António Barreto em entrevista

Breve, sobre a excelente entrevista a António Barreto no Observador, aqui

Dos mitos da reforma Agrária: «O mapa do Alentejo das ocupações é muito claramente o mapa das melhores herdades. E as leis, quando se dizia que serviam para penalizar os proprietários absentistas, fizeram uma coisa absolutamente miserável: penalizaram as benfeitorias.»

Politicamente, o povo português é infantil, para não dizer imbecil: «quando, por exemplo, nos debates parlamentares ou noutras ocasiões alguém diz “isto é a política da direita”, isso é um insulto. E passa como tal. Se for o contrário, “isso é de esquerda”, para a maior parte das pessoas é qualificativo.»

A estratégia é apoiar quem delapida o erário público e divide migalhas com os jornaleiros: «nos tempos que correm há uma tendência primordial de complacência com a esquerda. E há o contrário, há alguma predisposição pouco amigável com a direita. O bom momento que este Governo viveu neste ano e meio ficou a dever-se, em grande parte, à complacência, à cortesia, da imprensa em geral.»

Ai, sacrilégio, ter opinião própria e divergente da esquerdalha: «…conheço muito bem o programa político do PCP e do BE, o que quer que se faça com estes dois partidos é sempre com uma intenção: é mais um passo para chegar ao mesmo sítio. E esse sítio é “não Europa, não euro, não NATO, não democracia conforme a conhecemos”. E eu não quero isso, não quero fazer bocadinhos de caminho com alguém que não quer ir para o mesmo sítio que eu.»

Por isso é tão cobiçado e vilipendiado: «A única coisa sólida que há em Portugal é o Estado. Para se agarrar. Já há pouca cultura, há pouca economia, pouca empresa. Os partidos políticos olham para a economia mas, infelizmente, com muito más intenções. Houve corrupção por tudo quanto é sítio, isto é, partidos a tentarem encontrar uma base sólida de subsistência.»


sintonias

Sem me querer comparar ao magnífico escritor Reinaldo Moraes (até porque nem posso comparar-me com nenhum escritor), descobri agora que ambos produzimos em 2010 um par de textos religiosamente ímpios e iconoclastas, o meu aqui e o dele ali. Considerando plausível que outros milhares de criaturas terão feiro o mesmo por esse mundo fora, na mesma altura, será exagero chamar-lhe coincidência, antes uma simples sintonia genérica.

Desse autor, anoto, para uso futuro, as obras publicadas: 
Tanto Faz 
Pornopopeia
O Cheirinho do Amor
Umidades


o Incêndio Costa -Lacerda

O incêndio Costa-Lacerda
Henrique Raposo


«Num país que levasse a sério a transparência e a responsabilização, António Costa já estava politicamente destruído. Como se o nepotismo do negócio TAP (amigo Lacerda) não fosse suficiente, assistimos nesta semana a um desnorte inédito ao nível da estrutura do Estado. Agora percebe-se que a campanha eleitoral desastrada de 2015 que conduziu à sua derrota não foi um acaso: quando sai do círculo lisboeta onde é protegido por jornalistas, comentadores e senadores, quando é testado a sério, Costa falha. É incompetente. Mas a questão, como dizia há pouco, vai muito além desta semana. A tragédia de Pedrógão é a consequência de falhas graves do passado de Costa e do regime.

O tal Siresp foi recontratado por Costa em 2005. O problema aqui não é a mera incompetência ou falta de coragem para rasgar esta PPP que tem o dedo da PT, do BES, do BPN — algo que Costa partilha com outros ministros do PSD antes e depois de 2005. O problema, meus caros, é que Costa recontratou o Siresp num negócio que envolveu o amigo Lacerda. A sua carreira política devia ter morrido aqui. Não morreu. Costa é da esquerda lisboeta, ou seja, tem um salvo-conduto que o coloca acima do bem e do mal. Sucede ainda que os primeiros-ministros do PS têm o direito divino de trazer as suas amizades para o perímetro do dinheiro público.

Mas continuemos, porque o incêndio Lacerda também continua. Costa foi o ministro que desprezou o grande estudo feito neste século para a reforma do combate aos fogos. Um dos grandes especialistas, José Miguel Cardoso Pereira, escreveu nesse estudo o que agora é tragicamente evidente: não se pode concentrar tudo a jusante, no combate; é preciso retirar a proteção civil do combate ao fogo, é preciso criar um corpo de sapadores/engenheiros que trabalhe de janeiro a dezembro; como se faz no Chile, Espanha, Austrália, Califórnia, podemos fazer mais com menos dinheiro.

