monarquia?


Enjoados e enojados com o forrobodó republicano começamos a olhar para as monarquias constitucionais como hipótese de solução?! Não me parece. O obstáculo reside na essência do próprio povo, na sua boçalidade expressa, ou latente, cristalizada nos trapaceiros da classe política que nos governa. Não há solução.

Num silêncio de cão

Sentei-me em silêncio tentando concentrar-me na respiração do cão. Ele olhou-me desconfiado, pensando, talvez, “o que raio está este gajo a inventar agora?!” Pressentindo a cisma do canino, virei o rosto para o lado procurando evitar qualquer incómodo e maior suspeição. Mas ele, movido pela desconfiança instalada, ergueu-se nas quatro patas dispondo-se a abandonar a sala. Eu não podia permitir tal coisa, e mal o bicho virou o traseiro agarrei-o pelas ancas, forçando-o a deitar-se de novo. Acto contínuo, virou a cabeça exibindo a dentuça arreganhada e rosnou, ameaçador, procurando ferrar-me a mão direita. Entrámos numa luta confusa e barulhenta que só terminou quando o cão, já cansado, disse: - Pára lá com isso! Estamos a lutar porquê? E eu, atónito, ainda mais cansado que ele, deixei-me escorregar de corpo inteiro para o chão, aturdido por aquelas palavras que nunca ouvira antes, porque nunca antes ouvira um cão falar. E assim fiquei, prostrado, imóvel, escutando apenas a minha respiração ofegante, como um encadeado de possantes estrondos no silêncio do Universo.

Gripes e vacinas



Anda por esta Internet adentro muita informação contraditória sobre alguns aspectos respeitantes quer ao surgimento quer ao combate da gripe A.
Já sabemos que a net é um excelente veículo para difundir boatos e informação deturpada. É o preço da liberdade de informação, que devemos aceitar, embora tal constatação deva conduzir à adopção de atitudes cautelosas e sempre críticas em relação a tudo o que se lê e vê por aqui.
Para além da eventualidade da doença permitir que alguns agentes menos escrupulosos alcancem dividendos acima do que seria eticamente aceitável, não me parece que a atitude das autoridades seja merecedora de críticas tão incisivas como as que temos testemunhado. É que esta doença já é nossa conhecida, e na sua primeira visita levou cerca de 120 mil portugueses. Foi em 1918, e a acção do vírus H1N1 era então conhecida como Gripe Espanhola* ou, simplesmente, pneumónica.
Isto, não ouvi nos meios de comunicação; ou porque foi dito e me passou ao lado, ou porque foi omitido para evitar pânicos escusados.
O plano de vacinação está aí e não me parece que apresente fragilidades ou inconsistências que devam levar-nos a adoptar uma atitude de desconfiança. Temos uma história de vacinação que vem desde o início do século XIX e um Programa Nacional de Vacinação que funciona adequadamente desde 1965.
Convém não esquecer que foi devido à vacinação que se conseguiu, em 1980, erradicar a Varíola, a nível mundial.
Voltando ao nosso país, em 1965 teve inicio a vacinação em massa contra a poliomielite, que registava nesse ano 292 casos. No ano seguinte registaram-se apenas 13 casos. Seguiu-se o combate à difteria e à tosse convulsa, também com resultados muito positivos.
Isto representa a vitória do processo de vacinação, e daquilo que talvez seja uma das maiores conquistas da ciência médica. Repudiar a prática da vacinação é esquecer as conquistas alcançadas contra inúmeras doenças, algumas bastante horríveis que flagelaram a humanidade ao longo da História: difteria, gripe B, gripe C, hepatite b, papeira, poliomielite, rubéola, sarampo, tétano, tosse convulsa, tuberculose.
Finalmente, convém realçar um outro aspecto da vacinação, muitas vezes esquecido. As vacinas também protegem os indivíduos não vacinados já que a probabilidade de disseminação de uma doença infecciosa diminui com a vacinação alargada das populações. Esta imunidade colectiva ajuda, assim, a proteger os indivíduos mais vulneráveis.
Para além das razões médicas, e de saúde pública, aceito a vacina contra a gripe A também por uma questão de princípio. O princípio racional que ensina a confrontar eventuais benefícios com hipotéticos prejuízos, nessa equação indissociável da nossa existência, que resulta do sempiterno risco que opõe a raça humana a uma Natureza, naturalmente, adversa.

*Descrente do ditado que apregoa: “de Espanha, nem bom vento nem bom casamento”, sublinho que a denominação “Gripe Espanhola” se refere à doença observada, pela primeira vez, nos Estados Unidos da América. Isto ocorreu em Março de 1918, e os primeiros casos conhecidos na Europa ocorreram em Abril do mesmo ano, pelo que não é despiciendo conjecturar que a doença foi introduzida na Europa pelas tropas americanas. A adopção da denominação “gripe Espanhola” talvez se deva ao facto da imprensa desse país que não participou na guerra, ter noticiado profusamente que em muitos locais adoeciam e morriam civis em quantidades alarmantes. Em Maio, a doença atingiu a Grécia, Espanha e Portugal. Em Junho, a Dinamarca e a Noruega. Em Agosto, os Países Baixos e a Suécia. Todos os exércitos estacionados na Europa foram severamente afectados pela doença, calculando-se que cerca de 80% das mortes da armada dos EUA se deveram à gripe.

A cores é outra coisa

As fotos a Preto & Branco são uma dupla mentira em relação à realidade. Pelo facto de serem fotos já são uma mentira, depois porque o monocromatismo é uma reinterpretação do real. Como se fosse coisa de outro mundo. Vejam como, a cores, as coisas parecem mais reais, mais fidedignas. Eis duas fotos de uma vasta série de imagens rejeitadas pela LIFE, nos distantes anos 40.



comentar fotos

Como sabes, frequento alguns sites de Fotografia que agrupam muitos entusiastas, alguns são profissionais mas a maioria são amadores. Muitos são excelentes fotógrafos, outros nem por isso. No entanto a Fotografia é, para mim, apenas o pretexto para descobrir nesses fóruns uns raros cultores de um certo tipo de humor. E é essa disposição que me leva a este tipo de convívio que zomba do quotidiano social, político, cultural, troça de costumes e atitudes, e critica estéticas, fotográficas ou não.
Num destes sites deve-se comentar criticamente cada fotografia ali inserida. Porém, nem sempre os comentários reflectem conhecimento sobre a matéria, ou mesmo qualquer interesse em abordá-la, não passando de simples graçolas ou, mais raramente, tiradas de refinado humor. Eis uma breve selecção de comentários a fotografias, que foram replicados num tópico que criei para essa finalidade no Canal Foto. A totalidade dos comentários ali replicados pode ser acedida aqui.

O ok é porque está aceitável. PONTO FINAL, percebe? Ou o sr pensa que esta fotografia está boa, sequer?
EU JÁ LHE DISSE QUE ME CHAMO VASCO CUNHA. Para si Arq. Vasco Cunha, fique sabendo. Veja se vai ao médico tratar esse estado de estupidez em que vive.
QUAL LUCAS qual carapuça, o Senhor consegue enervar um santo, que chatice.
Eu comento as fotos como eu entender e se o senhor não aceitar faça como eu, retire-as!
TENHO DITO E CALE-SE.

carago pá, como é que tu consegues ser disléxico no que escreves e no que fotografas?
és um caso bicudo.

Nunca duvide das suas certezas, elas são fundamentais para sustentar as suas opiniões. ok?

Fazemos negócio ou não? Tenho uma sony mavica de disquete. Um espectáculo de máquina! 1 Milhão de pixéis! Vendo-te a máquina por 850 euros e ainda te ofereço 2 pilhas semi-novas que já não funcionam.

gosto desta foto, fora do original

engraçada, as cuecas é que não fazem ali nada, a edição poderia disfarçá-las?

a mais comentada das minhas fotos nos últimos tempos. uma pilha de garrafões de vinho. isto diz muito deste país. cambada de bêbados.

Só mesmo com um CLONIX para suportar tanta coisa nenhuma.

não...O QUE VC REPROVOU NESSA FOTO.POR FAVOR MEU MESTRE EM FOTOGRAFIA, EXPLIQUE. A luz o enquadramento a definição o reflexo nas costas a sombra inacabada a sua posição perante o "tema" O contraste no céu. MESTRE, E ISSO TUDO ESTÁ ERRADO?

as opiniões são como as vaginas: cada mulher tem a sua e quem quiser dá-la, dá-la...

excelente momento.... pena o pormenor de o cavalo abrir a boca

como conseguiste dobrar tão bem as bordas da foto? foi a quente?

uma alegoria

Como uma alegoria da caverna, e logo numa “expo” de David Claerbout. Muito adequado.

