Lagos em meados do Séc. XIX
Lagos em meados do séc. XIX
por Francisco Castelo
(transcrição com adaptação de um texto de 1860, de Inácio de Vilhena
Barbosa)
A
meio dos anos mil oitocentos Lagos tinha uma população de 8.400 habitantes,
sendo a segunda cidade do reino do Algarve.
Erguendo-se
sobre três colinas existentes na margem direita de um pequeno rio (com cerca de
meia légua de extensão), a cidade está situada na face ocidental de uma grande
baía que recebe o nome da cidade. A barra do curso de água que forma o porto da
cidade é defendida pela fortaleza da Ponta da Bandeira, que serve de registro,
e pelo forte da Meia Praia. Para defesa da baía há diversos fortes em melhor ou
pior estado de conservação, sendo o principal a fortaleza do Pinhão, edificada
primitivamente em terra firme, e que ainda nos princípios do século passado
[XVIII] formava uma península, mas que actualmente está cercada de mar, e
arruinada, passando pequenas embarcações entre ela e terra. Outra fortaleza que
se fez em frente a esta, para a substituir, também foi arruinada pelo mar. A
barra, que há cem anos [c. 1750], apresentava sete a oito braças de fundo,
agora apenas tem uns dez palmos.
A
cidade tem duas paróquias: Santa Maria, que é matriz, e S. sebastião. A
primeira encontra-se estabelecida na igreja da Misericórdia, desde o sismo de
1755 que destruiu a anterior igreja matriz [de Santa Maria da Graça]. A
tentativa de reerguer o templo ficou-se pelas meias paredes tendo a obra parado
aí e o espaço sido usado como cemitério nos tempos sequentes. A segunda
paróquia foi edificada numa colina da cidade. É um grande templo de três naves,
de fundação muito antiga, e reconstruído por D. João II que lhe trocou a
invocação primitiva de Conceição pela de S. Sebastião, por ser este santo
padroeiro o advogado contra a peste que então assolava todo o Algarve. Existem
ainda a igreja de Santo António, que é capela militar, e várias ermidas. O
edifício outrora ocupado pelo trem e igreja de Stª Bárbara serve agora de
quartel militar; e a antiga igreja de S. Brás, e a de Nossa Senhora do Porto
Salvo, construída no séc. XVI por comerciantes italianos que vieram
estabelecer-se em Lagos, acham-se transformadas em armazéns de arrecadação
pertencentes ao quartel. Lagos possuía também quatro conventos. O das freiras
carmelitas, de Nossa Senhora da Conceição, fundado em 1554, bastante danificado
em 1755 e reconstruído depois. O dos frades franciscanos, edificado em 1560; o
dos frades trinos, fundado em 1599; e o de S. João de Deus, em que se
estabeleceu um hospital militar, levantado em 1696.
A
cidade conta com quatro praças e algumas ruas boas, porém as outras são
estreitas e tortuosas, e todas mal calçadas. Um aqueduto, obra de D. Manuel,
conduz bom caudal de água vindo do Paúl. Percorrendo uma extensão de 410
braças, abastece a povoação e fornece aguada aos navios. Para este fim existe
um chafariz junto à Porta Nova e da muralha, que cai sobre o rio.
Lagos
é praça d’armas e a sua primeira fortificação data do reinado de D. Afonso IV,
ou talvez do tempo de D. Diniz. Constava de uma cerca de muros com torres e
portas. Nos fins do séc. XVI, inícios do séc. XVII, edificou-se nova cerca de
muralhas, que ao presente se conserva, com oito portas e catorze baluartes.
Para o lado do rio tem as portas de S. Gonçalo, do Cais, de S. Roque, e Nova, e
cinco redutos. Para o lado de terra tem as portas de Portugal, do Postigo, de
Quartos, e da Vila, e nove baluartes.
Lagos
exporta cereais e legumes, muitos figos, algum vinho, aguardente, muito peixe
salgado, azeite de oliveira e óleo de peixe, e diversos produtos de palma e de
fio de piteira. Embora possua uma agricultura que em certos anos regista boa
produtividade, as pescas são a actividade principal. Empregam-se nelas muitas
embarcações e centenas de pescadores que não limitam a sua actividade ao
Algarve mas demandam, também, Marrocos. A pesca do atum assume grande
importância. A feira anual realiza-se a 12 de Outubro.
alguns comentários no FB
Proibição do uso do Burquíni em praias francesas
A questão não é essa, da
igualdade de direitos e tratamento igual (de que tanto nos orgulhamos de
cultivar) mas sim a conotação com um momento de afirmação do islamismo radical,
via terrorismo. Se as mulheres muçulmanas tivessem aparecido nas praias europeias
com estas vestes há 10/15 anos, ninguém contestaria tal facto; hoje, tem outra
conotação (senão mesmo um motivo intencional), nos tempos correntes tem uma
leitura que eu e muitos outros europeus (não islamitas) fazemos: a sintonia com
o islamismo radical.
Para muitos não muçulmanos, como
eu, um hipotético islão moderado não oferece nenhuma credibilidade, apenas
verificamos a existência de islamitas terroristas e islamitas não terroristas
mas que toleram os primeiros. Portanto, todas as atitudes que visem contrariar
e diminuir o impacto social, político e religioso do islão na Europa, são
bem-vindos. Neste momento, os islamitas afiguram-se como sub-humanos aos olhos
de muitos europeus, se isso é resultado de uma actuação passada errada
ocidental ou particularmente resultado de uma cultura obscurantista,
retrógrada, ofensora dos valores humanistas ocidentais, como parece ser a
postura da cultura islamita, esse é um aspecto de importância secundária.
Eu até posso estar errado nalguns
aspectos (e como eu, outros milhões), mas este é o sentimento crescente entre
os herdeiros da dita cultura ocidental e é, em grande parte, com base nele que
vai ser tecida a relação futura com a anomalia islâmica.
Sobre Relvas
O homem já tinha explicado que
ninguém o cumprimentava nos ministérios quando ia visitar algum ministro,
depois do título passou a ouvir: - Bom dia Sr. Dr.! É razão mais que suficiente
para ter arranjado um canudo que não valia menos do que aqueles das novas
oportunidades ou daqueloutros obtidos com notas votadas em plenários nos pós-25
Abril. A merdaleja continua, quer lhe tirem o canudo, quer não.
Dar voz aos imbecis
Mais uma carrada de imbecis, que
nem sabem o que lêem no Facebook, nem quando foi escrito ou dito, nem em que
contexto. O Umberto Eco tinha razão: as redes sociais dão voz aos imbecis, e
temos de viver com isso. Não me esqueço dos parvalhões que se insurgiram contra
o Henrique Raposo quando nem leram integralmente o texto que ele escrevera -
sobre os algarvios; e mais tarde o livro sobre alentejanos. É a imperiosidade
da afirmação "Eu existo!" aliada ao efeito rebanho.
Sobre a escola de hoje
Sem réguas e ponteiros de
castigar a escola perdeu a essência poética. Como perdeu o calor humano desse
contacto físico breve entre carnes e madeiras, correctivo que se expandia
frequentemente por um ou dois parceiros e ricocheteava nas paredes com aquela
intensidade exacta que garantia a recordação para a eternidade. Isso, sim, eram
escolas que marcavam para a vida. Hoje, a escola é um amontoado de carne
indistinta e amorfa para serviço dos macdonalds locais. :D
«O país não promove o mérito, é o
país exemplar da mediocracia, o poder da mediocridade, na política, nas
empresas e em muitas outras áreas. Com a mediocridade doce no poder político,
económico e desportivo & etc., com a corrupção mais suave do mundo, com
um sistema legal-judicial que deixa passar os crimes de colarinho, com dias
bonitos e paisagens espectaculares -- quem quer mais?» Justíssimo retrato de
Portugal por Eduardo Cintra Torres
dos grunhos
Este país é grunho porque os portugueses são grunhos. Século
após século continua a ser o país dos três éfes: Fátima, Fado e Futebol, e isso
diz tudo acerca desta gentalha obnóxia. Não quero saber das excepções, não são
as excepções que movimentam a máquina.