Como o próprio Ascenso Simões reconheceu, Costa desprezou o estudo e optou pela política voluntarista do combate, adjudicando, entre outras coisas, os helicópteros Kamov. Estes Kamovs, além de caríssimos, são inúteis. Ou seja, a incompetência de Costa surge de novo, mas vem acompanhada de algo ainda mais grave: nepotismo e eleitoralismo. Costa contratou os Kamovs num negócio que voltou a envolver o amigo Lacerda, desprezou o saber científico, cedeu ao mais fácil e ao mais telegénico: a foto ao lado dos grandes meios, que, segundo os especialistas, não resolvem o problema. Em resumo, tudo o que está errado no regime e no sistema de proteção civil cruza-se com Costa e com esta tragédia — talvez a maior desde as cheias de 1967.


Não falo de 1967 por acaso. Costa e Marcelo impuseram ao país uma atmosfera idêntica àquela que Salazar impôs em 1967: foi a natureza, nada podia ser feito, não houve erros técnicos ou políticos, fazer perguntas é antipatriótico, siga a banda. E muito jornalismo pactuou e pactua com a narrativa. Aliás, tem sido abjeta a forma como muitos media têm glorificado as lágrimas e abraços dos governantes, como se tivessem sido eles a sofrer a tragédia, como se tivessem sido eles a perder filhos, pais e avós. Está para lá do revoltante, é grotesco.»

Cosmopolita ou provinciano?

E eu, que não gosto de viajar, poderei ser um cosmopolita ou sou um irremediável provinciano - ou mesmo apenas um aldeão?!

«Ser da província ou ser provinciano não é a mesma coisa. Há provincianos nas grandes cidades e gente cosmopolita em aldeias. Uma aldeia pode gerar cidadãos com uma visão plural do mundo e uma cidade pessoas pequeninas na visão das coisas. O cosmopolitismo não corresponde à situação de se viajar muito, de se “conhecer” o mundo — há gente que viu o mundo todo sem ter visto mais que o próprio umbigo. O verdadeiro cosmopolita não precisa de dizer que foi à Argentina, que tem amigos em Sydney ou negócios em Xangai. Que tem casa em Paris ou passa férias na Toscânia. Que esteve um ano em Cape Town e escreveu histórias sobre a América profunda. O verdadeiro cosmopolita não se vê como um português que é mais “civilizado” que os outros. Que fez mais milhas, que fala mais línguas. O cosmopolitismo não corresponde a uma espécie de erudição feita viagem, comparando o cosmopolita com quem não é. O cosmopolitismo é acima de tudo, sentir-se bem em diferentes lugares, com diferentes pessoas, não renegando a própria identidade e exercendo a alteridade, gerando sobre as duas sucessivas oportunidades de alargamento. Assim, um cosmopolita não “vai ao estrangeiro”, pois, de alguma forma, vá onde vá, está sempre em casa e não precisa de o anunciar, repetidamente, a toda a gente.» – Jorge Barreto Xavier

como começar uma guerra

clicar para aumentar

os Nem Nem

clicar para aumentar

ADSE

Clicar para aumentar

Nem Lutero nem Francisco

Artigo interessante:


clicar para aumentar

O fim está próximo?


Se olharmos para a História facilmente percebemos que nunca a humanidade viveu tão bem, que nunca teve condições tão favoráveis para viver, ainda que subsistam grandes assimetrias entre a riqueza e a pobreza, ainda que decorram dezenas de sangrentos conflitos regionais, ainda que mais de metade da população dos países ricos viva sob angústias constantes, e igual número nos países pobres viva no limiar da sobrevivência. 

O espectro do pessimismo assola o planeta; seja à custa da ameaça da destruição total na Coreia, seja o derretimento das calotes polares, a fome no mundo, os ataques terroristas, ou a crise económica, cultural e política; tudo factores que nos fazem temer o fim da humanidade. Porém, um cientista e investigador destes assuntos, Max Roser, argumenta que se olharmos para os últimos dois séculos temos muitos motivos para estarmos optimistas com os rumos que tomámos, ainda que qualquer pesquisa científica feita num vasto universo de inquiridos traduza como resultado a firme convicção de que o mundo está a ficar pior (assim aconteceu recentemente com 18 mil inquiridos na Grã-Bretanha). 


Mas se admitirmos que um mundo melhor significa um mundo com mais saúde e educação, menos pobreza e menos mortes, Roser tem razão. Para saber mais consultar o estudo aqui. 


Porém, e não obstante essas conquistas da ciência, da tecnologia e da civilização, não devemos ignorar as reflexões daqueles que pensam sobre o mundo e a vida, reflexões pertinentes que abordam a natureza e o comportamento dos humanos.


