Inteligência Artificial e a velha resistência ao que é novo


 A estultícia de condenar a Inteligência Artificial - ou a velha resistência às novas ferramentas do conhecimento

A história do progresso tecnológico é também, em boa medida, a história da resistência humana à mudança. Quase todas as inovações que vieram ampliar as capacidades do Homem foram recebidas, em algum momento, com desconfiança, receio ou mesmo indignação por aqueles que, confundindo os instrumentos com as competências, julgavam ameaçada a legitimidade dos seus conhecimentos e das suas práticas.

A actual controvérsia em torno da utilização da Inteligência Artificial na escrita, na criação de imagens e noutras actividades intelectuais e artísticas não constitui, por isso, um fenómeno inteiramente novo. Pelo contrário, reproduz, com extraordinária semelhança, argumentos já utilizados contra anteriores inovações tecnológicas que hoje aceitamos com absoluta naturalidade.

Recordemos, por exemplo, a resistência que acompanhou a generalização das calculadoras electrónicas, sobretudo no meio escolar. Para os defensores mais intransigentes da tabuada memorizada e do cálculo manual, a calculadora representava uma ameaça à aprendizagem da Matemática. Argumentava-se que os alunos deixariam de saber calcular, que perderiam agilidade mental e que a facilidade de obter resultados dispensaria o esforço intelectual indispensável à formação do raciocínio.

Havia, naturalmente, alguma razão na preocupação pedagógica: saber multiplicar não é o mesmo que carregar numa tecla, tal como compreender uma operação matemática não se confunde com conhecer o resultado que uma máquina apresenta. Mas o erro fundamental consistia em concluir que a utilização de um instrumento capaz de executar operações deveria, por esse motivo, ser condenada.

A calculadora não aboliu a Matemática, nem tornou dispensável o raciocínio matemático. Libertou, isso sim, tempo e esforço para operações mais complexas, permitindo concentrar a actividade intelectual na formulação dos problemas, na interpretação dos resultados e na compreensão das relações entre grandezas. A memorização da tabuada continuou a ter utilidade, mas deixou de poder ser confundida com a própria essência do conhecimento matemático.

Algo semelhante ocorreu no domínio da fotografia.

O aparecimento e, sobretudo, a generalização das máquinas fotográficas digitais suscitaram críticas severas entre alguns defensores da fotografia tradicional. A substituição da película pelo sensor electrónico, a possibilidade de visualizar imediatamente a imagem, a eliminação dos custos de revelação e a facilidade de produzir centenas de fotografias foram encaradas como factores de banalização da arte fotográfica.

Para certos puristas, a fotografia digital retirava dignidade ao acto de fotografar. A ausência das limitações impostas pela película, a facilidade de corrigir exposições e enquadramentos e, posteriormente, o recurso a programas de tratamento de imagem pareciam transformar uma actividade artística exigente numa prática acessível a qualquer pessoa.

E, todavia, ninguém poderá sustentar seriamente que a fotografia digital destruiu a arte fotográfica.

Pelo contrário, democratizou o acesso aos seus instrumentos, multiplicou as possibilidades de experimentação e abriu horizontes criativos anteriormente reservados a quem possuía conhecimentos técnicos especializados, equipamento dispendioso ou acesso a laboratórios de revelação.

A facilidade de produzir uma imagem nunca garantiu, por si só, a sua qualidade artística. Uma fotografia medíocre não se transforma numa obra de arte por ter sido obtida com uma máquina sofisticada, tal como uma fotografia extraordinária não perde valor por ter sido captada com um simples telemóvel.

O mérito reside, antes de mais, no olhar de quem escolhe, enquadra, interpreta e atribui significado à imagem – não na dificuldade técnica do instrumento utilizado para a produzir.

É precisamente esta distinção que muitos dos actuais detractores da Inteligência Artificial parecem incapazes de compreender.

Condenar indiscriminadamente a utilização da IA como auxiliar da escrita, da investigação ou da produção de imagens equivale, em larga medida, a recuperar os mesmos preconceitos que outrora levaram a censurar as calculadoras electrónicas ou a desvalorizar a fotografia digital.