Porém, para os arautos da nacional
cagança e demais horrorizados com a afirmação inicial lá virão os salvíficos
Marcelos, mais os Sousas, afirmar o contrário, que somos um povo que exsuda
dignidade e valentia, e que o melhor do país é mesmo a sua gente, e que não
devemos dar ouvidos aos profetas da desgraça.
Entretanto, os Marcelos, os Sousas,
e os sicários, correligionários, primos e demais séquito continuam as suas
vidas opulentas e fáceis, vidas de grunhos-mor parasitas, enquanto os grunhos
reles sobrevivem e alimentam a máquina perfeita.
Viva Portugal!
«O país não promove o mérito, é o país exemplar da
mediocracia, o poder da mediocridade, na política, nas empresas e em muitas
outras áreas. Com a mediocridade doce no poder político, económico e desportivo
& etc., com a corrupção mais suave do mundo, com um sistema
legal-judicial que deixa passar os crimes de colarinho, com dias bonitos e
paisagens espectaculares -- quem quer mais?»
Justíssimo retrato de Portugal por Eduardo Cintra Torrescitando Paulo Tunhas em CAIXA GERAL DE DEPÓSITOS Os sonhadores, o ridículo e o princípio de realidade
«…Mas melhor ainda foi o que disse um discípulo
de Sócrates com indiscutível talento para a recomposição do mundo em função dos
interesses partidários, João Galamba. Não percebia a intenção do PSD e do CDS.
Então eles não estavam mesmo a ver que o inquérito, a ir em frente, chamuscaria
esses dois partidos? Raras vezes se viu tanta franqueza como aqui. Ou desprezo
pelo cidadão comum, que não se apaixona pelos conflitos partidários. Desconto a
ameaça implícita, que é o menos importante. O que sobra é um belo exemplo da
“ética republicana”: a busca pública da verdade que se lixe.»
Os islamófilos [ou sub-humanos]
(…)
E estúpido também é acreditar nas aflições de tantas almas perante os
"ataques homo-bi-transfóbicos". Sobretudo quando essas almas defendem
em simultâneo o exacto tipo de cultura que, em vez de ridicularizar a
homofobia, incentiva-a. E que, em vez de punir as atrocidades cometidas a
pretexto, legitima-as. Toda a versão "mediática" da discoteca Pulse
ignora o elefante no meio da sala - e que partiu a louça por culpa de Newton e
da gravidade.
(…)
Por
mim, tenderia a crer piamente no islão moderado se este entregasse com
regularidade os seus radicais filhos à polícia ou, na falta de esquadra
próxima, os pendurasse no alto de um poste. A quantidade de desculpas prontas
ou pesares tardios com que trata psicopatas faz-me duvidar ligeiramente do
empenho do islão moderado em justificar a designação. É claro que muitos
muçulmanos não sonham com a explosão de transeuntes. Porém, já que se pretende
banir ou castigar opiniões, seria interessante questioná-los sobre o respeito
que dedicam às mulheres, a certos grupos étnicos, a determinadas religiões e,
se não for maçada, aos homossexuais. Aliás, eles respondem ainda que ninguém
lhes pergunte. Os "activistas" é que fingem não ouvir.
(…)
texto completo aqui
com Vasco Pulido Valente
Entrevista a Vasco Pulido Valente, aqui
«… O grande problema em Portugal é que, para haver um regime
representativo, é preciso haver uma classe média que o sustente. Uma classe
média letrada, mais ou menos participante, que seja capaz de fiscalizar o
poder. E que se sinta parte do regime. Ora, a sociedade portuguesa nunca criou
essa classe média…»
Acordo Ortográfico 1990
9 argumentos contra o
Acordo Ortográfico de 1990
por Manuela Barros
«Qualquer crítica - e qualquer defesa - que se baseie
sobretudo em insultos não é crítica nem defesa: é mero desabafo. Não vale nada.
Por isso apresento uma série de argumentos relativos à eficiência operativa do
AO 90 e a aspectos de ordem linguística, educativa, sociológica, diplomática,
económica e de preservação patrimonial. Todos eles me levam a não concordar com
a sua aplicação.
1. Argumento da pouca eficácia: O AO 90, em vez de diminuir
o número de palavras que se escreviam diferentemente em Portugal e no Brasil,
aumentou-o consideravelmente. Segundo um estudo de Maria Regina Rocha (que
exclui três tipos de vocábulos), 2.691 palavras que se escreviam de forma
diferente mantêm-se diferentes; apenas 569 que eram diferentes se tornaram
iguais; 1.235 palavras que eram iguais tornaram-se diferentes e, destas, 200
mudaram apenas em Portugal, dando origem a soluções aberrantes como aceção,
conceção, confeção, contraceção, deceção, impercetível..., enquanto no Brasil
se continua a escrever acepção, concepção, confecção, contracepção, decepção,
imperceptível, etc. (cf. “A falsa unidade ortográfica”, Jornal Público,
19.01.2013, retomado em http://ciberdúvidas.iscte-iul.pt/.)
2. Argumento de ordem fonológica: Uma das características da
língua portuguesa falada em Portugal é a chamada “elevação das vogais átonas”,
ou seja: para nós, a pronúncia das vogais “a” , “e” e “o” em posição tónica não
é a mesma que a que têm em posição átona. Compare-se o primeiro “a” de “casa”
com o de “casinha”: na primeira palavra o “a” é aberto, e na segunda o “a” é
fechado. Compare-se o “e” de “mesa” com o primeiro de “meseta”: em “mesa”
pronunciamos “ê”, em “meseta” o “e” é mudo. Mesmo que esse “e” desapareça da
fala e digamos “mzeta”, continuamos a perceber que se trata de “meseta”. Dizemos
“tolo” com “ô” mas em “tolice”, o “o” é fechado. Esta regra é de aprendizagem
automática, desde a primeira infância. Existem excepções, por motivos
etimológicos e de paradigma morfológico: caveira, dilação, especar, especular,
padeira, relator, retrovisão e algumas mais. Algumas dessas palavras até
costumavam, até certa altura, levar um acento grave para indicar que a vogal
era aberta: pàdeira e rètaguarda por exemplo. Hoje ele só subsiste como
indicador da junção do artigo “a” com a preposição “a” e com os demonstrativos
aquele, aquela, aquilo (“Dei um bolo à Maria”, “Àquele nunca falo”). Em 1971 no
Brasil e em 1973 em Portugal foi eliminado dos advérbios de modo, e assim
“sòmente” e “fàcilmente” passaram a escrever-se “somente”, “facilmente”. Considerou-se
inútil porque “os falantes da língua sabiam como se pronunciavam as palavras”.
Foi talvez essa a primeira “facada” que os legisladores da língua deram na
transparência que a escrita devia ter para quem o português não era a língua
materna – como era o caso da maior parte dos nativos das colónias de então.
Noutros casos subsistia porém o recurso a letras etimológicas, com a função de
indicar que as vogais que as precediam eram abertas. É o caso de
“nocturno”,“espectador”, “tractor”. Sem esse auxílio, a regra de fechamento da
vogal que não tem acento tónico tende a aplicar-se. É por isso que o AO 90
induz a que se leia “nuturno” ou, quando muito, “nôtúrno”; “espetador” como um
derivado de “espeto” e “trator” com “a” fechado, vocábulo que não existe. Quer
dizer, o AO aumentou desmesuradamente o número das excepções a uma regra de
pronúncia que permitia uma leitura intuitiva.
3. Argumento de ordem morfológica: Há um princípio básico de
qualquer ortografia: a coerência morfológica. O AO 90, seguindo estritamente a
produção fonética, exige que se escreva “os egípcios são os nativos do Egito”.
Conserva-se, e muito bem, o “p” do “egípcio” porque se pronuncia, mas em
“Egito” perde-se a ligação gráfica entre o nome do país e o dos seus
habitantes.
