Singradura para Belém

 




Não sou fã de militares no topo da hierarquia do Estado, i.e. no cargo de Presidente da República. Já os tivemos repetidas vezes e, com excepção do Ramalho Eanes, as coisas não correram melhor do que com os substituídos.

Mas reconheço vacilar nesta convicção face ao anseio ilusório de um abanão no mastro estatal em que se empoleira tanta e tão medíocre macacada política. É que a vida não se inscreve num continuum racional e, eu, consciente sabedor dos malefícios, afinal de contras fumei durante tantos anos.

Mas, mais do que eu, muitos portugueses disponibilizam-se para esse voto num candidato que personalize a actuação austera/autoritária que moldou a nação e segurou o Estado e que reponha, agora, a inefável decência que se acha ausente e se entende necessária.

Sempre gostámos muito de figuras sérias e austeras, mesmo em democracia (Eanes e Cavaco p. ex.). Já os sorridentes e bonacheirões costumam dividir mais o eleitorado e suscitar, até, suspeitas de actuação falaciosa.

Entendemos a actualidade entregue aos bichos e completamente desvairada: «o mundo está louco» ou «está tudo de pernas para o ar» (como se as gerações anteriores não tivessem achado o mesmo, ignorando a naturalidade do devir histórico e o facto das novidades suscitarem sempre alguma resistência), então, no meio do intenso e permanente ruído informativo e desinformativo, e face ao presumido despautério que afecta a vida actual, não se formam as condições propícias à reflexão consciente, e daí surgirem opções que num panorama racional e coerente nem sequer seriam consideradas.

Por um lado, votamos pela empatia que a imagem do candidato suscita e, sobretudo, para retirar quem lá está; raramente para colocar alguém que entendamos merecer (que seja merecedor e/ou que nós mereçamos). Por outro lado, a escolha corre muito pelo ‘mal menor’.

Esta é a percepção do eleitor contemporâneo, e quando achamos que a maré de imundície já nos vai chegando à boca recorremos a uma espécie de reserva moral da nação que veste farda. Não aconteceu já, repetidamente?!

São muitas as vacuidades que contam na hora de votar: Assim, rápida e superficialmente, reconheço uma qualidade inestimável ao almirante, a sua notável estatura. É que não consigo imaginar o Marques Mendes ao lado do Rei Filipe de Espanha, daria uma imagem mediática paupérrima deste país de heróis do mar.

Siga a derrota*.

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* NÁUTICA rumo que o navio leva; rota; roteiro

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