medalhas de ouro

 Diário da Peste #132

Parece que somos muito bons a saltar e atirar pedregulhos. Valha-nos isso... essas aptidões para as cabriolices. Ainda por cima elas são giras.



Claro que nenhum destes magníficos atletas chega aos calcanhares do famoso Zé Figueiras, o homem verdadeiramente mais rápido do Mundo. Logo que alcatroaram a EN120, e começaram a surgir as camionetas de excursionistas trazendo minhotos, beirões ou alfacinhas em visita ao Algarve, o Zé Figueiras, natural de Aljezur - que não gostava de tais visitas perturbantes da pacatez barlaventina -, atirava pedregulhos às indolentes viaturas assim que elas se aproximavam da ponte. Porém, achando muito trabalhoso arrancar novo paralelepípedo da calçada, lançava-se em vertiginosa correria e ainda apanhava a pesada pedra antes desta atingir o autocarro; e voltava a atirá-la e a repetir o exercício até que a última curva da povoação ocultasse os olhos esbugalhados dos estupefactos forasteiros.
E se pensam que exagero atentem nas habilidades de caçador do ilustre aljezurense que, quando acompanhado da cadela (que mantinha enjaulada e mal alimentada), e temendo que a esfaimada cachorra devorasse a lebre a que acabara de fazer o tiro, partia bruscamente em louca correria, ultrapassava o canídeo e agarrava a peça de caça, ainda mesmo antes do chumbo a vitimar; o que se traduzia, por vezes, numa porção de chumbinhos alojados na mão do alucinante caçador; o que redundava numa grande chatice pois a mão temporariamente inutilizada era a que usava habitualmente para “espancar o palhaço” e, por este motivo, via-se obrigado a calçar na mão sinistra uma luva destra para que, dessa forma, o tímido palhaço não ficasse inibido na sucessão das viris sacudidelas.
Assim mo contaram, e eu acreditei porque incomensuráveis são as aptidões dos lusitanos para as artes atléticas.

Para memória futura

 ~ O naufrágio da «Medusa» ~

Não sei se os jornalistas profissionais que apelaram ao Presidente da República pensavam ou não que este poderia vir a responder ao apelo de demitir o actual governo por forma a limitar as perdas acumuladas pelo PS, na senda do que este vinha fazendo desde que subiu abusivamente ao poder.
É bom recordar que o «golpe parlamentar» de 2015 só teve lugar porque o Presidente Cavaco Silva estava no final do seu segundo mandato e já não podia dissolver o Parlamento perante a intenção do PS de montar a «geringonça»!
(…)
Seja que motivo for, é muito pouco provável que o governo seja demitido. Qualquer «governo de excepção» nomeado pelo PR teria sempre a oposição da «geringonça». Acresce o facto de tão pouco o PR e os outros partidos de governo – o PSD e o CDS, hoje ambos sem liderança credível – terem já mostrado ser incapazes de alterar o rumo do país. Sendo certo que o PS já mostrou só saber governar distribuindo o «bodo aos pobres» e elevando a dívida a níveis nunca vistos, o actual sistema político-partidário está cada vez mais parecido com o final da primeira República e, entretanto, sumiram-se as colónias e os militares…
Com efeito, o arco dos partidos de governo que tomaram conta do regime em 1976 desfez-se ao cabo das sucessivas administrações de Sócrates e de António Costa. Com excepção do governo monitorado pela «troika», desde a fuga de Guterres às suas responsabilidades no início do século XXI que o país não só deixou de crescer economicamente como se endividou sem proveito algum, ao ponto de Portugal se ter tornado num dos maiores devedores mundiais e de ter perdido, entretanto, sucessivos lugares na escala europeia.
As poucas empresas nacionais de alguma dimensão soçobraram; o resgate de «buracos» permanentes como a TAP custam os olhos da cara; a banca privada é toda estrangeira; o regime de endividamento constante não trouxe, como não podia trazer, uma efectiva modernização económica nem social; o aumento da escolaridade pouca ou nenhuma ligação tem com o tecido produtivo; finalmente, a burocracia do Estado não parou de crescer ao mesmo tempo que a população estagnava e o envelhecimento aumentava.
É isto que agora se vê com a hecatombe provocada pela pandemia e pela crescente debilidade das condições de vida dos doentes e dos mais velhos!
O recente caso da demissão do pretenso «leader» do processo de vacinação é exemplar do que não deve acontecer - não se sabe a que título recebeu a incumbência: como secretário de Estado da Saúde, ignora-se o que andou a fazer durante mais de vinte anos; depois, ao mesmo tempo que era nomeado para administrar um hospital recém-estatizado, fez um vago plano de vacinação que desprezava o facto de 85% dos óbitos ocorrerem a partir dos 70 anos; entretanto, escondia a escassez de vacinas, o que só encorajou a miséria moral de quem se aproveita da situação para roubar vacinas; ainda foi obrigado a dar prioridade formal às pessoas com 80+ anos mas entretanto desapareceu…
Como era de recear, nada disto foi explicado à população, continuando as entidades governamentais a esconder a situação real.
É possível que neste momento a «curva» da pandemia tenha começado a baixar de novo, trazendo alguma pausa à enorme pressão sofrida pelos profissionais de saúde e pela economia. Na verdade, porém, os cientistas parecem ainda estar longe de conhecer todas as manifestações do vírus. Uma coisa é certa: a escassez de vacinas à escala europeia devida a uma combinação fatal entre a capacidade das farmacêuticas e a crença da UE na aquisição antecipada de muitos milhões de vacinas, as quais aparentemente não virão a tempo de, ainda este ano, conferir «imunidade comunitária» à maioria dos países, incluindo Portugal.
Finalmente, muito pouco ou nada se sabe da verdadeira situação sócio-económica do país. Enquanto o governo continua a falar de orçamentos sem correspondência com a realidade e em défices que só se conhecerão mais tarde, também a taxa de queda do PIB em 2020 e a sua eventual subida em 2021 pouco nos dizem, salvo que o país está a sofrer a sua maior crise desde a chegada de Salazar ao poder em 1928!
Numa palavra: este governo, além de ser um monstro devorador do dinheiro dos contribuintes, perdeu qualquer credibilidade executiva. Do lado das oposições, as «esquerdas» só gritam e as «direitas» só gemem: manifestamente, não sabem fazer mais nada! No centro, o Presidente da República opina acerca de tudo mas não parece estar disposto a tentar poupar o país à triste sorte que o PS e a sua «geringonça» nos reservam!
. Manuel Villaverde Cabral

