dos indígenas
O Parlamento Europeu e os povos indígenas
Francisco Assis (Eurodeputado do PS) in PÚBLICO 5 de Julho 2018
O relatório aprovado visa alertar para a reiterada violação dos direitos
indígenas e a indevida apropriação de terras em larga escala
Há mais de cem anos, um antropólogo
norte-americano de origem alemã, Franz Boas, rompeu com a concepção de uma
antropologia evolucionista de fundamentação racista, e iniciou uma outra forma
de olhar para o mundo indígena. A sua obra constituiu uma verdadeira
reviravolta epistemológica, dotada de um enorme potencial transformador nos
planos político e cultural. Essa transformação verificou-se de facto no mundo
da antropologia, e para isso basta lembrarmos alguns dos seus nomes mais
conhecidos, como Malinowski e Lévi-Strauss. Não é certo que as consequências no
plano político tenham sido de idêntica dimensão. Ainda hoje os povos indígenas
são percebidos por largos sectores da humanidade como expressões de uma
resistência anacrónica ao progresso e à contemporaneidade. Nem o facto de a
própria ideia de progresso ter sido submetida a uma dura apreciação crítica na
cultura Ocidental conduziu a uma alteração radical desse tipo de percepção
sobre a natureza dos indígenas. Ora, esta visão concorre fortemente para o
estatuto de subalternidade que continua a afectar pelo menos 370 milhões de
seres humanos dispersos por todo o planeta, que integram a categoria de povos
indígenas. Eles são, na maior parte dos casos, objecto de um olhar racista, que
não raras vezes os remete para um estatuto quase infra-humano, que se traduz na
sujeição a uma violência real e simbólica absolutamente insuportável. Não
estamos sequer a falar da sua história nos últimos séculos, mas sim daquilo que
constitui a sua vivência presente. Os indígenas são vistos e tratados como uma
espécie de “lumpenhumanitat”, destinado a desaparecer e tratado sordidamente.
Foi justamente por ter contactado com
esta realidade, quer através de vários encontros com representantes destes
povos que se deslocaram a Bruxelas e a Estrasburgo, quer através de diversas
visitas que realizei nos últimos anos a algumas destas comunidades no espaço
latino-americano, que me empenhei na elaboração de um relatório subordinado ao
tema das violações dos direitos dos povos indígenas no mundo e da apropriação
ilegal de terras. Esse relatório foi discutido esta semana no plenário do
Parlamento Europeu em Estrasburgo e aprovado com os votos de mais de três
quartos dos deputados europeus. Num tempo de crise política e moral em grande
parte suscitada pela dificuldade em encontrar uma resposta adequada à questão
das migrações, esta expressiva votação ainda diz muito acerca do
comprometimento dos representantes políticos europeus, da direita à esquerda,
com alguns dos valores que comummente reclamamos como matriciais no projecto
europeu. É claro que é mais fácil votar a favor de um relatório do que agir de
forma consequente e útil na promoção de princípios, valores e direitos
concretamente associáveis a grupos de populações anatematizadas. Contudo, um
voto é já um compromisso, uma clara declaração de intenções, uma expressão de
um ideal regulador. Por isso mesmo, creio que o Parlamento Europeu esteve à altura
das suas responsabilidades ao aderir ao conteúdo de um texto que visa sobretudo
alertar para duas questões de inegável actualidade: a reiterada violação dos
direitos indígenas por esse mundo fora e a indevida apropriação de terras em
larga escala, por parte da indústria extractiva e do agronegócio, que põem em
causa os ancestrais direitos de algumas comunidades humanas ao usufruto da
terra e prejudicam o equilíbrio ambiental planetário devido à redução drástica
da biodiversidade e à destruição de amplas áreas florestais.
Convirá referir que não está subjacente
a este relatório qualquer propensão para a idealização acrítica dos estilos de
vida e das práticas sociais e culturais prevalecentes nas múltiplas comunidades
indígenas. Tão-pouco ignoramos a natureza complexa que caracteriza a necessária
articulação destas mesmas comunidades com os contextos sociais e estatais em
que estão inevitavelmente inseridas, para já não falarmos da sua inserção no
fenómeno da globalização. Tal como em todos os restantes casos, recusamos
qualquer perspectiva essencialista que aponte para uma identidade rígida e
fechada. É óbvio que a aceleração do tempo histórico também se repercute em
sociedades que não podem ter um estatuto a-histórico. Como sabemos, são
raríssimos os casos de comunidades indígenas que optaram pelo isolamento
voluntário em relação ao resto do mundo. Reconhecendo assim o carácter
inevitavelmente problemático das articulações atrás referidas, o que está em
causa é a salvaguarda do direito das comunidades indígenas decidirem sobre o
seu próprio futuro e sobre a natureza, o ritmo e os modos da sua interacção com
a realidade circundante.
Infelizmente, verificamos que este
direito lhes tem sido sistematicamente sonegado, o que não quer dizer que não
existam bons exemplos em vários países do mundo. Por outro lado, e sem qualquer
enfoque meramente utilitarista, temos que reconhecer que a preservação de
vastos territórios sob parcial jurisdição indígena contribui fortemente para
evitar a escalada de monoculturas agrícolas ou de gigantescas extracções
mineiras que a serem concretizadas produziriam efeitos muito negativos para
toda a humanidade.
Haverá quem argumente que a União
Europeia não dispõe de legitimidade para se pronunciar sobre este tema. A prova
mais evidente da mediocridade desta tese reside no facto de inúmeros
representantes destes povos solicitarem directamente ao Parlamento Europeu a
adopção de posições claras sobre este assunto. Não incumbindo ao Parlamento
Europeu o papel de provedor-geral da humanidade, não pode contudo deixar de o
responsabilizar o facto de, por mérito próprio, ter despertado inegáveis
expectativas em todos quantos se dedicam à salvaguarda e promoção dos direitos
humanos. Isto desautoriza um certo discurso anti-Ocidental, primário e grotesco,
que continua a ser produzido por alguns sectores mais extremistas das nossas
sociedades. Tal discurso é tão negativo como aquele, de sinal contrário, que se
extasia no enaltecimento da proclamada superioridade de uma suposta civilização
Ocidental de carácter puramente essencialista e despudoradamente racista.
Felizmente, o Ocidente não é nem uma coisa, nem outra, e o espaço político
europeu tem-se revelado o mais aberto à compreensão do outro em todos os planos
em que este se manifesta.
Que o Parlamento Europeu, no meio de
tantas urgências, de tão diversas solicitações sectoriais, de uma quase
inevitável propensão para a abordagem mecânica dos temas mais mediáticos, tenha
encontrado tempo para discutir um relatório sobre os povos indígenas é algo que
a meu ver merece ser registado. Que deputados comunistas, verdes, liberais,
conservadores, democratas-cristãos e, naturalmente, socialistas como eu
próprio, se tenham empenhado profundamente numa discussão que para muitos
poderia ser vista como ociosa ou anacrónica, revela, a meu ver, uma coisa: a
Europa está muito longe de estar tão doente como por vezes se apregoa.
30 anos separam estes dois livros
Comprei a obra de Morin em meados dos anos 90 e, então, achei-o
pertinente. Porém, hoje verifico que no mundo hodierno não é a meia dúzia de
indivíduos conscientes que moldam a caminhada civilizacional. São as ideias
simples que movem a marcha das sociedades, porventura, e infelizmente,
escoradas naquela “visão reducionista e simplista do Homem e do Mundo”. Porque
nas democracias ocidentais é a consciência limitada das massas, inflamada por
um confuso conceito de liberdade pessoal, que escolhe o caminho.
Trinta anos depois do lançamento da obra de Morin, valerá a pena ler “A
Estranha Morte da Europa” do autor Douglas Murray.
PENSAR A EUROPA (1987) - «A reflexão de Edgar Morin incide sobre o
panorama da ciência contemporânea que se apresenta como um "mosaico"
de disciplinas isoladas e separadas entre si. Esta fragmentação remete para a
necessidade de encontrar um novo método, que repense a tradição científica
ocidental. Partindo do desenvolvimento das diversas ciências, especialmente da
física, da biologia, da cibernética e da ecologia, Morin transmite a ideia de
"complexidade", que caracteriza todas as esferas da actividade
humana, desde o mundo físico e natural até ao universo das sociedades humanas.
Estas realidades (física e social), têm de ser pensadas de uma forma dinâmica e
intercomunicativa: o natural não ser entendido desligado do social e
vice-versa, e o todo das partes que o compõem, também perspectivados numa
lógica de reciprocidade. Em síntese,
Morin tem como objectivo ultrapassar a visão reducionista e simplista do Homem
e do Mundo, que domina o pensamento ocidental há trezentos anos.»
A ESTRANHA MORTE DA EUROPA (2017) - «… é o relato de um continente e de
uma cultura à beira do suicídio. A queda nas taxas de natalidade, a imigração
em massa e a cultura da auto-desconfiança e do ódio tornaram os europeus
incapazes de se defender e de resistir à sua transformação abrangente como
sociedade.
