o Código Penal Português não prevê a pirataria?! Ora, se a pirataria não é penalizável, isso quer dizer que não estamos a salvo dela quando navegamos nas nossas águas territoriais?
Mas então a fragata não está integrada numa esquadra da NATO que deve reger-se por regras internacionais e especiais? Então cada um dos navios de diferente nacionalidade exerce as suas funções de acordo com a legislação do seu país de origem? E, se as leis portuguesas não permitem deter os piratas, que leis permitiram apreender-lhes as armas?
Sinceramente, não compreendo qual é o papel da esquadra da NATO naquela área do mundo, nem qual o papel da unidade portuguesa. Se a operacionalidade está dependente de uma questão de leis, desenterre-se o “código penal” do séc. XV e envie-se Afonso de Albuquerque para resolver os problemas da pirataria.
É evidente que estou a ironizar. Os marinheiros portugueses limitaram-se a agir de acordo com país faz-de-conta que representam. E nós bem sabemos que a pirataria deixou, há muito, de ser penalizada. Veja-se o que acontece aos piratas engravatados que nos saqueiam todos os dias: Nada!

Eu, então, se deito as mãos a uma pirata destas, assalto-lhe o baú!!!

Reflexões ímpias

“É muita areia para a minha camioneta”, ou para a camioneta de qualquer um. É o que é um computador. Uma porção de grãos de areia (sílica), magistralmente ordenados e conectados com outras tantas porções de alumínio, cobre, estanho, ferro… Enfim, um ridículo repositório de minerais conversando uns com os outros através de zeros e uns que nada significam mas que, simultaneamente, estão tão próximos do segredo do Universo. E tal como Deus, o computador resulta da intuição de seres abjectamente imperfeitos.

Para ler nas férias... grandes.



O VOLP - Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, apresenta a grafia de 349.737 palavras, em 976 páginas e é o resultado, do lado brasileiro, do célebre Acordo Ortográfico em que «para se "simplificar" a ortografia, atentou-se contra a etimologia e "complicou-se" a compreensão...». Uma tragédia “literária” certamente repleta de barbaridades ortográficas.

Portugal - trespasse ou aluguer?

...
Estamos Falidos! Estamos Falidos! Gritou desesperado o 1º Ministro, amparando a cabeça nas mãos e lançando-se precipitadamente para o extremo oposto da sala, acotovelando as cabeças dos restantes ministros, ainda sentados em torno da mesa governamental.
- Porque é que não me disseram nada? - Porque é que sou sempre o último a saber?
Santos Silva, já em pé, faz-lhe gestos para se acalmar, enquanto Manuel Pinho se raspa sub-repticiamente, valendo-se da sua conveniente estatura. Na mão, no saco do portátil, os calções e a toalha de banho esclareceriam o atónito contínuo que ainda o ouve gritar para o choffeur, enquanto desaparece na curva do corredor, “- Para o Allgarve, rápido!”.
Quem é que tem dinheiro? Quem é que tem dinheiro? Repete incessantemente Teixeira dos Santos, voltando-se ora para a esquerda ora para a outra esquerda, desorientado. A resposta deu-a Luís Amado: - Os chineses! Os chineses é que têm a massa!
Jaime Silva piscou o olho a Silva Pereira e rematou em voz baixa, apenas para o ministro da presidência ouvir: - Já sei! Alugamos isto aos chineses. Um país-loja. Uma enorme loja para fornecer a Europa. Até podíamos colocar uma lanterna gigante pendurada no Cristo-Rei…
Com a cara entre as mãos, Sócrates, sentado no chão, ao canto da sala, chora compulsivamente marcando, com a cabeça na parede, um compasso ternário (muito mal marcado, diga-se em abono da verdade).
Da rua, da multidão gigantesca, sobe um clamor de contrabaixo de onde escapam frases de ordem mais estridentes, depressa engolidas no bramido profundo da turba que afoga esses gritos mais agudos que ciclicamente repetem: - À MORTE! - À MORTE! Misturadas com incontáveis e inspiradas invectivas dirigidas aos governantes.
Nuno Teixeira, lívido, de olhar vidrado e fixo num ponto da parede oposta ao lugar que ocupa, não proferira uma palavra nem ousara um único gesto, desde o início da reunião. Enquanto Rui Pereira se desfaz em contactos telefónicos com os comandos policiais - de há muito expulsos das ruas pelo milhão de pessoas que marcham pelas ruas da capital -, Alberto Costa e Mário Lino entreolham-se apreensivos. Os outros não estão lá. Uns porque ficaram retidos nos afazeres oficiais onde foram surpreendidos pela revolta popular, outros porque apanhados pela turba e, praticamente, linchados na via pública. A coitada da Lurdes Rodrigues safou-se apenas com uns bofetões criteriosamente aplicados por uma jovem licenciada em psicologia que a reconheceu à saída do restaurante onde almoçara com dirigentes sindicais – que também levaram uns tabefes e umas biqueiradas no recto, especialmente os que não conseguiram esquivar-se à bota pontiaguda de um chulo de Xabregas com contas por ajustar com polícias, políticos ou, na ausência destes, dirigentes sindicais que, no seu entender, servem muito bem para o “desopilar do fígado”.
Voam vidros em estilhaços e alguns polícias já praticamente à paisana, e au naturel, aprendem também os princípios do voo curto planado, rasante às cabeças atarantadas da extensa mole humana que ocupa todo o espaço visível. Os edifícios, transformados em ilhas, porque rodeados por um imenso oceano de gente, coisa como nunca se vira antes numa cidade, exibem os seus habitantes, debruçados nas varandas ou espreitando por cada buraco de portada ou janela. Lisboa revolta-se, Lisboa assiste, Lisboa existe.
Em desespero, na eminência do assalto final, o ministro telefonista tecla o número da embaixada chinesa em Lisboa e, na pausa da chamada, ausculta os seus pares: - Trespasse ou aluguer?

