Banho 29



O banho 29 é um misto de tradição folclórica e de ritual transmitido de pais para filhos com a crença que o banho daquela noite vale por 29 banhos. As suas origens são incertas. Quer provenientes de épocas muito antigas e ligadas aos ritos de fim do Verão, quer resultantes da herança árabe, o costume manteve-se.
As gentes dos campos já não vêm em grupos animados, com os seus burrinhos e carroças, mas os locais continuam a cumprir a tradição. Hoje, são grupos de jovens, mais foliões e menos rituais, que aproveitam essa noite para assar chouriço e contar histórias à volta de uma fogueira.
À meia-noite o momento do banho leva muitos ao mergulho nas águas fugazmente iluminadas pelos clarões dos fogos-de-artifício. Em Lagos, é na Solaria e na Praia da Batata que se junta maior número de entusiastas, reunidos pela proximidade da animação musical e do concurso de trajes de banho antigos. Mas é na Meia Praia que a tradição melhor se cumpre, com os entusiastas agrupados em torno das fogueiras alinhadas ao longo do areal. Ali se bebe, come, conta e canta antes e depois do tradicional mergulho no mar. E a tradição, genuína, é apenas isso.


Allgarve. A arte no/do penico

A arte já não propõe nada de novo?! Nem forma de pensar nem modo de olhar. A arte contemporânea de hoje, sobretudo nas “artes plásticas”, não revela grande valor estético ou especial desafio ao intelecto. Então, será ainda, e verdadeiramente, ARTE?
Que sentido podemos encontrar numa gravação que afirma incessantemente: “As bright as the Sun!”? Que originalidade possui esta “cortina metálica” que fotografei há poucos dias numa igreja de Silves? E o recurso abusivo e exaustivo às instalações plástico-dementes, num expediente masturbativo de non-sense; e os vídeos sobre o nada, mais os filmes das câmaras apontadas ao umbigo do “artista”, numa negação gritante do plano, da sequência, da estrutura elementar da imagem animada e da ortografia do visual? Que são? Raras são as instalações que conseguem envolver o espectador, apelando aos seus sentidos, como supostamente o pretendem. E porquê? Porque tudo isto está fora de tempo. Não possui espírito, buscando exclusivamente a sua conversão em Euros. Basta folhear os catálogos da Gulbenkian dos anos 60 e 70 para percebermos a falta de originalidade da “arte” hodierna. Está lá tudo isto, ensaiado, codificado e descodificado, superlativamente, num tempo em que foi novidade, foi provocação, foi mudança.
Até o simpático efeito dos fios cruzados sobre o hall do novo edifício Paços do Concelho Século XXI remetem-nos para o russo Tatlin e os seus trabalhos que evocam forças, energias, tensões físicas. Interessante, mas…já visto.
E as incursões no mundo da escultura imaterial, da escultura não como objecto mas como acção, como atitude, ainda hoje apresentadas como coisa nova, quando o americano Richard Serra as explorou profusamente a partir dos anos 60.
Para além de hipermercado de produtos em série, com as suas pequenas lojas de produtos de luxo (também de produção massiva), o mercado das artes plásticas é, ainda, um imenso estaleiro de negócios escuros que interceptam o mundo da política e da alta finança. Estaleiro de obras gigantescas em permanente edificação, alimentadas pelo trânsito de capitais, principalmente públicos, com pagamentos de ágios chorudos a críticos, comissários, directores, artistas, e, quem sabe, alimentando também os cofres de partidos políticos e confrarias esotéricas.
E a arte, onde está? No penico?

Ler também aqui.

da forma

«- Na prosa sente-se mais livre?
- Sinto-me mais livre. Se bem que na prosa, tenho a impressão que se poderia reconhecer uma vocação musical. Eu sinto necessidade que ela corresponda a um rigor musical. No sentido de ter uma certa cadência, ritmo… Muitas vezes mudo uma frase, uma palavra, e não paro enquanto não me satisfizerem musicalmente. Não que eu fale a frase em voz alta, ou vá cantar aquilo. Mas há uma exigência quase musical. Agora, na criação de prosa, evidentemente, há que haver uma lei narrativa. Se bem que muitas vezes a gente supõe que não, ou a gente não quer. Mas aí, acho que é um pouco a inveja que a prosa tem da poesia. Eu, na verdade, o que menos me atrai na escrita de um romance é a história. Me interessa mais trabalhar com a forma, a forma de contar aquela história… A história em si não é nada, muitas vezes não é nada.»

E eu já com receio de defender as minhas preferências pela forma, em detrimento do conteúdo, nas discussões de tertúlia, eis que aparece aqui outro Chico não-escritor (este de peso) dizendo o que eu penso. Sabem como é... aquela sensação de que não estamos sozinhos no Universo?!
;)

Já que insistem

… e ao sétimo dia, o sumo pontífice ordenou que as vestais solicitassem os serviços do escultor, mandou retirar as contenções ao gasto das tinturas e exortou a que todos sorrissem, sorrissem muito, uns para os outros. Que não houvesse lugar a melindres entre os artistas; que não fossem, mais, perseguidos; que reinasse a paz, mesmo podre; que imperasse a concórdia, ainda que cínica; que se encomendassem muitos retratos e se produzissem muitos desenhos de gente, de toda a gente, em rasgados sorrisos. Assim ordenou o sumo.

(…)


Amanhã há pardais na cambradar!

No PREC

Quando entro em modo PREC* não vale a pena solicitarem-me atenções. Não estou cá!




*PRocesso de Escrita em Curso

A Batalha de Lagos


«A Guerra dos 7 Anos, entre 1756 e 1763, constituiu um marco na história europeia moderna e modelou a fisionomia das nações ocidentais, sendo considerada o ponto de viragem para o início da Era Moderna. Este conflito, que envolveu a Inglaterra e a França, prendia-se com o controlo comercial e marítimo das colónias europeias nas Índias Orientais e na América do Norte. A Inglaterra ocupou a ilha de Minorca, possessão francesa no Mediterrâneo, e foi este acontecimento que conduziu a uma tentativa de reunir as frotas navais francesas dispersas, para invadir a Inglaterra, culminando na batalha naval entre estas potências ao largo de Lagos, em 19 de Agosto de 1759.