4. Argumento de linguística histórica: A língua portuguesa
é, como todas as línguas naturais, um produto da História. A nossa deriva
maioritariamente do latim, tem muitas raízes gregas, muitas achegas vocabulares
árabes, tem remodelações renascentistas, tem neologismos oriundos das nações
até onde viajou e dos variadíssimos povos, objectos e ideias que aqui foram
chegando através dos séculos. A escrita reflecte essa riqueza. Sobretudo com o
Renascimento, a nossa língua sofreu um impulso extraordinário. A partir dessa altura
foram criadas ou recuperadas numerosas palavras com base no grego e latim. Não
falemos nos termos da Botânica, Medicina, Biologia, Química, que não há lugar
nem tempo para tamanha empresa. Falemos apenas de um processo: o da criação de
palavras derivadas. Se repararem bem, a coerência morfológica que mencionei
acima, é coisa que aparentemente falha: as palavras derivadas muitas vezes
diferem daquela que lhes deram origem. Por exemplo, “lunar” e “luneta” não
derivam de “lua”, “pedal” não deriva de “pé”, “lacticínio” não deriva de
“leite”, “nocturno” não deriva de “noite”. Todas estas (e tantas, tantas
outras...) palavras foram criadas, não a partir da palavra portuguesa (que
sofreu todas as evoluções que o tempo imprimiu à raiz latina), mas sim directamente
a partir do étimo latino, recuperado por pessoas eruditas: “luna-”, “pede-“,
“lacte-“, “nocte-“. Uma coisa é o ter-se a pronúncia do latim transformado por
via popular, através dos séculos (perdendo o “n“, o “l” e outras consoantes
sonoras intervocálicas, transformando “–ct” em “-it”, etc.) outra coisa é
criar-se uma palavra nova, aproveitando, reciclando um étimo já longínquo para
fazer frente às novas necessidades de vocabulário. Deste modo, muitas das
nossas palavras derivadas conservaram o étimo latino a partir do qual foram
criadas. Elas fazem parte do património da língua, veiculando uma dupla marca
de origem: social (erudita) e temporal (tardia).
5. Argumento educativo: Como ensinar a uma criança que
“soturno” se lê com “o” fechado, pronunciado “u” na maior parte do país, e a
palavra “noturno” se lê com “o” aberto”? A resposta é fácil: não se fala no
assunto e fica o caso arrumado. Como ensinar a uma criança que da palavra
“noite” se formou “noitada”, mas que “noiturno” e “noitívago” não existem, o
que existe para o AO 90 é “noturno” e a dupla grafia “notívago” e “noctívago”?
Não seria mais fácil escrever estas últimas com “ct” e dizer-lhe que são
palavras entradas na língua por via erudita e não por via popular? E que, se
elas, crianças, comeram papa “láctea”, esta é outra palavra também erudita, tal
como “lacticínios” ? Escrever “laticínios” não remete para outra coisa a não
ser para “lata”. Talvez a lata de leite condensado que se vende nos
supermercados?
6. Argumento sociológico: Antes de 1990 já existiam duas
grafias em Portugal: a norma de 1945, muito bem destrinçada e explicada em
Prontuários Ortográficos; e uma grafia difusa, sempre em reconstrução e
evolução - a das mensagens juvenis - caracterizada pela simplicidade extrema,
minimalista, com consoantes isoladas representando palavras, sem pontuação, nem
cedilhas nem tiles. Esta tendência não fez senão acentuar-se com a
generalização do uso electrónico. É nesta situação dicotómica que se insere uma
terceira forma ortográfica, a do AO 90. Os defensores da norma de 45 agridem
verbalmente os defensores da de 90 e vice-versa. E os jovens? Uns são
penalizados nas notas por escreverem à antiga algumas palavras-ratoeira; outros
são menosprezados porque escrevem à sua, deles, moda “simplex”; e os que
escrevem “à moderna” deixam de respeitar as edições existentes na biblioteca da
sua escola e inclusive invocam o pretexto da “confusão gráfica” para deixarem
completamente de ler. Se o AO 90 não é um erro sociológico, não sei o que será.
7. Argumento diplomático: O Acordo Ortográfico de 1990
tinha-se proposto unificar a escrita de todos os países de língua oficial
portuguesa. Este objectivo não foi conseguido. Portugal impôs unilateralmente
uma grafia que não tem o acordo de todos . Diz-se que o AO 90 foi feito,
essencialmente, para aumentar as vendas de livros portugueses no Brasil. Para
isso pretendia unificar a escrita. Não unificou. Temos, por exemplo, acentos
agudos onde os brasileiros têm acentos circunflexos (fenómeno /fenômeno, o que
corresponde a uma efectiva diferença de pronúncia); e eliminamos o “c” e o “p”
que são pronunciados em palavras brasileiras e não o são nas correspondentes
portuguesas. Por exemplo, no Brasil: respectivo, perspectiva, recepção; em
Portugal, segundo o AO: respetivo, perspetiva, receção, embora os “e” destas
palavras não se pronunciem como os de “repetido” e “recessão”. Angola e
Moçambique não assinaram o AO 90 (o que me parece um grande exemplo de bom
senso, sobretudo se tivermos em conta o argumento que se segue). A opinião
destes países de língua oficial portuguesa devia ter sido ponderada e tida em
conta pelo governo português antes de avançar para uma “situação de facto”
extremamente difícil de reverter.
8. Argumento económico: O que teria sido economicamente mais
recomendável? Adoptar como obrigatório o AO 90 em nome de futuras vendas de
futuros livros, tornando obsoletas as bibliotecas existentes? Ou manter a
escrita de 1945, com todo o enorme acervo literário e científico que produziu?
Leiamos as palavras da escritora moçambicana Paulina Chiziene: “Quantos
dicionários Moçambique terá de comprar de novo? Quantos livros terá de mandar
reescrever? Quantos livros de escola terão de ser refeitos, em nome de um
acordo ortográfico? Será que vale a pena sacrificar tanto dinheiro dos pobres
só para tirar um “c” e um “p” do que está escrito? [...] Penso que é um
capricho tão desnecessário quanto caro”. (in “Tradutores contra o Acordo
Ortográfico”, FB).
9. Argumento da preservação patrimonial: É natural que uma
língua que se começou a escrever e ensinar há relativamente pouco tempo – por
exemplo, o mirandês, no fim do século XX – não tenha qualquer obrigação de
respeitar formas que os portugueses foram elaborando ao longo dos séculos.
Porém a mim parece-me que todos nós, portugueses, que dispomos de uma língua
escrita desde, pelo menos, D. Afonso II, temos obrigação de manter o mais
possível as marcas históricas das palavras que até nós chegaram. A grafia
portuguesa já em tempos renunciou a algumas marcas históricas: por exemplo, o
“ph” e os “ll” etimológicos (pronunciados “f” e “l”), dado que esse modo de
escrever induzia a leituras erradas, e podia, por isso mesmo, ser descartado.
Porém o AO 90 vai longe demais, ao afectar de modo evidente a leitura das
vogais não acentuadas e a íntima conexão lógica que existe dentro de cada
paradigma vocabular. Ao modificar-se a escrita, com base numa (suposta) maior
facilidade da sua aprendizagem, estabeleceu-se uma enorme confusão nessa mesma
escrita e perdeu-se a possibilidade de jovens e menos jovens compreenderem os
mecanismos de formação das palavras. Perdeu-se o nexo entre elas.
Para terminar: Outra coisa ainda deveria ser tida em conta:
ao renunciar de modo cego às marcas históricas, este “acordo” insere-se num
movimento global de apagamento da memória e de negação da História. Terrível
movimento, que cada dia se torna mais evidente e que deixará sem raízes, sem
passado, uma série de povos, se não a maioria. E que já está deixando o mundo à
deriva, presa dócil de todas as tiranias. Admiramo-nos do modo como estão sendo
destruídos monumentos, museus, cidades, inúmeras etnias e línguas. Este
desrespeito, este crime que hoje nos parece abrupto, começou devagar, por
pequenas coisas, aparentemente insignificantes.
É inelutável? Será irreversível? Há quem diga que é
demasiado tarde para recuar. Mas talvez ainda se possa fazer qualquer coisa.
