ADSE


A ADSE é um privilégio dos funcionários públicos que dá prejuízo e é financiado por todos os contribuintes?
Classificação do Polígrafo: FALSO
14 fev 2019 08:53

O QUE ESTÁ EM CAUSA?
Enquanto vários grupos privados de saúde anunciam a intenção de romper os acordos que mantêm com a ADSE, abundam os comentários e publicações nas redes sociais em que se classifica a ADSE como um privilégio dos funcionários públicos, fonte de avultados prejuízos que têm de ser suportados por todos os contribuintes. Leitores do Polígrafo pediram para verificar se é assim mesmo.
O sistema de Assistência na Doença aos Servidores Civis do Estado (ADSE) foi criado em 1963 e atualmente é gerido pela Direção Geral de Proteção Social aos Trabalhadores em Funções Públicas (ADSE-DG). A ADSE assegura aos seus cerca de 1,3 milhões de quotizados a possibilidade do recurso a prestadores privados, através de dois regimes: o regime convencionado, no qual o quotizado, utilizando a rede de prestadores com os quais existem convenções, suporta um copagamento, sendo a ADSE responsável pelo pagamento do remanescente do preço ao prestador; e o regime livre, no qual o quotizado exerce total liberdade de escolha e suporta a totalidade dos encargos, sendo depois parcialmente reembolsado pela ADSE.
De acordo com a “Auditoria ao Sistema de Proteção Social dos Trabalhadores em Funções Públicas - ADSE”, realizada pelo Tribunal de Contas (Relatório Nº12/2015), “o desconto cobrado aos quotizados aumentou 158% entre 2009 e 2014, obtendo-se neste ano uma cobertura dos custos diretamente da responsabilidade da ADSE (custos de administração, custos com o regime livre e custos com o regime convencionado) na ordem dos 136%”. Ou seja, mediante o aumento do desconto cobrado aos quotizados, essa receita passou a cobrir totalmente os “custos diretamente responsabilidade da ADSE”, aliás superando largamente tal despesa.
Uma das principais conclusões da referida auditoria sublinha que “até ao ano de 2013, os quotizados da ADSE beneficiaram do financiamento público do sistema, em complemento aos seus descontos. Em contrapartida, o Estado exerceu a gestão estratégica e financeira da ADSE, utilizando-a para prosseguir fins públicos associados às funções sociais do Estado. A partir de 2013, verificaram-se aumentos da taxa de desconto aplicável às remunerações e pensões dos quotizados da ADSE, justificados pela necessidade de garantir a autossustentabilidade do sistema”.
“O aumento da taxa de desconto de 2014, que partiu de proposta do Governo e não da ADSE-DG, enquanto entidade gestora do sistema, não resultou de necessidades de financiamento de curto ou médio prazo da ADSE, mas da necessidade, decorrente do Memorando de Entendimento sobre as Condicionalidades de Política Económica, de compensar a redução do financiamento público do sistema”, ressalva a auditoria. “De facto, o aumento não decorreu de ajustamentos no esquema de benefícios, nem foi precedido de qualquer estudo sobre a sustentabilidade do sistema no médio-longo prazo, ou, sequer, justificado pelas necessidades de tesouraria de curto prazo”.
“Como consequência desse aumento, a receita proveniente do desconto dos quotizados revelou-se, em 2014, manifestamente excessiva (em 138,9 milhões de euros) face às necessidades de financiamento do esquema de benefícios (regimes livre, convencionado e custos de administração). A situação excedentária mantém-se no Orçamento do Estado para 2015, considerando o excedente que decorre dos mapas orçamentais: 89,4 milhões, mais 20% do que as necessidades previstas de financiamento do esquema de benefícios”, indica o Tribunal de Contas.
Uma auditoria concluiu que “a ADSE não é, atualmente, um benefício concedido pelo Estado aos seus trabalhadores, mas uma cobertura complementar de cuidados de saúde, paga de forma solidária pelos próprios quotizados e não pelos restantes contribuintes."
Mais, “estes excedentes estão a ser utilizados em proveito do Estado, como forma de resolver problemas de equilíbrio do Orçamento do Estado através do aumento artificial da receita pública, dada a inexistência de qualquer fundamentação sobre a sua proporcionalidade face aos objetivos de autofinanciamento e de sustentabilidade do sistema no médio-longo prazo”. Ou seja, além de cobrirem todos os custos da ADSE, os descontos dos respetivos quotizados também serviram para financiar o Orçamento do Estado, sendo contabilizados como receita pública. Esta situação foi identificada em 2015, sublinhe-se, não havendo ainda dados do Tribunal de Contas sobre as contas dos anos seguintes.
“Sendo financiada pelo rendimento disponível dos trabalhadores e aposentados da Administração Pública para satisfação de cuidados de saúde prestados aos mesmos, a ADSE deverá ser excluída das disputas ideológicas que opõem o setor público de prestação de cuidados de saúde ao privado, e vice-versa”, prossegue o relatório.
No entanto, há um relatório mais recente do Tribunal de Contas sobre a ADSE, mais especificamente a “Auditoria de Seguimento das Recomendações formuladas no Relatório de Auditoria ao Sistema de Proteção Social dos Trabalhadores em Funções Públicas - ADSE”. Trata-se do Relatório Nº8/2016, o qual sustenta que “a ADSE não é, atualmente, um benefício concedido pelo Estado aos seus trabalhadores, mas uma cobertura complementar de cuidados de saúde, paga de forma solidária pelos próprios quotizados e não pelos restantes contribuintes. A ADSE é um sistema complementar do Serviço Nacional de Saúde, à semelhança dos seguros voluntários de saúde, e não um sistema substitutivo do Serviço Nacional de Saúde. Os quotizados/beneficiários da ADSE, antes de o serem, já são, por imperativo constitucional e legal, utentes e financiadores/contribuintes do Serviço Nacional de Saúde”.
“Sendo financiada pelo rendimento disponível dos trabalhadores e aposentados da Administração Pública para satisfação de cuidados de saúde prestados aos mesmos, a ADSE deverá ser excluída das disputas ideológicas que opõem o setor público de prestação de cuidados de saúde ao privado, e vice-versa”, prossegue o relatório. Ao tornar os quotizados da ADSE os financiadores exclusivos do sistema em 2014, o Estado alterou a natureza do financiamento‘privatizando’ a receita. A natureza dos descontos da ADSE aproxima-se da dos prémios pagos pelos titulares de seguros voluntários de saúde privados, sendo estes também uma forma complementar de financiamento de cuidados de saúde face ao Serviço Nacional de Saúde”.
Em suma, a partir da mudança introduzida em 2013, com o término do financiamento público da ADSE e o aumento exponencial dos descontos efetuados pelos quotizados, a ADSE deixou de poder ser considerada como um privilégio dos funcionários públicos e, em vez de prejuízo, chegou ao ponto de gerar receita adicional para o Orçamento do Estado.
O mesmo relatório deixa um alerta: “É errado pressupor que a ADSE é sustentável, a prazo, na sua configuração atual. Com base num estudo realizado por entidade independente, a pedido da ADSE, a ADSE não é sustentável para além de 2024, apresentando défices a partir de 2019. Se o crescimento anual da despesa for superior ao considerado neste cenário, a ADSE pode já apresentar défices a partir de 2017 e não ser sustentável em 2020”. Entre as causas para essa previsão de insustentabilidade, destaca-se a “a diminuição do número de quotizados da ADSE e o seu envelhecimento”, “a concorrência do setor segurador, o qual beneficia com o desmantelamento da ADSE ou com a saída por renúncia de quotizados seus”, ou “a apropriação, pelo Governo da República, de 29,8 milhões de euros dos excedentes da ADSE, em 2015, para financiar o Serviço Regional de Saúde da Madeira, bem como a retenção ilegal dos descontos de quotizados da ADSE por parte de organismos do Governo Regional da Madeira, e sua utilização indevida para fins de âmbito regional”.
“Saliente-se que o alargamento da base de quotizados a novos quotizados líquidos é condição sine qua non para a sobrevivência, a prazo, da ADSE (recorde-se que, atualmente, por cada quotizado que efetua descontos existem 1,5 beneficiários não contribuintes)”, conclui o relatório.
Em suma, a partir da mudança introduzida em 2013, com o término do financiamento público da ADSE e o aumento exponencial dos descontos efetuados pelos quotizados, a ADSE deixou de poder ser considerada como um privilégio dos funcionários públicos e, em vez de prejuízo, chegou ao ponto de gerar receita adicional para o Orçamento do Estado. “A natureza dos descontos da ADSE aproxima-se da dos prémios pagos pelos titulares de seguros voluntários de saúde privados”, salienta o relatório de 2016 do Tribunal de Contas. Ainda falta analisar as contas dos anos mais recentes, mas segundo os dados disponíveis neste momento é falso dizer que a ADSE gera prejuízo ou que é sustentada/financiada pelos contribuintes no geral e não apenas pelos respetivos quotizados.

