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História, Indústria e Mar
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«Extremismo não é apenas ter uma
opinião política muito à direita ou muito à esquerda. Extremismo também é, com
certeza, chegar ao ponto em que deixamos de admitir que alguém razoável possa
olhar para o mesmo problema e chegar a uma conclusão diferente da nossa. É
quando a divergência deixa de ser “acho que estás errado” e passa a ser “não
aceito sequer estar no mesmo espaço que tu”. E há uma diferença enorme entre as
duas coisas.
Se alguém considera que subir ao
mesmo palco de Jerry Seinfeld viola os seus princípios pessoais, tem
evidentemente todo o direito de não subir. Ninguém deve ser obrigado a
trabalhar num espetáculo contra a própria consciência. Mas eu também tenho o
direito de olhar para um movimento coletivo de desistências e perguntar se não
começámos a transformar a discordância política numa espécie de teste de pureza
ideológica.
Porque esta cultura de boicote
permanente, de choque moral e de presunção de que “nós” somos os representantes
oficiais da virtude e quem pensa de maneira diferente passou automaticamente
para o lado do mal… para mim, é profundamente tóxica. Já dura há anos e, em vez
de diminuir a polarização, alimenta-a.
E quando chegamos ao ponto em que a
pessoa deixa de ser simplesmente alguém com uma opinião errada e passa a ser
alguém que deve ser afastado, silenciado ou profissionalmente punido, isso
começa a parecer-me outra coisa.
É totalitarismo ideológico camuflado
de virtude.
(Há uma ironia deliciosa nisto tudo:
quem mais diz querer combater o extremismo é, muitas vezes, quem mais depressa
se comporta como extremista.
Será que nem dão por ela?)»
https://www.facebook.com/photo.php?fbid=122119009551378002&set=a.122094340023378002&type=3&ref=embed_post
Em vésperas de um acto
eleitoral e num mundo cada vez mais medíocre, a crónica de António Lobo Antunes,
escrita em 2020, é um grito de alerta.
«A sociedade necessita
de medíocres que não ponham em questão os princípios fundamentais e eles aí
estão: dirigem os países, as grandes empresas, os ministérios, etc. Eu oiço-os
falar e pasmo não haver praticamente um único líder que não seja pateta, um único
discurso que não seja um rol de lugares comuns. Mas os que giram em torno deles
não são melhores. Desconhecemos até os nossos grandes homens: quem leu Camões
por exemplo? Quase ninguém. Quem sabe alguma coisa sobre Afonso de Albuquerque?
Mas todos os dias há paleios cretinos acerca de futebol em quase todos os
canais. Porque não é perigoso. Porque tranquiliza.
Os programas de
televisão são quase sempre miseráveis mas é vital que sejam miseráveis. E
queremos que as nossas crianças se tornem adultos miseráveis também, o que para
as pessoas em geral significa responsáveis. Reparem, por exemplo, em Churchill.
Quando tudo estava normal, pacífico, calmo, não o queriam como governante. Nas
situações extremas, quando era necessário um homem corajoso, lúcido,
clarividente, imaginativo, iam a correr buscá-lo. Os homens excepcionais servem
apenas para situações excepcionais, pois são os únicos capazes de as
resolverem. Desaparece a situação excepcional e prescindimos deles.
Gostamos dos idiotas
porque não nos colocam em causa. Quanto às pessoas de alto nível a sociedade
descobriu uma forma espantosa de as neutralizar: adoptou-as. Fez de Garrett e
Camilo viscondes, como a Inglaterra adoptou Dickens. E pronto, ei-los na ordem,
com alguns desvios que a gente perdoa porque são assim meio esquisitos, sabes
como ele é, coitado, mas, apesar disso, tem qualidades. Temos medo do novo, do
diferente, do que incomoda o sossego.
A criatividade foi
sempre uma ameaça tremenda: e então entronizamos meios-artistas,
meios-cientistas, meios-escritores. Claro que há aqueles malucos como Picasso
ou Miró e necessitamos de os ter no Zoológico do nosso espírito embora
entreguemos o nosso dinheiro a imbecis oportunistas a que chamamos gestores. E,
claro, os gestores gastam mais do que gerem, com o seu português horrível e a
sua habilidade de vendedores ambulantes: Porquê? Porque nos sossegam. Salazar
sossegava. De Gaulle, goste-se dele ou não, inquietava. Eu faria um único teste
aos políticos, aos administradores, a essa gentinha. Um teste ao seu sentido de
humor. Apontem-me um que o tenha. Um só. Uma criatura sem humor é um ser
horrível. Os judeus dizem: os homens falam, Deus ri. E, lendo o que as pessoas
dizem, ri-se de certeza às gargalhadas. E daí não sei. Voltando à pergunta de
Dumas
– Porque é que há
tantas crianças inteligentes e tantos adultos estúpidos?
não tenho a certeza de
ser um problema de educação que mais não seja porque os educadores, coitados,
não sabem distinguir entre ensino, aprendizagem e educação. A minha resposta a
esta questão é outra. Há muitas crianças inteligentes e muitos adultos estúpidos,
porque perdemos muitas crianças quando elas começaram a crescer. Por inveja,
claro. Mas, sobretudo, por medo.»
ANTÓNIO LOBO ANTUNES
Séries policiais e coisas que tais
Não gosto das séries policiais norte-americanas, de facto nem gosto da esmagadora maioria das produções americanas da 7º arte. Há excepções mas contam-se pelos dedos, das mãos e pés. Gosto das séries policiais britânicas, de facto gosto da maioria das produções britânicas. A comparação entre a tradição das séries policiais britânicas e a das séries policiais norte-americanas revela não apenas diferenças de estilo, mas verdadeiras opções estéticas, narrativas e culturais, enraizadas em modos distintos de conceber o tempo, o espaço e a própria função do drama televisivo.