Toda a história que Lagos encerra nos seus mares merece ser redescoberta, e por isso, no dia em que se assinalam os 250 anos desta batalha decisiva, convidamo-lo a vir mergulhar na História, assistindo às conferências de três eminentes especialistas em história e arqueologia náutica e subaquática!»

Batalha de Lagos faz 250 Anos (18/19 Agosto de 1759)
A “Batalha de Lagos” enquadra-se na Guerra dos Sete Anos, um conjunto de conflitos internacionais decorridos entre 1756 e 1763, envolvendo, de um lado, a França, a Áustria e seus aliados (Saxónia, Rússia, Suécia e Espanha), e do outro a Inglaterra, Portugal, a Prússia e Hannover. Vários factores desencadearam a guerra: a preocupação das potências europeias com o crescente poderio de Frederico II, o Grande, Rei da Prússia; as disputas entre esta e a Áustria pela posse da Silésia, e a disputa entre a Grã-Bretanha e a França pelo controle comercial e marítimo das colónias além-mar, nomeadamente as da América do Norte. Foi o primeiro conflito de carácter mundial, e o seu resultado é muitas vezes apontado como inaugurador da era moderna.
Na noite de 7 de Agosto de 1759, em pleno período de bloqueio dos portos franceses pela marinha britânica, uma esquadra de 15 navios comandada por La Clue zarpa do porto de Toulon. Tenciona alcançar o Atlântico e reforçar a armada proveniente de Brest, comandada pelo vice-almirante de Conflans, com a finalidade de atacar a Grã-Bretanha, desembarcando na Escócia. A navegação é feita ao longo da costa africana procurando evitar a detecção dos ingleses. Porém, na manhã de 17 de Agosto, ao largo de Ceuta, uma fragata inglesa avista a esquadra francesa e imediatamente leva o aviso à força estacionada em Gibraltar que, no mesmo dia, pelas 22h00, se faz ao mar.
Na manhã de 18 de Agosto, a esquadra inglesa, sob o comando de Edward Boscawen, avista as primeiras velas mas, já não é a totalidade da armada francesa pois durante a noite cinco dos seus navios de linha e três fragatas perderam o contacto com o grosso da esquadra e afastaram-se, demandando Cadiz. Os outros sete navios, que entretanto aguardavam a possibilidade de reagrupar a esquadra julgaram, erradamente, que as velas que se aproximavam eram os retardatários da sua frota. Pelas 9h30 Boscawen ordena aos seus navios a perseguição e ataque às velas francesas. Poucas horas depois as esquadras iniciam um combate que se prolongará por todo o dia, com aproximações e afastamentos ditados pelas condições do vento. Pelas 16h30 o Centaur rende-se, bastante danificado, tendo perdido o comandante e cerca de 200 homens. Do confronto resultam estragos de monta no navio-almirante inglês que obrigam Boscawen a transferir-se para do Namur para o Newark. A perseguição aos navios franceses continua durante a noite embora o Souverin e o Guerrier a tenham aproveitado para escapar, rumando a Oeste.
Ao nascer do Sol do dia 19, com a esquadra reduzida a quatro navios, os franceses decidem colocar-se ao abrigo das fortalezas do barlavento algarvio, sob a neutralidade das águas portuguesas. Inutilmente. O Modeste é apresado em Sagres e o Teméraire na Figueira, enquanto que o navio-almirante Océan, e o Redoutáble, varados respectivamente na Salema e no Zavial, para salvar a tripulação, são violentamente bombardeados. La Clue e muitos dos seus homens abandonam o navio e, pouco depois, uma embarcação do América recolhe o comandante de Carne e o resto da tripulação. O navio, considerado irrecuperável, é incendiado pelos ingleses, tendo assim o mesmo destino do Redoutáble. La Clue, gravemente ferido no combate, viria a falecer em Lagos.
Com este desaire, o sonho da França de uma invasão do território britânico, fica seriamente comprometido.
Este episódio da Guerra dos Sete Anos, ocorrido menos de 4 anos após o catastrófico terramoto que assolara o reino, ficou conhecido como “Batalha de Lagos” e motivou um veemente protesto do governo de Sua Majestade D. José I, junto da Inglaterra, redigido pelo punho do Conde de Oeiras, futuro Marquês de Pombal. A importância do evento determinou que Lagos ficasse relacionada com esta batalha e assim registada nos livros de História.

Lista dos navios envolvidos: nome/nº canhões
Esquadra inglesa: Namur 90 (navio-almirante), Prince 90, Newark 80, Warspite 74, Culloden 74, Conqueror 70, Swiftsure 70, Edgar 64, St Albans 64, Intrepid 60, America 60, Princess Louisa 60, Jersey 60, Guernsey 50, Portland 50, Ambuscade 40, Rainbow 40, Shannon 36, Active 36, le Thetis 32, Lyme 24, Gibraltar 24, Glasgow 24, Sheerness 24, Tartar’s Prize 24, Favourite 16, Gramont 16, Aetna 8, e Salamander 8.
Esquadra francesa: Océan 80 (navio-almirante), Téméraire 74, Modeste 64, Redoubtable 74, Souverain 74, Guerrier 74, Centaure 74.