Souls from Mook on Vimeo.

malas-artes

Os artistas não se interessavam pela fama ou notoriedade. Frequentemente, nem assinavam os seus trabalhos. Ignoramos os nomes dos artistas que fizeram as esculturas de Chartres, Estrasburgo, e os painéis de Lagos – o tríptico de Alcácer-Quibir, bem como o novo, situado no seu verso.
Eis uma atitude própria do "Período" Gótico.

num grão, apenas


O teu véu é um suave murmúrio de espuma em seda que desliza pelo colchão de areia sendo nele ausentes os seres desencontrados e diferentes que o espírito das águas anima a partir na manhã cinzenta enxuta e fria perdida nas memórias do que nunca aconteceu por mor de futilidades transformadas em gravidades imensas encerradas num grão de areia.

entrolhos precisa-se

Tapa-me os olhos que eu não quero ver
João Miguel Tavares – DN 17 de Novembro de 2009

O caso “Face Oculta” esbarra de frente com o primeiro-ministro. O País inteiro pára para ver. Vem o presidente do Supremo Tribunal e diz:”É tempo de repensar toda a estrutura de investigação criminal: Vem o procurador-geral da República e diz:”Os políticos devem acabar com o segredo de justiça ou então mudar a lei.” Sobre o primeiro-ministro, durante uma semana, nenhum deles disse coisa alguma. Meus caros amigos: isto é o mesmo que ter um homem encarcerado num acidente e os dois médicos do INEM chamados ao local optarem por ficar na berma da estrada a discutir questões de anatomia. Isto á o mesmo que ter um avançado caído dentro da área e o árbitro e o fiscal de linha decidirem que naquele momento o que se impõe é uma reflexão sobre as regras do penálti. Isto é o mesmo que ter uma casa a arder e dois bombeiros sentarem-se a debater a qualidade do seu equipamento em vez de irem buscar a mangueira da água.
Está tudo doido? Não. Está tudo cheio de medo. Porque nunca ninguém viu nada assim desde que existe democracia e Noronha do Nascimento e Pinto Monteiro preferiam manifestamente não ter sido eles a ver. Estas são circunstâncias absolutamente excepcionais e eu não sei se temos homens à altura destas circunstâncias. Parece-me muito sintomático que os dois mais altos magistrados do País se tenham refugiado em questões políticas (o segredo de justiça e a estrutura da investigação) no preciso momento em que aquilo que se lhes exige é clareza absoluta nas decisões judiciais. Pinto Monteiro, aliás, só emitiu um comunicado com alguns esclarecimentos depois de José Sócrates ter exigido publicamente que queria ser esclarecido.
Sejamos cristalinos: acreditar que Jesus Cristo andou sobre as águas exige menos fé do que acreditar que as conversas entre Sócrates e Vara têm a inocência de um episódio da Abelha Maia. Supondo que o juiz de instrução criminal de Aveiro não enlouqueceu, o simples facto de enviar certidões para o Supremo envolvendo Sócrates tem só por si um efeito devastador e que exige uma dupla resposta: jurídica (saber se as escutas são legais) mas também política. E, para a resposta política, a legalidade das escutas interessa pouco. Sócrates disse:”A questão mais importante para mim é saber se, durante meses a fio, fui escutado e se isso é legal num Estado de direito.” Mas a questão mais importante para mim, e suponho que para a maioria dos portugueses, não é saber se as escutas são legais, mas se o primeiro-ministro teve conversas inaceitáveis com Armando Vara à luz de um Estado de direito. Isso até devia sossegar Pinto Monteiro e Noronha do Nascimento. Só que eles conhecem demasiado bem a política para ainda serem capazes de confiar no poder solitário da justiça.

Os antecedentes da República

2010 vai ser ano de comemorações e, talvez, balanço de um século de regime republicano. Mas o republicanismo não começou em Portugal com a implantação da República. Numa sintese repartida darei conta dos antecedentes dessa aventura que dispensou monarcas e nobres, tomada pelo impacto de um assassinato, ainda hoje não resolvido no plano político e emocional dos portugueses.
Os antecedentes da República. 1

As Conferências do Casino que ocorrem em 1871 são resultado da efervescência mental produzida pela Questão Coimbrã de 1865-1866. Aí, uma nova geração de estudantes, poetas, escritores, manifesta a necessidade de se criar uma literatura capaz de tratar os temas mais importantes da actualidade, por oposição a outros intelectuais que pugnam pela manutenção do statu, apenas introduzindo inovações estéticas superficiais. Com a Questão Coimbrã entram em conflito directo o novo espírito cientifico europeu e o velho sentimentalismo rústico do Ultra-Romantismo. O novo lirismo que surge, social, humanitário e crítico, personificado por Antero de Quental, Teófilo Braga e outros, não se insurge apenas contra a tirania do gosto literário vigente, exercida por Augusto Castilho, mas também contra todos os conceitos políticos, históricos e filosóficos que ele e os seus seguidores simbolizam.
Esta época de empolgantes aventuras de descoberta do planeta, adequada à exaltação da grandeza do império luso, que mobiliza a ciência e a incerteza do desconhecido num fascínio que alimenta o imaginário de todas as classes e a emoldura num romantismo caduco, sublima as grandes explorações africanas que projectam nomes como Serpa Pinto, Roberto Ivens, Hermenegildo Capelo, os novos heróis da lusitanidade.
Embora o reinado de D. Luís se marque pelo progresso material, pela paz social e pelos sentimentos de convivência e, politicamente, pelo respeito pelas liberdades públicas, é essa geração notável de intelectuais (Eça, Antero, e outros) que vai fecundar o húmus donde brotará a consciência do liberalismo.
A partir de 1876 o Partido Progressista, que aspira articular o Estado segundo a teoria liberal, propõe a reforma da Carta, a descentralização administrativa, a ampliação do sufrágio eleitoral, e a reorganização do poder judicial e das finanças públicas.
Acusado de favorecer os regeneradores de Fontes Pereira de Melo, cujo ministério cairá em 1879, D. Luís chama os progressistas a formar governo.
Já em 1878 tomara lugar na Câmara o primeiro deputado republicano, Rodrigues de Freitas, eleito pelo Porto. Evidenciando a sólida evolução dos últimos anos, o Partido Republicano era, em 1880, uma realidade e uma força implantada de Norte a Sul do País.
O caminho está aberto rumo ao republicanismo.

A areia escondida

A Gazeta da Bica é um pasquim da aldeia, dessa aldeia suspensa no tempo e encalhada numa geografia descentrada na grande cidade. Pasquim mordaz, arrogante e um tanto perverso, que atira à rua e à maledicência da vizinhança – como bofes de porco a cães esfaimados –, episódios públicos e actos da vida privada dos distintos protagonistas da comunidade.


Rapidamente, a desconfiança acerca da autoria daquelas prosas que na calada da noite se introduzem sub-repticiamente por baixo da porta e do sono dos moradores, começa a provocar um notório mal-estar entre os vizinhos.
Amigos que se olham de soslaio, evitando conversas ou interrompendo-as abruptamente, receosos de indesejada publicidade. Adversários, antes respeitosos, que se miram, agora, com o ódio de inimigos – posto que só aquele poderia dizer tão mal daqueloutro. E por aí fora, num desassossego que mina a coesão e a identidade da aldeia.



Que só pode ser pessoa de cá e bem relacionada no meio, e nunca alguém de fora; pelo muito que parece saber da vidinha de cada qual. Que poderá ser algum revolucionário dandy, um burguês diletante e entediado, um intelectual revoltado, ou apenas um brincalhão que se diverte com a exposição das fraquezas e faltas alheias, jogando uns contra outros, depreciando o esforço dos que trabalham, pretensamente denunciando a falibilidade e desonestidade da acção dos que dirigem, etc.


Desconfiando de certa figura, os alvos habituais da insolente publicação estabelecem o plano de engodar o suspeito com falsas informações, e nisso prosseguem meses a fio, logrando filar o cáustico redactor. Tentativa estéril, pois claro, parida por inteligências medíocres. E aquele sobre quem se desconfia observa, atento, preocupado pela eventualidade de, injustamente, pagar pelo que não deve às mãos de gente tão néscia, mas, simultaneamente, satisfeito por verificar que é mais inteligente do que eles, que não descobrem o que tão facilmente se deduz. Que raio terão dentro da cabeça? Areia da praia?


