reflexões
«Cada vez mais se investe em drogas para a super-potência sexual do homem e em silicone para os seios femininos. Esse investimento é muito maior do que o da investigação e tratamento da doença de Alzheimer. Daqui a uns anos teremos velhos de pau feito e velhas de seios enormes e erectos, mas nenhum deles se lembrará para que serve tudo isso.»
Alcofar Faísca
Alcofar Faísca
o horror económico
«[...] Sobretudo, atravessámos uma revolução sem disso nos apercebermos. Uma revolução radical, muda, sem teorias declaradas, sem ideologias confessadas; impôs-se nos factos silenciosamente estabelecidos, sem nenhuma declaração, sem comentários, sem o mínimo sinal de aviso. Factos instalados em silêncio na História e nos nossos cenários. A força desse movimento é justamente ter surgido já consumado e depois de ter sabido prevenir e paralisar antecipadamente qualquer reacção contrária.
Deste modo, a canga dos mercados conseguiu envolver-nos como uma segunda pele, considerada mais adequada que a do nosso próprio corpo.
Assim, já não deploramos, por exemplo, o subpagamento dessa mão-de-obra sobreexplorada em países de miséria, colonizados, entre outras coisas, pela dívida externa; deploramos o subemprego que isso provoca nas nossas regiões e quase invejamos esses desgraçados, na realidade reconduzidos, confinados em condições sociais escandalosas – que nós nem desconhecemos, mas a nossa aquiescência não tem limites!
(…)
E depois, esse dinheiro que escasseia afinal existe! Repartido de uma forma muito peculiar, mas existe. Não insistiremos, seria “pouco correcto”. Trata-se apenas de um simples reparo – de passagem, e a correr...
Há que respeitar acima de tudo o princípio essencial: não perturbar a opinião pública. Não perturbar o seu silêncio. Esse silêncio que ninguém percebe como foi obtido. [...]»
Viviane Forrester
Deste modo, a canga dos mercados conseguiu envolver-nos como uma segunda pele, considerada mais adequada que a do nosso próprio corpo.
Assim, já não deploramos, por exemplo, o subpagamento dessa mão-de-obra sobreexplorada em países de miséria, colonizados, entre outras coisas, pela dívida externa; deploramos o subemprego que isso provoca nas nossas regiões e quase invejamos esses desgraçados, na realidade reconduzidos, confinados em condições sociais escandalosas – que nós nem desconhecemos, mas a nossa aquiescência não tem limites!
(…)
E depois, esse dinheiro que escasseia afinal existe! Repartido de uma forma muito peculiar, mas existe. Não insistiremos, seria “pouco correcto”. Trata-se apenas de um simples reparo – de passagem, e a correr...
Há que respeitar acima de tudo o princípio essencial: não perturbar a opinião pública. Não perturbar o seu silêncio. Esse silêncio que ninguém percebe como foi obtido. [...]»
Viviane Forrester
[in O Horror Económico: Lisboa, trad. Ana Barradas, Terramar, 1997]
Selecção de Paulo da Costa Domingos
Picado de Frenesi Livros
Aproveito para referenciar este blogue como um dos poucos que vale a pena ler, quer pela sua qualidade em matéria de crítica literária quer, sobretudo, pela lucidez dos seus autores. Coisa rara na blogosfera, ou demasiado diluída no intenso ruído da Internet.
Selecção de Paulo da Costa Domingos
Picado de Frenesi Livros
Aproveito para referenciar este blogue como um dos poucos que vale a pena ler, quer pela sua qualidade em matéria de crítica literária quer, sobretudo, pela lucidez dos seus autores. Coisa rara na blogosfera, ou demasiado diluída no intenso ruído da Internet.
combates
“(…) É um combate assim o do encontro humano com a realidade a que chamamos amor. Ganhá-lo, recusando-o ou falhando-o é perdê-lo. Perdê-lo perdendo-nos no abandono a um outro é ganhá-lo. De qualquer maneira a única possibilidade que nos é oferecida para quebrar o arco de invencível solidão que é cada homem que não encontrou o amor e não foi vencido por ele.”
Transcrição de manuscrito de Eduardo Lourenço, in LER - Out. 2009
Longo combate, este (o da vida), que opõe Deus ao Amor.
Transcrição de manuscrito de Eduardo Lourenço, in LER - Out. 2009
Longo combate, este (o da vida), que opõe Deus ao Amor.
jogar à carta
Se não se paga uma mensalidade (semestralidade ou anuidade) pela carta de condução, pela carta de marinheiro ou pelo brevet de piloto - mas apenas a taxa da sua renovação -, porque inventaram agora uma mensalidade para a carta de radioamador? A chulagem de serviço, ainda a do PS, não tem imaginação para coisa mais atinada?
Paga taxa, e muito bem, quem tem um equipamento emissor registado e a funcionar. Quem não o tem, não paga, é lógico e honesto. O contrário, que agora entra em vigor, é mais uma chulice da tutela. Se nada me é fornecido, nem bem nem serviço, onde está então a legitimidade de cobrar uma mensalidade pela posse de uma carta de radioperador amador?
O regresso de Faustin
Às vezes deparo com coisas esquecidas, usadas há muito. Sobretudo nos baús do absurdo cultivado nalgum momento de angústia. Mais do que provocar sorrisos, é um nonsense que insiste, doentiamente, alcançar o equilíbrio no fio da navalha.
o Jornalista
“As vírgulas e os pontos finais são pausas na minha escrita... como na música, a escrita é feita de sons e pausas..." Saramago, ao JRS que confrontava o escritor com o seu proverbial desrespeito pelas normas da língua portuguesa (a que o JRS chamou “gramática”, esquecendo o resto). É engraçado como alguém que, amiúde, dá calinadas na oralidade da língua portuguesa, e escreve com pobreza sintáctica, acusa tal falha a Saramago – mas condescendo, presumindo que se trata de retórica jornalística, para extrair resposta que elucide o público.
Este JRS já tinha dado um ar de inépcia ao tentar encostar às cordas o escritor e jornalista Amin Maalouf, com o argumento de que este atribui às Cruzadas a causa primeva para o desentendimento entre cristãos e muçulmanos, quando – segundo JRS – existiram e porfiaram muitos conflitos entre ambas as partes durante mais de meio milénio antes da primeira cruzada. Até confrontou o libanês com uma extensa lista de conflitos que antecederam a conquista de Jerusalém em 1099.
Ora, Maalouf respondeu na entrevista (pelo que presumo que teria sido isso que escrevera, e suscitara o confronto de JRS), que a primeira cruzada foi a grande acha que ateou a fogueira do desentendimento e da inimizade entre as duas civilizações. E eu acrescento o que retiro da História: até então, os conflitos ocorridos inscreveram-se na teia de relações habituais entre os povos mediterrânicos, que sempre registaram períodos alternados de conflitos e acordos, guerras e tréguas, oposições e coalizões. Maalouf tem razão ou, no mínimo, sobre esse aspecto não disse ou escreveu nada de errado.
Às vezes, não sei se ele é mesmo assim, ou se é estratégia de jornalista para permitir ao público iletrado o contacto com outras perspectivas – que não apenas aquelas que ressumam dos rótulos que os críticos, quando não as próprias editoras, colam aos escritores e às suas obras.
Bem diz o Baptista Bastos, que este rapaz tem pouco de escritor, de jornalista ou de pivô.
Este JRS já tinha dado um ar de inépcia ao tentar encostar às cordas o escritor e jornalista Amin Maalouf, com o argumento de que este atribui às Cruzadas a causa primeva para o desentendimento entre cristãos e muçulmanos, quando – segundo JRS – existiram e porfiaram muitos conflitos entre ambas as partes durante mais de meio milénio antes da primeira cruzada. Até confrontou o libanês com uma extensa lista de conflitos que antecederam a conquista de Jerusalém em 1099.
Ora, Maalouf respondeu na entrevista (pelo que presumo que teria sido isso que escrevera, e suscitara o confronto de JRS), que a primeira cruzada foi a grande acha que ateou a fogueira do desentendimento e da inimizade entre as duas civilizações. E eu acrescento o que retiro da História: até então, os conflitos ocorridos inscreveram-se na teia de relações habituais entre os povos mediterrânicos, que sempre registaram períodos alternados de conflitos e acordos, guerras e tréguas, oposições e coalizões. Maalouf tem razão ou, no mínimo, sobre esse aspecto não disse ou escreveu nada de errado.
Às vezes, não sei se ele é mesmo assim, ou se é estratégia de jornalista para permitir ao público iletrado o contacto com outras perspectivas – que não apenas aquelas que ressumam dos rótulos que os críticos, quando não as próprias editoras, colam aos escritores e às suas obras.
Bem diz o Baptista Bastos, que este rapaz tem pouco de escritor, de jornalista ou de pivô.
notas de rodapé - António Sérgio
Morreu hoje a maior voz da rádio portuguesa. Lembro-me dos programas da noite dos anos 80, especialmente do SOM DA FENTE, e da voz grave, poderosa e acelerada de António Sérgio.
Em 1990, aos microfones da Rádio Atlântico Sul, fazia-se ouvir uma voz com um registo muito semelhante à do A. Sérgio. Era um jovem que, hoje, está na 1ª linha da política local. São recordações do tempo da rádio. Do tempo em que jornais e rádios ainda resistiam contra o poder degradante da Televisão.
Que razões teve Jorge de Sena para se zangar com Portugal?
Talvez as mesmas que Saramago e outra dezena de escritores, pensadores e cientistas que, podendo, abandonaram este país de merda, dirigido por crápulas, velhacos e chulos. Faria amanhã 90 anos, se fosse vivo. Vou ver o "Câmara Clara", para saber a resposta.
Em 1990, aos microfones da Rádio Atlântico Sul, fazia-se ouvir uma voz com um registo muito semelhante à do A. Sérgio. Era um jovem que, hoje, está na 1ª linha da política local. São recordações do tempo da rádio. Do tempo em que jornais e rádios ainda resistiam contra o poder degradante da Televisão.
Que razões teve Jorge de Sena para se zangar com Portugal?
Talvez as mesmas que Saramago e outra dezena de escritores, pensadores e cientistas que, podendo, abandonaram este país de merda, dirigido por crápulas, velhacos e chulos. Faria amanhã 90 anos, se fosse vivo. Vou ver o "Câmara Clara", para saber a resposta.
escritas contemporâneas 2

«…a arte da escrita banalizou-se. Hoje, qualquer um que tenha um livro publicado é tido como um “escritor”. E eles nascem por aí como cogumelos. Basta aparecer na televisão, com uma vidinha mais ou menos turbulenta ou escandalosa, e logo dali nasce um “livro”, a vender milhares de exemplares, porque o que interessa aos editores é ganhar dinheiro.