Obras consultadas:
Allen, Joseph. Battles of the British Navy, Vol. I, p. 199 a 201, London 1852.
Beatson, Robert. Naval and Military Memoirs of Great Britain, vol. II, p. 315 a 318, London 1804.
Cunat, Charles Marie. L’Histoire du balli de Suffren, p. 28 a 31, Rennes 1852.
Guérin, Léon. Histoire Maritime de la France, Vol IV, p. 367 a 371, Paris 1851.
Hervey, Frederick. The Naval History of Great Britain, vol. V, Livro VII (gravura p. 230), London 1779.
Schomberg, Isaac. Naval Chronology of Naval and Maritime Events, Vol I, p. 332 – 333, London 1802.
(publicado na Agenda 5entidos de Agosto)

Sobre a Conferência realizada, umas breves considerações

Não obstante a qualidade técnica e científica da comunicação do arqueólogo Francisco Alves, sobre o espólio do Océan e os trabalhos realizados nos destroços do navio almirante francês, bem como sobre os navios de linha do período em apreço, o tema mais interessante, para mim, foi abordado por Maria Luísa Blot. Porém, quer porque uma simples palestra não permitiria aprofundar as várias questões, quer porque a distinta investigadora não se preparou suficientemente, a sua comunicação ficou muito aquém daquilo que eu esperava.
A tónica dessa comunicação, no que concerne à Batalha de Lagos, centrou-se na violação das águas neutrais portuguesas por parte da esquadra inglesa. Tónica incipiente para centrar uma comunicação sobre esta batalha.
Aflorada, numa simples referência, a hipótese de deserção de mais de metade da frota francesa não mereceu maior atenção, domage. A este respeito muito havia a debater, nomeadamente: Porque é que os capitães de Jean-François de la Clue não gostavam do seu comandante? Seria interessante explorar a ideia da razão que imperou à aparelhagem inicial de alguns dos navios que, depois, vieram a integrar a frota de La Clue. Será que os seus capitães/armadores esperavam partir rumo às américas em busca de proveitos pecuniários, ainda que aí aceitassem defrontar os ingleses; e ficado irritados por terem de integrar o plano de Bigot de Morogues para a campanha naval que pretendia levar a guerra à casa dos ingleses?
Pois porque é que, na noite de 17 de Agosto, desapareceram 8 navios sem razões fundamentadas para isso o que leva de la Clue ao protesto:“Seja por cobardia, seja por ignorância imperdoável, ou por uma fatalidade incompreensível, os capitães do Fantasque, do Lion, do Triton, do Fier e do Oriflame cuja posição era no centro da esquadra, bem como os capitães das três fragatas (cujo objectivo seria nunca perderem de vista o navio chefe), separaram-se da esquadra a meio de uma noite de Verão, em que não se verificava uma escuridão total, levados por um vento de Este (nunca violento no estreito canal), e sem que qualquer incidente atmosférico justificasse tal separação.” (da Carta de M. de La Clue a M. le comte de Merle, embaixador em Lisboa, datada de Lagos, 18 de Agosto de 1759). Segundo Cunat, Charles Marie, em L’Histoire du Bailli de Suffren, p. 28 a 31, Rennes 1852.
Esta carta, que não refere a “deserção” de Panat (Le Souverin) e Rochemore (Le Guerrier), ocorrida posteriormente, aponta para a extensão da Batalha para o dia seguinte, ao contrário do afirmado por alguns até há anos atrás (entre estes o próprio Francisco Alves), que a Batalha tinha ocorrido a 18 de Agosto.
Ainda segundo o biógrafo do M. de Suffren, o Ministro da Marinha M. Berryer pretendeu levar a Tribunal de Guerra todos os capitães de M. de la Clue. Não o terá feito para não criar atritos com a nobreza da Provença, à qual pertenciam esses capitães, bem como com a oficialidade geral da marinha de guerra francesa.
Por outro lado, verifiquei uma confusão estabelecida entre o Cabo de Santa Maria e o Cabo de S. Vicente, sugerindo a senhora, que as esquadras em conflito teriam cruzado Sagres e regressado à costa Sul algarvia, o que não é verdade, pois o Cabo de Santa Maria onde a Batalha se iniciou refere-se, como é óbvio, a Santa Maria de Faro. Também o desconhecimento da referência ao navio Kernosprit, citado, pelo menos, em duas fontes francesas (sendo uma delas a Histoire Maritime de la France, de Léon Guérin), decepcionou-me, ainda que a senhora tenha confessado não conhecer a biografia do Bailio de Suffren – que veio a ser um dos mais hábeis almirantes franceses -, embora o soubesse Tenente a bordo do Océan durante esta batalha. Seria interessante tentar determinar a que navio se referiam essas fontes quando o identificam como o navio para onde Boscawen se transferiu quando o navio almirante Namur ficou seriamente danificado. Ora o almirante inglês transferiu-se para o Newark, como consta nas fontes inglesas e nalgumas francesas.
E sobre as razões que terão levado os Ingleses a não respeitarem a neutralidade das águas portuguesas, deixo estas reflexões:
1 – É objectivo maior da armada inglesa, evitar, a todo o custo, a invasão das Ilhas britânicas por parte dos franceses.
2 – Que neutralidade? A Guerra dos Sete Anos foi um conjunto de conflitos internacionais decorridos entre 1756 e 1763, envolvendo, de um lado, a França, a Áustria e seus aliados (Saxónia, Rússia, Suécia e Espanha), e do outro a Inglaterra, Portugal, a Prússia e o principado de Hannover.
3 – Desforra de todos os recentes insucessos nas escaramuças navais ocorridas nos mares europeus e desforra também da Batalha de 1693 em que de Tourville infligiu pesada derrota a George Rooke, exactamente nos mesmos mares algarvios.
E sobre as razões que levam os portugueses a não prestarem apoio aos franceses, avento o seguinte:
1 – Portugal é um estado neutral, ou o veemente protesto do governo de Sua Majestade D. José I, junto da Inglaterra, redigido pelo punho do Conde de Oeiras, futuro Marquês de Pombal, não terá passado de manobra para “francês ver” (?!).
2 – As baterias de costa portuguesas estariam em condições de fazer fogo?
Estes são apenas alguns aspectos do conflito que teve como líderes Sir Edward Boscawen e Jean-François de Bertet de La Clue-Sabran, que ficam, ainda, sem resposta.