Este livro não é apenas uma análise da realidade demográfica ou
política, é também o testemunho de um continente em autodestruição. Em cada
capítulo, Murray dá um passo atrás e analisa os temas mais profundos que estão
por detrás da possível morte da Europa, de uma atmosfera de ataques terroristas
em massa à estável erosão das nossas liberdades. Aborda o desapontante falhanço
do multi-culturalismo, a viragem de Angela Merkel em relação às migrações e a
fixação do Ocidente na culpa.
Viajando até Berlim, Paris, Escandinávia, Lampedusa e Grécia, o autor
desvenda o mal-estar no coração da cultura europeia e ouve as histórias daqueles
que chegaram vindos de longe. E termina com duas visões da Europa - uma de
esperança e uma pessimista - que retratam um continente em crise e oferecem uma
escolha do que podemos fazer no futuro.
A estranha morte da Europa explica com clareza os males que ameaçam a
sobrevivência da Europa.
Na sua ânsia de se abrir para outras culturas e festejá-las
ostensivamente, a Europa esquece-se de festejar e respeitar a sua própria, num
acto insano de auto-sabotagem.
A Europa está morrendo, condenada pelo colapso voluntário da sua
cultura que parece incapaz até mesmo de reconhecer, e menos capaz ainda de se
defender de uma conquista hostil vinda de fora de suas fronteiras.
Os terríveis despotismos do fascismo e do comunismo do século 20
afiguram-se como tentativas de erigir um equivalente secular e político da
verdade religiosa absoluta. Desde então, o secularismo vem corroendo com
firmeza qualquer remanescente de pensamento ou crença, e neste vácuo de um
mundo sem significado o islão aproveitou para penetrar.
Não há como regredir do nosso iluminismo contemporâneo, dominado pelo
saber científico. E o que nos parece determinar nossa “superioridade”
intelectual e moral pode vir a causar a nossa queda fatal.
E o que faremos, como sociedade, para nos defender? Voltaremos a
acreditar em Deus? Ou acordaremos para rechaçar os nossos inimigos, isto é,
inimigos do nosso estilo de vida inflamado de liberdade pessoal?»
eventuais leituras para férias
«A Estranha Morte da Europa é o relato de um continente e de uma
cultura à beira do suicídio. A queda nas taxas de natalidade, a imigração em
massa e a cultura da auto-desconfiança e do ódio tornaram os europeus incapazes
de se defender e de resistir à sua transformação abrangente como sociedade.
Este livro não é apenas uma análise da realidade demográfica ou
política, é também o testemunho de um continente em autodestruição. Em cada
capítulo, Murray dá um passo atrás e analisa os temas mais profundos que estão
por detrás da possível morte da Europa, de uma atmosfera de ataques terroristas
em massa à estável erosão das nossas liberdades. Aborda o desapontante falhanço
do multi-culturalismo, a viragem de Angela Merkel em relação às migrações e a
fixação do Ocidente na culpa.
Viajando até Berlim, Paris, Escandinávia, Lampedusa e Grécia, o autor
desvenda o mal-estar no coração da cultura europeia e ouve as histórias
daqueles que chegaram vindos de longe. E termina com duas visões da Europa -
uma de esperança e uma pessimista - que retratam um continente em crise e
oferecem uma escolha do que podemos fazer no futuro.
A estranha morte da Europa explica com clareza os males que ameaçam a
sobrevivência da Europa.
Na sua ânsia de se abrir para outras culturas e festejá-las
ostensivamente, a Europa esquece-se de festejar e respeitar a sua própria, num
acto insano de auto-sabotagem.
A Europa está morrendo, condenada pelo colapso voluntário da sua
cultura que parece incapaz até mesmo de reconhecer, e menos capaz ainda de se
defender de uma conquista hostil vinda de fora de suas fronteiras.
Os terríveis despotismos do fascismo e do comunismo do século 20
afiguram-se como tentativas de erigir um equivalente secular e político da verdade
religiosa absoluta. Desde então, o secularismo vem corroendo com firmeza
qualquer remanescente de pensamento ou crença, e neste vácuo de um mundo sem
significado o islão aproveitou para penetrar.
Não há como regredir do nosso iluminismo contemporâneo, dominado pelo
saber científico. E o que nos parece determinar nossa “superioridade”
intelectual e moral pode vir a causar a nossa queda fatal.
E o que faremos, como sociedade, para nos defender? Voltaremos a
acreditar em Deus? Ou acordaremos para rechaçar os nossos inimigos, isto é,
inimigos do nosso estilo de vida inflamado de liberdade pessoal?»
A morte da competência - O populismo contemporâneo aumentou o desdém pelos peritos e elites de
todo o género, seja na política externa, na cultura, na economia, e até mesmo
na ciência e na saúde.
Depois de A QUEDA DA BALIVERNA, o autor dispensa apresentações.
A ética e a vara de loureiro*
Para o bem e para o mal as redes sociais
vieram para ficar, dando voz à populaça. Uma voz por vezes imbecil e
impertinente, e raras vezes pertinente e consequente; afinal de contas
espelhando a soma das iliteracias e desinformações de cada uma das vozes
singulares, reunidas na monumental arenga cacófona própria de um país com grave
deficit de instrução e informação.
As redes sociais já conduziram à
demissão de altos cargos da administração pública (Espanha e E.U.A. são disso
exemplo), e vão, paulatinamente, ainda que de modo acanhado entre nós,
portugueses, obrigando a que aquela classe possidente e nada democrática, dos
políticos, vá sentindo os ventos da mudança, particularmente no que respeita à
ética e à moralização da sua actividade. O que acabo de dizer não constitui o
reconhecimento de que a tendência abusiva e abusadora, que os tem caracterizado
nestas quatro décadas e meia de Democracia, esteja em retrocesso. Só um ingénuo
pensaria assim. Até porque, frequente e ardilosamente, o episódico e singular
discurso de mea culpa não passa de estratégia eleitoralista, minuciosamente calculada
no tempo e no lugar. Não nos iludamos, portanto.
Porém, qualquer reflexão séria e
consciente sobre a qualidade dos políticos que temos terá de equacionar a
constatação da estreita ligação desses políticos com o povo que somos. Eles não
vieram de Marte, foram e são extraídos do mesmo húmus material e cultural onde
todos medramos.
Se a maior parte de nós se recusa
a construir Democracia, porque vira as costas à discussão dos problemas e à
participação cívica - por achar essa discussão inquinada e manipulada pelos
políticos “profissionais” -, pelo menos devemos usar a voz para fazer ouvir que
estamos descontentes. E nem que seja por motivos exclusivamente eleitoralistas,
algum efeito poderá resultar. Porque se os políticos não corrigirem o seu abuso,
nunca incutirão nas massas os valores éticos imprescindíveis à vida em
comunidade e em democracia. E o seu exemplo ficará apenas ao serviço da
destruição moral da sociedade.
Triste exemplo, o de Sócrates e o
dos actuais dirigentes do PS, triste e perigoso exemplo para o País, como tem
acontecido.
E agora por isso, onde andará
aquele rapaz, do meu partido, que em tempos idos telefonou ao progenitor transmitindo
com urgência ministerial a importante mensagem: - Papá, já sou Ministro! Aposentou-se
com os bolsos recheados de milhões de euros ilegalmente subtraídos aos
contribuintes, e goza hoje um invejável descanso num destino exótico?!
Há quem diga que vergastar com vara
de loureiro é melhor discurso do que palavreado pendurado numa rede social.
Parábola final da Homilia
“O trigo só é sovado porque
é trigo; fosse joio, nem seria tocado por quem o debulha.”
*sei que, tradicionalmente, é a vara de marmeleiro que se usa mas, ao substituí-la pela de loureiro, tento evitar o desbaste daquela árvore da qual depende o fabrico de um produto tão apreciado pelos portugueses: a marmelada.
A grande desmatação de 2018
A grande desmatação
de 2018
Maria José Castro
https://observador.pt/opiniao/a-grande-desnatacao-de-2018/
Testemunho de uma
professora da Universidade do Algarve que descreve os males feitos nos terrenos
daquela escola superior e também em todo o barrocal, onde se estão a dizimar
majestosas alfarrobeiras.
Na Universidade do
Algarve, fomos todos convocados pelos Serviços Técnicos, e nossas famílias,
para participar na acção de voluntariado que teve lugar no passado sábado, de
“limpeza de mato e recolha de material sólido combustível” no campus de
Gambelas. “Material sólido combustível” – é assim que agora se designam as
árvores e outra vegetação e seres que neles habitam. Pobre pinhal do campus de
Gambelas!
As árvores arbustos
e ervas que nos pedem para “limpar”, são parte de um ecossistema, têm
variedade, albergam insectos, répteis e outros seres; as aves dependem da manta
morta do solo, dos arbustos e das copas dos pinheiros para repouso e nidificar.
As copas dos pinheiros reduzem a luz que limita a vegetação que cresce no solo.
A manta morta que cobre o solo, é precisa para regenerar todo o sistema.
Estamos na época do ano mais sensível para a procriação da maior parte destas
espécies vegetais e animais, em particular as aves, que já começaram a
construir os ninhos. O ruído invasivo das motosserras e roçadeiras que se tem
ouvido nos últimos dias não deixa dúvidas sobre o que está a acontecer aos
pinheiros e restante vegetação e seres que neles habitam e deles dependem. É a
contribuição da Universidade do Algarve para a salvação da floresta em
Portugal!
