Dominguices

Lembro-me perfeitamente do meu único acidente de mota. Foi ao incliná-la que ela se desequilibrou e caiu, partindo-me a perna esquerda.
Aqui está a foto tirada uma ou duas semanas antes do acidente, em 1964, no Domingo de Páscoa (29 de Março). Na altura do acidente eu tinha 28 meses de idade e serviu de emenda; nunca mais tive um acidente de mota, mesmo durante o período das parvoíces com a Casal, dos 12 aos 14/15 anos, ou agora com a Deauville, passando pela “vingança de Estaline” com side-car, pelas Viragos ou pela velhinha BSA.
Claro que na altura do acidente a “Famel Victória 5 estrelas” estava parada e eu fi-la cair ao tentar montá-la.
Ainda não tinha estatura para me bater com essa obra didascálica “A Ensinança de Bem Cavalgar Toda a Sela” que o previdente D. Duarte deixou para as futuras gentes do seu reino; tampouco fui alertado pela tradição oral popular fazendo eco dos ensinamentos do Conde Montanelas, mormente dos seus avisos acerca da rigorosa dedicação que a arte de montar exige. Mas aprendi.
Aqui ficam algumas fotos das duas rodas da minha vida.



Eu, na Victória ***** em 1964, com o meu "capacete" de palha.


A minha BSA c10 de 250cc, de 1954


A DNEPR 650 com side-car. Cópia russa da BMW da II Guerra Mundial.





A Virago 535, depois da Virago 250.

A máquina actual, Deauville 650.

é crime? pois é!

«Ser um apoiante do governo actual é uma espécie de crime»
João Galamba - in revista Pública, de que o senhor Eduardo Pitta faz eco, provavelmente por se sentir solidário com o lamentoso.



Coitado do João Galamba. Certamente, os que o criticam devem calar-se e calar as críticas ao governo, como boas ovelhas a que devem aspirar ser, esperando um braçado de erva seca?! Não lhe passa pela cabeça que é criticado porque, aos olhos dos críticos, apoia a maldade?!
É convicção de muitos portugueses – convicção baseada no vasto rol de casos não explicados/justificadas pelos visados – que este governo pratica ilicitudes e manipula a polícia e a Justiça de forma a manter as suas acções inalcançáveis. Mas como ainda não controla tudo a 100%, de vez em quando lá transpira coisa incómoda, e então ficamos a conhecer mais um podre do hediondo (des)governo deste país.
Isto é falso? É cabala da comunicação social e dos adversários políticos? Não me gozem, e não gozem com a maioria dos portugueses que dão atenção ao que se passa neste país. Estes senhores que governam fazem parte da família política que sempre manipulou a informação e a comunicação social em Portugal. Fazem parte daquela trupe que mente descarada e repetidamente, transformando as mentiras em verdades. Portanto, não são vítimas. Antes vitimizam-se, procurando credibilidade para a sua actuação maquiavélica.
Mas não nos confundam com os outros portugueses, os que se alheiam da vida cívica e da política, os tolos que a “máquina“ alimenta a pão-de-ló: mais um empregozito aqui, um subsidiozito ali, um contrato de fornecimento ou prestação de serviço acolá, ou uns entrolhos de muar em jeito de oferta natalícia.
Há milhares de galambas por este país fora: uns que agem por ignorância e outros por malvadez, mas com convicção suficiente para persuadir o próximo ou, pelo menos, instalar a dúvida nos espíritos menos avisados.
Eppur si muove.

assim é que é

«... escrever num blogue é um exercício. juntar ideias, brincar, improvisar. dá gozo quando é indiferente, quando não é para ninguém, quando não se pretende impressionar, dialogar, chegar a. só gosto do blogue quando me estou nas tintas para o leitor. quando venho aqui e arrisco qualquer coisa, experimento (-me). mas não escrevo para ti, nem para ti, nem mesmo para ti. se gostares, claro, há uma espécie de conforto ou cumplicidade. mas se não gostares, leitor, salta deste carro.» daqui

limpar Portugal

Evidentemente, não limparam nada. Mantém-se a mesma sujidade. Os mesmos políticos, os mesmos administradores, a mesma corrupção, a mesma máfia. Nunca acreditei nisto porque sei que a porcaria não se limpa a si própria.

velhas guerras

Sempre estranhei não haver aulas de condução em estrada, tipo percorrer 40 ou 50 km da Via do Infante, no decurso da Instrução de Condução Automóvel. Não é esquisito receber a carta de condução sem nunca ter ido para a estrada, literalmente? E este é apenas um dos aspectos defeituosos, uma das muitas falhas dessa “instrução”.
Sobre as novas normas para o ensino da condução, não acredito que venham contribuir para resolver o problema da sinistralidade automóvel. A exigência de percorrer mil quilómetros durante o curso não resolve nada. Podem andar à volta do quarteirão até perfazer essa distância. Durante as aulas, e até ao exame, os animais portam-se bem. Depois de obtida a autorização e adquirido o bólide, tudo muda. Então, cada carta de condução é um convite a integrar as fileiras dos guerreiros do asfalto. Mais um potencial “soldado” para combater batalhas de aço e plástico, potência e velocidade, de onde sobeja, invariavelmente, muito sangue e carniça desfeita.
E assim continua a formação desses obnóxios que ceifam ou estragam tantas vidas – as próprias e as de terceiros –, nessas batalhas que decorrem em todas as faixas alcatroadas deste país.
Hoje, com 48 anos, conduzo muito melhor do que aos 24, com mais cuidado e consciência, resultado da experiência ao volante e, sobretudo, influenciado pelas muitas tragédias testemunhadas. Mas não resultado da formação nem de aprendizagem correcta, que não existe neste país. Obviamente, as campanhas de prevenção rodoviária e as dinâmicas das autoridades – assentes, estas, em estratégias de coacção, e sensibilizações estéreis para enganar idiotas – tampouco obviam ou resolvem o quer que seja. Actualmente, a actuação das autoridades de trânsito incide, especialmente, na caça à multa, respondendo ao objectivo maior da sua relação contratual enquanto funcionários públicos: alcançar produtividade convertida em euros.
E devemos admirar-nos? Claro que não, pois trata-se apenas de mais uma manifestação do absurdo que reina nesta sociedade paradoxal, gerida pelos indivíduos mais inaptos e néscios, em quem os mais capazes e inteligentes relegaram os mais amplos poderes de decidir e executar.
Solução: esperar que todos os conscientes morram, eventualmente nas batalhas do alcatrão. Então, estes problemas desaparecem.