Mesmo este Acordo, que ainda não está instaurado em todo o mundo lusófono, é
passível de emendas fundamentais. Ou de ser conscientemente desobedecido por muitos
e muitos anos.»
sobre PPC
Maria de Fátima Bonifácio
«Desde o Congresso do PSD, tão morno e tão maçador que foi
qualificado de “anestésico”, correm as lamúrias sobre a “fragilidade” e o
“isolamento” de Passos Coelho, de quem o povo laranja teria esperado que se
reinventasse, mas que, para grande decepção dos adeptos, se apresentou ao
conclave igualzinho a si mesmo. Ainda por cima, disse – e repetiu – com toda a
clareza que o PSD não voltaria ao poder na semana seguinte, nem ainda no mês de
Maio do ano em curso, o máximo de espera suportável. Que não: que a actual
maioria, legal e legítima, se revelara mais sólida do que se julgara; que era
impossível assinar-lhe uma longevidade certa e definida; e que, por
conseguinte, o PSD teria pela frente uma longa, indeterminável fase de
oposição. Passos, portanto, não tinha nada de verdadeiramente empolgante para
oferecer. Ganhara as eleições de 2015, é certo; operara o milagre de conseguir
que Portugal tivesse uma “saída limpa” do programa de assistência da Troika, é
também certo; mas o seu tempo acabara. E só não teria acabado se ele tivesse
demonstrado uma acrobática habilidade para se “reinventar” a si mesmo, o que
infelizmente não se verificara. De Passos se poderia dizer que não aprendera
nada, nem esquecera nada.
Não me tinha ocorrido a ideia de que as grandes qualidades
de Pedro Passos Coelho, que estiveram na origem do seu sucesso político e governativo,
só tivessem, afinal, validade cíclica. Julgava que o realismo, o pragmatismo, a
exigência, a resiliência, a coragem, a força de carácter, a integridade
política eram trunfos para todas as estações. Pelos vistos, não são. E não são
certamente os atributos requeridos, necessários ou sequer desejáveis para um
“novo ciclo político”. Quais serão eles?
Pesquei à linha nas declarações dos seus opositores. Desde
logo, claro, capacidade afectiva e vocação sentimental. Capacidade para se
condoer, de forma que seja bem visível e audível, com os pensionistas mais
pobres, por exemplo. Depois, claro, um módico de “maleabilidade”, que no
dicionário dos seus críticos dentro do PSD significa predisposição para começar
por recapitular erros, e acabar num mea culpa; ou seja, renegar tudo o que fez
dele o líder e candidato a primeiro-ministro mais votado nas eleições de
Outubro de 2015. E significa ainda, no dicionário dos seus adversários mais
ressabiados, “abertura” a um “diálogo” com António Costa que vá evoluindo para
uma compreensão mútua que, por sua vez, acabe por desaguar numa colaboração
afável, franca e prestimosa. Seria uma maneira elegante de o presidente do PSD
romper o seu alegado isolamento. Quer dizer, uma maneira de os pequenos e os
grandíssimos boys do PSD — os “mais magoados” e os “mais ansiosos” — não
fazerem a travessia da oposição em regime de absoluta “abstinência”.
Para inaugurar tão virtuosa “abertura”, não basta declarar
(como Passos declarou num surpreendente momento de fraqueza) — «Social-democracia
sempre!». Não. É preciso mais. É preciso expurgar todo o seu discurso do mais
ténue vestígio da danosa ideologia liberal ou neoliberal que, durante o seu
mandato como primeiro-ministro, pespegou no Partido Social Democrata uma nódoa
diabólica. E ainda não chega. José Eduardo Martins, um crítico que já ascendeu
a herói pela extraordinária coragem de ter comparecido em Espinho, queixou-se
no Diário de Notícias de que “No passado recente […] escasseou a sensibilidade
social, foram muitos os momentos de deriva ideológica em que a matriz
social-democrata foi esquecida.” Será que o aspirante a futuro presidente do
PSD ignora que a social-democracia é cara demais para um país que Passos tirou
da bancarrota, um feito que ele próprio reconhece no mesmo texto?!
Pouco importa: houve “deriva ideológica”, ponto. Como revela
o jornalista Vítor Matos, “Não basta falar de desigualdades para se tornar mais
social-democrata.” Passos que não venha agora com essa. É velha; está gasta. Em
Espinho, Passos “não levou ao país nem ao partido nada de novo”. Não forneceu
uma só pista que permitisse diferenciar o PSD “do que fez nas últimas
legislativas”. Mais: nada disse “sobre aquilo que é hoje essencial para o
centro-direita”; apresentou-se o mesmo Passos, “com o mesmo tom, a mesma
estratégia, a mesma resiliência, a mesma frieza, a mesma teimosia”. Mais grave
ainda: “Em tempo de afectos na política”, nem ao menos se emocionou ou teve
“uma palavra de afecto para os pensionistas e Marcelo ganhou assim”. E Vítor
Matos conclui muito logicamente: “Parece que não aprendeu a lição.” Qual lição?
A de ter vencido as eleições com esta carrada de defeitos? Relapso e contumaz,
Passos “manteve as ideias que trazia da campanha eleitoral”. Nada me parece
mais acertado. Apesar de todo o foguetório e de todos os malabarismos para
impressionar incautos, a verdade é que estamos perante “péssimas notícias” no
horizonte económico-financeiro, considerando Graça Franco (4.4.16) que o que se
perspectiva “é mau demais para continuar a fingir que não se passa nada”.
Alguém me explique por que haveria de mudar aquelas ideias.
Passos apresentou-se em campanha com um programa de governo para o novo ciclo
pós-Troika. Ganhou as eleições, mas o Parlamento recusou-o para
primeiro-ministro. Deveria, por isso, deitar as suas ideias borda fora e
improvisar um programa diferente pelo motivo de ter passado à oposição? A
tática oposicionista, essa, suponho que seja diferente do estilo e modo de
estar no poder. Mas o que em campanha era julgado bom e necessário para o País,
transforma-se em mau e desnecessário só porque se transitou para a bancada do
combate contra o governo ? E, já agora, “o que é hoje o essencial para o
centro-direita”? Ser o mais social-democrata possível ? Ter um discurso
idêntico ao do partido costista e adjacentes? Por outras palavras: competir com
a esquerda radical para ver quem gasta ou promete gastar mais?! Como conclui
muito acertadamente João Miguel Tavares (Público, 5.4.16), se a “geringonça”,
por milagre, resultar, no que também eu não acredito, “o tempo será sempre de
António Costa, e nunca dos sociais-democratas do PSD”.
Esta verdade, porém, não entra nas cabecinhas dos “mais
magoados” e dos “mais ansiosos” (Vítor Matos), que pedem a auto-reinvenção de
Passos, o exortam a ser mais social-democrata e lhe exigem “novidades”.
Pedem-lhe, em suma, o poder de volta o mais rápido possível e a qualquer preço.
Estou em crer que Passos não se deixará empurrar pela esquerda do partido para
uma derrota anunciada. Sinal disso foi a promoção de Maria Luís. Tenho grande
apreço pela ex-ministra. Apreço e simpatia: gosto de pessoas inteligentes,
convictas, intrépidas, e dispenso expansões públicas de emoções e sentimentos.
Embora não tenha a certeza de que fosse preciso um sinal tão forte, a roçar a
provocação, o sinal confirma que Passos Coelho não faz a menor tenção de se
reinventar.
E ainda bem. Porque se algo é preciso reinventar – e ele é o
homem certo para isso – é a própria social-democracia. Porquê? Porque,
historicamente, esta já venceu: o que começou a erguer sobre os escombros da
Segunda Guerra enraizou-se, vingou. desenvolveu-se e generalizou-se. É hoje, no
Ocidente europeu, um património civilizacional tanto da esquerda como da
direita. O que falta para sair do impasse actual e arrombar portas que lhe
permitam continuar a viver? Falta remover os obstáculos, fruto de ideologias e
doutrinas obsoletas, que entravam o progresso do capitalismo.
Sim, do capitalismo. Porquê? Porque o capitalismo, assente
na propriedade privada e na concorrência, é historicamente o regime que mais
riqueza e prosperidade gerou até hoje, e que retirou centenas de milhões de
pessoas da miséria extrema. E é também, em toda a História, o regime económico
que mais liberdade, individual e colectiva, concede às sociedades. Num mundo
globalizado e que já não dorme, a estatização da economia (e portanto da
sociedade), as planificações económicas e os proteccionismos de outrora não são
possíveis, nem desejáveis. A social-democracia de cariz keynesiano está
esgotada. E a sua urgente reinvenção terá de provir, e só pode provir de um
casamento harmonioso com o liberalismo económico. Não é uma contradição e ainda
menos um paradoxo. Quem tem medo da palavra “liberal”?