«O mal e o remédio estão em nós. A mesma espécie humana que agora nos indigna, indignou-se antes e indignar-se-á amanhã. Agora vivemos um tempo em que o egoísmo pessoal tapa todos os horizontes. Perdeu-se o sentido da solidariedade, o sentido cívico, que não deve confundir-se nunca com a caridade. É um tempo escuro, mas chegará, certamente, outra geração mais autêntica. Talvez o homem não tenha remédio, não tenhamos progredido muito em bondade em milhares e milhares de anos sobre a Terra. Talvez estejamos a percorrer um longo e interminável caminho que nos leva ao ser humano. Talvez, não sei onde nem quando, cheguemos a ser aquilo que temos de ser. Quando metade do mundo morre de fome e a outra metade não faz nada... alguma coisa não funciona. Talvez um dia! José Saramago, in La Verdade (1994)»

Morrer entre Brutos

Foto: Rui Oliveira/Global Imagens

«Nações menos infantis não descansariam até varrer os demagogos que celebram glórias imaginárias e fintam as desgraças autênticas. Portugal, não. Portugal respeita os mortos, leia-se espera que os vivos não perturbem a “estabilidade”. Portugal observa prioridades, leia-se deixa arrefecer o assunto. Portugal não cede à baixa política, leia-se permite a impunidade geral. Portugal está unido, leia-se criou-se um ambiente hostil a questões desagradáveis. Portugal, repete-se, é uma nação muito forte, leia-se um recreio de oportunistas, desnorteados ao primeiro assomo da realidade.»

artigo completo aqui

a língua portuguesa, a língua "brasileira" e o tradutor do google

Nem pensar em usar o Google Tradutor para traduzir um parágrafo de português para qualquer outra língua, pois aquela ferramenta não reconhece a nossa língua. Embora figure lá “português” trata-se de “brasileiro”, com todas as diferenças lexicais, sintácticas e semânticas em relação à nossa língua. Por isso sai merda de pasmar daquelas traduções.

Os brasileiros bem podiam dar um autêntico grito do Ipiranga e declarar a existência da língua brasileira. Dessa forma, sempre declaravam unilateralmente a sua independência em relação aos “colonialistas” portugueses. É aquela questão do Brasil não ter conquistado a sua independência lutando, pois ela foi-lhes outorgada pela potência colonizadora – caso singular na América Latina. 

Claro que quando algum português afirma que os brasileiros não falam português mas brasileiro é imediatamente alvo da chacota de outros portugueses que se acham cultos, porque toda a gente sabe que a língua oficial do Brasil é o português. Ora isto é exactamente a diferença entre a realidade e a pseudo-sabedoria, realidade que esses “inteligentes” desconhecem. Perguntem aos actores portugueses a trabalhar no Brasil se não têm de adoptar rapidamente o vocabulário, e até alguma pronúncia brasileira (ou abrasileirada), para se fazerem entender em terras de Vera Cruz?! Mas os nossos “inteligentes” acham que os brasileiros nos entendem como nós os entendemos a eles (por força da literacia auditiva brasileira que as telenovelas têm inculcado por cá durante décadas), o que não é verdade. E por outro lado nem querem ouvir falar em abrir mão da posição que ocupamos no ranking das línguas mais faladas no mundo; uma rematada palermice.

Acho que lhes ficava bem, aos brasileiros, imporem a diferença da sua língua, uma língua dinâmica, rica e que, nós portugueses, temos a sorte de compreender, uma língua muito semelhante à nossa porque é dela derivada, mas diferente na prática do quotidiano e até nas aplicações mais cuidadas, como o uso no meio científico e na literatura onde ocorrem, com frequência e variedade, adaptações de estrangeirismos e, sobretudo, aquela sintaxe tão diferente da nossa.

Sou a favor da definição diferenciada das línguas faladas em Portugal e Brasil, e como português não me assustaria nada, nem acharia redutor, que a língua portuguesa deixasse de ser a 6ª mais falada do mundo e passasse para o 50º lugar desse ranking de línguas. Afinal de contas existem apenas 59 milhões de falantes de italiano e no entanto a cultura italiana é uma referência mundial - sem necessidade de evocar e contabilizar o contributo da civilização romana da qual os italianos são os mais directos herdeiros.

Ora, verificando-se que os brasileiros não vão dar esse renovado e autenticamente merecido grito do Ipiranga, porque se estão borrifando para esta questão, a alternativa seria darmos nós, portugueses, o grito libertador, que até podia ser o grito do Ega (um afluente do Mondego, rio 100% português), libertando-nos dessa opressora língua brasileira (ou, para nós portugueses, português de terceira categoria). Mas isso nunca faremos porque o povo português é bacoco e, muito naturalmente, é dirigido por bacocos.