Ao fundo, quais borboletas embriagadas no colorido intenso que a luz do dia reverbera nas suas asas, esvoaçam, subtis como paquidermes, saltitando de cogumelo em cogumelo, no extenso areal da praia, as sumidades... sumindo-se, depois, no ocaso do Sol.

tubos na Meia Praia


Há três dias, o amigo J telefonou-me perguntando: - Pá…para que são aqueles tubos na meia-praia? E eu, embora não tendo visto ainda tais tubos, tentei recordar uma conversa que tinha ouvido no dia anterior, misturada com as castanhas que fotografava, mas a que, como é habitual, não dei suficiente atenção, respondi: - Pois, aquilo é para sugar areia do fundo da Meia Praia e transportar por camião para a Praia da D. Ana…parece-me!
Hoje, ouvi a explicação correcta, pelo que corrijo a informação prestada antes.
Juntam-se, na Meia Praia – local adequadamente espaçoso para a tarefa –, 400 metros de conduta tubular que depois será rebocada por mar até à Praia da D. Ana, onde servirá para encaminhar as areias que irão formar um areal com cerca de 50 metros nesta praia que tem vindo a ser conquistada pelo mar, com a consequente redução da faixa de areal. As areias são importadas do litoral centro do país, e transportadas por camião.
Nem parece que trabalho em Informação Municipal mas, como bem me conhecem os poucos visitantes locais deste blogue, as minhas preocupações, para além do estritamente necessário ao meu dia-a-dia profissional, pouco ou nada incluem dos factos da actualidade local. Nunca tive a necessária paciência para a política, mesmo a de bastidores – e isso provou-se na breve experiência 2005/06-, e menos ainda para as questões de gestão, economia e finanças, das quais fujo como o diabo da cruz.
Porque a correcção é devida, aqui fica. Nomeadamente para o J, que vem cá de vez em quando.
Uma nota final para a expectativa acerca da durabilidade desta intervenção humana em área de tão intensa acção natural das correntes oceânicas. Quanto tempo ficará ali a areia?

Praia D. Ana, faixa de areia reduzida na preia-mar.

Actualização em 2009.11.17
E prontos, já disseram que a areia não vem de camião mas sim conduzida pela pipeline, depois de extraída do fundo, ali para os lados da Ponta da Piedade... ao que parece.
Razão tinha o Anónimo, ao duvidar da explicação aqui apresentada. Agora, só resta esperar que cresçam as orelhas ao Presidente do CEMAL - Centro de Estudos Marítimos de Lagos, por não ter percebido que tal solução era um perfeito disparate. E ele nem se lembrou das filmagens e fotos que realizou nas dragagens da Doca Pesca, da Marina e de um canal da Ria Formosa (?!)
Hehehehe... não me façam rir... ó avantesmas.

reflexões

«Cada vez mais se investe em drogas para a super-potência sexual do homem e em silicone para os seios femininos. Esse investimento é muito maior do que o da investigação e tratamento da doença de Alzheimer. Daqui a uns anos teremos velhos de pau feito e velhas de seios enormes e erectos, mas nenhum deles se lembrará para que serve tudo isso.»

Alcofar Faísca

o horror económico

«[...] Sobretudo, atravessámos uma revolução sem disso nos apercebermos. Uma revolução radical, muda, sem teorias declaradas, sem ideologias confessadas; impôs-se nos factos silenciosamente estabelecidos, sem nenhuma declaração, sem comentários, sem o mínimo sinal de aviso. Factos instalados em silêncio na História e nos nossos cenários. A força desse movimento é justamente ter surgido já consumado e depois de ter sabido prevenir e paralisar antecipadamente qualquer reacção contrária.
Deste modo, a canga dos mercados conseguiu envolver-nos como uma segunda pele, considerada mais adequada que a do nosso próprio corpo.
Assim, já não deploramos, por exemplo, o subpagamento dessa mão-de-obra sobreexplorada em países de miséria, colonizados, entre outras coisas, pela dívida externa; deploramos o subemprego que isso provoca nas nossas regiões e quase invejamos esses desgraçados, na realidade reconduzidos, confinados em condições sociais escandalosas – que nós nem desconhecemos, mas a nossa aquiescência não tem limites!
(…)
E depois, esse dinheiro que escasseia afinal existe! Repartido de uma forma muito peculiar, mas existe. Não insistiremos, seria “pouco correcto”. Trata-se apenas de um simples reparo – de passagem, e a correr...
Há que respeitar acima de tudo o princípio essencial: não perturbar a opinião pública. Não perturbar o seu silêncio. Esse silêncio que ninguém percebe como foi obtido. [...]»

Viviane Forrester

[in O Horror Económico: Lisboa, trad. Ana Barradas, Terramar, 1997]
Selecção de Paulo da Costa Domingos

Picado de Frenesi Livros
Aproveito para referenciar este blogue como um dos poucos que vale a pena ler, quer pela sua qualidade em matéria de crítica literária quer, sobretudo, pela lucidez dos seus autores. Coisa rara na blogosfera, ou demasiado diluída no intenso ruído da Internet.

combates

“(…) É um combate assim o do encontro humano com a realidade a que chamamos amor. Ganhá-lo, recusando-o ou falhando-o é perdê-lo. Perdê-lo perdendo-nos no abandono a um outro é ganhá-lo. De qualquer maneira a única possibilidade que nos é oferecida para quebrar o arco de invencível solidão que é cada homem que não encontrou o amor e não foi vencido por ele.”
Transcrição de manuscrito de Eduardo Lourenço, in LER - Out. 2009

Longo combate, este (o da vida), que opõe Deus ao Amor.

jogar à carta

Se não se paga uma mensalidade (semestralidade ou anuidade) pela carta de condução, pela carta de marinheiro ou pelo brevet de piloto - mas apenas a taxa da sua renovação -, porque inventaram agora uma mensalidade para a carta de radioamador? A chulagem de serviço, ainda a do PS, não tem imaginação para coisa mais atinada?
Paga taxa, e muito bem, quem tem um equipamento emissor registado e a funcionar. Quem não o tem, não paga, é lógico e honesto. O contrário, que agora entra em vigor, é mais uma chulice da tutela. Se nada me é fornecido, nem bem nem serviço, onde está então a legitimidade de cobrar uma mensalidade pela posse de uma carta de radioperador amador?

O regresso de Faustin

Às vezes deparo com coisas esquecidas, usadas há muito. Sobretudo nos baús do absurdo cultivado nalgum momento de angústia. Mais do que provocar sorrisos, é um nonsense que insiste, doentiamente, alcançar o equilíbrio no fio da navalha.

o Jornalista

“As vírgulas e os pontos finais são pausas na minha escrita... como na música, a escrita é feita de sons e pausas..." Saramago, ao JRS que confrontava o escritor com o seu proverbial desrespeito pelas normas da língua portuguesa (a que o JRS chamou “gramática”, esquecendo o resto). É engraçado como alguém que, amiúde, dá calinadas na oralidade da língua portuguesa, e escreve com pobreza sintáctica, acusa tal falha a Saramago – mas condescendo, presumindo que se trata de retórica jornalística, para extrair resposta que elucide o público.
Este JRS já tinha dado um ar de inépcia ao tentar encostar às cordas o escritor e jornalista Amin Maalouf, com o argumento de que este atribui às Cruzadas a causa primeva para o desentendimento entre cristãos e muçulmanos, quando – segundo JRS – existiram e porfiaram muitos conflitos entre ambas as partes durante mais de meio milénio antes da primeira cruzada. Até confrontou o libanês com uma extensa lista de conflitos que antecederam a conquista de Jerusalém em 1099.
Ora, Maalouf respondeu na entrevista (pelo que presumo que teria sido isso que escrevera, e suscitara o confronto de JRS), que a primeira cruzada foi a grande acha que ateou a fogueira do desentendimento e da inimizade entre as duas civilizações. E eu acrescento o que retiro da História: até então, os conflitos ocorridos inscreveram-se na teia de relações habituais entre os povos mediterrânicos, que sempre registaram períodos alternados de conflitos e acordos, guerras e tréguas, oposições e coalizões. Maalouf tem razão ou, no mínimo, sobre esse aspecto não disse ou escreveu nada de errado.
Às vezes, não sei se ele é mesmo assim, ou se é estratégia de jornalista para permitir ao público iletrado o contacto com outras perspectivas – que não apenas aquelas que ressumam dos rótulos que os críticos, quando não as próprias editoras, colam aos escritores e às suas obras.
Bem diz o Baptista Bastos, que este rapaz tem pouco de escritor, de jornalista ou de pivô.

notas de rodapé - António Sérgio

Morreu hoje a maior voz da rádio portuguesa. Lembro-me dos programas da noite dos anos 80, especialmente do SOM DA FENTE, e da voz grave, poderosa e acelerada de António Sérgio.
Em 1990, aos microfones da Rádio Atlântico Sul, fazia-se ouvir uma voz com um registo muito semelhante à do A. Sérgio. Era um jovem que, hoje, está na 1ª linha da política local. São recordações do tempo da rádio. Do tempo em que jornais e rádios ainda resistiam contra o poder degradante da Televisão.