...

ultrapassado

É assustador como as coisas ficam rapidamente ultrapassadas, fora de moda e, sobretudo, funcionalmente obsoletas. Sabem do que falo. De tudo. Dos computadores e telemóveis até aos hábitos quotidianos, passando pelas rodas dos skates, o frango de churrasco e o arroz doce. Vem isto a propósito da imagem de frontispício deste blogue acusar, também, uma notória decadência estética, a julgar por esta outra que encontrei na net, enquanto procurava contributos para auxiliar um amigo. Agora tenho de encomendar um novo trabalho de gravação a cinzel. É assim, um tipo não pode descuidar-se. Há que andar atento às novidades.



A evolução recente dos hábitos...

«Epa tenho que apresentar o trabalho de ÿÿÿÿÿÿÿÿ disciplina de £??H precisava que me arranjasses q` imagens sobre hábitos ÐÏ à¡±á > þÿ [1] £¥ þÿÿÿ¡¢ÿÿÿÿÿ ÿÿÿÿÿÿ ÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿ ÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿ ÿÿÿÿÿÿÿÿ ÿÿÿÿ ÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿ ÿÿÿ ÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿ ÿÿÿÿÿÿÿ ÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿ ÿÿÿÿÿÿÿ ÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿ ÿÿÿÿÿÿÿÿÿ ÿÿÿÿÿ ÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿ ÿ ÿÿÿÿÿÿÿ ÿÿÿÿÿÿÿÿ ÿÿÿÿ ÿÿÿì¥Áq` ð ¿ »
.
Eu sou um tipo diligente quando se trata de ajudar os amigos. Tendo recebido este mail com mensagem truncada e não sendo clara a natureza dos hábitos solicitados assumi que, melhor do que nada, o meu amigo podia apresentar um trabalho sobre qualquer coisa. Mandei-lhe este.






alea jacta est


«O homem agarra no cornu (trompa) de um legionário, e começa a caminhar rumo ao Rubicão, a tocar numa cadência arrebatadora. Passa à outra margem do rio, continua a tocar entre as árvores. É preciso eternizar este instante. César avança sobre a pequena ponte. A cada passo sente o peito a abrir-se, o corpo a lançar-se adiante.— Vamos onde nos chamam os sinais dos deuses e a injustiça de nossos inimigos! Alea jacta est! A sorte está lançada!»






Covardes morrem antes de morrer:
O sábio vive a morte uma só vez.
De tudo o que é estranho, e que já vi,
O mais estranho é o homem a temer,
Enquanto a morte, o necessário fim,
Vem ser só o não ser.

— Shakespeare,
Júlio César, II, II

COZINHA PORTUGUESA DO SÉCULO XV - GALINHA MOURISCA


Cortar aos bocados uma galinha gorda, levar ao fogo brando, com duas colheres de sopa de banha, algumas fatias de toucinho e um pouco de salsa, umas folhinhas de hortelã, sal e uma cebola bem grande.
Abafar e deixar dourar, mexendo de vez em quando. Cobrir a galinha com água suficiente para cozê-la. Estando quase cozida, juntar cebola verde, salsa, açafrão e hortelã, picando tudo bem miudinho e deitar na panela. Logo que a galinha esteja cozida, juntar quatro gemas de ovo batidas. Numa travessa funda, forrada com fatias de pão, despejar por cima a galinha.


foi tango



Não sei bem porque gosto de ouvir Tango. Não sei porque gosto mais de ver Tango do que qualquer outro espectáculo dançado. Sei que para além da sensualidade da dança e da música deliciosamente dramática, há mais qualquer coisa misteriosa, ou pelo menos intrigante. Será porque há ali uma perfeita comunhão entre a música e a dança? E quando os movimentos atingem um ritmo quase alucinante e nós, espectadores, começamos a torcer por um desenlace feliz?! Por vezes, até me esqueço de fotografar. O tango é porreiro.

O ditador... a SIC, e os espectadores

Artigo resultante de troca de comentários num post do blogue portugal dos pequeninos publicado no canallagos, revisto, e republicado aqui.