A televisão policial britânica privilegia, de modo
geral, um tempo dilatado, próximo do ritmo do romance clássico de investigação.
Em Midsomer Murders ou Vera (os meus preferidos), os planos são mais longos, as
sequências respiram, permitindo que o espectador observe gestos, silêncios e
hesitações. O crime não é apenas um problema a resolver; é um acontecimento que
perturba um tecido social, e esse tecido exige tempo para se revelar. Nas
séries americanas Law & Order ou CSI (dois exemplos entre tantos outros), o
tempo é comprimido. O plano é funcional, subordinado à progressão rápida da
intriga. O corte frequente cria um efeito de urgência constante, em consonância
com uma lógica industrial e com a ideia de que o espectador deve ser mantido em
permanente estímulo. O crime surge menos como drama humano e mais como caso,
quase como processo técnico.
A câmara britânica move-se com sobriedade. Quando
se desloca, fá-lo de modo orgânico, quase discreto, como se acompanhasse o
olhar humano. Em Vera, os travellings são raros e justificados; muitas cenas
resolvem-se em planos estáticos que reforçam a sensação de observação paciente.
Pelo contrário, a escola americana aposta num movimento ostensivo: gruas,
steadicam, câmaras circulares, zooms rápidos (no início do novo sécvulo foi
moda filmar com câmara de mão em movimentos rápidos e livres: uma agonia). Em
CSI, a câmara torna-se frequentemente protagonista, penetrando corpos,
objectos, espaços microscópicos. Esta mobilidade constante sublinha a
espectacularização do método científico, mas distancia o espectador da
experiência quotidiana do mundo.
O actor britânico herda uma tradição teatral
sólida, baseada na contenção expressiva e no domínio da palavra. Em Vera,
Brenda Blethyn constrói a personagem quase por subtracção: um olhar cansado, um
silêncio prolongado, um corpo pesado de vida vivida. A credibilidade nasce da
imperfeição. Em muitas séries americanas, a interpretação tende a ser mais
assertiva e exteriorizada. Os actores projectam segurança, eficiência,
prontidão. A emoção é clara, legível, por vezes sublinhada em excesso. Tal
abordagem serve o ritmo rápido e o modelo serial longo, mas pode gerar uma
certa uniformização dos registos.
As séries britânicas aceitam, e por vezes cultivam,
a aspereza do real: rostos marcados, cabelos desalinhados, corpos não
idealizados. A maquilhagem é mínima, quase invisível, reforçando a ilusão
documental. Nas séries americanas, mesmo em contextos supostamente realistas,
observa-se frequentemente um excesso de estilização: maquilhagem cuidada,
iluminação que favorece os rostos, figurinos que distinguem claramente funções
e estatutos. A verosimilhança cede lugar à legibilidade visual e ao star system
televisivo.
As séries policiais britânicas atribuem ao espaço
um papel narrativo essencial. Em Midsomer Murders, a paisagem rural idílica
contrasta ironicamente com a violência dos crimes; o campo torna-se cenário de
hipocrisia social e de memórias enterradas. Em Vera, o nordeste inglês surge
como território melancólico, varrido pelo vento, espelho da interioridade da
protagonista.
As séries americanas, sobretudo urbanas, tratam o
espaço de forma mais funcional e abstracta. A cidade em Law & Order é um
organismo genérico, reconhecível mas pouco contemplado. Em CSI, os espaços são
laboratórios, locais de crime, superfícies a analisar — não paisagens a
habitar.
Mesmo quando contemporâneas, as séries britânicas
demonstram um cuidado particular com o contexto social e histórico: classes,
tradições locais, sotaques, hierarquias subtis. O crime emerge de conflitos
enraizados no passado. As séries americanas tendem a privilegiar o presente
imediato, com referências sociais mais esquemáticas. O foco está na aplicação
da lei ou da ciência, menos na arqueologia moral da comunidade.
A iluminação britânica aproxima-se do naturalismo:
luz difusa, céus nublados, interiores pouco contrastados. Esta escolha reforça
a sensação de quotidiano e de ambiguidade moral. Em CSI, pelo contrário, a luz
é frequentemente expressionista: contrastes fortes, cores artificiais,
ambientes nocturnos estilizados. A iluminação não descreve o mundo tal como é,
mas tal como deve ser visto enquanto espectáculo.
Em síntese, pode dizer-se que a série policial
britânica se aproxima do romance social e psicológico, enquanto a série
policial americana tende para o procedural técnico e espectacular. Uma observa;
a outra demonstra. Cada uma apresenta uma cosmologia narrativa distinta: a
britânica, herdeira do realismo e da ironia moral; a americana, filha da
eficiência, da tecnologia e da dramaturgia da acção. Mas, mais do que visões do
mundo profundamente diversas, a diferença entre ambas é a que medeia entre uma
filmografia como expressão artística, no sentido em que convida a pensar e
produz novidade criativa (britânica); e uma filmografia como expressão
recreativa que assenta sobretudo numa diversão imediata, superficial e
facilmente assimilável, logo mais pueril.
Admito que a minha crítica não descreve uma
essência nacional imutável, mas tendências dominantes inscritas em diferentes
modelos de produção. Ou seja, não é a nacionalidade que produz arte ou
puerilidade, mas o regime do tempo, da atenção e do risco estético que cada
sistema está disposto a aceitar. Ora, eu, espectador, assumo uma tradição
crítica europeia que distingue arte de entretenimento, sobretudo quando este é
resultante de uma lógica exclusivamente industrial (não é por acaso que os
cobiçados Óscares premeiam as melhores prestações da indústria cinematográfica
norte-americana; ainda que com concessões ocasionais ao “cinema de autor”
estrangeiro, frequentemente em regime de exotismo controlado).