Escrever

Escrever é um acto de "resistência". Resistir ao vocabulário anarquizado, dúbio e pernicioso que, insidiosamente, tem sido vinculado à imagem (foto, TV, pintura, cinema, sinalética urbana, etc). A cada minuto que passa, a palavra, sobretudo a escrita, perde terreno para essas novas imagens construídas para comunicar com os iletrados, incapacitados e imbecilizados do mundo global, desritmado, vertiginoso, em que vivemos.
Escrever, é resistir contra o uso pérfido da imagem, essa coisa inventada “para submeter as massas" como dizia Umberto Eco.

matou-se porque era louco, ou porque não quis continuar entre loucos?

«"Segundo os jornais 'Público' e 'i', o professor de Música que se suicidou a 9 de Fevereiro deste ano, parou o carro na Ponte 25 de Abril, em Lisboa, e atirou-se ao rio Tejo. No seu computador pessoal, noticiam os dois diários, deixou um texto que afirmava: 'Se o meu destino é sofrer, dando aulas a alunos que não me respeitam e me põem fora de mim, não tendo outras fontes de rendimento, a única solução apaziguadora será o suicídio', disse o licenciado em Sociologia.
O 'i' coloca o 9B no centro deste caso, escrevendo que os problemas do malogrado professor tinham como foco insultos dentro da sala de aula, situações essas que motivaram sete participações à direcção da escola, que em nada resultaram.
E à boa maneira portuguesa, lá veio o director regional de Educação de Lisboa desejar que o inquérito instaurado na escola de Fitares esclareça este caso. Mas também à boa maneira deste país, adiantou que o docente tinha uma 'fragilidade psicológica há muito tempo'.
Só entendo estas afirmações num país que, constantemente, quer enveredar pelo caminho mais fácil, desculpando os culpados e deixar a defesa para aqueles que, infelizmente, já não se podem defender.
É assim tão lógico pensarmos que este senhor professor, por ter a tal fragilidade psicológica, não precisaria de algo mais do que um simples ignorar dos sete processos instaurados àquela turma e que em nada deram? Pois é. O 'prof' era maluco, não era? Por isso, está tudo explicado.
A Direcção Regional de Educação de Lisboa (DREL), à boa maneira portuguesa, colocou psicólogos na tal turma com medo que haja um sentimento de culpa. E não deveria haver? Não há aqui ninguém responsável pela morte deste professor? Pois é, era maluco, não era?
José Joaquim Leitão afirmou que os meninos e meninas desta turma devem ser objecto de preocupação para que não haja traumas no futuro. 'Temos de nos esforçar para que estas situações possam ser ultrapassadas. Trata-se de jovens que são na sua generalidade bons alunos e que não podem transportar na sua vida uma situação de culpa que os pode vir a condicionar pela negativa', afirmou.
Toca a tomar conta dos meninos e meninas porque não pode haver um sentimento de culpa. É verdade! O 'prof' era louco, não era?
Não estou a dizer que haja aqui uma clara relação causa-efeito. Mas alguma coisa deve haver. Existem documentos para analisar, pessoas a interrogar, algumas responsabilidades a apurar. Por isso, neste 'timing', a reacção da DREL é desequilibrada. Só quem não trabalha numa escola ou não lida com o ambiente escolar pode achar estranho (colocando de lado a questão do suicídio em si) que um professor não ande bem da cabeça pelos problemas vividos dentro da sala de aula em tantas escolas deste país.
Não se pode bater nos meninos, não é? Os castigos resultantes dos processos disciplinares instaurados aos infractores resultam sempre numa medida pedagógica, não é? Os papás têm sempre múltiplas oportunidades para defenderem os meninos que não se portaram tão bem, não é? É normal um aluno bater no professor, não é? É normal insultar um auxiliar, não é? É normal pegar fogo à sala de aula ou pontapear os cacifos, não é? É normal levar uma navalha para o recreio, não é? É também normal roubar dois ou três telemóveis no balneário, não é? E também é normal os professores andarem com a cabeça num 'oito' por não se sentirem protegidos por uma ideia pedagógica de que os alunos são o centro de tudo, têm quase sempre razão, que a vida familiar deles justifica tudo, inclusive atitudes violentas sobre os colegas a que agora os entendidos dão o nome de 'bullying'?
De que valem as obras nas escolas, os 'Magalhães', a educação sexual, a internet gratuita ou os apelos de regresso à escola, uma espécie de parábola do 'Filho Pródigo' do Evangelho de São Lucas (cap.15), se as questões disciplinares continuam a ser geridas de forma arcaica, com estilo progressista, passando impunes os infractores?
Só quem anda longe do meio escolar é que ficou surpreendido com o suicídio do pequeno Leandro ou com o voo picado para o Tejo do professor de Música. Nas escolas, antigamente, preveniam-se as causas. Hoje, lamentam-se, com lágrimas de crocodilo, os efeitos. O professor era louco, não era? Tinha uma clara fragilidade psicológica, não tinha? Pobre senhor. Se calhar teve o azar de ter que ganhar a vida a dar aulas e não conheceu a sorte daqueles que a ganham a ditar leis do alto da sua poltrona que, em nada, se adequam à realidade das escolas de hoje."»
Ricardo Miguel Vasconcelos, daqui