Um país cronicamente
incapaz de prevenir fogos ao longo de décadas, vira-se agora com ferocidade
contra a primeira vítima do fogo, a natureza, que por ser combustível e arder,
tem que ser eliminada, mesmo que sejamos nós, incauta ou criminosamente, a
atear 99 % dos fogos – se não houver vítima, não pode haver agressor ou
agressão; se não houver combustível, não há combustão. Os nossos governantes
podiam ter decretado acabar com o ar – porque sem oxigénio também não há
combustão – mas como provavelmente têm conhecimentos de química iguais aos que
têm sobre combate a incêndios florestais, lembraram-se de eliminar a vegetação
em geral.
É surpreendente que
a implementação da lei das limpezas de 2006 esteja a ser acatado de forma tão
resignada pela população em geral, sem discussão ou questionamento sobre
possíveis consequências e eficácia, nos meios de comunicação social. Há
algumas, poucas, vozes dissonantes, mas não têm tempo de antena. Não sei se é
menos ou mais surpreendente que a Universidade siga a passividade do resto da
nação, mas é com certeza lamentável, porque as universidades, por vocação e
missão, podem ser um dos últimos redutos de defesa da verdade, da liberdade de
expressão, do esclarecimento e debate público de ideias e de independência do
poder político.
No campus de
Gambelas, era de temer o pior, com aquilo a que se tem assistido desde 2013,
quando os trabalhos de jardinagem, antigamente feitos por dois jardineiros do
quadro, foram adjudicados à empresa Ferrovial na sua vertente de “valorização
de resíduos sólidos”. Com efeito, a valorização foi só para a empresa, porque a
Universidade ficou não só com o dobro dos custos, como ficou com os estragos
irreversíveis causados pelas podas mutilantes dos pinheiros e o abate de
exemplares saudáveis. E tudo isto feito sem qualquer respeito pelo calendário,
sem lembrança das muitas aves que nidificam no campus na Primavera, sem
qualquer consideração pelas práticas de boa poda, mesmo naqueles casos em que
se justificavam cortes – muitos pinheiros “podados” já desenvolveram tumores
provocados por rasgões no tronco, ou cortes feitos logo após chover. Alguns
ficaram com a copa ridiculamente reduzida, desventrada e totalmente
descompensada – o que resta são aleijões ou emaranhados de paus. Muitos, e há
que incluir alguns plátanos, têm morte anunciada. Convém saber que estas
práticas de desbaste radical, juntamente com perturbação das raízes, são a
razão da morte e queda de muitas árvores. Uma árvore é um ser vivo!
Tal insensibilidade
e ignorância espelham infelizmente aquilo que se vê por todo o lado – as
práticas de podas abusivas que lesam a estética e comprometem a viabilidade da
árvore tornaram-se um cenário tristemente banal e aumentaram a ritmo alucinante
nos últimos anos. Estas práticas, que em alguns países configuram crimes
ambientais, mesmo quando perpetradas em terrenos privados, aqui são sempre
justificadas por qualquer razão irracional e mesquinha, ou simplesmente, como
se diz no Algarve, porque “as árvores querem-se cortas”. Não há travão ético,
estético, nem legal, para refrear o apetite crescente por madeira e outros
detritos vegetais, que é a verdadeira força motriz que impulsiona toda esta
voracidade podadora recente. Árvores e restante vegetação são em geral vistas
entre nós como um estorvo ou apêndice inútil da paisagem, mas – que azar para
elas e demais criaturas que delas dependem – cada vez mais uma fonte de
rendimento irresistível, desde a venda de madeiras nobres, que atingem no
mercado centenas de euros por metro cúbico, como o plátano, o jacarandá ou o
cedro, até à transformação para composto, pellets e afins, biogás e
electricidade. Quando podar, devastar, recolher, só dava trabalho e nenhum
lucro, esses serviços eram realizados por funcionários camarários. Embora as
atrocidades tivessem aumentado na razão da evolução das “tecnologias da poda” e
diminuição da formação dos podadores, ainda ia havendo uma certa indiferença
tolerante. Quando começaram a dar lucro, e muito, rapidamente os mesmos
serviços passaram para as mãos de empresas privadas, e desde então, não há erva
ou árvore centenária que não esteja à mercê dos exércitos de sapadores
recrutados por estas empresas – mão de obra barata não falta e quanto mais
energúmenos melhor.
A lei da limpeza de
terrenos de 2006, tão precipitada e draconianamente implementada pelo governo
com requintes inauditos de intimidação e ameaça, anunciada de forma
atabalhoada, está a levar a atrocidades que se podem ver por todo o lado. Quem
tem um pedaço de terreno em volta da casa e aplicar a lei até 50 metros em
redor de casa (100 metros de povoamentos), vai ficar a viver num semi-deserto.
Os vizinhos têm que fazer o mesmo e o deserto alastra. Em zonas rurais as
pessoas estão divididas entre sentimentos de ansiedade, medo, indignação,
sabendo que façam o que façam, perdem sempre: porque não suportam os custos da
limpeza, porque vão ter de escolher entre “fazer do coração tripas” e destruir
elas próprias árvores e vegetação à volta da casa ou arriscar pagar a multa — o
afastamento de mínimo de quatro metros entre copas e entre fachadas e copas vai
eliminar mais de metade das árvores. O e-mail enviado pelas finanças avisa
ameaçadoramente: “Se não o fizer até 15 de março, pode ser sujeito a processo
de contraordenação. As coimas podem variar entre 140 a 5 mil euros, no caso de
pessoa singular, e de 1500 a 60 mil euros, no caso de pessoas coletivas” e terá
uma brigada sapadora enviada pela autarquia a entrar em casa e cortar o que
quiser. Muitos proprietários nas zonas mais afectadas pelos incêndios já estão
a vender os terrenos ao desbarato porque os lucros que extraem da terra não
cobrem o que iriam ter que gastar em limpezas.
No caminho que faço
diariamente para a Universidade, nas última semanas, foram reduzidas a tocos
centenas de oliveiras e alfarrobeiras, muitas seculares, hectares de
terreno foram totalmente descarnados. A
lei das limpezas veio apressar estas razias, que têm acontecido nos últimos
anos devido a estar tudo à venda e os proprietários cortarem as árvores para
lenha quando vendem os terrenos. Na vila de S. Brás de Alportel, as únicas
árvores de grande porte que ainda não tinham sido decapitadas em espaço
público, que eram oliveiras e alfarrobeiras, foram arrasadas há duas semanas,
perto do quartel da GNR, para dar o exemplo aos munícipes. Em Espanha, onde as
alfarrobeiras e oliveiras centenárias são protegidas por lei, a poda de UMA
alfarrobeira centenária é notícia de jornal. Aqui, no barrocal algarvio,
perante a indiferença de todos, as majestosas alfarrobeiras, que podiam ser o
ex-libris do Algarve, têm sido dizimadas na última meia dúzia de anos. Com
elas, há aves que vão desaparecer, como os papa-figos. São “árvores de grande
porte” e como tal uma ameaça pública.
O ministro Cabrita
está entusiasmado com a mobilização dos portugueses e com o que vê à sua volta
– “e ainda temos até ao final de Maio”. A GNR já está no terreno para assinalar
as situações de incumprimento e as multas vão começar a chegar, que têm agora o
carácter de notificação dos proprietários para a limpeza, que se for feita até
final de Maio anulam a multa. Supõe-se, o governo não esclareceu, que depois do
final de Maio as autarquias tenham que avançar (até quando?), senão serão elas
as multadas com perda de financiamento pelo governo central (o mesmo governo
que quer descentralizar). Podemos esperar toda a sorte de arbitrariedades,
confusões, guerras com as autoridades e entre vizinhos. “E tem mais”, avisou
ameaçadoramente o primeiro-ministro Costa em Tondela – “as autarquias têm
direito de tomar posse das terras e de se cobrarem pela venda do material
lenhoso e exploração das terras”.
Vale a pena ver o
vídeo da visita do primeiro-ministro, porque, ironicamente, nas casas ardidas
por onde o primeiro-ministro Costa e sua comitiva passam, e onde faz o seu
discurso, a única coisa que não ardeu foram as árvores e arbustos mesmo junto
às paredes, que dão a única nota de vida e alegria num cenário devastado. Os
telhados e o interior arderam, até o betão vergou – pelo que se depreende que o
fogo deve ter vindo do ar, de algum eucaliptal ali perto. Como este ano o
crescimento de pastos começou mais tarde, as limpezas que agora estão a ser
feitas, com mais luz no chão sem a sombra das copas e arbustos cortados, com
chuva, vão resultar num vigoroso crescimento de ervas que vai cobrir tudo e
estar no ponto de palha em Julho. O rastilho perfeito para iniciar fogos. E
quanta natureza vai ser destruída até lá, quantas árvores, quantas aves?
