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sobre eu cá

Só os amorfos não têm inimigos, só os que não têm ideias próprias, os que enfileiram cegamente por aqui ou por ali e não traçam o seu próprio caminho recusando a constante instância “Vem por aqui!”, é que não granjeiam inimizades. As inimizades de quem age e, agindo, incomoda.

“Acção é termos carácter. Se não fizéssemos nada, nunca seríamos ninguém”. Só estranho que alguns que assim pensam e agem tentem coarctar tal dinâmica aos outros. Ou não será tão estranho, mas antes a interminável história dos indivíduos em sociedade, entregues a essa eterna luta que opõe a emancipação à dominação. E muitos dos que querem dominar, impreparados para tal, depressa ficam ofuscados no seu trilho e nem se apercebem de quão cerceiam a liberdade dos outros. Seguem na frente, de olhos bem abertos, mas vão cegos.

Já lá vai o tempo em que pugnava pelo bom relacionamento com toda a gente, ficando incomodado sempre que alguma birra – minha ou do outro –, nos punha de candeias às avessas. “Ser amigo é que é bonito”, assim se aprende desde pequeno. Mesmo que esse amigo seja o maior filho-da-puta que a cidade criou?! Nada mais errado.

De facto, eivado desse profundo sentimento, desse ensinamento cristão de resignação perante uma realidade supostamente inalterável, quiçá resultante dos desígnios de Deus - assim nos ensinam subliminarmente -, era-me penoso evitar cumprimentar um concidadão com quem me cruzava na rua.

Ora, a vida ensinou-me que essa atitude não é compatível com a defesa intransigente das coisas em que acreditamos. Não é conciliável com o assumir das nossas verdades, sobretudo quando elas não são partilháveis e são, até, antagónicas às dos outros.

Assim, passei a aceitar e a praticar o distanciamento e o desprezo por pessoas com as quais não me identifico nem me revejo nas suas atitudes. Pessoas com quem não compartilho os valores que reputo essenciais à vida em comunidade.

Reconheço que também cometo erros, que também tenho defeitos, como o cinismo de quem recusa perder tempo com gente que pouco ou nada de valioso tem para ensinar. Ou o artifício e a dissimulação que integro numa estratégia de reacção aos feitos velhacos dos outros, a quem só perdoo na sua quietude e nunca em função de actos de contrição e menos ainda de continuado revanchismo.

Não, hoje não me incomodo com o facto de existirem seres invisíveis, pessoas que deixei de ver, que remeti para o limbo do desprezo. Sobre as quais não me interessa o menor facto da sua existência. E nisso não vejo mal mas antes a ordem natural das coisas. Mais importante do que esse pretenso respeito pelo próximo é o respeito por nós próprios. E quando estas duas deferências não são compatíveis, que prevaleça o respeito por nós próprios, sob pena de o perdermos sobre o todo.

Mas sou generoso, sempre fui. Dou mais aos meus inimigos do que aos meus amigos. E não é adulação, é franqueza.

Aos meus amigos, saúde e longa vida.
Aos meus inimigos, saúde, longa vida e... bardamerda.


PS: - Não, não estou azedo. Estou apenas arrebatado com o que escrevo. Seja verdade ou não, aquilo que digo. hehehehe...