No domínio da escrita, a IA pode desempenhar funções muito diversas: auxiliar na organização de ideias, sugerir estruturas, identificar redundâncias, corrigir deficiências gramaticais, propor formulações alternativas, facilitar a pesquisa terminológica ou ajudar a tornar mais claro e rigoroso um pensamento previamente concebido.

Nenhuma destas operações implica, necessariamente, a abdicação da autoria intelectual.

Um autor que utiliza um dicionário, consulta uma enciclopédia, recorre a um revisor literário ou solicita a opinião de terceiros não deixa, por isso, de ser autor do seu texto. Do mesmo modo, aquele que utiliza a IA para aperfeiçoar a expressão de ideias próprias não perde automaticamente a legitimidade da sua autoria.

A questão decisiva não é saber se houve intervenção de uma ferramenta tecnológica, mas qual foi a natureza dessa intervenção e a quem pertencem as ideias, as decisões e a responsabilidade pelo resultado final.

Naturalmente, importa distinguir situações que não são equivalentes. Uma coisa é recorrer à IA para rever, estruturar ou melhorar um texto concebido pelo próprio; outra, substancialmente diferente, é solicitar-lhe a elaboração integral de um trabalho e apresentá-lo como resultado exclusivo de uma reflexão pessoal que nunca existiu.

A primeira situação pode representar uma utilização legítima e inteligente dos meios disponíveis. A segunda poderá constituir uma forma de dissimulação intelectual, particularmente grave quando ocorre em contextos académicos, científicos ou profissionais que exigem originalidade e transparência.

Mas seria manifestamente absurdo condenar a ferramenta em si mesma por causa dos usos fraudulentos que dela possam fazer-se.

Pelo mesmo critério, teríamos de condenar os processadores de texto porque permitem copiar trabalhos alheios, as máquinas fotográficas porque possibilitam manipular imagens, ou as calculadoras porque um estudante pode utilizá-las clandestinamente durante uma prova em que o seu uso esteja proibido.

Também na produção de imagens importa estabelecer distinções. A IA generativa introduz possibilidades que ultrapassam as da fotografia digital, pois permite criar representações visuais sem que exista necessariamente uma realidade previamente captada por uma objectiva. Levanta, por isso, problemas específicos de autoria, direitos de terceiros, utilização de obras no treino dos modelos e autenticidade documental, que não devem ser ignorados.

Contudo, reconhecer essas dificuldades não justifica a condenação indiscriminada de toda a criação visual assistida por IA.

Um ilustrador, um investigador, um escritor ou um simples interessado em comunicar visualmente uma ideia pode utilizar estes instrumentos para explorar soluções gráficas, reconstruir hipoteticamente ambientes, experimentar composições ou materializar conceitos que, de outro modo, permaneceriam apenas na sua imaginação.

O facto de uma imagem ter sido produzida com recurso a algoritmos não determina, por si só, a inexistência de intenção criativa, tal como a utilização de programas de edição não retira necessariamente mérito a uma fotografia.

É certo que a intervenção humana pode variar enormemente: desde a formulação de uma instrução banal até um processo complexo de concepção, selecção, experimentação, correcção e composição. Seria tão insensato atribuir idêntico mérito artístico a todas essas situações como negar, à partida, qualquer valor a todas elas.

Há, aliás, uma contradição particularmente curiosa em muitas destas críticas. Quem hoje censura a utilização da IA na escrita fá-lo, frequentemente, através de textos elaborados num computador, com o auxílio de correctores ortográficos, motores de pesquisa e programas que automatizam numerosas operações outrora executadas manualmente. Quem condena as imagens produzidas por IA aceita, sem dificuldade, fotografias digitais profundamente alteradas por programas de edição, filtros e processos automáticos de optimização.

Parece, assim, que determinadas tecnologias adquirem legitimidade apenas depois de o hábito as tornar invisíveis. Aquilo que ontem era considerado uma facilidade censurável transforma-se, com o passar dos anos, numa prática normal; e aquilo que hoje representa uma inovação volta a despertar os mesmos receios que acompanharam as ferramentas anteriores.

Esta atitude revela, em muitos casos, uma confusão entre o esforço despendido e o valor do resultado.