Tudo isto é de uma
bestialidade impensável, uma violência que vai atingir economicamente muitas
pessoas e que entra já na esfera da liberdade pessoal de cada um. Aplicada a
lei, as casas que têm uma floresta a 50 metros vão ficar com um risco de
incêndio pouco menor, as que não tinham uma floresta à volta, vão ficar no
semi-deserto, e com o mesmo risco – é a lei absurdamente cega que trata todo o
território como igual e que leva tudo à frente. Quem ganha – para já o governo,
que assim se demite de qualquer responsabilização por fogos futuros (os
malvados que não limparam os terrenos é que tiveram a culpa), as brigadas de
desmatação que estão a aparecer como cogumelos e começaram a cobrar fortunas. O
ministro Cabrita contrapõe que o lado positivo é que que se estão a criar
muitos postos de trabalho! E podem ser permanentes, porque de agora em diante,
como a natureza volta a crescer, não vamos parar de desmatar o ano
inteiro. Mas vai haver outros que vão
ganhar muito com a lei, e disso pouco se fala.
A lei das limpezas
que agora se invoca existir desde 2006, não foi criada para prevenir fogos. Foi
criada para suportar a implementação de 15 centrais de biomassa destinadas à
produção de electricidade, previstas no mesmo ano, quando foi lançado um
concurso, na largada da grande corrida às renováveis promovida pelo governo
Sócrates; implementação essa que não se concretizou, porque investimento,
subsídios e potência de rede foram sugados pelo lobby das eólicas. Por esta
razão a lei nunca foi cumprida, da mesma forma que no mesmo período nunca foram
tomadas quaisquer medidas de prevenção de incêndios, por decreto ou outras.
Aliás, nestes anos fez-se exactamente o contrário – o que restava da guarda
florestal e postos de vigilância foi desmantelado por completo; não houve
endurecimento na criminalização de incendiários ou actos negligentes;
arranjou-se um calendário para a “época de fogos” de Julho a Setembro como a de
banhos na praia, que se esperou que S. Pedro e os incendiários também
seguissem.
À medida que se foi
esgotando financiamento, subsídios, potência de rede disponível e sítios com
muito vento para espetar ventoinhas (sem restrições de ordem paisagística ou
ecológica), assim se foi refreando a fúria eólica. Mas cresceu a do solar,
porque os painéis são já tão baratinhos, e o preço que pagamos pelo kWh é já
tão elevado, que os investidores podem ter chorudos lucros cobrindo vastíssimas
áreas com painéis fotovoltaicos, mesmo sem subsídios directos. É isso que estão
a fazer e ainda mal começaram – a Sul, a cultura do painel solar vai rivalizar
com a do betão, do eucalipto e da agro-indústria, no domínio da paisagem. Esta
nova onda de investimento desenfreado tem uma dimensão e ímpeto nunca vistos –
antes ainda se simulavam preocupações ambientais, agora até esses floreados se
deixaram cair. Está a ser resolvido o problema, para todas as renováveis, do
esgotamento da potência de rede – a electricidade tem que ir para algum lado
onde seja gasta – com a abertura das ligações para França através dos Pirenéus
e agora as subterrâneas para Marrocos. A Comissão Europeia vai financiar em
força (nós também), voltou o investimento de bancos e fundos especulativos.
Voltaram as grandes barragens (que o ministro Matos Fernandes diz não poder
parar porque não há dinheiro para as indemnizações), avança a eólica para o
mar, chegou finalmente a oportunidade de ouro para as centrais de biomassa em
Portugal.
Os incêndios de 2017
deram o pretexto que faltava para resolver o grande problema dessas centrais,
que as leis das limpezas de 2006/2009 e a Portaria de 2009, que permitiu a
requisição de desempregados para a limpeza de florestas, não conseguiu
resolver: garantir o fornecimento de matéria vegetal em quantidades colossais e
de forma regular, a custo “sustentável” (o económico, não o ecológico), que
depende de uma engrenagem de corte, recolha e transporte. O custo da matéria-prima
agora vai ser perto de zero para as empresas que a transformam – vamos todos
contribuir directamente com a nossa cota parte de desmatação cega. Já não é
necessário pensar em soluções geniais como a do sr. primeiro-ministro Costa
(então candidato), que se lembrou que os refugiados podiam ir limpar as
florestas para suprir a falta de mão de obra (eles devem ter ouvido e talvez
por isso fujam todos mal chegam a Portugal).
A corrida aos lucros
com os despojos do coberto vegetal de Portugal vai ser enorme – depois de
termos o maior eucaliptal da Europa, e sermos já leaders na exportação de
pellets (que são feitos em grande parte com madeira e não com desperdícios como
se faz crer), até já ultrapassámos a Rússia, certamente vamos bater o record do
kWh por m2 de território gerado com biomassa. Os interessados nesta biomassa
toda, sempre os mesmos do costume, não se vão fazer rogados. Um
comendador/comentador conhecido, ele próprio um arrivista das energias
renováveis, dá uma ideia do que se poderá passar, na entrevista publicada na
“Vida Rural” em Dezembro de 2010 — “A biomassa é o ovo de Colombo em Portugal”.
Sobre os problemas que estas centrais levantam, ao nível da destruição de
ecossistemas e conservação do solo, para não falar na mais que duvidosa
“neutralidade” na produção de CO2, o pacote florestal do governo que contempla
a criação de centrais de biomassa como medida essencial, nada refere.
A aplicação cega da
lei das limpezas de 2006 tem um alcance mais largo: vem colmatar em parte o que
a reforma das florestas aprovada em Julho passado no Parlamento, com base num
pacote proposto pelo governo em 2016, não conseguiu — a criação de um “banco de
terras” — que ficou de fora do pacote, e que provavelmente teria mesmo sido
aprovada pela tal “geometria variável”, não fora a proximidade de eleições
autárquicas (com retoques cosméticos, não faltará muito para ser aprovada, como
aconteceu com a lei do financiamento dos partidos). Este banco de terras, que é
dado como a grande solução para o ordenamento do território e desenvolvimento
do meio rural e do interior em particular, vai reunir terrenos privados sem
dono, terrenos rústicos do estado, terrenos de que o estado toma posse por
incumprimento de leis de manutenção, terrenos que o estado compra a privados
com as receitas das vendas dos primeiros. Na revenda a privados, no caso de
“património com vocação florestal”, as parcelas “deverão integrar uma área
mínima de 100 hectares, da qual pelo menos 50% deverá ser constituída por
propriedades com área inferior a 5 hectares”. Para a “agricultura”, vai ser
dada preferência a jovens e desempregados! Todos os portugueses deviam ler com
atenção estas propostas. Significam a maior mudança de mãos de terra que
aconteceu em Portugal por decreto, desde a confiscação dos bens da coroa e
ordens religiosas em 1834 – há duzentos anos, a venda dos bens nacionais
promovida pelo governo liberal pretendia ser a redistribuição, por intermédio
do Estado, de uma enorme riqueza, que iria impulsionar a classe média e o
progresso de Portugal. Ao contrário do que aconteceu em França, em Portugal a
riqueza acabou por ficar concentrada nas mãos de alguns que já tinham muito e
mais uns quantos na órbita do poder político – ficaram com a alcunha dos
“devoristas”. Portugal continuou no mais deprimente atraso e o progresso foi adiado.
No Estado Novo, a plantação de pinheiro bravo e eucalipto também era a grande
oportunidade de desenvolvimento do interior – deu no que deu.
O ministro Capoulas
Santos anuncia agora, em primeira mão, a criação de uma “Nova Empresa Pública
de Desenvolvimento e Gestão Florestal” que vai procurar identificar os prédios
rústicos para arrendamento e garantir um rendimento anual aos proprietários,
sobretudo “pessoas mais idosas”. Não disse em que moldes e com que critérios
isso vai se feito. Mas parece ter pressa – é uma “questão de semanas”, afirma.
Trata-se do plano B do banco de terras que foi chumbado pelo Parlamento em
Julho? O ministro, que não conseguiu disfarçar o desconcerto que teve com o
chumbo, avisou logo — “o Código Civil permitir-nos-á contornar o banco de
terras”. Com banco ou sem banco, em áreas florestais, o Estado poderá tomar
posse de terrenos abandonados, ou desenquadrados da vocação florestal. E como
vai o governo convencer os agricultores idosos donos de terrenos rústicos, e os
que não são idosos, a passarem a gestão das suas propriedades para a nova
Empresa Pública? Ainda há uma esperança — poderá recorrer a “elementos
dispersos da legislação”. Como a lei das limpezas?
Esta reforma das
florestas parece feita à medida das ambições das indústrias do papel. O banco
de terras, ou seu substituto, era a oportunidade para o estado impor áreas de
floresta autóctone, floresta a sério — não se vislumbra essa intenção nas
propostas do governo. Pelo contrário, pretendem aumentar a produção de eucalipto,
tirando eucaliptal onde a produção não é rentável e plantando em terrenos mais
produtivos que antes não tinham eucalipto – assim não se aumenta a área (mas
também não se diminui). Quando se cortam eucaliptos, eles voltam a crescer
sozinhos com o dobro da força – o que vai acontecer a estes ex-eucaliptais, que
deixaram o solo arruinado? E que novos terrenos produtivos vão ser
eucaliptados? O anterior governo queria pôr mais eucaliptos no Alentejo e
regá-los com água do Alqueva. A lei que liberalizou a plantação de eucalipto em
2013, e que podia ter sido revogada em 2015, não foi – hipocritamente
anunciou-se que iria ser, um dia. Foi agora, em Fevereiro deste ano. A corrida
ao eucalipto disparou e foram plantados mais eucaliptos nestes dois anos do que
nos dois anos após a lei ser aprovada. Sobre isto, em Novembro passado, o
ministro Capoulas Santos desculpa-se com: “Roma e Pavia não se fizeram num
dia”.