Nota interessante aqui

muita azáfama, pouco tempo para os blogues

Azáfama do trabalho e dos passeios em barco à vela. Este é o meu ano da Vela, e está quase a terminar. Como se não bastasse, decidi alterar os hábitos de consumo de drogas. Abandonei os fumos e passei para as pastilhas. A paciência não é muita para a escrita solta. Mantém-se a disciplina de escrever um pouco dos contos, mais nada. Em Setembro, com as chuvas e os cogumelos voltará a escrita em salpicos.
;p




Je m'accuse!

Acuso-me de viver o presente imediato, de olhos revirados para as “grandiosidades” do passado, suspenso nas memórias da saudade, desinteressado no amanhã.
Acuso-me de pertencer a um povo que alargou o mundo mas não promoveu qualquer “encontro de civilizações”, relegando-se para o papel de moço de fretes no transporte de mercadorias. Um povo que aspirou a um Império geográfico e sucumbiu no analfabetismo, hoje, na iliteracia.
Acuso-me de aguardar a salvação sebastianista, achando, por isso, inútil participar em qualquer esforço, singular ou colectivo.
Acuso-me de praticar a indolência atribuída ao psicossomatismo mediterrânico (alimentação, clima, etc), folgando amiúde, fazendo gaifonas ao esforço colectivo, rindo-me dos que trabalham.
Acuso-me de ter herdado e preservado a cultura judaico-cristã de feição católica, nomeadamente nos seus cultos da resignação e da divina providência, postulados que adiam as soluções imediatas para os maiores problemas dos desamparados, remetendo-os para posterior compensação no domínio divino.
Acuso-me de me ter alheado dos problemas da sociedade negligenciando a crítica aos actos daqueles que elegi, levianamente, sem inquirir das suas capacidades e honestidade.
Acuso-me de atribuir os maus resultados da minha prestação, como cidadão, à crise económica mundial, à situação geográfica periférica do país, e ao aquecimento global.
Acuso-me de oferecer resistência à mudança. A qualquer mudança.
Acuso-me de não denunciar o gatuno do bairro, o político desonesto, o director corrupto.
Acuso-me de pactuar com a falsa instrução e a falsa educação, implementadas pelas dinâmicas, ditas, reformistas.
Acuso-me de respeitar a opinião, qualquer opinião por mais absurda que seja, e ignorar a Razão.
Acuso-me da prática da arrogância do impoluto que, cinicamente, recusa o diálogo escondendo-se num silêncio de sábio insolente.
Acuso-me de dialogar apenas com as chávenas de café e os companheiros de esplanada, excelentes tribunos, autistas como eu.
Acuso-me de não saber o nome de todos os jogadores da equipa do meu clube, que não me lembro agora se é o Benfica, o Sporting ou o Porto.
Acuso-me de aceitar a deturpação da Justiça e invocar a Verdade, a minha verdade, como valor supremo.
Acuso-me de tudo. Sou culpado!

- Diz-me espelho meu, haverá algum português mais português do que eu?

Leitura recomendada: “Pantagruel”, de Rabelais

cogumelos com novilho e abacate

(esta foto, tirada daqui)



Shitake com ganso de novilho
condimentado com pimenta preta
guarnecido com abacate com mel

Estava bom!

cogumelos shitake frescos
gansos de novilho a frigir num fio de óleo
os "gansos" e a pêra-abacate

salteando os shitake
et voilá!

mais uma cervejita preta para deslizar!
;d

não um utensílio, mas um fim

O homem, segundo Confúcio*, não é um utensílio mas um fim. Os objectivos de prosperidade não deveriam polarizar todas as motivações. Confúcio vê no bem-estar material uma simples etapa que permite ascender à educação total do homem. Muitos governos estão ainda hipnotizados por uma educação para a produtividade, ao passo que seria necessário pensar uma produtividade para a educação.

Pe. Charbonnier - “La Chine sans muraille”

Independentemente das manipulações dos ensinamentos atribuídos a Confúcio (quer por capitalistas como por comunistas), esta acepção do Padre Charbonnier parece-me, na sua simplicidade, profundamente acertada. Mas, como já poucos reflectem com sinceridade, as coisas e o mundo flutuam num caldo virtual de problemas, relações e equações ilusórias. A armadilha fecha-se.


*Kong fuzi ou seja, o mestre Kong, de seu verdadeiro nome Kong Qin.

Dorme Bobi, dorme

Os miúdos ouviram-nos ganir no contentor do lixo e levaram para casa os quatro cachorros, ainda de olhos fechados. No mesmo dia, distribuíram-nos pelos amigos. Fiquei com um macho, o único que viria a sobreviver. Calhou-me criar o Bobi. Os biberões, as limpezas e os mimos, o levantar da noite e do sono, de duas em duas horas, durante as primeiras semanas…
E o Bobi foi vencendo as poucas probabilidades de sobreviver. Cresceu e tornou-se num amigo simpático.Guardava o lar com o seu ladrar irritante, era paciente com os miúdos e, como muitos outros da sua espécie, adorava bolachas.
Gosto de escrever, mas deixo o resto das memórias do Bobi entregue às imagens.
O Bobi adormeceu hoje, para sempre.
Dorme Bobi, dorme.
Bobi "O Leão das Estepes"

Bobi "O Cão que ri"
Bobi "o cãocrodilo"
Bobi "o cãolifante"
Bobi...bolachinha, bolachinha?
Bobi e Gabi

Bobi "o sorrateiro"

BOBI (1995 - 2009)
.
Koniec

A Virgem Margarida



Só hoje tomei conhecimento desta notícia publicada no Correio da Manhã de 29 de Abril, da qual transcrevo um excerto e comento seguidamente.