Então, além da proliferação de livros que contam vidinhas e escândalos, os “escritores” da moda, os best-sellers, são os que andam por aí: badalados e mediáticos. A sua sobrevivência depende do mediatismo. Sem esse mediatismo não sobreviveriam. E até há quem fale em “escritores parasitas”, isto é, aqueles que pagam a alguém para escrever livros e depois colhem os louros.»
Do blogue Arco de Almedina
Pois, há por aí produtores de best-sellers que nem têm tempo para escrever os seus livros. Por isso, quando publicam muito, revelam estranhas variações de “estilo” entre uma e outra obra.
E os leitores desatentos nem estranham a produtividade desses autores de “romance à resma”, que sabemos muito ocupados com outros afazeres profissionais no dia-a-dia?!
O que eles produzem não é literatura de qualidade, é dejecto que ocupa, nos escaparates, o lugar da verdadeira literatura. É apenas papel estampado com motivos recreativos. Não é Literatura, não é ARTE!
A literatura pode ser, também, recreação e diversão, mas não pode ser apenas isso.
E porque acontece isto? Porque quem define o mercado e constrói os best-sellers é a carneirada que lambe das prateleiras dos hipermercados tudo aquilo que o marketing dos livreiros produz. E estes só têm um objectivo: vender muito papel estampado.
Eu escrevo, mas não sou, nem ambiciono ser, escritor. Escrevo para ordenar ideias; por vezes, para me rever no que escrevo como se fosse um espelho, noutras vezes para estabelecer fasquias que deverei superar. Porém, não sendo, nem procurando ser, escritor, agradeço àqueles que sentem vontade de escrever para os outros, e que o fazem a meu gosto.
Dos meus preferidos, eis três escritores portugueses contemporâneos: Hélder Macedo, Miguel Real, Mário Claúdio. Qualquer um deles mete num chinelo os jornalistas-escritores, e outros palhaços da moda literária, produtores de best-sellers. Desses cujas obras estão para a Literatura como a produção da fábrica Disney está para a Banda Desenhada – entretenimento, diversão e… banalidade.
E se há alguns que não se arrogam a mais do que aquilo que são, também há os que ocupam destaques imerecidos – e injustos, para outros que produzem literatura de qualidade.
Não acontece apenas no universo da escrita mas convém não esquecer que, efectivamente, assim acontece na Literatura.
Do blogue Arco de Almedina
Pois, há por aí produtores de best-sellers que nem têm tempo para escrever os seus livros. Por isso, quando publicam muito, revelam estranhas variações de “estilo” entre uma e outra obra.
E os leitores desatentos nem estranham a produtividade desses autores de “romance à resma”, que sabemos muito ocupados com outros afazeres profissionais no dia-a-dia?!
O que eles produzem não é literatura de qualidade, é dejecto que ocupa, nos escaparates, o lugar da verdadeira literatura. É apenas papel estampado com motivos recreativos. Não é Literatura, não é ARTE!
A literatura pode ser, também, recreação e diversão, mas não pode ser apenas isso.
E porque acontece isto? Porque quem define o mercado e constrói os best-sellers é a carneirada que lambe das prateleiras dos hipermercados tudo aquilo que o marketing dos livreiros produz. E estes só têm um objectivo: vender muito papel estampado.
Eu escrevo, mas não sou, nem ambiciono ser, escritor. Escrevo para ordenar ideias; por vezes, para me rever no que escrevo como se fosse um espelho, noutras vezes para estabelecer fasquias que deverei superar. Porém, não sendo, nem procurando ser, escritor, agradeço àqueles que sentem vontade de escrever para os outros, e que o fazem a meu gosto.
Dos meus preferidos, eis três escritores portugueses contemporâneos: Hélder Macedo, Miguel Real, Mário Claúdio. Qualquer um deles mete num chinelo os jornalistas-escritores, e outros palhaços da moda literária, produtores de best-sellers. Desses cujas obras estão para a Literatura como a produção da fábrica Disney está para a Banda Desenhada – entretenimento, diversão e… banalidade.
E se há alguns que não se arrogam a mais do que aquilo que são, também há os que ocupam destaques imerecidos – e injustos, para outros que produzem literatura de qualidade.
Não acontece apenas no universo da escrita mas convém não esquecer que, efectivamente, assim acontece na Literatura.
Escritas contemporâneas
Não leio gajos que escrevem pior do que eu – e nem sou escritor, nem tenho pretensões a tal. Como diz o Vasco Pulido Valente, faço parte do número de pessoas que escrevem mas que não são escritores.
Não discuto a originalidade, a imaginação, o engenho dos enredos criados pois, disso - ao nível do José Rodrigues dos Santos -, tenho de sobra. Discuto a forma como se escreve. Já sobre o Saramago não perco tempo a discutir a forma porque o engenho das suas histórias e a originalidade dos conteúdos ofuscam completamente qualquer outro aspecto literário.
O José Rodrigues dos Santos escreve pobremente. Usa uma sintaxe enfadonha, de longas construções frásicas, entediante repetição de vocábulos, e demasiadas palavras enormes. Tudo isto conferirá, certamente, motivo de desinteresse para o jovem leitor – aquele que cada vez lê menos (?). E para o cativar para a leitura é exactamente o oposto que deve ser feito.
Do Prólogo do “Fúria Divina”: «As luzes dos faróis rasgaram a noite glacial, prenunciando um fragor cavado que logo se ouviu aproximar. O camião percorreu a Prospekt Lenina devagar, o estrépito do motor sempre em crescendo, e abrandou quando chegou perto do portão. O veículo virou lentamente, galgou a ladeira com um ronco de esforço e imobilizou-se diante das grades do portão, os travões a soltarem um guincho desafinado, o motor a bufar de exaustão(…).»
E mais adiante:
«(…) “Onde está ele?”, quis saber Ruslan.
Vitaly olhou de esguelha para uma porta lateral.
“No quarto, a dormir. Não se esqueçam de que são duas horas da manhã.”
Ruslan olhou para os dois homens que o acompanhavam e fez um gesto na direcção da porta. Sem uma palavra, os elementos do seu comando foram imediatamente pôr-se em posição, ambos encostados à parede, um de cada lado da passagem (…)»
O José Rodrigues dos Santos escreve pobremente. Usa uma sintaxe enfadonha, de longas construções frásicas, entediante repetição de vocábulos, e demasiadas palavras enormes. Tudo isto conferirá, certamente, motivo de desinteresse para o jovem leitor – aquele que cada vez lê menos (?). E para o cativar para a leitura é exactamente o oposto que deve ser feito.
Do Prólogo do “Fúria Divina”: «As luzes dos faróis rasgaram a noite glacial, prenunciando um fragor cavado que logo se ouviu aproximar. O camião percorreu a Prospekt Lenina devagar, o estrépito do motor sempre em crescendo, e abrandou quando chegou perto do portão. O veículo virou lentamente, galgou a ladeira com um ronco de esforço e imobilizou-se diante das grades do portão, os travões a soltarem um guincho desafinado, o motor a bufar de exaustão(…).»
E mais adiante:
«(…) “Onde está ele?”, quis saber Ruslan.
Vitaly olhou de esguelha para uma porta lateral.
“No quarto, a dormir. Não se esqueçam de que são duas horas da manhã.”
Ruslan olhou para os dois homens que o acompanhavam e fez um gesto na direcção da porta. Sem uma palavra, os elementos do seu comando foram imediatamente pôr-se em posição, ambos encostados à parede, um de cada lado da passagem (…)»
E continua nesta toada de leitura fatigante enxameada de vacuidades literárias.
Vejamos:
«Os faróis rasgaram a noite glacial, prenunciando o fragor cavado que se acercou. O camião percorreu a Prospekt Lenina devagar, o estrépito do motor em crescendo abrandou ao aproximar-se do portão. O veículo virou lentamente, galgou a ladeira num ronco de esforço e imobilizou-se diante das grades, com os travões a soltarem um guincho desafinado e o motor a bufar de exaustão.» Não?
E na segunda parte:
«“Onde está ele?”, quis saber Ruslan.
Vitaly olhou de esguelha para uma porta lateral. Será possível olhar de esguelha para uma porta frontal?
“No quarto, a dormir. Não se esqueçam de que são duas horas da manhã.” Não bastaria: «A dormir. São duas da manhã.»(?)
Ruslan olhou para os dois homens que o acompanhavam e fez um gesto na direcção da porta. Sem uma palavra, os elementos do seu comando foram imediatamente pôr-se em posição, ambos encostados à parede, um de cada lado da passagem (…)» «Os dois homens… ambos…. um de cada lado», porque não: Ruslan olhou para os homens que o acompanhavam e fez um gesto na direcção da porta. Sem uma palavra, eles colocaram-se em posição, encostados à parede, um de cada lado da passagem.»(?)
Não está cá tudo o que o autor disse, mas em menos palavras, de forma mais límpida e leve? E não me venham com a treta dos estilos, que o JRS não tem nível nem tarimba para construir um estilo.
Vejamos:
«Os faróis rasgaram a noite glacial, prenunciando o fragor cavado que se acercou. O camião percorreu a Prospekt Lenina devagar, o estrépito do motor em crescendo abrandou ao aproximar-se do portão. O veículo virou lentamente, galgou a ladeira num ronco de esforço e imobilizou-se diante das grades, com os travões a soltarem um guincho desafinado e o motor a bufar de exaustão.» Não?
E na segunda parte:
«“Onde está ele?”, quis saber Ruslan.
Vitaly olhou de esguelha para uma porta lateral. Será possível olhar de esguelha para uma porta frontal?
“No quarto, a dormir. Não se esqueçam de que são duas horas da manhã.” Não bastaria: «A dormir. São duas da manhã.»(?)
Ruslan olhou para os dois homens que o acompanhavam e fez um gesto na direcção da porta. Sem uma palavra, os elementos do seu comando foram imediatamente pôr-se em posição, ambos encostados à parede, um de cada lado da passagem (…)» «Os dois homens… ambos…. um de cada lado», porque não: Ruslan olhou para os homens que o acompanhavam e fez um gesto na direcção da porta. Sem uma palavra, eles colocaram-se em posição, encostados à parede, um de cada lado da passagem.»(?)
Não está cá tudo o que o autor disse, mas em menos palavras, de forma mais límpida e leve? E não me venham com a treta dos estilos, que o JRS não tem nível nem tarimba para construir um estilo.
