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Histórias de Cá


Os poemas são como as fotografias. Há coisas boas, menos boas e coisas medíocres. Porém, é fácil fazer passar coisa medíocre por boa. Ou porque se juntam umas tantas palavras que permitem interpretações subjectivas ou porque a forma, ou o conteúdo, suscitam emoções fortes, e eis que a coisa ganha estatuto. O mesmo se passa com as fotografias, muitas delas acidentais ou de intencionalidade duvidosa, mas que o carácter inusitado promove a arte.
Mas o que eu gosto de apreciar são as demonstrações superiores da imaginação enlaçadas no domínio da forma, embora isso seja coisa espinhosa. Aí é que se revela a capacidade criativa, a inteligência e a sabedoria dos artistas. Quer na Literatura, quer na Fotografia.
Vem isto a propósito do livrinho que publiquei este mês e que, uma vez mais, constitui um exercício de aperfeiçoamento da escrita.
Mais preocupado com a forma do que com o conteúdo, repito a fórmula que recorre à metaficção como suporte para estes exercícios. Recurso de criador sofrível que, desta forma, se exime às exigências artísticas da escrita, a obra esclarece, na contra-capa, àquilo a que vem, sem poemas nem fotografias:

«A metaficcção rejeita a verdade enquanto valor absoluto já que o seu objectivo é propor, como verosímeis, outras hipóteses.
Já a historiografia firma-se em factos. No carácter condicional dos factos, sublinhe-se, pois as narrativas históricas também são ficções na medida em que os conteúdos são tanto inventados quanto descobertos. Nas suas investigações, os historiadores nem sempre lidam com factos completos mas apenas com fragmentos, e para completar um texto têm, frequentemente, de preencher as lacunas existentes entre esses fragmentos, inventando. Acresce o factor da interpretação pessoal e das escolhas do autor como contador da história, que pode excluir este ou aquele elemento e dar mais ênfase àquele outro, exactamente como um criador de ficção. Portanto, a subjectividade está presente no discurso histórico.
Assim, História e ficção não podem ser liminarmente julgadas como verdadeira ou falsa, pois nunca são inteiramente verdadeiras nem falsas. Antes acabam por se colocar num mesmo plano, na medida em que a verdade da primeira pode ser tão ilusória como verdadeira a ilusão da segunda.
Esta publicação conclui um ciclo de exercícios de escrita. São pequenos contos de ficção e de metaficção historiográfica em diálogo singular com textos sucintos sobre aspectos da história local.»