Num país a sério, as Leis e as normas que gerem as escolas – e a vida em geral – seriam feitas com base na tradição, na cultura e no bom senso, e não importadas de realidades diversas da nossa ou inventadas por sociólogos, politólogos e juristas da treta. Num país a sério os pais seriam responsabilizados pelo comportamento dos filhos – através de multas, dias de trabalho em prol da comunidade, penalizações sociais etc. Num país a sério, os directores da Escola já tinham sido suspensos e esses boys da DREL demitidos por abrir a cloaca proferindo imbecilidades.
Mas tudo isso seria num país a sério, não neste rectângulo parolo controlado pela máfia desonesta e corrupta. Por cá, sob orientação da maior escumalha que já governou este país, as escolas são a caixa de ressonância de uma sociedade parideira de pequenos psicopatas... que hão-de crescer.
Ó engenheiro, vai prá puta que te pariu!!!

faz anos

... e nunca mais esqueci que:

\lambda = \frac{c}{f}

Disseram "Limpar"?

Agora é que o país vai ao fundo. Anda por aí um bando de malucos que pretende Limpar Portugal. Então não sabem que debaixo de cada monte de entulho está um buraco por onde entrará a água que nos levará a todos para o fundo? E, pelos vistos, também nunca ouviram falar daquele gajo que raramente se lavava, e quando o fazia era com uma esponja com que, cuidadosamente, removia a lazeira de algumas (poucas) partes do corpo? Quando o obrigaram a tomar um banho diário não aguentou, morreu no dia seguinte ao segundo banho. LIMPAR PORTUGAL? É que nem pensar!



Além disso, para limpar, limpar mesmo o país, teriam de começar por outro lado que não os entulhos, mini-lixeiras e frigoríficos abandonados. Tá certo?!

O Tesouro

Era uma caixa de madeira enorme com os dois rótulos da ordem numa das faces maiores, remetente e destinatário, em papel branco redigido a lapiseira numa letra cuidada, talvez do amanuense da empresa Camionagem Central do Sul.

Terá sido por volta de 1976 ou 1977 que o meu tio Ginésio nos enviou esta encomenda. Mais uma das suas habituais caixas de madeira que usualmente traziam bacalhaus, ananases, cerejas, e outras iguarias que já não recordo. Depois de descarregadas pelos homens da camionagem, ficavam ali no meio da sala aguardando a chegada do meu pai que, então, as abria com uma chave de fendas enorme.

Era cedo, teria de esperar o toque da sirene da fábrica e o ruído da motorizada para depois o ver enfiar a mão pelo postigo e destrancar a porta; perscrutando então e o seu semblante sereno, inalterável, no seu fato azul de “afinador de cravadeiras” e restantes engenhos mecânicos da fábrica conserveira.

Enquanto essa cena não decorria, ali estávamos, eu e a caixa, olhando-nos desconfiados, como perfeitos estranhos. Ela, imóvel, repousando no meio da sala, e eu irrequieto no sofá de onde me levantava amiúde para cheirá-la, tentando detectar algum odor que revelasse o seu conteúdo. Inutilmente.

Mesmo que conhecesse todos os 17 ou 18 irmãos do meu pai, o meu tio Ginésio seria sempre um dos meus favoritos. Logo, porque era dos mais parecidos com o retrato que conhecia do meu avô; um daqueles homens altos, morenos, de cabelo repuxado para trás seguro na brilhantina e bigodes negros ondulantes terminados em pontas retorcidas. Depois, porque possuía um singular magnetismo, completado pelo trato simpático e o olhar sincero, aquele encanto que atrai o próximo e seduz, até, o mais retraído animal. Em sua casa existia, invariavelmente, um papagaio ou um galo da índia amestrado, e a janela abria-se para receber dois ou três pombos que todos os dias pousavam no parapeito e vinham comer à sua mão; e sempre, mas sempre, um cão.
o meu tio em jovem, ainda sem bigode de pontas retorcidas

os meus avós: Maria da Alegria (Celorico da Beira)
e Francisco Lourenço Castelo (Estoi - Faro)
por volta de 1908 (?)

Ao longo da sua última profissão - estucador - deparava muitas vezes com situações em que era necessário vazar as sobras das casas, aquela parte que os proprietários deixavam para trás, como apêndice desnecessário ao prosseguimento das suas vidas.

E foi numa dessas casas lisboetas, que os inquilinos deixaram à consideração dos obreiros, encarregues de lhe dar novo rosto, a tarefa de se desfazerem das sobras que incluíam uma pequena biblioteca escolar em língua francesa.