... e os bufos

OS VELHOS PIDES DA NOVA DGS

 Alberto Gonçalves no Observador.

"Uma das manias repugnantes alimentadas pela Covid é a conversa de que sairemos “mais unidos” desta provação. Primeiro, não há garantia de que alguma vez possamos sair da opressão e da arbitrariedade que o governo aproveitou para impor a pretexto do vírus. Depois, há garantia de que, ainda que passe, toda a história deixará um rasto de desconfiança. E de nojo. E, se tivermos sorte, de vergonha. Por mim, sinto-me mais unido a uma zebra ou a um busca-pólos do que aos meus compatriotas que se deleitam na velha arte da bufaria. É mau ser nazi, comunista, ladrão, violador ou fã dos Trovante. É pior ser bufo.
Infelizmente, a Covid mostra-nos que há bufos em toda a parte. E em toda a parte há medo dos bufos. É o senhor do café que não serve café com pavor de que alguém vá “abrir a boca”. É a senhora da loja que vende a tremer um par de peúgas “por causa das queixas”. É o casal que, à cautela, não recebe os amigos em casa nem é recebido por eles. É o dono do restaurante que é multado por servir três moços numa sala vazia. É o homem que passeia sozinho na praia deserta e num ápice se vê rodeado por uma brigada policial. E são todos os que delatam os desgraçados acima. E todos os que, quando não conseguem delatar, seguem para as “caixas” de comentários a reclamar punições exemplares – e até sangue – dos bandalhos recalcitrantes que não “cumprem” a “lei”.
A “lei”. Enquanto secam a espuma no canto da boca, os bufos fingem que a “lei” em questão possui origem divina. Não possui. A “lei” a que se referem é apenas o rol de delírios produzidos a cada manhã pela peculiar cabeça do dr. Costa, embalado pelo indivíduo que ocupa Belém e “legitimado” pelos matraquilhos com que reúne no Infarmed. Não há aqui vestígio de racionalidade (a não ser, por exemplo, que a abolição da venda de água em “take away” ou a manutenção dos transportes públicos sejam actos racionais): há prepotência, e é a prepotência que os bufos se esforçam por ajudar a aplicar.
É, aliás, um esforço a que se dedicam com evidente prazer. O bufo não é movido por dinheiro, já que, embora as “autoridades”, da DGS à PSP, instiguem a denúncia, que eu saiba ainda não a remuneram. O bufo não é movido por receio do vírus, já que óbvia e coerentemente cumpre a lei e a infalibilidade desta retira-lhe qualquer risco de se expor à doença. O bufo não é movido pela devoção à saúde pública, já que não lamenta o brutal excesso de mortos à conta de doenças um pouquinho mais graves que a Covid. O bufo não é movido pelo amor ao bem-comum, já que não se oferece para partilhar o salário, que julga garantido, com aqueles que empurra para a falência certa. O bufo denuncia pelo simples gozo de acusar o próximo, a oportunidade dos pelintras para exercer poder e achincalhar. O bufo e o regime em que o bufo prospera têm objectivos comuns.
Não vale a pena decidir se as ditaduras propiciam o surgimento de bufos ou se a abundância de cidadãos desprovidos de carácter é indispensável ao advento de tiranetes. O provável é ambas as chagas se estimularem mutuamente. O facto é que o dr. Costa não existiria sem uma vasta quantidade de pessoas que, após a gestão criminosa da epidemia, a gestão ruinosa da economia e a gestão mentirosa da política, continuam dispostas a servi-lo, através do voto e da delação. E essas pessoas não espraiariam os seus baixíssimos instintos sem um “ambiente” propenso à velhacaria. As “autoridades” e os bufos estão bem uns para os outros.
Mal estamos nós. É claro que, um belo dia, os denunciantes acabarão denunciados e, idealmente, enxovalhados e pobres e doentes como aqueles que perseguiram. É, porém, um consolo fraquito. Entretanto, a tragédia de que foram cúmplices terá causado uma miséria sem regresso nem remédio. Não falo só da miséria sanitária ou material: mesmo que, por milagre, as coisas voltem ao velho “normal”, sobrará sempre um desconforto, uma repulsa por partilharmos o país e o tempo com criaturas profundamente deploráveis. Afinal, amanhã vamos cruzar-nos na rua com os bufos de hoje. A menos que os bufos sigam o próprio conselho e fiquem em casa até à eternidade."

