Em vésperas de um acto
eleitoral e num mundo cada vez mais medíocre, a crónica de António Lobo Antunes,
escrita em 2020, é um grito de alerta.
«A sociedade necessita
de medíocres que não ponham em questão os princípios fundamentais e eles aí
estão: dirigem os países, as grandes empresas, os ministérios, etc. Eu oiço-os
falar e pasmo não haver praticamente um único líder que não seja pateta, um único
discurso que não seja um rol de lugares comuns. Mas os que giram em torno deles
não são melhores. Desconhecemos até os nossos grandes homens: quem leu Camões
por exemplo? Quase ninguém. Quem sabe alguma coisa sobre Afonso de Albuquerque?
Mas todos os dias há paleios cretinos acerca de futebol em quase todos os
canais. Porque não é perigoso. Porque tranquiliza.
Os programas de
televisão são quase sempre miseráveis mas é vital que sejam miseráveis. E
queremos que as nossas crianças se tornem adultos miseráveis também, o que para
as pessoas em geral significa responsáveis. Reparem, por exemplo, em Churchill.
Quando tudo estava normal, pacífico, calmo, não o queriam como governante. Nas
situações extremas, quando era necessário um homem corajoso, lúcido,
clarividente, imaginativo, iam a correr buscá-lo. Os homens excepcionais servem
apenas para situações excepcionais, pois são os únicos capazes de as
resolverem. Desaparece a situação excepcional e prescindimos deles.
Gostamos dos idiotas
porque não nos colocam em causa. Quanto às pessoas de alto nível a sociedade
descobriu uma forma espantosa de as neutralizar: adoptou-as. Fez de Garrett e
Camilo viscondes, como a Inglaterra adoptou Dickens. E pronto, ei-los na ordem,
com alguns desvios que a gente perdoa porque são assim meio esquisitos, sabes
como ele é, coitado, mas, apesar disso, tem qualidades. Temos medo do novo, do
diferente, do que incomoda o sossego.
A criatividade foi
sempre uma ameaça tremenda: e então entronizamos meios-artistas,
meios-cientistas, meios-escritores. Claro que há aqueles malucos como Picasso
ou Miró e necessitamos de os ter no Zoológico do nosso espírito embora
entreguemos o nosso dinheiro a imbecis oportunistas a que chamamos gestores. E,
claro, os gestores gastam mais do que gerem, com o seu português horrível e a
sua habilidade de vendedores ambulantes: Porquê? Porque nos sossegam. Salazar
sossegava. De Gaulle, goste-se dele ou não, inquietava. Eu faria um único teste
aos políticos, aos administradores, a essa gentinha. Um teste ao seu sentido de
humor. Apontem-me um que o tenha. Um só. Uma criatura sem humor é um ser
horrível. Os judeus dizem: os homens falam, Deus ri. E, lendo o que as pessoas
dizem, ri-se de certeza às gargalhadas. E daí não sei. Voltando à pergunta de
Dumas
– Porque é que há
tantas crianças inteligentes e tantos adultos estúpidos?
não tenho a certeza de
ser um problema de educação que mais não seja porque os educadores, coitados,
não sabem distinguir entre ensino, aprendizagem e educação. A minha resposta a
esta questão é outra. Há muitas crianças inteligentes e muitos adultos estúpidos,
porque perdemos muitas crianças quando elas começaram a crescer. Por inveja,
claro. Mas, sobretudo, por medo.»
ANTÓNIO LOBO ANTUNES

Sem comentários:
Enviar um comentário