É como se a qualidade intelectual ou artística de uma obra devesse ser medida pela quantidade de dificuldades técnicas enfrentadas durante a sua elaboração. Como se escrever à mão conferisse maior dignidade a um pensamento do que escrevê-lo num teclado; como se efectuar manualmente milhares de operações aritméticas demonstrasse necessariamente maior inteligência do que conceber um método eficaz para as resolver; ou como se a qualidade de uma imagem dependesse do número de horas passadas num laboratório fotográfico.

Ora, a dificuldade de execução não constitui, por si mesma, uma medida de mérito intelectual ou artístico.

O esforço pode ter um enorme valor formativo, sobretudo durante a aprendizagem. Mas, uma vez adquiridas determinadas competências, não existe qualquer virtude intrínseca em perpetuar dificuldades que a tecnologia permite superar.

A finalidade da escrita não é demonstrar a habilidade mecânica de combinar palavras, mas comunicar ideias, sentimentos, conhecimentos e interpretações. A finalidade da imagem não é provar a destreza manual de quem a executa, mas representar, expressar ou transmitir alguma coisa. E a finalidade do cálculo não é perpetuar operações repetitivas, mas compreender e resolver problemas.

Isto não significa que os processos sejam irrelevantes. Na educação, na investigação científica, na criação artística e na avaliação de competências, o modo como um resultado é alcançado pode ser tão importante como o próprio resultado. Mas daí não decorre que os novos instrumentos devam ser rejeitados; decorre, antes, a necessidade de definir criteriosamente quando, como e para quê devem ser utilizados.

A Inteligência Artificial também não está isenta de limitações. Pode produzir erros factuais, inventar referências, reproduzir preconceitos, apresentar formulações aparentemente convincentes mas intelectualmente vazias, ou criar imagens susceptíveis de induzir em erro. Exige, por isso, vigilância crítica, verificação e responsabilidade.

Todavia, essas limitações recomendam prudência e discernimento, não uma rejeição dogmática.

O verdadeiro perigo intelectual não reside na existência de ferramentas capazes de nos auxiliar a pensar, escrever ou criar. Reside na possibilidade de deixarmos de exercer o espírito crítico, aceitando passivamente os seus resultados. Mas esse perigo não é exclusivo da IA: também se pode copiar irreflectidamente uma enciclopédia, reproduzir sem exame a opinião de um especialista ou aceitar como verdadeira uma informação apenas porque foi publicada num livro.

Em última análise, a questão fundamental é a da relação entre o Homem e os instrumentos que inventa.

A evolução da civilização caracteriza-se, precisamente, pela criação de meios que ampliam as capacidades humanas e permitem ultrapassar limitações anteriormente consideradas inevitáveis. A escrita libertou a memória da obrigação de conservar oralmente todo o conhecimento; a imprensa multiplicou a sua circulação; a máquina de calcular automatizou operações; a fotografia fixou imagens; o computador transformou a produção e o tratamento da informação.

A Inteligência Artificial inscreve-se nesta longa história, embora introduza desafios próprios pela sua capacidade de gerar conteúdos e de intervir em tarefas que julgávamos reservadas à inteligência humana.

A novidade merece reflexão séria, discussão ética e enquadramento responsável. O que não merece é a condenação simplista que confunde o auxílio tecnológico com a fraude, a facilidade instrumental com a ausência de mérito e a inovação com a decadência.

Talvez o aspecto mais revelador desta polémica seja o facto de, em cada geração, alguns dos que beneficiaram das conquistas tecnológicas anteriores se mostrarem particularmente inclinados a negar legitimidade às conquistas seguintes.

Esquecem-se de que também os instrumentos que hoje consideram tradicionais foram, no seu tempo, perturbadores, contestados e acusados de ameaçar competências julgadas indispensáveis.

Não é a utilização da Inteligência Artificial que deve ser motivo de censura, mas a renúncia à inteligência própria na sua utilização.

Porque o verdadeiro progresso não consiste em substituir o pensamento humano pela máquina, mas em colocar as capacidades da máquina ao serviço de um pensamento humano mais livre, mais exigente e mais criativo.

E talvez resida aqui a maior estultícia dos que condenam, por princípio, estas novas ferramentas: julgarem que a dignidade da inteligência humana depende da recusa dos instrumentos que essa mesma inteligência foi capaz de criar.

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