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A noite em que Portugal escolheu a Democracia


Há datas que se erguem na memória colectiva como marcos silenciosos, mas firmes, de uma nação que decidiu o seu próprio destino. O 25 de Novembro de 1975 é uma dessas linhas de força da História portuguesa; dia em que o País, ainda estremecido pelas convulsões do PREC (Processo Revolucionário em Curso), afirmou com clareza que desejava ser livre, mas livre em democracia plural, com direitos garantidos, com o respeito pela vontade soberana do povo.
 
Recordar o 25 de Novembro não é reacender feridas, mas iluminar escolhas. Naquele Outono tenso, Portugal encontrava-se suspenso entre projectos divergentes de futuro. O entusiasmo libertador do 25 de Abril abrira portas, mas também criara incertezas e tentações autoritárias. A encruzilhada era evidente, ou avançava para um regime democrático estável, plural e parlamentar, ou deslizaria para formas de poder onde a liberdade se tornaria débil promessa.
 
Foi nesse cenário que, com coragem e sentido de Estado, militares e civis se levantaram em defesa da legalidade democrática. Afirmaram que a liberdade não se constrói pela imposição de uma só verdade política, mas pela convivência de várias; que a democracia não é fragilidade, mas a mais exigente das forças; que o povo português merecia não apenas sonhar um futuro melhor, mas tê-lo garantido pelas instituições que livremente escolhera.
 
Sem o 25 de Novembro, Portugal não seria, hoje, um país verdadeiramente democrático. Não teríamos conhecido a normalização constitucional, a consolidação dos partidos, a alternância pacífica no poder, o desenvolvimento económico assente em estabilidade política, nem a integração europeia como nação adulta e segura de si. A democracia que celebramos - com todas as suas imperfeições, mas também com as suas virtudes - foi preservada naquela madrugada decisiva.
 
Evocar o 25 de Novembro é, pois, reconhecer o valor daqueles que, num momento crítico, protegeram o futuro de todos nós. É lembrar que a democracia não é um dado adquirido, mas uma construção diária, que exige vigilância, equilíbrio e coragem cívica. É, enfim, reafirmar a certeza de que Portugal escolheu ser livre e de que essa escolha permanece o maior legado desse dia.
 
Lamentam o 25 de Novembro de 1975 aqueles que defendem correntes políticas de cariz totalitário e que viam no processo revolucionário de 1974-75 uma oportunidade para a transformação do país numa sociedade em que a liberdade individual e os meios de produção ficariam submetidos aos ditames dos governantes.  

Nesses, destacam-se o Sector revolucionário de esquerda (no sentido histórico do termo), que Inclui pessoas e movimentos que, à época, defendiam uma democracia popular, com forte participação dos trabalhadores, tal como preconizam os modelos políticos de inspiração socialista; e os Nostálgicos da experiência revolucionária, que, mesmo não sendo militantes de extrema-esquerda, guardam uma memória afectiva e idealizada de um período de intensa mobilização social e que perfilham uma fé quase religiosa num internacionalismo político que elimine diferenças, tradições e culturas.

Em resumo, aqueles que lamentam o 25 de Novembro podem ser qualificados como pessoas ou correntes que valorizavam o processo revolucionário em curso e desejavam a sua continuação, que acreditavam que a transformação política e social deveria ter ido mais longe, e que sentem que o 25 de Novembro representou uma inflexão que travou essas possibilidades.

Estão errados, como o estão também os extremistas de direita que hoje reclamam honestidade e lisura política e pública, como se fossem eles próprios exemplos acabados da ética que exigem aos outros. Não são. 

A Democracia é e será sempre imperfeita, mas é e será sempre a melhor via para a humanização da sociedade e para a construção de civilização.
Será miragem e erro fatal qualquer alternativa à Democracia assente no Estado de Direito, que tenha o indivíduo e os seus direitos, liberdades e garantias como fundamento primordial da sua própria natureza.

VIVA ABRIL EM NOVEMBRO!


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Cronologia dos acontecimentos:

00h00 – 02h00: Intensificam-se sinais de tensão entre unidades militares afectas a diferentes facções do MFA. O COPCON, dirigido por Otelo Saraiva de Carvalho, mantém elevado estado de alerta. A força aérea e unidades pára-quedistas contestatárias preparam acções de bloqueio.
 
02h00 – 04h00: Pára-quedistas de Tancos iniciam movimentos para ocupar bases aéreas, visando neutralizar a Força Aérea, vista como alinhada com o Grupo dos Nove (moderado). Cortes de comunicações começam a ser registados em alguns pontos estratégicos.
 
04h00 – 06h00: Queda de transmissões em diversas bases aeronáuticas. Grupos pára-quedistas ocupam a Base Aérea de Monte Real e tentam controlar outras bases. A situação gera um estado de alarme entre estruturas políticas e militares.
 
06h00 – 08h00: A Força Aérea reorganiza-se rapidamente e prepara a resposta.
O Governo e o Presidente da República, Costa Gomes, acompanham a evolução dos acontecimentos. Reúne-se o núcleo de oficiais que coordenará a reacção militar, com Ramalho Eanes como figura central.
 
08h00 – 10h00: A Força Aérea lança uma contra-ofensiva, recuperando parte das bases ocupadas. São emitidas as primeiras ordens para imobilizar os pára-quedistas insurgentes. O ambiente político é de extrema tensão: receia-se que a crise evolua para confronto generalizado.
 
10h00 – 12h00: O cerco operacional aperta-se sobre as unidades revoltadas. As comunicações são gradualmente restabelecidas. O Governo afirma que a legalidade democrática será defendida, rejeitando qualquer tentativa de golpe.
 
12h00 – 14h00: A situação começa a virar a favor das forças leais ao Grupo dos Nove. A Força Aérea recupera completamente o controlo operacional, impedindo novas operações dos pára-quedistas. Tropas leais cercam posições estratégicas ao norte de Lisboa.
 
14h00 – 16h00: Prosseguem as negociações e cercos. Já não há capacidade efectiva de avanço pelos insurgentes. O COPCON vê-se neutralizado e sem possibilidade de acção coordenada. Rumores de novas movimentações falham por ausência de comunicações.
 
16h00 – 18h00: Ramalho Eanes dá ordens decisivas para terminar as últimas resistências.: Rendição e desmobilização gradual de unidades pára-quedistas. O clima político estabiliza, e as forças moderadas controlam a situação.
 
18h00 – 20h00: Fim efectivo das operações militares. As autoridades reiteram que a democracia constitucional será seguida como caminho único. A crise é considerada controlada, embora o país permaneça apreensivo.
 
20h00 – 24h00: Comunicações oficiais procuram acalmar a população. Partidos políticos reagem: uns condenam a acção dos pára-quedistas, outros denunciam repressão. Torna-se claro que a via revolucionária radical fica definitivamente derrotada, abrindo caminho à estabilização democrática.

Os meus avós em Olhão nos alvores do século XX

 



No início do século XX, Olhão encontrava-se num momento de transição acelerada, quase febril. O século XIX encerrara com a conquista de uma prosperidade nova, assente em dois pilares: o mar e a indústria conserveira. Estes dois elementos iam redefinir o tecido social e económico da vila, e é dentro desse ambiente que Francisco Lourenço Castelo e Maria da Alegria terão construído a sua vida.

O porto de Olhão era, literalmente, o pulmão económico. Nas madrugadas, a barra fervilhava. Das cabanas e ruas estreitas acorriam pescadores com as suas artes, preparando a saída para o mar. Ao longo do dia, as embarcações chegavam carregadas de sardinha, atum, cavala ou polvo, consoante a estação. O cheiro forte da salga e da lota impregnava o ar.