A irrealidade, um tesouro nacional

Há escritos que devem ficar em memória permanente para atirar às fuças de tanto filho de puta pseudo-democrata que arenga loas ao Estado e à Democracia que temos; e aos patetas e bestuntos que neles acreditam. Engulam a realidade, calhordas.

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~ A irrealidade como forma de vida ~

Cada época vive envolta nas suas mistificações, como uma vaca vive na sua nuvem de moscas, impotente para as sacudir. Talvez precisemos de nos embalar nas nossas mistificações para que as coisas adquiram um sentido, tomado de empréstimo ao espírito do tempo, material importado, ou — tem acontecido — material resgatado do fundo do baú pátrio.
Quando, por exemplo, lemos artigos de opinião publicados no ano da graça de 1975, ficamos com a impressão de que Portugal, naquela época, consistia num alegre manicómio. As mistificações do passado tendem a ser facilmente discerníveis a olho nu, ao contrário das actuais que tomamos por realidades ingentes, que se impõem ao observador mais obtuso, como a estátua do marquês de Pombal se impõe à praça do mesmo nome.
O nosso regime teve a sua infância, e nela quis construir uma “via original para o socialismo”, como nós também, em crianças, projectávamos ser agentes-secretos ou índios, quando fôssemos grandes.
Observar as ilusões e pantominas do passado devia precaver-nos contra os barretes que continuamos a enfiar continuamente, alienados numa extravagante irrealidade voluntária.
Infelizmente somos um povo pouco inclinado para a observação e muito dado à dedução. Sem observação o marxismo-leninismo ainda por aí andava, montado no seu castelo de deduções, juntamente com a escolástica medieval, que tantas maçadas deu a Giordano Bruno. Talvez por isso a ideologia conte tanto por cá, o país que, a título de exemplo, execra o “neo-liberalismo” como se o “neo-liberalismo” o tivesse aldrabado num processo de partilhas, sem prejuízo de a mera observação revelar que somos dos mais pobres, burocráticos e corporativos países da Europa. Raquíticos, todos os nossos pavores estão associados ao excesso vitamínico.
As nações que integravam o império dos Habsburgos já nos ultrapassaram (aliás, só estiveram atrás de nós durante o período comunista), as nações bálticas do império dos Romanovs também, portanto já só nos resta sermos ultrapassados pelas nações vassalas da Sublime Porta.
A pobreza e o atraso portugueses não são mistificações. O “neoliberalismo” preconizado pela “direita”, ou a alegada preguiça dos beneficiários do rendimento mínimo, são. Nem merece a pena elencar as mistificações ativas em território nacional, importadas ou vernáculas, que importa.
Já não há inquisição, nem conventos ricos a abarrotar de freiras lúbricas, nem jesuítas (excetuado o Lumiar), nem perigo espanhol, nem protetorado inglês, nem mapa côr-de-rosa, nem rei, nem republicanismo terrorista, nem fascismo, nem império, nem perigo comunista. Começam a faltar os álibis clássicos para a realidade teimosa do nosso atraso. Vai recomeçar o jogo das deduções, inaugurado pela geração de 1870. Infelizmente essa geração acabou no desespero, no suicídio ou na defesa da ditadura.
Entretanto, o populismo aproveita o vazio para propor as suas próprias mistificações: uma revolução de baixo para cima, um corpo ainda sem cabeça, içado por um entusiasmo anónimo, incoerente, mas real. A sede do novo constitui a sua real força, mesmo que nada de novo traga consigo. O regime precisa de resultados e também precisa de sorte. E sobretudo precisa de fugir da demagogia, do truque, do talento espertalhão, orientado para a popularidade junto do sector mais boçal da opinião que, com cinismo e indecoroso alívio, imagina maioritário. Se o palco for exclusivamente tomado por populismos em competição, o velho não sobreviverá ao apelo do novo.
. Sérgio Sousa Pinto

Mas os safardanas da política instrumentalizam tudo o que podem.