Depois temos o fenómeno muito comum de incapacidade
de descolagem simbólica da personagem que afecta tantos actores
norte-americanos, vítimas, assim, do seu próprio sucesso. Falo dos casos de
cristalização da imagem actoral, em que a persona pública do actor ficou
irremediavelmente capturada por uma personagem anterior, inviabilizando a
credibilidade de novas encarnações. Um actor de série longa, repetido durante
anos no mesmo papel, dificilmente consegue impor-se noutro universo simbólico
sem que o espectador veja a presença da personagem anterior.
Depois de ter assistido aos sucessos de Mel Gibson
em Mad Max e Arma Mortal, não o achei convincente no papel de William Walace no
filme Bravehart, talvez pelo que referi atrás ou porque a credibilidade tenha
sido afectada pelo sotaque híbrido e pela gestualidade marcadamente americana,
mostrando mais um herói de action movie do que o chefe de um clâ medieval (?).
Mas este fenómeno não afecta apenas actores americanos; veja-se a falta de
credibilidade de Rowan Atkinson no papel de Maigret, um desafio que não
conseguiu vencer na descolagem simbólica da personagem Mr. Bean. Igual situação
para Sherlock Holmes, em que muitos espectadores preferem Peter Cushing ou
Jeremy Brett em detrimento de quaisquer outros (nestes casos até podemos dizer
que o actor também fez a personagem).
I do not like American police series; in fact, I do not like the overwhelming majority of American productions of the seventh art. There are exceptions, but they can be counted on the fingers of one’s hands and feet. I like British police series; indeed, I like most British productions. A comparison between the tradition of British police series and that of American police series reveals not merely differences of style, but genuine aesthetic, narrative, and cultural choices, rooted in distinct ways of conceiving time, space, and the very function of television drama.
British crime
television generally favours an expanded sense of time, close to the rhythm of
the classic detective novel. In Midsomer Murders or Vera (my
favourites), shots are longer, sequences are allowed to breathe, enabling the
viewer to observe gestures, silences, and hesitations. Crime is not merely a
problem to be solved; it is an event that disturbs a social fabric, and that
fabric requires time to reveal itself. In American series such as Law &
Order or CSI (two examples among many), time is compressed. The shot
is functional, subordinated to the rapid progression of the plot. Frequent
cutting creates a constant sense of urgency, in keeping with an industrial
logic and with the idea that the viewer must be kept under continual
stimulation. Crime appears less as a human drama and more as a case—almost as a
technical process.
The British camera
moves with restraint. When it moves, it does so organically, almost discreetly,
as if following the human gaze. In Vera, tracking shots are rare and
justified; many scenes are resolved in static shots that reinforce a sense of
patient observation. By contrast, the American school favours ostentatious
movement: cranes, steadicam, circling cameras, rapid zooms (at the beginning of
the new century it was fashionable to film with handheld cameras in fast, free
movements—an agony). In CSI, the camera frequently becomes a
protagonist, penetrating bodies, objects, microscopic spaces. This constant
mobility underscores the spectacularisation of the scientific method, but
distances the viewer from the everyday experience of the world.
The British actor
inherits a solid theatrical tradition, based on expressive restraint and
mastery of language. In Vera, Brenda Blethyn constructs the character
almost by subtraction: a tired look, a prolonged silence, a body weighed down
by a life lived. Credibility is born of imperfection. In many American series,
performance tends to be more assertive and externalised. Actors project
confidence, efficiency, readiness. Emotion is clear, legible, sometimes
excessively underlined. Such an approach serves the fast pace and the long
serial model, but can generate a certain uniformity of registers.
British series accept,
and at times cultivate, the roughness of reality: marked faces, untidy hair,
non-idealised bodies. Make-up is minimal, almost invisible, reinforcing the
documentary illusion. In American series, even in supposedly realistic
contexts, one often observes an excess of stylisation: careful make-up,
lighting that flatters faces, costumes that clearly distinguish functions and
status. Verisimilitude gives way to visual legibility and the television star
system.
British police series
assign space an essential narrative role. In Midsomer Murders, the
idyllic rural landscape contrasts ironically with the violence of the crimes;
the countryside becomes a setting of social hypocrisy and buried memories. In Vera,
the north-east of England appears as a melancholy territory, swept by wind,
mirroring the protagonist’s inner life.
American series,
especially urban ones, treat space in a more functional and abstract manner.
The city in Law & Order is a generic organism, recognisable but
little contemplated. In CSI, spaces are laboratories, crime scenes,
surfaces to be analysed—not landscapes to be inhabited.
Even when contemporary,
British series show particular care with social and historical context:
classes, local traditions, accents, subtle hierarchies. Crime emerges from
conflicts rooted in the past. American series tend to privilege the immediate
present, with more schematic social references. The focus lies on the
application of the law or of science, less on the moral archaeology of the
community.
British lighting
approaches naturalism: diffuse light, overcast skies, low-contrast interiors.
This choice reinforces a sense of everyday life and moral ambiguity. In CSI,
by contrast, lighting is frequently expressionistic: strong contrasts,
artificial colours, stylised nocturnal environments. Lighting does not describe
the world as it is, but as it should be seen as spectacle.