Que razões teve Jorge de Sena para se zangar com Portugal?
Talvez as mesmas que Saramago e outra dezena de escritores, pensadores e cientistas que, podendo, abandonaram este país de merda, dirigido por crápulas, velhacos e chulos. Faria amanhã 90 anos, se fosse vivo. Vou ver o "Câmara Clara", para saber a resposta.

escritas contemporâneas 2


«…a arte da escrita banalizou-se. Hoje, qualquer um que tenha um livro publicado é tido como um “escritor”. E eles nascem por aí como cogumelos. Basta aparecer na televisão, com uma vidinha mais ou menos turbulenta ou escandalosa, e logo dali nasce um “livro”, a vender milhares de exemplares, porque o que interessa aos editores é ganhar dinheiro.
Então, além da proliferação de livros que contam vidinhas e escândalos, os “escritores” da moda, os best-sellers, são os que andam por aí: badalados e mediáticos. A sua sobrevivência depende do mediatismo. Sem esse mediatismo não sobreviveriam. E até há quem fale em “escritores parasitas”, isto é, aqueles que pagam a alguém para escrever livros e depois colhem os louros.»
Do blogue Arco de Almedina

Pois, há por aí produtores de best-sellers que nem têm tempo para escrever os seus livros. Por isso, quando publicam muito, revelam estranhas variações de “estilo” entre uma e outra obra.
E os leitores desatentos nem estranham a produtividade desses autores de “romance à resma”, que sabemos muito ocupados com outros afazeres profissionais no dia-a-dia?!
O que eles produzem não é literatura de qualidade, é dejecto que ocupa, nos escaparates, o lugar da verdadeira literatura. É apenas papel estampado com motivos recreativos. Não é Literatura, não é ARTE!
A literatura pode ser, também, recreação e diversão, mas não pode ser apenas isso.
E porque acontece isto? Porque quem define o mercado e constrói os best-sellers é a carneirada que lambe das prateleiras dos hipermercados tudo aquilo que o marketing dos livreiros produz. E estes só têm um objectivo: vender muito papel estampado.
Eu escrevo, mas não sou, nem ambiciono ser, escritor. Escrevo para ordenar ideias; por vezes, para me rever no que escrevo como se fosse um espelho, noutras vezes para estabelecer fasquias que deverei superar. Porém, não sendo, nem procurando ser, escritor, agradeço àqueles que sentem vontade de escrever para os outros, e que o fazem a meu gosto.
Dos meus preferidos, eis três escritores portugueses contemporâneos: Hélder Macedo, Miguel Real, Mário Claúdio. Qualquer um deles mete num chinelo os jornalistas-escritores, e outros palhaços da moda literária, produtores de best-sellers. Desses cujas obras estão para a Literatura como a produção da fábrica Disney está para a Banda Desenhada – entretenimento, diversão e… banalidade.
E se há alguns que não se arrogam a mais do que aquilo que são, também há os que ocupam destaques imerecidos – e injustos, para outros que produzem literatura de qualidade.
Não acontece apenas no universo da escrita mas convém não esquecer que, efectivamente, assim acontece na Literatura.

Escritas contemporâneas

Não leio gajos que escrevem pior do que eu – e nem sou escritor, nem tenho pretensões a tal. Como diz o Vasco Pulido Valente, faço parte do número de pessoas que escrevem mas que não são escritores.
Não discuto a originalidade, a imaginação, o engenho dos enredos criados pois, disso - ao nível do José Rodrigues dos Santos -, tenho de sobra. Discuto a forma como se escreve. Já sobre o Saramago não perco tempo a discutir a forma porque o engenho das suas histórias e a originalidade dos conteúdos ofuscam completamente qualquer outro aspecto literário.
O José Rodrigues dos Santos escreve pobremente. Usa uma sintaxe enfadonha, de longas construções frásicas, entediante repetição de vocábulos, e demasiadas palavras enormes. Tudo isto conferirá, certamente, motivo de desinteresse para o jovem leitor – aquele que cada vez lê menos (?). E para o cativar para a leitura é exactamente o oposto que deve ser feito.

Do Prólogo do “Fúria Divina”: «As luzes dos faróis rasgaram a noite glacial, prenunciando um fragor cavado que logo se ouviu aproximar. O camião percorreu a Prospekt Lenina devagar, o estrépito do motor sempre em crescendo, e abrandou quando chegou perto do portão. O veículo virou lentamente, galgou a ladeira com um ronco de esforço e imobilizou-se diante das grades do portão, os travões a soltarem um guincho desafinado, o motor a bufar de exaustão(…).»
E mais adiante:
«(…) “Onde está ele?”, quis saber Ruslan.
Vitaly olhou de esguelha para uma porta lateral.
“No quarto, a dormir. Não se esqueçam de que são duas horas da manhã.”
Ruslan olhou para os dois homens que o acompanhavam e fez um gesto na direcção da porta. Sem uma palavra, os elementos do seu comando foram imediatamente pôr-se em posição, ambos encostados à parede, um de cada lado da passagem (…)»
E continua nesta toada de leitura fatigante enxameada de vacuidades literárias.

Vejamos:
«Os faróis rasgaram a noite glacial, prenunciando o fragor cavado que se acercou. O camião percorreu a Prospekt Lenina devagar, o estrépito do motor em crescendo abrandou ao aproximar-se do portão. O veículo virou lentamente, galgou a ladeira num ronco de esforço e imobilizou-se diante das grades, com os travões a soltarem um guincho desafinado e o motor a bufar de exaustão.» Não?
E na segunda parte:
«“Onde está ele?”, quis saber Ruslan.
Vitaly olhou de esguelha para uma porta lateral. Será possível olhar de esguelha para uma porta frontal?
“No quarto, a dormir. Não se esqueçam de que são duas horas da manhã.” Não bastaria: «A dormir. São duas da manhã.»(?)
Ruslan olhou para os dois homens que o acompanhavam e fez um gesto na direcção da porta. Sem uma palavra, os elementos do seu comando foram imediatamente pôr-se em posição, ambos encostados à parede, um de cada lado da passagem (…)» «Os dois homens… ambos…. um de cada lado», porque não: Ruslan olhou para os homens que o acompanhavam e fez um gesto na direcção da porta. Sem uma palavra, eles colocaram-se em posição, encostados à parede, um de cada lado da passagem.»(?)

Não está cá tudo o que o autor disse, mas em menos palavras, de forma mais límpida e leve? E não me venham com a treta dos estilos, que o JRS não tem nível nem tarimba para construir um estilo.

Saramanguito


O que escreveu não é suficiente. Saramago, na sua fria lucidez sabe que o fim está próximo e não quer deixar apenas a obra escrita como testemunho único da sua passagem pela vida. O ensaio do discurso verbal, essa atracção obsessiva que afecta quase todos os mestres da palavra escrita, serve-lhe o propósito de marcar uma posição. Vincar a coerência da sua visão do mundo, que expôs ao longo da sua obra escrita e que, pelas letras impressas chegou a meio-mundo. Agora, com a oralidade, alcança o outro meio. Saramago não quer partir amortalhado apenas nas páginas do que escreveu, exige o som da trombeta de guerra que é a sua voz rebelde. Rebelde contra um mundo atávico, de carneirada néscia que se deixa manipular por uma corja de velhacos. E essa trombeta anunciará a sua passagem para o além ou, como plausivelmente acreditará, a transição para o oblívio.
Deixei de o ler quando recebeu o prémio. Talvez por preguiça, talvez por achar que deixava de valer a pena dispensar atenções a algo que a sociedade devorava transformando em mainstream. Talvez tenha feito mal, ou talvez ainda não seja altura de ler todo o Saramago. Antes disso, li e gostei do Levantado do Chão e do Memorial, adorei o Evangelho e ri-me com a Jangada. Hoje, aplaudo este homem velho e cansado que tem razão de sobra para libertar a raiva que lhe vem de dentro. As sotainas diagnosticam-lhe ódio, eles lá sabem, conhecem bem esse sentimento.
Já eu, que concordo com as suas palavras sobre a Bíblia, digo: tais palavras só podem sair de alguém com profundo sentido religioso e humano; alguém que se encontra nos antípodas dos que imediatamente o criticaram, acusando-o de leviandade e ignorância. E pur si muove.

«A Bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade - A Bíblia passou mil anos, dezenas de gerações, a ser escrita, mas sempre sob a dominante de um Deus cruel, invejoso e insuportável. É uma loucura! (…) Deus só existe na nossa cabeça, é o único lugar em que nós podemos confrontar-nos com a ideia de Deus. É isso que tenho feito, na parte que me toca». José Saramago

Pode a Lua ofender-se com o ladrar do cão?