É provável que Francisco Lourenço Castelo, como comerciante e industrial, mantivesse ligações diárias ao porto, vigiando a chegada das pescarias e assegurando que a matéria-prima chegava rapidamente à fábrica. Se não ele próprio, alguém a seu mando o faria.

A economia de Olhão era imprevisível, dependente do temperamento do mar. Um ano de abundância podia significar expansão; um ano fraco podia comprometer investimentos.

A partir de 1900 Olhão cresceu continuamente graças à expansão das conservas de peixe.
As técnicas modernas de esterilização, trazidas do estrangeiro e adaptadas por industriais algarvios, transformaram a vila num polo produtivo de relevância nacional.

As fábricas empregavam sobretudo mão-de-obra feminina, célebre pela rapidez e destreza no manuseio do peixe, mas também mal paga e obrigada a horários extensos, ditados pelo ritmo da chegada das embarcações. Estas unidades fabris funcionavam como pequenas comunidades, onde se cruzavam mulheres do povo, mestres conserveiros, soldadores, estivadores, serralheiros, e crianças encarregadas de tarefas menores.

Para Francisco, este mundo era simultaneamente negócio e responsabilidade social: qualquer industrial disciplinado devia manter a fábrica preparada, negociar com exportadores e lidar com a sazonalidade imprevisível.

O comércio da cortiça, essencial para rolhas, boias, acondicionamento e embalagens, complementava a indústria de conservas. Empresários com visão compravam cortiça no interior algarvio ou alentejano, transformavam-na localmente ou revendiam-na aos mercados industriais. O meu avô, como comerciante de cortiça, estaria assim numa dupla frente: ligado ao sector primário e artesanal da cortiça, com contactos que ultrapassavam a vila, e conectado à indústria conserveira, que consumia materiais e serviços diversos. Embora nos períodos de maior actividade industrial tivesse reduzido substancialmente a actividade do comércio da cortiça, este duplo papel garantia-lhe um lugar na pequena burguesia industrial, a qual teria alguma capacidade de influenciar decisões locais.

Olhão era uma comunidade profundamente marcada por tradições marítimas, com procissões ligadas a Nossa Senhora do Rosário e do Carmo; festas de Verão associadas ao mar; rituais da faina e superstições marítimas; e convivência intensa em tabernas, mercados e armazéns.

A pequena burguesia frequentava também clubes recreativos, sociedades musicais e cafés onde se discutia política, sobretudo nestes anos de grande instabilidade nacional, com o fervor republicano a crescer. Em Olhão, que foi vila progressista e anticlerical em certos sectores, é plausível que o meu avô se movesse entre círculos que acompanhavam estas mudanças.

A habitação do casal seria uma casa típica olhanense, com paredes caiadas, cobertura em açoteia, platibandas decoradas e divisões simples, mas bem ordenadas. O mobiliário, de madeira escura, era sinal de um certo conforto, e as fotografias formais como a que mostra os meus avós seriam uma demonstração de estatuto e modernidade.

As mulheres desta classe social desempenhavam um papel central na administração doméstica e na educação dos filhos, prestando também um apoio discreto, mas essencial às actividades comerciais dos maridos. Nelas assentava a manutenção de laços familiares e de solidariedade, fundamentais numa vila onde todos se conheciam.

Não sei se as roupas elegantes da fotografia sugerem que Maria da Alegria vinha de família com alguma posição, ou se documentam o seu enlace com o meu avô; sei apenas que era natural de Celorico da Beira, onde nasceu em 1889.

Quando o casal contraiu matrimónio o mundo estava a mudar rapidamente: a República aproximava-se (1910), as fábricas multiplicavam-se e a partir de 1925 formariam o centro conserveiro mais importante do Algarve; os caminhos-de-ferro começavam a ligar o Algarve ao resto do país; a classe média emergia lentamente no litoral algarvio, e a fotografia de estúdio tornava-se símbolo de modernidade.

O casamento não era apenas uma união familiar, era também um acto de afirmação social, uma forma de mostrar respeitabilidade e pertença ao estrato industrial-comercial da vila.

Os meus avós, Francisco Lourenço Castelo e Maria da Alegria, terão vivido os seus primeiros anos de casados numa Olhão vibrante, industriosa e transformadora. Ele, dividido entre o mar, o comércio e a fábrica; ela, pilar doméstico e guardiã da estabilidade familiar. Juntos integraram a geração que consolidou o desenvolvimento económico da vila e a preparou para a modernidade do século XX.

 

Fotografia de estúdio, provavelmente retratando o casamento dos meus avós, por volta de 1907-1908; animada por Inteligência Artificial.




 


O Negrume

 


A Porta do Postigo, no largo que hoje chamam da Torrinha, era a última a ser encerrada e, ainda assim, a que mais vezes se reabria aos retardatários. Situada no alto da colina, dominava o horizonte e permitia avistar de longe quem quer que se aproximasse, vindo do campo ou do mar, ambos inevitavelmente em plano inferior. Era a mais guardada de todas, contando com um corpo de mais de uma dúzia de homens da milícia, prontos a resistir até à chegada de reforços do quartel situado no extremo oposto da cidade.

Eram quase nove horas da noite quando um cavaleiro, envolto em capa escura, surgiu subindo a íngreme ladeira que conduzia à aldeia. Ao aproximar-se, clamou pedindo entrada. O sentinela, encimado no baluarte, perguntou quem era e ao que vinha. O cavaleiro respondeu com voz grave e pausada, oferecendo as explicações requeridas. Logo outros guardas, postados no plano inferior da fortificação, entreabriram a pesada porta, apenas o suficiente para permitir a passagem do homem e da sua montada.

Uma vez dentro, o forasteiro perguntou se alguém permanecia na igreja cuja torre divisava erguendo-se por cima do casario. Disseram-lhe que talvez o prior ali estivesse. Acomodou o cavalo na estrebaria próxima e, de passo firme, dirigiu-se ao templo, subindo os degraus que o separavam da rua inclinada que descia para a baixa da urbe.

Dentro da igreja rezavam quatro ou cinco almas: um velho que pedia perdão por pecado antigo e algumas mulheres dispersas, que murmuravam preces e orações em surdina. À entrada do homem, uma súbita aragem percorreu a nave, correndo em direcção à sacristia e fazendo sair de lá o padre, alarmado com a porta escancarada que deixara penetrar tal corrente fria.

Ao ver o estranho, erecto e imóvel no meio do templo, rosto semicoberto pelo capuz, figura recortada na ténue luz das velas bruxuleantes, ameaçadas de se extinguir, o clérigo sentiu um frio percorrer-lhe o costado e gelar-lhe o sangue. A inquietação cresceu quando ouviu a voz do visitante, cavernosa e terrível:

- Sim, sou eu o Demónio que tanto temes.

Um grito colectivo ecoou pelo templo. Em menos de três minutos acorreram soldados da guarda - a igreja distava apenas cinquenta metros da Porta e do seu aquartelamento.

- É o Diabo! O Demónio! É Belzebu que entrou na Casa de Deus! - clamava o padre, lívido, erguendo um crucifixo de madeira e brandindo-o contra o intruso.

O estranho ria; um riso seco, metálico, que fazia estremecer as velas e ressoava nas abóbadas. Os guardas, atónitos, investiram com espadas e alabardas; um deles chegou a disparar a velha pistola de pederneira. Tudo foi em vão. As lâminas trespassavam apenas o ar, e o chumbo se desfazia ao contacto do corpo imaterial daquela aparição.