O mesmo ministro que
dizia, entre os dois grandes fogos de 2017, que o governo fez o que poderá ser
“a maior revolução que a floresta conheceu desde os tempos de D. Dinis”. O que
aconteceu em Outubro deu-lhe razão… A poderosa indústria do papel lançou nos
jornais uma fortíssima campanha publicitária paga (e outra aparentemente
não-paga) quando o pacote da reforma da floresta foi anunciado, pondo-se no
papel de virgem ofendida e alegando que estava a ser diabolizada, quando na
verdade deve ter esfregado as mãos de contente com a reforma anunciada. Mais
pareceu uma manobra coordenada entre as indústrias da celulose e o ministro
Capoulas Santos: uns podem plantar mais eucaliptos, os outros podem simular que
querem reduzir a sua plantação.
É bom lembrar que
Portugal continental tem a quinta maior área absoluta de eucalipto no mundo, a
seguir, à China, Brasil, Austrália e Índia, que têm 104, 92, 84 e 32 vezes a
área de Portugal. Dos 22 milhões de hectares de área de eucalipto no mundo,
Portugal tem quase 1 milhão – é a maior densidade de eucalipto do mundo.
Comparativamente a Espanha, que tem características climáticas e de relevo do
solo semelhantes a Portugal, e tendo em conta a diferença de tamanho do
território, em Portugal a percentagem de área ardida em 2017 foi 25 vezes
superior à que foi em Espanha. Por coincidência ou não, a densidade de
eucalipto em Portugal, a maior do mundo, é 21 vezes maior que a de Espanha.
Será que em Espanha não há alterações climáticas? Mas Espanha também leva o
combate a incêndios muito mais a sério, sobretudo na prevenção, onde investe o
triplo do que investe em combate, ao contrário de Portugal. O nosso governo em
vez de produzir leis absurdas podia ir a Espanha ver o que exactamente lá se
faz, que é o que o senso comum e observação da realidade mandam (bastava ler os
elucidativos artigos publicados no “El País” sobre os fogos em Portugal).
Se uma pequena
parcela do esforço intimidatório que está a ser exercido sobre todos os
proprietários, fosse dirigido aos que fazem queimadas indevidas e aos
incendiários, é possível que houvesse menos fogos este ano. Prefere-se atribuir
às alterações climáticas e fenómenos estranhos a ocorrência de 542 fogos num só
dia. Perseguir os incendiários não daria tanto lucro, nem tantos empregos, como
dão as consequências da não-aplicação da lei das limpezas.
O ministro Capoulas
Santos declarou há dias que esta é a maior operação de limpeza de floresta “em
800 anos de história”.
Em 1958, na China, o
grande leader Mao Tse-Tung convocou toda a nação para erradicar a praga dos
pardais, que roubavam cereais das colheitas e estavam a prejudicar o progresso económico
da China – foi a grande campanha dos pardais. Os cidadãos chineses
mobilizaram-se massivamente e durante dias vieram para o campo e bateram em
tambores, em tachos e panelas o mais que puderam para aterrorizar os pardais e
impedi-los de poisarem, até caírem mortos de exaustão. Outros foram mortos a
tiro, os ninhos foram destruídos. Foram exterminados centenas de milhões de pássaros.
As consequências do sucesso da campanha tornaram-se evidentes em 1960. Os
pássaros não comiam só cereais, também comiam insectos. Sem pássaros os
insectos proliferaram e destruíram as colheitas. Dezenas de milhões de pessoas
morreram à fome.
Como disse Henry
Thoreau, filósofo e naturalista americano, “qualquer idiota pode fazer uma
regra e qualquer idiota a seguirá”.
Avancemos, pois, com
a roçadeira e a motosserra!»
![]() |
| "Presidente da República elogia a medida de limpeza de terrenos em redor das habitações decidida pelo Governo, considerando que tem um objetivo psicológico" in jornal Expresso |
Ah, possui um objectivo psicológico?! E o objectivo deve ser desorientar, desanimar e prejudicar os portugueses e a Natureza.
Concursos televisivos
A Televisão é inimiga da cultura
porque ilude os telespectadores e, por maioria de razão, os participantes nos
seus “concursos de cultura geral” materializados naquelas sessões de perguntas
e respostas sobre algo que podemos considerar como “conhecimento de um certo enciclopedismo”,
coisa bacoca que nada deve à sabedoria.
A Televisão é inimiga da cultura porque
apresenta temas e questões demasiado eruditas para a sua audiência, ponto
final.
Há poucos minutos, perguntava-se
num canal nacional, para as mesmas respostas (ver imagem), qual daquelas
pessoas nunca tinha pintado o retrato de um Presidente da República.
Perante o assombro da concorrente,
que olhava para o painel como um boi olha para um palácio, usaram o recurso de
mudar a pergunta, mantendo as mesmas respostas (ver imagem).
O resultado foi idêntico e mais
uma vez foi accionado o recurso, desta vez mudando a concorrente. E a nova candidata
a um prémio, que ignoro qual seja, acabou por acertar na resposta apostando no
nome que lhe parecia o mais antigo (de facto Columbano Bordalo Pinheiro soa a mais antigo do que Gonçalo M. Tavares,
porque na actualidade Columbano não é um nome próprio usual). Enfim, é a verrina
da Televisão, moendo a cabecinha das gentes “normais” com idiotices ligadas à
cultura. Porque é que não perguntam sobre coisas que demonstram a verdadeira
sabedoria das pessoas, como por exemplo, quantos são 12+7 ou quantos amores
concorrem na famosa canção do Marco Paulo, já para não falar sobre o
conhecimento dos horários das telenovelas?
Ouçam o que vos digo: A Televisão
está a prestar um mau serviço a este povo, e já é altura de alguém fazer alguma
coisa para acabar com esta vergonha. Perguntas eruditas, não! Isso é
discriminação intelectual!
PS: - Havia um empresário local
proprietário de umas tantas prateleiras com livros que decoravam uma sala na
sua opulenta habitação. Porém, honesto, confessava àqueles amigos que lhe
admiravam os extensos metros lineares de livros, que não gostava de ler pois nunca
tinha adquirido tal vício; e explicava: “para não parecer um completo iletrado,
decorei os títulos dos livros e os nomes dos autores, embora os misture por
vezes”.
Desta forma o homem não era realmente
um “completo iletrado” mas apenas um iletrado parcial, naquela parte que
respeita ao conteúdo dos objectos literários, ou melhor, dos objectos
decorativos.
Hélio José partiu para a eternidade
Foi com enorme pesar que, ontem (23 de Março de 2018), tomei
conhecimento do falecimento do Hélio José, homem da Rádio e dos jornais,
lacobrigense que viveu em África e regressou à sua terra natal nas condições em
que regressaram milhões de outros portugueses de alma africana. Era um daqueles
homens que nos servem de exemplo pela dignidade e honestidade que colocam em
tudo o que fazem e naquilo que são. Não esquecerei o seu carácter de permanente
questionador nem o seu sentido de humor, discreto e inteligente. Lagos, que
tanto amava, perdeu mais um dos seus eternos defensores e admiradores. Deixa,
na memória de quem o conheceu melhor, a recordação de uma pessoa honrada e
exemplar. Um amigo. Que descanse em paz.
| Hélio José, passando pela animação de rua da sua querida Lagos, num dia de Verão, em Agosto de 2015. |
| Hélio José, na Britaica, em 30 de Dezembro de 2003 |
| Hélio José, em Abril de 2008, na Rua da Barroca |
| Uma das últimas fotos que fiz ao Hélio José, em Agosto de 2016 |
telecinemices
Nas séries televisivas
americanas, como aliás em quase todas as produções holywoodescas, impera
demasiado artificialismo (no sentido de distanciamento do real), onde é fácil
detectar que se trata de um plateau super-encenado. Já nas séries britânicas há
mais naturalidade e maior aproximação ao real, seja no que toca à maquilhagem
dos actores seja no que concerne à Fotografia (particularmente no campo da iluminação).
Outro aspecto que
detesto na “escola” americana é o tempo, a rapidez com que as cenas se sucedem;
e detestando também o oposto, a lusa modorra entediante dos filmes de Manuel de
Oliveira p. ex., encontro no tempo da cinematografia britânica a dinâmica que
considero mais atractiva.
É verdade que também
prefiro a arte de representar britânica, que considero muito superior à
americana, mais sólida e convincente, embora admita que em parte isso se deva a
não conhecer tão bem os actores britânicos, pelo que os seus personagens não vêm
inquinados com a carga de personagens anteriores, como acontece amiúde com os
actores americanos.