In summary, one might
say that British police series approach the social and psychological novel,
while American police series tend towards the technical and spectacular
procedural. One observes; the other demonstrates. Each presents a distinct
narrative cosmology: the British, heir to realism and moral irony; the
American, child of efficiency, technology, and action-driven dramaturgy. But
more than profoundly different worldviews, the difference between them lies in
that which separates a filmography as artistic expression—in the sense that it
invites thought and produces creative novelty (British)—from a filmography as
recreational expression, resting above all on immediate, superficial, and
easily assimilable amusement, hence more puerile.
I admit that my
critique does not describe an immutable national essence, but rather dominant
tendencies inscribed in different models of production. That is, it is not
nationality that produces art or puerility, but the regime of time, attention,
and aesthetic risk that each system is willing to accept. I, as a viewer,
assume a European critical tradition that distinguishes art from entertainment,
especially when the latter results from an exclusively industrial logic (it is
no coincidence that the coveted Oscars reward the best performances of the
North American film industry, albeit with occasional concessions to foreign
“auteur cinema”, often under a regime of controlled exoticism).
Then there is the very
common phenomenon of an inability to achieve symbolic detachment from a
character, which affects so many North American actors, thus becoming victims
of their own success. I refer to cases of crystallisation of the acting image,
in which the actor’s public persona has become irreversibly captured by a
previous character, rendering new incarnations lacking in credibility. An actor
in a long-running series, repeated for years in the same role, can hardly
impose himself in another symbolic universe without the viewer perceiving the
presence of the former character.
After having watched
Mel Gibson’s successes in Mad Max and Lethal Weapon, I did not
find him convincing in the role of William Wallace in Braveheart,
perhaps for the reasons mentioned above, or because credibility was undermined
by the hybrid accent and markedly American gestural language, revealing more an
action-movie hero than the leader of a medieval clan (?). But this phenomenon
does not affect only American actors; one need only consider Rowan Atkinson’s
lack of credibility in the role of Maigret, a challenge he failed to overcome
in terms of symbolic detachment from the character of Mr Bean. A similar
situation applies to Sherlock Holmes, where many viewers prefer Peter Cushing
or Jeremy Brett over any others (in these cases, one might even say that the
actor also created the character).Parte
superior do formulário
No início do
século XX, Olhão encontrava-se num momento de transição acelerada, quase
febril. O século XIX encerrara com a conquista de uma prosperidade nova,
assente em dois pilares: o mar e a indústria conserveira. Estes dois elementos
iam redefinir o tecido social e económico da vila, e é dentro desse ambiente
que Francisco Lourenço Castelo e Maria da Alegria terão construído a sua vida.
O porto de Olhão era, literalmente, o pulmão económico. Nas madrugadas, a barra fervilhava. Das cabanas e ruas estreitas acorriam pescadores com as suas artes, preparando a saída para o mar. Ao longo do dia, as embarcações chegavam carregadas de sardinha, atum, cavala ou polvo, consoante a estação. O cheiro forte da salga e da lota impregnava o ar.
É provável que Francisco Lourenço Castelo, como comerciante e industrial, mantivesse ligações diárias ao porto, vigiando a chegada das pescarias e assegurando que a matéria-prima chegava rapidamente à fábrica. Se não ele próprio, alguém a seu mando o faria.
A economia de Olhão era imprevisível, dependente do temperamento do mar. Um ano de abundância podia significar expansão; um ano fraco podia comprometer investimentos.
A partir de
1900 Olhão cresceu continuamente graças à expansão das conservas de peixe.
As técnicas modernas de esterilização, trazidas do estrangeiro e adaptadas por
industriais algarvios, transformaram a vila num polo produtivo de relevância
nacional.
As fábricas empregavam sobretudo mão-de-obra feminina, célebre pela rapidez e destreza no manuseio do peixe, mas também mal paga e obrigada a horários extensos, ditados pelo ritmo da chegada das embarcações. Estas unidades fabris funcionavam como pequenas comunidades, onde se cruzavam mulheres do povo, mestres conserveiros, soldadores, estivadores, serralheiros, e crianças encarregadas de tarefas menores.
Para Francisco, este mundo era simultaneamente negócio e responsabilidade social: qualquer industrial disciplinado devia manter a fábrica preparada, negociar com exportadores e lidar com a sazonalidade imprevisível.
O comércio da cortiça, essencial para rolhas, boias, acondicionamento e embalagens, complementava a indústria de conservas. Empresários com visão compravam cortiça no interior algarvio ou alentejano, transformavam-na localmente ou revendiam-na aos mercados industriais. O meu avô, como comerciante de cortiça, estaria assim numa dupla frente: ligado ao sector primário e artesanal da cortiça, com contactos que ultrapassavam a vila, e conectado à indústria conserveira, que consumia materiais e serviços diversos. Embora nos períodos de maior actividade industrial tivesse reduzido substancialmente a actividade do comércio da cortiça, este duplo papel garantia-lhe um lugar na pequena burguesia industrial, a qual teria alguma capacidade de influenciar decisões locais.
Olhão era uma comunidade profundamente marcada por tradições marítimas, com procissões ligadas a Nossa Senhora do Rosário e do Carmo; festas de Verão associadas ao mar; rituais da faina e superstições marítimas; e convivência intensa em tabernas, mercados e armazéns.
A
pequena burguesia frequentava também clubes recreativos, sociedades musicais e
cafés onde se discutia política, sobretudo nestes anos de grande instabilidade
nacional, com o fervor republicano a crescer. Em Olhão, que foi vila
progressista e anticlerical em certos sectores, é plausível que o meu avô se
movesse entre círculos que acompanhavam estas mudanças.