Saramanguito

O que escreveu não é suficiente. Saramago, na sua fria lucidez sabe que o fim está próximo e não quer deixar apenas a obra escrita como testemunho único da sua passagem pela vida. O ensaio do discurso verbal, essa atracção obsessiva que afecta quase todos os mestres da palavra escrita, serve-lhe o propósito de marcar uma posição. Vincar a coerência da sua visão do mundo, que expôs ao longo da sua obra escrita e que, pelas letras impressas chegou a meio-mundo. Agora, com a oralidade, alcança o outro meio. Saramago não quer partir amortalhado apenas nas páginas do que escreveu, exige o som da trombeta de guerra que é a sua voz rebelde. Rebelde contra um mundo atávico, de carneirada néscia que se deixa manipular por uma corja de velhacos. E essa trombeta anunciará a sua passagem para o além ou, como plausivelmente acreditará, a transição para o oblívio.
Deixei de o ler quando recebeu o prémio. Talvez por preguiça, talvez por achar que deixava de valer a pena dispensar atenções a algo que a sociedade devorava transformando em mainstream. Talvez tenha feito mal, ou talvez ainda não seja altura de ler todo o Saramago. Antes disso, li e gostei do Levantado do Chão e do Memorial, adorei o Evangelho e ri-me com a Jangada. Hoje, aplaudo este homem velho e cansado que tem razão de sobra para libertar a raiva que lhe vem de dentro. As sotainas diagnosticam-lhe ódio, eles lá sabem, conhecem bem esse sentimento.
Já eu, que concordo com as suas palavras sobre a Bíblia, digo: tais palavras só podem sair de alguém com profundo sentido religioso e humano; alguém que se encontra nos antípodas dos que imediatamente o criticaram, acusando-o de leviandade e ignorância. E pur si muove.
«A Bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade - A Bíblia passou mil anos, dezenas de gerações, a ser escrita, mas sempre sob a dominante de um Deus cruel, invejoso e insuportável. É uma loucura! (…) Deus só existe na nossa cabeça, é o único lugar em que nós podemos confrontar-nos com a ideia de Deus. É isso que tenho feito, na parte que me toca». José Saramago
Pode a Lua ofender-se com o ladrar do cão?
Quero lá saber das supostas ofensas da Maitê Proença ao Património, à História e à cultura portuguesa? Da Maitê, actriz de telenovelas, aproveitava-se o corpinho que mostrou em Itália, em sessão fotográfica que a Playboy exibiu há uns anos. Considerando o tempo decorrido e os efeitos da gravidade sobre os corpos, a Maitê passou à história e merece-me, hoje, tanta atenção como o seu compatriota que veio jogar no Belenenses e mal desembarcou do avião declarou, comovido, a profunda emoção que sentia em integrar o plantel da terra de Jesus Cristo. Alarvidades.
Homenagem a Latino Coelho
José Maria Latino Coelho, nasceu em Lisboa a 29 de Novembro de 1825 e faleceu em Sintra em 29 de Agosto de 1891. Foi militar, escritor, jornalista e político. Seguiu a carreira das armas, tendo atingido o posto de general de brigada do estado-maior de engenharia. Seguindo um percurso político que o levaria do Partido Regenerador, pelo qual foi eleito deputado, ao Partido Republicano Português, com passagem por um governo do Partido Reformista, de que foi fundador, a sua carreira política percorreu todo o arco partidário da Monarquia Constitucional. Foi várias vezes eleito deputado, foi par do Reino eleito e exerceu as funções de ministro da Marinha e de vogal do Conselho Geral de Instrução Pública. Foi lente na Escola Politécnica de Lisboa e sócio efectivo e secretário perpétuo da Academia Real das Ciências de Lisboa. Como escritor, notabilizou-se com obras de foro histórico e ensaístico.
Uma das melhores referências a Latino Coelho foi feita por Brito Camacho na sua obra “Os Amores de Latino Coelho”, obra interessante que vale a pena ler.
Uma das melhores referências a Latino Coelho foi feita por Brito Camacho na sua obra “Os Amores de Latino Coelho”, obra interessante que vale a pena ler.
Ficções para César
Este é um escrito do início de 2006, meio esquecido num CD de arquivo, cumprido que foi o seu desígnio de produzir reacção para aquilatar da falsidade da pessoa a quem foi remetido. Um escrito apressado, executado num par de dias e revisto num terceiro.
Uma daquelas coincidências que envolvem nomes próprios, daqueles comuns entre nós, propiciou, mais tarde, a uma mente venenosa, a oportunidade de responder – com a calúnia e a mentira – ao incómodo que lhe provoquei com os meus comentários críticos fundamentados em factos do quotidiano (factos que se desenrolaram, repetidamente, à vista de uns tantos). E o incómodo dos meus comentários, produzidos em ambiente restrito, conduziram tal mão pressurosa a alçar o escrito a César apresentando-o como um gozo à sua augusta pessoa. Fundamentando a sua teoria no paralelismo dos nomes das personagens do escrito com o do imperante e outros da sua família.
Há mais sobre o assunto, e outros assuntos conexos que se poderão revelar. Por agora, aqui fica o texto que nunca teve pretensão de atacar ninguém, mas tão-somente produzir uma reacção e, nisso, cumpriu o objectivo.
Em resultado, verifico que esta imprudente gente é tão subtil como um paquiderme, achando que os seus actos não são perceptíveis. São-no, e como algazarra de megafones de feirantes.
Para publicar o texto optei por não arriscar atiçar a volubilidade imperial e mais retaliações; assim, substitui os nomes próprios de algumas personagens. Aqui fica, para que a perversa criatura não pense que me come por parvo – é óbvio que a sonsa a que me refiro não tem personificação neste texto, nem nada a ver com o enredo ficcionado que aqui se desenrola; tão-pouco foi a destinatária do mesmo. Serviu-se dele, apenas, para provocar a ira augusta sobre a minha pessoa. E conseguiu-o, em parte. Enfim, talvez um dia as actas finais dêem conta dos pormenores do negócio. Até lá, fica mais esta peça de ficção.
Nas Mãos de Eva
Cap. 1 - Cenário
Apresentou-se no edifício principal da Câmara Municipal a meio da manhã. Após oito meses de quase inactividade esta era a oportunidade para voltar a contar com um salário certo, afastando o espectro de uma vida miserável e de um futuro dúbio. O funcionário observou-o de alto a baixo, detendo-se por momentos na impressionante máquina fotográfica que Pedro segurava na mão esquerda.- Tenho uma entrevista marcada com o Director de Recursos Humanos. Explicou.
- Mas, tem mesmo uma marcação?
Pedro entregou-lhe a carta que trazia consigo e o funcionário leu o conteúdo até encontrar a referência à entrevista.
- Muito bem. Vou ver se o senhor doutor já chegou.
Discou um número no telefone interno e pouco depois anunciava a presença do fotógrafo e recebia as instruções que repetiu a Pedro.
– O senhor doutor vai recebê-lo. Disse, indicando a escadaria larga, luminosa e sobriamente decorada.
– Por aqui, faça favor! Pedro seguiu-o e, transposto o primeiro lanço de escadas, flectiu à esquerda cruzando um corredor deserto. Franqueou a porta de mogno envernizado e entrou num exíguo e antiquado gabinete. O Chefe da Divisão de Recursos Humanos da autarquia algarvia era um homem idoso, de cabelos grisalhos, de fisionomia austera, ocultando parte da sua personalidade atrás de uns óculos enormes de estilo démode. Pela idade do homem, Pedro imaginou que estaria a cumprir o acréscimo de tempo para atingir a reforma, imposição recente do novo Governo. Aceitou o convite e ocupou a cadeira em frente da secretária. Numa voz suave e pausada, o funcionário superior indagou:
- Então, o senhor acha que preenche os requisitos do nosso anúncio? Sabe do que se trata, claro. Foi-nos solicitado que contratássemos um fotógrafo com experiência de estúdio pois temos um enorme trabalho para realizar na área do património artístico da autarquia, o que inclui os acervos dos vários museus. Tenho aqui o seu curriculum e, de facto, constato que já trabalhou em registo de imagem ligado à publicidade. Não sei se será exactamente a mesma coisa, porque de Fotografia nada entendo, mas considerando o facto do outro candidato, muito jovem, apenas ter experiência de foto-repórter, ao serviço de jornais, e não sendo isso o que procuramos...
O homem levantou os olhos do dossier que acabara de consultar e fixou Pedro, esperando um comentário.
- Sim, o tipo de trabalho de que precisam não apresenta dificuldades de maior. Talvez nalgum caso pontual sejam necessários recursos técnicos mais exigentes mas, em princípio, não vejo dificuldade alguma em desempenhar este trabalho.
- Muito bem - volveu o homem.
- Sabe que se trata de um contrato de um ano. Pela nossa parte poderá entrar já no início do próximo mês. Aguarde o nosso contacto, certamente durante a próxima semana. Deseja colocar alguma questão?
Pedro disse que não, pois já conhecia as condições existentes na Câmara, em resultado de algumas conversas que tivera com um amigo, funcionário da autarquia. Sabia com o que contar.
Agradeceu, estendeu a mão e um sorriso ao Chefe da Divisão que também se levantara para o cumprimentar, embora sem retribuir o sorriso. Mantinha a postura austera e reservada.
Pedro atravessou a Praça e encaminhou-se para a pastelaria mais próxima. Um café chega para comemorar, até porque os trocos que tilintavam no bolso não chegavam para muito mais.
Pedro é um homem de quarenta anos, de constituição mediana, cabelo escuro e curto, rosto escanhoado e liso, nariz rectilíneo que conduz aos olhos negros, um pouco profundos. Um mediterrânico típico. Extrovertido e um tanto brincalhão, Pedro raramente transmite essa imagem, mercê do semblante grave que ostenta, mesmo em postura descontraída.
À mesa do Café reflecte sobre o trabalho que em breve irá iniciar. É coisa fácil, para si, experiente em trabalhos de estúdio, trabalhos a sério, infinitamente mais exigentes e rigorosos do que aquele. A instituição é grande, tem mais de mil funcionários, distribuídos por vários departamentos, divisões e secções, com muita gente jovem e dinâmica. Um ambiente novo, diferente do universo restrito de duas ou três pessoas em que sempre trabalhara. Entrado na meia-idade sente-se, porém, ainda com energia e vitalidade suficientes para encetar esta nova etapa na sua vida. E, de qualquer modo, mantém-se na Fotografia, a sua ocupação de sempre, a sua paixão, a sua profissão desde que abandonara a Faculdade, deixando por concluir o último ano de Antropologia.