Ora o meu tio Ginésio, pessoa de pouquíssimas letras mas sabendo-me em idade escolar, tratou de me remeter aquela colecção. Talvez se tenha lembrado de um episódio ocorrido uns dez anos atrás, em que eu, irredutível, exigi aos meus progenitores a compra de um livro que vira no escaparate de uma livraria da capital. Provavelmente impressionado com o facto de um pequeno livro me ter suscitado mais atenção do que a lufa-lufa da grande cidade, ou os seus monumentos e edifícios deslumbrantes. Talvez não tenha esquecido este episódio e, surgida a oportunidade, prendou-me com uns quarenta quilos de livros. Desconhecendo ele a razão do súbito interesse na aquisição do pequeno livro intitulado “O Senhor Cágado”, que o tipo de letra adoptado pela editora fizera sumir o acento e aumentar a minha curiosidade pelo relato de um hipotético senhor cagado que só a meio da viajem de regresso, embalado no ritmo sincopado da ferrovia, descobri não existir; ocupado o protagonismo por uma estranha tartaruga que não lograva dar lugar a nenhum senhor em apuros intestinais.

Aberta a caixa, revelara-se o conteúdo que o meu pai, informado por telefone, já conhecia. Dezenas de livros de uma antiga aluna do Liceu Francês. Assim penso, pois alguns dos volumes, de História ou de Álgebra, tinham um nome feminino aposto no canto superior da primeira página.

Por esta altura, contando eu quatro anos de estudo da língua francesa, já entendia uma leitura directa, e quando o texto agradava recorria ao dicionário para esclarecer alguma palavra mais abstrusa.

Sentir-me-ei eternamente grato ao meu tio Ginésio, por me ter dado um dos mais belos presentes que recebi em toda a vida. Uma caixa de livros usados. Tenho a agradecer-lhe esse momento de magia que foi a descoberta do conteúdo do caixote em que, assombrado, vasculhei avidamente os livros que uma década antes foram esfolheados, lidos, usados por uma jovem aluna do Liceu Charles Lepierre. Talvez no preciso momento em que eu transportava, pelas ruas de Lisboa, de mão dada à minha mãe, um pequeno livro com um intrigante conto de um cágado que ainda não o era.

Hoje, só resta um desses livros, pois ao longo dos tempos ofereci alguns e emprestei outros, que nunca me devolveram. Sobrou este, talvez o mais importante, porque me proporcionou o primeiro contacto, e nalguns casos único, com escritores como: Zola; Baudelaire; Rabelais; Kipling; Voltaire; Verlaine; Rimbaud; Montaigne; Victor Hugo; para citar apenas alguns dos mais famosos. Um autêntico Tesouro.





- - actualizado em: 2010.04.05 - -
Em memória de Ginésio Lourenço Castelo, falecido por volta do dia em que escrevi este texto. Que descanse em paz.

uma notinha só

Lê-se ali, na coluna ao lado, isto: «Em seis anos reuni seis visitantes habituais, outros tantos curiosos que passam, e um crítico singular e rústico, dos que destilam ódio pelos poros, daqueles que denunciam os pseudo-intelectuais, sabem?! Em suma, um caga-lérias que escreve e, escrevendo, envergonha os utilizadores da língua portuguesa maltratando-a em qualquer plano: semântico, lexical, morfológico. É um tosco, um imbecil incapaz de escrever um parágrafo simples com uma sintaxe aceitável. E se o que escreve fosse, ao menos, interessante... Não é, mas escreve. E eu dou-lhe o estímulo, porque cada um escolhe o seu animal de estimação.Rosna bobi, rosna.»

Caros visitantes e, sobretudo, comentadores aqui no Claustro Fobias, estas pessoas a quem me refiro não comentam nem criticam aqui. Ou seja, não me refiro àqueles que me adicionaram no sistema de “seguimento” do blogspot nem aos que aqui costumam deixar, ainda que esporadicamente, uma palavra crítica ou de simpatia; tampouco aos que com maior frequência o fazem. As pessoas sobre quem peroro vêm cá para verificar o que escrevo, se escrevo sobre elas, se as atinjo ou revelo algo que as incomode, se há matéria para processo judicial ou para processo disciplinar p. ex., etc, etc.
Quanto ao crítico rústico, esse profere as arengas no seu blogue ou em caixas de comentários de terceiros, não aqui. Fazia-o até algum tempo atrás. Fá-lo ainda? É coisa a que não sei responder, nem me interessa clarificar posto que esse assunto foi, julgo, ultrapassado.
Este blogue, aliás como qualquer um dos meus outros blogues, não procura audiências alargadas, antes as dispensa. Mas cultiva, cultivo eu com muito agrado, a meia dúzia de amizades que quebram a monotonia do vazio e do silêncio e estabelecem ténues cumplicidades que alegram esta fugaz dedicação à blogosfera.
Da minha parte, só podem esperar uma de duas atitudes, a frontalidade (que no fervilhar da discussão raia, por vezes, a grosseria), ou a indiferença total manifestada no desprezo aos seres que, no meu universo minúsculo, transitaram para a condição de invisíveis. Nada mais simples do que isto.