Muito boa gente. Paulo Rangel, por exemplo, num artigo sobre
“Mobilidade Social” (Público, 5.4.16), esmera-se a explicar o distinguo
fundamental: “O PSD tem um ímpeto liberalizador – que não é o mesmo que um
ímpeto liberal.” Deus nos livre! “Numa economia altamente estatizada [como a
nossa, supõe-se], liberalizar não é naturalmente ser liberal.” Confesso que a
subtileza da nuance me escapa. Muitos social-democratas estão erradamente
convencidos de que a social-democracia de cariz keynesiano resolve os problemas
da desigualdade e do Estado Social com mais doses de social-democracia
keynesiana – ainda mais Estado, ainda mais impostos. Do meu ponto de vista,
resolvem-se liberalizando-a, porque esses problemas radicam essencialmente na
insuficiência de riqueza. Votei em Passos Coelho porque o achava talhado para
padrinho de um casamento a meu ver feliz e necessário. Espero que ele não se
reinvente. À sua volta, quase só vejo anões.»
Antena 2
Império dos Sentidos é o programa
diário da Antena 2 que está no ar entre as 7h00 e as 10h00 pela voz de Paulo
Alves Guerra. Não sei quando começou mas tem pelo menos uns 9 anos. É um programa muito vivaz porque o apresentador emprega um ritmo
discursivo semelhante ao usado nas notícias e um tom emotivo muito próprio e colorido
pelas constantes interjeições, o que contrasta bastante com a forma monótona,
impessoal e desprovida de emoção, que durante décadas se ouviu naquela emissora
nacional. Desta forma inteligente João Guerra prende a atenção por mais extensa
ou intrincada que seja a matéria do seu discurso. Vale a pena ouvir, tal como outros
programas da Antena 2, a emissora que é um marco na resistência contra a frivolidade
e o mau gosto que impera nas ondas hertzianas portuguesas.
Imaginem...
“Imaginem um jovem ocidental a vir aqui e a levar a cabo uma missão suicida numa das nossas praças públicas em nome da Cruz. Imaginem que dois arranha-céus haviam colapsado numa capital árabe, e que um grupo extremista cristão, vestindo roupas do milénio passado, haviam assumido responsabilidade pelo evento enquanto destacavam a sua determinação em ressuscitar ensinamentos cristãos ou decisões cristãs, de acordo com a sua percepção, para viver como no tempo [de Jesus] e dos discípulos, e para implementar certos edictos de teólogos cristãos…
tirado daqui
tirado daqui
Alentejo prometido
Quando a escrita é escorreita sinto o prazer da leitura. A leitura do livrinho “Alentejo prometido”, que prenunciava nas primeiras linhas um retrato nostálgico, depressa se transformou numa espécie de crónica antropológica que me recordou a carta de Pero Vaz de Caminha dando conta do achamento do Brasil. O relato de um mundo desconhecido.
O livro é portador de um conteúdo
que, relacionando dados e factos históricos, sociológicos e demográficos,
incomoda muitos alentejanos, talvez porque se vêem
confrontados com um exercício reflectivo, sobre si próprios, nunca antes ensaiado. E será essa
novidade que incomoda. Porém, Henrique Raposo não deixa de retratar uma terra
amada, embora escandalosamente adiada pelos poderes e, sobretudo, pelos
seus naturais.
E este contar da sua juventude
nessa terra, manifesta a decepção resultante das oportunidades perdidas e o enfatuamento
com a indolência das gentes, numa desilusão que ombreia com o fascínio pelas
coisas desconhecidas do passado, no presente ciosamente mantidas em segredo.
Não reconheço aquele “odor a
haxixe dos eucaliptos”, dois aromas que não me cheiram nada semelhantes mas, enfim,
a cada nariz a sua sentença – nem imagino o que responderia o Henrique Raposo
ao Zé Cravinho se o ouvisse dizer que os cogumelos laranjinhas (amanita dos
césares) cheiram a vagina quando já têm um par de dias para além do prazo?!
Revisitei, na caracterização que o
autor faz daqueles alentejanos, muito daquilo que deles conheço porque ao longo
de umas três décadas repeti uma peregrinação estival alentejana e, portanto vi,
vivi, e senti relativamente bem esse ambiente.
Embora pareça que nesta caracterização
subjaz a construção de um estereótipo, recrutado para a tarefa do relato/denúncia
que o autor opera, tal não deve ser confundido com um cliché ou com uma criação
meramente ficcional, pois são muitos e variados os números apresentados sobre
os fenómenos sociais e demográficos da sub-região em apreço.
Neste Alentejo, certamente nenhum dos autóctones se revê, pois para tais exercícios de percepção
é imperioso o distanciamento. Distanciamento de quem foi e se demorou e que, ao
regressar, olha para aquela planície ou para aquele monte como quem olha para uma pintura ou uma peça de
teatro e sobre eles reflecte, naquele hiato de tempo que antecede o acto mágico da pintura o voltar
a integrar como figurante na paisagem, ou o cenário o absorver para
protagonista da representação.
Claro que o livrinho teria de suscitar
indignação e as consequentes invectivações ao autor, mormente da parte dos
alfabetizados iletrados, incapazes de leituras mais sérias do que as míseras
coboiadas do Rodrigues dos Santos. Mas estou certo de que o autor agradece,
pois com tais azedumes propalados o livrinho vende-se melhor.
Já anteriormente alguns dos meus
conterrâneos algarvios haviam trilhado essa senda da apreciação literária embotada,
quando, em crítica a um terço de artigo escrito pelo mesmo autor, sobre gentes
de Odiáxere - Lagos, vociferaram, vituperaram e insultaram, sem perceberem que o artigo completo desembocava mais perto do panegírico do que do
agravo que o mísero terço destacado do texto precipitadamente insinuava.
Na era da comunicação global e da
teia de ligações electrónicas que conectam pessoas, gentalha, e sub-humanos
(estou a pensar nos feiosos do ISIS e do DAESH), e em que todos querem ter
opinião mas em que só as vozes críticas se destacam é, pois, imperioso
criticar. Criticar bradando alto, esperneando e inserindo bonequinhos de feia
catadura nas redes sociais. E por isso criticam, mesmo que não percebam a ponta
de um corno daquilo que leram ou mesmo do que falam. Declarar, é o comprovativo
de que se existe.
Assim o declaro.
da ARTE
Diz o Armindo Gaspar, e provavelmente com razão: - A Música só é difícil nos primeiros 20 anos.
Não me causa estranheza tal afirmação, até porque sempre entendi que só existem duas manifestações artísticas verdadeiramente autênticas, na sua dificuldade técnica e no seu valor criativo: a Música e a Literatura.
E no extremo oposto, a Fotografia p. ex.. Mostrem-me uma peça musical, de valor, que tenha sido criada aleatoriamente; ou um romance composto pela junção anárquica de frases. Ao invés, quantas fotografias acidentais, fruto do acaso, têm passado por obras de arte?
Ou até mesmo aquelas pinturas resultantes do despejar de baldes de tinta, ou do aspergir de pincéis ensopados, sobre uma tela?! Pelo meio andará uma outra Pintura, o Desenho (incluindo a Arquitectura), a Escultura e outras manifestações artísticas que, não alcançando o valor da Literatura ou da Música, também não se reduzem a esse baixo nível das manifestações conceptuais que enxameiam a Arte Contemporânea.
| "ARTE" - fotografia acidental |
Mente a Fotografia
«La obra de Joan Fontcuberta se inscribe en una línea crítica de la concepción de la fotografía como evidencia de lo real. Muchos de sus trabajos versan sobre el “poner en duda” la verdad que se le otorga a las imágenes fotográficas. Se posiciona en una línea de cuestionamiento y duda hacia la veracidad de la imagen fotográfica. Afirma que:
“(…) Toda fotografía es una ficción que se presenta como verdadera. Contra lo que nos han inculcado, contra lo que solemos pensar, la fotografía miente siempre, miente por instinto, miente porque su naturaleza no le permite hacer otra cosa. Pero lo importante no es esa mentira inevitable, lo importante es cómo la usa el fotógrafo, a qué intenciones sirve. Lo importante, en suma, es el control ejercido por el fotógrafo para imponer una dirección ética a su mentira. El buen fotógrafo es el que miente bien la verdad (...)” (Fontcuberta, 1997)»
e Deus?