 ~ Judicialização da politiquice ~

A política abespinha-se com a justiça quando esta invade a sua suposta esfera de actuação, mas não hesita em instrumentalizá-la sempre que isso serve os seus propósitos demagógicos.

O mito de que os tribunais são aplicadores passivos das leis aprovadas pelos órgãos legislativos, que se limitam a resolver conflitos privados sem impacto na vida pública, não passa de uma verdade arrumada no arquivo da história do pensamento político. Nas sociedades actuais ninguém contesta a centralidade da justiça no jogo democrático nem a emancipação do poder judicial, que de simples função técnico-burocrática se transformou em verdadeiro poder da política. (...) Os tribunais definem direitos, distribuem bens e recursos, corrigem medidas e leis e chegam a ser chamados a fazer escolhas complexas, quando os políticos, apesar de legitimados pelo voto, transferem o custo de decisões controversas.

Este novo protagonismo da justiça, ainda não inteiramente compreendido, gera atritos quando, por exemplo, aparecem providências cautelares administrativas para travar políticas públicas, quando o TC invalida opções políticas de contenção orçamental (como no “período da troika”) ou quando um juiz ordena a libertação de pessoas confinadas em hotéis pelas autoridades de saúde para combater pandemias.

Esta é, se quisermos, a judicialização da política, no seu plano inevitável e legítimo, comum em todas as sociedades democráticas. Não é um desafio à autoridade dos outros poderes nem à legitimidade do voto; é o Estado de direito a funcionar na sua plenitude.

Coisa diferente é a judicialização da politiquice.

Saber se os tribunais são os locais apropriados para lamber feridas de guerra, quando os políticos se acusam uns aos outros de pertencerem à “extrema-esquerda ridícula e traidora” ou à “extrema-direita xenófoba e racista”, ou quando qualificam os adversários como “escumalha”, “caixote do lixo”, “rasca”, “palhaço” ou “manso”; saber se é à justiça que compete declarar quem venceu esses ajustes de contas e validar insultos panfletários.

A sala de audiências do tribunal não pode servir para isso.

A política abespinha-se com a justiça quando esta invade a sua suposta esfera de actuação, mas, contraditoriamente, não hesita em instrumentalizá-la sempre que isso serve os seus propósitos demagógicos.

O poder judicial é um poder da política; não é um árbitro da politiquice.

A violência verbal e a agressividade argumentativa fazem parte do debate político desde sempre. O desejo de visibilidade do sound bite momentâneo na imprensa e nas redes sociais motiva uma comunicação que privilegia a forma em detrimento da substância.

Em 1858, num debate entre candidatos presidenciais nos Estados Unidos, Abraham Lincoln qualificou a política de escravatura de Stephen Douglas dizendo que era “tão rala como uma sopa homeopática feita na fervura da sombra de um pombo que morreu de fome”. Não consta que o autor da tirada irónica tivesse acabado no tribunal, prostrado à frente do juiz à espera do puxão de orelhas, nem que a vítima tivesse precisado desse desagravo para seguir em frente.

Há ofícios com ossos mais duros de roer que outros. Faz tanto sentido um político hipersensível à ofensa ir fazer queixinhas ao tribunal, como um futebolista exigir que não lhe toquem nas canelas. Levar as politiquices partidárias para os tribunais desvaloriza a política – porque esta não precisa da tutela referencial de uma moralidade superior – e desvaloriza a justiça – porque esta dispensa ver a sua credibilidade metida em intrigas.

Em Outubro do ano passado, Marine Le Pen perdeu um processo no Tribunal de Cassação de França contra a revista Charlie Hebdo, que tinha publicado um cartaz de campanha inventado com a imagem de um monte de excremento fecal fumegante, onde se lia “Le Pen, a candidata que é como tu”. O tribunal disse que a publicação, mesmo agressiva, reflectia uma opinião sobre as posições da candidata e constituía uma forma de exercício legal da liberdade de expressão. É a vida. Há dores que não se curam nos tribunais.

• Manuel Soares

presidente da direcção da Associação Sindical dos Juízes Portugueses

Chega! de parvoíces, ó jacobinos de pacotilha

 ~ Está tudo de cabeça perdida ~

Está tudo de cabeça perdida, como se diz em epígrafe. De súbito não se fala senão no Chega. É que viabilizou um governo de «direita» nos Açores, é que se perfila como incontornável parceiro para futuras negociações com o PSD no continente. Coitado do Costa. Que dores de cabeça lhe provoca o Chega.


Costa não é nem nunca foi inteligente; é apenas manhoso e, portanto, não percebeu que a geringonça que inaugurou no panorama político nacional era perigosa e que mais tarde ou mais cedo se iria voltar contra ele. Vai daí ataca agora o PSD. Que pisou linhas vermelhas, que saiu do convívio democrático pois que alinhou com um partido que, à falta de melhor argumento, é xenófobo e até fascista.