Relembra os primeiros passos nas reportagens de casamentos aqui, na sua terra, e depois nos jornais da capital, em simultâneo com a frequência da universidade numa convivência que se revelou fatal para os estudos, perseguindo políticos e futebolistas, registando gente que assistia, com lágrima ao canto do olho, à demolição da sua barraca, em nome da requalificação urbana e da luta contra a indigência, as multidões em manifestação ruidosa ostentando cartazes e lançando impropérios contra os governantes. Depois, o estúdio, com as raparigas escanzeladas, sonhadoras com o brilho dos flashes e um futuro nas passerelles da moda, os miúdos irrequietos, que na época das matrículas escolares lhe invadiam o estúdio, posando enfadados para o passe do bilhete de identificação, os trabalhos de publicidade de apartamentos, rapidamente construídos em novas urbanizações surgidas como cogumelos, alterando a paisagem periférica da cidade, reduzindo o horizonte visual e a luz natural na sua galeria.
Depois chegou o advento do Digital, e a derrocada do trabalho fotográfico, tal como existira durante mais de um século. Uma nova geração de fotógrafos, ligados ao universo da Internet e do audiovisual, com uma nova linguagem imagética e uma vertiginosa velocidade de produção. E, num ápice, ser Fotógrafo perdeu a especificidade que a profissão antes possuíra. A Fotografia encetou a sua segunda revolução rumo à universalização do uso, após a democratização fotográfica protagonizada pela comercialização dos modelos Kodak dos anos 30 e 40, que permitiram a prática fotográfica a milhões de pessoas. Agora, o mundo dos computadores e dos códigos binários traziam a independência em relação ao processamento fotográfico e às casas da especialidade. Qualquer um podia controlar, em sua casa, todo o processo fotográfico, desde o registo à impressão final. Era o mundo a mudar, e ele sentia-o.
Após um interregno de largos meses, em que sobrevivera à custa de alguns trabalhos esporádicos de casamentos e baptizados, eis que recuperava a segurança de um trabalho com salário certo.
A semana passou lentamente, como os dias longos de ventania, em que encontrara nos livros, que em tempos mais abonados comprara compulsivamente e agora preenchiam, uns por cima dos outros, todas as prateleiras da sua pequena biblioteca, o refúgio para uma vida que sentia vazia.
Desta vez não foi uma carta, mas o telefonema de uma voz feminina e apressada, certamente ansiosa pelo fim-de-semana que se aproximava. Informou-o que o contrato seria assinado na segunda-feira e que deveria dirigir-se à Divisão de Recursos Humanos logo de manhã, pelas nove horas.
O fim-de-semana passou lentamente, entediante, mas Pedro sentia-se feliz.
Assinado o contrato, iniciou funções imediatamente. Apresentam-lhe João, um jovem com pouco mais de vinte anos, designado para o apoiar e que, conhecendo já os cantos à casa, seria o seu auxílio na identificação das secções e dos locais onde se encontravam as peças a fotografar.
Como local de trabalho fora-lhe destinado uma antiga loja de roupas, no piso térreo de um velho edifício fronteiro ao da autarquia, que a Câmara adquirira recentemente, para ali instalar, no futuro, um serviço de atendimento público que permitisse servir os munícipes em horário mais alargado, para além das dezassete horas, o término do dia de trabalho na instituição. Ainda com esse serviço em fase de estudo, o imóvel, centenário, degradado pelo tempo e pela falta de cuidados do anterior proprietário, servia cabalmente para a execução do seu trabalho. A sala, ampla, com mais de quarenta metros quadrados, possuía uma montra por onde antes se exibiam fatos, casacos e vestidos que a moda da capital ditava e que a província insistia em acompanhar. Agora, com a vidraça translúcida, transformada pelas enormes folhas de papel vegetal aí coladas, a luz suave e difusa constituía matéria-prima de qualidade para o registo fotográfico. Uma secretária, duas cadeiras, um computador e um velho estirador de desenho foram ali colocados para receber a actividade fotográfica. Pedro trouxera parte do seu equipamento de estúdio, resgatado à húmida garagem emprestada por um amigo e onde guardara todo o equipamento desde que encerrara o seu estúdio. Tripés, reflectores, difusores e projectores de iluminação, entre outros equipamentos e apetrechos. E a sua máquina, que o acompanhava para todo o lado, modelo recente da novel tecnologia digital, superior à que lhe distribuíram para o serviço contratado. Com ela, realizava os trabalhos mais exigentes e as episódicas sessões com amigos, a quem acabava por oferecer as imagens, devidamente gravadas num CD.
Os primeiros meses de trabalho passam-se a fotografar obras de arte que decoravam as paredes, os gabinetes e outros espaços do edifício do Concelho, pinturas e esculturas de autores, consagrados ou desconhecidos. Nesta actividade, quase solitária, em que apenas João denunciava a presença de uma companhia quando lhe colocava alguma questão sobre Fotografia, motivada pelo desejo de um dia se dedicar a tal arte, o contacto com o restante pessoal limitava-se aos cumprimentos de cortesia ou a retribuir os sorrisos furtivos de algumas colegas mais simpáticas. João trazia-lhe as peças a fotografar, as mais pequenas, ou acompanhava-o aos locais onde estas se encontravam quando não era possível transportá-las. Aí deparava, amiúde, com problemas de iluminação que urgia resolver de forma a garantir um registo fotográfico aceitável. Nestas condições, o contacto com os outros funcionários era reduzido, acontecendo apenas nos breves momentos em que frequentava a cafetaria. Não estava obrigado à rigidez do horário das pausas para o pequeno-almoço ou para o café da tarde, mas a necessidade de estabelecer contacto com aquele universo que integrara recentemente levava-o a atravessar a rua, transpor os corredores do velho edifício camarário e tomar um café no ambiente descontraído do convívio com os colegas. De início fora alvo de risos reservados por parte de algumas das colegas mais jovens, estagiárias ou auxiliares. Pedro reflectiu sobre esse hábito das mulheres, que sempre encontram numa nova cara motivos para cochichos, segredos e risos discretos.
Cap. 2 – Contacto
Numa tarde de Verão, uma jovem mais desinibida interpelou-o no átrio da cafetaria. Queria saber se ele também fotografava modelos. Estava interessada num book de apresentação pois tencionava participar num concurso de revelação de novos talentos, promovido por uma revista de moda. Era uma jovem bonita, morena, de cabelos longos, rosto claro, mas com um olhar triste. Mais uma, entre as milhares que acalentam os sonhos de beleza incentivados pelos sucessos das top-models que desfilam nos ecrãs televisivos e vêem a sua vida exposta e escalpelizada nas páginas das revistas.Pedro respondera-lhe que não sendo fotógrafo de moda podia realizar tal trabalho, pois não apresentaria dificuldade especial, mas que não esperasse resultados como os que via nas revistas pois ali não contava com um estúdio equipado para esse tipo de registos.
A rapariga agradeceu com um sorriso encimado por um novo brilho nos olhos, que momentaneamente afastaram a sua expressão de tristeza, e prometeu visitá-lo no seu estúdio.
E depois dela, e de uma amiga que a acompanhara, Pedro fotografou mais uma dezena de colegas que, entre o desejo de se verem expostas nas páginas centrais de uma revista de moda e o prazer da inocente vaidade feminina saciada numa simples sessão fotográfica, se prestaram a posar para a sua máquina. No fim pedia-lhes autorização para apresentar as fotos numa página de Internet que possuía, onde já figuravam muitas outras fotos de locais, monumentos e gente que fotografara nos últimos anos, um pouco por todo o concelho. Em breve integrou também colegas menos jovens, algumas impressionadas com a qualidade dos retratos, rendidas à edição digital que reduzia rugas e retirava anos de vida. E Pedro sentia um enorme prazer neste entretenimento. Sempre olhara a Fotografia como uma contestadora do oblívio que a morte exerce sobre cada ser. Numa foto, cada pessoa perpetua-se e desafia a sua condição transitória, tocando a eternidade. E agora, este novo desafio de redescobrir nos rostos a beleza que o tempo teima apagar, ou a tentativa de revelar as belezas interiores de cada pessoa, tarefas ambíguas e difíceis mas, para Pedro, profundamente aliciantes.
Escassos meses volvidos e muitos quadros e peças de arte registados, o fotógrafo recebe uma circular da Divisão de Recursos Humanos convidando-o a participar numa acção de formação na área da informática. Pretendia-se ampliar os conhecimentos dos funcionários na utilização de computadores e programas nas mais variadas aplicações. Era mais um desses cursos com fundos comunitários. Aceitou, até porque tinha disponibilidade e uma acção destas permitia-lhe evoluir num campo em que apenas adquirira conhecimentos básicos, impostos pela sua conversão apressada à Fotografia Digital.
E foi aí, nessas aulas, frente ao ecrã de um computador que travou conhecimento com uma colega deslumbrante que nunca antes vira, talvez devido à dimensão da instituição e à grande quantidade de gente que a integrava, talvez por a rapariga trabalhar noutro edifício sedeado longe do seu, nas imediações do maior pólo turístico do concelho, em zona de praias, hotéis, bares, e intensa vida nocturna.
O acaso juntara-os lado a lado, num diálogo frontal com os computadores, omnipresentes e exigentes de atenção, mas por onde paulatinamente despontaram os sorrisos de simpatia e a troca de breves considerações relacionadas com a matéria informática.
Inevitavelmente a atenção de Pedro centrou-se nas mãos da jovem. Pequenas e delicadas, de uma alvura extraordinária, como que emprestadas de um ser angelical. O sorriso gentil e a atitude comedida e reservada fizeram o resto. Pedro ficou encantado com a rapariga com quem conviveu todos os fins de tarde, durante as duas semanas do curso. E ela acabou por permitir que ele lhe fotografasse as mãos, descansadas sobre o teclado, como duas pombas brancas serenamente pousadas num telhado, exibindo-se, cautelosamente, aos pombos que esvoaçam em redor.
O breve curso terminou e Pedro regressou à rotina quotidiana, agora num desinteresse monótono, esgotada a novidade dos primeiros dias. Sentia um vazio estranho dentro de si.
Cap. 3 – O Feitiço
E fez-se luz. A jovem fechou os olhos e sorriu, enervada pelo clarão. Pedro desligou o flash e retirou-o da máquina, decidido a continuar a sessão recorrendo apenas à iluminação natural que atravessava a enorme montra da antiga loja e invadia a sala com uma luz melíflua. Estava maravilhado com a jovem e as poses que ensaiara frente à objectiva, sentada na cadeira colocada estrategicamente no centro do estúdio. Era um verdadeiro modelo, revelando não só a autêntica beleza como uma indiscutível fotogenia natural.Eva, descendente remota de goeses, não denuncia, porém, essa ascendência pois os traços fisionómicos há muito que se esbateram na família, fundidos nas raízes maioritariamente ocidentais. Nem o nome denuncia indícios dessa remota miscenização.