Entretanto, lá vou recorrendo ao inglês e ao francês, e cagando para a dita língua portuguesa do Google Tradutor.

a rémora

rémora juvenil fotografada na Meia Praia em 2017.04.15


A rémora é um peixe sem considerável critério próprio pois limita-se a ser conduzida pelo seu hospedeiro/transportador, revelando uma existência assente num manifesto oportunismo. Anima-a episodicamente um elementar sentido de sobrevivência que suscita um movimento rápido para voltar a prender-se ao hospedeiro quando, por algum motivo acidental, se desprende dele. São, pois, esses “golpes de rins” bruscos e salvíficos a sua única manifestação digna de registo. Nesse particular lembra alguns políticos de segunda categoria que só se mantém quando agarrados a um hospedeiro/condutor e que, logo que se perdem destes, ou os abandonam por qualquer motivo, acabam por dar à costa depois de uma aflitiva e exaustiva busca por um novo patrono.
A rémora da Meia Praia era apenas um juvenil cansado e confuso que insistia em acometer para o areal, indo ao encontro da morte, mau grado as tentativas realizadas de a levar de volta a águas mais profundas.
Neste giro infinito de comportamentos básicos que animam todas as espécies do reino animal resta-nos considerar que são os humanos, com a sua capacidade de desempenho racional e irracional, que copiam os seres mais elementares da Natureza, e não o contrário. 
Conheço muitas rémoras que por aí andam, à boleia, mas esta foi a primeira vez que fotografei e filmei uma do universo aquático.

do passado

«O passado é indispensável
Embora o passado seja algo de terminado, há duas razões que o tornam indispensável para compreendermos o que estamos a vivenciar e o que nos espera amanhã e depois. A primeira é que a população mundial é aproximadamente 7% de todos os seres humanos que já viveram. Por outras palavras, há mais mortos do que vivos, catorze para um, e é perigoso ignorarmos a experiencia acumulada de uma maioria tão grande da humanidade. Segundo, o passado é a nossa única fonte de conhecimento verdadeiramente fiável sobre o presente fugaz e sobre os múltiplos futuros que temos pela frente, dos quais somente um se concretizará.»
                                                  Niall Ferguson, Civilização - O Ocidente e os outros


Pode parecer pouco, 14 mortos para cada vivo, mas se fizermos contas verificamos que é um número muito plausível. Basta multiplicar a população actual - 7,5 biliões - por 14 e obtemos aquilo que será o número de seres humanos que viveram antes de nós.



da Beleza

«O Mestre de Cerimónias dirige-se ao altar do 2º Vigilante, iluminando-o, e este dá uma pancada com o malhete e diz: - Que a beleza ornamente os nossos trabalhos.»

A Beleza nunca foi algo de absoluto e imutável, pelo contrário assumiu formas diferentes segundo a cultura de cada período histórico e de cada região, quer na apreciação do homem ou da mulher quer na dos objectos, dos animais e das paisagens, ou mesmo a beleza das ideias e, até, da divindade.

Por vezes, num mesmo tempo histórico a beleza é abordada de forma muito diferente consoante é retratada pelos pintores e escultores ou pelos escritores. Basta pensar como um ser alienígena interpretaria a noção de beleza feminina se deparasse simultaneamente com uma pintura de Almada Negreiros e uma descrição literária de Camilo Castelo Branco, ainda que estes autores não tenham coexistido no tempo (Camilo morreu em 1890, Negreiros nasceu 3 anos depois).

Do Almada refiro-me a uma daquelas mulheres matronas, cubistas e debruçadas sobre si, contendo o mundo em si. Do Camilo, a pormenorizada descrição de uma Isaura que, cito: «… não é alta. Pertence àquela estatura que chamam mediana, a mais regular, a menos defeituosa, (…) [os cabelos] Negros e luzentes, levemente ondeados, nus de enfeites e ataviados com comodidade, e gentileza. Duas grandes tranças lhos dividiam, para se entrançarem de novo, presas em duas grossas roscas por travessas. Quando as soltava, as duas serpentes ondeavam-lhe por sobre as espáduas até à cinta. (…) [as sobrancelhas] irrepreensivelmente curvas, dividem-se por uma incisão quase imperceptível: longas, negras, e bastas. As pestanas, se ela descai as pálpebras naquele pendor da meiguice natural, quase lhe quebram a luz dos olhos, alindando-os, se é possível, ainda mais. (…) [os olhos] Meigos e vertiginosos. Reflectem a luz frouxa das paixões suaves, e as labaredas cintilantes das paixões escandecidas.».

Ora, na sociedade ocidental é o ideal masculino que pontifica, um ideal preso ao instinto sexual que explica e justifica o apreço pelos traseiros femininos proeminentes, com reservas de gordura para a gestação, os quadris largos que facilitam o parto, e os seios fartos para amamentar. E contra isto pouco pode a moda, contra essa memória táctil dos homens que por muito que apreciem uma mulher linda e magra jamais esquecerão a diferença entre estreitar nos seus braços uma cintura feminina que deixa revelar os ossos ou uma cintura substancial, bem mais voluptuosa.