Quero lá saber das supostas ofensas da Maitê Proença ao Património, à História e à cultura portuguesa? Da Maitê, actriz de telenovelas, aproveitava-se o corpinho que mostrou em Itália, em sessão fotográfica que a Playboy exibiu há uns anos. Considerando o tempo decorrido e os efeitos da gravidade sobre os corpos, a Maitê passou à história e merece-me, hoje, tanta atenção como o seu compatriota que veio jogar no Belenenses e mal desembarcou do avião declarou, comovido, a profunda emoção que sentia em integrar o plantel da terra de Jesus Cristo. Alarvidades.
Portugal será sempre inatingível pelas Maitês do mundo. Imbecis são os portugas que se incomodam com os divertimentos infantis de alguns brasileiros. Estão bem uns para os outros, rafeiros ladrando à lua.



Homenagem a Latino Coelho

José Maria Latino Coelho, nasceu em Lisboa a 29 de Novembro de 1825 e faleceu em Sintra em 29 de Agosto de 1891. Foi militar, escritor, jornalista e político. Seguiu a carreira das armas, tendo atingido o posto de general de brigada do estado-maior de engenharia. Seguindo um percurso político que o levaria do Partido Regenerador, pelo qual foi eleito deputado, ao Partido Republicano Português, com passagem por um governo do Partido Reformista, de que foi fundador, a sua carreira política percorreu todo o arco partidário da Monarquia Constitucional. Foi várias vezes eleito deputado, foi par do Reino eleito e exerceu as funções de ministro da Marinha e de vogal do Conselho Geral de Instrução Pública. Foi lente na Escola Politécnica de Lisboa e sócio efectivo e secretário perpétuo da Academia Real das Ciências de Lisboa. Como escritor, notabilizou-se com obras de foro histórico e ensaístico.
Uma das melhores referências a Latino Coelho foi feita por Brito Camacho na sua obra “Os Amores de Latino Coelho”, obra interessante que vale a pena ler.

Gravura de FERTIG, Ignaz (c. 1850/51)

Ficções para César



Este é um escrito do início de 2006, meio esquecido num CD de arquivo, cumprido que foi o seu desígnio de produzir reacção para aquilatar da falsidade da pessoa a quem foi remetido. Um escrito apressado, executado num par de dias e revisto num terceiro.

Uma daquelas coincidências que envolvem nomes próprios, daqueles comuns entre nós, propiciou, mais tarde, a uma mente venenosa, a oportunidade de responder – com a calúnia e a mentira – ao incómodo que lhe provoquei com os meus comentários críticos fundamentados em factos do quotidiano (factos que se desenrolaram, repetidamente, à vista de uns tantos). E o incómodo dos meus comentários, produzidos em ambiente restrito, conduziram tal mão pressurosa a alçar o escrito a César apresentando-o como um gozo à sua augusta pessoa. Fundamentando a sua teoria no paralelismo dos nomes das personagens do escrito com o do imperante e outros da sua família.
Há mais sobre o assunto, e outros assuntos conexos que se poderão revelar. Por agora, aqui fica o texto que nunca teve pretensão de atacar ninguém, mas tão-somente produzir uma reacção e, nisso, cumpriu o objectivo.
Em resultado, verifico que esta imprudente gente é tão subtil como um paquiderme, achando que os seus actos não são perceptíveis. São-no, e como algazarra de megafones de feirantes.
Para publicar o texto optei por não arriscar atiçar a volubilidade imperial e mais retaliações; assim, substitui os nomes próprios de algumas personagens. Aqui fica, para que a perversa criatura não pense que me come por parvo – é óbvio que a sonsa a que me refiro não tem personificação neste texto, nem nada a ver com o enredo ficcionado que aqui se desenrola; tão-pouco foi a destinatária do mesmo. Serviu-se dele, apenas, para provocar a ira augusta sobre a minha pessoa. E conseguiu-o, em parte. Enfim, talvez um dia as actas finais dêem conta dos pormenores do negócio. Até lá, fica mais esta peça de ficção.