A habitação do casal seria uma casa típica olhanense, com paredes caiadas, cobertura em açoteia, platibandas decoradas e divisões simples, mas bem ordenadas. O mobiliário, de madeira escura, era sinal de um certo conforto, e as fotografias formais como a que mostra os meus avós seriam uma demonstração de estatuto e modernidade.
As mulheres desta classe social desempenhavam um papel central na administração doméstica e na educação dos filhos, prestando também um apoio discreto, mas essencial às actividades comerciais dos maridos. Nelas assentava a manutenção de laços familiares e de solidariedade, fundamentais numa vila onde todos se conheciam.
Não sei se as roupas elegantes da fotografia sugerem que Maria da Alegria vinha de família com alguma posição, ou se documentam o seu enlace com o meu avô; sei apenas que era natural de Celorico da Beira, onde nasceu em 1889.
Quando o casal contraiu matrimónio o mundo estava a mudar rapidamente: a República aproximava-se (1910), as fábricas multiplicavam-se e a partir de 1925 formariam o centro conserveiro mais importante do Algarve; os caminhos-de-ferro começavam a ligar o Algarve ao resto do país; a classe média emergia lentamente no litoral algarvio, e a fotografia de estúdio tornava-se símbolo de modernidade.
O casamento não era apenas uma união familiar, era também um acto de afirmação social, uma forma de mostrar respeitabilidade e pertença ao estrato industrial-comercial da vila.
Os meus avós, Francisco
Lourenço Castelo e Maria da Alegria, terão vivido os seus primeiros anos de
casados numa Olhão vibrante, industriosa e transformadora. Ele, dividido entre
o mar, o comércio e a fábrica; ela, pilar doméstico e guardiã da estabilidade
familiar. Juntos integraram a geração que consolidou o desenvolvimento
económico da vila e a preparou para a modernidade do século XX.
Fotografia de
estúdio, provavelmente retratando o casamento dos meus avós, por volta de
1907-1908; animada por Inteligência Artificial.
«O que acontece em torno de André
Ventura não é apenas um fenómeno político; é um espelho psicológico do
país inteiro. Em meio século de “democracia”, ninguém conseguiu o que ele
conseguiu: rasgar o véu de normalidade que encobria a decadência do regime e
obrigar Portugal a olhar-se ao espelho. Ventura partiu o silêncio com uma
pedrada no charco e, num país habituado a cochichar, isso foi um maremoto.
O mais interessante, no entanto, não é o homem em si, mas o que ele
revela sobre nós. A maioria dos que o odeiam não o compreendem, e a maioria dos
que o idolatram também não. Uns projectam nele o medo do autoritarismo, outros
o sonho do salvador. No fundo, ambos se alimentam da mesma carência: a ausência
prolongada de verdade e coragem na política portuguesa. Ventura é o produto
inevitável de um povo exausto de ser enganado com boas maneiras.
Ele não inventou o descontentamento, apenas lhe deu voz. E fê-lo com
uma frontalidade rara, num cenário onde a cobardia se disfarça de moderação.
Falou do que ninguém queria ouvir: insegurança, imigração, parasitismo, corrupção,
o estado que suga e não serve. E por isso tornou-se o catalisador da raiva
legítima dos invisíveis. Há mérito nisso, sim. É preciso coragem para nomear o
óbvio quando todos vivem de fingir que o óbvio não existe.
Mas há também um perigo real. Ventura joga no terreno da emoção pura, e
a emoção é um fogo difícil de controlar. Quando a política se transforma em
espectáculo, a verdade torna-se refém da audiência. Ele compreendeu isso antes
dos outros, transformou o debate num ringue e as ideias em golpes de impacto. É
mediático, provocador e eficaz. O problema é que quanto mais sobe pelo
escândalo, mais dependente fica dele. A sua força é o seu vício.
Ainda assim, seria intelectualmente desonesto reduzir o fenómeno a puro
marketing. Se fosse apenas teatro, já teria acabado como tantos populismos de
ocasião. O que o sustenta é mais fundo, é o ressentimento autêntico de milhões
de portugueses cansados de serem tratados como notas de rodapé no próprio país.
Ventura é o resultado inevitável de décadas de governação tecnocrática, de
elites que falam de “igualdade” enquanto se blindam do povo que fingem
representar.
O seu sucesso é, em última instância, o atestado de falência moral da
classe política portuguesa. Ele fala alto porque os outros há demasiado tempo sussurram.
E o povo, farto de discursos vazios e promessas medidas ao milímetro,
reconheceu nesse grito algo vivo.
A questão não é se Ventura é bom ou mau. É o que ele revela sobre o
nosso estado colectivo: a fome de autenticidade, mesmo quando bruta; o cansaço
com a mentira cortês; a necessidade quase infantil de alguém que, certo ou
errado, pareça acreditar no que diz.
Ventura é fenómeno e sintoma, risco e sinal. Mostra o que Portugal pode
ser quando se cansa de ser submisso, mas também o que pode destruir-se se
confundir raiva com redenção. O futuro dirá se é o início de uma mudança adulta
ou apenas o grito de um povo à beira da ruptura.
Mas uma coisa é certa: negar-lhe a importância seria negar a própria
verdade do país. Porque Ventura não veio de fora, veio de dentro. É Portugal,
finalmente, a reagir.»
A Porta do Postigo, no largo que hoje chamam da Torrinha, era a última a ser encerrada e, ainda assim, a que mais vezes se reabria aos retardatários. Situada no alto da colina, dominava o horizonte e permitia avistar de longe quem quer que se aproximasse, vindo do campo ou do mar, ambos inevitavelmente em plano inferior. Era a mais guardada de todas, contando com um corpo de mais de uma dúzia de homens da milícia, prontos a resistir até à chegada de reforços do quartel situado no extremo oposto da cidade.