O ditador, a amiga, a francesa, a quiromante, a afilhada, a governanta, a outra mais nova, o choffeur, a condessa, o cardeal… a SIC, e os espectadores portugueses.

Vi a Soraia Chavez a seduzir Salazar e este a alternar entre uma pronúncia axim e outra assim. Vinguei-me! A SIC vingou-me daqueles meus amigos que dizem já ter visto um porco andar de bicicleta e que portanto já viram tudo. E como eu não vi tal façanha porcina…

Entretanto, arde a blogosfera em escritos incendiários, evocativos e explicativos do “porque Salazar faz falta”. Inflama-se lançando o anátema sobre a SIC que ousa vulgarizar a imagem do “grande estadista” que, no dizer de alguns: “governou uma nação pluri-continental do tamanho da Europa e consta que morreu pobre e nunca se deixou manipular pelos banqueiros ou plutocratas”; “Salazar ficou e está na História como um político de categoria mundial, um professor catedrático de finanças com obra publicada e realizada e um pensador político e social com muita actualidade”.

Um outro bloguista parece gritar até à rouquidão: “QUANTO MAIS TENTAREM DESVALORIZAR, O GRANDE ESTADISTA E PORTUGUES, MAIS O ELEVAM A UMA CATEGORIA SUPERIOR....PORQUE ELE ERA MESMO SUPERIOR. CHOCAR-ME-IA SE ELE GOSTASSE DE HOMENS, AGORA UM HOMEM COM H GRANDE GOSTA SEMPRE DO BELO, DO FEMININO, NADA DE CONFUSÕES. BEM TENTAM ESTES GANGS DENEGRIR ESSE GRANDE FILHO QUE A NAÇÃO NOS DEU.”

E a coisa segue, num coro rameloso: “Quando se começar a analisar a vida íntima destes hominídeos que tentam desesperadamente diminuir e achincalhar Salazar, então é o bonito!” e “Salazar foi o maior estadista do século XX, basta ler um pouco sobre o Estado Novo. É evidente, que para os malfeitores que nos governam, sentem necessidade de diminuir a grandiosidade de Salazar, é que se o povo começar a comparar vai perceber que anda a ser roubado desde o 25 de Abril.”

E eu discorro, placidamente (que estas coisas já não me revoltam): Pois, o povo anda a ser roubado mas não é apenas desde o 25 de Abril. Sem retornar ao Alentejo dos anos 50 e às campanhas do trigo que deixavam com fome quem nelas trabalhava, (assim mo diz a minha mãe, por experiência própria), fico-me pelo que vi em finais dos anos 60 e inícios dos 70: o povo que trabalhava nas fábricas da Indústria Conserveira, 12 ou 14 horas por dia, para receber um salário de miséria. Eu sei, porque estava lá. Já nessa altura alguém andava a roubar o povo, ou não?

Desgraçado país, este, em que, esquecida a ética e abandonados os valores do humanismo elementar no exercício da política, se recorre à evocação e se tenta recuperar a memória de um homem vulgar que só foi grande no autoritarismo a que submeteu o seu povo. Recatado, simples, honesto com o erário público? Pouco me interessa e nem discuto, aceitando por verdadeiro. E o resto? Quantos morreram e quantos viram as suas vidas trucidadas em nome de um ideal pátrio imperial e anacrónico – para meados do séc. XX – fundado em teorias patéticas como o lusotropicalismo?

Quanto custou a este país o imobilismo do Estado Novo, a proibição do liberalismo económico, o proteccionismo dispensado a meia dúzia de oligarcas, o cerceamento da iniciativa privada, o adiamento da construção de um estado moderno?

A História não se repete, ciclicamente, como se tal estivesse inscrito num fado predeterminado pela divindade. Somos nós que repetimos os erros e, dessa forma, andamos às voltas em vez de avançar. E é um erro avaliar os políticos de hoje – mesmo que estes sejam péssimos, como são –, pela bitola de um ditadorzeco que só não deve ser esquecido porque devemos evitar repetir o erro de adoptar outra figura paternalista como o Dr. Salazar.

Entendo o desespero de quem não encontra na nossa história contemporânea, nem na praça pública de hoje, uma figura carismática, honesta e protectora (ao ponto de nos resolver todos os problemas; exorcizar os medos, proteger do vizinho do lado, do chefe, do drogado, do ladrão e do patrão), que sirva de modelo. Mas a essência da Democracia é assim, dispensa tutores e clama à participação de cada cidadão. Sem participação cívica e política resta-nos o regresso cíclico e errático à ilusão salazarista… ou sebastianista para os que sintam pudor em identificar-se com o Don Juan de Santa Comba Dão.