«Margarida Menezes tem 26 anos e é virgem por convicção. Recusa ter relações sexuais de uma noite, uma semana ou de um mês. À espera do príncipe encantado, Margarida criou o Clube das Virgens mas lamenta que durante mais de um ano não tenham surgido sócias. “Agora, o meu desejo é que as sócias finalmente apareçam.” Até agora, apenas recebeu mensagens de virgens anónimas e até de homens que assumiram a sua virgindade. “Respondi-lhes que não podia aceitá-los porque a minha ideia era só para as mulheres”, esclareceu. Margarida deu o primeiro beijo na boca aos 22 anos, mas a relação com o Paulo não durou um mês. Curiosamente, diz que o desejo dos homens em possuir uma mulher virgem é um falso mito. “Sinto que até se afastam quando lhes digo que sou virgem”, revela Margarida.
Continua virgem porque é muito romântica. “Também por falta de sorte. Ainda não conheci o meu príncipe encantado que virá num cavalo branco”, confessa.»


«Recusa ter relações sexuais de uma noite, uma semana ou de um mês» – Caramba, ninguém disse à rapariga que as relações sexuais não duram tanto tempo?
«criou o Clube das Virgens mas lamenta que…não tenham surgido sócias» - Pois, as sócias não têm tempo para essas coisas, andam ocupadas perdendo a virgindade e confirmando-o repetidamente, incrédulas.
«deu o primeiro beijo na boca aos 22 anos, mas a relação com o Paulo não durou um mês» - Tava-se mesmo a ver que o desgraçado ia aguentar muito mais tempo como se fosse um S.Paulo feito de pau e não um Paulo de pau feito.
«o desejo dos homens em possuir uma mulher virgem é um falso mito. “Sinto que até se afastam quando lhes digo que sou virgem”» – E estavas à espera de quê? Uns devem achar que és portadora de H1N1, outros que terás algum problema psicológico e os últimos encaram a tarefa defenestrativa com pouco entusiasmo porque dá mais trabalho do que prazer, ainda por cima tratando-se de hímen calcificado pelo tempo.
«À espera do príncipe encantado…» – Oh rapariga, abre os olhos, os príncipes encantados são quase todos gay’s, isso vê-se logo num gajo vestido com colants e sorriso pepsodent montado num cavalo branco!

Olha, nem sei que te diga.
Parabéns! Continua assim?!

PS – Já consideraste a hipótese do Convento?

sobre o blogue Mesa-Redonda

Considerando as explicações prestadas pelo "mesa-redonda", suficientemente convincentes, removo o post que deu origem ao mail que me foi enviado.


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Como não percebo o alcance da lamúria postada, episodicamente, no mesa-redonda, em que o seu autor se insurge contra perseguições movidas pelo poder a pessoa(s) desse blogue, volto a deixar em modo "público" as considerações e mensagens que sobre esse blogue anónimo inseri aqui no claustro fobias. E aqui ficam, porque não é claro que não exista manobra de incriminação por parte dos verdadeiros autores da "mesa" sobre a minha pessoa. Aproveito para lhes desejar Boas Festas, já que deixei de os visitar desde finais de Outubro.

2009.11.26

Carta aberta ao blogue mesa-redonda

Caros bloguistas do Mesa-Redonda.
Já que estou bloqueado no Haloscan (outra vez) - não que me faça qualquer diferença até porque se só o descobri agora, isso revela que o meu interesse em comentar na mesa-redonda é escasso – então sejam coerentes e removam as ligações ao meu site e ao meu blogue, ainda que isso possa intensificar a suspeita de terceiros sobre o meu envolvimento na mesa-redonda, coisa que, me parece, vocês têm promovido sub-repticiamente ao longo dos tempos (enquanto as atenções estão viradas para fulano ou beltrano não estarão para o alvo certo?!). Enfim, seja isso ou não, pouco me importa. É verdade que poderia aceder ao vosso blogue a partir de outro PC mas não costumo fazê-lo. Não tenho de o fazer. Só descobri que estava bloqueado, alertado pelo asinino que criou um tal "nuninho&nunetes" e que aí me identifica como proprietário do Mesa-Redonda. Tentando responder a esse brincalhão deparei com o bloqueio. Até foi melhor assim. Querendo dizer alguma coisa, fá-lo-ei daqui, do meu claustro.
Tenho, como alguns concidadãos nossos, suspeitas sobre a vossa identidade. Porém, não a tenho partilhado com outros, achando piada, até, à irritação que o vosso anonimato provoca em certos meios. O que digo acerca das pessoas da mesa-redonda é o que sempre disse, afirmações vagas que nunca comprometeram ninguém. Até porque, na verdade, e objectivamente falando, não conheço a vossa identidade. Nunca participei em nenhuma actividade vossa, e não trocámos mais do que duas ou três mensagens versando a vossa utilização (a não utilização!), de fotos retiradas do meu site.
Termino, esclarecendo, para vossa tranquilidade, que não estou minimamente chateado com vocês. Não sei porque me bloquearam, até porque já faz bastante tempo que não insiro qualquer comentário na vossa “menza”.
Ficarei a pensar que temem que vá por lá comentar desabridamente, e denunciante, sentindo-me assustado ou incomodado por alguns acólitos do poder desconfiarem que integro o Mesa-Redonda? Ora, meus caros, aos que transformam tais suspeitas em convicções mando apanhar no cu, que é afinal de contas o mesmo tratamento que tenho recebido quando me meto na alquimia das suposições/convicções.
Saúde.

………………………………………………………………………………….
Interessante questão levantada no blogue local da “má-língua” , num comentário a este post, convidando ao debate. Quer-me parecer que, ali, nenhum debate frutificará, como é hábito, pelo que respondo aqui no meu espaço (até porque estou bloqueado lá na “má-língua”, impedido, e muito bem, de opinar).
Pergunta o senhor “Intruso”: - Qual o impacto em termos de desenvolvimento económico, social, cultural, tecnológico que as rotundas tiveram no concelho de Lagos?

Assim de repente ocorrem-me estes factores:
Impacto económico: poupança em semáforos e energia eléctrica;
Impacto social: imobiliza os condutores alcoolizados e distrai os restantes das “diversões” da administração substituindo-as pela bem mais interessante “vertigem das rotundas”;
Impacto cultural: glorifica rotundamente os seios femininos, símbolo destacado da continuidade da raça humana;
Impacto tecnológico: promove a aquisição de amortecedores hi-tech para os automóveis e melhora a performance dos lacobrigenses nas curvas.
Assim de repente, é o que se me oferece dizer.
Vª Exª porém, decidirá.