As sociedades modernas ocidentais estabelecem ainda uma relação entre beleza física, inteligência e poder económico, ou seja, cultiva-se a crença de que uma pessoa bonita tem mais capacidades e mais sucesso. Dos feios considera-se sempre que são pobres, rudes, e falhos de êxito. Tal preconceito ainda amplia mais as dificuldades de ascensão social dessas pessoas; o poeta Vinicius de Morais já tinha escrito a respeito das mulheres: «as muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental.».

As preocupações com o Belo já vêm de longe. Platão terá sido um dos primeiros pensadores a formular a pergunta “O que é o Belo?”, empreendendo uma resposta ampla e cabal em que o Belo é identificado com o Bem, a Verdade e a Perfeição.

Assim, ao conceito de beleza atribuiu uma natureza autónoma, separada do mundo sensível, justificando que uma coisa é mais ou menos bela dependendo da sua inscrição/participação na ideia suprema de beleza; e criticou a arte que se limitava a copiar a natureza ignorando a beleza que o mundo das ideias contém. Mas se Platão ligou a arte à beleza, Aristóteles separou-a, anunciando que a arte é uma criação especificamente humana, e que o Belo não pode ser desligado do homem pois existe neste intrinsecamente.

Na Idade Média o cristianismo fundou um conceito de Beleza identificando-a com Deus, o Bem e a Verdade. E por aqui se seguirá durante séculos, numa colagem excessiva da ética à estética. Santo Agostinho acorrentou a beleza à harmonia, evocando o concurso da unidade, do número, da igualdade, da proporção e da ordem; reiterando que a beleza do mundo não é mais do que o reflexo da suprema beleza de Deus. Por sua vez, São Tomás de Aquino ligou-a ao Bem e à observância de determinadas condições fundamentais: Integridade ou Perfeição; Proporção ou Harmonia; Claridade ou Luminosidade; uma vez mais identificando a beleza com Deus.

Entre os séculos XVI e XVIII as academias impõem as estéticas aristotélicas e as suas regras visando alcançar a perfeição na arte, ainda que na segunda metade do séc. XVIII comecem a emergir ideias que proclamam a subjectividade do Belo. É o tempo em que as sociedades europeias atravessam grandes convulsões, com o início da revolução industrial e as importantes alterações políticas verificadas na América e na França. Nesta conjuntura de efervescências novas ideias despontam e a questão do Belo é equacionada como um problema de gosto.

E neste contexto surge Immanuel Kant, o criador do pensamento que embasa a estética contemporânea. Para este filósofo do séc. XVIII os nossos entendimentos estéticos têm fundamentos subjectivos dado que não se podem apoiar em conceitos pré-determinados. E assim, o critério de beleza que neles se exprime é o do simples prazer que nos acomete. A universalidade do Belo passa a ser subjectiva, como subjectivo é o juízo do gosto.

«Continua a ser verdade que, ao julgar belo um objecto, consideramos que o nosso juízo deve ter um valor universal e que todos devem (ou deveriam) partilhar o nosso julgamento. Mas como a universalidade do juízo do gosto não requer a existência de um conceito a que e deva adequar, a universalidade do belo é subjectiva: é uma pretensão legítima da parte de quem exprime o julgamento, mas não pode assumir de maneira nenhuma o valor de universalidade cognoscitiva. “Sentir” com o intelecto que a forma de um quadro de Watteau que representa uma cena galante é rectangular ou “sentir” com a razão que cada gentil-homem tem o dever de oferecer ajuda a uma mulher em dificuldade não é o mesmo que “sentir” que seja belo o quadro que está a ser examinado: de facto, neste caso, tanto o intelecto como a razão renunciam à supremacia que respectivamente exercem no campo cognoscitivo e no moral, e metem-se em jogo livre com a faculdade imaginativa, segundo as regras ditadas por esta última.» ECO, Umberto – História da Beleza (p. 264)

Embora se reconheça, então, a incapacidade da Razão em impor os seus valores sobre esta matéria tão subjectiva que é a definição do Belo, ela (a Razão) não está afastada da discussão; mormente pela mão daquele eminente filósofo que consegue inscrever parcialmente essa natureza vaga nas regras da Razão.

Ainda no século XVIII ganham força as noções de génio, gosto, imaginação e sentimento e assiste-se à construção do conceito Sublime. Uma vez que o Belo é uma expressão da liberdade, sentimo-nos livres na beleza porque os instintos sensíveis estão em harmonia com a lei da razão; já o sentimento de liberdade no sublime deriva do facto dos instintos sensíveis não terem influência sobre as leis da razão, porque aqui é o espírito que age autonomamente. Esta aparente contradição mais não espelha do que o dualismo da natureza humana.