Quanto à produção da SIC, não merece mais do que um gracejo: Bem pode navegar na corrente da metaficção historiográfica, um sucedâneo de pós-modernismo que postula (numa das pronúncias videográficas do paizinho da nação): “Não foi axim, mas podia ter xido!”.

metahistória

A escrita que me interessa produzir não é um exercício do absurdo, ou réplica literária da dramaturgia de vanguarda, embora receba daqui alguma influencia – nomeadamente na apresentação dos distintos momentos (tradicionalmente capítulos), como quadros cénicos salpicados de atmosfera teatral. O que escrevo tenta inserir-se na linha da nova estirpe do romance histórico, moldada no pós-modernismo, que trata a história com uma independência absoluta. Nestas ficções pós-modernas, o “tratamento” dado à história recorre a paradoxos, exageros, a sucessões de elementos díspares aparentemente desordenados, atingindo por vezes a desconstrução total do facto histórico. Livre da sua natureza temporal linear, dessa tirania do discurso do contínuo, a história é apresentada como uma sequência de intercalações, uma sucessão de sobressaltos cronológicos.

Será coisa perturbadora mudar assim a história, mas esta peculiar opção literária vive do diálogo individual do autor com a história, procurando, entre outros aspectos, que as suas construções especulativas contestem a resignação perante a falsa inevitabilidade do facto pretérito, resultando um: - … se não foi assim, podia ter sido!

O alvo principal deste discurso irónico é o repositório dos factos estabelecidos bem como as interpretações desses factos. O devir histórico, na sua caminhada, apresenta-se como um desgaste de vidas, de opções e de oportunidades, uma vez que a escolha de uma única possibilidade implicou a eliminação das alternativas. Eis o campo de batalha desta ficção pós-moderna, a metaficção historiográfica, que elege a impossibilidade como propósito: as possibilidades perdidas, descartadas, do passado, são apresentadas como tendo realmente acontecido.

Tivesse eu a preocupação de escrever para os outros e este seria o móbil da minha acção, um desafio lançado ao leitor: Entre a “certeza” da história real que sobejamente conhece e a história possível que a ficção lhe apresenta forma-se um momentum de reconstrução do conhecimento, que compete ao leitor moldar até onde o seu interesse e as suas capacidades o permitam. Mas não é esse, exactamente, o meu motivo. Iniciado no conto Claustro Fobias, continuo o exercício da escrita, por um lado naquilo que respeita à forma, aperfeiçoando a sintaxe, procurando o equilíbrio entre a limpidez discursiva e os artifícios das figuras de estilo ou de um vocábulo mais pomposo, agora com o desafio acrescido que representa a construção de um texto que se inscreva na corrente da metaficção historiográfica; e por outro lado na utilização do léxico da primeira metade do séc. XV, especialmente a terminologia náutica desse período.

Esse é o exercício que me proponho realizar, escolhendo como ponto de partida cronológico, o ano de 1434, e o espaço físico, a cidade de Lagos. Mas são apenas pontos de partida, não sabendo ainda por onde, e quando, na linha do tempo, viajarão os personagens do(s) enredo(s). O mar e a navegação afirmam-se como moldura e fundo da narrativa. Os personagens, como Gil Eanes e outros, hão-de agir e interagir numa conformidade ora verosímil, ora desconcertante, ao sabor dos ventos e marés da imaginação, do desassossego e do inconformismo do autor.

O primeiro quadro já foi publicado aqui. Quer se trate de um capítulo meramente exploratório, quer venha a integrar o texto final, o mote está dado.

contos populares - "As Invasões Francesas"


Quando os franceses invadiram Portugal, precedeu-os a fama terrível das suas infâmias: uma história cheia de roubos, assassínios, crueldades, bestialidades, estupros, de toda a espécie de violências e crimes.
Perante duas irmãs contavam-se as façanhas horrorosas dos tais franceses:
- Eles roubam, matam os homens, violam as mulheres…
Subitamente, ouviu-se grande algazarra na rua, gritos e correrias. Eram os franceses que chegavam. Apavorados, os que ali estavam fugiram abandonando a casa, excepto as duas irmãs, que se deixaram ficar, tranquilas, sentadas na sala.
Os franceses entram de rompante, em magote, e elas fecham os olhos. Eles revolvem tudo, correm os cantos à casa, arrombam gavetas e armários, roubam todos os objectos de valor que encontram, olham para as duas irmãs, e retiram-se em tropel.
Ao ruído enorme que eles tinham feito sucede-se um silêncio lúgubre.
As manas, não ouvindo nada, abrem a medo os olhos: - ninguém.
Levantam-se, correm todas as divisões: - tudo deserto!
Vão à janela, o magote dos franceses seguia rua abaixo.
Umas das irmãs para a outra:
- Ò mana, então os franceses não violam?

Contos populares - "O Poder da Publicidade"

Aqui há uns anos andou pelas vilas do interior, um homem que dizia ter inventado um unguento milagroso para a cura das hemorróidas. Mal chegava a cada terra, espalhava anúncios por todas as lojas, pelas ruas, afixava em taipais e tapumes de obras, nas paredes, expositores, postes de iluminação, enfim, por todo o lado.

Era um cartaz colorido, em papel macio, com grafismos apurados, que dava conta da sua miraculosa invenção. Decorridas duas ou três semanas, o inventor abandonava a terra com os bolsos cheios de dinheiro. E por toda a parte por onde passava, mesmo pelas terras mais saudáveis em questão de hemorroidal, o mal surgia logo, replicado por todo o lado. Cu que fosse cu, logo ganhava a enfermidade.