 

Ventura faz muito bem em ironizar com a questão. Costa não merece outra atitude. Explicar-lhe que o Chega é um partido democrático que vem aprofundar o convívio legitimador das soluções políticas alcançadas pois que o seu contributo se mede pela diferença e pela novidade mas sem receio de um alegado radicalismo que não é senão indignação não vale a pena. Seria necessário que Costa se cultivasse o que não é sua prioridade e a que é mesmo completamente arredio. Seria preciso explicar-lhe que a direita sociológica e cultural existiu sempre em Portugal muito embora de tal evidência o mesmo nunca se tenha apercebido. Seria preciso ensinar-lhe que o marxismo básico e estúpido em que a sua formação medrou, a despontar na primeira ocasião, já não alcança nada e só deforma as coisas. Seria necessário reformá-lo de cima a baixo. Não vale a pena.

 

Os argumentos contra o Chega são de grande quilate intelectual. Vejamos; uns dizem que os açorianos que votaram Chega são mais ou menos atrasados e analfabetos; apareceu até um energúmeno apresentado como prof. de uma Universidade açoriana que asseverava que era de incultura e analfabetismo que se tratava; que outra coisa poderia ser? Santos Costa não teria dito melhor a justificar a falta de liberdades políticas nas alocuções aos trabalhadores em Braga em 1946. Que desconsideração pelos açorianos que são e sempre foram uma parcela do país onde a cultura racional e o espírito crítico desde mais cedo floresceram.

 

Outros, mais institucionais, pretendem que o Chega viola os limites materiais da revisão constitucional sem lhes passar pelas iluminadas cabeças que estes limites não estão todos ao mesmo nível e que o Chega descontados, porventura, alguns emotivos excessos de linguagem, os nunca poria em causa porque é um partido de filiação cristã e pluralista, temente à dignidade da pessoa humana e apostado na reforma da democracia política portuguesa mas que não vê na Constituição uma vaca sagrada, sem prejuízo obviamente do respeito total pela grande maioria das soluções de tão respeitável diploma.

 

Outros asseveram que o Chega prejudica a comunicação própria do «espaço público» democrático. Coitados; não fazem ideia do que foi a origem histórica, saída da Revolução Francesa e divulgada na Alemanha oitocentista, da noção de espaço público. O Chega só alarga o espaço público democrático porque o faz em condições racionais, acessíveis, abertas ao contraditório e sem coacção. Por muito que custe a compreender aos ditos «intelectuais» o espaço público não se alimenta só da vulgata marxista aprendida nas creches da Voz do Operário e nas miseráveis cartilhas da M. Harnecker e de outros subprodutos como ela.

 

Querem atacar o Chega? Cultivem-se e chegam lá. Usem argumentos mais ponderosos e racionais. Se quiserem até vos posso fornecer alguns. E falo a sério. Deixem-se é de marxismo de pacotilha e de repisar argumentos próprios do Comintern que fariam inveja ao saudoso camarada Dimitrov. Não percam a cabeça. Mais elevação cultural, oh zoilos! Mais um esforço e sereis cultivados e civilizados. É que até dá votos e certamente que nos Açores.

 

. Luiz Cabral de Moncada




A Praça do Infante e o Jardim da Constituição; corrigir o destrambelho de 2009.

A Praça do Infante devia ser toda repavimentada com o padrão Mar Largo de calçada à portuguesa (o mesmo que possuía e que, desgraçadamente, foi retirado); idem para o Jardim da Constituição. As razões para essa alteração prendem-se com o facto daquela calçada constituir um pavimento de qualidade e de relevante valor patrimonial arquitectónico e cultural, referenciado e preservado em todo o mundo por onde andámos a fazer calçada à portuguesa: Brasil, Cabo Verde, Angola, Moçambique, Índia, Timor e Macau; com exemplos mais recentes em Espanha e nos Estados Unidos da América.

Assim, toda essa área ficaria liberta de obstáculos para poder funcionar plenamente como sala de visitas da cidade e local de realização de espectáculos e feiras temáticas (Feira Medieval; Feira do Livro, etc.).

Consequentemente, teria de ser removida aquela coisa a que chamam fonte cibernética que, estupidamente, utiliza água num local afectado por ventos frequentes, de Norte ou Sueste (com evidente desperdício do precioso líquido), e que tantas vezes torna incómodo permanecer, ou simplesmente passar, nas proximidades; e porque essa “instalação” pseudo cibernética, que nunca funcionou bem, ocupa imerecidamente um dos espaços públicos mais importantes da cidade.

A estátua do Infante poderia manter-se onde está, descentrada na Praça, ou reposicionada perto da estátua do Gil Eanes, cada um com o seu pano de muralha em fundo. Assim se ganhava para o uso humano aquele espaço magnífico, e assim se remetia a estátua da figura histórica para a devida dimensão do seu relacionamento com Lagos já que, mesmo tendo possuído o senhorio da Vila, pouco por cá terá andado e raramente terá habitado, sabendo-se que só residiu na região de forma permanente nos últimos 14 anos da sua vida, e mesmo então dividindo-se entre a Raposeira e Sagres.