Em seguida, os românticos exploram as dualidades, nomeadamente a anterior entre Belo e Sublime, e levam mais longe essa constatação da natureza dual, da ocorrência dos géneros, na nossa qualificação estética do mundo: beleza e melancolia; coração e razão; reflexão e impulso coexistem, sendo essa coexistência encarada como natural.

O Séc. XIX trará consigo uma autêntica religião da beleza, emoldurada pela efémera época de ouro do Ocidente: o período vitoriano em Inglaterra, o Segundo Império em França, o pontificado das virtudes burguesas e o despontar do capitalismo. Neste ambiente os artistas arriscam e avançam quebrando todas as normas, procurando o inusitado, o excêntrico, o inalcançável, ofendidos e talvez assustados pelas máquinas que oferecem a pura funcionalidade de novos materiais. Em parte, como reacção a essa uniformização e democratização galopantes, artistas como Courbet, Monet, Manet, Cézanne e outros rompem com os cânones e as convenções do academismo, anunciando a eclosão da arte moderna.

E no século XX sucedem-se as rupturas e explode uma multiplicidade de novas manifestações criativas. Surgem as artes decorativas, a art naif, a arte dos povos primitivos coevos, o artesanato rural; a Fotografia, o Cinema, o Design, a Rádio, etc.

Por outro lado, assiste-se a uma permanente insistência desconstrutivista em relação a todas as categorias estéticas: os conceitos e as fronteiras entre as artes são contestados; a arte é dessacralizada e perde a sua carga mítica e iniciática, tornando-se frequentemente um simples produto de consumo.

Neste ambiente, as estéticas normativas concebem uma beleza fundamentada em princípios inalteráveis, como a estética fenomenológica de Husserl; as estéticas marxistas e neomarxistas que vincam marcadamente a sua orientação sociológica; ou a estética informativa que procura sistematizar a avaliação da componente inovadora presente em cada obra de arte; mas é na estética das ciências que os ideais de beleza alcançam um discurso tanto mais revelador quanto inesperado. Raul Penaguião, um jovem matemático português, de 18 anos, dizia em 2012: «…a Matemática aplicada não me entusiasma muito, entusiasma-me a beleza das ideias matemáticas, pelo que quero seguir Matemática pura e investigação, e não tanto o quanto se relaciona com a realidade, pois nesse relacionamento perde-se muito: já dizia Albert Einstein, “Se as leis da Matemática se referem à realidade, elas não estão correctas; e, se estiverem correctas, não se referem à realidade”.»

Eis como ideia do Belo se impõe de uma forma tão óbvia aos valores concretos da realidade, reafirmando que a vida também encontra sentido numa componente subjectiva que existe para além do universo material.

Nós, seres humanos, temos necessidade de procurar ou criar a beleza, não só para recreação intelectual mas sobretudo porque ela é um guia para a vida, mesmo que o seu conceito dependa apenas de uma noção pessoal de harmonia.



Fontes consultadas:
- BOHM, Camila Camacho - UM PESO, UMA MEDIDA - O padrão da beleza feminina apresentado por três revistas brasileiras, Universidade Bandeirante de São Paulo -São Paulo, 2004
- ECO, Umberto – História da Beleza, Ed. Difel, Lisboa 2005
- GUATIMOSIM, Bárbara Maria Brandão - O BELO E O SUBLIME, Psicanálise & Barroco em Revista v.6, n.3: 48-59, jul.2008
- LINO, Alice de Carvalho - Considerações kantianas sobre os Gêneros - PADÊ: estudos em filosofia, raça, gênero e direitos humanos, UniCEUB, FACJS Vol.2,N.1/07. ISSN 1980-8887
- LINO, Alice de Carvalho – Belo e Sublime: A Mulher e o Homem na Filosofia de Immanuel Kant – Universidade Federal de Ouro Preto, 2008
- PENAGUIÃO, Raul “entrevista em 2012” http://caras.sapo.pt/famosos/2012-09-09-raul-penaguiao-entusiasma-me-a-beleza-das-ideias-matematicas
- SATIE, Luis - Estética e ética em Kant - Escola Superior de Administração Fazendária, Filosofia Unisinos, 2009
- VALENTE, Mariana – A Beleza das Ideias na Educação Científica – Centro de Estudos de História e Filosofia da Ciência, Departamento de Física, Universidade de Évora. Comunicação ao Seminário transdisciplinar “Currículo, Didáctica e Formação de Professores”- Évora, Maio, 2014