- Detende-vos, tolos! - bradou o Demónio. - Hoje estou aqui para lutar ao lado Dele.

E apontou para o Cristo crucificado que dominava o altar-mor.

- Espero que o Pai envie reforços, pois a batalha será dura, acrescentou, com um sorriso enigmático.

Logo duas colunas de luz incendiaram o ar diante da cruz, e delas se formaram os arcanjos Gabriel e Rafael. Pouco depois, uma fita vertical e resplandecente oscilou sobre o altar, o próprio Espírito Santo manifestava-se.

- Ora vejam! - troçou o Demónio. - Também cá estás, velho Espírito Santo?

Antes que o padre concluísse os esconjuros que balbuciava desde a entrada da criatura, uma nova figura emergiu, Lúcifer, o Portador da Luz, que viera também, censurando a presença de Satanás, naquela convergência de entidades. Pois uma força mais terrível que todas se aproximava.

Gabriel, de semblante grave, voltou-se para os humanos:

- Nenhum de vós se moverá durante o combate. Não brandais armas, não faleis, não temais. Rezai, se o vosso coração o permitir.

Então, lentamente, a cidade foi sendo engolida por um negrume espesso, que obscureceu muralhas e casas, como um manto de pez etéreo descendo sobre o mundo. Até Satanás estremeceu. Era o Nada. O inimigo sem nome, sem forma, sem princípio, aquilo que antecede a própria Criação. E, contra ele, estavam agora lado a lado anjos e demónios, unidos por um pavor comum.

Os homens choravam em silêncio, abraçados, ajoelhados nas trevas. O ar cheirava a enxofre e a desespero. Sobre as ameias, Astaroth comandava legiões infernais, empunhando lanças retorcidas de onde brotavam faíscas de poder inaudito. Travava-se uma batalha entre o que é e o que jamais deveria ter sido; entre o Todo, que compreende o Bem e o Mal, e o absoluto Nada.

Um clarão rasgou o firmamento: Lúcifer lançara um relâmpago de tal força que nenhum trovão terrestre poderia igualar. Mas a luz extinguiu-se a poucas centenas de metros, devorada pelo negrume que tudo engolia.

De súbito, o ruído dos geradores cessou.

- Estamos lixados - murmurou o electricista da produção cinematográfica. - Acabou-se a gasolina. Vamos ficar às escuras.

A energia escura do Universo vencera a batalha.

Por alguns instantes ninguém falou. O realizador, de olhos fixos no monitor apagado, respirava devagar, como quem regressa de um pesadelo. Um dos actores, ainda coberto de fuligem e maquilhagem, ousou romper o silêncio:

- Mas… e aquele cheiro?

Era um odor acre, metálico, como de ferro queimado, que se espalhava pelo plateau. E, por uma fracção de segundo, todos jurariam ter visto, reflectida nas vidraças da igreja verdadeira, lá fora, no largo da Torrinha, uma sombra enorme, fugidia, mover-se contra a luz das estrelas.

Depois, tudo voltou ao normal.
Ou, talvez, apenas parecesse.

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Reflexão [que foi] Íntima

 


Sempre vegetei na mediocridade, esse limbo amável a que os portugueses chamam mediania, como quem disfarça a morte lenta com um eufemismo piedoso. E, todavia, foi a mesma consciência que me guiou até essa constatação que me ofereceu a palavra que me resume: parvalhão.

Há, contudo, uma subtil diferença entre o tolo feliz e o lúcido derrotado. A tragédia não está em ser pouco, mas em saber-se o pouco que se é; ou seja, em ter-se consciência. Vejo tantos imbecis, velhacos e desavergonhados que vivem radiantes na inconsciência do que são; e neles invejo a bênção da cegueira, a paz dos animais simples que jamais suspeitam de si mesmos.

Perguntar-me-ão de onde me vem a coragem para esta nudez. Mas não é coragem, é necessidade. Não me exponho, exorcizo-me. Usar os outros como espelho é o meu modo de expulsar o demónio da auto-piedade. Ao dizer o que sou, separo-me de mim; é como despir uma pele usada e deixá-la pendurada no cabide da memória. E, ao confessar-me, desarmo os que me poderiam julgar; torna-se-lhes inútil apontar o que eu já proclamei.

Assim, uso o olhar alheio como cinzel e o juízo dos outros, justo ou injusto, como instrumento de escultura. Sou uma pedra rústica por lapidar que se trabalha a si mesma no atrito com o mundo. E tudo isso sem necessidade de atender a críticas alheias, já que a minha auto-crítica é mais profunda, assertiva e contundente: Ninguém pode derrubar quem já se encontra por terra.

Prós: a brandura das expectativas baixas; o conforto de quem se sabe inferior e, por isso, se permite ver com clareza.

Contras: a solidão dos que pensam demais e o desprezo que inspira aquele que tem a ousadia de dizer aos outros o que são.

 


Deus em versão Beta

 



Se tentava relacionar-se com mulheres, duas coisas podiam acontecer: raramente elas aceitavam o relacionamento, ou logo consideravam assédio aquela tímida tentativa de aproximação. Farto de más interpretações, passou a ignorá-las, e às crianças também, com receio de que um simples olhar pudesse ser tido por crime. Com o tempo, adquiriu o saudável hábito de nada ver, nada ouvir e nada sentir.

Havia aspectos da vida que, por segurança, remetera para o domínio da fantasia, interditando-lhes o regresso à realidade. Era mais prudente assim. Neste ambiente assexuado e higiénico decorria a sua existência de solteirão de meia-idade, homem ordeiro, pontual, imune às tentações do romantismo. As novelas, com os seus beijos fabricados e as suas lágrimas importadas, pareciam-lhe relíquias de um mundo que ainda acreditava na emoção.

Engenheiro de profissão, programava a vida com o rigor de um manual de instruções. Evitava os imprevistos como quem evita a peste, e tratava os relacionamentos humanos como avarias potenciais. Mantinha distância profiláctica de tudo e de todos e vivia assim, purificado de humanidade.

Mas a culpa, essa fiel companheira, nunca o abandonava. Não era culpa teológica; Deus, se existisse, já teria sido despedido por incompetência, mas culpa doméstica, educacional, cultural. A culpa dos erros cometidos e dos outros apenas imaginados, a culpa dos fracassos e, pior ainda, dos sucessos indevidos. Essa culpa, fermentada ao longo dos anos, transformara-se numa força moral que o impelia à imobilidade. Temia falhar; e, para não falhar, era preferível não agir.

A rotina instalou-se como uma religião sem altar: o dia dividido em horários, as emoções numeradas, os gestos calibrados. Nessa ausência de risco e de novidade cultivava-se a santa mediania, o ideal nacional de virtude. A mediocridade tornara-se o verdadeiro sacramento: quem não ousava, redimia-se.

A culpa é uma patologia da mente, perturba o equilíbrio, rouba a liberdade, apaga a harmonia e a tolerância. Quem vive no erro e encara a humanidade como essencialmente errática não reconhece a qualidade do que é simplesmente suficiente. Só vê os extremos, a mediocridade e a excelência, esquecendo que o mundo é feito das infinitas gradações entre ambos. Assim, torna-se incapaz de admitir que os outros possam ser suficientemente perfeitos para criar o que é bom e belo.