Saúde.

amiba literata

(…)
Je ne puis jamais m'empêcher de jeter un regard, sinon universellement sympathique, au moins curieux, sur la foule de parias qui se pressent autour de l'enceinte d'un concert public. L'orchestre jette à travers la nuit des chants de fête, de triomphe ou de volupté. Les robes traînent en miroitant; les regards se croisent; les oisifs, fatigués de n'avoir rien fait, se dandinent, feignant de déguster indolemment la musique. Ici rien que de riche, d'heureux; rien qui ne respire et n'inspire l'insouciance et le plaisir de se laisser vivre; rien, excepté l'aspect de cette tourbe qui s'appuie là-bas sur la barrière extérieure, attrapant gratis, au gré du vent, un lambeau de musique, et regardant l'étincelante fournaise intérieure.
C'est toujours quelque chose intéressante que ce reflet de la joie du riche au fond de l'oeil du pauvre. Mais ce jour-là, à travers ce peuple vêtu de blouses et d'indienne, j'aperçus un être dont la noblesse faisait un éclatant contraste avec toute la trivialité environnante.
C'était une femme grande, majestueuse, et si noble dans tout son air, que je n'ai pas souvenir d'avoir vu sa pareille dans les collections des aristocratiques beautés du passé. Un parfum de hautaine vertu émanait de toute sa personne. Son visage, triste et amaigri, était en parfaite accordance avec le grand deuil dont elle était revêtue. Elle aussi, comme la plèbe à laquelle elle s'était mêlée et qu'elle ne voyait pas, elle regardait le monde lumineux avec un oeil profond, et elle écoutait en hochant doucement la tête.
Singulière vision! "A coup sûr, me dis-je, cette pauvreté-là, si pauvreté il y a, ne doit pas admettre l'économie sordide ; un si noble visage m'en répond. Pourquoi donc reste-t-elle volontairement dans un milieu où elle fait une tache si éclatante? " Mais en passant curieusement auprès d'elle, je crus en deviner la raison. La grande veuve tenait par la main un enfant comme elle vêtu de noir; si modique que fût le prix d'entrée, ce prix suffisait peut-être pour payer un des besoins du petit être, mieux encore, une superfluité, un jouet.
Et elle sera rentrée à pied, méditant et rêvant, seule, toujours seule ; car l'enfant est turbulent, égoïste, sans douceur et sans patience ; et il ne peut même pas, comme le pur animal, comme le chien et le chat, servir de confident aux douleurs solitaires.

Porra, basta metade de uma minúscula prosa de Baudelaire para um gajo voltar para debaixo da pedrinha de onde saiu para arengar à Lua. Extasia, e incomoda. É bom, para lembrar o meu lugar no universo.
Ainda assim, aqui fica o resultado dessa breve leitura do Mestre.  Influência subvertida aos sabores de outros tempos e outros desejos (?), pois claro.
 . 

Ele sentou-se num banco do jardim, apartado da multidão, ouvindo a música com que a banda do regimento ornamenta, aos sábados, a Praça da República. Ocupou o centro do banco, com um braço atirado para cada lado, descansando-os sobre a voluta das costas do assento, pernas abertas e casaco desabotoado. O chapéu de palha empinado para trás, desnecessário protector da soalheira na sombra do lódão bastardo que protege o banco e quem nele se senta àquela hora da tarde, rivaliza na sua função protectora com a cobertura esburacada do velho coreto.
Ali, revê em sequência as famílias proeminentes da cidade e a agitação das suas vidas vazias, de endinheirados patos bravos deglutidores de comidas sintéticas nos dias em que os outros trabalham, e petiscos extravagantes aos fins-de-semana. Ignorantes que ostentam, nas raras estantes que decoram as suas mansões e vilas, livros de lombadas alinhadas, luxuosamente encadernados, dos quais por vezes até sabem os títulos ou o nome dos autores.
Imóvel, de olhos semi-cerrados pela canícula que os compassos de uma peça indolente de Sparke calcam ainda mais sobre as pálpebras, mal consegue perceber o vulto que se aproxima cruzando a praça, num percurso tangencial ao banco em que preguiça. É apenas quando o vulto passa, que  liberta a imaginação deixando-a persegui-lo, a ele ou ela, numa indómita vontade de lhe saltar em cima, liberto já das roupas que embaraçam as vontades obscenas.



o fado português

Sob um céu azul e luminoso, num pequeno país abeirado ao mar, repleto de prédios e faixas alcatroadas ao longo do litoral, deparo com multidões de gente que caminha curvada, dobrada sobre si própria, sob o peso da dívida que carrega às costas. Perguntei para onde iam, responderam-me que não sabiam, que deambulavam por ali como sempre o tinham feito desde o princípio dos tempos. Certamente tinham um rumo, um objectivo, cumprindo um desígnio definido por alguém, mas que não sabiam, não conheciam tal destino. Rostos tristes, austeros, talhados no tinto e no fado e neles anestesiados, não reclamam, não lamentam, não reagem ao peso do fardo que transportam; aceitando-o como parte do seu ser, porque com ele já nasceram. Em cada esquina o mesmo, em cada rosto a igualdade sem desespero, sem brilho, sem felicidade, ostentando apenas a resignação que cedo lhes foi inculcada. A resignação dos condenados. Em vez de tentar compreender as multidões, integrei-me na fila mais próxima, segurando uma vela na mão direita e suportando o estranho peso que imediatamente me obrigou a dobrar o tronco. Num breve relance enquanto baixava o rosto e o olhar para o chão, ainda vislumbrei umas pessoas por detrás das janelas enormes da vivenda mais próxima, erectas, engravatadas, segurando flutes de champanhe e sorrindo, felizes. E nós lá seguimos entorpecidos num cepticismo imbecil, numa anulação de qualquer esforço mental, caquécticos de oito séculos.