sobre a greve dos enfermeiros



«A greve e a construção da mentira.

As greves são realmente um problema para as populações e nos países miseráveis para os trabalhadores que não recebem pela participação na luta. Os nossos sindicalistas nunca geriram processos de construção financeira que lhes desse a força de pagar o tempo que exigem de greve aos seus associados. Preferem comprar sedes sumptuosas, gastar em reuniões em hotéis de cinco estrela e em facturação de despesas.

A greve dos enfermeiros é uma inovação e um ponto de viragem na luta sindical portuguesa. Ao utilizar uma plataforma livre, transparente e aberta de financiamento conseguiram pagar aos trabalhadores em greve o tempo de paragem. Isto faz história para o movimento sindical e dói ao PCP e ao Bloco ver como as greves podem ultrapassar as suas máquinas anquilosadas de luta. Não os vi tristes nem insultuosos nas greves do porto de Lisboa que durou mais de um ano e fez Portugal perder milhões de euros de negócios. Não estiveram contra a loucura da Autoeuropa. O problema deles hoje é que há dirigentes dos enfermeiros que são do PSD e a greve está estruturada e pensada de forma irrepreensível. Como chegamos à Requisição Civil?

Primeiro prometeram licenciaturas às classes profissionais que estavam nos politécnicos. Depois prometeram salários muito maiores para as suas carreiras entretanto aceites. Os politécnicos mostraram elevado rigor e indiscutível exigência no cumprimento das fórmulas legais e actuaram com brilho no palco que lhes foi dado. Bragança já brilha acima de várias Universidades. Então quem não cumpriu? Os partidos que apoiaram e fizeram Bolonha; os Governos que não remuneraram o que prometeram em relação as expectativas que criaram. Está montada a revolta quando um enfermeiro de 40 anos recebe menos que outro formado depois, e quando o seu salário dificilmente tem quatro dígitos mesmo com horas extra e noites a rodos.

Veio depois a discussão do direito à Saúde e desta coisa da lista de espera que nasce da greve dos enfermeiros. A lista é enorme e já existe e foi construída por desinvestimento na Saúde e desde a ascensão ao estrelato de Correia de Campos e da sua estranha Escola de fazer Ministros e administradores. A construção em prol de teorias de poupança não comprovadas, exigências tontas, redução de responsabilidade das chefias, ausência de fiscalização honesta dos resultados, construção de incentivos diferentes para trabalhos semelhantes, construção de modelos sucessivos não avaliados: como Hospitais EPE, Hospitais SA , depois PPP veio enlouquecer a estrutura da saúde.

A política devia ter evitado usar o palco dos direitos básicos como luta partidária. Os CRI que deram salários principescos, as horas extraordinárias que ajudaram a fazer altos vencimentos, a diferença do valor hora para trabalhos iguais, tudo isto não trouxe saúde aos espaços que deviam tratar doentes. Mais recente está o exemplo dos Centros Hospitalares construídos sobre joelhos da Escola Nacional de Saúde Pública e que redundou num desvario para exames complementares, para unidades cirúrgicas, para estadiamento de doentes. Gente sem senso governa a despropósito das suas divagações emotivas. É isto que temos hoje na saúde. 

Não houve avaliação de nenhumas medidas tomadas: nem a exclusividade, nem a entrega de unidades à Misericórdia, nem a forma como a misericórdia gere Instituições de saúde, nem o impacto dos cuidados continuados, nem as consequências na sociedade das medidas sobre medicamentos. A medicina baseada na evidência é destruída por uma necessidade de reorganizar para poupar tostões que se vão usar no resgate de bancos e em adiar crimes sem processo e sem consequência das finanças onde estão centenas destes heróis que andaram a destruir o serviço nacional de saúde.

As mentiras estão agora no discurso falso, que as televisões repetem na sua infinita ignorância, que tem montras como Cristina Ferreira, Goucha, jornalistas instagram, e peixeiros serventuários de partidos com salários milionários. 

Os doentes urgentes são os que se operam de urgência e não houve greve de enfermeiros às urgências. Uma das mentiras. Os doentes de oncologia (vulgo cancro) não são urgentes e bem pelo contrário, são orientados num calvário de consultas, de estadiamento e exames de preparação que os faz angustiar e todos conhecem. É ciência, mas faz a segunda mentira. Quando são marcados para operar os enfermeiros estão lá e estão disponíveis e empenhados. Não houve greve a estes. Há doentes que alguns “patrons” sem senso acham que devem ser operados e portanto odeiam os enfermeiros em greve e então surgem discussões pontuais. Isto não faz direito, nem constrói justiça. A emoção deve estar no seu lugar próprio, tal como a vaidade e a estupidez. 