O espaço pavimentado com o motivo 'Mar Largo'.
Os pontos vermelhos reposicionam as estátuas de Gil Eanes e do Infante D. Henrique.

Infelizmente, não foi construído nada semelhante à proposta acima, foi feito o que consta na imagem abaixo. E, agora, seria dispendioso corrigir, se tal fosse possível. E não é possível porque os políticos são reféns de conjunturas artificiais, por eles criadas, e que impedem o funcionamento racional das instituições. Os políticos tornam-se reféns de uma mecânica que cria apetências e desejos no eleitorado, e que depois se sentem obrigados a providenciar. Mas por muito dispendiosa que fosse esta "correcção", seria incomensuravelmente mais barata do que a obra feita em 2009.

E os custos de manutenção do espaço seriam infinitamente menores. Basta retirar a diatribe com a água, os jardins e as árvores (prejudiciais à muralha), e os custos de manutenção do espaço reduzem-se drasticamente. Acresce que a "correcção" facilitaria as soluções de drenagem de todo o perímetro, anulando ou reduzindo grandemente os espaços de quota negativa actualmente existentes e que funcionam como bacia de retenção das águas.

Talvez no futuro alguém tenha coragem para corrigir este magnífico espaço da nossa cidade. Alguém que não seja refém de si próprio ou da sua sombra.

Quando o "belo" é inimigo dos valores do património e da lógica de espaço funcional.


Só vai piorar!



 


Ainda não vimos nada!

Por António Barreto

14 de Junho de 2020

 

Republicanos, corporativistas, fascistas, comunistas e até democratas mostraram, nos últimos séculos, que se dedicaram com interesse à revisão selectiva da História, assim como à censura e à manipulação.

É triste confessar, mas ainda estamos para ver até onde vão os revisores da História. Uma coisa é certa: com a ajuda dos movimentos anti-racistas, a colaboração de esquerdistas, a covardia de tanta gente de bem e o metabolismo habitual dos reaccionários, o movimento de correcção da História veio para ficar.

Serão anos de destruição de símbolos, de substituição de heróis, de censura de livros e de demolição de esculturas. Até de rectificação de monumentos. Além da revisão de programas escolares e da reescrita de manuais.

Tudo, com a consequente censura de livros considerados impróprios, seguida da substituição por novos livros estimados científicos, objectivos, democráticos e igualitários. A pujança deste movimento através do mundo é tal que nada conseguirá temperar os ânimos triunfadores dos novos censores, transformados em juízes da moral e árbitros da História.

Serão criadas comissões de correcção, com a missão de rever os manuais de História (e outras disciplinas sensíveis como o Português, a Literatura, a Geografia, o Meio Ambiente, as Relações Internacionais…), a fim de expurgar a visão bondosa do colonialismo, as interpretações glorificadoras dos descobrimentos e os símbolos de domínio branco, cristão, europeu e capitalista.

Comissões purificadoras procederão ao inventário das ruas e locais que devem mudar de nome, porque glorificam o papel dos colonialistas e dos traficantes de escravos. Farão ainda o levantamento das obras de arte públicas que prestam homenagem à política imperialista, assim como aos seus agentes. Já começou, aliás, com a substituição do Museu dos Descobrimentos pelo Memorial da Escravatura.

Teremos autoridades que tudo farão para retirar os objectos antes que as hordas cheguem e será o máximo de coragem de que serão capazes. Alguns concordarão com o seu depósito em pavilhões de sucata. Outros ainda deixarão destruir, gesto que incluirão na pasta de problemas resolvidos.

Entretanto, os Centros Comerciais Colombo e Vasco da Gama esperam pela hora fatal da mudança de nome.

Praças, ruas e avenidas das Descobertas, dos Descobrimentos e dos Navegantes, que abundam em Portugal, serão brevemente mudadas.

Preparemo-nos, pois, para remover monumentos com Albuquerque, Gama, Dias, Cão, Cabral, Magalhães e outros, além de, evidentemente, o Infante D. Henrique, o primeiro a passar no cadafalso. Luís de Camões e Fernando Pessoa terão o devido óbito. Os que cantaram os feitos dos exploradores e dos negreiros são tão perniciosos quanto os próprios. Talvez até mais, pois forjaram a identidade e deram sentido aos mitos da nação valente e imortal.

Esperemos para liquidar a toponímia que aluda a Serpa Pinto, Ivens, Capelo e Mouzinho, heróis entre os mais recentes facínoras. Sem esquecer, seguramente, uns notáveis heróis do colonialismo, Kaúlza de Arriaga, Costa Gomes, António de Spínola, Rosa Coutinho, Otelo Saraiva de Carvalho, Mário Tomé e Vasco Lourenço.