;b

"The End" ou "Koniec" - Um suspiro no final da fita


Imperativos profissionais têm-me proporcionado, ao longo dos últimos 15 anos, o contacto com várias figuras públicas, apesar de desenvolver a minha actividade num cantinho de província, já de si, periférica. Faço-lhes o “boneco”, quer dizer, registo imagens de variadas situações envolvendo essas figuras. São, frequentemente, gente da política e do mundo do espectáculo, por vezes gente ligada às artes ou à cultura em geral, gente que costuma aparecer nas televisões.
É notório que, muitas vezes, a figura que vemos na TV não corresponde à pessoa “ao vivo”. Umas vezes decepcionam, outras surpreendem mas, quase sempre são diferentes daquilo que a TV revela. Raro, é a pessoa de carne o osso corresponder exactamente àquilo que a televisão nos mostra. Mas era assim com aquele senhor, sobejamente conhecido como o maior divulgador da Banda Desenhada e do Cinema de Animação – esse era exactamente o nome do seu programa televisivo que, notícias preocupantes, indicam ter sido substancialmente “apagado” dos arquivos da RTP.
Ao cabo de centenas de horas a vê-lo do lado de lá do ecrã, sorridente e simpático, tratando os espectadores por “amiguinhos”, chegou o dia de o conhecer pessoalmente.
Aconteceu no Cine – Teatro Império, em finais dos anos 70, num evento relacionado com Cinema de Animação. Acompanhava-me o meu colega de escola Henrique Carreiro e, no final da apresentação, abordámos o senhor. Movia-nos não só a emoção do contacto real com a personagem saída do ecrã mas, também, colocar algumas questões sobre publicação de B.D, pois por esse tempo ensaiávamos uma história de quadrinhos. E fomos recebidos com o habitual sorriso e uma inequívoca atenção. Foi uma breve conversa da qual já nem recordo todos os pormenores. Mas não esqueci a cordialidade e a simplicidade que aquele Senhor transmitia. Faleceu, hoje. Enriqueceu-nos com a sua passagem pela vida, relembro a animação dos países de Leste, sobretudo dos polacos, das personagens hilariantes de Tex Avery e muito especialmente o trabalho inovador do canadiano Norman McLaren, talvez um dos maiores contribuidores para a valorização da Animação como Arte.
Obrigado, Vasco Granja.

O Fado já não manda em Portugal...

Começo por dizer que até gosto de Fado, mas, felizmente, o Humor vai destronando a melancolia e o luto da expressão vocal maior do nacionalismo português. Para isso basta ligar a TV e assistir aos telejornais.
O Tribunal da Lousã foi assaltado e foram queimados vários processos. O Juiz presidente diz que é impossível saber o que foi destruído, mas o Ministério Público diz que vai fazer um inquérito e determinar o que ardeu. Pergunto, como é que vão fazer esse inventário?

A Pirataria não é penalizável?



A Fragata portuguesa Corte Real capturou 19 piratas mas libertou-os pouco depois (certamente não eram piratas como a da imagem), supostamente, porque o Código Penal Português não prevê a pirataria?! Ora, se a pirataria não é penalizável, isso quer dizer que não estamos a salvo dela quando navegamos nas nossas águas territoriais?
Mas então a fragata não está integrada numa esquadra da NATO que deve reger-se por regras internacionais e especiais? Então cada um dos navios de diferente nacionalidade exerce as suas funções de acordo com a legislação do seu país de origem? E, se as leis portuguesas não permitem deter os piratas, que leis permitiram apreender-lhes as armas?
Sinceramente, não compreendo qual é o papel da esquadra da NATO naquela área do mundo, nem qual o papel da unidade portuguesa. Se a operacionalidade está dependente de uma questão de leis, desenterre-se o “código penal” do séc. XV e envie-se Afonso de Albuquerque para resolver os problemas da pirataria.
É evidente que estou a ironizar. Os marinheiros portugueses limitaram-se a agir de acordo com país faz-de-conta que representam. E nós bem sabemos que a pirataria deixou, há muito, de ser penalizada. Veja-se o que acontece aos piratas engravatados que nos saqueiam todos os dias: Nada!

Eu, então, se deito as mãos a uma pirata destas, assalto-lhe o baú!!!

Reflexões ímpias

“É muita areia para a minha camioneta”, ou para a camioneta de qualquer um. É o que é um computador. Uma porção de grãos de areia (sílica), magistralmente ordenados e conectados com outras tantas porções de alumínio, cobre, estanho, ferro… Enfim, um ridículo repositório de minerais conversando uns com os outros através de zeros e uns que nada significam mas que, simultaneamente, estão tão próximos do segredo do Universo. E tal como Deus, o computador resulta da intuição de seres abjectamente imperfeitos.

Para ler nas férias... grandes.



O VOLP - Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, apresenta a grafia de 349.737 palavras, em 976 páginas e é o resultado, do lado brasileiro, do célebre Acordo Ortográfico em que «para se "simplificar" a ortografia, atentou-se contra a etimologia e "complicou-se" a compreensão...». Uma tragédia “literária” certamente repleta de barbaridades ortográficas.

Portugal - trespasse ou aluguer?