Tal ocorrência deixava as pessoas pensativas, cismando como aconteceria tal coisa. Como é que este homem, apenas pela sua presença, conseguia desabrochar tantas hemorróidas? Eram povoações inteiras de cu adoentado. Como conseguia despertar essas coisas adormecidas no mais fundo de cada um? Numa vila em que não havia um único caso de hemorroidal recenseado até então, passava ele todo o dia a atender clientes, vendendo a pomada mágica.

Finalmente, um dia descobriu-se o mistério. Os cartazes que profusamente distribuía, feitos em papel fino, suave e macio, eram logo destinados à aplicação usual dada a todos os papéis semelhantes a que se deitava mão. Só que o papel destes anúncios era preparado com um produto químico que fazia despertar as malfadadas glândulas rectais. Ora, cada um que os usava, transformava-se logo em potencial cliente do especialista. E assim enriqueceu este engenhoso empreendedor.

Moral da história: nunca subestimes o poder da publicidade!

A Bela e o monstro


(...)

A Bela e o Monstro... é quase óbvio.
Exactamente. Mas a criança é convidada a lidar com isso. E com o universo das metamorfoses, quando a criança é levada a tratar com afecto e compaixão uma criatura disforme. Em A Bela e o Monstro, ela nunca supôs que por baixo do monstro de aparência terrível havia um príncipe encantado. E percebe que se eu não conheço o outro, se não dou tempo a que o outro se transforme perante mim, então não posso ter uma relação correcta com ele. Não posso julgar as coisas pela sua aparência. Lidamos com uma coisa que depois se revela como sendo outra. E há, sobretudo, a capacidade de amar e de respeitar a diferença, a compreensão de que o afecto e a compaixão provocam metamorfoses na relação com o outro.
excerto de entrevista de Vítor Quelhas a Notícias Magazine - 11.04.2004
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pintura digital de Bruno Santos

O Teatro dos cogumelos





Os cogumelos são seres sublimemente estéticos, admiravelmente plásticos, são assunto magnífico para fotografar, até para mim que nunca cultivei o gosto pela macro Fotografia.
Adicionalmente, deixam certas pessoas muito nervosas. Hehehe…são tão tontos, tão óbvios e previsíveis, que até aflige. Só demonstram a sua ignorância acerca da arte de Moliére. Como posso ter estima por gente assim?! Eu enceno Aristófanes e eles insistem representar Eurípides. Talvez percebam quando chegar a Plauto. Hehehe...



Entretanto, enquanto não dou as pancadinhas... de Moliére, claro, vou saboreando os fungi.
foto: Cantharellus cibarus e Boletus granulatus (ou Suillus bellini?) salteados.

Janeiro... Barroco

Janeiro é mês do Barroco. Dia 27, a Igreja de Santo António recebe palestra sobre Arte Barroca. O Padre António Vieira também entra nisto. E eu gosto do Barroco, pois gosto. E digam lá se não é interessante, a julgar pelo "extase da beata ludovica", sem falar no da santa Teresa. Ahhh, como é extasiante o barroco.