Generalizar não é
coisa ajuizada pelo que ressalvo as excepções: As várias “escolas” de audiovisuais
americanas produziram ao longo dos tempos centenas de excelentes obras, e alguma
obras-primas incontornáveis na história do cinema e da televisão. Diria é que,
comparativamente, i. e. considerando as dimensões volume e escala, os
norte-americanos ficam muito aquém da tríade europeia: ingleses, franceses e
italianos.
Obviamente, trata-se
de uma opinião subjectiva, como subjectiva é - porque pessoal - toda a
interpretação que se faça do universo das imagens.
Em todo o caso, e em
matéria de filmes e séries, americano ou americanizado, não, obrigado! Continuo
a achá-los demasiado “infantis”; ainda que reconheça, e talvez por isso mesmo, que
continuam a ser os mestres do entretenimento. Já acerca do mundo da música
tenho opinião muito diferente, pelo que não se trata de nenhum preconceito
contra a cultura norte-americana.
Prefiro uma série
simples britânica, como MidSomer Murders, ao aparato cénico, plástico, e distante
da minha realidade, que é a série norte-americana Blue Bloods.
Uma nota final para
referir que tem sido muito interessante apreciar as produções internacionais de
países da região escandinava (em sentido amplo: Dinamarca, Suécia, Noruega,
Islândia e Finlândia), com a participação de norte-americanos, ingleses,
franceses e outros, em excelentes realizações que rejuvenescem e actualizam a
indústria da ficção tele/cinematográfica; talvez resultado da mistura dos
contributos das diferentes escolas e culturas?!
A Educação Física deve contar para a entrada na universidade?
A Educação Física deve contar para a entrada na universidade?
http://ventosueste.blogspot.pt/2018/02/a-educacao-fisica-deve-contar-para.html
Tempus Fugit
Quando as sociedades regressam maioritariamente
à comunicação por imagens isso significa que deixaram de dialogar,
refugiando-se no acto de declarar. Sintoma de uma sociedade que perdeu a
capacidade de conversar, de escrever, até mesmo de ler. Indícios de que as
ideias dos outros não interessam porque não são produto da experiência de cada
um: “Não são a minha experiência, afinal de contas a única que verdadeiramente
conta”.
Nesta era de comunicação fácil e
global, nunca os humanos estiveram tão afastados uns dos outros, nem tão
emersos num gigantesco ruído discursivo. Porque o indivíduo de hoje não
discute, sentencia. Incapaz de dialogar, o homem do séc. XXI refugia-se no
monólogo, declarando a sua convicção, muitas vezes formada noutros discursos
autistas que também não resultaram do confronto de ideias, de intuições, de
experiências diferentes. O sujeito de hoje evita a confrontação, e mesmo quando
manifesta a sua discordância fá-lo emitindo opiniões categóricas.
A par disto, nunca o tempo se
mostrou tão fugidio, tão volátil, como na actualidade. E nessa emergência de
acompanhar o ritmo do ponteiro dos segundos, o ser humano dilui-se num nada
existencial que finge ser um tudo universal. Produto de uma civilização
neurótica, este indivíduo vive o paradoxo de tentar ser mais veloz do que o seu
ritmo ingénito, biológico; e num ápice esgota a vida, raramente percebendo como
tal coisa aconteceu. O que antes era rápido tornou-se vertiginoso e a viagem
nesta montanha russa que é a vida hodierna só se suspende por abrupto acidente
que interrompe a corrida louca e apeia o indivíduo.
Nessa circunstância a imagem constitui algo para consumo imediato, algo que implica escassa reflexão e pouca ou nenhuma comunicação bilateral. É o discurso dos que não sabem confrontar ideias, é a língua daqueles que já não dominam os discursos tradicionais e que mostram dificuldade em ordenar o pensamento. É emissão num só sentido, ferramenta das elites dominantes dirigida às massas dominadas.
Assim foi ao longo da história,
com os desenhos gravados no interior de cavernas, por xamãs e líderes de clãs
para admiração pelos restantes membros; assim foi nas igrejas e catedrais onde
os baixos-relevos, as pinturas e as estátuas transmitiam a interpretação da
mensagem dos deuses, para consumo de analfabetos e iletrados; assim tem sido
com os exuberantes cartazes de figuras tutelares, ou os outdoors de
publicidade, com as suas mensagens dirigidas às massas; assim continua com a supremacia
do visual na comunicação internética.
Preso numa ignorância travestida
de convicção pessoal, o indivíduo de hoje não dialoga, antes declara a sua
ignorância camuflada em imagens de subjectiva interpretação, em que cada destinatário/espectador
constrói uma interpretação pessoal, que invariavelmente faz concordar com o aquilo
que considera acertado, correcto, e verdadeiro. Não há lugar para a dúvida, o contraditório
não é explorado, o cérebro trabalha pouco, a inteligência desvanece.
“Os média deram a palavra a
legiões de imbecis que anteriormente falavam só no bar, depois de uns copos de
vinho, sem causar dano à comunidade. Frequentemente, até havia alguém que os
mandava calar, mas hoje eles têm tanto acesso ao uso da palavra como qualquer
laureado com o Prémio Nobel. O drama da Internet é que ela promoveu o idiota da
aldeia a arauto da verdade”. Umberto Eco
E a imagem aí está para facilitar
essa declaração.
“A imagem é o resumo visual e
indiscutível de uma série de conclusões a que se foi chegando através da
elaboração cultural; e a elaboração cultural que se serve da palavra
transmitida por escrito é apanágio da elite dirigente, ao passo que a imagem
final é construída para a massa submetida. Nesse sentido, têm razão os
maniqueístas: existe na comunicação por imagem algo de radicalmente
limitativo...” Umberto Eco
Não há tempo para mais,
Tempus Fugit. Vejam fotos.
Capitalismo
É no capitalismo que as pessoas comuns alcançam a maior qualidade de
vida e é no capitalismo que milhões de pessoas encontram a possibilidade de
ascensão social e económica. As situações de pobreza que existem nas sociedades
capitalistas em nada diferem das situações de pobreza que existem em quaisquer
outras sociedades.
Pobre é pobre em qualquer lado, mas na sociedade capitalista o indivíduo pode aproveitar, ou criar, a possibilidade de construir algo que lhe permita superar a situação de pobreza, enquanto noutras sociedades tutelares, não capitalistas, não existe essa oportunidade; apenas o recurso à esmola do Estado para garantir a sobrevivência, e se existirem demasiados "necessitados" o Estado esgota nesse suporte a riqueza gerada pelos indivíduos produtivos não permitindo o enriquecimento individual e transformando a sociedade numa massa de remediados que sustentam outra massa de desvalidos, desafortunados ou preguiçosos.
Se o Estado quer ser polícia, que o seja dos grandes oligarcas, dos jogos das multi-nacionais e do império financeiro, legislando, regulando e fiscalizando as desmesuradas fortunas e os mega-negócios, e deixe de ser patrão e sanguessuga do cidadão comum, que deixe de ser perdulário e deixe o cidadão tratar da sua vida.
Pobre é pobre em qualquer lado, mas na sociedade capitalista o indivíduo pode aproveitar, ou criar, a possibilidade de construir algo que lhe permita superar a situação de pobreza, enquanto noutras sociedades tutelares, não capitalistas, não existe essa oportunidade; apenas o recurso à esmola do Estado para garantir a sobrevivência, e se existirem demasiados "necessitados" o Estado esgota nesse suporte a riqueza gerada pelos indivíduos produtivos não permitindo o enriquecimento individual e transformando a sociedade numa massa de remediados que sustentam outra massa de desvalidos, desafortunados ou preguiçosos.
Se o Estado quer ser polícia, que o seja dos grandes oligarcas, dos jogos das multi-nacionais e do império financeiro, legislando, regulando e fiscalizando as desmesuradas fortunas e os mega-negócios, e deixe de ser patrão e sanguessuga do cidadão comum, que deixe de ser perdulário e deixe o cidadão tratar da sua vida.
«O preconceito e o fanatismo da opinião pública manifestam-se com mais
clareza pelo facto de ela vincular o adjectivo 'capitalista' exclusivamente às
coisas abomináveis, e nunca àquelas que todos aprovam» Ludwig von Mises
«O capitalismo será sempre melhor opção de sistema económico do que o
socialismo, e seria sempre a melhor opção mesmo que a humanidade fosse
moralmente perfeita. Porque até num mundo ideal, a propriedade privada e a
liberdade de mercado seriam a melhor forma de promover a cooperação mútua, a
justiça social, a harmonia e a prosperidade. O socialismo fixa-se na
superioridade moral do indivíduo (ou pior, na superioridade moral das massas)
tentando provar com isso que o socialismo ideal é moralmente superior ao
capitalismo realista. Porém, a realidade leva-nos a intuir que o capitalismo
ideal é superior ao socialismo ideal.» Jason Brennan
uma frase que diz tudo
«Corre-lhes no sangue a torpeza, a sordície é comum desde os
tempos de escola e vai atilando-se a par da idade e ‘experiência’, a escrotidão
é o ‘quotidiano’.» Daqui
máxima sobre guerra
«A melhor guerra é aquela que
ninguém sabe que estamos a travá-la; nem mesmo os oponentes.