Outra mentira. O financiamento dos enfermeiros não foi feito por nenhuns hospitais privados a quem o Estado deve serviços contratados desde 2017. A verdade envergonharia a Ministra. Um milhão para a Misericórdia da Mealhada, um milhão e meio para a Clínica da Sophia. Mais uma das mentiras. Note-se que o que paga o estado pelo serviço de redução de listas de espera aos privados é menos 30% do que lhe custa in-muros. O Estado exige uma ginástica financeira aos privados que quase constrói risco para os doentes. Exige de forma enferrujada, sem óleo, aquilo que não consegue poupar no SNS. 

A mentira está pois no arrozal com os ratos do campo e os lagostins. Tudo a morder as pernas do trabalhador descalço. Eu contribui para dezenas de actividades culturais e científicas da plataforma de crowdfunding. Também paguei mais de 130 euros para a greve revolucionária dos enfermeiros e estaria de greve se os médicos se tivessem solidarizado.

Bem hajam pela coragem demonstrada contra o pântano da mentira.»

Diogo Cabrita (médico)
https://www.facebook.com/diogo.cabrita.50/posts/10218291245011751

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«Relativamente às mais recentes declarações do PM, António Costa, no que diz respeito à greve cirúrgica de enfermagem:

“Não queria comentar, mas vai ter que ser. Já foi abuso de mais.

Primeiro, atentar contra a dignidade dos doentes, atenta um Serviço Nacional de Saúde que se tem revelado apoplético numa tentativa escabrosa de dar resposta ao excedente de cirurgias programadas no sector público. Não atentam os enfermeiros, Sr. Primeiro Ministro.
Segundo, quem decide se um doente ou uma determinada cirurgia é ou não emergente, sabe quem é? O médico. Se o clínico declarar a necessidade de intervenção cirúrgica urgente, não há “ai”, nem “ui”, OPERA-SE. E os serviços mínimos prevêem (e cobrem) todas essas eventualidades!! As únicas intervenções em causa são as cirurgias programadas, as quais, a escassez de meios e a má gestão, já se encarregaram, há muito, de comprometer, muito antes desta greve!

Por isso não me venha dizer que a greve dos enfermeiros coloca a vida dos portugueses em risco, Senhor Primeiro-Ministro.

Terceiro, o que o Sr. e a sua Ministra da Saúde apelidam de “ilegal”, é talvez a forma, logisticamente, mais inteligente e bem gerida de recorrer ao direito à greve, desde 1976. O financiamento dos profissionais em greve foi feito com recurso a fundos próprios, coletivos, angariados ao longo de meses de preparação minuciosa, que culminaram com a classe a ser, finalmente, ouvida, depois da primeira greve cirúrgica. 

Finalmente, abrem manchetes de jornais, finalmente as pessoas sabem que um enfermeiro não serve só para administrar injetáveis e aplicar compressas! Para um bloco operatório funcionar, tem de haver enfermeiros. Enfermeiros esses que já deixaram bem claras as suas reivindicações, mas parece que Marta Temido sofre de “ouvido tísico”. 

Não é um aumento generalizado dos salários da função pública, Sra. Ministra!! É o descongelamento de carreiras, é a criação da categoria de enfermeiro especialista, é a standardização do salário-base do enfermeiro licenciado, podendo corresponder, assim, aos estatutos das outras profissões requerentes de licenciatura na função pública... E é a diminuição da idade da reforma, para uma profissão de desgaste acelerado, comprovado, Sra. Ministra!!!

Por último, a não ser que não entenda patavina de português, ou ainda acredite que a classe de enfermagem se componha maioritariamente por freiras carmelitas que não têm famílias para alimentar... Ouça estas reivindicações, negoceie, DE BOA-FÉ, em vez de tentar recorrer a instrumentos jurídicos que, a não ser que também não seja entendida em matéria de Direito e não conheça a letra da lei, já deveria saber, de antemão, não lhe vão conceder a cartada da ilicitude ou da ilegalidade (António Costa, jurista, vai ainda mais longe e apelida-a de ilegalidade “selvagem”)... E pode ser que não prejudique tanto a saúde dos portugeses.
- Sim, a Sra., não os enfermeiros!!”

[Mas isto sou eu que digo... que não sou Ministro da Saúde, nem tenho cursos de “Administração Pública”, com pós-graduação em cartilha socialista. Não vale a pena ligar. Sigam com a demagogia... E, já agora, não espreitem o disposto no Art. 540.° da Lei 7/2009 de 12 de Fevereiro]»

Texto de Luís Simas, Professor de Direito na Univ. Católica
https://www.facebook.com/nena.gois/posts/2229673163724157


como topar pseudo-intelectuais nas colunas dos jornais


Como topar intelectuais numa festa
Pedro Marta Soares – in Revista Sábado, de 29-01-2019

«Porque é que a elite se entende superior ao povo?, questionou Cristina Ferreira. É uma pergunta que já atormentava Cícero, São Tomás de Aquino e Dino Meira. Eis algumas dicas básicas para reconhecer o intelectual português.
Em entrevista ao jornal Público, Cristina Ferreira lançou a pergunta que se impunha: "Porque é que a elite se entende superior ao povo?" É uma dúvida que já atormentava Cícero, São Tomás de Aquino e Dino Meira. A resposta é difícil, mas se começarmos por identificar as características de um intelectual, a tarefa de compreendermos as raízes do seu sentimento de superioridade torna-se facilitada. Uma festa que receba o povo e a elite torna-se um espaço público neutro para o primeiro impor a força dos seus argumentos e a segunda pavonear as suas mais-valias.
Aqui ficam algumas dicas básicas de reconhecimento do "Homo Lusitanus Inacessibilis" - o intelectual português:
- o intelectual não tem conversas, lança reflexões;
- o intelectual abomina trivialidades, como o pós-colonialismo etimológico de Índia, a filha de Ana Malhoa, ou a negação da metafísica no dasein de Heidegger; para o verdadeiro intelectual, até os Abba devem ser abordados numa perspectiva deleuziana; 
- o intelectual não come, tem experiências de fine dining;
- o intelectual não anda, levita; embora não toque no chão, os seus passos esmagam os sonhos dos simples (ou os pés da populaça: por vezes, o intelectual arrisca tudo e ensaia-se na pista de dança, com consequências estéticas cataclísmicas);
- o intelectual não tem uma orientação sexual definida: tanto pode perder-se no Finalmente como no Trumps;
- se o intelectual alguma vez for visto em Barcarena, na Porcalhota, em Rio Tinto ou Valbom, regressará ao povo de onde saiu quando entrou no Frágil em 1988;
- o intelectual só aprecia música em vinil, literatura disruptiva e cinema sem narrativa (a não ser que seja metanarrativa); cada exemplar cultural adquirido deverá ter pelo menos quatro estrelas atribuídas por pelo menos quatro críticos que conheça há pelo menos quatro anos (ou com quem tenha tido quatro experiências de fine dining).»