Nas Mãos de Eva



Cap. 1 - Cenário

Apresentou-se no edifício principal da Câmara Municipal a meio da manhã. Após oito meses de quase inactividade esta era a oportunidade para voltar a contar com um salário certo, afastando o espectro de uma vida miserável e de um futuro dúbio. O funcionário observou-o de alto a baixo, detendo-se por momentos na impressionante máquina fotográfica que Pedro segurava na mão esquerda.
- Tenho uma entrevista marcada com o Director de Recursos Humanos. Explicou.
- Mas, tem mesmo uma marcação?
Pedro entregou-lhe a carta que trazia consigo e o funcionário leu o conteúdo até encontrar a referência à entrevista.
- Muito bem. Vou ver se o senhor doutor já chegou.
Discou um número no telefone interno e pouco depois anunciava a presença do fotógrafo e recebia as instruções que repetiu a Pedro.
– O senhor doutor vai recebê-lo. Disse, indicando a escadaria larga, luminosa e sobriamente decorada.
– Por aqui, faça favor! Pedro seguiu-o e, transposto o primeiro lanço de escadas, flectiu à esquerda cruzando um corredor deserto. Franqueou a porta de mogno envernizado e entrou num exíguo e antiquado gabinete. O Chefe da Divisão de Recursos Humanos da autarquia algarvia era um homem idoso, de cabelos grisalhos, de fisionomia austera, ocultando parte da sua personalidade atrás de uns óculos enormes de estilo démode. Pela idade do homem, Pedro imaginou que estaria a cumprir o acréscimo de tempo para atingir a reforma, imposição recente do novo Governo. Aceitou o convite e ocupou a cadeira em frente da secretária. Numa voz suave e pausada, o funcionário superior indagou:
- Então, o senhor acha que preenche os requisitos do nosso anúncio? Sabe do que se trata, claro. Foi-nos solicitado que contratássemos um fotógrafo com experiência de estúdio pois temos um enorme trabalho para realizar na área do património artístico da autarquia, o que inclui os acervos dos vários museus. Tenho aqui o seu curriculum e, de facto, constato que já trabalhou em registo de imagem ligado à publicidade. Não sei se será exactamente a mesma coisa, porque de Fotografia nada entendo, mas considerando o facto do outro candidato, muito jovem, apenas ter experiência de foto-repórter, ao serviço de jornais, e não sendo isso o que procuramos...
O homem levantou os olhos do dossier que acabara de consultar e fixou Pedro, esperando um comentário.
- Sim, o tipo de trabalho de que precisam não apresenta dificuldades de maior. Talvez nalgum caso pontual sejam necessários recursos técnicos mais exigentes mas, em princípio, não vejo dificuldade alguma em desempenhar este trabalho.
- Muito bem - volveu o homem.
- Sabe que se trata de um contrato de um ano. Pela nossa parte poderá entrar já no início do próximo mês. Aguarde o nosso contacto, certamente durante a próxima semana. Deseja colocar alguma questão?
Pedro disse que não, pois já conhecia as condições existentes na Câmara, em resultado de algumas conversas que tivera com um amigo, funcionário da autarquia. Sabia com o que contar.
Agradeceu, estendeu a mão e um sorriso ao Chefe da Divisão que também se levantara para o cumprimentar, embora sem retribuir o sorriso. Mantinha a postura austera e reservada.
Pedro atravessou a Praça e encaminhou-se para a pastelaria mais próxima. Um café chega para comemorar, até porque os trocos que tilintavam no bolso não chegavam para muito mais.
Pedro é um homem de quarenta anos, de constituição mediana, cabelo escuro e curto, rosto escanhoado e liso, nariz rectilíneo que conduz aos olhos negros, um pouco profundos. Um mediterrânico típico. Extrovertido e um tanto brincalhão, Pedro raramente transmite essa imagem, mercê do semblante grave que ostenta, mesmo em postura descontraída.
À mesa do Café reflecte sobre o trabalho que em breve irá iniciar. É coisa fácil, para si, experiente em trabalhos de estúdio, trabalhos a sério, infinitamente mais exigentes e rigorosos do que aquele. A instituição é grande, tem mais de mil funcionários, distribuídos por vários departamentos, divisões e secções, com muita gente jovem e dinâmica. Um ambiente novo, diferente do universo restrito de duas ou três pessoas em que sempre trabalhara. Entrado na meia-idade sente-se, porém, ainda com energia e vitalidade suficientes para encetar esta nova etapa na sua vida. E, de qualquer modo, mantém-se na Fotografia, a sua ocupação de sempre, a sua paixão, a sua profissão desde que abandonara a Faculdade, deixando por concluir o último ano de Antropologia.
Relembra os primeiros passos nas reportagens de casamentos aqui, na sua terra, e depois nos jornais da capital, em simultâneo com a frequência da universidade numa convivência que se revelou fatal para os estudos, perseguindo políticos e futebolistas, registando gente que assistia, com lágrima ao canto do olho, à demolição da sua barraca, em nome da requalificação urbana e da luta contra a indigência, as multidões em manifestação ruidosa ostentando cartazes e lançando impropérios contra os governantes. Depois, o estúdio, com as raparigas escanzeladas, sonhadoras com o brilho dos flashes e um futuro nas passerelles da moda, os miúdos irrequietos, que na época das matrículas escolares lhe invadiam o estúdio, posando enfadados para o passe do bilhete de identificação, os trabalhos de publicidade de apartamentos, rapidamente construídos em novas urbanizações surgidas como cogumelos, alterando a paisagem periférica da cidade, reduzindo o horizonte visual e a luz natural na sua galeria.
Depois chegou o advento do Digital, e a derrocada do trabalho fotográfico, tal como existira durante mais de um século. Uma nova geração de fotógrafos, ligados ao universo da Internet e do audiovisual, com uma nova linguagem imagética e uma vertiginosa velocidade de produção. E, num ápice, ser Fotógrafo perdeu a especificidade que a profissão antes possuíra. A Fotografia encetou a sua segunda revolução rumo à universalização do uso, após a democratização fotográfica protagonizada pela comercialização dos modelos Kodak dos anos 30 e 40, que permitiram a prática fotográfica a milhões de pessoas. Agora, o mundo dos computadores e dos códigos binários traziam a independência em relação ao processamento fotográfico e às casas da especialidade. Qualquer um podia controlar, em sua casa, todo o processo fotográfico, desde o registo à impressão final. Era o mundo a mudar, e ele sentia-o.
Após um interregno de largos meses, em que sobrevivera à custa de alguns trabalhos esporádicos de casamentos e baptizados, eis que recuperava a segurança de um trabalho com salário certo.
A semana passou lentamente, como os dias longos de ventania, em que encontrara nos livros, que em tempos mais abonados comprara compulsivamente e agora preenchiam, uns por cima dos outros, todas as prateleiras da sua pequena biblioteca, o refúgio para uma vida que sentia vazia.
Desta vez não foi uma carta, mas o telefonema de uma voz feminina e apressada, certamente ansiosa pelo fim-de-semana que se aproximava. Informou-o que o contrato seria assinado na segunda-feira e que deveria dirigir-se à Divisão de Recursos Humanos logo de manhã, pelas nove horas.
O fim-de-semana passou lentamente, entediante, mas Pedro sentia-se feliz.
Assinado o contrato, iniciou funções imediatamente. Apresentam-lhe João, um jovem com pouco mais de vinte anos, designado para o apoiar e que, conhecendo já os cantos à casa, seria o seu auxílio na identificação das secções e dos locais onde se encontravam as peças a fotografar.
Como local de trabalho fora-lhe destinado uma antiga loja de roupas, no piso térreo de um velho edifício fronteiro ao da autarquia, que a Câmara adquirira recentemente, para ali instalar, no futuro, um serviço de atendimento público que permitisse servir os munícipes em horário mais alargado, para além das dezassete horas, o término do dia de trabalho na instituição. Ainda com esse serviço em fase de estudo, o imóvel, centenário, degradado pelo tempo e pela falta de cuidados do anterior proprietário, servia cabalmente para a execução do seu trabalho. A sala, ampla, com mais de quarenta metros quadrados, possuía uma montra por onde antes se exibiam fatos, casacos e vestidos que a moda da capital ditava e que a província insistia em acompanhar. Agora, com a vidraça translúcida, transformada pelas enormes folhas de papel vegetal aí coladas, a luz suave e difusa constituía matéria-prima de qualidade para o registo fotográfico. Uma secretária, duas cadeiras, um computador e um velho estirador de desenho foram ali colocados para receber a actividade fotográfica. Pedro trouxera parte do seu equipamento de estúdio, resgatado à húmida garagem emprestada por um amigo e onde guardara todo o equipamento desde que encerrara o seu estúdio. Tripés, reflectores, difusores e projectores de iluminação, entre outros equipamentos e apetrechos. E a sua máquina, que o acompanhava para todo o lado, modelo recente da novel tecnologia digital, superior à que lhe distribuíram para o serviço contratado. Com ela, realizava os trabalhos mais exigentes e as episódicas sessões com amigos, a quem acabava por oferecer as imagens, devidamente gravadas num CD.
Os primeiros meses de trabalho passam-se a fotografar obras de arte que decoravam as paredes, os gabinetes e outros espaços do edifício do Concelho, pinturas e esculturas de autores, consagrados ou desconhecidos. Nesta actividade, quase solitária, em que apenas João denunciava a presença de uma companhia quando lhe colocava alguma questão sobre Fotografia, motivada pelo desejo de um dia se dedicar a tal arte, o contacto com o restante pessoal limitava-se aos cumprimentos de cortesia ou a retribuir os sorrisos furtivos de algumas colegas mais simpáticas. João trazia-lhe as peças a fotografar, as mais pequenas, ou acompanhava-o aos locais onde estas se encontravam quando não era possível transportá-las. Aí deparava, amiúde, com problemas de iluminação que urgia resolver de forma a garantir um registo fotográfico aceitável. Nestas condições, o contacto com os outros funcionários era reduzido, acontecendo apenas nos breves momentos em que frequentava a cafetaria. Não estava obrigado à rigidez do horário das pausas para o pequeno-almoço ou para o café da tarde, mas a necessidade de estabelecer contacto com aquele universo que integrara recentemente levava-o a atravessar a rua, transpor os corredores do velho edifício camarário e tomar um café no ambiente descontraído do convívio com os colegas. De início fora alvo de risos reservados por parte de algumas das colegas mais jovens, estagiárias ou auxiliares. Pedro reflectiu sobre esse hábito das mulheres, que sempre encontram numa nova cara motivos para cochichos, segredos e risos discretos.


Cap. 2 – Contacto

Numa tarde de Verão, uma jovem mais desinibida interpelou-o no átrio da cafetaria. Queria saber se ele também fotografava modelos. Estava interessada num book de apresentação pois tencionava participar num concurso de revelação de novos talentos, promovido por uma revista de moda. Era uma jovem bonita, morena, de cabelos longos, rosto claro, mas com um olhar triste. Mais uma, entre as milhares que acalentam os sonhos de beleza incentivados pelos sucessos das top-models que desfilam nos ecrãs televisivos e vêem a sua vida exposta e escalpelizada nas páginas das revistas.
Pedro respondera-lhe que não sendo fotógrafo de moda podia realizar tal trabalho, pois não apresentaria dificuldade especial, mas que não esperasse resultados como os que via nas revistas pois ali não contava com um estúdio equipado para esse tipo de registos.
A rapariga agradeceu com um sorriso encimado por um novo brilho nos olhos, que momentaneamente afastaram a sua expressão de tristeza, e prometeu visitá-lo no seu estúdio.
E depois dela, e de uma amiga que a acompanhara, Pedro fotografou mais uma dezena de colegas que, entre o desejo de se verem expostas nas páginas centrais de uma revista de moda e o prazer da inocente vaidade feminina saciada numa simples sessão fotográfica, se prestaram a posar para a sua máquina. No fim pedia-lhes autorização para apresentar as fotos numa página de Internet que possuía, onde já figuravam muitas outras fotos de locais, monumentos e gente que fotografara nos últimos anos, um pouco por todo o concelho. Em breve integrou também colegas menos jovens, algumas impressionadas com a qualidade dos retratos, rendidas à edição digital que reduzia rugas e retirava anos de vida. E Pedro sentia um enorme prazer neste entretenimento. Sempre olhara a Fotografia como uma contestadora do oblívio que a morte exerce sobre cada ser. Numa foto, cada pessoa perpetua-se e desafia a sua condição transitória, tocando a eternidade. E agora, este novo desafio de redescobrir nos rostos a beleza que o tempo teima apagar, ou a tentativa de revelar as belezas interiores de cada pessoa, tarefas ambíguas e difíceis mas, para Pedro, profundamente aliciantes.
Escassos meses volvidos e muitos quadros e peças de arte registados, o fotógrafo recebe uma circular da Divisão de Recursos Humanos convidando-o a participar numa acção de formação na área da informática. Pretendia-se ampliar os conhecimentos dos funcionários na utilização de computadores e programas nas mais variadas aplicações. Era mais um desses cursos com fundos comunitários. Aceitou, até porque tinha disponibilidade e uma acção destas permitia-lhe evoluir num campo em que apenas adquirira conhecimentos básicos, impostos pela sua conversão apressada à Fotografia Digital.
E foi aí, nessas aulas, frente ao ecrã de um computador que travou conhecimento com uma colega deslumbrante que nunca antes vira, talvez devido à dimensão da instituição e à grande quantidade de gente que a integrava, talvez por a rapariga trabalhar noutro edifício sedeado longe do seu, nas imediações do maior pólo turístico do concelho, em zona de praias, hotéis, bares, e intensa vida nocturna.
O acaso juntara-os lado a lado, num diálogo frontal com os computadores, omnipresentes e exigentes de atenção, mas por onde paulatinamente despontaram os sorrisos de simpatia e a troca de breves considerações relacionadas com a matéria informática.
Inevitavelmente a atenção de Pedro centrou-se nas mãos da jovem. Pequenas e delicadas, de uma alvura extraordinária, como que emprestadas de um ser angelical. O sorriso gentil e a atitude comedida e reservada fizeram o resto. Pedro ficou encantado com a rapariga com quem conviveu todos os fins de tarde, durante as duas semanas do curso. E ela acabou por permitir que ele lhe fotografasse as mãos, descansadas sobre o teclado, como duas pombas brancas serenamente pousadas num telhado, exibindo-se, cautelosamente, aos pombos que esvoaçam em redor.
O breve curso terminou e Pedro regressou à rotina quotidiana, agora num desinteresse monótono, esgotada a novidade dos primeiros dias. Sentia um vazio estranho dentro de si.