Inspirado em “Cada Um Com a Sua Quimera” in O SPLEEN DE PARIS, de C. Baudelaire

u amikão

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u kãoguresso

Sobre o congresso do PSD, registo a imbecilidade da aprovação de uma norma que prevê a penalização dos militantes que profiram críticas à liderança do partido no período dos 60 dias que antecedem as eleições. Pergunto-me se vão expulsar o Marcelo Rebelo de Sousa quando ele cascar na liderança, nos seus comentários televisivos, e questiono-me acerca dos conteúdos das campanhas eleitorais que, forçosamente, decorrerão dentro desse período temporal. Não é o Pedro Santana Lopes que anda mal, mas sim os congressistas que o tomam a sério, não percebendo que ele é apenas uma personagem engraçada.
Continuo a repetir, hoje, o mesmo que respondi há uns doze ou treze anos a um amigo simpatizante do PC, que me acusava de ter ingressado no Partido dos Ricos. Na realidade, ao ingressar no PSD descobri que há por lá mais pobres do que ricos. Pobres de espírito, misturados com gente honesta, trabalhadora e pagadora de impostos, empreendedores daqueles que costumam enformar o tecido vivo de um país dinâmico. Daquela gente que sente com toda a violência o efeito nefasto, para o país, das governações do PS.
No resto, pareceu-me um congresso igual aos anteriores.
Mesdames et messieurs: Rien ne vas plus!

Os portugueses e o futuro

Ligar o som e apreciar esta síntese da obra que não escrevo para não vos maçar com leitura extensa.

eleitores

O cidadão eleitor português não está informado. Na realidade, de tanto assimilar as meias informações (geralmente manipuladas) que diariamente lhe são servidas, está desinformado. Em todo o caso, também não é apenas com essa “informação” que avalia os candidatos ou os lacónicos programas eleitorais. A sua principal ferramenta de avaliação é a empatia. A relação de amor/ódio, de subserviência/intransigência, que estabelece com cada figura que o pequeno ecrã lhe apresenta. Ora, considerando que a sociedade contemporânea, de vida alucinante e deformada, induz paranóias, esquizofrenias, depressões, bipolaridades, mesmo nos indivíduos considerados “normais” – com as resultantes angustias, fobias, desajustes emocionais e semelhantes – é óbvio que a maior parte dos cidadãos não possui condições mentais para avaliar, criticar, julgar, decidir, eleger. É por isso que isto tudo não passa de um imenso manicómio em que, de há muito, os sãos foram colocados no lugar dos alienados - à margem.
Que fazer? A História não mostra solução diferente do que destruir. Destruir para começar de novo. Recomeçar com novos atributos, novas concepções, novos valores. Porém, o fado civilizacional, desconcertante, apenas perspectiva a repetição: o trilhar dos mesmos passos pelos mesmos caminhos, a repetição dos mesmos erros ad aeternum et ad nauseam.

escorregadios

Estes políticos de hoje são tão escorregadios que me escapam completamente e acabo por não ter candidatos para nada. Assim, não brinco mais às democracias. Não voto!

estou a ficar famoso


Os gajos do blogue local da má língua é que começaram a dar-me destaque. Eu até estava sossegado no meu cantinho. Rapidamente, a coisa ganhou importância e passou além-fronteiras. Já receio o assédio dos paparazzi.





questões de armamento

«Antes que a ideia de Deus esmagasse os homens, antes dos autos de fé, das perseguições religiosas da Inquisição e do fundamentalismo islâmico, o Mediterrâneo inventou a arte de viver. Os homens viviam livres dos castigos de Deus e das ameaças dos Profetas: na barca da morte até à outra vida, como acreditavam os egípcios. E os deuses eram, em vida dos homens, apenas a celebração de cada coisa: a caça, a pesca, o vinho, a agricultura, o amor. Os deuses encarnavam a festa e a alegria da vida e não o terror da morte.
Antes da queda de Granada, antes das fogueiras da Inquisição, antes dos massacres da Argélia, o Mediterrâneo ergueu uma civilização fundada na celebração da vida, na beleza de todas as coisas e na tolerância dos que sabem que, seja qual for o Deus que reclame a nossa vida morta, o resto é nosso e pertence-nos - por uma única, breve e intensa passagem. É a isso que chamamos liberdade - a grande herança do mundo do Mediterrâneo.»

Saramago apanhou das brigadas de defesa da “religião imoral” às contas do “Caim”. Já o Miguel Sousa Tavares, esse poço de sabedoria etilizada – que, formalmente, até escreve melhor do que o Saramago, veja-se o texto acima –, foi poupado às avantesmas. Claro, o Saramago vinha com o Caim, uma espécie de indigente andrajoso que, no máximo, contaria por arma algum calhau encontrado no caminho, enquanto o Miguel trouxe o David Crockett, um gajo vestido de peles e armado com o seu fuzil de caça. Nestas coisas, o tipo de armamento faz toda a diferença.

reacender lampiões?