Bolas de sabão



(…) A AllBall Inc. – Portugal Branch funcionava num velho edifício de seis andares, na baixa da cidade, junto ao porto. O edifício possuía, no rés-do-chão, uma enorme loja onde se vendiam todo o tipo de bolas, para as várias modalidades desportivas. Também ali estavam localizados, nas traseiras, voltados para a doca, os armazéns dos produtos que a empresa comercializava. Nos restantes pisos funcionavam os outros serviços da sucursal da marca norte-americana.
(…)
A mando do Administrador-Geral, o chefe colocara-o em “isolamento”, avisando as funcionárias dos vários departamentos que não se deixassem fotografar para os calendários e catálogos de brincar que ele fazia – montando meticulosamente os rostos das colegas ao lado das estrelas das várias modalidades desportivas –, e que as jovens tanto apreciavam.
(…)
O chefe assemelhava-se fisicamente à personagem de comédia britânica mr. Bean. Comportamental e psicologicamente era mais ao género da personagem Waylon Smithers, o solicito assistente de mr. Burns da série animada “Os Simpsons”, sempre a lamber os sapatos do patrão e o chão que este pisa. Obedecendo cegamente às instruções superiores o chefe reduzira-lhe as solicitações de serviços atenuando, consequentemente, o seu volume de trabalho.
(…)
As secções que funcionavam ao lado do seu estúdio foram mudadas para outras dependências vazias, ou mal ocupadas, do enorme casarão. Assim, viu afastar-se a Secção de Controlo de Vendas e a de Informações em linha. Até a arrecadação da limpeza foi deslocada para outra ala do edifício. Isolamento, era a estratégia adoptada. Porém, não se tratava de um castigo por falta cometida. Era, antes, corolário da acção insidiosa de que fora alvo e contra a qual se revoltara. E essa revolta, revelada incómoda, havia que silenciar. A perversidade do poder ganhava.
A partir de então passou a ter por único vizinho, numa sala contígua, um símio que ouvia rádio, gritava e dava murros na parede quando os jogadores do F.C.Porto falhavam os remates, não se sabe se de contentamento ou irritação.
Não satisfeitos com o degredo ainda faziam inspecções periódicas ao local de trabalho, inquirindo sobre a sua ocupação, acerca do uso dos utensílios e ferramentas do seu mister, da quantidade de água que consumia, ou das folhas de papel que gastava. Um dia, chegaram a medir a quantidade de pigmento existente num tinteiro da impressora, não fosse andar a imprimir coisas não autorizadas.
(…)
Dado como mentalmente afectado, não só foi proscrito profissionalmente como tentaram afastá-lo do convívio social habitual. Até à professora dos tempos da primária fizeram chegar a mensagem de que não andava bem, e que ela nem devia continuar a responder aos postais que sazonalmente trocavam, dando conta da saúde dela e do sucesso dele, resultado de uma longa amizade começada, justamente, nos bancos da escola.
(…)
Já não ia tantas vezes ao exterior para sessões de fotografia artística com as sorridentes modelos que apresentavam os produtos. Agora, ocupava-se de trabalho mais individual, mais técnico, registando os produtos novos – igualmente para os catálogos oficiais da marca –, ou aplicando os seus conhecimentos de metrologia na verificação das dimensões, volumes e capacidades das mais variadas bolas.
(…)
Deixou vaguear o olhar pela sala. Na sua frente um poster com um gigantesco hemisfério seccionado prende a atenção pelas palavras coloridas de formatos variados: Pelota, Ball, Bal, Ballon, Palla, Pilka, Boll, Pilota, Pallo, Top, توپ , Топка. Bola, nos vários idiomas do mundo. Na parede posterior um armário exibe dezenas de bolas de futebol, desde as primeiras, com uma abertura por onde entra a câmara de borracha, a inglesa de couro do séc. XIX - ainda ostentando o tiento - até à mais recente Teamgeist, passando pela longa evolução das de cauchu e pela primeira totalmente sintética, a Azteca, estreada em 1986 no México, reviu Saltillo...
O toque do telefone suspendeu-lhe os pensamentos, e o resultado da breve conversa tida com alguém que desconhecia trouxe-lhe nova apreensão: porque diabos o andavam a aliciar com propostas de trabalho? Já na semana anterior recebera um e-mail da Finne e, agora, alguém que se dizia representante da Mikasa pretendia contratá-lo para um part-time! Que coisa tão estranha, sobretudo porque o seu contrato profissional não lhe permitia esse tipo de relacionamento com empresas concorrentes, e elas sabiam-no.
(…)


Excerto de: “Cambra D’ar”

U Ólgarve

«Foi notícia em Março do ano passado: o Governo português destinou 9 milhões de euros para o relançamento do Algarve como destino turístico, com a transmutação do Algarve em "Allgarve".

O Verão está à porta e quem tencionar passar férias no Algarve terá de consultar a página do… "Allgarve": http://www.allgarve.pt/. O texto que aí se encontra sob o tópico «O que é o Allgarve» é aterrador. Não falo de falhas triviais (gravosas todavia) na colocação dos acentos ("espirito" em vez de
espírito), no uso do hífen (ora "life-style", ora "lifestyle"), no recurso a maiúsculas (porquê Praia?). Refiro-me a erros estranhíssimos, que fazem pensar que o texto foi escrito em inglês e depois sujeito a tradução automática, sendo a versão em inglês igualmente péssima já.

«O programa de eventos "ALLGARVE" irá construir sobre o Algarve enquanto destino de oferta turística, acrescentando-lhe valor através da componente de animação.» Irá construir o quê? Construir é um verbo transitivo, precisa de complemento directo. O que quer que se construa, constrói-se «sobre o Algarve»: a preposição tem valor de assunto ou de lugar? O que se entende por «destino de oferta»? Não será «oferta de destino»? E o pronome lhe? Recupera que elemento na frase?

Outra passagem:
«Os visitantes do Algarve poderão assim ter um contacto de qualidade com o nosso país, vislumbrando a sua diversidade e estimulando-os a voltarem.» Sua do quê? Do Algarve ou do país? Pretende-se que os turistas vislumbrem, ou seja, que «tenham uma ideia imprecisa sobre algo»? Mais aberrante ainda: onde é que pára o sujeito de «estimulando-os»?

E pensar que parte dos 9 milhões foi para pagar ao autor de um texto destes…»

In http://ciberduvidas.sapo.pt/index.php

alavancar

«"alavancar" é daquelas expressões em relação às quais apetece puxar imediatamente da pistola.»
Diz o João Gonçalves aqui, e eu concordo.