Mas para isso, não
a podemos ganhar para ninguém, só para nós.»
Vanus de Blog
Celebrar a Restauração da Independência
Celebrar a Restauração da Independência
- Ou a vontade de um projecto colectivo -
A 19 de Março de 1604 nascia em
Vila Viçosa D. João, filho de D. Teodósio (VII Duque de Bragança) e de D. Ana
de Velasco y Giron, e neto de D. Catarina de Bragança, uma das herdeiras
legítimas ao trono, em grau de igualdade com Filipe II de Espanha. No entanto
foi este monarca espanhol que veio a tornar-se rei de Portugal. Um rei com duas
coroas.
As promessas de Filipe I nas
Cortes de Tomar e a riqueza do reino espanhol granjearam vasto apoio à
instauração da união ibérica. Porém, tudo mudou no início do século XVII com a
crise que afectou a Espanha sobretudo devido à sua envolvência na Guerra dos
Trinta Anos, que implicou a mobilização dos exércitos portugueses e o lançamento
de novos impostos em território nacional.
Com Filipe III de Portugal, o
país tornou-se numa mera província espanhola, com o monarca residindo
permanentemente em Espanha, e a regência entregue a D. Margarida, Duquesa de
Mântua, auxiliada por Miguel de Vasconcelos, o Escrivão da Fazenda do Reino.
Este desrespeito pelas promessas
feitas nas Cortes de Tomar conduziu ao crescente descontentamento português,
com vários levantamentos populares e revoltas, como a de 1637 em Évora (Revolta
do Manuelinho), que se espalhou por outros pontos do país, mas prontamente
abafada pelos militares espanhóis.
Porém, o descontentamento já era
generalizado, visto que o país não estava a ser governado segundo os seus
interesses e as colónias portuguesas eram constantemente vítimas de ataques de ingleses
e holandeses. Desta forma foi ganhando consistência o desejo de ver restaurada
a independência e, nesse ambiente, e sobretudo a partir de 1636, D. João
começou a ser encarado como a figura adequada para substituir Filipe III no
trono português.
Em 1637, esse desejo de
restauração da independência ganhou mais força no seio da nobreza, do clero e
da burguesia, estendendo-se até ao povo, e em Novembro de 1640 um grupo de
conjurados planeou a revolução. João Pinto Ribeiro, representando os
conjurados, dirigiu-se a casa de D. João para acertar os preparativos da
revolução mas, inicialmente, D. João recusou. E foi a sua esposa, Luísa de
Gusmão, que o convenceu que seria melhor morrer reinando do que servindo,
atribuindo-se-lhe a frase “ Melhor ser Rainha por um dia, do que duquesa
toda a vida”.
Podemos, pois, dizer que
restauração da independência portuguesa de Dezembro de 1640 foi desencadeada
para superar a crise política decorrente da prepotente e ofensiva governação do
Conde-Duque de Olivares, que impôs medidas que contrariavam as promessas de
autonomia feitas nas Cortes de Tomar de 1581 por Filipe I de Portugal.
![]() |
| Retrato de D. João IV, de autor desconhecido, existente na Torre do Tombo |
A 1 de Dezembro de 1640, em
Lisboa, os revoltosos tomaram o poder e aclamaram D. João, Duque de Bragança,
como rei de Portugal. O golpe de Estado palaciano envolveu cerca de meia
centena de aristocratas portugueses. Este acontecimento foi acompanhado de alguns
assassinatos, designadamente de Miguel de Vasconcelos, o representante da
administração espanhola de Filipe III de Portugal.
No dia 6 de Dezembro D. João
chegou a Lisboa onde foi recebido entusiasticamente pelo povo e pelos
representantes da nobreza e do clero, sendo aclamado solenemente como D. João
IV, rei de Portugal, no dia 15 de Dezembro. Não obstante a restauração de facto ter
ocorrido em 1640, só houve uma restauração de jure nas Cortes de
Lisboa de 1641, pois foi aí que se consagrou a legitimidade dinástica da casa
de Bragança.
Não se pense, porém, que a seguir
tudo foi um mar de rosas. Bem pelo contrário. O Governo de D. João IV nem
sempre contou com o apoio de todos os portugueses, nem mesmo das esferas mais
próximas do poder. A atestar isto verificaram-se conspirações contra o monarca;
a mais perigosa ocorreu menos de um ano depois de ter sido coroado e nela
participaram membros da aristocracia, da burguesia e do alto clero, em consequência
da crise económica que pautou o seu reinado, bem como pelos fracassos da sua diplomacia
europeia.
Empenhado na manutenção da
independência solicitou ajuda militar aos tradicionais inimigos de Espanha mas
tais empreendimentos não só se revelaram infrutíferos como, até, prejudiciais.
A tentativa de assinar um tratado de paz com a Holanda, que granjeasse o seu
apoio militar e diplomático, redundou em fracasso já que os holandeses estavam astutamente
empenhados na conquista de territórios ultramarinos portugueses e só em 1657
anuíram em tal tratado, depois de já terem tomado muitas possessões até então
portuguesas.
A França, que havia prometido
ajuda a Portugal nunca a concretizou e nem permitiu a presença de Portugal nas
negociações de 1648 que estabeleciam o fim da Guerra dos Trinta Anos. Até a
Inglaterra atacou Portugal em 1650 e 1654 e o sequente tratado de paz
revelou-se humilhante e oneroso, mercê da obrigatoriedade de abertura do nosso
império ao tráfico inglês e à entrega dos territórios de Bombaim e Tânger como
dote de D. Catarina, esponsal de Carlos II de Inglaterra. E as adversidades não
ficaram por aqui, até a Santa Sé recusou auxiliar os interesses portugueses, ao
não reconhecer a nossa independência e ao não confirmar os bispos nas dioceses
portuguesas.
De entre os vários e poderosos
reinos europeus da altura apenas a Suécia se dispôs a prestar algum auxílio,
enviando armas, abastecimentos e mercenários, para Portugal enfrentar
militarmente a Espanha. E os custos da guerra com os nossos vizinhos, que
configuravam uma autêntica sangria de fundos, tiveram repercussões a nível
ultramarino, provocando irremediáveis perdas.
No território nacional
continental o principal teatro das operações militares era o Alentejo, de onde
partiam as incursões militares sobre Espanha, assolando aldeias e vilas, e que
só não foram rapidamente contrariadas porque a Espanha ainda se encontrava
profundamente envolvida na Guerra dos Trinta Anos (até 1859), e nos conflitos
na Catalunha. Para além das pequenas batalhas de fronteira ocorreram algumas de
maior monta, como o cerco de Badajoz feito pelas tropas portuguesas, que no
entanto não lograram alcançar a rendição daquela praça, ou o grande confronto
do Montijo em 1644, e o de Elvas em 1659.
D. João IV morre em 1656 e a
regência de D. Luísa de Gusmão prolongou-se por muito tempo, o que deu azo à
ocorrência de um golpe de Estado, em 1661, que colocou o príncipe no trono, golpe
gizado por D. Luís de Vasconcelos e Sousa, Conde de Castelo Melhor, que se tornou
primeiro-ministro e adoptou uma política de vincado reforço do poder central.
Porém, foi no reinado de Afonso
VI que teve lugar a batalha decisiva para a consolidação da independência
portuguesa, a batalha de Montes Claros, ocorrida em 17 de Junho de 1665. Do
lado português um exército de 20.500 homens comandados pelo Marquês de Marialva,
e do lado espanhol um exército de 22.700 homens comandados pelo Marquês de
Caracena. Ao fim de 7 horas de intenso combate os espanhóis deram a batalha como
perdida e retrocederam para lá da fronteira.
Dois anos depois, em 1667, o
Infante D. Pedro, ajudado pelo Duque de Cadaval, lidera um golpe de Estado que
leva à demissão do Conde de Castelo Melhor e à prisão do rei, resultando na sua
abdicação. D. Pedro II é jurado Príncipe Regente nas Cortes de 1668, e é então
firmado o Tratado de Paz com a Espanha, culminando o longo período de conflitos
entre os dois reinos. O Tratado estabelecia a manutenção das fronteiras
portuguesas e das possessões ultramarinas de Portugal, com excepção de Ceuta
que ficaria para os espanhóis.
Impõe-se, agora, retroceder uns séculos
na história de Portugal, para melhor enquadrar o nosso pensamento: Em 1096, o
rei Afonso VI de Leão e Castela deu o governo do Condado Portucalense a Henrique
da Borgonha, juntamente com a sua filha, a Infanta D. Teresa, passando Henrique
a ser Conde de Portucale. D. Henrique governou no sentido de conseguir uma
completa autonomia para o seu condado e efectivamente deixou-o muito mais livre
do que recebera.
Em 1125, com catorze anos de
idade, o seu filho Afonso Henriques, com o apoio da nobreza portuguesa da
época, arma-se a si próprio cavaleiro e enfrenta a sua mãe, D. Teresa, regente
do Condado por morte do rei. Afonso Henriques e os fidalgos portucalenses não
admitem o favoritismo da rainha pelos nobres galegos. A luta desenrola-se em
vários episódios até que em 24 de Junho de 1128 se trava a Batalha de S. Mamede
e D. Teresa é expulsa da terra que dirigira durante 15 anos. Depois de outras
lutas bem-sucedidas contra o seu primo, o rei Afonso VII de Leão e
Castela, finalmente nasce o Reino de Portugal, e a dinastia dos Borgonha, com o
seu primeiro rei, Afonso I de Portugal.
