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Saramanguito


O que escreveu não é suficiente. Saramago, na sua fria lucidez sabe que o fim está próximo e não quer deixar apenas a obra escrita como testemunho único da sua passagem pela vida. O ensaio do discurso verbal, essa atracção obsessiva que afecta quase todos os mestres da palavra escrita, serve-lhe o propósito de marcar uma posição. Vincar a coerência da sua visão do mundo, que expôs ao longo da sua obra escrita e que, pelas letras impressas chegou a meio-mundo. Agora, com a oralidade, alcança o outro meio. Saramago não quer partir amortalhado apenas nas páginas do que escreveu, exige o som da trombeta de guerra que é a sua voz rebelde. Rebelde contra um mundo atávico, de carneirada néscia que se deixa manipular por uma corja de velhacos. E essa trombeta anunciará a sua passagem para o além ou, como plausivelmente acreditará, a transição para o oblívio.
Deixei de o ler quando recebeu o prémio. Talvez por preguiça, talvez por achar que deixava de valer a pena dispensar atenções a algo que a sociedade devorava transformando em mainstream. Talvez tenha feito mal, ou talvez ainda não seja altura de ler todo o Saramago. Antes disso, li e gostei do Levantado do Chão e do Memorial, adorei o Evangelho e ri-me com a Jangada. Hoje, aplaudo este homem velho e cansado que tem razão de sobra para libertar a raiva que lhe vem de dentro. As sotainas diagnosticam-lhe ódio, eles lá sabem, conhecem bem esse sentimento.
Já eu, que concordo com as suas palavras sobre a Bíblia, digo: tais palavras só podem sair de alguém com profundo sentido religioso e humano; alguém que se encontra nos antípodas dos que imediatamente o criticaram, acusando-o de leviandade e ignorância. E pur si muove.

«A Bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade - A Bíblia passou mil anos, dezenas de gerações, a ser escrita, mas sempre sob a dominante de um Deus cruel, invejoso e insuportável. É uma loucura! (…) Deus só existe na nossa cabeça, é o único lugar em que nós podemos confrontar-nos com a ideia de Deus. É isso que tenho feito, na parte que me toca». José Saramago