Cap. 3 – O Feitiço

E fez-se luz. A jovem fechou os olhos e sorriu, enervada pelo clarão. Pedro desligou o flash e retirou-o da máquina, decidido a continuar a sessão recorrendo apenas à iluminação natural que atravessava a enorme montra da antiga loja e invadia a sala com uma luz melíflua. Estava maravilhado com a jovem e as poses que ensaiara frente à objectiva, sentada na cadeira colocada estrategicamente no centro do estúdio. Era um verdadeiro modelo, revelando não só a autêntica beleza como uma indiscutível fotogenia natural.
Eva, descendente remota de goeses, não denuncia, porém, essa ascendência pois os traços fisionómicos há muito que se esbateram na família, fundidos nas raízes maioritariamente ocidentais. Nem o nome denuncia indícios dessa remota miscenização.
É uma jovem de vinte e oito anos, simpática mas reservada, de sorriso franco e largo, cabelos ondulados e negros que caem suavemente sobre as costas. Licenciada em Medicina Veterinária, integra o Serviço de Higiene e Saúde Pública, pertencendo ao quadro de funcionários da autarquia, onde trabalha há quatro anos. Solteira, vive a vida própria de uma jovem da sua condição, na cidade cosmopolita do Sul, dividindo as suas preferências entre as magníficas praias de areais extensos e a pulsante vida nocturna, própria da animada estância turística. Da janela da sua sala de trabalho, através de uma nesga de horizonte esquecido entre duas altas torres de apartamentos, vislumbra, de tempos a tempos, a passagem de um paquete de cruzeiros e sonha com viagens, e outras coisas.
Mas Pedro não sabe nada disto. Desta rapariga que lhe entrou pela alma dentro como um furacão inesperado, saltando do monitor do computador, onde se demora, hipnotizado, na edição das fotos que lhe fizera dias antes. E olha fixamente aquele sorriso cândido e sereno, procurando penetrar-lhe no íntimo, descobrir os segredos de tal beleza superlativa, como que procurando entender o milagre da criação do Universo. Para além do nome, ele nada mais sabe acerca da jovem. Nem a idade, nem onde vive, nem se tem namorado, nada.
Sai do estúdio ao final do dia, quando a sombra do edifício dos Paços do Concelho oculta os últimos raios de sol e lhe retira os restos da luz natural. Não gosta de recorrer à iluminação artificial das lâmpadas fluorescentes. Para arruinar os olhos já basta o computador.
Em casa, longe do emprego, do ambiente e do local impregnado com a memória da breve visita da jovem, sente-se longe, muito longe dela e entra num torpor hipnótico entrecortado por momentos de exaltação, num febril devaneio que a noite amplia e sente, nesse escuro desesperante, coisas que nunca sentira na vida. Pedro descobre que está, arrebatadoramente, apaixonado. E num momento de lucidez, tranquiliza-se com a ideia de que tal estado emocional acabará por se desvanecer. Só tem que ser paciente.
O tempo, esse velho sábio, tudo resolve, sempre ouvira dizer. Mas, se assim acontecer, não será nos dias mais próximos. Ou porque o velho sábio já estava muito velho, mesmo, e decrépito das suas capacidades, ou porque é demasiado intenso o achaque sentimental de Pedro, o facto é que o incómodo sentir persiste, e até cresce com o decorrer dos dias. E imagina cenários mirabolantes de uma vida diferente, de uma vivência refeita de felicidade suprema. Estes devaneios só são obscurecidos pelas constantes interrogações acerca da vida do alvo das suas atenções. E neste estado de espírito Pedro mais parece uma alma penada deambulando erraticamente, absorto nos pensamentos mais profundos e alheado perigosamente da vida normal que decorre à sua volta, desatento das solicitações que o quotidiano lhe lança na tentativa de o recuperar para a realidade, essa normalidade que nada lhe diz, que não lhe toca. Essa vida amorfa, anódina e insensível aos sentimentos singulares que o percorrem. Pedro está enfeitiçado.


Cap. 4 – Lágrimas

João veio informá-lo da necessidade de se deslocarem ao canil municipal a fim de procederem ao registo de uma imprevista ocorrência: O falecimento de um estrangeiro, um residente solitário que deixou duas dezenas de cães sem cuidados, durante vários dias, até ao conhecimento das autoridades. Agora tratava-se da remoção dos animais e a sua recolha nas instalações do Departamento do Ambiente e Equipamento Urbano. Era necessário fotografar os animais, para os procedimentos administrativos da praxe.
No local, entre os vários funcionários e directores, estava a jovem Veterinária que a dado momento, apercebendo-se de que Pedro verificava o resultado das fotos olhando o minúsculo ecrã da câmara, pousou a mão sobre o braço do fotógrafo abeirando-se para espreitar as pungentes imagens.
Pedro adorou aquele toque suave e ficou embevecido com a naturalidade da jovem, na sua candura e isenção de malícia. E sorriu-lhe, ternamente.
Os cães foram tratados, sendo uns encaminhados para lares de acolhimento e outros ficando a residir temporariamente no canil municipal.
O dia não podia ter sido melhor. Tinha falado com ela.
Nessa noite, confortado pelo encontro, Pedro procurou a companhia dos seus amigos na Internet, correspondentes do Messenger, refeito das angústias e da existência retirada e sombria que vivera nos últimos dias. E nesse alegre estado de espírito autorizou a utilização de fotos suas na ilustração de poemas de uma amiga “virtual” que o solicitara em conversa online. Essa amiga dera-lhe o endereço do sítio onde colocava os poemas e ele, que nunca manifestara interesse por tal género literário, passou a encarar a poesia de outra forma. Em breve discutia com as poetisas virtuais o sentido dos poemas e as forças que impelem esses sentires, numa descoberta reveladora de nova dimensão da sua sensibilidade.
No improvisado estúdio onde, por vezes, recebe ao fim do dia alguns amigos para uma breve cavaqueira e a quem mostra os mais recentes trabalhos fotográficos, devidamente editados, em que procura realçar a beleza das pessoas num singelo contributo para a felicidade de cada retratado, ouve os comentários que inevitavelmente se fazem acerca das imagens e sobre um ou outro pormenor relativo às pessoas retratadas. Regista, mentalmente, as considerações feitas sobre Eva, suscitadas pelo surgimento das suas fotos na página da Internet, sem denunciar o interesse e os sentimentos que sobre ela nutre. Sim, tem um namorado. Vive na periferia da cidade, num dos bairros mais antigos. A família tem parentes entre a comunidade de goeses residente em Portugal – disse-lhe um amigo que ouviu isso, dito por um familiar dela. E pouco mais soube, porque era parco o conhecimento dos seus amigos ou porque, no receio de denunciar o seu interesse, nada lhes pergunta sobre ela. Mas para ele, esse pouco já é muito.
Nas longas noites em que o desespero o trucida, jacente no sofá da sala, ouve a música que o computador reproduz e encaminha em impulsos micro eléctricos através do extenso fio dos auscultadores. Ouve temas dos UHF e Three Doors Down e constrói novas leituras poéticas para as canções que, nessa reinterpretação, são o sedativo que precisa para acalmar a sua inquietação permanente.
Motivado pela situação singular que vive ou provocado pelo conteúdo poético das canções, que repetidamente escuta, Pedro sente o ensejo de escrever. Escrever poemas, ou uma carta. Sim, vai escrever uma carta poética à jovem, explicando-lhe o que sente e pedindo-lhe auxílio para superar esta inusitada fase da sua vida. O propósito: matar aquela paixão doentia, de impossível concretização, procurando no convívio com ela sublimar o seu sentir numa amizade substituta e apaziguadora.
E escreve de uma penada, teclando letras, palavras e frases num impulso ininterrupto, vertendo um texto que afinal parecia ter estado lá sempre, à sua espera.