………….

Como topar pseudo-intelectuais nas colunas dos jornais

Consultado o dicionário sobre o termo INTELECTUAL, concluo que o autor do texto acima, fala dele e de outros como ele, os pseudo-intelectuais que produzem reflexões profundas e rebuscadas sobre tudo e nada, seja em cômodos de fine dining seja em colunas jornaleiras, lançando farpas e torpedos aos intelectuais, génios que não conseguem, sequer, imitar.

Intelectual é um adjectivo que caracteriza algo ou alguém que desempenha uma actividade de natureza mental, relacionada com o intelecto e a inteligência. Um intelectual é uma pessoa que produz pensamentos. Este termo também pode assumir a classificação de substantivo e representar a pessoa que vive exclusivamente de seu intelecto, ou seja, da sua inteligência e das coisas que requerem uma aplicação mental, como a cultura, as artes, a música, a literatura e etc. 
Assim, quando se diz que determinada pessoa é intelectual, significa que é culta, que se propõe a estudar e reflectir sobre ideias que abrangem os mais variados temas que possam ter alguma relevância social ou individual. 
Os pseudo-intelectuais, por outro lado, são os falsos intelectuais. São indivíduos que fingem ter conhecimento intelectual e que aparentam ter interesse sobre determinados temas como ciência, cultura, artes, literatura etc., mas que na realidade não têm.



Um cidadão informado não bebe leite


26-01-2018 por André Silva

foto picada da net

«Face à forte diminuição do consumo de leite que se faz sentir desde 2008 e à brusca redução nos últimos dois anos, a Indústria do Leite reage como é seu hábito alertando para as "campanhas difamatórias do leite". Se até há pouco tempo a informação que chegava aos cidadãos era quase exclusivamente ditada pelo negócio do leite veiculada pelas campanhas publicitárias e pelos ecos mediáticos, sem qualquer contraditório, nos últimos anos, com a globalização e a democratização da informação através da Internet, cada vez mais pessoas têm acesso a informação técnica e científica sobre os enormes impactos no ambiente, na saúde e na vida dos animais. Consumidores mais informados, fazem opções mais conscientes.

No entanto, sem o lucro desmedido de outros tempos e sem argumentos válidos, o Negócio do Leite em vez de interpretar e acompanhar uma sociedade em evolução, opta por atacar os consumidores que, de forma consciente, cada vez menos compram os seus produtos.

Não é preciso recuar muito na memória para nos recordarmos da escassa oferta existente nos supermercados na década de 70 para quem pretendesse adquirir leite. Decorridos cerca de 40 anos, hoje torna-se difícil a escolha do tipo de leite face à actual oferta, quer nas grandes superfícies, quer até nos pequenos supermercados. 

A panóplia de tipos de leite e de outros produtos lácteos disponíveis no mercado é o resultado de um esforço da indústria apoiado na investigação laboratorial e na inovação tecnológica introduzida no processamento industrial do produto base leite. Por outro lado, este sector de negócio apostou num forte investimento em marketing que incutiu nas instituições do Estado e nos consumidores a suposta necessidade de consumir leite, instituindo-o como um "alimento essencial" e cujo escoamento é desmesuradamente beneficiado por políticas fiscais favoráveis e por investimento de dinheiro público. 

Para além disso, muitos consumidores acreditam ainda que as vacas têm leite espontaneamente, mas a realidade é bem mais mundana. À semelhança de qualquer outro mamífero, as vacas só produzem leite para efeito de alimentação dos seus vitelos recém-nascidos. Tal como as mulheres só geram leite com o nascimento dos seus filhos, as fêmeas usadas na produção de leite só geram leite com o nascimento das suas crias. Para manter uma produção quase ininterrupta de leite, na indústria as vacas têm de ser repetidamente forçadas a emprenhar através de inseminação artificial com separação das suas crias pouco tempo após o nascimento. 

Li recentemente uma frase de George Orwell que se aplica aqui na perfeição, "Num tempo de fraude universal, contar a verdade é um acto revolucionário" e somos cada vez mais pessoas a perceber que consumir lacticínios é validar, financiar e perpetuar esta poderosa indústria e as suas práticas.»
  
https://www.sabado.pt/opiniao/detalhe/um-cidadao-informado-nao-bebe-leite


Nota: O período de produção de leite de qualquer vaca começa quando o bezerro nasce. Para ser prolongado, é preciso que depois do desmame – que ocorre, em média, após 60 dias no caso do gado de leite – a mama do animal seja estimulada pela ordenha natural ou mecânica. Quando a mama é sugada ou pressionada, uma mensagem é enviada ao cérebro da vaca, estimulando a glândula hipófise, que libera oxitocina. Essa substância chega à mama pela corrente sanguínea, contraindo as fibras musculares e forçando a produção e libertação de mais leite.

andador ou pregão de almas

O andador ou pregão de almas tinha por ofício pedir esmola de porta em porta para sufragar as almas do purgatório. Envergava normalmente uma capa vermelha, que o identificava com a irmandade a que pertencia. 

Andador de Almas, óleo s/ tela, Aurélia de Sousa, séc. XX, Museu de Lisboa
picado daqui

Dantas e Negreiros



Sem nutrir grande afeição por nenhuma destas personagens sempre digo que eram dois homens de capacidades multifacetadas que nada deveriam um ao outro em matéria artística e criativa. Porém, o Dantas foi mais do que apenas isso.

Obviamente, para o irreverente Almada, Dantas era um alvo dilecto a atacar, numa campanha propagandística mordaz que lhe renderia notoriedade; afinal de contas de um lado estava um filho de ninguém que se ergueu a pulso do anonimato e do outro lado um parente de Eça de Queiroz e dos Condes de Ega (por via materna), uma figura de notoriedade nacional, médico, militar, escritor, dramaturgo, político, diplomata.

Sobre a comparação de genialidade entre os dois, reafirmo a paridade senão superioridade de Júlio Dantas face a Almada Negreiros. É que não estou a ver o Negreiros fazer um exame de admissão à faculdade de medicina respondendo em verso (quadras decassílabas) às perguntas do ponto.

E se o Negreiros era um visionário, um artista descomprometido, um espírito livre, o que dizer de um Dantas que «em 1900 defendeu uma tese “Menino Discrepante” sobre as manifestações artísticas e literárias dos loucos: Poetas e Pintores de Rilhafoles.» Um trabalho em que o cientista dá o braço ao escritor e apresenta, de forma brilhante, uma tese em que foi arguente o Prof. Miguel Bombarda?!