Cahia o crepusculo sobre o escampado arido e esbrazeado daquelle recanto sertanejo do Estado do Ceará, ao pé da serra do Araripe: o engenho de rapadura Boa-Vista, a cinco Leguas da cidade de Missão Velha, quando o sr. José Alves Feitosa ali chegou.
Um crepúsculo doloroso, sertanejo, manchando a paisagem de sombras e diffundindo uma melancolia por tudo…
Gentis e acolhedores, os senhores de engenho o receberam, prodigalisando-lhe o conforto de uma hospedagem, onde elle repousaria da viagem exhaustiva.
Ahi, foi que se aproximou de Lampeão.
Este assomara, á porta, desarmado, fitando o recem-chegado, que o interpelou logo:
- É o capitão Virgulino Ferreira?
- Às suas ordens.
- Já o conhecia através de photographias.
- Ah! Foram esses retratos de que o sr. Fala, que me inutilisaram. Si não tivesse deixado photographar-me, seria desconhecido e já poderia ter desapparecido, sumindo-me no mundo, indo para longe, ganhar a vida tranquilamente, sem attribulação dessa angustia constante de ser perseguido…
- E o sr. É perseguido? Dizem na capital que a polícia…
- … não persegue, porque sou amigo dos oficiaes. É verdade, mas, ainda assim, as trahições, o sr. comprehende.
No ano passado, Isaías Arruda, meu grande amigo, chefe político cearense, surpreendeu-me numa localidade deste Estado com um cerco policial terrível de que me livrei não sei como.
Estas cousas são que magoam…
Uma trahição, o diabo!
Gosto dos oficiaes e odeio os chefes de polícia.
(…)
- Disse-me, há pouco, que se pudesse abandonaria o cangaço…
- Sim. Por que eu não vivo a vida do cangaço, por maldade minha.
É pela maldade dos outros, dos homens que não têm coragem de lutar corpo a coprpo como eu e vão matando a gente na sombra, nas tocaias covardes.
Tenho que vingar a morte de meus paes. Era meninote quando os mataram. Bebi o sangue que jorrava do peito de minha mãe e, beijando-lhe a bocca fria e morta, jurei vingal-a…
É por isso, que de rifle ás costas, cruzando as estradas do sertão, deixo um rastro sangrento, na procura dos assassinos de meus paes.
(…)
Apertando as mãos hospitaleiras de Rosendo, o dono da rústica engenhoca o monarcha sanguinolento dos sertões tomou a estrada poeirenta para as incertezas do seu destino.

In “ A palavra de Lampeão – O monarcha selvagem dos sertões”, Jornal O POVO, de 4 de Junho 1928, citando a entrevista dada pelo cangaceiro ao Jornal “A NOITE”, de Recife.

(foto de wikipédia)

A 27 de Julho de 1938 o bando acampou na fazenda Angicos, situada no sertão de Sergipe, onde foi cercado por uma força policial móvel (volante). O ataque durou uns vinte minutos, e dos trinta e quatro cangaceiros onze morreram ali mesmo. Lampião foi um dos primeiros. A força volante, seguindo o costume da época, decapitou Lampião, bem como a sua companheira, Maria Bonita (que ainda estava viva quando a sua cabeça foi degolada), e outros 9 membros do bando. Um dos policias desferiu uma valente coronhada na cabeça de Lampião, deformando-a e contribuindo para a lenda de que o cangaceiro não havia sido morto, e escapara da emboscada, tal foi a modificação causada na sua fisionomia.

a língua dormente

Disse a Fernanda Câncio* e eu concordo:

O decesso do esparadrapo
Fernanda Câncio

Dentro daquela lógica de dividir o mundo entre dois tipos de pessoas, as palavras "difíceis" fazem um bom trabalho.

Infelizmente, nos dias que correm, e pelo menos no que a Portugal respeita, a desproporção entre os grupos chegou ao ponto de um deles estar em vias de extinção. Que é como quem diz decesso. Sabia o caro leitor, antes de ler estas linhas, o que quer dizer decesso?

Calculo que não. É uma palavra quase banida do linguajar corrente, apesar de ouvirmos as suas versões francesa e inglesa ("decés" e o
verbo "to decease") todos os dias nos filmes. Decesso é a minha "nova palavra", desde que a ouvi, há dias, num debate na RTP-N, dita por um advogado. Foi com um entusiasmo infantil, de criança que aprende a juntar as letras, que a repeti e partilhei com uma série de amigos e colegas. Por acaso no mesmo dia em que constatei que em dezenas de pessoas só três sabiam o que quer dizer esparadrapo (pano com unguento, penso). A maioria retorquia a pergunta: "Es-quê?". Um ou dois nem o significado de "unguento" vislumbravam. O mesmo quanto a tergiversar (hesitar, fugir ao
tema), ou estultícia (estupidez). Ou quanto a uma palavra como transporte também querer dizer êxtase ou entusiasmo.

Isto para concluir o quê? Que há um acervo (grande quantidade) de palavras que nunca são usadas e de significados que se perderam.

Que o arroubo da língua e dos seus infinitos cambiantes gasta os seus últimos prosélitos, cujo culto sincero se confunde cada vez mais com arrogância ou barroquismo. Num país que se diz de poetas, as palavras morrem assim, sem arauto nem enterro, no fundo de um baú onde já ninguém as procura.

Uma tragédia muda, portanto.

*Do pouco que conheço, muito pouco, das posições políticas da jornalista, não apoio nem subscrevo. Mas isso não me impede de concordar com esta reflexão. E também não conhecia a palavra "decesso". Só não conhece a palavra esparadrapo quem não leu os primeiros álbuns do Tintim em português (do Brasil).

Frases à deriva

"há tentativas claras de condicionamento da liberdade de informação em Portugal apoiadas por José Sócrates." daqui

"A religião ecológica e a mentalidade dos talibans tem muito em comum!" daqui

"Depois do socialismo na gaveta, o socialismo na latrina" daqui

"Há gajos que só se lembram do Serviço Nacional de Sangue quando querem cabidela." não é daqui mas podia ser

mas esta é: "Remédio contra a ejaculação precoce chega às farmácias antes do previsto"

sobre eu cá

Só os amorfos não têm inimigos, só os que não têm ideias próprias, os que enfileiram cegamente por aqui ou por ali e não traçam o seu próprio caminho recusando a constante instância “Vem por aqui!”, é que não granjeiam inimizades. As inimizades de quem age e, agindo, incomoda.