É uma jovem de vinte e oito anos, simpática mas reservada, de sorriso franco e largo, cabelos ondulados e negros que caem suavemente sobre as costas. Licenciada em Medicina Veterinária, integra o Serviço de Higiene e Saúde Pública, pertencendo ao quadro de funcionários da autarquia, onde trabalha há quatro anos. Solteira, vive a vida própria de uma jovem da sua condição, na cidade cosmopolita do Sul, dividindo as suas preferências entre as magníficas praias de areais extensos e a pulsante vida nocturna, própria da animada estância turística. Da janela da sua sala de trabalho, através de uma nesga de horizonte esquecido entre duas altas torres de apartamentos, vislumbra, de tempos a tempos, a passagem de um paquete de cruzeiros e sonha com viagens, e outras coisas.
Mas Pedro não sabe nada disto. Desta rapariga que lhe entrou pela alma dentro como um furacão inesperado, saltando do monitor do computador, onde se demora, hipnotizado, na edição das fotos que lhe fizera dias antes. E olha fixamente aquele sorriso cândido e sereno, procurando penetrar-lhe no íntimo, descobrir os segredos de tal beleza superlativa, como que procurando entender o milagre da criação do Universo. Para além do nome, ele nada mais sabe acerca da jovem. Nem a idade, nem onde vive, nem se tem namorado, nada.
Sai do estúdio ao final do dia, quando a sombra do edifício dos Paços do Concelho oculta os últimos raios de sol e lhe retira os restos da luz natural. Não gosta de recorrer à iluminação artificial das lâmpadas fluorescentes. Para arruinar os olhos já basta o computador.
Em casa, longe do emprego, do ambiente e do local impregnado com a memória da breve visita da jovem, sente-se longe, muito longe dela e entra num torpor hipnótico entrecortado por momentos de exaltação, num febril devaneio que a noite amplia e sente, nesse escuro desesperante, coisas que nunca sentira na vida. Pedro descobre que está, arrebatadoramente, apaixonado. E num momento de lucidez, tranquiliza-se com a ideia de que tal estado emocional acabará por se desvanecer. Só tem que ser paciente.
O tempo, esse velho sábio, tudo resolve, sempre ouvira dizer. Mas, se assim acontecer, não será nos dias mais próximos. Ou porque o velho sábio já estava muito velho, mesmo, e decrépito das suas capacidades, ou porque é demasiado intenso o achaque sentimental de Pedro, o facto é que o incómodo sentir persiste, e até cresce com o decorrer dos dias. E imagina cenários mirabolantes de uma vida diferente, de uma vivência refeita de felicidade suprema. Estes devaneios só são obscurecidos pelas constantes interrogações acerca da vida do alvo das suas atenções. E neste estado de espírito Pedro mais parece uma alma penada deambulando erraticamente, absorto nos pensamentos mais profundos e alheado perigosamente da vida normal que decorre à sua volta, desatento das solicitações que o quotidiano lhe lança na tentativa de o recuperar para a realidade, essa normalidade que nada lhe diz, que não lhe toca. Essa vida amorfa, anódina e insensível aos sentimentos singulares que o percorrem. Pedro está enfeitiçado.
Cap. 4 – Lágrimas
João veio informá-lo da necessidade de se deslocarem ao canil municipal a fim de procederem ao registo de uma imprevista ocorrência: O falecimento de um estrangeiro, um residente solitário que deixou duas dezenas de cães sem cuidados, durante vários dias, até ao conhecimento das autoridades. Agora tratava-se da remoção dos animais e a sua recolha nas instalações do Departamento do Ambiente e Equipamento Urbano. Era necessário fotografar os animais, para os procedimentos administrativos da praxe.No local, entre os vários funcionários e directores, estava a jovem Veterinária que a dado momento, apercebendo-se de que Pedro verificava o resultado das fotos olhando o minúsculo ecrã da câmara, pousou a mão sobre o braço do fotógrafo abeirando-se para espreitar as pungentes imagens.
Pedro adorou aquele toque suave e ficou embevecido com a naturalidade da jovem, na sua candura e isenção de malícia. E sorriu-lhe, ternamente.
Os cães foram tratados, sendo uns encaminhados para lares de acolhimento e outros ficando a residir temporariamente no canil municipal.
O dia não podia ter sido melhor. Tinha falado com ela.
Nessa noite, confortado pelo encontro, Pedro procurou a companhia dos seus amigos na Internet, correspondentes do Messenger, refeito das angústias e da existência retirada e sombria que vivera nos últimos dias. E nesse alegre estado de espírito autorizou a utilização de fotos suas na ilustração de poemas de uma amiga “virtual” que o solicitara em conversa online. Essa amiga dera-lhe o endereço do sítio onde colocava os poemas e ele, que nunca manifestara interesse por tal género literário, passou a encarar a poesia de outra forma. Em breve discutia com as poetisas virtuais o sentido dos poemas e as forças que impelem esses sentires, numa descoberta reveladora de nova dimensão da sua sensibilidade.
No improvisado estúdio onde, por vezes, recebe ao fim do dia alguns amigos para uma breve cavaqueira e a quem mostra os mais recentes trabalhos fotográficos, devidamente editados, em que procura realçar a beleza das pessoas num singelo contributo para a felicidade de cada retratado, ouve os comentários que inevitavelmente se fazem acerca das imagens e sobre um ou outro pormenor relativo às pessoas retratadas. Regista, mentalmente, as considerações feitas sobre Eva, suscitadas pelo surgimento das suas fotos na página da Internet, sem denunciar o interesse e os sentimentos que sobre ela nutre. Sim, tem um namorado. Vive na periferia da cidade, num dos bairros mais antigos. A família tem parentes entre a comunidade de goeses residente em Portugal – disse-lhe um amigo que ouviu isso, dito por um familiar dela. E pouco mais soube, porque era parco o conhecimento dos seus amigos ou porque, no receio de denunciar o seu interesse, nada lhes pergunta sobre ela. Mas para ele, esse pouco já é muito.
Nas longas noites em que o desespero o trucida, jacente no sofá da sala, ouve a música que o computador reproduz e encaminha em impulsos micro eléctricos através do extenso fio dos auscultadores. Ouve temas dos UHF e Three Doors Down e constrói novas leituras poéticas para as canções que, nessa reinterpretação, são o sedativo que precisa para acalmar a sua inquietação permanente.
Motivado pela situação singular que vive ou provocado pelo conteúdo poético das canções, que repetidamente escuta, Pedro sente o ensejo de escrever. Escrever poemas, ou uma carta. Sim, vai escrever uma carta poética à jovem, explicando-lhe o que sente e pedindo-lhe auxílio para superar esta inusitada fase da sua vida. O propósito: matar aquela paixão doentia, de impossível concretização, procurando no convívio com ela sublimar o seu sentir numa amizade substituta e apaziguadora.
E escreve de uma penada, teclando letras, palavras e frases num impulso ininterrupto, vertendo um texto que afinal parecia ter estado lá sempre, à sua espera.
COM O MEU CORAÇÃO NAS TUAS MÃOS
Foram as mãos. As tuas mãos brancas, pequenas e delicadas, que numa tarde de final de Verão me seduziram e encaminharam o olhar para o teu rosto sereno, angular, com uma boca distinta e uns olhos escuros enormes. E enfeitiçaste-me.
Mais tarde, exposta, à minha frente, com os risos largos que transbordam a tua beleza, e os mesmos lindos e brilhantes olhos que te iluminam o rosto, por vezes misterioso, traindo, em certo momento, a fugaz emoção da experiência nova, e alguma insegurança, frente à luneta mágica que te explora, eis que de repente me atinges em cheio.
Acertaste mesmo no meio de mim. Com toda a brutalidade.
E foste tu, também, talvez com o teu olhar hipnótico, que me reconstruíste noutro. Num novo ser, com um novo olhar, escravo de profunda paixão. Uma avassaladora paixão, como jamais sentira.
E nos dias seguintes milhões foram as facas que se enterraram no meu peito. Sucumbi, ajoelhado, vergado sobre a força que me constringe este peito, possuído por esta angústia medonha que me cerca, implacável, como uma escuridão insidiosa.
E, gradualmente, uma monstruosa inquietude foi-me invadindo até à mais pequena molécula de mim, e a todas as partes de mim. E respirar tornou-se penoso. E, parar era impossível. E queria chorar. Queria, tanto, conseguir chorar. Mas as lágrimas não fluíram. Não houve gotas para refrescar a caminhada a este calvário.
Perdi-me do que era antes e, assim, perdido, ando. Não me reencontrei ainda. Nem sei o que sou agora.
Neste estado de profunda catarse agarrei um lampejo de impulso racional e estabeleci o plano, diabólico, de assassinar esta paixão que me consome. Exorcizá-la. Não me escondendo, nem te evitando. Antes, procurando na tua companhia acalmar o turbilhão em que me transformei para, depois, poder reconstruir uma realidade. A realidade da impossibilidade. Assim, afogo ilusões que acredito não poder transformar numa nova vida. E recordo o poema que pede ao tempo para voltar atrás. Vã ilusão, confirmo. E sofro…tanto.
E depois vejo-te. Sem te procurar, és tu que vens, e sorrio-te, e sorris-me. Falamos. Mas não destas coisas, que ignoras completamente. Tocas-me suavemente no braço, como quem acaricia uma pena, com uma dessas mãos que adoro, pequena, alva e delicada, para te debruçares e espreitar uma imagem que observo. E outro dia do meu novo ser consome-se nesta efémera tranquilidade. Mas a dor continua, aqui, mesmo no centro do peito, profunda, dominadora, esmagadora.
E as lágrimas continuam a não correr. E precisava tanto delas, para drenar este sofrimento que me consome, tanto como os áridos campos de hoje clamam por gotas providenciais que os venham aspergir e salvar da impiedosa seca. Assim mesmo.
Agora sossego um pouco. Tenho a esperança de tocar as tuas mãos. Essas mãos brancas, pequenas e delicadas. De as registar numa fotografia onde poderei admirá-las, para sempre.
E depois, … não sei. Talvez me reencontre, ou talvez fique perdido para sempre neste limbo, para onde Afrodite me expulsou.
P.
Cap. 5 - Encontro
Calcorreando as ruas da cidade, passa pela movimentada rua onde Eva reside, na expectativa de a encontrar, de a ver ainda que fugazmente, entrando ou saindo de casa. Quem sabe, com a possibilidade de trocar umas breves palavras e de admirar aquele sorriso mágico. No bolso, transporta a carta dobrada em quatro, como voto preparado para a urna, onde pretende eleger a tão ansiada amizade.E ao terceiro dia encontra-a. Perto de casa, terminando as manobras para estacionar o seu automóvel desportivo, um Fiesta 1.4 vermelho que reconheceu ao longe, pois já se tinha cruzado com ela por duas ou três vezes, nas ruas da cidade.
