Ao toque da Sirene - Apontamentos sobre a Indústria Conserveira em Lagos

Lagos exportava peixe da sua costa, já desde a época romana. O garum, por exemplo, era envasilhado em ânforas de barro, depois de moído e curtido pelo sal, e embarcado nas galeras rumo aos mais importantes pontos do império. Com o tempo as vasilhas de madeira tomaram o lugar das de barro e barricas de várias dimensões transportavam atum, cavala e sardinha salgada para diversos destinos, sobretudo europeus. Da Idade Média à Época Moderna, assim se enviou o nosso pescado para as longínquas paragens da Europa e do Mundo que as caravelas portuguesas iam descobrindo.

Na segunda metade do século XIX o progresso tecnológico da nova vaga de industrialização traduz-se no aparecimento de um novo conceito, a fábrica. A instalação de centros industriais no Algarve, iniciada na década de oitenta desse século, veio operar uma enorme transformação social e económica, e a indústria conserveira foi um dos sectores que contribuiu para essa transformação. A primeira fábrica de conservas de atum em azeite, implantada em Portugal, surgiu em 1879, em Vila Real de Santo António.

Em Lagos, a primeira fábrica terá surgido em 1882 pela mão de uma grande empresa francesa, a "Établissements F. Delory" com sede em Lorient, na Bretanha, e que também se estabeleceu em Setúbal (1880) e em Olhão (1881).

Com o aparecimento da folha-de-flandres, passaram a fabricar-se embalagens nesse material, muito mais leve e versátil do que aqueles até aí utilizados. Em 1886 já existiam em Lagos cinco unidades fabris operando com latas. 

Na fábrica, as operárias procediam às operações de descabeçar e esviscerar o peixe que seguia depois para os pios da salmoira onde ficava o tempo necessário. Seguidamente o peixe era frito em azeite ou óleo, enxugado, e embalado em latas cujo tampo era soldado.
A sirene da fábrica era o sinal esperado, anunciando a chegada de peixe fresco. Então, um exército de mulheres corria para a fábrica, na esperança de serem escolhidas para trabalhar; eram elas a principal força de trabalho desta indústria, desenvolvendo frequentemente a sua actividade em condições deploráveis.

Uma evolução importante na indústria das conservas consistiu na alteração do processo de fritura para o da cozedura em que o peixe passou a ser literalmente cozido no vapor. Depois de amanhado seguia em grelhas para os cozedores ou cofres onde era submetido ao vapor. No fim da linha de produção, após o enlatamento, as conservas eram esterilizadas a uma temperatura superior a 100ºC, em autoclaves de vapor alimentados por enormes caldeiras com fornalha de lenha.

A introdução da máquina de cravar tampas nas latas, a cravadeira, veio aumentar a capacidade produtiva embora tenha gerado grande perturbação e o desaparecimento dos soldadores, até então a profissão melhor remunerada desta indústria.

O processo de fabricação da conserva cumpre as seguintes fases: recepção do peixe; descabeço/evisceração; lavagem, salmoura; engrelhamento; secagem; cozedura; enlatamento; azeitamento; cravação; lavagem; verificação; embalagem; armazenamento.
Não era apenas o peixe que se enlatava. Em 1939, a Sociedade de Conservas Aldite, laborando no alto de Santo Amaro, perto do actual Mercado Municipal, fabricou e exportou berbigão em conserva, com rótulo em castelhano “berberechos”, destinado certamente ao mercado hispânico. Porém, o sucesso alcançado não foi duradouro, provavelmente devido à muita mão-de-obra envolvida.

Onde hoje se ergue, imponente e reabilitado, o Mercado Municipal da Avenida, edificado em 1924, funcionou uma fábrica de conservas de peixe. A afamada Fábrica da Porta de Portugal terminaria a sua actividade na sequência de um grande incêndio que por volta de 1915 a destruiu por completo. 