“Quando os homens deixarem de
acreditar em Deus, isso não significará que não acreditam em nada, mas que
acreditam em tudo”.
Umberto Eco
Presidenciais 2016
"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
(...)
Não, não vou por aí!
Só vou por onde Me levam meus próprios passos...»
(Cântico Negro - José Régio)
Estou cansado da lógica partidária, e dos seus gurus calculistas que de longe traçam caminhadas de realização pessoal em que não se vislumbra um resquício credível de dedicação à causa pública. Pelo contrário, os candidatos afiguram-se continuadamente reféns de lobbys das mais variadas naturezas, sejam de carácter económico ou simplesmente gerados em empatias e cumplicidades tecidas ao longo dos seus percursos políticos.
Irei por aqui, com as fragilidades e as eventuais contradições que mesmo o melhor dos candidatos terá e, sem ilusões nem falsas esperanças, numa singela manifestação de apoio ao imperativo de recuperar os valores éticos para a vida política e a gestão da res publica.
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
(...)
Não, não vou por aí!
Só vou por onde Me levam meus próprios passos...»
(Cântico Negro - José Régio)
Estou cansado da lógica partidária, e dos seus gurus calculistas que de longe traçam caminhadas de realização pessoal em que não se vislumbra um resquício credível de dedicação à causa pública. Pelo contrário, os candidatos afiguram-se continuadamente reféns de lobbys das mais variadas naturezas, sejam de carácter económico ou simplesmente gerados em empatias e cumplicidades tecidas ao longo dos seus percursos políticos.
Irei por aqui, com as fragilidades e as eventuais contradições que mesmo o melhor dos candidatos terá e, sem ilusões nem falsas esperanças, numa singela manifestação de apoio ao imperativo de recuperar os valores éticos para a vida política e a gestão da res publica.
(clicar na foto para ver entrevista)
As casas dos cantoneiros
A construção das “casas dos cantoneiros” foi iniciada em
meados do séc. XIX, mas foi a partir dos anos 30 do século XX que se verificou
o seu incremento - a que não é alheio o crescimento do parque automóvel e da
rede viária nacional -, bem como a adopção do estilo arquitectónico da maioria
desses imóveis que chegaram até aos nossos dias.
Nestas casinhas se abrigavam
os cantoneiros, os seus equipamentos e, nalgumas mais importantes, a papelada administrativa
referente aos trabalhos de manutenção das estradas, aos aspectos logísticos e à
gestão do pessoal. Algumas tinham, para além de quartos, refeitório e
instalações sanitárias, um forno exterior, garantindo assim as condições necessárias à permanência das
equipas de operários por um período mais ou menos dilatado, ditado pela
extensão e morosidade dos trabalhos a realizar. Outras mais simples acomodavam apenas um par de cantoneiros que executavam uma manutenção local e permanente,
compondo bermas, contendo a vegetação ou remendando algum buraco ocasional do
alcatrão viário.
Tendo perdido a sua função, as casas dos cantoneiros restam
como memória de um tempo em que o avanço da industrialização e o aumento do
número de viaturas, e da sua velocidade, obrigaram a rasgar novas estradas para
ligar cidades, portos, fábricas e mercados.
Hoje, abandonadas à beira das estradas, aguardam o colapso inexorável
que as intempéries vão anunciando.
Resta a possibilidade de serem recuperadas para fins de
turismo cultural ou ambiental, aproveitando a sua proximidade a perímetros
rurais, florestais ou costeiros, ou mesmo a sítios históricos em que a visita a
tais locais de memória, frequentemente de idílica serenidade, se assumam como
objectivo para um retemperador fim-de-semana ou umas prazenteiras mini-férias.
F. Castelo
2015-12-01![]() |
| Casa dos Cantoneiros em Espinhaço-de-Cão |
![]() |
| Casa dos Cantoneiros em Lagos - Avenida dos Descobrimentos |
Fazer Fitas
![]() |
The Village: an epic series that depicts English rural life during the Great War |
O que a televisão por cabo me trouxe, no que toca ao cinema,
foi uma evidente libertação em relação à cinematografia norte-americana, à sua
manifesta infantilidade: no humor pueril; na superficialidade das abordagens;
no artificialismo das relações; no excesso de caracterização e maquilhagem, seja
num filme de época ou contemporâneo; e, sobretudo, na gritante falta de rigor
histórico, factual, que compromete qualquer possibilidade de verosimilhança. O
cinema norte-americano explora exaustivamente a vertente recreativa da 7ª arte,
pouco mais oferecendo, pelo que pouco mais se deve esperar dele.
Com essa libertação preconizada pela televisão por cabo com os seus inúmeros canais, deixei de ficar refém da política medíocre dos canais nacionais na aquisição de filmes e séries televisivas, maioritariamente provenientes da América do Norte. Passei a ver filmes melhores, quer no que concerne aos aspectos atrás apontados quer, até, na qualidade dos actores.
Comparativamente, a 7ª arte britânica é claramente superior à americana. Trata-se, obviamente, de uma apreciação subjectiva, assente no gosto pessoal e na proximidade cultural; mas toda a criação artística pressupõe isso, a relação com o espectador, e dela depende parcialmente.
É claro que existem excepções a essa “mediocridade” norte-americana pois tanto Hollywood como os “independentes” americanos oferecem, de vez em quando, excelentes produções, realizadores fantásticos e magníficos actores. Porém, se atendermos à escala da indústria norte-americana em comparação com a inglesa, ou mesmo a europeia na sua totalidade, tendo em conta a quantidade de actores, o número de produções, e o capital investido, não restam dúvidas que no outro lado do atlântico produzem quantidade enquanto no lado de cá se produz qualidade. Isso é claramente visível nos filmes de época, nas reconstituições históricas, na direcção de actores, e na superior qualidade dramática destes.
Mesmo nos inevitáveis filmes Policiais, que na américa estão obrigados a uma vincada dose de agressividade e violência - como se de filmes de Guerra ou Acção se tratassem -, até mesmo nesse género a filmografia europeia suplanta a americana, ao dividir a atenção do espectador entre um enredo que convida à reflexão e à especulação, e uma paisagem que mostra campos cultivados, aldeias pitorescas, ou arquitecturas urbanas centenárias, monumentos multi-seculares e interiores vitorianos.
- É que não tem nada a ver!
Isto é, uma realidade não tem nada para ver, mas a outra
tem.
E uma grande senhora dos ecrãs, aqui
Aberrações
Não nutro nenhum apreço por
pessoas que dizem preferir os animais aos seus semelhantes humanos.
Considero-os anormais. Gente mentalmente desequilibrada que toma o todo pela
parte, julgando os demais a partir de algum episódio infeliz que tiveram na
vida.
E já agora, se os gatos são
animais domésticos porque é que os dos vizinhos andam no meu telhado e no meu
quintal? Gatos gordos que nem porcos, parecendo, nas suas correrias, locomotivas
desvairadas. Se são domésticos, fiquem em casa ou vão passear com os donos.
Raios partam os
"amiguinhos" dos animais mais a sua manifesta incapacidade em se
relacionarem com os seus semelhantes. Esses “merdas” que adoram cães e gatos de
raças “apuradas” - que de naturais não têm nada -, não passam de gente demente.
excertos para memórias futuras
«Reduzir a História ao racional, a uma perspectiva
unicamente científica, ou usar apenas os métodos exactos é amputar esta
ciência, enfeudá-la numa região de frieza, e distorcer os factos. Factos
históricos que, como todos sabem, são também construídos, porque só um deus ou
um ser extra-temporal e extra-espacial, fora das humanas contingências, poderia
analisar com total imparcialidade e inteligência um dado acontecimento.