Aproximou-se, e sorriu-lhe. E ela sorriu também, em resposta, baixando o vidro:
- Olá Pedro. Tudo bem?
Pedro inclinou-se para ficar ao nível dela. Com a voz embargada pela emoção e o coração em descompassado pulsar, temendo trair essas emoções, disparou rapidamente:
- Eva, tenho aqui uma coisa que escrevi para ti. Quando a leres vais compreender. Vou precisar da tua ajuda. Depois falarei contigo, agora tenho de ir. Adeus.
A rapariga aceitou o papel amarrotado pela viagem de dias no interior do bolso dele, e despediu-se com um breve:
- Está bem, Pedro. Até depois.
Endireitou-se, deixando de a ver, oculta pela capota do automóvel, e afastou-se.
E mais tarde, na solidão da noite, o acto protagonizado durante o dia mais não lhe pareceu do que uma imensa, uma gigantesca patetice. Ou será que fez o que devia? Irá ela compreender o que ele pretende? Ao menos declarou o seu sentir, e com isso aliviou um dos fardos, ou será que não? E atormentado por estas dúvidas, adormeceu no romper da alvorada.
No decurso do novo dia, durante a pausa para o almoço, telefonou-lhe – fora fácil encontrar o seu número de telefone na lista de contactos dos funcionários. Pedro pergunta, num tom de voz pouco firme, se ela quer as fotos que fizeram no estúdio. Que pode mandá-las por correio electrónico. Ao que ela responde positivamente, aparentemente satisfeita. E dá-lhe o endereço do seu e-mail. Pedro aproveita a oportunidade e reitera o pedido para voltar a fotografar as mãos. Conta-lhe do seu projecto fotográfico em que pretende reunir uma conjunto significativo desses admiráveis apêndices da anatomia humana, em variadas situações e contextos, iconificados em imagens radicadas umas no formalismo estético, com tónica no acto de criar, e outras na abordagem conceptual, em que a criação artística é impulsionada por uma idealização à priori. Em resposta obtém um riso divertido e um lacónico: - Depois veremos.
As noites são de exaltação. Escreve, e cria um blogue de poemas. Elege a jovem como sua musa inspiradora e define-a como uma deusa. Relembra os estudos da disciplina de Antropologia das Religiões e escolhe Reva, a deusa do amor do panteão hindu, numa clara inspiração suscitada pela remota ascendência oriental da jovem.
Pedro manda-lhe um e-mail com as fotos e o endereço do blogue que criou para ela.
Olá Eva, aqui vão as fotos. Não estão muito boas, porque a luz já não era a melhor, mas poderemos repetir noutra sessão, numa hora com mais luminosidade. Olha, gostaria que visses este blogue http://poemasparaeva.blogspot.com/. Lá, encontras uma prosa poética que já conheces e outros poemas que poderão ajudar a percebê-la melhor. Peço desculpa se te sobressaltei no outro dia. Às vezes portamo-nos como patetas. Eu fi-lo. Mas não há razão para alarme.
Podes, ao menos, dizer que recebeste esta mensagem?!
Pedro
E depois, o silêncio. E a dúvida do acerto das suas acções. De novo o silêncio, entrecortado pelos breves momentos em que a vê quando passeia pelas ruas da cidade num hábito que sempre cultivou de caçador de imagens urbanas. Uma semana depois recebe uma resposta:
Olá Pedro. Já vi o blogue e gostei imenso. Não percebi a parte do "sobressaltar". Fica descansado que não me sobressaltei, nem acho que tenha visto algum comportamento digno de ser chamado pateta.
Eva.
Maravilha das maravilhas, ela viu, leu e gostou. Aquela criatura sublime encanta-se, certamente, com os poemas que lhe dedica. E Pedro telefona-lhe de novo, desta vez ao cair da noite, mas ela não atende. Nem a uma segunda tentativa. Alarmado, suspeitando que a rapariga se sente incomodada com esta espécie de assédio sentimental deixa-se afundar, regressando ao estado de torpor miserável.
Dois dias depois tenta de novo, e desta vez ela atende. Estabelecido o contacto telefónico apressa-se a perguntar se ela viu os poemas, e o que acha, e se sente incómodo com este tipo de atenções que ele lhe dispensa. Ela, cuidadosamente, responde-lhe que sim, leu os poemas e achou interessantes. E que não, não se sente nada incomodada. Que apenas espera da parte dele que essas atenções não se tornem uma solicitação permanente através de telefonemas e mensagens. Ele descansa-a a esse respeito.
(…)
FIM
FIM
que chatice!
o carro de ladeira
O canalizador tinha comprado um automóvel que, desconfiara, teria sido roubado a um estrangeiro um par de anos antes. Sem documentos, apenas o queria para retirar peças para o seu, de modelo igual mas mais velho. Dois dias depois do negócio recebeu uma carta do Tribunal e de imediato apressou-se a atirar o carro por uma ribanceira, direito às águas revoltas do Atlântico. Regressado a casa, abriu o envelope e leu as breves linhas que lhe solicitavam um orçamento de reparação da canalização dos sanitários públicos do Tribunal.
sobre o mês que passou
Calendas de Setembro: Prossigo, agora com resultados claros, o processo de libertação da influência perniciosa dos velhacos, co-responsáveis pelo meu retrocesso ético nos últimos anos. Agora que os tenho, identificados – praticamente todos –, é mais fácil evitar a sua influência. E aperfeiçoei bastante a arte cénica e o trato dissimulado que dispenso a esta gentalha. Siga Moliére.
Idos de Setembro: No dia 12 faleceu Willy Ronis, com 99 anos de idade. Considerado o decano da fotografia francesa, integrou o reduzido número de fotógrafos que melhor captaram Paris, a par de Doisneau, Cartier-Bresson e Klein. Fotógrafo de exteriores retratou profusamente a vida quotidiana dos bairros populares da capital francesa. Os críticos integram-no num realismo poético de feição humanista. Eu gosto da simplicidade das suas fotos, apenas isso.

Perto das calendas de Outubro: Afinal, a explicação para o “Porque voa o avião?” baseada na diferença de velocidade de fluxo de ar entre as partes superior e inferior da asa (equal transit-time) não está correcta. O poder de ascensão (Lift) de um avião não é explicado pela falaciosa teoria baseada no Princípio de Bernoulli (embora este não esteja errado) mas sim por estes três factores: 1- Newton's laws of motion, especially Newton's second law which relates the net force an element of air to its rate of momentum change; 2 - conservation of mass, including the common assumption that the airfoil's surface is impermeable for the air flowing around, 3 -expression relating the fluid stresses (consisting of pressure and shear stress components) to the properties of the flow.
Porreiro, mais um conjunto de manuais errados, agora os de aeronáutica. Podem juntar-se aos de Electricidade que afirmam que a corrente eléctrica circula do pólo positivo para o negativo (sentido convencional, assim chamado devido ao erro), ou aos livros de História que estabelecem o ano de 1500 como século XVI (quando se sabe que não existiu nenhum ano Zero), ou a todos os compêndios que afirmam que a distância mais curta entre dois pontos é uma linha recta quando a própria natureza do espaço é… curva. Enfim, são erros difíceis de erradicar e que só comprovam que aquilo que se publica ganha um poder enorme contra o qual é difícil lutar: “Se está escrito é porque é verdade!”
Uma nota final para a situação política nacional: O resultado do PSD foi mais negativo do que eu esperava, embora esperasse a derrota. E sendo certo que não me revejo nestes líderes da velha guarda, não me afasto muito da reflexão de Vasco Graça Moura: «O povo português acaba de demonstrar a sua fatal propensão para viver num mundo às avessas. Não há nada a fazer senão respeitá-la. Mas nenhum respeito do quadro legal, institucional e político me impede de considerar absolutamente vergonhosa e delirante a opção que o eleitorado acaba de tomar e ainda menos me impede de falar dos resultados com o mais total desprezo. (…) O País acaba de mostrar que prefere a arrogância e a banha de cobra. Pois besunte-se com elas que há-de ter um lindo enterro.»
Idos de Setembro: No dia 12 faleceu Willy Ronis, com 99 anos de idade. Considerado o decano da fotografia francesa, integrou o reduzido número de fotógrafos que melhor captaram Paris, a par de Doisneau, Cartier-Bresson e Klein. Fotógrafo de exteriores retratou profusamente a vida quotidiana dos bairros populares da capital francesa. Os críticos integram-no num realismo poético de feição humanista. Eu gosto da simplicidade das suas fotos, apenas isso.

Perto das calendas de Outubro: Afinal, a explicação para o “Porque voa o avião?” baseada na diferença de velocidade de fluxo de ar entre as partes superior e inferior da asa (equal transit-time) não está correcta. O poder de ascensão (Lift) de um avião não é explicado pela falaciosa teoria baseada no Princípio de Bernoulli (embora este não esteja errado) mas sim por estes três factores: 1- Newton's laws of motion, especially Newton's second law which relates the net force an element of air to its rate of momentum change; 2 - conservation of mass, including the common assumption that the airfoil's surface is impermeable for the air flowing around, 3 -expression relating the fluid stresses (consisting of pressure and shear stress components) to the properties of the flow.
Porreiro, mais um conjunto de manuais errados, agora os de aeronáutica. Podem juntar-se aos de Electricidade que afirmam que a corrente eléctrica circula do pólo positivo para o negativo (sentido convencional, assim chamado devido ao erro), ou aos livros de História que estabelecem o ano de 1500 como século XVI (quando se sabe que não existiu nenhum ano Zero), ou a todos os compêndios que afirmam que a distância mais curta entre dois pontos é uma linha recta quando a própria natureza do espaço é… curva. Enfim, são erros difíceis de erradicar e que só comprovam que aquilo que se publica ganha um poder enorme contra o qual é difícil lutar: “Se está escrito é porque é verdade!”
Uma nota final para a situação política nacional: O resultado do PSD foi mais negativo do que eu esperava, embora esperasse a derrota. E sendo certo que não me revejo nestes líderes da velha guarda, não me afasto muito da reflexão de Vasco Graça Moura: «O povo português acaba de demonstrar a sua fatal propensão para viver num mundo às avessas. Não há nada a fazer senão respeitá-la. Mas nenhum respeito do quadro legal, institucional e político me impede de considerar absolutamente vergonhosa e delirante a opção que o eleitorado acaba de tomar e ainda menos me impede de falar dos resultados com o mais total desprezo. (…) O País acaba de mostrar que prefere a arrogância e a banha de cobra. Pois besunte-se com elas que há-de ter um lindo enterro.»