E é nesta enérgica insistência de
luta pela independência que se firma o querer da nação portuguesa que ao longo
da história o repetiu com igual empenho, instituindo a vontade indómita que
fundamenta o seu projecto colectivo e em que se forjou uma identidade de Nação,
Povo e Estado.
Historicamente,
o sentimento anti-espanhol difundiu-se entre os portugueses muito antes do
surgimento de qualquer ideologia iberista. Ao longo de oito séculos os
portugueses fizeram do “perigo espanhol” um elemento do seu nacionalismo. Castela
foi, assim, e desde o início de Portugal, o “Outro”, o vizinho que
devia ser vigiado e, simultaneamente, aquele que desempenhava um papel fundamental na construção da
nossa identidade colectiva: “Na cidade da Guarda mandava-se punir, em finais da
Idade Média, quem chamasse a um vizinho “castelhano”, insulto equiparado ao de “puta”.
Até o aforismo “de Castela, nem bom vento nem bom casamento”, cuja origem se
perde nos inícios da nacionalidade portuguesa, logrou actualizar-se no idêntico
“de Espanha, nem bom vento nem bom casamento”.
Mas,
se a contemporaneidade racional, humanista e universalista, a cooperação actual
entre os dois estados vizinhos, e a integração numa mesma organização de
propósito europeu, remete para o baú da memória aqueles aforismos depreciadores
sobre os nossos vizinhos, as conjunturas económicas podem reavivar essas
resistências a uma aliança cabal, temendo-se ajuizadamente a diluição da
independência de um Portugal engolido pela poderosa Espanha.
Com 878 anos para alguns, ou 838
anos para outros, conforme se tome por referencia a Batalha de Ourique de 1139
ou a bula manifestis probatum de 1179,
Portugal assiste, hoje, a renovadas dinâmicas com vista à independência de
várias nacionalidades europeias (Catalunha, País Basco, Escócia, Lombardia,
etc;), observando paralelamente o reavivar de ideias antigas com vista ao
federalismo ou confederalismo de estados ou nações, e particularmente, naquilo
que mais nos toca, ao Iberismo.
Por mais interessantes que as
ideias de Iberismo possam parecer convém não esquecer que a Espanha manteve
sempre a perspectiva da reunificação ibérica entre as suas principais intenções
políticas, verifique-se a este respeito a actuação espanhola de Afonso XIII de há
100 anos.
«Apesar
das relações entre os dois países terem melhorado durante a contenda europeia,
manteve-se o “litígio ibérico”: a crise em Portugal servia para justificar as
ambições iberistas de Afonso XIII, monarca que até às vésperas da Primeira
Guerra defendeu junto das potências europeias a conveniência e o interesse da
Espanha numa “solução ibérica”. (...) O
regicídio fragilizou a posição externa portuguesa: a Espanha aproveitou a
aproximação à Inglaterra e à França para tentar conseguir uma ascendência sobre
Portugal. Convencido de que a revolução republicana desobrigaria a Inglaterra
de defender Portugal, Afonso XIII não escondia que pensava desde 1908 numa
união ibérica, mais ou menos voluntária.
Em
1911, rebentou nova crise em Marrocos, com soldados franceses a ocuparem Fez e
a Espanha a responder com a ocupação de Larache, Arzila e Alcácer-Quibir.
Crendo que a Espanha se aliara à Alemanha, os responsáveis políticos franceses
buscaram apoio junto da Inglaterra.
Assim,
até meados de 1912, a Espanha, isolada, enfrentou uma situação de tensão com a
França e a Inglaterra por causa de Marrocos e, por conseguinte, o clima
tornou-se pouco favorável para aventuras em Portugal.
No
entanto, na segunda metade de 1912, a Espanha aproximou-se da Entente ao
concluir um novo acordo com a França. Assinado este acordo, as ambições do rei
espanhol tornaram a vir ao de cima. Na visita que fez a Paris em Maio de 1913,
Afonso XIII ofereceu a beligerância espanhola ao lado da França numa possível
guerra europeia, exigindo em troca a anexação de Portugal. (…)Em Fevereiro de
1913, Afonso XIII avisava Arthur Hardinge, embaixador inglês em Lisboa e
anti-republicano, de que a Espanha exigiria o território metropolitano
português caso a Alemanha e a Inglaterra partilhassem as colónias portuguesas».
FERREIRA P.B.R., “Iberismo, hispanismo e os
seus contrários: Portugal e Espanha” págs. 185,186
São assuntos que merecem reflexão
e debate, pois não devemos deixar-nos prender a nenhuma certeza absoluta já que
essas não passam de dogmas. Isto é, se pugnamos pela nossa total independência
enquanto Nação e Estado, podemos e devemos discuti-la, porque da discussão
surgirá, obrigatoriamente, a actualização dos conceitos e das práxis dessa
independência que queremos eternizar. Perigoso, é achar que o assunto não pode
nem deve ser discutido, mantendo-o silenciado até que, um dia, nos surpreenda
um ruidoso facto consumado, permitido pelo laxismo mental e ausência de
conhecimento que a discussão aporta.
Estamos convictos que os
portugueses desejam manter a sua independência com base na vontade que presidiu
à fundação de Portugal e, sobretudo, pela confirmação desse querer repetidamente
declarado ao longo da História. Preterir este fundamento de cunho identitário em
prol da ideia de uma União ou Federação Ibérica, ou outra qualquer fórmula que
dilua o sentir unitário português, poderá não ser mais do que um gratuito
contrariar do espírito que presidiu à fundação de Portugal e à sua manutenção
como estado independente, contra quaisquer desígnios.
A herança de um povo é algo mais
complexo de que simples conceitos teóricos ou memórias de existências em comunhão
tribal. É algo que é construído na partilha de aspirações, sofrimentos e
valores conquistados. Por isso não pode ser tratada levianamente e reduzida
pelas novas aquisições de um mundo contemporâneo que é, em certa medida,
enganadoramente apresentado como um mundo global e alter-cultural. O que é um
homem sem a sua herança cultural, sem a ligação que a história de um passado
comum e a tradição lhe conferem? E não se trata de sobrevalorizar a nossa
herança face às dos outros povos; a nossa não é melhor nem pior, mas é a nossa.
O que será um povo sem a ligação ao seu passado, senão um povo sem referências
no presente e, plausivelmente, sem perspectivas para um futuro colectivo?!
Tudo isto é questionável e
discutível, concedemos; e se um dia os portugueses entenderem ignorar o seu
passado, pois podem fazê-lo, porém será necessário aceitar que seremos então um
povo que parte do zero e que, forçosamente, terá de construir uma nova
identidade que sirva de esteio, de referencial, de fio condutor à sua unidade como
povo ou nação. E então coloca-se a pergunta: Para quê começar de novo se já
temos esse valor construído e cimentado?! Será que lhe reconhecemos assim tantos
erros, tanta ineficácia e tamanha inutilidade face às novas valias da
contemporaneidade?
Se alguns acham que estas
acepções são antigas e obsoletas, em dissonância com a actualidade e a marcha civilizacional
da humanidade, então também o serão os mais elementares sentimentos que
perpassam pela alma humana. Porém, contra esses sentimentos ninguém, no seu
perfeito juízo, brande a acusação de arcaísmo como qualificativo deste fervor independentista.
Por tudo isto, celebrar o 1º de
Dezembro não é apenas celebrar a Restauração da Independência protagonizada por
meia centena de personagens seiscentistas; é, sobretudo, assim o cremos, celebrar
a vontade de um povo.
Fontes
Consultadas:
- BRANDÃO DA LUZ J. L., “O Federalismo
no ideal da República em Teófilo Braga e Manuel de Arriaga”, Universidade dos
Açores
- CARNEIRO DE SOUSA I., “História de Portugal Moderno,
Economia e Sociedade”, Universidade Aberta, 1996
- COELHO A. B. “História de Portugal VI – Da
Restauração ao Ouro do Brasil”, Ed. Caminho, 2017
- DIAS J. M. B., “Da Questão Ibérica à União Europeia.
Constantes e Mutações no Relacionamento Entre Espanha e Portugal”
- FERREIRA P.
B. R., “Iberismo, hispanismo e os seus contrários: Portugal
e Espanha (1908-1931) ” -Tese de Doutoramento em História
Contemporânea, Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, 2016.
- HESPANHA A.M., ““História de Portugal Moderno,
Político e Institucional”, Universidade Aberta, 1995
- TORGAL L.R., “Acerca do Significado Sociopolítico da
“Revolução de 1640””, Revista de História das Ideias, Vol. 5, Universidade de
Coimbra, 1984
- NETO V., “Iberismo e Municipalismo em F.F. Henriques
Nogueira”, Revista das Ideias, Vol. 10, Faculdade de Letras da Universidade de
Coimbra, 1988.
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