Quanto à irreverência social e cultural, o Dantas também não deve nada ao Negreiros. Em 1906, decorrendo em Roma o processo de canonização do Condestável Álvares Pereira, publicou um artigo na revista Ilustração Portuguesa, em que acusava as máculas do Condestável e a estranheza pelo halo de santidade em que pretendiam envolvê-lo. Pagou por tal artigo escandaloso, pois estando a aguardar a sua nomeação para médico da Guarda Municipal, acabou de ser destacado para o RI 16, com penalização visível nos seus atributos de oficial – sem direito a cavalo.

Enfim, o que o Dantas escrevia era levado a sério; tal não acontecia ao mesmo nível com o que o Negreiros produzia. Assolapado na sua casca protectora de artista modernista as suas produções dirigiam-se sobretudo aos intelectuais e artistas da época. Os demais considerariam tratar-se de um desses “artistas malucos” que por aí despontam, e não lhe davam crédito.

Finalmente, o cáustico manifesto, de escrita pueril, que diverte tantos leitores do Almada (que na sua esmagadora maioria pouco ou nada sabem sobre o Dantas) não surtiu qualquer reacção no visado, o que releva a sua superioridade moral e serenidade intelectual.

Dois homens de capacidades multifacetadas que nada deveriam um ao outro em matéria artística e criativa. Porém, o Dantas foi mais do que apenas isso.

PUM!

Não discuto, declaro! O erro da nova era.

A vitória de Bolsonaro representa um retrocesso civilizacional para o Brasil? Assim o creio, porque o progresso das sociedades não se pode rever minimamente nos “valores” que ele defende. Porém, importa perceber como e porque aconteceu isto, e quem foram os responsáveis.

Importa perceber como o povo brasileiro ficou refém exclusivamente de opções políticas desastrosas. Importa, porque depois de Trump e de Bolsonaro mais resultados semelhantes estarão em marcha, seja nas américas ou mesmo na velha Europa (onde aliás já começou, veja-se a sua concretização na Polónia, na Hungria, na Itália, e a sua expansão na Alemanha e até, pasme-se, na França).

E interpretar o resultado das eleições que elegem este tipo de gente como uma manobra calculada e executada por grupos de interesses económicos é uma pueril manifestação de ignorância. Ainda que tais grupos lá estejam, investindo e aproveitando-se destes fenómenos, a análise deve ser mais abrangente.

Uma característica cada vez mais evidente nos dias de hoje é o extremismo das opiniões que conduz à situação de radicalismo total. E por que é que isto acontece?

Sem dúvida que os erros da governação materializados na corrupção, na arrogância e na prepotência dos governantes - particularmente naqueles que se apresentam como desvelados democratas e indubitáveis representantes do povo -, estarão na base das contestações e do desencanto das massas; mas como é que na actualidade as pessoas se extremam, não querendo sequer discutir as opiniões dos outros? E porque é que, em consequência, se afastam dos legados civilizacionais, elegendo para os mais altos cargos da política pessoas que renegam esses valores?

Talvez porque a velocidade a que a informação é disponibilizada conduza a que os indivíduos/eleitores envolvidos na cacofonia reinante se mostrem indiferentes, e até contrários, à aceitação desses legados. Afinal de contas este fenómeno vem ocorrendo num mundo onde as informações surgem permanentemente, e de todos os lados, a uma velocidade vertiginosa que só contribui para confundir, para enganar e para cristalizar a opinião de cada um num extremismo fanático.

Hoje, a revolução dos meios de comunicação e a explosão das redes sociais facilitou o encontro de pessoas que pensam da mesma forma, evitando o confronto de ideias e conduzindo os grupos a assumirem posições cada vez mais radicais, já que discutem apenas entre si e reforçam as suas convicções, extremando-as; convencidos de que detém a razão absoluta.

Coisa semelhante observa-se, desde há muito, entre a maioria dos adeptos do futebol. Mas o clubismo e os clubes de Futebol não são eleitos para governar, nem deles se espera que observem os fundamentos da democracia. Eles existem para competir e a competição é, por si só, uma acção de extremos. Um tudo ou nada do qual depende a superação do adversário e a vitória sobre ele.

Regressemos ao radicalismo das posições políticas, que impede a ocorrência da discordância, porque não há tempo nem espaço para a discussão construtiva, deixando caminho livre para outra manifestação acéfala e muito mais perigosa, a produção de violência – e não será necessário recordar acontecimentos recentes em que o discurso do ódio provocou a violência material.

Sabemos que a solução para alcançar a harmonia implica evitar os extremismos e praticar a discussão sincera em que as partes em confronto se dispõem a ceder algo nas suas convicções, procurando uma solução de compromisso, melhor do que aquela que tinham inicialmente porque que não incluía o outro.

Porém, isso requer a prática de duas virtudes fundamentais cultivadas ao longo do processo civilizacional da humanidade: a tolerância e a humildade. Mas como é que se praticam a tolerância e a humildade nestes tempos conturbados, numa época em que o orgulho, no seu pior sentido, o da soberba, é exaltado cada vez mais?

É necessário que o indivíduo possua suficiente discernimento para perceber e aceitar que mesmo dentro do seu grupo de convicções fundamentalistas existe um limite, um limite que é estabelecido pelos alicerces da sociedade em paz, da democracia (da vida em harmonia que procura dirimir, ou pelo menos amortecer, o conflito), e que ir além desse limite só resultará na destruição da civilização. Sem esta consciência não é possível sair do pântano das emoções, e das suas convicções extremadas, em que vivemos actualmente.



Linguarejar... é o que se pode fazer num país de iletrados.