Operação pandemia
contra o impacto paranóico da nova epidemia da moda, depois da gripe das aves, a gripe suína (e amanhã, na mesma rua à mesma hora, a gripe dos peixes).
a gripe A H1N1 matou em todo o mundo, até hoje, um milionésima parte de qualquer uma destas outras doenças: malária, diarreia, sarampo, pneumonia.
ocorreu-me agora mesmo....
ocorreu-me agora mesmo que só não sou um escritor falhado porque não bebo como um escritor falhado...
....
....
até nisso falho!
;p
E elas aqui tão perto
Sabiam que as tipografias/editoras espanholas são muito mais baratas do que as portuguesas? Assim, vale a pena!
Banho 29
O banho 29 é um misto de tradição folclórica e de ritual transmitido de pais para filhos com a crença que o banho daquela noite vale por 29 banhos. As suas origens são incertas. Quer provenientes de épocas muito antigas e ligadas aos ritos de fim do Verão, quer resultantes da herança árabe, o costume manteve-se.
As gentes dos campos já não vêm em grupos animados, com os seus burrinhos e carroças, mas os locais continuam a cumprir a tradição. Hoje, são grupos de jovens, mais foliões e menos rituais, que aproveitam essa noite para assar chouriço e contar histórias à volta de uma fogueira.
À meia-noite o momento do banho leva muitos ao mergulho nas águas fugazmente iluminadas pelos clarões dos fogos-de-artifício. Em Lagos, é na Solaria e na Praia da Batata que se junta maior número de entusiastas, reunidos pela proximidade da animação musical e do concurso de trajes de banho antigos. Mas é na Meia Praia que a tradição melhor se cumpre, com os entusiastas agrupados em torno das fogueiras alinhadas ao longo do areal. Ali se bebe, come, conta e canta antes e depois do tradicional mergulho no mar. E a tradição, genuína, é apenas isso.
Allgarve. A arte no/do penico
A arte já não propõe nada de novo?! Nem forma de pensar nem modo de olhar. A arte contemporânea de hoje, sobretudo nas “artes plásticas”, não revela grande valor estético ou especial desafio ao intelecto. Então, será ainda, e verdadeiramente, ARTE?
Que sentido podemos encontrar numa gravação que afirma incessantemente: “As bright as the Sun!”? Que originalidade possui esta “cortina metálica” que fotografei há poucos dias numa igreja de Silves?
E o recurso abusivo e exaustivo às instalações plástico-dementes, num expediente masturbativo de non-sense; e os vídeos sobre o nada, mais os filmes das câmaras apontadas ao umbigo do “artista”, numa negação gritante do plano, da sequência, da estrutura elementar da imagem animada e da ortografia do visual? Que são? Raras são as instalações que conseguem envolver o espectador, apelando aos seus sentidos, como supostamente o pretendem. E porquê? Porque tudo isto está fora de tempo. Não possui espírito, buscando exclusivamente a sua conversão em Euros. Basta folhear os catálogos da Gulbenkian dos anos 60 e 70 para percebermos a falta de originalidade da “arte” hodierna. Está lá tudo isto, ensaiado, codificado e descodificado, superlativamente, num tempo em que foi novidade, foi provocação, foi mudança.
Até o simpático efeito dos fios cruzados sobre o hall do novo edifício Paços do Concelho Século XXI remetem-nos para o russo Tatlin e os seus trabalhos que evocam forças, energias, tensões físicas. Interessante, mas…já visto.
E as incursões no mundo da escultura imaterial, da escultura não como objecto mas como acção, como atitude, ainda hoje apresentadas como coisa nova, quando o americano Richard Serra as explorou profusamente a partir dos anos 60.
Para além de hipermercado de produtos em série, com as suas pequenas lojas de produtos de luxo (também de produção massiva), o mercado das artes plásticas é, ainda, um imenso estaleiro de negócios escuros que interceptam o mundo da política e da alta finança. Estaleiro de obras gigantescas em permanente edificação, alimentadas pelo trânsito de capitais, principalmente públicos, com pagamentos de ágios chorudos a críticos, comissários, directores, artistas, e, quem sabe, alimentando também os cofres de partidos políticos e confrarias esotéricas.
E a arte, onde está? No penico?
Ler também aqui.
Que sentido podemos encontrar numa gravação que afirma incessantemente: “As bright as the Sun!”? Que originalidade possui esta “cortina metálica” que fotografei há poucos dias numa igreja de Silves?
E o recurso abusivo e exaustivo às instalações plástico-dementes, num expediente masturbativo de non-sense; e os vídeos sobre o nada, mais os filmes das câmaras apontadas ao umbigo do “artista”, numa negação gritante do plano, da sequência, da estrutura elementar da imagem animada e da ortografia do visual? Que são? Raras são as instalações que conseguem envolver o espectador, apelando aos seus sentidos, como supostamente o pretendem. E porquê? Porque tudo isto está fora de tempo. Não possui espírito, buscando exclusivamente a sua conversão em Euros. Basta folhear os catálogos da Gulbenkian dos anos 60 e 70 para percebermos a falta de originalidade da “arte” hodierna. Está lá tudo isto, ensaiado, codificado e descodificado, superlativamente, num tempo em que foi novidade, foi provocação, foi mudança.Até o simpático efeito dos fios cruzados sobre o hall do novo edifício Paços do Concelho Século XXI remetem-nos para o russo Tatlin e os seus trabalhos que evocam forças, energias, tensões físicas. Interessante, mas…já visto.
E as incursões no mundo da escultura imaterial, da escultura não como objecto mas como acção, como atitude, ainda hoje apresentadas como coisa nova, quando o americano Richard Serra as explorou profusamente a partir dos anos 60.
Para além de hipermercado de produtos em série, com as suas pequenas lojas de produtos de luxo (também de produção massiva), o mercado das artes plásticas é, ainda, um imenso estaleiro de negócios escuros que interceptam o mundo da política e da alta finança. Estaleiro de obras gigantescas em permanente edificação, alimentadas pelo trânsito de capitais, principalmente públicos, com pagamentos de ágios chorudos a críticos, comissários, directores, artistas, e, quem sabe, alimentando também os cofres de partidos políticos e confrarias esotéricas.
E a arte, onde está? No penico?
Ler também aqui.
da forma
«- Na prosa sente-se mais livre?
- Sinto-me mais livre. Se bem que na prosa, tenho a impressão que se poderia reconhecer uma vocação musical. Eu sinto necessidade que ela corresponda a um rigor musical. No sentido de ter uma certa cadência, ritmo… Muitas vezes mudo uma frase, uma palavra, e não paro enquanto não me satisfizerem musicalmente. Não que eu fale a frase em voz alta, ou vá cantar aquilo. Mas há uma exigência quase musical. Agora, na criação de prosa, evidentemente, há que haver uma lei narrativa. Se bem que muitas vezes a gente supõe que não, ou a gente não quer. Mas aí, acho que é um pouco a inveja que a prosa tem da poesia. Eu, na verdade, o que menos me atrai na escrita de um romance é a história. Me interessa mais trabalhar com a forma, a forma de contar aquela história… A história em si não é nada, muitas vezes não é nada.»
E eu já com receio de defender as minhas preferências pela forma, em detrimento do conteúdo, nas discussões de tertúlia, eis que aparece aqui outro Chico não-escritor (este de peso) dizendo o que eu penso. Sabem como é... aquela sensação de que não estamos sozinhos no Universo?!
;)
- Sinto-me mais livre. Se bem que na prosa, tenho a impressão que se poderia reconhecer uma vocação musical. Eu sinto necessidade que ela corresponda a um rigor musical. No sentido de ter uma certa cadência, ritmo… Muitas vezes mudo uma frase, uma palavra, e não paro enquanto não me satisfizerem musicalmente. Não que eu fale a frase em voz alta, ou vá cantar aquilo. Mas há uma exigência quase musical. Agora, na criação de prosa, evidentemente, há que haver uma lei narrativa. Se bem que muitas vezes a gente supõe que não, ou a gente não quer. Mas aí, acho que é um pouco a inveja que a prosa tem da poesia. Eu, na verdade, o que menos me atrai na escrita de um romance é a história. Me interessa mais trabalhar com a forma, a forma de contar aquela história… A história em si não é nada, muitas vezes não é nada.»
E eu já com receio de defender as minhas preferências pela forma, em detrimento do conteúdo, nas discussões de tertúlia, eis que aparece aqui outro Chico não-escritor (este de peso) dizendo o que eu penso. Sabem como é... aquela sensação de que não estamos sozinhos no Universo?!
;)
Já que insistem
… e ao sétimo dia, o sumo pontífice ordenou que as vestais solicitassem os serviços do escultor, mandou retirar as contenções ao gasto das tinturas e exortou a que todos sorrissem, sorrissem muito, uns para os outros. Que não houvesse lugar a melindres entre os artistas; que não fossem, mais, perseguidos; que reinasse a paz, mesmo podre; que imperasse a concórdia, ainda que cínica; que se encomendassem muitos retratos e se produzissem muitos desenhos de gente, de toda a gente, em rasgados sorrisos. Assim ordenou o sumo.
(…)
Amanhã há pardais na cambradar!
(…)
Amanhã há pardais na cambradar!
No PREC
Quando entro em modo PREC* não vale a pena solicitarem-me atenções. Não estou cá!
*PRocesso de Escrita em Curso
*PRocesso de Escrita em Curso
A Batalha de Lagos

«A Guerra dos 7 Anos, entre 1756 e 1763, constituiu um marco na história europeia moderna e modelou a fisionomia das nações ocidentais, sendo considerada o ponto de viragem para o início da Era Moderna. Este conflito, que envolveu a Inglaterra e a França, prendia-se com o controlo comercial e marítimo das colónias europeias nas Índias Orientais e na América do Norte. A Inglaterra ocupou a ilha de Minorca, possessão francesa no Mediterrâneo, e foi este acontecimento que conduziu a uma tentativa de reunir as frotas navais francesas dispersas, para invadir a Inglaterra, culminando na batalha naval entre estas potências ao largo de Lagos, em 19 de Agosto de 1759.
Toda a história que Lagos encerra nos seus mares merece ser redescoberta, e por isso, no dia em que se assinalam os 250 anos desta batalha decisiva, convidamo-lo a vir mergulhar na História, assistindo às conferências de três eminentes especialistas em história e arqueologia náutica e subaquática!»
Batalha de Lagos faz 250 Anos (18/19 Agosto de 1759)
A “Batalha de Lagos” enquadra-se na Guerra dos Sete Anos, um conjunto de conflitos internacionais decorridos entre 1756 e 1763, envolvendo, de um lado, a França, a Áustria e seus aliados (Saxónia, Rússia, Suécia e Espanha), e do outro a Inglaterra, Portugal, a Prússia e Hannover. Vários factores desencadearam a guerra: a preocupação das potências europeias com o crescente poderio de Frederico II, o Grande, Rei da Prússia; as disputas entre esta e a Áustria pela posse da Silésia, e a disputa entre a Grã-Bretanha e a França pelo controle comercial e marítimo das colónias além-mar, nomeadamente as da América do Norte. Foi o primeiro conflito de carácter mundial, e o seu resultado é muitas vezes apontado como inaugurador da era moderna.