Não serão esquecidos os cineastas, compositores, pintores, escultores, escritores e arquitectos que, nas suas obras, elogiaram os colonialistas, cúmplices da escravatura, do genocídio e do racismo. Filmes e livros serão retirados do mercado.

Pinturas murais, azulejos, esculturas, baixos-relevos, frescos e painéis de todas as espécies serão destruídos ou cobertos de cal e ácido. Outras comissões terão o encargo de proceder ao levantamento das obras de arte e do património com origem na África, na Ásia e na América Latina e que se encontram em Portugal, em mãos privadas ou em instituições públicas, a fim de as remeter prontamente aos países donde são provenientes.

Os principais monumentos erectos em homenagem à expansão, a começar pelos Jerónimos e pela Torre de Belém, serão restaurados com o cuidado de lhes retirar os elementos de identidade colonialista. Os memoriais de homenagem aos mortos em guerras do Ultramar serão reconstruídos a fim de serem transformados em edifícios de denúncia do racismo. Não há liberdade nem igualdade enquanto estes símbolos sobreviverem.

Muitos pensam que a História é feita de progresso e desenvolvimento. De crescimento e melhoramento. Esperam que se caminhe do preconceito para o rigor. Do mito para o facto. Da submissão para a liberdade.

Infelizmente, tal não é verdade. Não é sempre verdade. Republicanos, corporativistas, fascistas, comunistas e até democratas mostraram, nos últimos séculos, que se dedicaram com interesse à revisão selectiva da História, assim como à censura e à manipulação.

E, se quisermos ir mais longe no tempo, não faltam exemplos. Quando os revolucionários franceses rebaptizaram a Catedral de Estrasburgo, passando a designá-la por Templo da Razão, não estavam a aumentar o grau de racionalidade das sociedades. Quando o altar-mor de Notre Dame foi chamado de Altar da Liberdade caminharam alegremente da superstição para o preconceito.

E quando os bolchevistas ocuparam a Catedral de Kazab, em São Petersburgo e apelidaram o edifício de Museu das Religiões e do Ateísmo, não procuravam certamente a liberdade e o pluralismo. E também podemos convocar os Iconoclastas de Istambul, os Daesh de Palmira ou os Taliban de Bamiyan que destruíram símbolos, combateram a religião e tentaram apropriar-se tanto do presente como do passado.

Os senhores do seu tempo, monarcas, generais, bispos, políticos, capitalistas, deputados e sindicalistas gostam de marcar a sociedade, romper com o passado e afastar fantasmas. Deuses e comendadores, santos e revolucionários, habitam os seus pesadelos. Quem quer exercer o poder sobre o presente tem de destruir o passado.

Muitos de nós pensávamos, há cinquenta anos, que era necessário rever os manuais, repensar os mitos, submeter as crenças à prova do estudo, lutar contra a proclamação autoritária e defender com todas as forças o debate livre.

É possível que, a muitos, tenha ocorrido que faltava substituir uma ortodoxia dogmática por outra. Mas, para outros, o espírito era o de confronto de ideias, de debate permanente e de submissão à crítica pública.

O que hoje se receia é a nova dogmática feita de novos preconceitos. Não tenhamos ilusões.

Se as democracias não souberem resistir a esta espécie de vaga que se denomina libertadora e igualitária, mergulharão rapidamente em novas eras obscurantistas.»

 

O SOCIALISMO PEDINTE

"A imagem do PM António Costa com o PM holandês, Mark Rutte, há umas semanas em Haia vale mais do que mil palavras. Rutte faz uma vénia leve com a cabeça, o novo tratamento dos tempos do Covid. Costa está dobrado, simbolizando, com aquele gesto, a dependência absoluta do regime socialista em relação ao dinheiro europeu. Aquela é a fotografia do socialismo pedinte que nos governa.

Em Portugal, os dirigentes socialistas falam com voz grossa contra os holandeses e contra Orban. Mas quando toca a receber dinheiro da Europa, tudo se faz e tudo se esquece para receber os fundos e o capital que o regime socialista precisa para sobreviver, fazer negócios e reforçar o seu poder em Portugal.

A economia portuguesa enfrenta dois problemas muito complicados (estão ligados): falta de capital para investir e uma dívida (pública e privada) brutal. É um país sem capital e endividado até ao pescoço. O Banco Central Europeu é absolutamente crucial para gerir a dívida. Sem BCE e sem Euro, Portugal estaria falido. Em relação ao capital, durante uns anos, os dinheiros chinês e angolano disfarçaram a realidade. Mas, por razões diferentes, já não podemos contar com investimento chinês e angolano. A maior fonte de capital, dos últimos 35 anos, Bruxelas, torna-se ainda mais indispensável. A economia portuguesa não sobrevivia sem a União Europeia. E no partido socialista, todos sabem isso. As irritações de Costa com os holandeses e os desabafos de Pedro Nuno dos Santos contra Merkel são absolutamente irrelevantes.