Eram quase nove horas da noite quando um cavaleiro, envolto em capa escura, surgiu subindo a íngreme ladeira que conduzia à aldeia. Ao aproximar-se, clamou pedindo entrada. O sentinela, encimado no baluarte, perguntou quem era e ao que vinha. O cavaleiro respondeu com voz grave e pausada, oferecendo as explicações requeridas. Logo outros guardas, postados no plano inferior da fortificação, entreabriram a pesada porta, apenas o suficiente para permitir a passagem do homem e da sua montada.
Uma vez dentro, o forasteiro perguntou se alguém permanecia na igreja cuja torre divisava erguendo-se por cima do casario. Disseram-lhe que talvez o prior ali estivesse. Acomodou o cavalo na estrebaria próxima e, de passo firme, dirigiu-se ao templo, subindo os degraus que o separavam da rua inclinada que descia para a baixa da urbe.
Dentro da igreja rezavam quatro ou cinco almas: um velho que pedia perdão por pecado antigo e algumas mulheres dispersas, que murmuravam preces e orações em surdina. À entrada do homem, uma súbita aragem percorreu a nave, correndo em direcção à sacristia e fazendo sair de lá o padre, alarmado com a porta escancarada que deixara penetrar tal corrente fria.
Ao ver o estranho, erecto e imóvel no meio do templo, rosto semicoberto pelo capuz, figura recortada na ténue luz das velas bruxuleantes, ameaçadas de se extinguir, o clérigo sentiu um frio percorrer-lhe o costado e gelar-lhe o sangue. A inquietação cresceu quando ouviu a voz do visitante, cavernosa e terrível:
- Sim, sou eu o Demónio que tanto temes.
Um grito colectivo ecoou pelo templo. Em menos de três minutos
acorreram soldados da guarda - a igreja distava apenas cinquenta metros da
Porta e do seu aquartelamento.
- É o Diabo! O Demónio! É Belzebu que entrou na Casa de Deus! - clamava o padre, lívido, erguendo um crucifixo de madeira e brandindo-o contra o intruso.
O estranho ria; um riso seco, metálico, que fazia estremecer as velas e
ressoava nas abóbadas. Os guardas, atónitos, investiram com espadas e
alabardas; um deles chegou a disparar a velha pistola de pederneira. Tudo foi
em vão. As lâminas trespassavam apenas o ar, e o chumbo se desfazia ao contacto
do corpo imaterial daquela aparição.
- Detende-vos, tolos! - bradou o Demónio. - Hoje estou aqui para lutar ao lado Dele.
E apontou para o Cristo crucificado que dominava o altar-mor.
- Espero que o Pai envie reforços, pois a batalha será dura, acrescentou,
com um sorriso enigmático.
Logo duas colunas de luz incendiaram o ar diante da cruz, e delas se formaram os arcanjos Gabriel e Rafael. Pouco depois, uma fita vertical e resplandecente oscilou sobre o altar, o próprio Espírito Santo manifestava-se.
- Ora vejam! - troçou o Demónio. - Também cá estás, velho Espírito
Santo?
Antes que o padre concluísse os esconjuros que balbuciava desde a entrada da criatura, uma nova figura emergiu, Lúcifer, o Portador da Luz, que viera também, censurando a presença de Satanás, naquela convergência de entidades. Pois uma força mais terrível que todas se aproximava.
Gabriel, de semblante grave, voltou-se para os humanos:
- Nenhum de vós se moverá durante o combate. Não brandais armas, não
faleis, não temais. Rezai, se o vosso coração o permitir.
Então, lentamente, a cidade foi sendo engolida por um negrume espesso, que obscureceu muralhas e casas, como um manto de pez etéreo descendo sobre o mundo. Até Satanás estremeceu. Era o Nada. O inimigo sem nome, sem forma, sem princípio, aquilo que antecede a própria Criação. E, contra ele, estavam agora lado a lado anjos e demónios, unidos por um pavor comum.
Os homens choravam em silêncio, abraçados, ajoelhados nas trevas. O ar cheirava a enxofre e a desespero. Sobre as ameias, Astaroth comandava legiões infernais, empunhando lanças retorcidas de onde brotavam faíscas de poder inaudito. Travava-se uma batalha entre o que é e o que jamais deveria ter sido; entre o Todo, que compreende o Bem e o Mal, e o absoluto Nada.
Um clarão rasgou o firmamento: Lúcifer lançara um relâmpago de tal força que nenhum trovão terrestre poderia igualar. Mas a luz extinguiu-se a poucas centenas de metros, devorada pelo negrume que tudo engolia.
De súbito, o ruído dos geradores cessou.
- Estamos lixados - murmurou o electricista da produção
cinematográfica. - Acabou-se a gasolina. Vamos ficar às escuras.
A energia escura do Universo vencera a batalha.
Por alguns instantes ninguém falou. O realizador, de olhos fixos no monitor apagado, respirava devagar, como quem regressa de um pesadelo. Um dos actores, ainda coberto de fuligem e maquilhagem, ousou romper o silêncio:
- Mas… e aquele cheiro?
Era um odor acre, metálico, como de ferro queimado, que se espalhava
pelo plateau. E, por uma fracção de segundo, todos jurariam ter visto,
reflectida nas vidraças da igreja verdadeira, lá fora, no largo da Torrinha,
uma sombra enorme, fugidia, mover-se contra a luz das estrelas.
Depois, tudo voltou ao normal.
Ou, talvez, apenas parecesse.