Na noite de 7 de Agosto de 1759, em pleno período de bloqueio dos portos franceses pela marinha britânica, uma esquadra de 15 navios comandada por La Clue zarpa do porto de Toulon. Tenciona alcançar o Atlântico e reforçar a armada proveniente de Brest, comandada pelo vice-almirante de Conflans, com a finalidade de atacar a Grã-Bretanha, desembarcando na Escócia. A navegação é feita ao longo da costa africana procurando evitar a detecção dos ingleses. Porém, na manhã de 17 de Agosto, ao largo de Ceuta, uma fragata inglesa avista a esquadra francesa e imediatamente leva o aviso à força estacionada em Gibraltar que, no mesmo dia, pelas 22h00, se faz ao mar.
Na manhã de 18 de Agosto, a esquadra inglesa, sob o comando de Edward Boscawen, avista as primeiras velas mas, já não é a totalidade da armada francesa pois durante a noite cinco dos seus navios de linha e três fragatas perderam o contacto com o grosso da esquadra e afastaram-se, demandando Cadiz. Os outros sete navios, que entretanto aguardavam a possibilidade de reagrupar a esquadra julgaram, erradamente, que as velas que se aproximavam eram os retardatários da sua frota. Pelas 9h30 Boscawen ordena aos seus navios a perseguição e ataque às velas francesas. Poucas horas depois as esquadras iniciam um combate que se prolongará por todo o dia, com aproximações e afastamentos ditados pelas condições do vento. Pelas 16h30 o Centaur rende-se, bastante danificado, tendo perdido o comandante e cerca de 200 homens. Do confronto resultam estragos de monta no navio-almirante inglês que obrigam Boscawen a transferir-se para do Namur para o Newark. A perseguição aos navios franceses continua durante a noite embora o Souverin e o Guerrier a tenham aproveitado para escapar, rumando a Oeste.
Ao nascer do Sol do dia 19, com a esquadra reduzida a quatro navios, os franceses decidem colocar-se ao abrigo das fortalezas do barlavento algarvio, sob a neutralidade das águas portuguesas. Inutilmente. O Modeste é apresado em Sagres e o Teméraire na Figueira, enquanto que o navio-almirante Océan, e o Redoutáble, varados respectivamente na Salema e no Zavial, para salvar a tripulação, são violentamente bombardeados. La Clue e muitos dos seus homens abandonam o navio e, pouco depois, uma embarcação do América recolhe o comandante de Carne e o resto da tripulação. O navio, considerado irrecuperável, é incendiado pelos ingleses, tendo assim o mesmo destino do Redoutáble. La Clue, gravemente ferido no combate, viria a falecer em Lagos.
Com este desaire, o sonho da França de uma invasão do território britânico, fica seriamente comprometido.
Este episódio da Guerra dos Sete Anos, ocorrido menos de 4 anos após o catastrófico terramoto que assolara o reino, ficou conhecido como “Batalha de Lagos” e motivou um veemente protesto do governo de Sua Majestade D. José I, junto da Inglaterra, redigido pelo punho do Conde de Oeiras, futuro Marquês de Pombal. A importância do evento determinou que Lagos ficasse relacionada com esta batalha e assim registada nos livros de História.
Lista dos navios envolvidos: nome/nº canhões
Esquadra inglesa: Namur 90 (navio-almirante), Prince 90, Newark 80, Warspite 74, Culloden 74, Conqueror 70, Swiftsure 70, Edgar 64, St Albans 64, Intrepid 60, America 60, Princess Louisa 60, Jersey 60, Guernsey 50, Portland 50, Ambuscade 40, Rainbow 40, Shannon 36, Active 36, le Thetis 32, Lyme 24, Gibraltar 24, Glasgow 24, Sheerness 24, Tartar’s Prize 24, Favourite 16, Gramont 16, Aetna 8, e Salamander 8.
Esquadra francesa: Océan 80 (navio-almirante), Téméraire 74, Modeste 64, Redoubtable 74, Souverain 74, Guerrier 74, Centaure 74.
Obras consultadas:
Allen, Joseph. Battles of the British Navy, Vol. I, p. 199 a 201, London 1852.
Beatson, Robert. Naval and Military Memoirs of Great Britain, vol. II, p. 315 a 318, London 1804.
Cunat, Charles Marie. L’Histoire du balli de Suffren, p. 28 a 31, Rennes 1852.
Guérin, Léon. Histoire Maritime de la France, Vol IV, p. 367 a 371, Paris 1851.
Hervey, Frederick. The Naval History of Great Britain, vol. V, Livro VII (gravura p. 230), London 1779.
Schomberg, Isaac. Naval Chronology of Naval and Maritime Events, Vol I, p. 332 – 333, London 1802.
(publicado na Agenda 5entidos de Agosto)
Sobre a Conferência realizada, umas breves considerações
Não obstante a qualidade técnica e científica da comunicação do arqueólogo Francisco Alves, sobre o espólio do Océan e os trabalhos realizados nos destroços do navio almirante francês, bem como sobre os navios de linha do período em apreço, o tema mais interessante, para mim, foi abordado por Maria Luísa Blot. Porém, quer porque uma simples palestra não permitiria aprofundar as várias questões, quer porque a distinta investigadora não se preparou suficientemente, a sua comunicação ficou muito aquém daquilo que eu esperava.
A tónica dessa comunicação, no que concerne à Batalha de Lagos, centrou-se na violação das águas neutrais portuguesas por parte da esquadra inglesa. Tónica incipiente para centrar uma comunicação sobre esta batalha.
Aflorada, numa simples referência, a hipótese de deserção de mais de metade da frota francesa não mereceu maior atenção, domage. A este respeito muito havia a debater, nomeadamente: Porque é que os capitães de Jean-François de la Clue não gostavam do seu comandante? Seria interessante explorar a ideia da razão que imperou à aparelhagem inicial de alguns dos navios que, depois, vieram a integrar a frota de La Clue. Será que os seus capitães/armadores esperavam partir rumo às américas em busca de proveitos pecuniários, ainda que aí aceitassem defrontar os ingleses; e ficado irritados por terem de integrar o plano de Bigot de Morogues para a campanha naval que pretendia levar a guerra à casa dos ingleses?
Pois porque é que, na noite de 17 de Agosto, desapareceram 8 navios sem razões fundamentadas para isso o que leva de la Clue ao protesto:“Seja por cobardia, seja por ignorância imperdoável, ou por uma fatalidade incompreensível, os capitães do Fantasque, do Lion, do Triton, do Fier e do Oriflame cuja posição era no centro da esquadra, bem como os capitães das três fragatas (cujo objectivo seria nunca perderem de vista o navio chefe), separaram-se da esquadra a meio de uma noite de Verão, em que não se verificava uma escuridão total, levados por um vento de Este (nunca violento no estreito canal), e sem que qualquer incidente atmosférico justificasse tal separação.” (da Carta de M. de La Clue a M. le comte de Merle, embaixador em Lisboa, datada de Lagos, 18 de Agosto de 1759). Segundo Cunat, Charles Marie, em L’Histoire du Bailli de Suffren, p. 28 a 31, Rennes 1852.
Esta carta, que não refere a “deserção” de Panat (Le Souverin) e Rochemore (Le Guerrier), ocorrida posteriormente, aponta para a extensão da Batalha para o dia seguinte, ao contrário do afirmado por alguns até há anos atrás (entre estes o próprio Francisco Alves), que a Batalha tinha ocorrido a 18 de Agosto.
Ainda segundo o biógrafo do M. de Suffren, o Ministro da Marinha M. Berryer pretendeu levar a Tribunal de Guerra todos os capitães de M. de la Clue. Não o terá feito para não criar atritos com a nobreza da Provença, à qual pertenciam esses capitães, bem como com a oficialidade geral da marinha de guerra francesa.
Por outro lado, verifiquei uma confusão estabelecida entre o Cabo de Santa Maria e o Cabo de S. Vicente, sugerindo a senhora, que as esquadras em conflito teriam cruzado Sagres e regressado à costa Sul algarvia, o que não é verdade, pois o Cabo de Santa Maria onde a Batalha se iniciou refere-se, como é óbvio, a Santa Maria de Faro. Também o desconhecimento da referência ao navio Kernosprit, citado, pelo menos, em duas fontes francesas (sendo uma delas a Histoire Maritime de la France, de Léon Guérin), decepcionou-me, ainda que a senhora tenha confessado não conhecer a biografia do Bailio de Suffren – que veio a ser um dos mais hábeis almirantes franceses -, embora o soubesse Tenente a bordo do Océan durante esta batalha. Seria interessante tentar determinar a que navio se referiam essas fontes quando o identificam como o navio para onde Boscawen se transferiu quando o navio almirante Namur ficou seriamente danificado. Ora o almirante inglês transferiu-se para o Newark, como consta nas fontes inglesas e nalgumas francesas.
E sobre as razões que terão levado os Ingleses a não respeitarem a neutralidade das águas portuguesas, deixo estas reflexões:
1 – É objectivo maior da armada inglesa, evitar, a todo o custo, a invasão das Ilhas britânicas por parte dos franceses.
2 – Que neutralidade? A Guerra dos Sete Anos foi um conjunto de conflitos internacionais decorridos entre 1756 e 1763, envolvendo, de um lado, a França, a Áustria e seus aliados (Saxónia, Rússia, Suécia e Espanha), e do outro a Inglaterra, Portugal, a Prússia e o principado de Hannover.
3 – Desforra de todos os recentes insucessos nas escaramuças navais ocorridas nos mares europeus e desforra também da Batalha de 1693 em que de Tourville infligiu pesada derrota a George Rooke, exactamente nos mesmos mares algarvios.
E sobre as razões que levam os portugueses a não prestarem apoio aos franceses, avento o seguinte:
1 – Portugal é um estado neutral, ou o veemente protesto do governo de Sua Majestade D. José I, junto da Inglaterra, redigido pelo punho do Conde de Oeiras, futuro Marquês de Pombal, não terá passado de manobra para “francês ver” (?!).
2 – As baterias de costa portuguesas estariam em condições de fazer fogo?
Estes são apenas alguns aspectos do conflito que teve como líderes Sir Edward Boscawen e Jean-François de Bertet de La Clue-Sabran, que ficam, ainda, sem resposta.
Nota interessante aqui
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