No alvor do século XX (1908), Lagos liderava o arranque do processo de industrialização conserveira no Algarve com 10 unidades instaladas, contra 3 em Portimão, 1 em Albufeira, 2 em Faro, 7 em Olhão e 6 em Vila Real de Santo António. Em 1920 existiam em Lagos cerca de 32 fábricas, mas em 1938 o Anuário Comercial de Portugal referenciava apenas as seguintes: Algarve Exportador, Ltd; Aliança Fabril Lacobrigense, Ltd; Alpapito Murtinheira, Arez & C.ª; António da Silva Freitas; Établissements F. Delory; Fábrica de Conservas S. Gerardo, Ltd; João António Júdice Fialho (Viúva e Herdeiros de); Joaquim de Azevedo Santana; José Gonçalves Nunes; Luz Industrial Ltd; Paolo Cocco.

Envolvidas neste processo surgiram actividades subsidiárias e sucedâneas das fábricas de conservas de peixe, como as fábricas de vazio que fabricavam as latas e os tampos, as fábricas de chaves para as latas, as litografias que imprimiam as caixas e os rótulos, e as fábricas de farinhas de peixe, entre muitas outras como as companhias de armadores de pesca. Quem frequenta a Meia Praia, numa parte do areal que antes correspondia à Praia de S. Roque, pode admirar as ruínas de uma antiga fábrica de farinha de peixe, propriedade de Francisco Brígido Gonçalves, que em Maio de 1956 obtém autorização da Direcção-Geral dos Serviços Industriais para aí instalar uma prensa hidráulica. 

O início do declínio das pescas, a inexistência de uma rede funcional de frio e a diminuição da competitividade comercial das conservas nacionais nos mercados estrangeiros, foram os principais factores que no final dos anos 70 do século XX anunciaram o fim da epopeia das fábricas de conservas no Algarve. Porém, a queda desta indústria não teve o impacto negativo que seria natural noutras conjunturas, mercê do desenvolvimento de outra indústria, mais moderna, que vende o Sol em praias e piscinas e substituiu as velhas fábricas por modernos hotéis, villas e apartamentos: o Turismo, que despontou nos anos 60 e se alcandorou a actividade destacada da economia algarvia. Dessas fábricas resta a nostalgia da azáfama a que o toque da sirene dava início.

Consultas:
- VASQUEZ, José Carlos, “Contributos para as Memórias de Lagos” – Grupo Amigos de Lagos, 2008
- JUBILOT, Andreia - Guia Arquitectónico de Olhão - Universidade do Algarve, 2004
- ANDRADE SANCHO, Emanuel , “Traje do Algarve – Orla Marítima”, Museu Nacional do Traje, 2001
- APOS – Museu Fotográfico de Olhão, em linha http://www.olhao.web.pt/museu_fotografico_de_olhao.htm
- SILVA, Marco – “Lagos no Anuário Comercial de Portugal, Ano de 1938”, em linha http://www.fcastelo.net/cemal/marco.html
- Boletim da DGSI – Ano VIII – Nº 389 – 13 Junho 1956
- “Mulher – Operária Conserveira” – Catálogo da Exposição – Câmara Municipal de Lagos, 2005

5 comentários:

Anónimo disse...

Excelente apontamento sobre o que foi uma das actividades industriais mais importantes da cidade, juntamente com a pesca. Permita-me umas quantas pequenas achegas, de pormenor.

Na fase das conservas de peixe cozido, a cozedura a vapor, a pressão, realizava-se em autoclaves de grande tamanho; o peixe, disposto em grelhas de arame, era enxugado ao ar, exposto ao sol, para não largar a pele durante a cozedura; as grelhas eram colocadas em suportes apropriados em grandes carros com rodízios (os carrões), que por sua vez entravam no interior dos autoclaves em calhas aí existentes. As caldeiras, onde era produzido o vapor, eram os equipamentos mais importantes das fábricas, e as fornalhas, com as suas altas chaminés de tijolo, a marca da sua existência.

Na descrição das sequências de fabrico, faltou referir que após a cravação as latas eram esterilizadas (em autoclave cilíndrico, vertical, qual panela de pressão de grande tamanho, sendo aí introduzidas, em grandes recipientes furados, através de guincho, durante uns anos ainda manual). E que em alguns casos as latas eram empapeladas, manualmente, embaladas com a chave de abertura, com papéis, por vezes revestidos de celofane, contendo estampados os rótulos e as marcas próprias dos fabricantes locais ou os dos importadores estrangeiros. A maioria da conserva para exportação, porém, era enlatada em latas sem qualquer revestimento, sendo empapeladas nos países de destino pelos importadores, recorrendo a processos maquinados, mais rápidos e de muito menor custo (mesmo atendendo aos baixos salários praticados em Portugal).