Excerto de texto de Helena Sacadura Cabral.
— Desde que os americanos se lembraram de começar a chamar aos pretos "afro-americanos", com vista a acabar com as raças por via gramatical, isto tem sido um fartote pegado!
— As criadas dos anos 70 passaram a "empregadas domésticas" e preparam-se agora para receber a menção de "auxiliares de apoio doméstico".
— De igual modo, extinguiram-se nas escolas os "contínuos" que passaram todos a "auxiliares da acção educativa" e agora são "assistentes operacionais".
— Os vendedores de medicamentos, com alguma prosápia, tratam-se por "delegados de informação médica".
— E pelo mesmo processo transmudaram-se os caixeiros-viajantes em "técnicos de vendas".
— O aborto eufemizou-se em "interrupção voluntária da gravidez";
— Os gangs étnicos são "grupos de jovens";
— Os operários fizeram-se de repente "colaboradores";
— As fábricas, essas, vistas de dentro são "unidades produtivas" e vistas da estranja são "centros de decisão nacionais".
— O analfabetismo desapareceu da crosta portuguesa, cedendo o passo à "iliteracia" galopante.
— Desapareceram dos comboios as 1.ª e 2.ª classes, para não ferir a susceptibilidade social das massas hierarquizadas, mas por imperscrutáveis necessidades de tesouraria continuam a cobrar-se preços distintos nas classes "Conforto" e "Turística".
— A Ágata, rainha do pimba, cantava chorosa: "Sou mãe solteira..." ; agora, se quiser acompanhar os novos tempos, deve alterar a letra da pungente melodia: "Tenho uma família monoparental..." - eis o novo verso da cançoneta, se quiser fazer jus à modernidade implante.
— Aquietadas pela televisão, já se não vêem por aí aos pinotes crianças irrequietas e "terroristas"; diz-se modernamente que têm um "comportamento disfuncional hiperactivo".
— Do mesmo modo, e para felicidade dos "encarregados de educação", os brilhantes programas escolares extinguiram os alunos cábulas; tais estudantes serão, quando muito, "crianças de desenvolvimento instável".
— Ainda há cegos, infelizmente. Mas como a palavra fosse considerada desagradável e até aviltante, quem não vê é considerado "invisual". (O termo é gramaticalmente impróprio, como impróprio seria chamar inauditivos aos surdos - mas o "politicamente correcto" marimba-se para as regras gramaticais...)
— As putas passaram a ser "senhoras de alterne".
— Para compor o ramalhete e se darem ares, as gentes cultas da praça desbocam-se em "implementações", "posturas pró-activas", "políticas fracturantes" e outros barbarismos da linguagem.
— E assim linguajamos o Português, vagueando perdidos entre a "correcção política" e o novo-riquismo linguístico.
Estamos "tramados" com este 'novo português'; não admira que o pessoal tenha cada vez mais esgotamentos e stress.
Já não se diz o que se pensa, tem de se pensar o que se diz de forma 'politicamente correcta'.
Hoje não se fala português... linguareja-se!
(Helena Sacadura Cabral)


dos fascistas, neo-fascistas e para-fascistas

«Os bloquistas defendem a censura a Marine Le Pen e criticam a censura a Luaty Beirão enquanto os comunistas defendem a censura a Luaty Beirão e criticam a censura a José Saramago enquanto os nacionalistas defendem a censura a José Saramago e criticam a censura a Marine Le Pen. [Voltar ao início.] Cada fascista tem o seu próprio auto-de-fé.»
de Miguel Granja aqui





teatrices




«Chegou apressada, nervosa e vulnerável, incapaz de remover o plástico do maço de cigarros que pretendia fumar, iniciando-se tardiamente naquele vício, agora, para lá da meia-idade e perante a reprovação de um neto, dizia. Auxiliada na tarefa de remoção do impertinente plástico, despejou um percentil da vida em sinopse nérvea, implicando o recente desentendimento com o namorado e a toxicodependência do filho, tragédia que lhe provocou uma depressão. Entre o sorriso teatral e a lágrima encenada, deitou-se à arte divinatória decifrando o signo do interlocutor e daí retirando o imperativo em jogar na lotaria, dada a assertividade manifestada. Concluiu a actuação efectuando o último item requerido, o contacto físico, pelos ósculos de despedida que solicitou; e foi-se, com as indicações da papelaria onde poderia comprar um duodécimo – jogo, para si, enigmático -, e a recomendação de se abandonar ao areal e às águas da praia urbana onde aqueles elementos naturais reverberam a força do astro-rei e diluem os achaques psicológicos. Que tenha muita sorte.»
Continuam amadores!

dos indígenas


O Parlamento Europeu e os povos indígenas
Francisco Assis (Eurodeputado do PS) in PÚBLICO 5 de Julho 2018

O relatório aprovado visa alertar para a reiterada violação dos direitos indígenas e a indevida apropriação de terras em larga escala

Há mais de cem anos, um antropólogo norte-americano de origem alemã, Franz Boas, rompeu com a concepção de uma antropologia evolucionista de fundamentação racista, e iniciou uma outra forma de olhar para o mundo indígena. A sua obra constituiu uma verdadeira reviravolta epistemológica, dotada de um enorme potencial transformador nos planos político e cultural. Essa transformação verificou-se de facto no mundo da antropologia, e para isso basta lembrarmos alguns dos seus nomes mais conhecidos, como Malinowski e Lévi-Strauss. Não é certo que as consequências no plano político tenham sido de idêntica dimensão. Ainda hoje os povos indígenas são percebidos por largos sectores da humanidade como expressões de uma resistência anacrónica ao progresso e à contemporaneidade. Nem o facto de a própria ideia de progresso ter sido submetida a uma dura apreciação crítica na cultura Ocidental conduziu a uma alteração radical desse tipo de percepção sobre a natureza dos indígenas. Ora, esta visão concorre fortemente para o estatuto de subalternidade que continua a afectar pelo menos 370 milhões de seres humanos dispersos por todo o planeta, que integram a categoria de povos indígenas. Eles são, na maior parte dos casos, objecto de um olhar racista, que não raras vezes os remete para um estatuto quase infra-humano, que se traduz na sujeição a uma violência real e simbólica absolutamente insuportável. Não estamos sequer a falar da sua história nos últimos séculos, mas sim daquilo que constitui a sua vivência presente. Os indígenas são vistos e tratados como uma espécie de “lumpenhumanitat”, destinado a desaparecer e tratado sordidamente.