Tanto poeta e ninguém os ouve

Tanto poeta e ninguém os ouve
por Ana Cristina Pereira Leonardo

Tendemos a esquecer que o racismo já foi teoria que se pretendeu científica. E tempos houve em que as mulheres eram talvez, como os bichos, desprovidas de alma. A obra publicada entre 1853 e 1855 pelo Conde de Gobineau, “Ensaio sobre a Desigualdade das Raças Humanas”, fez escola nos salões europeus mais respeitáveis (sobretudo germanófilos) até acabar por chegar às mãos de Hitler que do seu título retirou matéria inspiradora, embora, paradoxalmente, não se possa dizer que o “Ensaio...” seja especialmente anti-semita ou nutra qualquer fé descabelada no papel dos arianos. Quanto às mulheres, já Paulo de Tarso as mandava estar caladas no culto e ainda agora o tão progressista Papa Francisco reafirmava que aquelas que quisessem ser ordenadas padres, melhor seria que fossem pregar para outras missas. O apartheid acabou na África do Sul em 1994 – sublinho, 1994. A homossexualidade foi doença encartada até 1990 – sublinho, 1990 – quando a Organização Mundial de Saúde a retirou finalmente da lista de doenças mentais. O casamento entre pessoas do mesmo sexo é reconhecido numa vintena de países e contam-se no mundo 193 países – sublinho, 193 – com assento na ONU (no início do século XX existiam à volta de 60 – o que significa, entre outras coisas, que os nacionalismos triplicaram em pouco mais de 100 anos). Em cerca de 50 deles a pena de morte continua em vigor e em quase uma vintena de outros não foi abolida da lei apesar de não ser aplicada há tempo considerável (alguns desses países fazem risivelmente parte do Conselho de Direitos Humanos da ONU). Entretanto, os conflitos armados adquiriram a peculiar particularidade de contabilizar cada vez mais vítimas civis: segundo o International Institute for Strategic Studies, enquanto na I Guerra Mundial estas representaram menos de 5% dos mortos, 75% é hoje a percentagem que cabe aos não combatentes (feridos incluídos). Quanto a refugiados e deslocados de guerra, a Agência da ONU para os Refugiados calculou um total de 65,3 milhões em 2015, uma em cada 113 pessoas do planeta, 51% crianças. No mesmo ano, a Organização Internacional do Trabalhou somou 197,1 milhões de desempregados, 27 milhões acima dos níveis anteriores à crise (para 2016 previu um acréscimo de 2,3 milhões).
“O medo vai ter tudo” escreveu Alexandre O’Neill na década de 60 do século passado. E antes dele T. S. Eliot: “Vai, vai, vai, disse a ave / O género humano não pode suportar muita realidade”. E ambos há muito mortos, Donald Trump foi eleito presidente da América.

Retirado do Facebook: porque nenhuma rede social é integralmente lixo ou coio de incultos e burgessos - embora por lá façam escola como acertadamente denunciou Umberto Eco

ainda a porcaria do AO90


O Doutor RUI MIGUEL DUARTE comenta as posições revisionistas do AO90 de Ana Salgado (Academia das Ciências de Lisboa). Aqui


POLITICAMENTE CORRECTO

O POLITICAMENTE CORRECTO E A DESTRUIÇÃO SOCIAL

Temos assistido ao longo das últimas décadas ao crescimento desmesurado do poder dos conceitos assentes no politicamente correcto, numa mirabolante “defesa do pluralismo”; conceitos que têm prejudicando mais do que beneficiado a sociedade hodierna, particularmente pelas formas como esses conceitos vêm sendo aplicados: num total desrespeito pela herança cultural, pelos costumes e pelas instituições basilares, como é o caso paradigmático da Família e do seu importante papel na estrutura social.

Sabemos como é inútil tentar contrariar a inexorável marcha do tempo, a evolução mental e o progresso social da Humanidade, que não pode ficar agarrada a um momento da história, a uma realidade social estática, a uma estagnação da sua caminhada; mas também não é aceitável construir a mudança, o progresso, de forma artificial desrespeitando a dinâmica natural do pulsar dos indivíduos e das sociedades. É que as conquistas humanas devem mais ao reformismo e à evolução paulatina e serena do que às revoluções, tantas vezes geradoras de retrocessos em vez de avanços.

Com o pretexto de combater e erradicar o preconceito tem-se vindo, afinal de contas, a fabricar e a alimentar novos preconceitos. Em vez de se suscitar a reflexão e a discussão sobre os problemas, impõe-se draconianamente a aceitação incondicional de tudo aquilo que é diferente, condenando os valores, até então, válidos e íntegros, forjados, testados e adoptados na longa marcha edificadora das sociedades.

Mesmo os indivíduos de sólida formação intelectual e moral acabam por colaborar nesta dinâmica tresloucada e destruidora, sendo forçados a aceitar comportamentos torpes, intelectualmente desonestos, amorais e anti-éticos, sob o pretexto de configurarem direitos humanos de minorias que, sendo diferentes, têm de ser respeitados. A isto chamam Pluralismo, uma realidade assente na destruição dos valores tradicionais e na emergência do singular e minoritário como mais importante do que o plural e maioritário.