Não se fabricavam apenas conservas de peixe cozido, principalmente, de sardinha e de cavala. Também era fabricada, em menor quantidade, conserva de peixe estivado, nomeadamente, o biqueirão (as chamadas anchovas). E a cidade chegou a dispor, pelo menos, de três estivas: a estiva da grega (julgo que a S. João), muito antiga; a estiva do Paolo Cocco (onde hoje se localiza o Albergue ou Casa da Juventude), separada da fábrica de peixe cozido do mesmo proprietário que existiu pegada à muralha, junto do arco de S. Gonçalo; e a estiva do Reinaldo Assunção, funcionando na própria fábrica (fábrica da Ribeira/R. Assunção) e a estiva, propriamente dita, numa velha fábrica de S. Roque (que em tempos terá sido do Júdice Fialho).

O declínio da indústria conserveira, em Lagos como no resto do país, ficou a dever-se, essencialmente, à perda de competitividade nos mercados internacionais, quando começou a ser confrontada com os preços baixos da conserva oriunda dos países africanos mediterrânicos (principalmente, Marrocos, Algéria e Tunísia). Nem a diminuição das capturas nem a inexistência duma rede de frio (uma realidade quase inacreditável, a partir dos anos cinquenta, que fazia da indústria uma actividade sazonal) explicam cabalmente um tal declínio. Quando os industriais acordaram era já tarde: as independências africanas e o desenvolvimento desses novos países pelo recurso a indústrias de mão-de-obra intensiva e de baixos salários tratavam de disputar os mercados através do preço baixo.

Hoje subsistem, no país continental, meia dúzia de fábricas de conservas de peixe (nomeadamente, dos peixes tradicionais, sardinha e cavala), ou nem tanto. Apesar de serem unidades industriais modernas e relativamente bem equipadas, e dos seus produtos se diferenciarem pela qualidade quando comparados com a mixórdia importada com que nos deparamos nos supermercados, não conseguem expandir a produção, nem para o mercado interno nem para a exportação. Não se vê uma campanha de marketing realçando a qualidade daqueles peixes e a sua importância para uma alimentação equilibrada, enfim, não se vê uma gestão adequada à sobrevivência num mercado alargado e competitivo. Pode-se dizer que o declínio da indústria de conservas de peixe é o espelho da indústria do país. Parece que gostamos é de vender o que já existe feito, sol e praias de mar. Mas nem isso sabemos fazer bem, porque vamos destruindo a orla marítima e, aos poucos, nada teremos para vender.

JMC.

francisco disse...

«Na descrição das sequências de fabrico, faltou referir que após a cravação as latas eram esterilizadas (em autoclave cilíndrico, vertical, qual panela de pressão de grande tamanho…»
Faltou referir muita coisa, porque o breve e sintético artigo foi escrito para caber em duas páginas da agenda municipal de eventos “5entidos”, onde vou preenchendo a rubrica “Coisas de Cá”.

http://5entidos.net/site/index.php

E depois, as realidades mudavam de fábrica para fábrica. Por exemplo, nem sempre era usado um desses autoclaves cilindricos. Na fábrica do meu avô, em Olhão, isso não existia. E na fábrica do Abel Figueiredo Luís (antes, do Leal) o autoclave era rectangular com porta de elevação vertical, por contrapeso.

Em todo o caso agradeço a amabilidade do comentário e do contributo. Conheço praticamente tudo do que fala, pois ainda trabalhei na ALDIBEL e, obviamente, acompanhei os meus pais ao longo da sua vida profissional, toda feita na indústria conserveira (o meu pai foi afinador de máquinas durante mais de 40 anos e em 1930 já era soldador de vazio em Olhão). Portanto, caro JMC, sei perfeitamente do que fala.

Obrigado.
Saúde.

Anónimo disse...

Castelo.