-
Sempre vegetei na mediocridade, esse limbo amável a que os portugueses
chamam mediania, como quem disfarça a morte lenta com um eufemismo
piedoso. E, todavia, foi a mesma consciência que me guiou até essa constatação
que me ofereceu a palavra que me resume: parvalhão.
Há, contudo, uma subtil diferença entre o tolo feliz e o lúcido derrotado. A tragédia não está em ser pouco, mas em saber-se o pouco que se é; ou seja, em ter-se consciência. Vejo tantos imbecis, velhacos e desavergonhados que vivem radiantes na inconsciência do que são; e neles invejo a bênção da cegueira, a paz dos animais simples que jamais suspeitam de si mesmos.
Perguntar-me-ão de onde me vem a coragem para esta nudez. Mas não é coragem, é necessidade. Não me exponho, exorcizo-me. Usar os outros como espelho é o meu modo de expulsar o demónio da auto-piedade. Ao dizer o que sou, separo-me de mim; é como despir uma pele usada e deixá-la pendurada no cabide da memória. E, ao confessar-me, desarmo os que me poderiam julgar; torna-se-lhes inútil apontar o que eu já proclamei.
Assim, uso o olhar alheio como cinzel e o juízo dos outros, justo ou injusto, como instrumento de escultura. Sou uma pedra rústica por lapidar que se trabalha a si mesma no atrito com o mundo. E tudo isso sem necessidade de atender a críticas alheias, já que a minha auto-crítica é mais profunda, assertiva e contundente: Ninguém pode derrubar quem já se encontra por terra.
Prós: a brandura das expectativas baixas; o conforto de quem se sabe inferior e, por isso, se permite ver com clareza.
Contras: a solidão dos que
pensam demais e o desprezo que inspira aquele que tem a ousadia de dizer aos
outros o que são.
Se tentava
relacionar-se com mulheres, duas coisas podiam acontecer: raramente elas
aceitavam o relacionamento, ou logo consideravam assédio aquela tímida
tentativa de aproximação. Farto de más interpretações, passou a ignorá-las, e
às crianças também, com receio de que um simples olhar pudesse ser tido por
crime. Com o tempo, adquiriu o saudável hábito de nada ver, nada ouvir e nada
sentir.
Havia aspectos da vida que, por segurança, remetera para o domínio da fantasia, interditando-lhes o regresso à realidade. Era mais prudente assim. Neste ambiente assexuado e higiénico decorria a sua existência de solteirão de meia-idade, homem ordeiro, pontual, imune às tentações do romantismo. As novelas, com os seus beijos fabricados e as suas lágrimas importadas, pareciam-lhe relíquias de um mundo que ainda acreditava na emoção.
Engenheiro de profissão, programava a vida com o rigor de um manual de instruções. Evitava os imprevistos como quem evita a peste, e tratava os relacionamentos humanos como avarias potenciais. Mantinha distância profiláctica de tudo e de todos e vivia assim, purificado de humanidade.
Mas a culpa, essa fiel companheira, nunca o abandonava. Não era culpa teológica; Deus, se existisse, já teria sido despedido por incompetência, mas culpa doméstica, educacional, cultural. A culpa dos erros cometidos e dos outros apenas imaginados, a culpa dos fracassos e, pior ainda, dos sucessos indevidos. Essa culpa, fermentada ao longo dos anos, transformara-se numa força moral que o impelia à imobilidade. Temia falhar; e, para não falhar, era preferível não agir.
A rotina instalou-se como uma religião sem altar: o dia dividido em horários, as emoções numeradas, os gestos calibrados. Nessa ausência de risco e de novidade cultivava-se a santa mediania, o ideal nacional de virtude. A mediocridade tornara-se o verdadeiro sacramento: quem não ousava, redimia-se.
A culpa é uma patologia da mente, perturba o equilíbrio, rouba a liberdade, apaga a harmonia e a tolerância. Quem vive no erro e encara a humanidade como essencialmente errática não reconhece a qualidade do que é simplesmente suficiente. Só vê os extremos, a mediocridade e a excelência, esquecendo que o mundo é feito das infinitas gradações entre ambos. Assim, torna-se incapaz de admitir que os outros possam ser suficientemente perfeitos para criar o que é bom e belo.
Equivocado, torna-se refém de um pecado que só existe na irracionalidade dos dogmas. O nosso engenheiro era, pois, um homem fechado, como tantos outros, prisioneiros na caverna de Platão, entretidos a discutir a qualidade da escuridão: ”Aqui, está mais escuro”; “Não, não, o negro aqui é que é mais escuro, aí é muito pálido!”
Um dia, três desses prisioneiros evadem-se. O primeiro, fiel à tradição, mantém-se de costas para a luz, ofendido com a claridade. O segundo enlouquece à vista do real, era luminosidade a mais e revelava sujidades e imperfeições. O terceiro, o nosso engenheiro, resolve libertar-se de vez, corta as amarras mentais, renega o passado, rejeita os preconceitos, as tradições e até a língua que lhe ensinaram.
Funda então uma religião nova, mais moderna, mais líquida; e uma nova sociedade, sem classes, sem sexos, sem nomes, sem contradições, um verdadeiro paraíso de indistinções. A sexualidade dissolve-se num mar morno de indivíduos neutros, de identidades solúveis, de paixões pasteurizadas. O objectivo é a fusão com o todo; que cada criatura seja simultaneamente o bicho e a maçã, a árvore e a terra, o adubo e o jardineiro, a água e o sol.
E assim, passo a passo, evolui-se para a forma mais perfeita da existência, o ser unicelular, sem cérebro, sem culpa, sem vontade, sem pecado, sem história e, felizmente, sem opinião. No final, nem consciência lhe resta para descobrir que se tornou Deus.