Equivocado, torna-se refém de um pecado que só existe na irracionalidade dos dogmas. O nosso engenheiro era, pois, um homem fechado, como tantos outros, prisioneiros na caverna de Platão, entretidos a discutir a qualidade da escuridão: ”Aqui, está mais escuro”; “Não, não, o negro aqui é que é mais escuro, aí é muito pálido!”

Um dia, três desses prisioneiros evadem-se. O primeiro, fiel à tradição, mantém-se de costas para a luz, ofendido com a claridade. O segundo enlouquece à vista do real, era luminosidade a mais e revelava sujidades e imperfeições. O terceiro, o nosso engenheiro, resolve libertar-se de vez, corta as amarras mentais, renega o passado, rejeita os preconceitos, as tradições e até a língua que lhe ensinaram.

Funda então uma religião nova, mais moderna, mais líquida; e uma nova sociedade, sem classes, sem sexos, sem nomes, sem contradições, um verdadeiro paraíso de indistinções. A sexualidade dissolve-se num mar morno de indivíduos neutros, de identidades solúveis, de paixões pasteurizadas. O objectivo é a fusão com o todo; que cada criatura seja simultaneamente o bicho e a maçã, a árvore e a terra, o adubo e o jardineiro, a água e o sol.

E assim, passo a passo, evolui-se para a forma mais perfeita da existência, o ser unicelular, sem cérebro, sem culpa, sem vontade, sem pecado, sem história e, felizmente, sem opinião. No final, nem consciência lhe resta para descobrir que se tornou Deus.

 


Entre a Luz e o Tempo - Crónica de um Arquivo Fotográfico

 

Foto de Susana Botelho: exibindo a apresentação “O Visual”, na Fototeca Municipal em Outubro de 2025, no término da visita guiada “Explorando Lagos Através dos Sentidos” com Artur de Jesus.


Nem todos podem afirmar que exercem a profissão que ambicionavam. Eu posso.

Ingressei na administração local em Abril de 1993, incumbido de desenvolver um projecto videográfico centrado no registo das actividades e eventos promovidos pelo município - prolongamento natural do trabalho iniciado na ARTVIDEO, iniciativa colectiva que reuniu três entusiastas da imagem em movimento.

Pouco tempo depois, ficou vaga a função de fotógrafo, e sendo essa a minha verdadeira vocação, cultivada desde 1977, através de experiências amadoras e do contacto com o "Estúdio CS", galeria e laboratório fotográfico, tendo-se seguido uma breve passagem pelo Laboratório Industrial de Fotografia “Montecolor”, que me proporcionou o convívio com uma dezena de fotógrafos profissionais espalhados pelo Algarve. Das conversas com alguns deles colhi ensinamentos interessantes, embora o ritmo intenso do trabalho não permitisse aprendizagens demoradas. E, assim, abracei a oportunidade e assumi a responsabilidade de proceder ao registo fotográfico dos eventos e actividades das estruturas municipais.

Achando que todo o acervo produzido necessitava de uma organização eficiente, propus-me, desde o início, criar um arquivo funcional de imagens do concelho de Lagos, propósito a que me dediquei com suficiente perseverança e que se concretizou ainda na primeira década deste século, na Fototeca Municipal de Lagos.

Hoje, continuo a assegurar o funcionamento da Fototeca: faço a gestão dos arquivos e disponibilizo imagens a pedido dos serviços municipais, de investigadores, estudantes e munícipes; registo e edito fotografias destinadas à preservação documental; recebo, digitalizo e identifico imagens antigas relacionadas com Lagos; investigo a História Contemporânea local e recolho dados que permitam contextualizar e legendar as imagens; e elaboro artigos de índole histórica a partir de fotografias do passado.

Paralelamente, desenvolvo e mantenho projectos que visam aproximar os cidadãos do património visual do concelho, como o sítio web da Fototeca, apresentações multimédia, publicações temáticas e exposições foto-documentais. Promovo ainda workshops de Iniciação à Fotografia e selecciono conteúdos para diversas edições e mostras.

Ao longo deste percurso, procurei ampliar os meus conhecimentos em áreas complementares, como História e Direito Administrativo, por os considerar essenciais à prática profissional que abracei e que me proporciona verdadeira satisfação.

Esta é, em essência, a natureza do meu trabalho quotidiano. Agradeço aos meus conterrâneos, e em especial a quantos, ao longo dos anos, me confiaram instrumentos e saberes, a possibilidade de o desempenhar com dedicação e esmero. Poderia ter feito melhor nestes trinta anos? Certamente. Mas fiz o que as circunstâncias, e sobretudo as minhas capacidades, permitiram.

Espero continuar a servir este projecto por mais um triénio, antes de entregar a outros o encargo de o renovar, melhorar e engrandecer, perpetuando a memória vivida e resgatando a memória perdida através das imagens.


Um Conto de Halloween


 

A névoa subia do rio como uma emanação dos mortos, envolvendo a cidade de Lagos num torpor húmido e mudo. As casas, debruçadas sobre a avenida marginal, pareciam túmulos com janelas, e nelas tremiam luzes baças, como olhos de velas prestes a extinguir-se.

Na extremidade da rua Miguel Bombarda, junto ao quartel, vivia o relojoeiro Hilário Furtado, homem de pulso firme e semblante ausente, que raramente falava e nunca sorria. Ali possuía também a sua oficina, no piso térreo da casa onde, dizia-se, afinava relógios como quem afina almas, e cujo pêndulo predilecto, um velho regulador de prata, batia ao compasso do seu coração.

Na noite de 31 de Outubro, ao regressar da taberna, encontrou diante da oficina um objecto que não lhe pertencia, uma pequena lanterna de vidro negro, envolta num farrapo de desperdício (estopa), com uma argola enferrujada e uma inscrição gravada em letras miúdas: «Para ver o que o tempo esconde.»

O relojoeiro, levado pela curiosidade mórbida dos que vivem demasiado tempo sozinhos, acendeu-a. Mas a chama que nasceu dentro do vidro era escura, um lume que devorava a própria claridade. As sombras da oficina deformaram-se, torcendo-se em formas humanas, e os ponteiros dos relógios começaram a mover-se desordenadamente, noutras direcções que o tempo nunca ousara seguir.

Então ouviu-se um tique-taque que não vinha de relógio algum, e uma voz antiga, rouca e metálica, soou do fundo da lanterna: - Pagas agora o tempo que roubaste.

O ar tornou-se espesso como chumbo; os ponteiros pararam e o relojoeiro, com o rosto banhado por um clarão negro, sentiu o coração bater dentro do vidro. Um instante depois, a oficina ficou vazia.

Na manhã seguinte, os vizinhos que se atreveram a entrar pela porta escancarada encontraram todos os relógios sincronizados, marcando a meia-noite exacta, e, sobre o balcão, a lanterna ainda acesa, projectando na parede a sombra de um homem curvado que se movia lentamente.

Desde então, nas noites de Halloween, quem ousa passar diante da oficina fechada jura ouvir o tique-taque subtil de um coração que nunca deixou de contar os segundos da sua própria eternidade.

  


S. Gonçalo segundo Gil Vicente



Aproxima-se o Dia do Município, amiúde confundido com o da cidade (que, esse sim, é a 27 de Janeiro), e eu dei em lavrar esta crónica, inspirada nesse feriado que Lagos celebra a 27 de Outubro.

Senhores e senhoras de fino ouvido e paciência infinita, escutai-me um instante, que não vos tomarei mais tempo do que o diabo leva a rir-se de um frade. Já o mestre Gil Vicente ia velho e trôpego, com a memória a falhar-lhe, mas ainda assim, por artes do destino ou teimosia minha, logrei entrevistá-lo; sim, o próprio pai dos dramaturgos lusos, esse que pôs reis e vilões a falar no mesmo palco sem pedir licença a ninguém.