...
Estamos Falidos! Estamos Falidos! Gritou desesperado o 1º Ministro, amparando a cabeça nas mãos e lançando-se precipitadamente para o extremo oposto da sala, acotovelando as cabeças dos restantes ministros, ainda sentados em torno da mesa governamental.
- Porque é que não me disseram nada? - Porque é que sou sempre o último a saber?
Santos Silva, já em pé, faz-lhe gestos para se acalmar, enquanto Manuel Pinho se raspa sub-repticiamente, valendo-se da sua conveniente estatura. Na mão, no saco do portátil, os calções e a toalha de banho esclareceriam o atónito contínuo que ainda o ouve gritar para o choffeur, enquanto desaparece na curva do corredor, “- Para o Allgarve, rápido!”.
Quem é que tem dinheiro? Quem é que tem dinheiro? Repete incessantemente Teixeira dos Santos, voltando-se ora para a esquerda ora para a outra esquerda, desorientado. A resposta deu-a Luís Amado: - Os chineses! Os chineses é que têm a massa!
Jaime Silva piscou o olho a Silva Pereira e rematou em voz baixa, apenas para o ministro da presidência ouvir: - Já sei! Alugamos isto aos chineses. Um país-loja. Uma enorme loja para fornecer a Europa. Até podíamos colocar uma lanterna gigante pendurada no Cristo-Rei…
Com a cara entre as mãos, Sócrates, sentado no chão, ao canto da sala, chora compulsivamente marcando, com a cabeça na parede, um compasso ternário (muito mal marcado, diga-se em abono da verdade).
Da rua, da multidão gigantesca, sobe um clamor de contrabaixo de onde escapam frases de ordem mais estridentes, depressa engolidas no bramido profundo da turba que afoga esses gritos mais agudos que ciclicamente repetem: - À MORTE! - À MORTE! Misturadas com incontáveis e inspiradas invectivas dirigidas aos governantes.
Nuno Teixeira, lívido, de olhar vidrado e fixo num ponto da parede oposta ao lugar que ocupa, não proferira uma palavra nem ousara um único gesto, desde o início da reunião. Enquanto Rui Pereira se desfaz em contactos telefónicos com os comandos policiais - de há muito expulsos das ruas pelo milhão de pessoas que marcham pelas ruas da capital -, Alberto Costa e Mário Lino entreolham-se apreensivos. Os outros não estão lá. Uns porque ficaram retidos nos afazeres oficiais onde foram surpreendidos pela revolta popular, outros porque apanhados pela turba e, praticamente, linchados na via pública. A coitada da Lurdes Rodrigues safou-se apenas com uns bofetões criteriosamente aplicados por uma jovem licenciada em psicologia que a reconheceu à saída do restaurante onde almoçara com dirigentes sindicais – que também levaram uns tabefes e umas biqueiradas no recto, especialmente os que não conseguiram esquivar-se à bota pontiaguda de um chulo de Xabregas com contas por ajustar com polícias, políticos ou, na ausência destes, dirigentes sindicais que, no seu entender, servem muito bem para o “desopilar do fígado”.
Voam vidros em estilhaços e alguns polícias já praticamente à paisana, e au naturel, aprendem também os princípios do voo curto planado, rasante às cabeças atarantadas da extensa mole humana que ocupa todo o espaço visível. Os edifícios, transformados em ilhas, porque rodeados por um imenso oceano de gente, coisa como nunca se vira antes numa cidade, exibem os seus habitantes, debruçados nas varandas ou espreitando por cada buraco de portada ou janela. Lisboa revolta-se, Lisboa assiste, Lisboa existe.
Em desespero, na eminência do assalto final, o ministro telefonista tecla o número da embaixada chinesa em Lisboa e, na pausa da chamada, ausculta os seus pares: - Trespasse ou aluguer?

...

ultrapassado

É assustador como as coisas ficam rapidamente ultrapassadas, fora de moda e, sobretudo, funcionalmente obsoletas. Sabem do que falo. De tudo. Dos computadores e telemóveis até aos hábitos quotidianos, passando pelas rodas dos skates, o frango de churrasco e o arroz doce. Vem isto a propósito da imagem de frontispício deste blogue acusar, também, uma notória decadência estética, a julgar por esta outra que encontrei na net, enquanto procurava contributos para auxiliar um amigo. Agora tenho de encomendar um novo trabalho de gravação a cinzel. É assim, um tipo não pode descuidar-se. Há que andar atento às novidades.



A evolução recente dos hábitos...

«Epa tenho que apresentar o trabalho de ÿÿÿÿÿÿÿÿ disciplina de £??H precisava que me arranjasses q` imagens sobre hábitos ÐÏ à¡±á > þÿ [1] £¥ þÿÿÿ¡¢ÿÿÿÿÿ ÿÿÿÿÿÿ ÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿ ÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿ ÿÿÿÿÿÿÿÿ ÿÿÿÿ ÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿ ÿÿÿ ÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿ ÿÿÿÿÿÿÿ ÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿ ÿÿÿÿÿÿÿ ÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿ ÿÿÿÿÿÿÿÿÿ ÿÿÿÿÿ ÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿ ÿ ÿÿÿÿÿÿÿ ÿÿÿÿÿÿÿÿ ÿÿÿÿ ÿÿÿì¥Áq` ð ¿ »
.
Eu sou um tipo diligente quando se trata de ajudar os amigos. Tendo recebido este mail com mensagem truncada e não sendo clara a natureza dos hábitos solicitados assumi que, melhor do que nada, o meu amigo podia apresentar um trabalho sobre qualquer coisa. Mandei-lhe este.






alea jacta est


«O homem agarra no cornu (trompa) de um legionário, e começa a caminhar rumo ao Rubicão, a tocar numa cadência arrebatadora. Passa à outra margem do rio, continua a tocar entre as árvores. É preciso eternizar este instante. César avança sobre a pequena ponte. A cada passo sente o peito a abrir-se, o corpo a lançar-se adiante.— Vamos onde nos chamam os sinais dos deuses e a injustiça de nossos inimigos! Alea jacta est! A sorte está lançada!»






Covardes morrem antes de morrer:
O sábio vive a morte uma só vez.
De tudo o que é estranho, e que já vi,
O mais estranho é o homem a temer,
Enquanto a morte, o necessário fim,
Vem ser só o não ser.