Foi justamente por ter contactado com esta realidade, quer através de vários encontros com representantes destes povos que se deslocaram a Bruxelas e a Estrasburgo, quer através de diversas visitas que realizei nos últimos anos a algumas destas comunidades no espaço latino-americano, que me empenhei na elaboração de um relatório subordinado ao tema das violações dos direitos dos povos indígenas no mundo e da apropriação ilegal de terras. Esse relatório foi discutido esta semana no plenário do Parlamento Europeu em Estrasburgo e aprovado com os votos de mais de três quartos dos deputados europeus. Num tempo de crise política e moral em grande parte suscitada pela dificuldade em encontrar uma resposta adequada à questão das migrações, esta expressiva votação ainda diz muito acerca do comprometimento dos representantes políticos europeus, da direita à esquerda, com alguns dos valores que comummente reclamamos como matriciais no projecto europeu. É claro que é mais fácil votar a favor de um relatório do que agir de forma consequente e útil na promoção de princípios, valores e direitos concretamente associáveis a grupos de populações anatematizadas. Contudo, um voto é já um compromisso, uma clara declaração de intenções, uma expressão de um ideal regulador. Por isso mesmo, creio que o Parlamento Europeu esteve à altura das suas responsabilidades ao aderir ao conteúdo de um texto que visa sobretudo alertar para duas questões de inegável actualidade: a reiterada violação dos direitos indígenas por esse mundo fora e a indevida apropriação de terras em larga escala, por parte da indústria extractiva e do agronegócio, que põem em causa os ancestrais direitos de algumas comunidades humanas ao usufruto da terra e prejudicam o equilíbrio ambiental planetário devido à redução drástica da biodiversidade e à destruição de amplas áreas florestais.
Convirá referir que não está subjacente a este relatório qualquer propensão para a idealização acrítica dos estilos de vida e das práticas sociais e culturais prevalecentes nas múltiplas comunidades indígenas. Tão-pouco ignoramos a natureza complexa que caracteriza a necessária articulação destas mesmas comunidades com os contextos sociais e estatais em que estão inevitavelmente inseridas, para já não falarmos da sua inserção no fenómeno da globalização. Tal como em todos os restantes casos, recusamos qualquer perspectiva essencialista que aponte para uma identidade rígida e fechada. É óbvio que a aceleração do tempo histórico também se repercute em sociedades que não podem ter um estatuto a-histórico. Como sabemos, são raríssimos os casos de comunidades indígenas que optaram pelo isolamento voluntário em relação ao resto do mundo. Reconhecendo assim o carácter inevitavelmente problemático das articulações atrás referidas, o que está em causa é a salvaguarda do direito das comunidades indígenas decidirem sobre o seu próprio futuro e sobre a natureza, o ritmo e os modos da sua interacção com a realidade circundante.

Infelizmente, verificamos que este direito lhes tem sido sistematicamente sonegado, o que não quer dizer que não existam bons exemplos em vários países do mundo. Por outro lado, e sem qualquer enfoque meramente utilitarista, temos que reconhecer que a preservação de vastos territórios sob parcial jurisdição indígena contribui fortemente para evitar a escalada de monoculturas agrícolas ou de gigantescas extracções mineiras que a serem concretizadas produziriam efeitos muito negativos para toda a humanidade.

Haverá quem argumente que a União Europeia não dispõe de legitimidade para se pronunciar sobre este tema. A prova mais evidente da mediocridade desta tese reside no facto de inúmeros representantes destes povos solicitarem directamente ao Parlamento Europeu a adopção de posições claras sobre este assunto. Não incumbindo ao Parlamento Europeu o papel de provedor-geral da humanidade, não pode contudo deixar de o responsabilizar o facto de, por mérito próprio, ter despertado inegáveis expectativas em todos quantos se dedicam à salvaguarda e promoção dos direitos humanos. Isto desautoriza um certo discurso anti-Ocidental, primário e grotesco, que continua a ser produzido por alguns sectores mais extremistas das nossas sociedades. Tal discurso é tão negativo como aquele, de sinal contrário, que se extasia no enaltecimento da proclamada superioridade de uma suposta civilização Ocidental de carácter puramente essencialista e despudoradamente racista. Felizmente, o Ocidente não é nem uma coisa, nem outra, e o espaço político europeu tem-se revelado o mais aberto à compreensão do outro em todos os planos em que este se manifesta.

Que o Parlamento Europeu, no meio de tantas urgências, de tão diversas solicitações sectoriais, de uma quase inevitável propensão para a abordagem mecânica dos temas mais mediáticos, tenha encontrado tempo para discutir um relatório sobre os povos indígenas é algo que a meu ver merece ser registado. Que deputados comunistas, verdes, liberais, conservadores, democratas-cristãos e, naturalmente, socialistas como eu próprio, se tenham empenhado profundamente numa discussão que para muitos poderia ser vista como ociosa ou anacrónica, revela, a meu ver, uma coisa: a Europa está muito longe de estar tão doente como por vezes se apregoa.


30 anos separam estes dois livros




Comprei a obra de Morin em meados dos anos 90 e, então, achei-o pertinente. Porém, hoje verifico que no mundo hodierno não é a meia dúzia de indivíduos conscientes que moldam a caminhada civilizacional. São as ideias simples que movem a marcha das sociedades, porventura, e infelizmente, escoradas naquela “visão reducionista e simplista do Homem e do Mundo”. Porque nas democracias ocidentais é a consciência limitada das massas, inflamada por um confuso conceito de liberdade pessoal, que escolhe o caminho.
Trinta anos depois do lançamento da obra de Morin, valerá a pena ler “A Estranha Morte da Europa” do autor Douglas Murray.

PENSAR A EUROPA (1987) - «A reflexão de Edgar Morin incide sobre o panorama da ciência contemporânea que se apresenta como um "mosaico" de disciplinas isoladas e separadas entre si. Esta fragmentação remete para a necessidade de encontrar um novo método, que repense a tradição científica ocidental. Partindo do desenvolvimento das diversas ciências, especialmente da física, da biologia, da cibernética e da ecologia, Morin transmite a ideia de "complexidade", que caracteriza todas as esferas da actividade humana, desde o mundo físico e natural até ao universo das sociedades humanas. Estas realidades (física e social), têm de ser pensadas de uma forma dinâmica e intercomunicativa: o natural não ser entendido desligado do social e vice-versa, e o todo das partes que o compõem, também perspectivados numa lógica de reciprocidade.  Em síntese, Morin tem como objectivo ultrapassar a visão reducionista e simplista do Homem e do Mundo, que domina o pensamento ocidental há trezentos anos.»


A ESTRANHA MORTE DA EUROPA (2017) - «… é o relato de um continente e de uma cultura à beira do suicídio. A queda nas taxas de natalidade, a imigração em massa e a cultura da auto-desconfiança e do ódio tornaram os europeus incapazes de se defender e de resistir à sua transformação abrangente como sociedade.
Este livro não é apenas uma análise da realidade demográfica ou política, é também o testemunho de um continente em autodestruição. Em cada capítulo, Murray dá um passo atrás e analisa os temas mais profundos que estão por detrás da possível morte da Europa, de uma atmosfera de ataques terroristas em massa à estável erosão das nossas liberdades. Aborda o desapontante falhanço do multi-culturalismo, a viragem de Angela Merkel em relação às migrações e a fixação do Ocidente na culpa.
Viajando até Berlim, Paris, Escandinávia, Lampedusa e Grécia, o autor desvenda o mal-estar no coração da cultura europeia e ouve as histórias daqueles que chegaram vindos de longe. E termina com duas visões da Europa - uma de esperança e uma pessimista - que retratam um continente em crise e oferecem uma escolha do que podemos fazer no futuro.
A estranha morte da Europa explica com clareza os males que ameaçam a sobrevivência da Europa.
Na sua ânsia de se abrir para outras culturas e festejá-las ostensivamente, a Europa esquece-se de festejar e respeitar a sua própria, num acto insano de auto-sabotagem.
A Europa está morrendo, condenada pelo colapso voluntário da sua cultura que parece incapaz até mesmo de reconhecer, e menos capaz ainda de se defender de uma conquista hostil vinda de fora de suas fronteiras.
Os terríveis despotismos do fascismo e do comunismo do século 20 afiguram-se como tentativas de erigir um equivalente secular e político da verdade religiosa absoluta. Desde então, o secularismo vem corroendo com firmeza qualquer remanescente de pensamento ou crença, e neste vácuo de um mundo sem significado o islão aproveitou para penetrar.
Não há como regredir do nosso iluminismo contemporâneo, dominado pelo saber científico. E o que nos parece determinar nossa “superioridade” intelectual e moral pode vir a causar a nossa queda fatal.
E o que faremos, como sociedade, para nos defender? Voltaremos a acreditar em Deus? Ou acordaremos para rechaçar os nossos inimigos, isto é, inimigos do nosso estilo de vida inflamado de liberdade pessoal?»