Não foi empresa fácil pois o homem já confundia o Auto da Barca com o das Almas, e chamava-me ora anjo, ora mafarrico. Ainda assim, entre um bocejo e uma praga, lá me contou quanto pôde sobre São Gonçalo de Lagos e o resto inventei eu, que também é ofício de autor.

Desses ditos, memórias e esquecimentos nasceu esta micrónica que ora vos apresento, mistura de fé e troça, com algum enxofre e muita devoção. Se o mestre Gil lá do Céu me ouvir, há-de rir-se, ou chamar-me a prestar contas. Seja o que Ele quiser, e o público também.

Diz-se, e com razão, que cada cidade tem o seu santo que lhe serve de espelho. Lisboa tem o António, que fala com os peixes; no Porto, o João, que acende fogueiras; em Braga, o Jesus bonzinho, que vigia olhando longe, como uma gigantesca suricata, e em Lagos, temos S. Gonçalo, frade dominicano de boa alma, que de tanto amar o mar, acabou por ser o seu capelão.

Não se julgue que o dito santo lacobrigense se limitou a benzer redes e acalmar borrascas. Não! S. Gonçalo foi, é e será o mais prático dos taumaturgos; santo de atuns, remendos e milagreiro de ocasião, sempre pronto a acudir ao conterrâneo aflito, desde que este lhe prometa uma vela, uma sardinha e um pouco de fé, ainda que racionada.

Nasceu o moço Gonçalo nesta mui piscosa Lagos, quando os homens ainda lavavam as barbas ao jeito mourisco e os barcos eram de remos, pequenas velas e muita esperança. Cresceu entre redes, sermões e espinhas, e dizem que, ainda menino pregava às gaivotas sobre a vaidade do mundo, o que causava grande alvoroço entre as aves e riso entre os homens. Entrou, consequentemente, para frade, não por falta de engenho para o comércio, mas porque os peixes lhe pediram intercessão; e quem é o homem que nega súplica a um pargo?

Por via disso, fez S. Gonçalo milagres de toda a ordem e feitio, e alguns de desordem também. Conta-se que, em certa noite de temporal, salvou um barco com três rezas e meia, sendo a meia reza apenas um “Ámen” dito a tempo. Noutra ocasião, multiplicou sardinhas para um banquete em honra de Nª Sr.ª da Piedade, o que prova que a santidade é irmã da boa cozinha.

Mestre Gil pigarreou, lançando o olhar em redor à procura duma garrafinha de uísque, à maneira do professor Hermano Saraiva, que a usava para aclarar a voz, mas, achando-se sem tal tónico, prosseguiu o depoimento.

Conta-se, também, entre risos e terços mal rezados, que certo dia S. Gonçalo decidiu acudir às moças que suspiravam de amores tardios. Era um tempo em que as donzelas já rezavam com mais esperança do que fé, e o santo, condoído, entendeu que a melhor esmola seria dar-lhes um empurrãozinho… divino.

Uma certa noite, ao soar as doze no sino da igreja, S. Gonçalo desceu do seu nicho e foi passear pela margem do rio. Bateu três vezes com o bordão na muralha, e logo o rio em vez de correr para o mar, começou a correr para trás - tal era a magia do santo que até terá influenciado um tal David Copperfield muitos séculos depois.

Os rapazes, que já dormiam de ressaca e fadiga, acordaram de súbito com ânimo renovado e um fervor de namoro que só podia vir do Céu, ou de coisa parecida concentrada em pequenas pastilhas azúis.

Na manhã seguinte, metade da vila jurava ter visto sombras de véus e capas a deambular pelas ruas, e a outra metade contava que o sino da torre tocara Ave-Maria ao contrário. E nove meses depois, nasceram tantas crianças que o pároco teve de benzer a água num tanque de rega, para as baptizar.

Mas o mais curioso dos seus prodígios foi o da chamada “filosofia do vento”. Ensinava o santo que o vento do Norte trazia frio e indiferença, ambos difíceis de aquecer, enquanto o Levante, caprichoso como certas mulheres, ora soprava loucura, ora poesia, o que, no fim das contas, vem a dar praticamente no mesmo. Ainda hoje, os de “Lágues”, quando lhes dá para filosofar, dizem que o vento mudou; quem sabe se não é o próprio S. Gonçalo a soprar-lhes ao ouvido?

Depois da sua morte (que na verdade terá sido mais uma viagem do que um passamento), o santo continuou a visitar Lagos com o mesmo zelo que um fiscal da ASAE. Em cada 27 de Outubro, a cidade veste-se de festa; há procissão, foguetes e discursos, e cada político acha-se um pouco mais virtuoso e inspirado do que o outro. O santo, lá do seu pedestal, no Chão Queimado, observa tudo com aquele sorriso discreto de quem já viu muita missa e pouca conversão; ou será sorriso descorado de quem está incomodado com os dejectos das gaivotas que lhe escorrem pelo rosto?

Os lacobrigenses, por seu turno, herdaram de S. Gonçalo uma fé um tanto desconjuntada, uma filosofia salgada de maresia e uma inclinação incurável para beber… em sua memória. Foi por ele que Lagos aprendeu que a vida se parece com o mar que a beija: ora vai, ora vem; ora dá peixe, ora dá naufrágio; há calmaria à segunda-feira e borrasca ao Domingo.

Assim é S. Gonçalo, santo de remendos e esperanças, padroeiro dos que se molham, dos que prometem e dos que tardam em cumprir. E se algum dia o virdes, em sonhos ou em bruma, não lhe peçais ouro nem glória, pedi-lhe apenas um vento amigo, um peixe gordo ou um bom pretexto para rir. Porque, no fundo, S. Gonçalo não é apenas o padroeiro de Lagos, é o patrono do humor local; aquele que ensina que a vida, como o mar, é melhor navegada com alma despreocupada e língua afiada.

O vate do drama trágico-cómico já semicerrava os olhos de fadiga, recostado no desconfortável banco traseiro do velho Ford Prefect. Saí então de mansinho, sem bater a porta, deixando-o a murmurar entre sonhos: “Mais vale um asno que me carregue do que um cavalo que me derrube!”


A Queda dum Anjo

A Queda de um Anjo

Há livros que nos servem de espelho e há espelhos que, por desgraça, nos devolvem o retrato inteiro. “A Queda de um Anjo”, de Camilo Castelo Branco, é desses que não se lêem sem certa prudência, não vá o leitor, inesperadamente, ver-se ao virar da página. E se Camilo tivesse frequentado uma daquelas academias de estudos esotéricos, decerto nos teria legado “A Queda de um Anjo Iniciado”.

O protagonista desta versão alegórica não é um político seduzido pelos salões do poder, como Calisto Elói, mas alguém que, subindo degrau após degrau, alcança posição de prestígio entre os seus pares, por quem era tido como exemplo de virtude, sabedoria e paciência de santo.

Durante anos, a sua palavra soou justa, a sua advertência tida por fraternal, e o seu nome murmurado com respeito. Não era um santo, entenda-se, mas possuía aquele brilho sereno que o tornava, aos olhos dos outros, quase um “raio de luz”, expressão que ele, modesto, aceitava com o ar de quem já se sente meio canonizado.