Um país, dois sistemas, ou de como as coisas tendem para os pares




Recebi há dias, pelo correio electrónico, um daqueles filmes que pretendem alertar para um futuro em que a supremacia económica da Ásia colocará os dois gigantes, China e Índia, no topo da pirâmide mundial. O filme referia os muitos estudantes sobredotados que ambos possuem, o facto de estudarem, já, respostas para problemas que ainda não existem mas que se supõem emergentes, e muitos outros aspectos tratados em quantidades astronómicas, do tipo: a China tem mais alunos sobredotados do que a totalidade dos alunos norte-americanos, etc. tudo, portanto, numa escala esmagadora. Curiosamente, o filme não contabiliza o número de vacas à solta nas ruas das cidades indianas, que é coisa que sempre me fez confusão, a mim e a qualquer automobilista português, para não falar nos italianos.


Esta coisa das grandezas trouxe-me agora à memória o José Duque, alentejano que veio para Lagos abraçar a faina marítima na arte do rapa e que, certo dia, em Sagres, olhando a imensidão do mar atlântico desabafou: - que granda pupriedade… e nem um chaparro têin?!


Seguia eu a caminho de ficar preocupado com estas assombrosas revelações, as do filme, quando uma reflexão acidental – que no meu caso deveria classificar como normal, pois, devido a uma queda ocorrida em criança, só reflicto acidentalmente – me fez perceber as mais recentes estratégias político-económicas ocidentais. E esta ponderação abortou o desassossego em progressão.


Tranquilizei-me e sorri, semicerrando os olhos, assim ao estilo de um manchu matreiro, observando um imaginário adversário que se encontraria na minha frente, o que era difícil pois na minha frente está a lareira e… coitado, retomemos o enredo:
- Ah, vocês pensavam que de lojinha em lojinha iam tomar conta disto tudo? Por esta altura o leitor já percebeu que esta fala é minha, quer dizer, sou eu, de olhos semicerrados, tipo fú-manchu com um roupão de veludo azul e vermelho e uns bigodes pendentes, com quase meio metro, unhas enormíssimas e o cabelo num carrapito, a enfrentar o opositor, vou continuar: - Ah… pensavam que os ocidentais decadentes estavam a dormir? Pois bem se vão tramar! O farol da cultura ocidental não dorme em serviço, os nossos amigos americanos já reagiram e, em tempo útil, adoptaram o vosso estratagema: "um país, dois sistemas". Chama-se a isto “passar a perna” ou, para melhor entenderem: “passal a pelna”.


Pois foi, os americanos acabaram de instituir o socialismo para os ricos, com especial atenção às espécies em sobressalto: banqueiros, especuladores e políticos; enquanto mantêm o capitalismo para os pobres. Um país, dois sistemas. Assim é que é!


E em Portugal seguimos o mesmo caminho. Peço desculpa, uma vez que mete socialismo será mais apropriado dizer que “seguimos a mesma via”, assim é que está correcto.


Então, orientais, pensavam que os lusitanos estavam a dormir? Naaa… é que nós temos cá dois partidos de gente astuta, atenta a essas estratégias de levantinos que desejam, desavergonhadamente, roubar o lugar que nos pertence por direito, diritto di vino ainda para mais.


Repare o leitor que sempre foi a argúcia dos nossos governantes que nos salvou aos ditames dos de levante. Ao longo de toda a História sempre assim foi. São estes que cantava o Poeta quando os dizia da ínclita geração, o Camões pois claro. Eu nunca acreditei nessa tese que defende que o Poeta se referia aos filhos da Filipa de Lencastre, digo isto porque fitei demoradamente, e por diversas vezes, com o meu semblante de manchu, o filho que está sentado ali na Praça da Música vai quase para meio século, e não lhe vi jeito de ser ínclito, ainda para mais cagado pelas gaivotas. E veja-se, agora que o taparam ninguém se ofendeu. Ora vá-se lá tapar o Afonso, ao berço da nacionalidade. Esse, sim, um autêntico ínclito. Havia de ser lindo, as mães bragantinas montavam logo um arraial de bordoada como fizeram com as criaturas brasileiras que procuravam ganhar a vida a coberto da lei da economia popular: uma mulher para muitos homens; mas isso é outra história, a que havemos de voltar lá mais para o Natal, ou mesmo na Páscoa se o Carnaval for curto.


Ele sabia que isto ia ser assim, o Camões, claro. O Magalhães deve ter segredado qualquer coisita. E o leitor sabe como o Magalhães é assim coiso e tal com o nosso primeiro, aquela cena dos dois indicadores a esfregar um no outro, o leitor sabe como é. Embora me pareça que o distinto navegador também passou a “pelna” no nosso primeiro ao ter-lhe apresentado o PC anão como coisa sua, quando apenas se aproveitou do Anoa que é o nome do Classmate PC na Indonésia. Enfim, já um navegador anterior tinha trazido rosas para outro príncipe, mas desconfio que eram rosas falsificadas, a julgar pelo roseiral que depois veio a frutificar cá no jardim à beira mar arroteado. Provavelmente comprou-as na primeira loja chinesa que encontrou ali para o norte de África, sem sequer ter ido lá abaixo ao Bojador, é que nem uma fotografia trouxe que atestasse o feito, caramba. Ora custava alguma coisa fazer umas fotos com o telemóvel? Bom, deixemos em paz esse nosso conterrâneo porque o coitado, envergonhado, escondeu-se dentro de uma saca de serrapilheira, e lá permanece.