(…)
… Admitir a diversidade sem necessariamente impor um centro
(e, por consequência, sem criar periferias ou discriminações) é a forma mais
eficaz de admitir que eu sou tão diferente para o outro como o outro é para
mim. Pode parecer uma verdade lapaliciana; porém encarar a diversidade não como
a ideia que eu tenho do outro, mas como a essência do outro, sem parametrizar
ou criar hierarquias, sem conduzir a estereótipos ou simplificações, será uma
conquista maior do que as Descobertas ou a Exploração Espacial.»
in “Dar Novos Mundos ao Mundo”: A Retórica dos Descobrimentos
Portugueses e do Programa Espacial
Norte-Americano
João de Mancelos
Uma visita ao cinismo
O principal trunfo do cinismo é deixar-nos espantados e
desarmados. A vida em sociedade exige algo como um princípio de credulidade,
uma confiança, mais ou menos espontânea, nos outros.
- Paulo Tunhas -
Os tempos andam malsãos. Parece que vivemos num daqueles
poemas terríveis de Sá de Miranda, onde tudo é suspeita, logro, perigo,
espanto, dissimulação, e nada é nítido. A atmosfera não é de banal má-fé. É uma
atmosfera de cinismo, de cinismo puro e duro. São coisas muito diferentes. O
homem de má-fé mente-se a si mesmo e acredita na verdade da sua mentira, o
cínico não. O cínico mente com a perfeita consciência de que está a mentir e
nem por um instante acredita no que diz. Se a má-fé pode proteger da argumentação
racional e da persuasão comum, o cinismo é, no capítulo, mil vezes mais eficaz.
Cria uma espécie de invulnerabilidade por relação a uma e outra.
O principal trunfo do cinismo é deixar-nos espantados e
desarmados. Por razões que têm provavelmente a ver com as condições básicas da
vida em sociedade, não estamos nunca suficientemente preparados para o cinismo.
A vida em sociedade exige algo como um princípio de credulidade, uma confiança,
mais ou menos espontânea, nos outros. Mesmo um céptico encartado tem de adoptar
esse princípio na sua vida quotidiana. Ora, esse princípio de credulidade
comporta, em graus variáveis, a possibilidade de reacção à má-fé e à mentira
pura e simples. Com isso aprendemos bem a viver, por mais desagradável que
seja. Não assim com o cinismo. O cinismo, mesmo para as pessoas teoricamente
mais bem preparadas para a ele reagirem, menos fáceis, por hábito ou profissão,
de se deixarem surpreender, deixa-nos inermes. Viola o princípio de credulidade
nas suas bases mais fundas. É difícil não o sentir como um escândalo.
Sem paradoxo algum, o cínico pode proclamar grandes ideais.
Não acredita neles por um só instante, é claro, mas isso obviamente em nada o
perturba. O grau de comprometimento do cínico com as suas ideias é nulo. O que,
diga-se de passagem, lhe é extremamente útil. A maior parte das pessoas vive as
suas ideias com algum comprometimento: menos com umas, mais com outras. E essa
relação de comprometimento varia, em relação a todas elas, com o tempo,
permanecendo nos melhores o amor como um ideal de comprometimento absoluto. Mas
há, em todo o caso, comprometimento efectivo. O cínico encontra-se liberto
desse fardo, e, liberto desse fardo, encontra-se igualmente disponível – dentro
da esfera das suas possibilidades, que é ditada pelas condições da sua
sobrevivência – para acolher todas as ideias que lhe surjam úteis.
Descomprometido essencialmente, pode simular comprometimentos essencialíssimos
com o que lhe apetecer.
Samuel Beckett escreveu um dia que “é preciso acreditar que
sim, mas saber que não”. É discutível que se possa verdadeiramente viver assim,
já que a crença se desdobra quase naturalmente na presunção do saber e não se
vê muito bem como a manter com a consciência do seu exacto oposto. De qualquer
maneira, o cínico não subscreveria a bela frase de Beckett. Dada a sua natureza
pragmática, descomprometida com as ideias e portanto exclusivamente pragmática,
monomaniacamente pragmática, nem acreditar que sim nem saber que não lhe
interessam. Por impossibilidade do seu ser, não se relaciona com crenças
próprias. A sua fórmula seria antes: “É preciso que os outros acreditem que sim
e não saibam que não”. E é impressionante como tem por vezes sucesso, mesmo
quando não é preciso possuir um tacto particularmente fino para não acreditarmos
que sim e sabermos que não e até para detectarmos um inquietante vazio na alma
do cínico.
Quem é convencido pelo cínico? Certamente que as pessoas de
má-fé, que sempre aspiram a ter um cínico por mestre. A má-fé aprecia o
esplendor do cinismo, o quase heroísmo do seu desprezo pela verdade e a sua
magnífica ausência de pudor. Vê nele uma liberdade que ela própria não possui.
Mas convence igualmente os ingénuos, particularmente aqueles predispostos a
acreditarem na omnipotência do pensamento de que falava Freud, que criou a
expressão para descrever a crença primitiva, ou simplesmente neurótica, numa
eficácia imediata do pensamento sobre o mundo. O descomprometimento com as
ideias do cínico permite-lhe sugerir que, no fundo, tudo é possível. E que melhor
sugestão do que essa para quem aspira a uma transformação mágica da realidade?
Os puros pensamentos agem sobre as coisas e modificam-nas. O desejo e a vontade
actuam sobre o mundo sem necessidade de quaisquer mediações. A realidade
exterior é abolida e substituída por uma projecção que satisfaz a psique. Uma
perfeição. Com o ligeiro inconveniente – que, obviamente, não preocupa o cínico
– de, por definição, conduzir a maus resultados.
Até onde pode ir o cínico? Ou, dito de outra maneira: como
se sai da hora do lobo, do tempo de indistinção e de falta de confiança em que
o cínico nos mergulha? É uma boa pergunta. Talvez quando aqueles que o toleram
em benefício próprio o traírem. Talvez quando, passada a surpresa inicial,
aquele inquietante vazio que habita a alma do cínico se tornar excessivamente
palpável e a sua fragilidade última se revelar. Talvez quando a má-fé daqueles
de que o cínico se alimenta se comece a desvanecer, por uma razão ou outra,
surto de boa-fé ou interesse de salvação pessoal. Talvez quando a bruta
realidade destruir a ilusão da omnipotência do pensamento que o cínico
habilmente instilou em muitos e de que precisa como pão para a boca para
sobreviver. Mais tarde ou mais cedo estas coisas acontecem todas, e mais cedo
do que tarde acontecerão. A questão que se coloca é: e em que estado estaremos
nós quando finalmente chegar esse momento?
tirado daqui
Ó Dotôr
O senhor doutor é um parolo
«Acho que por esta altura já toda a gente reparou que em Portugal, como no resto do mundo desenvolvido, já há muito que não é privilégio raro alguém concluir quer uma licenciatura quer um mestrado, graus equivalentes ao bacharelato e à licenciatura pré-reforma de Bolonha, respectivamente.
Tratarmo-nos uns aos outros por doutor é tão oco como bacoco. Chega deste envergar de patentes académicas que não correspondem nem a valor intelectual nem a coisa alguma. É pindérico, é patético e, senhores doutores e senhoras doutoras, é muito parolo.»
Ler tudo aqui
Insónia 436#
Entrei na sala onde,
na minha ausência, teria caído um silêncio repentino e recente, para receber o singular
pedido de um dos meus acompanhantes que ficara no interior, abeirado à mesa, sentado
numa daquelas cadeiras de atabúa tradicionais da serra fronteiriça que o
Algarve partilha generosamente com o Alentejo, certamente recompondo-se da
caminhada íngreme, descansando as pernas mas dando serviço aos olhos no
apreciar do presunto que enfeitava o centro da mesa, tendo declinado a oferta
do dono da casa para visitar as pocilgas e admirar o sovão de 20 arrobas, pai
de toda a criação suína do monte.
- Aqui esta rapariga
anda a contas com a vida sem saber se há-de seguir os ditames da cabeça ou os
ímpetos do coração, tu que és sábio, o que aconselhas? Meneando a cabeça para o
lado esquerdo, onde uma jovem morena de olhos brilhantes nos observava, de
cabeça meio inclinada para a frente, envergonhada.
Suspirei de cansaço
físico, ou enfado com aquela apresentação de sábio, e decorrida a eternidade de
microssegundos que os neurónios despendem na organização da resposta, talvez espirituosa
para tal desafio, respondi, mesmo sem saber a verdadeira natureza da questão.