“Acção é termos carácter. Se não fizéssemos nada, nunca seríamos ninguém”. Só estranho que alguns que assim pensam e agem tentem coarctar tal dinâmica aos outros. Ou não será tão estranho, mas antes a interminável história dos indivíduos em sociedade, entregues a essa eterna luta que opõe a emancipação à dominação. E muitos dos que querem dominar, impreparados para tal, depressa ficam ofuscados no seu trilho e nem se apercebem de quão cerceiam a liberdade dos outros. Seguem na frente, de olhos bem abertos, mas vão cegos.

Já lá vai o tempo em que pugnava pelo bom relacionamento com toda a gente, ficando incomodado sempre que alguma birra – minha ou do outro –, nos punha de candeias às avessas. “Ser amigo é que é bonito”, assim se aprende desde pequeno. Mesmo que esse amigo seja o maior filho-da-puta que a cidade criou?! Nada mais errado.

De facto, eivado desse profundo sentimento, desse ensinamento cristão de resignação perante uma realidade supostamente inalterável, quiçá resultante dos desígnios de Deus - assim nos ensinam subliminarmente -, era-me penoso evitar cumprimentar um concidadão com quem me cruzava na rua.

Ora, a vida ensinou-me que essa atitude não é compatível com a defesa intransigente das coisas em que acreditamos. Não é conciliável com o assumir das nossas verdades, sobretudo quando elas não são partilháveis e são, até, antagónicas às dos outros.

Assim, passei a aceitar e a praticar o distanciamento e o desprezo por pessoas com as quais não me identifico nem me revejo nas suas atitudes. Pessoas com quem não compartilho os valores que reputo essenciais à vida em comunidade.

Reconheço que também cometo erros, que também tenho defeitos, como o cinismo de quem recusa perder tempo com gente que pouco ou nada de valioso tem para ensinar. Ou o artifício e a dissimulação que integro numa estratégia de reacção aos feitos velhacos dos outros, a quem só perdoo na sua quietude e nunca em função de actos de contrição e menos ainda de continuado revanchismo.

Não, hoje não me incomodo com o facto de existirem seres invisíveis, pessoas que deixei de ver, que remeti para o limbo do desprezo. Sobre as quais não me interessa o menor facto da sua existência. E nisso não vejo mal mas antes a ordem natural das coisas. Mais importante do que esse pretenso respeito pelo próximo é o respeito por nós próprios. E quando estas duas deferências não são compatíveis, que prevaleça o respeito por nós próprios, sob pena de o perdermos sobre o todo.

Mas sou generoso, sempre fui. Dou mais aos meus inimigos do que aos meus amigos. E não é adulação, é franqueza.

Aos meus amigos, saúde e longa vida.
Aos meus inimigos, saúde, longa vida e... bardamerda.


PS: - Não, não estou azedo. Estou apenas arrebatado com o que escrevo. Seja verdade ou não, aquilo que digo. hehehehe...

a Mesa contra-ataca (e leva na tromba outra vez, pois claro!)

Hehehehe… os da mesa redonda perderam as estribeiras. Sempre tentaram comprometer-me com o seu blogue (e não só a mim, bem sei) no intuito de desviar as atenções do poder sobre a verdadeira identidade de quem compõe a dita mesa, de que nunca fiz parte - nem do anterior blogue que a terá originado, o tal “5 pontas”.

Suspeito que a dor de corno deles é justamente por eu nunca ter participado no blogue. Agora fingem que houve zanga entre comadres.

Quanto ao coitado, que assina Filipa Neves, ter ficado irritado por lhe apontar erros, que mais poderei fazer, senão rir-me da sua cretinice?

Aos demais, público internauta e representantes do status, desenganem-se se pensam que vão assistir a um lavar de roupa suja. As comadres da “mesa-redonda” não fazem parte da minha família, nem nunca fizeram. No entanto, podem ler tudo o que tenho a dizer sobre o assunto, incluindo os mails recebidos dessa mesa-redonda aqui




Ao amigo da onça e que assina "o visado", lá na cloaca máxima, deixe a minha defesa comigo, que é feita aqui e não lá.



para ficar à mão


"La Ricotta" de Pasolini e "Roma" de Fellini constituem verdadeiros tesouros do Cinema.
Para completar a Santíssima Trindade, referencio "1900" de Bertolucci. O resto, em matéria de autores/realizadores, descontado o excelente cinema de época britânico, o resto é paisagem quase enfastiante.

39º minuto

(...)
Chutou a bola "com o pé que tinha mais à mão" e a esfera de couro elevou-se no ar descrevendo um arco de elipse, findo o qual foi rebentar contra o poste direito da baliza, expondo as entranhas de cauchu.
Os outros quatro da equipa olharam desanimados com tal dispêndio de força bruta que não lograra submeter os totós da equipa adversária.
Tentando desviar as atenções, minimizando o duplo percalço, falhanço e destruição do esférico, interpelou o colega mais perto de si: - Ó Pinto, mas conta lá o que encontraste sobre o gajo nos arquivos da polícia?!
O oficial das FAP, ofegante, olhou-o decepcionado com o desenrolar do jogo que, visivelmente, não iriam conseguir vencer.
(...)