Muitos em Portugal celebraram o último Conselho Europeu com um “momento histórico” para a Europa. Terá sido. Mas também foi um momento do maior “fracasso histórico” do regime português desde o 25 de Abril: aproveitar a integração europeia para fortalecer a nossa economia e construir uma sociedade próspera. Três décadas e meia depois, e muitos mil milhões de euros oferecidos por Bruxelas, temos uma economia fraca e vivemos numa sociedade remediada. Tal como em 1985, em 2020, continuamos na cauda da Europa e a pedinchar dinheiro. Eis, a maior vergonha da história portuguesa dos últimos 35 anos.

Muitos socialistas também pedem à União Europeia para ser uma verdadeira “união de transferências” (de dinheiro, bem entendido). Ainda mais? Desde 1985, Portugal recebeu de Bruxelas mais de cem mil milhões de Euros a fundo perdido. Quando o país ficou insolvente, em 2011, a União Europeia emprestou mais cerca de 50 mil milhões de Euros (o resto foi o FMI) para a economia nacional sobreviver. Se isto não é uma União de transferências, o que é? Agora os responsáveis socialistas garantem que se vai “usar bem o dinheiro que aí vem.” Pergunto: alguém acredita que um governo socialista sabe gastar bem dinheiro? Ninguém acredita. Não acreditam os holandeses, não acreditam os portugueses e não acreditam os ministros do nosso governo. Como mostra a realidade desde 1995, os governos socialistas sabem desperdiçar recursos, não sabem investir.

Só há uma maneira de os fundos que aí vêm não serem inteiramente desperdiçados, tal como sabem os holandeses e os alemães: uma fiscalização por parte da União Europeia. Ainda não é claro nem certo, mas tudo aponta para que a Comissão Europeia e o Conselho controlem a utilização dos empréstimos e dos fundos oferecidos. Nesse sentido, as decisões do Conselho Europeu indicam o fim da “união de transferências” e o início de uma união económica e financeira. Haverá mais fundos e dívida comum europeia, mas os pais mais dependentes, como o nosso, vão perder soberania e poder. Cada vez haverá mais decisões tomadas em Bruxelas e menos em Lisboa.

Tudo isto é trágico: a dependência total da União Europeia e a absoluta falta de confiança no governo para investir os fundos da melhor maneira. Desde 1985, Portugal teve tudo para ser um país com uma economia forte, uma sociedade próspera e independente politicamente. O objectivo dos fundos europeus é enriquecer para ser mais independente. O nosso regime político, do passado, recebeu independência, e ao futuro deveria deixar prosperidade. Mas falhou. Continuamos pobres, cada vez mais dependentes de Bruxelas, e deixamos um monte de dívidas para o futuro. Nunca tão poucas gerações traíram tanto muitas outras gerações. As que já morreram, e as que estão por nascer. Como foi possível isto acontecer?"

João Marques de Almeida In OBSERVADOR, 26 Jul. 2020


Geração à Rasca (texto anónimo 2011)

«Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras.»


Existe uma geração à rasca? Existe mais do que uma! Certamente! Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes as agruras da vida. Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar com frustrações. A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também estão) à rasca são os que mais tiveram tudo. Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.

Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a minha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos) vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós 1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor. Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos…), mas também lhes deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de diversão, cartas de condução e 1º automóvel, depósitos de combustível cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada. Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado com que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes.

Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego, … A vaquinha emagreceu, feneceu, secou. Foi então que os pais ficaram à rasca. Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde não se entra à borla nem se consome fiado. Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar a pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a pais. São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade, nem dos qualquercoisaphones ou pads, sempre de última geração.

São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter de dizer “não”. É um “não” que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas, porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem, querem o que já ninguém lhes pode dar! A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo menos duas décadas. Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados.

Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na proporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com que o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade operacional. Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em sítio nenhum. Uma geração que tem acesso a informação sem que isso signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere. 

Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que este, num tempo em que nem um nem outro abundam.

Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras. Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável. Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada. Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o desespero alheio.

Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e inteligência nesta geração? Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos! Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e nem são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como todos nós). Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados académicos, porque, que inveja!, que chatice!, são betinhos, cromos que só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e, oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a subir na vida.

E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares a que alguns acham ter direito e que pelos vistos – e a acreditar no que ultimamente ouvimos de algumas almas – ocupamos injusta, imerecida e indevidamente?! Novos e velhos, todos estamos à rasca.

Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens. Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme convicção de que a culpa não é deles. A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nem fazer melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, e a sociedade não consegue, não quer, não pode assumi-la. Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam. Haverá mais triste prova do nosso falhanço?

Pode ser que tudo isto não passe de alarmismo, de um exagero meu, de uma generalização injusta. Pode ser que nada/ninguém seja assim.

(Texto publicado em 2011, de autoria desconhecida, falsamente atribuído a Mia Couto, e facilmente perceptível que o criativo escritor, engajado na corrente da ilusão poética, nunca o escreveria por se tratar de um texto demasiado realista)