eventuais leituras para férias


«A Estranha Morte da Europa é o relato de um continente e de uma cultura à beira do suicídio. A queda nas taxas de natalidade, a imigração em massa e a cultura da auto-desconfiança e do ódio tornaram os europeus incapazes de se defender e de resistir à sua transformação abrangente como sociedade.
Este livro não é apenas uma análise da realidade demográfica ou política, é também o testemunho de um continente em autodestruição. Em cada capítulo, Murray dá um passo atrás e analisa os temas mais profundos que estão por detrás da possível morte da Europa, de uma atmosfera de ataques terroristas em massa à estável erosão das nossas liberdades. Aborda o desapontante falhanço do multi-culturalismo, a viragem de Angela Merkel em relação às migrações e a fixação do Ocidente na culpa.
Viajando até Berlim, Paris, Escandinávia, Lampedusa e Grécia, o autor desvenda o mal-estar no coração da cultura europeia e ouve as histórias daqueles que chegaram vindos de longe. E termina com duas visões da Europa - uma de esperança e uma pessimista - que retratam um continente em crise e oferecem uma escolha do que podemos fazer no futuro.
A estranha morte da Europa explica com clareza os males que ameaçam a sobrevivência da Europa.
Na sua ânsia de se abrir para outras culturas e festejá-las ostensivamente, a Europa esquece-se de festejar e respeitar a sua própria, num acto insano de auto-sabotagem.
A Europa está morrendo, condenada pelo colapso voluntário da sua cultura que parece incapaz até mesmo de reconhecer, e menos capaz ainda de se defender de uma conquista hostil vinda de fora de suas fronteiras.
Os terríveis despotismos do fascismo e do comunismo do século 20 afiguram-se como tentativas de erigir um equivalente secular e político da verdade religiosa absoluta. Desde então, o secularismo vem corroendo com firmeza qualquer remanescente de pensamento ou crença, e neste vácuo de um mundo sem significado o islão aproveitou para penetrar.
Não há como regredir do nosso iluminismo contemporâneo, dominado pelo saber científico. E o que nos parece determinar nossa “superioridade” intelectual e moral pode vir a causar a nossa queda fatal.
E o que faremos, como sociedade, para nos defender? Voltaremos a acreditar em Deus? Ou acordaremos para rechaçar os nossos inimigos, isto é, inimigos do nosso estilo de vida inflamado de liberdade pessoal?»


A morte da competência  - O populismo contemporâneo aumentou o desdém pelos peritos e elites de todo o género, seja na política externa, na cultura, na economia, e até mesmo na ciência e na saúde.
Enquanto a Internet permitiu que mais pessoas tenham mais acesso a mais informação do que nunca, também lhes deu a ilusão do conhecimento, quando na verdade elas estão afogadas em dados. Daí resulta um manancial inesgotável de rumores, mentiras...




Depois de A QUEDA DA BALIVERNA, o autor dispensa apresentações.

A ética e a vara de loureiro*


Para o bem e para o mal as redes sociais vieram para ficar, dando voz à populaça. Uma voz por vezes imbecil e impertinente, e raras vezes pertinente e consequente; afinal de contas espelhando a soma das iliteracias e desinformações de cada uma das vozes singulares, reunidas na monumental arenga cacófona própria de um país com grave deficit de instrução e informação.

As redes sociais já conduziram à demissão de altos cargos da administração pública (Espanha e E.U.A. são disso exemplo), e vão, paulatinamente, ainda que de modo acanhado entre nós, portugueses, obrigando a que aquela classe possidente e nada democrática, dos políticos, vá sentindo os ventos da mudança, particularmente no que respeita à ética e à moralização da sua actividade. O que acabo de dizer não constitui o reconhecimento de que a tendência abusiva e abusadora, que os tem caracterizado nestas quatro décadas e meia de Democracia, esteja em retrocesso. Só um ingénuo pensaria assim. Até porque, frequente e ardilosamente, o episódico e singular discurso de mea culpa não passa de estratégia eleitoralista, minuciosamente calculada no tempo e no lugar. Não nos iludamos, portanto.

Porém, qualquer reflexão séria e consciente sobre a qualidade dos políticos que temos terá de equacionar a constatação da estreita ligação desses políticos com o povo que somos. Eles não vieram de Marte, foram e são extraídos do mesmo húmus material e cultural onde todos medramos.

Se a maior parte de nós se recusa a construir Democracia, porque vira as costas à discussão dos problemas e à participação cívica - por achar essa discussão inquinada e manipulada pelos políticos “profissionais” -, pelo menos devemos usar a voz para fazer ouvir que estamos descontentes. E nem que seja por motivos exclusivamente eleitoralistas, algum efeito poderá resultar. Porque se os políticos não corrigirem o seu abuso, nunca incutirão nas massas os valores éticos imprescindíveis à vida em comunidade e em democracia. E o seu exemplo ficará apenas ao serviço da destruição moral da sociedade.

Triste exemplo, o de Sócrates e o dos actuais dirigentes do PS, triste e perigoso exemplo para o País, como tem acontecido.

E agora por isso, onde andará aquele rapaz, do meu partido, que em tempos idos telefonou ao progenitor transmitindo com urgência ministerial a importante mensagem: - Papá, já sou Ministro! Aposentou-se com os bolsos recheados de milhões de euros ilegalmente subtraídos aos contribuintes, e goza hoje um invejável descanso num destino exótico?!

Há quem diga que vergastar com vara de loureiro é melhor discurso do que palavreado pendurado numa rede social.

Parábola final da Homilia
“O trigo só é sovado porque é trigo; fosse joio, nem seria tocado por quem o debulha.”


*sei que, tradicionalmente, é a vara de marmeleiro que se usa mas, ao substituí-la pela de loureiro, tento evitar o desbaste daquela árvore da qual depende o fabrico de um produto tão apreciado pelos portugueses: a marmelada.