Ainda bem que conheceu a indústria conserveira. Permite-lhe compreender melhor que a muita gente as fragilidades da indústria portuguesa e as causas do seu declínio.

A chamada de atenção para a esterilização foi apenas um pormenor que me saltou à vista na descrição que faztia das fases de fabrico, embora a operação esteja referida no texto noutro local. Os autoclaves de esterilização eram específicos, tivessem uma ou outra forma, para que as latas atingissem as temperaturas adequadas em pouco tempo e garantidamente, e por isso eram de menores dimensões, comparados com os da cozedura.

O seu pai foi soldador e afinador de máquinas, profissões importantes na indústria; o meu foi cravador; e minha mãe chegou a ser "visitadeira", que também saberá o que seja; os meus avós, todos os quatro, foram operários dessa indústria (meus avós paternos, anteriormente empregados do Francês, foram estrear a fábrica da Sociedade de Conservas Aldite, que daria origem, mais tarde, por fusão com a do Abel, à Aldibel, onde você trabalhou e, com o seu encerramento, minha mãe terminou a carreira de operária).

Embora já não vivesse aí na altura do encerramento das fábricas, não julgo que o declínio da indústria tenha sido assim tão suave. Com o encerramento de fábrica após fábrica, muito mulherio já não tinha idade para a indústria hoteleira, que na época também não criou tantos empregos, e remeteu-se a ficar em casa. Valeu a expansão da construção civil e a fixação de muitos reformados estrangeiros, que deu emprego a muitos camponeses dos arrebaldes, como pedreiros e serventes, e a muita nova mulher-a-dias; e depois a "indústria" caseira do aluguer de quartos e a expansão dos restaurantes, que serviam um turismo de tostões contados.

Mas não deixa de causar perplexidade o facto duma cidade com uma longa tradição industrial e piscatória se ter transformado, em poucos anos, numa cidade turística em que para além da prestação de serviços a única indústria palpável é a da construção de casario. Por esta gritante realidade, os residentes só poderão lamentar-se. Não têm como escapar à inevitável destruição da paisagem.

JMC.

francisco disse...

Caro JMC, subscrevo inteiramente a sua análise e apreensão acerca do modelo de (in)sustentabilidade económica baseado exclusivamente no sector (turismo/construção civil).

Certamente que a mudança não foi fácil para todos mas o que transparece do meu texto é que as dificuldades do desaparecimento da indústria conserveira não se fizeram sentir tão negativa e profundamente como poderia ter acontecido, justamente porque estava já em curso a explosão das actividades turísticas que muito rapidamente absorveram grande parte da mão-de-obra desempregada pela indústria. A minha também terminou a sua carreira com o fim da ALDIBEL. Nessa altura ficou apenas a laborar a fábrica do Pimenta, e por pouco tempo mais.

Bem lhe poderia contar as peripécias dos últimos momentos, em que os empresários recebiam já dinheiros que subsidiavam aquisição de nova maquinaria, muita das vezes inútil, como a que pesava a lata e a rejeitava não estando boa, substituindo a "batedeira" (função que a minha mãe desempenhou, a par de "visitadeira"); ou das máquinas suecas de descabeçar que não consideravam a variação de tamanho da sardinha e desperdiçavam no corte da cabeça ou do rabo... enfim... serão outros apontamentos que ficam por fazer.

Saúde.

Anónimo disse...

Caríssimo, acabo de chegar do facebook onde o tema foi despoletado.
Li o artigo e os comentários. Acrescentam muito à minha informação sobre o tema.
Para melhor compreendermos o declínio das conservas, um dos temas importantes aqui referido, é de considerar também, a par dos problemas de ordem tecnológica já aflorados outros problemas que os empresários da época tiveram que enfrentar. Refiro-me aos problemas da contratação de pessoal que resultam das alterações das regras do jogo após o 25 de Abril de 1974. Foi-lhes impossível compatibilizar a imprevisibilidade e a sasonalidade da pesca com os direitos da força de trabalho fabril que já não se compadeciam com a obediência ao toque das sirenes. A solução do frio para manter stocks capazes de sustentar as novas exigências parece não ter resultado e as consequências desta opção são pouco interessantes para a qualidade das conservas.
JG