Mas, tal como no romance de Camilo, a ascensão terminou em queda. Aquele que pregava a humildade revelou servir-se dos irmãos como degraus para as suas ambições. Invocando os saberes acumulados, foi transformando a confiança em servidão e a fraternidade em instrumento de domínio. E bastou-lhe um trono simbólico, um título sonante e uma assembleia obediente para que o anjo acabasse por revelar a sua verdadeira natureza.

O nosso iniciado, tão hábil em citar Luz, começou a confundir iluminação com foco cénico, e verdade com eco. Pregava humildade em voz alta porque, sabia, a humildade precisa de boa acústica; e enquanto os irmãos aplaudiam, ele agradecia com aquele sorriso piedoso de quem já se imagina busto.

Não houve relâmpago na sua ruína, apenas o lento desmoronar da confiança dos iguais, ao verem apodrecer um carácter que julgavam incorruptível. Quando o véu caiu (porque todo o véu acaba por cair), o que restou foi um individuo perplexo diante do espelho, perguntando-se por que motivo a sua Luz se apagara. Ora, não se apagara, apenas fora absorvida pelo brilho do próprio ego, esse sol interior que derrete tudo. E os confrades, reflectindo, concluíram: - Há os que sobem para servir, e há aqueles que se servem para subir.

Se Camilo o narrasse, tê-lo-ia feito com uma gargalhada amarga, escrevendo na margem: “Eis mais um anjo que quis voar sobre um altar e acabou pendurado num triângulo.” E, para remate da história, direi, com licença dos santos e dos anjos, que o mundo não carece de mais iluminados, mas de quem saiba acender a Luz sem se deslumbrar com o próprio reflexo.

O nosso Anjo Iniciado caiu, sim, mas caiu com elegância, o que é uma forma de continuar de pé na memória dos ingénuos. E quando alguém o vir ainda a discursar sobre virtude, não o interrompa, deixai-o brilhar; a natureza sempre quis ter um exemplo vivo de como o orgulho é um vício que, mesmo desmascarado, continua a pedir palco e luz de ribalta.




Toca e Foge

 


Outra memória da juventude suscitada por esta pintura (The Runaway Knock, de S. A. Forbes, 1888).

Havia, outrora, um jogo pueril, quase ritual, que fazia parte do calendário secreto da infância: bater à porta do vizinho e fugir, antes que a aldraba concluísse o seu eco metálico. Era a inocência travestida de travessura, uma maneira ingénua de experimentar a adrenalina do proibido.

O vizinho, ou a vizinha, surgia à soleira com o sobrolho franzido, olhando o vazio do pátio, a sombra do beco ou o alinhamento das portadas. Nada. Apenas o silêncio cúmplice da rua. A intriga ficava-lhe gravada no rosto, e era esse o triunfo da pequena malícia, provocar o espanto, a dúvida, a suspeita de que o mundo guardava mistérios insondáveis mesmo à porta de casa.

Nos bairros mais antigos, de ruas estreitas e calçadas polidas pelo tempo, a corrida fazia-se em velocidade, com o coração a galopar tanto como os pés. Os postigos fechados pareciam observar em segredo, e cada esquina era refúgio possível. Já nos arrabaldes modernos, com prédios altos e campainhas eléctricas, o jogo adquiria outra música: um zumbido breve, seguido da debandada pelos corredores anónimos, onde o eco dos passos se confundia com o rumor distante do trânsito.

A cultura de cada rua temperava a brincadeira. Havia vizinhas de avental que, desconfiadas, juravam a pés juntos que era “a canalha do rés-do-chão”, e havia velhos benevolentes que abriam a porta sorrindo, fingindo ignorar o ardil, como se participassem também no enredo. Noutros lugares, mais sisudos, a repetição da façanha arriscava represálias, sermões, puxões de orelhas, até o rosnar irritado “um dia será a tua vez”.

Mas, no fundo, essa vetusta traquinice era a pedagogia secreta da infância. Aprendia-se a medir o tempo exacto entre o toque e a fuga, a calcular distâncias, a escutar o som da fechadura como quem aguarda o tiro de partida de uma corrida. Aprendia-se, sobretudo, a saborear o poder da invisibilidade, como se o mundo inteiro fosse palco e nós actores disfarçados.

Hoje, raramente se vê tal arte, talvez porque as ruas mudaram, ou porque os vizinhos perderam a paciência, ou porque as crianças já não treinam o riso nas pequenas sombras do perigo. Ainda assim, quem o viveu guarda a memória desse instante breve em que a porta se abria para o nada, e o nada era, afinal, um festim secreto de gargalhadas ao virar da esquina.


O ouro antigo e o eco do mar

 



Calcorreando sítios de imagens na Internet (em busca de navios e velas), encontrei esta Natureza Morta, pintura de meados dos anos 50, do húngaro Toth Gabor. A página Electrónica onde encontrei a imagem é estrangeira e dos muitos comentários que possui nenhum referenciava a garrafa de vinho portuguesa.

Fiquei escorado na imagem, recebendo o sopro dos tempos idos que dela emana. Não a vejo como uma natureza morta, mas como uma confidência, feita em silêncio, a quem se dispõe a escutar.

No centro, repousa uma garrafa de vinho tinto Ouro Velho, da casa Casalinho (acho eu que se disso se trata), daquelas que guardam no nome a promessa de calor e de história. Ao lado, um copo onde o líquido rubi reflecte a luz oblíqua, como se o próprio sol de fim de tarde se tivesse dissolvido no vinho.

À sua frente, o copo parece hesitar entre convidar ao gesto ou preservar intacto o instante. A luz, suave, derrama-se sobre os demais elementos. O cacho de uvas que repousa com a serenidade das coisas que já cumpriram o seu destino. As folhas, rendidas ao amarelecer do tempo, sugerem guardar o cheiro da terra molhada; há, nelas, uma beleza discreta, feita de finitude, como um suspiro telúrico que vem do campo.

Finalmente, o búzio, esse viajante do mar, que desarma qualquer lógica. Está ali, junto ao vinho e às uvas, como um convidado improvável. Não sei se o pintor o colocou ali por capricho ou para fazer alguma ligação com o campo e o vinho, mas sei que é impossível não o ver como uma âncora lançada ao mar da memória. É grande, com as suas espirais de calcário gasto. Basta imaginá-lo junto ao ouvido e logo se ouve um mar que não está na tela, o rumor distante das marés de infância, das tardes lentas à beira da água, dos verões que nunca mais acabavam.

Esta composição não é inocente. Entre o vinho, as uvas e o búzio, constrói-se um diálogo secreto entre a terra, o tempo e o mar, entrelaçados como fios de um mesmo tear. O Ouro Velho é o sabor que envelhece bem, mesmo quando já não temos quem o partilhe. As uvas são o gesto generoso da natureza, sempre cíclica, mesmo que nós não o sejamos. E o búzio é o eco persistente de tudo o que foi mas não se perdeu.

Olho a tela e sinto que nela há uma despedida, resignada, como quem sabe que a vida é feita de breves abundâncias e longas ausências. E, no entanto, há também a promessa de que, enquanto houver memória, o vinho terá sempre o seu rubi, as uvas o seu brilho, e o mar o seu murmúrio.

Apertos de Coração

Há imagens que são sementes lançadas ao terreno fértil da imaginação. Algumas nascem do clarão súbito de uma fotografia; outras, da poética colorida de uma pintura. Nas minhas recentes errâncias pelos vastos oceanos da Internet, à procura de telas onde grandes veleiros rasgam o horizonte, ou se defrontam em épicos combates navais, encontrei esta pintura, pungente na sua quietude.