- Existem três
respostas para essa questão, a resposta sábia, a resposta prudente, e a
resposta que move o mundo, qual das respostas queres, menina?
Sorrindo, ainda meio
envergonhada mas já com a cabeça levantada, respondeu-me.
- Sei lá, estes é
que estão para aqui a inventar que tenho males de amores, e escancarou o
sorriso baixando de novo a cabeça.
Olhei a jovem que
não teria mais de 16 anos e, desejando acabar com aquilo rapidamente para me
poder sentar e libertar o dono da casa para o convite de atacar o presunto,
disse.
- Olha dou-te as
três respostas pelo mesmo preço. A resposta sábia diz que se seguires o coração
partirás a cabeça, e se seguires a cabeça partirás o coração; a resposta prudente
recomenda que tomes uma cadeira e te sentes, esperando que algum coração ou
alguma cabeça venha partir-se em ti; e a resposta que move o mundo incita a que
sigas o impulso mais forte, seja ele o da cabeça ou o do coração, assim como
assim nunca há a certeza de que um impulso do coração não seja apenas uma
ilusão da cabeça, tanto quanto uma tontura não possa ser um achaque do coração.
- E não me perguntes
mais pois não sei mais. A sabedoria é uma coisa muito pequenina, muito menor do
que a ignorância. Se pretendes insistir numa resposta directa e simples pergunta
aos ignorantes, esses têm resposta para tudo.
da esquerda
« A maior
dificuldade da direita está em vencer a expectativa do sonho que a esquerda
mais facilmente vende. O mundo novo, a estratégia de futuro que a esquerda
promove nos eleitores é tida como visionária, se for feita pela direita, aí, é
um simples acto do mais puro eleitoralismo.»
« Outra
dificuldade da direita está em combater a superioridade ética, moral e
intelectual da esquerda. É para a direita muito complicado fazer um combate
ideológico com a esquerda, sobretudo quando os exemplos que cá nos chegam são
tão fantásticos e produziram resultados tão eficazes.» Brasil, Venezuela,
Grécia, são exemplos actuais do sucesso da esquerda.
artigo integral aqui
educate-me
«Ao contrário da igreja protestante, a igreja católica tem geralmente desprezado a educação popular. Este facto afectou Portugal enormemente. O medo da disseminação de doutrinas heterodoxas impediu o florescimento de uma rede de escolas primárias particulares no nosso país. Contra essa tradição obscurantista se insurgiu o marquês de Pombal, que, em 1772, cria as primeiras escolas públicas elementares. Em 1826 e 1844, respectivamente, regulamenta-se a liberdade de ensino e a educação primária é considerada obrigatória.»
«As
primeiras medidas restritivas no que respeita ao ensino primário aparecem logo
após o «golpe» de 1926. Foi então severamente criticada toda a política
educacional do anterior regime, por não ter sabido inculcar nas massas os
necessários sentimentos nacionalistas, em virtude do seu exagerado
racionalismo, positivismo e defesa da neutralidade religiosa da escola.»
«Em Julho de 1931, o
Governo determina que, a partir dessa data, só os centros com mais de 40/45
crianças em idade escolar deverão possuir uma escola; todas as outras teriam de
ser fechadas. Por, segundo se afirma, o Tesouro não possuir os meios necessários
para empreender obras e para garantir a manutenção de muitas escolas em estado
de conservação precário, determinasse que aquelas que não possuam «edifícios
convenientes» sejam pura e simplesmente fechadas. Também o novo regime considerou,
em Julho de 1932, ser imoral manter nas escolas «os alunos preguiçosos»,
ordenando que, a partir dessa data, todos aqueles que tivessem reprovado mais
de três vezes abandonassem a escola.»
«Embora,
tradicionalmente, o princípio de escolaridade gratuita fosse considerado um
corolário da sua obrigatoriedade, esse princípio foi abolido na Constituição de
1933, que adopta o novo conceito de «gratuitidade relativa». Depois de 1933 foi
oficialmente considerado que o dever
de educar as crianças fazia parte das atribuições da família, e não do Estado.
Considerou-se, a partir dessa data, que o papel do Estado era somente o de
promover e estimular a iniciativa privada.»
«…as classes dominantes
portuguesas queriam, não só trabalhadores dóceis, mas também trabalhadores
felizes. Assim, de acordo com a doutrina oficial, a escola, para além de
transmitir o amor ao trabalho, à disciplina e a ordem, deveria também inculcar nas
massas trabalhadoras uma certa «alegria de viver» eminentemente católica e
certamente muito útil»
«O I Congresso da União
Nacional (1934) apresenta as linhas fundamentais da política educacional futura
do Estado Novo: redução dos programas de forma a permitir uma concentração nos
conhecimentos supostamente «fundamentais»; ênfase nos chamados «conhecimentos
aplicados», isto é, intensificação dos cursos de desenho e trabalhos manuais e
agrícolas, para os rapazes, e de actividades domésticas, para as raparigas. De
acordo com o jornal oficial Escola Portuguesa, a escola primária
deveria, a partir de então, ser afirmativa, e não céptica, activa, e não
verbalista, educadora da vontade e propulsionadora do esforço ao serviço do interesse
pelo bem comum, colectivista, e não individualista, verdadeira, isto é, ligada
às realidades26. Todos estes princípios
se destinavam a inculcar nos alunos as ideias de pátria, família e amor pelo
cantinho natal; representavam um ataque ao conhecimento «livresco», promotor de
«desadaptação e os consequentes desânimo e descontentamento — fatais geradores
da decadência»
«A função prática da
escola é continuamente sublinhada. A escola deveria fornecer bons trabalhadores
agrícolas, bons carpinteiros, bons alfaiates. Aparentemente, tudo o que as
crianças necessitavam aprender como seres humanos era «como escrever uma carta... um telegrama...
uma petição ao Governo... um recibo». A ênfase que os republicanos colocavam
nas virtudes da cidadania e no pensamento racional foi substituída por uma
preocupação com a preparação da mão-de-obra pouco especializada e com o
desenvolvimento do que então se designou como «a religiosidade natural dos
Portugueses».
«…de acordo com os mais
proeminentes ideólogos do Estado Novo, os programas anteriores não incluíam ou
não tratavam adequadamente dois assuntos indispensáveis: a religião e o
imperialismo. Ambas as disciplinas seriam rapidamente reintroduzidas no
currículo. Em Abril de 1936, todas as escolas primárias foram obrigadas a
colocar um crucifixo «por detrás e por cima da cadeira do professor» 31. Este ornamento devoto
simbolizava supostamente toda uma nova ideologia e uma nova educação; nas
palavras do então ministro Carneiro Pacheco, o crucifixo constituía «a grande
bandeira duma civilização que enobrece a pessoa humana, contra o comunismo,
aviltador da pessoa»
«…parágrafo tirado dum
manual da 2.a
classe, por
nos parecer mais revelador do que quaisquer comentários sobre a forma como a
obediência era inculcada: «Na escola tinha a senhora professora explicado à
Isabel que todos nós precisamos de obedecer àqueles que têm o direito de
mandar. Isabel, ao chegar a casa, contou ao pai que a senhora lhe havia dito
que não era possível a vida entre homens sem autoridade.» Sendo um pai
carinhoso, resolveu este explicar o assunto à filha com mais profundidade.
Disse-lhe solenemente que ele próprio, «que era operário, obedecia ao capataz;
o capataz obedecia
ao engenheiro; o
engenheiro obedecia ao dono da fábrica e o dono da fábrica à lei feita pelo
Governo da Nação». Nesta altura, a filha, curiosa e fascinada, perguntou ao pai
a quem obedeciam os chefes. A resposta, que não se fez esperar, era de molde a
acalmar as inquietações filiais: «Obedecem à sua consciência de homens dignos
formada no amor sincero de Deus, da Pátria e da Família.» O texto terminava com
a informação reconfortante de que «a Isabel nunca mais esqueceu estas palavras»
38 — um aviso e um desejo!»
in "Notas para a análise do ensino primário durante os primeiros anos do salazarismo" - de Maria Filomena Mónica
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