COM O MEU CORAÇÃO NAS TUAS MÃOS
Foram as mãos. As tuas mãos brancas, pequenas e delicadas, que numa tarde de final de Verão me seduziram e encaminharam o olhar para o teu rosto sereno, angular, com uma boca distinta e uns olhos escuros enormes. E enfeitiçaste-me.
Mais tarde, exposta, à minha frente, com os risos largos que transbordam a tua beleza, e os mesmos lindos e brilhantes olhos que te iluminam o rosto, por vezes misterioso, traindo, em certo momento, a fugaz emoção da experiência nova, e alguma insegurança, frente à luneta mágica que te explora, eis que de repente me atinges em cheio.
Acertaste mesmo no meio de mim. Com toda a brutalidade.
E foste tu, também, talvez com o teu olhar hipnótico, que me reconstruíste noutro. Num novo ser, com um novo olhar, escravo de profunda paixão. Uma avassaladora paixão, como jamais sentira.
E nos dias seguintes milhões foram as facas que se enterraram no meu peito. Sucumbi, ajoelhado, vergado sobre a força que me constringe este peito, possuído por esta angústia medonha que me cerca, implacável, como uma escuridão insidiosa.
E, gradualmente, uma monstruosa inquietude foi-me invadindo até à mais pequena molécula de mim, e a todas as partes de mim. E respirar tornou-se penoso. E, parar era impossível. E queria chorar. Queria, tanto, conseguir chorar. Mas as lágrimas não fluíram. Não houve gotas para refrescar a caminhada a este calvário.
Perdi-me do que era antes e, assim, perdido, ando. Não me reencontrei ainda. Nem sei o que sou agora.
Neste estado de profunda catarse agarrei um lampejo de impulso racional e estabeleci o plano, diabólico, de assassinar esta paixão que me consome. Exorcizá-la. Não me escondendo, nem te evitando. Antes, procurando na tua companhia acalmar o turbilhão em que me transformei para, depois, poder reconstruir uma realidade. A realidade da impossibilidade. Assim, afogo ilusões que acredito não poder transformar numa nova vida. E recordo o poema que pede ao tempo para voltar atrás. Vã ilusão, confirmo. E sofro…tanto.
E depois vejo-te. Sem te procurar, és tu que vens, e sorrio-te, e sorris-me. Falamos. Mas não destas coisas, que ignoras completamente. Tocas-me suavemente no braço, como quem acaricia uma pena, com uma dessas mãos que adoro, pequena, alva e delicada, para te debruçares e espreitar uma imagem que observo. E outro dia do meu novo ser consome-se nesta efémera tranquilidade. Mas a dor continua, aqui, mesmo no centro do peito, profunda, dominadora, esmagadora.
E as lágrimas continuam a não correr. E precisava tanto delas, para drenar este sofrimento que me consome, tanto como os áridos campos de hoje clamam por gotas providenciais que os venham aspergir e salvar da impiedosa seca. Assim mesmo.
Agora sossego um pouco. Tenho a esperança de tocar as tuas mãos. Essas mãos brancas, pequenas e delicadas. De as registar numa fotografia onde poderei admirá-las, para sempre.
E depois, … não sei. Talvez me reencontre, ou talvez fique perdido para sempre neste limbo, para onde Afrodite me expulsou.

P.


Cap. 5 - Encontro

Calcorreando as ruas da cidade, passa pela movimentada rua onde Eva reside, na expectativa de a encontrar, de a ver ainda que fugazmente, entrando ou saindo de casa. Quem sabe, com a possibilidade de trocar umas breves palavras e de admirar aquele sorriso mágico. No bolso, transporta a carta dobrada em quatro, como voto preparado para a urna, onde pretende eleger a tão ansiada amizade.
E ao terceiro dia encontra-a. Perto de casa, terminando as manobras para estacionar o seu automóvel desportivo, um Fiesta 1.4 vermelho que reconheceu ao longe, pois já se tinha cruzado com ela por duas ou três vezes, nas ruas da cidade.
Aproximou-se, e sorriu-lhe. E ela sorriu também, em resposta, baixando o vidro:
- Olá Pedro. Tudo bem?
Pedro inclinou-se para ficar ao nível dela. Com a voz embargada pela emoção e o coração em descompassado pulsar, temendo trair essas emoções, disparou rapidamente:
- Eva, tenho aqui uma coisa que escrevi para ti. Quando a leres vais compreender. Vou precisar da tua ajuda. Depois falarei contigo, agora tenho de ir. Adeus.
A rapariga aceitou o papel amarrotado pela viagem de dias no interior do bolso dele, e despediu-se com um breve:
- Está bem, Pedro. Até depois.
Endireitou-se, deixando de a ver, oculta pela capota do automóvel, e afastou-se.
E mais tarde, na solidão da noite, o acto protagonizado durante o dia mais não lhe pareceu do que uma imensa, uma gigantesca patetice. Ou será que fez o que devia? Irá ela compreender o que ele pretende? Ao menos declarou o seu sentir, e com isso aliviou um dos fardos, ou será que não? E atormentado por estas dúvidas, adormeceu no romper da alvorada.
No decurso do novo dia, durante a pausa para o almoço, telefonou-lhe – fora fácil encontrar o seu número de telefone na lista de contactos dos funcionários. Pedro pergunta, num tom de voz pouco firme, se ela quer as fotos que fizeram no estúdio. Que pode mandá-las por correio electrónico. Ao que ela responde positivamente, aparentemente satisfeita. E dá-lhe o endereço do seu e-mail. Pedro aproveita a oportunidade e reitera o pedido para voltar a fotografar as mãos. Conta-lhe do seu projecto fotográfico em que pretende reunir uma conjunto significativo desses admiráveis apêndices da anatomia humana, em variadas situações e contextos, iconificados em imagens radicadas umas no formalismo estético, com tónica no acto de criar, e outras na abordagem conceptual, em que a criação artística é impulsionada por uma idealização à priori. Em resposta obtém um riso divertido e um lacónico: - Depois veremos.
As noites são de exaltação. Escreve, e cria um blogue de poemas. Elege a jovem como sua musa inspiradora e define-a como uma deusa. Relembra os estudos da disciplina de Antropologia das Religiões e escolhe Reva, a deusa do amor do panteão hindu, numa clara inspiração suscitada pela remota ascendência oriental da jovem.
Pedro manda-lhe um e-mail com as fotos e o endereço do blogue que criou para ela.
Olá Eva, aqui vão as fotos. Não estão muito boas, porque a luz já não era a melhor, mas poderemos repetir noutra sessão, numa hora com mais luminosidade. Olha, gostaria que visses este blogue http://poemasparaeva.blogspot.com/. Lá, encontras uma prosa poética que já conheces e outros poemas que poderão ajudar a percebê-la melhor. Peço desculpa se te sobressaltei no outro dia. Às vezes portamo-nos como patetas. Eu fi-lo. Mas não há razão para alarme.
Podes, ao menos, dizer que recebeste esta mensagem?!
Pedro

E depois, o silêncio. E a dúvida do acerto das suas acções. De novo o silêncio, entrecortado pelos breves momentos em que a vê quando passeia pelas ruas da cidade num hábito que sempre cultivou de caçador de imagens urbanas. Uma semana depois recebe uma resposta:
Olá Pedro. Já vi o blogue e gostei imenso. Não percebi a parte do "sobressaltar". Fica descansado que não me sobressaltei, nem acho que tenha visto algum comportamento digno de ser chamado pateta.
Eva.

Maravilha das maravilhas, ela viu, leu e gostou. Aquela criatura sublime encanta-se, certamente, com os poemas que lhe dedica. E Pedro telefona-lhe de novo, desta vez ao cair da noite, mas ela não atende. Nem a uma segunda tentativa. Alarmado, suspeitando que a rapariga se sente incomodada com esta espécie de assédio sentimental deixa-se afundar, regressando ao estado de torpor miserável.
Dois dias depois tenta de novo, e desta vez ela atende. Estabelecido o contacto telefónico apressa-se a perguntar se ela viu os poemas, e o que acha, e se sente incómodo com este tipo de atenções que ele lhe dispensa. Ela, cuidadosamente, responde-lhe que sim, leu os poemas e achou interessantes. E que não, não se sente nada incomodada. Que apenas espera da parte dele que essas atenções não se tornem uma solicitação permanente através de telefonemas e mensagens. Ele descansa-a a esse respeito.

(…)

FIM