É autor desta obra intitulada “The Stay at Homes/Looking Out to Sea”, o norte-americano Norman Rockwell que a publicou na revista “Story Illustration for Ladies Home Journal” de Outubro de 1927.

A publicação do FB de onde copiei a imagem tinha vários comentários, um deles propunha uma legenda para a pintura “not yet, not anymore” (ainda não / já não), remetendo para a condição do neto e do avô.

Não conheço a história que a imagem ilustrou originalmente, mas certamente não será muito diferente desta que imaginei e burilei na calma das férias, e de que resultou o que aqui se oferece.

 




A Vigia

 

Era uma manhã límpida de Junho, dessas em que o mar parece um espelho verde-azulado, cortado apenas pelo traço branco das velas. Naquela colina batida pelo vento, o avô e o neto eram como sentinelas de pedra. Só o cachorro saltitava, irrequieto. O velho, com a mão pousada no ombro do miúdo, transmitia-lhe, sem palavras, a antiga ciência dos que sabem ler o mar: que cada partida é uma promessa e cada regresso, um milagre.

 As velas enfunadas brilhavam ao sol, e o casco cortava a ondulação como se soubesse de cor o caminho para o alto-mar. Lá dentro, algures entre cordas, barris e sal, seguia o pai, marinheiro experimentado, agora rumo a uma longa viagem de comércio. O menino, de chapéu na mão, mantinha os olhos presos ao navio que se afastava lentamente, enquanto assimilava que o mar não é só azul e horizonte, é também espera e silêncio.

 O avô, antigo capitão reformado, pousava a mão firme sobre o ombro do rapaz. O gesto dizia mais do que qualquer palavra: era promessa de que estariam ali, naquele mesmo lugar, para receber o pai quando regressasse.

 O cachorro, inquieto, farejava o ar salgado, como se também quisesse guardar na memória o rasto do navio. As gaivotas riscavam o céu, e o vento trazia o eco longínquo das vozes e do estalar das velas. O menino respirava fundo, como se quisesse guardar todo aquele momento dentro de si, o azul do mar, o brilho da luz, a figura do pai a acenar no convés.

 - Ele volta, não é, avô? – perguntou o petiz, sem desviar o olhar.
- Voltam sempre, meu menino… voltam sempre. Respondeu o velho, embora soubesse que o mar, por vezes, não devolve todos os que o desafiam.

 E ali ficaram, lado a lado, como guardiões silenciosos, a olhar para a linha do horizonte onde o navio se tornava cada vez mais pequeno, até desaparecer na curvatura da Terra.

Passaram-se meses. O verão deu lugar a um outono ventoso, e este cedeu a um inverno áspero, em que as ondas rebentavam contra o molhe com tal força que os borrifos de água se sentiam nas ruas da vila. E mais tempo foi passando, medido não só pelos anos, mas pelo diálogo constante entre o vento e as ondas.

O menino crescera um pouco nesse tempo. Já não corria pela praia com a mesma energia; aprendera, com o avô, a ler cartas náuticas, a reconhecer o rumo de um navio pelas velas, e a interpretar o humor do mar pelo tom do vento. Guardava no quarto um pequeno diário onde desenhava os barcos que via passar ao largo, imaginando sempre que, entre eles, podia estar o do pai.

O avô, por seu lado, mantinha-se fiel ao ritual: todos os dias, ao amanhecer, subiam juntos à colina. O cão, agora mais sereno, já não corria na frente; caminhava devagar, mas nunca faltava à vigia.

E então, certa manhã, o horizonte alterou a respiração. Uma mancha branca cresceu, rompendo o limite entre céu e água.

O menino sentiu o coração bater mais depressa.

- Avô… é ele? — perguntou, quase sem respirar. O velho capitão apertou-lhe o ombro com mais força, o olhar fixo no navio que se aproximava. Reconheceu, antes de qualquer outro, a forma familiar do casco, a mancha do remendo na vela grande, e o modo como as velas se inclinavam ao sabor do vento.

- É ele, sim. O teu pai voltou.

O grito de alegria do menino misturou-se com o ladrar do cão, e ambos correram pela encosta abaixo, deixando o avô seguir ao seu ritmo. Naquele momento, os invernos que tinham vivido pareceram dissolver-se no calor do reencontro e a distância entre partida e regresso desfez-se num só instante, como se o tempo fosse apenas espuma.

O pai desceu a prancha com os braços abertos, trazendo consigo o cheiro do mar e histórias que, naquela noite, se prolongariam à mesa, sob a luz tremeluzente do candeeiro a petróleo. Naquele abraço junto ao cais, o mar devolveu não apenas o pai, mas também a certeza de que a espera é um acto de fé. E, na colina, ficou gravada uma herança invisível: o saber que, mesmo quando o horizonte parece vazio, há sempre um navio a caminho.

E assim, o ciclo fechava-se: o mar levava, o mar devolvia, e na colina ficaria sempre alguém à espera, de vigia com os olhos postos no horizonte.

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Simão, o astronauta

 


Era uma vez um menino chamado Simão, que passava férias com os avós. Todas as noites, antes de adormecer, ficava à janela a olhar as estrelas e pensava: Um dia, vou ser astronauta!

No quarto dos brinquedos, Simão tinha um capacete de astronauta feito de cartão pintado de prata, e um foguetão construído com almofadas e cadeiras. Quando fechava os olhos, imaginava que entrava no foguetão e partia para o espaço. Como os heróis Thunderbirds de que tanto gostava.

Numa dessas noites, sonhou que estava dentro do seu foguetão, a contar em voz alta: Dez… nove… oito… três… dois… um… partida! E o foguetão levantou voo com um rugido e atravessou o céu, passando por nuvens fofas e brilhantes.

Primeiro, visitou a Lua. Saltou de pedra em pedra, deixando pegadas na poeira dourada. Encontrou um coelho lunar que lhe ofereceu um chá de erva-doce. Depois, voou até a um planeta azul onde viviam peixes no ar, a nadar entre pequenas nuvens. Os peixes cantavam canções suaves que faziam cócegas no corpo das pessoas que os ouviam. Por fim, chegou a Saturno, onde as argolas eram feitas de milhões de bolas de gelado que pairavam pelo espaço. Simão provou uma de chocolate e outra de baunilha, eram fresquinhas e muito doces.

Quando o Sol começou a nascer, o foguetão voltou devagarinho à Terra. Simão acordou, ainda com o sabor do gelado nos lábios e um sorriso no rosto. Um dia, pensou, as aventuras não serão só sonhos.

Noutra noite de céu limpo e estrelado, Simão enfiou o seu capacete de cartão e sentou-se no foguetão de almofadas, pronto para mais uma viagem imaginária: Cinco… quatro… três… dois… um… partida!

Desta vez o foguetão levou-o até um planeta coberto de campos verdes, com árvores que brilhavam como candeeiros e flores que cantavam canções alegres. Simão correu pelos prados, acompanhado por pequenos cogumelos coloridos que rodopiavam como piões.

Mais adiante, encontrou um rio de água muito limpa, quase invisível, onde nadavam peixinhos transparentes que iluminavam o caminho. Um deles, muito curioso, ofereceu-se para guiar Simão até ao maior arco-íris do universo, que se estendia de uma montanha de cristal até ao céu. No regresso, passou por uma chuva de estrelas cadentes e apanhou uma delas com uma rede de sonho, para a guardar no bolso. E mais adiante ficou de boca aberta quando passou por ele um automóvel vermelho-vivo, a grande velocidade, era o Faísca McQueen, vejam só!