Foto de Susana Botelho: exibindo a apresentação “O Visual”, na Fototeca Municipal em Outubro de 2025, no término da visita guiada “Explorando Lagos Através dos Sentidos” com Artur de Jesus.
Nem todos podem
afirmar que exercem a profissão que ambicionavam. Eu posso.
Ingressei na
administração local em Abril de 1993, incumbido de desenvolver um projecto
videográfico centrado no registo das actividades e eventos promovidos pelo
município - prolongamento natural do trabalho iniciado na ARTVIDEO, iniciativa
colectiva que reuniu três entusiastas da imagem em movimento.
Pouco tempo
depois, ficou vaga a função de fotógrafo, e sendo essa a minha verdadeira
vocação, cultivada desde 1977, através de experiências amadoras e do contacto
com o "Estúdio CS", galeria e laboratório fotográfico, tendo-se
seguido uma breve passagem pelo Laboratório Industrial de Fotografia
“Montecolor”, que me proporcionou o convívio com uma dezena de fotógrafos
profissionais espalhados pelo Algarve. Das conversas com alguns deles colhi
ensinamentos interessantes, embora o ritmo intenso do trabalho não permitisse
aprendizagens demoradas. E, assim, abracei a oportunidade e assumi a
responsabilidade de proceder ao registo fotográfico dos eventos e actividades
das estruturas municipais.
Achando que
todo o acervo produzido necessitava de uma organização eficiente, propus-me,
desde o início, criar um arquivo funcional de imagens do concelho de Lagos,
propósito a que me dediquei com suficiente perseverança e que se concretizou
ainda na primeira década deste século, na Fototeca Municipal de Lagos.
Hoje, continuo
a assegurar o funcionamento da Fototeca: faço a gestão dos arquivos e
disponibilizo imagens a pedido dos serviços municipais, de investigadores,
estudantes e munícipes; registo e edito fotografias destinadas à preservação
documental; recebo, digitalizo e identifico imagens antigas relacionadas com
Lagos; investigo a História Contemporânea local e recolho dados que permitam
contextualizar e legendar as imagens; e elaboro artigos de índole histórica a
partir de fotografias do passado.
Paralelamente,
desenvolvo e mantenho projectos que visam aproximar os cidadãos do património
visual do concelho, como o sítio web da Fototeca, apresentações multimédia,
publicações temáticas e exposições foto-documentais. Promovo ainda workshops de
Iniciação à Fotografia e selecciono conteúdos para diversas edições e mostras.
Ao longo deste
percurso, procurei ampliar os meus conhecimentos em áreas complementares, como
História e Direito Administrativo, por os considerar essenciais à prática
profissional que abracei e que me proporciona verdadeira satisfação.
Esta é, em
essência, a natureza do meu trabalho quotidiano. Agradeço aos meus
conterrâneos, e em especial a quantos, ao longo dos anos, me confiaram
instrumentos e saberes, a possibilidade de o desempenhar com dedicação e
esmero. Poderia ter feito melhor nestes trinta anos? Certamente. Mas fiz o que
as circunstâncias, e sobretudo as minhas capacidades, permitiram.
Espero
continuar a servir este projecto por mais um triénio, antes de entregar a
outros o encargo de o renovar, melhorar e engrandecer, perpetuando a memória
vivida e resgatando a memória perdida através das imagens.
A névoa subia do rio como
uma emanação dos mortos, envolvendo a cidade de Lagos num torpor húmido e mudo.
As casas, debruçadas sobre a avenida marginal, pareciam túmulos com janelas, e
nelas tremiam luzes baças, como olhos de velas prestes a extinguir-se.
Na extremidade da rua Miguel Bombarda, junto ao quartel, vivia o relojoeiro Hilário Furtado, homem de pulso firme e semblante ausente, que raramente falava e nunca sorria. Ali possuía também a sua oficina, no piso térreo da casa onde, dizia-se, afinava relógios como quem afina almas, e cujo pêndulo predilecto, um velho regulador de prata, batia ao compasso do seu coração.
Na noite de 31 de Outubro, ao regressar da taberna, encontrou diante da oficina um objecto que não lhe pertencia, uma pequena lanterna de vidro negro, envolta num farrapo de desperdício (estopa), com uma argola enferrujada e uma inscrição gravada em letras miúdas: «Para ver o que o tempo esconde.»
O relojoeiro, levado pela curiosidade mórbida dos que vivem demasiado tempo sozinhos, acendeu-a. Mas a chama que nasceu dentro do vidro era escura, um lume que devorava a própria claridade. As sombras da oficina deformaram-se, torcendo-se em formas humanas, e os ponteiros dos relógios começaram a mover-se desordenadamente, noutras direcções que o tempo nunca ousara seguir.
Então ouviu-se um tique-taque que não vinha de relógio algum, e uma voz antiga, rouca e metálica, soou do fundo da lanterna: - Pagas agora o tempo que roubaste.
O ar tornou-se espesso como
chumbo; os ponteiros pararam e o relojoeiro, com o rosto banhado por um clarão
negro, sentiu o coração bater dentro do vidro. Um instante depois, a oficina
ficou vazia.
Na manhã seguinte, os vizinhos que se atreveram a entrar pela porta escancarada encontraram todos os relógios sincronizados, marcando a meia-noite exacta, e, sobre o balcão, a lanterna ainda acesa, projectando na parede a sombra de um homem curvado que se movia lentamente.
Desde então, nas noites de Halloween, quem ousa passar diante da oficina fechada jura ouvir o tique-taque subtil de um coração que nunca deixou de contar os segundos da sua própria eternidade.