— Shakespeare,
Júlio César, II, II

COZINHA PORTUGUESA DO SÉCULO XV - GALINHA MOURISCA


Cortar aos bocados uma galinha gorda, levar ao fogo brando, com duas colheres de sopa de banha, algumas fatias de toucinho e um pouco de salsa, umas folhinhas de hortelã, sal e uma cebola bem grande.
Abafar e deixar dourar, mexendo de vez em quando. Cobrir a galinha com água suficiente para cozê-la. Estando quase cozida, juntar cebola verde, salsa, açafrão e hortelã, picando tudo bem miudinho e deitar na panela. Logo que a galinha esteja cozida, juntar quatro gemas de ovo batidas. Numa travessa funda, forrada com fatias de pão, despejar por cima a galinha.


foi tango



Não sei bem porque gosto de ouvir Tango. Não sei porque gosto mais de ver Tango do que qualquer outro espectáculo dançado. Sei que para além da sensualidade da dança e da música deliciosamente dramática, há mais qualquer coisa misteriosa, ou pelo menos intrigante. Será porque há ali uma perfeita comunhão entre a música e a dança? E quando os movimentos atingem um ritmo quase alucinante e nós, espectadores, começamos a torcer por um desenlace feliz?! Por vezes, até me esqueço de fotografar. O tango é porreiro.

O ditador... a SIC, e os espectadores

Artigo resultante de troca de comentários num post do blogue portugal dos pequeninos publicado no canallagos, revisto, e republicado aqui.

O ditador, a amiga, a francesa, a quiromante, a afilhada, a governanta, a outra mais nova, o choffeur, a condessa, o cardeal… a SIC, e os espectadores portugueses.

Vi a Soraia Chavez a seduzir Salazar e este a alternar entre uma pronúncia axim e outra assim. Vinguei-me! A SIC vingou-me daqueles meus amigos que dizem já ter visto um porco andar de bicicleta e que portanto já viram tudo. E como eu não vi tal façanha porcina…

Entretanto, arde a blogosfera em escritos incendiários, evocativos e explicativos do “porque Salazar faz falta”. Inflama-se lançando o anátema sobre a SIC que ousa vulgarizar a imagem do “grande estadista” que, no dizer de alguns: “governou uma nação pluri-continental do tamanho da Europa e consta que morreu pobre e nunca se deixou manipular pelos banqueiros ou plutocratas”; “Salazar ficou e está na História como um político de categoria mundial, um professor catedrático de finanças com obra publicada e realizada e um pensador político e social com muita actualidade”.

Um outro bloguista parece gritar até à rouquidão: “QUANTO MAIS TENTAREM DESVALORIZAR, O GRANDE ESTADISTA E PORTUGUES, MAIS O ELEVAM A UMA CATEGORIA SUPERIOR....PORQUE ELE ERA MESMO SUPERIOR. CHOCAR-ME-IA SE ELE GOSTASSE DE HOMENS, AGORA UM HOMEM COM H GRANDE GOSTA SEMPRE DO BELO, DO FEMININO, NADA DE CONFUSÕES. BEM TENTAM ESTES GANGS DENEGRIR ESSE GRANDE FILHO QUE A NAÇÃO NOS DEU.”

E a coisa segue, num coro rameloso: “Quando se começar a analisar a vida íntima destes hominídeos que tentam desesperadamente diminuir e achincalhar Salazar, então é o bonito!” e “Salazar foi o maior estadista do século XX, basta ler um pouco sobre o Estado Novo. É evidente, que para os malfeitores que nos governam, sentem necessidade de diminuir a grandiosidade de Salazar, é que se o povo começar a comparar vai perceber que anda a ser roubado desde o 25 de Abril.”

E eu discorro, placidamente (que estas coisas já não me revoltam): Pois, o povo anda a ser roubado mas não é apenas desde o 25 de Abril. Sem retornar ao Alentejo dos anos 50 e às campanhas do trigo que deixavam com fome quem nelas trabalhava, (assim mo diz a minha mãe, por experiência própria), fico-me pelo que vi em finais dos anos 60 e inícios dos 70: o povo que trabalhava nas fábricas da Indústria Conserveira, 12 ou 14 horas por dia, para receber um salário de miséria. Eu sei, porque estava lá. Já nessa altura alguém andava a roubar o povo, ou não?

Desgraçado país, este, em que, esquecida a ética e abandonados os valores do humanismo elementar no exercício da política, se recorre à evocação e se tenta recuperar a memória de um homem vulgar que só foi grande no autoritarismo a que submeteu o seu povo. Recatado, simples, honesto com o erário público? Pouco me interessa e nem discuto, aceitando por verdadeiro. E o resto? Quantos morreram e quantos viram as suas vidas trucidadas em nome de um ideal pátrio imperial e anacrónico – para meados do séc. XX – fundado em teorias patéticas como o lusotropicalismo?

Quanto custou a este país o imobilismo do Estado Novo, a proibição do liberalismo económico, o proteccionismo dispensado a meia dúzia de oligarcas, o cerceamento da iniciativa privada, o adiamento da construção de um estado moderno?

A História não se repete, ciclicamente, como se tal estivesse inscrito num fado predeterminado pela divindade. Somos nós que repetimos os erros e, dessa forma, andamos às voltas em vez de avançar. E é um erro avaliar os políticos de hoje – mesmo que estes sejam péssimos, como são –, pela bitola de um ditadorzeco que só não deve ser esquecido porque devemos evitar repetir o erro de adoptar outra figura paternalista como o Dr. Salazar.

Entendo o desespero de quem não encontra na nossa história contemporânea, nem na praça pública de hoje, uma figura carismática, honesta e protectora (ao ponto de nos resolver todos os problemas; exorcizar os medos, proteger do vizinho do lado, do chefe, do drogado, do ladrão e do patrão), que sirva de modelo. Mas a essência da Democracia é assim, dispensa tutores e clama à participação de cada cidadão. Sem participação cívica e política resta-nos o regresso cíclico e errático à ilusão salazarista… ou sebastianista para os que sintam pudor em identificar-se com o Don Juan de Santa Comba Dão.

Quanto à produção da SIC, não merece mais do que um gracejo: Bem pode navegar na corrente da metaficção historiográfica, um sucedâneo de pós-modernismo que postula (numa das pronúncias videográficas do paizinho da nação): “Não foi axim, mas podia ter xido!”.