Quando acordou, já de manhã, sentia ainda o calor suave da estrela junto ao coração. Um dia - murmurou com um sorriso -, vou mesmo lá voltar.

E, desde então, todas as noites, Simão continuou a olhar as estrelas, certo de que o Espaço guardava um lugar especial para ele.


Submerso Imaginário

 


A bordo deste submarino vivo num exercício constante de resistência física e psicológica. O espaço exíguo transforma cada movimento numa coreografia apertada, onde cotovelos, ombros e costas chocam contra paredes de metal e contra os corpos dos camaradas. O ruído grave e incessante do motor mistura-se com o silvo de válvulas e o estalar de tubagens, criando uma sinfonia metálica que não cessa nem para o sono. O ar é denso, carregado com o cheiro quente da maquinaria, o suor entranhado nas roupas, o óleo queimado, a humidade salgada e outros odores indiscritíveis que brotam de recantos onde o ar escassamente circula.

A temperatura, sufocante, cola as camisas à pele. A comida, enlatada, repete-se até à náusea: conservas de sardinha ou de cavala flutuando em azeite, carnes prensadas, arroz que parece massa de preencher buracos, ovos emborrachados e bolachas duras. O sabor torna-se tão monótono quanto os dias de patrulha, quebrados apenas pela tensão permanente de que, a qualquer momento, o casco pode implodir sob a explosão de uma carga de profundidade ou o choque com uma mina à deriva.

Nestas condições, os pensamentos vagueiam entre a nostalgia da terra firme e a obsessão pela sobrevivência. Cada estalido metálico soa a prenúncio de desastre; cada silêncio súbito, um aviso mais terrível que o ruído. E, no entanto, ao posar para a fotografia, consigo sorrir, não de alegria, mas por desafio… ou será nervosismo?! Talvez não passe de um instante roubado ao medo, uma pequena vitória contra aquela prisão submersa e a morte que ronda invisível nas águas. Ou talvez seja apenas um sorriso em que exclamo: ainda estou aqui e um dia irei candidatar-me a Presidente da República?!


Crónica de um Ornamento

 


Há criaturas que, por desígnio insondável ou distracção da Natureza, atravessam a existência sem nunca terem exibido qualquer préstimo palpável à sociedade que as alberga. Falo, claro, de um Ornamento Bípede, um indivíduo cuja mais nobre utilidade, caso estivéssemos a considerar uma ocupação há cinco décadas atrás, teria sido a de permanecer hirto ao lado do televisor, servindo de interruptor humano para alternar entre a RTP1 e a RTP2, dado não existir ainda o mágico telecomando.

Mas a vida é generosa para com os inúteis que se colocam bem. O progresso, esse cúmplice implacável do absurdo, retirou-lhe a última esperança de utilidade prática, o comando remoto surgiu e, com ele, a obsolescência do Homem-Pivô-de-Televisor. Seria de esperar que se recolhesse, resignado, ao limbo discreto dos inactivos funcionais. Nada disso. O nosso herói, ou melhor, o nosso bibelô institucional, reinventou-se.

Hoje, não mexe em botões, mas exibe com galhardia os seus. Vive da imagem, que cultiva com a sofreguidão de um narciso cultivado com o melhor húmus. Circula por congressos onde nada se discute, preside a comissões de coisa nenhuma, ostenta comendas que lhe são atribuídas pela sua inquestionável aptidão para a imobilidade. Foi elevado a dignitário do Nefando Instituto para a Promoção do Nada em Particular, e membro honorário do Grémio Internacional dos Cargos Pomposos e Irrelevantes.

O seu currículo é um rosário de nulidades laureadas. “Consultor Estratégico para a Visibilidade Transversal de Experiências Interdisciplinares”, seja lá o que isso for. Publicou um artigo sobre "Empatia em Ambientes Virtuais" e proferiu uma conferência sobre “O Silêncio como Forma de Expressão nas Organizações de Baixo Impacto”. O público não pateou, portanto gostou, ainda que a sala estivesse vazia.

É um vulto do nosso tempo, não por mérito, mas por ausência de alternativa. Onde dantes se exigia acção, hoje basta parecer ocupado. O inútil profissional tornou-se património simbólico da mediocridade organizada. Já ninguém espera dele o menor gesto de esforço: o seu simples estar é considerado contributo bastante. E tem porte para isso, como um candeeiro de iluminação pública, desses modernos a LED, de que nem se percebe a luz que irradiam.

E, no entanto, ali vai ele, gravata de nó duplo, peito eriçado de broches comemorativos de sessões protocolares, a receber o enésimo “Prémio Excelência em Relevância Potencial” com um semblante que diz tudo e nada.

E se o colocássemos ao lado do televisor, vá, para ver se ainda teria alguma utilidade? Mas desconfio que não. Seria demasiado exigente. E ele, coitado, já se cansa só de existir.

 


Um cagalhão na multidão

 


Há na presença de um cagalhão no meio de uma multidão uma irrupção ontológica que poucos ousam considerar com a devida reverência. Os mais superficiais vêem apenas excremento; os mais atentos pressentem um vestígio do Absoluto, um rasto de matéria que, tendo sido corpo, ousa permanecer quando o corpo já partiu.

O cagalhão, desprezado, escarnecido, impõe-se, todavia, como um sinal. Ele não é apenas o que resta da digestão, mas o que resta do Ser quando o Ser já não se pode justificar senão pela sua consequência mais inadiável, a expulsão. Ali, no chão de calçada onde pisam os distraídos e os apressados, jaz um manifesto contra a transcendência. A sua existência grita "Fui parte de alguém. Fui quente. Fui necessário. Agora sou repulsa e espanto." 

Na multidão, esse humilde dejecto interrompe o fluxo do real; faz-se intervalo. Onde antes havia apenas o ruído indistinto de passos, murmúrios e afazeres, instala-se o silêncio horrorizado, o desvio súbito, o levantar da saia, o puxar da criança. O cagalhão obriga à consciência do caminho, como se dissesse “Atenção, passais por mim como passais pela vida, de olhar para cima, sem ver o que importa.” 

Há quem diga que o cagalhão é democrático porque nivela o banqueiro e o mendigo, o académico e o carteirista. Nenhum deles o evita sem alterar o passo. Nenhum ousa negá-lo sem se desmentir a si mesmo. Se há algo que nos torna humanos, mais do que a razão, mais do que a linguagem, é o cagalhão e o constrangimento que provoca perante a merda. 

Por vezes, o cagalhão no meio da multidão não é apenas literal. É símbolo, é um intruso, um excluído, que não devia estar ali mas insiste em estar. É o filósofo entre contabilistas, o poeta num congresso de engenheiros, o louco na assembleia da razão. A sua função é desestabilizar, incomodar, recordar que a realidade não é higiénica, nem linear, nem confortável. É, antes, fecal e fecunda. 

E se, porventura, o cagalhão for pisado, ai! Então opera-se a catarse. A multidão, unida na repulsa, partilha o rito da tragédia, o infortúnio de um revela a fragilidade de todos. E, por instantes, somos comunidade. Não de ideias, não de afectos, mas de nojo. Uma comunhão visceral. 

Assim, o cagalhão no meio da multidão não deve ser removido com pressa, mas contemplado como metáfora. Ele é a matéria caída que se ergue em sentido. O que foi deixado para trás, mas nos confronta com o que somos. O que sai de nós, mas nos devolve a nós.

Em última análise, quem nunca reflectiu sobre um cagalhão talvez não esteja verdadeiramente apto a compreender a condição humana.

 

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