O leitor, senão distraído, já reparou que tergiverso, mas em minha defesa digo que não tenho culpa das palavras ganharem independência e atirarem-se assim à maluca para o ecrã, construindo as coisas mais díspares como por exemplo falar neste preciso momento de chinesices, quando as posso comprar baratas ali na loja da esquina, sim, que isso da crise, inflações, deflações e recessões são coisas que qualquer honesto trabalhador pode tratar no divã do psicólogo. Abro um parêntesis, que não o sendo exactamente, serve o propósito, no que toca às inflações e para dizer que algumas se tratavam com as tais brasileiras de Bragança, agora parece que já não.


É tempo de regressar ao assunto principal que me trouxe a este exercício de escrita, e de forma sintética porque já não cabem mais letras na página do jornal.


Assim, venho por este meio apresentar o meu profundo agradecimento ao PS e ao PSD por nos terem colocado no caminho do sistema duplo. Finalmente! Desde o tempo do Scotex, logo copiado pela Renova, que me questionava porque raio não aplicavam tal solução à política?!
Em suma: O que seria deste país sem as vossas figuras gradas, os vossos gestores, administradores, assessores, colaboradores e todo o universo de outros habilidosos obradores que, admiravelmente, conseguiram formar em pouco mais de três décadas de democracia?! Foi tarefa árdua, com cursos intensivos, workshops à descrição, acções de formação incidindo da Informática à apanha de lapas passando pelo aperfeiçoamento técnico do lamber envelopes, e muito dinheiro gasto, muito dinheiro da madame Europa, mas vejam como resultou em cheio.


Caros senhores, acredito que o povinho está convosco, entusiasmado e pronto a prestar qualquer ajuda ou auxílio, ou ambas em simultâneo, que entendais necessário.


Com serenidade e confiança no futuro recordo um antigo desabafo do nosso mais alto magistrado, proferido em contexto que incluía a figura do funcionário público: - só mesmo esperar que morram!


Logo, já sabem, figuras gradas, se precisarem de uma contribuição para esquifes, é só pedir. Eu dou!


E longa vida aos dois sistemas! Já chega de vivermos apenas com um.
Agora quero ver o tal senhor repetir: - É o sistema!!!
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Escrever pelo prazer de escrever. Escrever para melhorar a escrita. Cada vez mais, menos preocupado em "comunicar" com hipotéticos leitores. Porque são poucos os que lêem e desses, nem todos o fazem com a devida atenção.
Este artigo foi publicado num jornal local online e ninguém acusou a incongruência da referência à estátua de Afonso Henriques em Braga. Nenhum dos leitores, que comigo o comentou, se referiu ao “erro”. Continuo, pois, a achar que não vale a pena escrever para os outros. Continuarei a escrever para mim.

Cap. 36* - O Salário do Poeta



(…)
Os risinhos petulantes faziam-se ouvir na plateia, provenientes do balcão. Era o general, em palco, que suscitava tal galhofa devido ao seu chapéu e ao facto de trazer contratado um poeta que lhe haveria de fazer versos laudatórios. Assim o desejava, e esperava, o velho ditador, preso ao fio da vida pela recordação dos seus dias de poder, agora afrontado pelos fantasmas e medos que criou.
Era essa conotação com o poeta original, sentado no extremo oposto, lá em baixo, na plateia, que suscitava a mordacidade do grupo.
Pobres criaturas, crendo que a representação ocorria unicamente no palco. Ingénuas no saber de não serem mais do que marionetas, como os outros, suspensos nas cordas de quem, em cena, os faz representar. O teatro também é assim, mas o grupinho não suspeita sequer. Nem poderiam, pois não passam de leitores de Paulo Coelho, revistas cor-de-rosa e boletins astrológicos.
No palco, o diálogo dramatiza-se entre o poeta ajustado e o vil contratador e, lá em cima, nas últimas cadeiras, as insolências continuam, em voz sumida, quase murmúrio, receosa de ser escutada na plateia; seguida dos costumeiros risinhos contidos. Não fossem os microfones omnidireccionais colocados no auditório, justamente para registar os ruídos e observações da assistência e, de facto, nem seriam ouvidas...
Mais tarde, os actores haveriam de desgostar de tal atitude desrespeitadora do seu trabalho. – Gente gira, mas boçal. Diriam.
Nem tanto, diria eu. Se dissesse algo. Mas eu não estava disponível, entretido na observação das reacções aos produtos que introduzo no meu laboratório de cobaias: mais uns eléctrodos aqui, uma incisão lobotómica ali… continuam a mexer, e reagem. Bom sinal!
(…)


Excerto do Cap. 36 da prosa “cambra d’ar” (título provisório)