É nesta realidade ensandecida que vivemos actualmente, com governantes impondo por decreto o modo como nos devemos comportar, e quanto devemos pagar para suportar e alimentar esse inusitado pluralismo que despreza a maioria dos cidadãos contribuintes (os empreendedores activos e, afinal de contas, os motores da sociedade); e tudo isso em prol de cidadãos invulgares, inactivos, não contribuintes e não empreendedores, tudo isso em nome de uma suposta solidariedade humana. O Estado, dito Social, estica uma corda que tem pouca elasticidade, e os artistas deste circo parecem não saber disso ou não querer saber. Por isso me pergunto se isto é uma actuação racional? E interrogo-me, igualmente, sobre quem ganha com estas diatribes, já que nem os que sustentam esta situação, nem os que dela parcialmente usufruem, verão no futuro a sua vida melhorar ou os seus problemas resolvidos?!

Doenças nacionais

«Dias depois de eu ter escrito «“Coisar” coisas inteligentes» Robert Skidelsky, renomado economista, professor, “lord”, biógrafo de J.M.Keynes,…esteve cá para participar no Festival Internacional de Cultura de Cascais, palestrou e deu uma entrevista. Do que discreteou, destaco
• no cravo — “a política de estímulos ao rendimento que o governo iniciou é demasiado tímida para ter efeitos visíveis na retoma. É uma escala muito, muito pequena. Quando se tem um nível de hiato do produto [distância entre o crescimento verificado e o potencial da economia] desta dimensão, subir pensões num montante mínimo não funciona. É preciso gastar muito dinheiroSe a ideia é estimular a economia com dinheiro público então é necessário mais dinheiro. Muito mais dinheiro, e a uma escala europeia. Tem de o fazer com grande impacto. Um pequeno país não pode fazer muito por si só. Tem de ser algo à escala europeia: tem de ser um programa de investimento europeu muito, muito grande
• na ferradura  “Portugal, como pequeno país na Zona Euro, só tem duas estratégias: ou aguenta e espera que as reformas do lado da oferta [muitas vezes referidas como reformas estruturais] tenham efeitos no tornar o país mais competitivo, e [ao mesmo tempo] espera por ajuda – a que conseguir das instituições da Zona Euro – ou opta por sair da Zona Euro com outros países, e ganha um instrumento adicional que é a taxa de câmbio”»

Artigo completo aqui

Lagos em meados do Séc. XIX


Lagos em meados do séc. XIX
por Francisco Castelo
(transcrição com adaptação de um texto de 1860, de Inácio de Vilhena Barbosa)

A meio dos anos mil oitocentos Lagos tinha uma população de 8.400 habitantes, sendo a segunda cidade do reino do Algarve.

Erguendo-se sobre três colinas existentes na margem direita de um pequeno rio (com cerca de meia légua de extensão), a cidade está situada na face ocidental de uma grande baía que recebe o nome da cidade. A barra do curso de água que forma o porto da cidade é defendida pela fortaleza da Ponta da Bandeira, que serve de registro, e pelo forte da Meia Praia. Para defesa da baía há diversos fortes em melhor ou pior estado de conservação, sendo o principal a fortaleza do Pinhão, edificada primitivamente em terra firme, e que ainda nos princípios do século passado [XVIII] formava uma península, mas que actualmente está cercada de mar, e arruinada, passando pequenas embarcações entre ela e terra. Outra fortaleza que se fez em frente a esta, para a substituir, também foi arruinada pelo mar. A barra, que há cem anos [c. 1750], apresentava sete a oito braças de fundo, agora apenas tem uns dez palmos.

A cidade tem duas paróquias: Santa Maria, que é matriz, e S. sebastião. A primeira encontra-se estabelecida na igreja da Misericórdia, desde o sismo de 1755 que destruiu a anterior igreja matriz [de Santa Maria da Graça]. A tentativa de reerguer o templo ficou-se pelas meias paredes tendo a obra parado aí e o espaço sido usado como cemitério nos tempos sequentes. A segunda paróquia foi edificada numa colina da cidade. É um grande templo de três naves, de fundação muito antiga, e reconstruído por D. João II que lhe trocou a invocação primitiva de Conceição pela de S. Sebastião, por ser este santo padroeiro o advogado contra a peste que então assolava todo o Algarve. Existem ainda a igreja de Santo António, que é capela militar, e várias ermidas. O edifício outrora ocupado pelo trem e igreja de Stª Bárbara serve agora de quartel militar; e a antiga igreja de S. Brás, e a de Nossa Senhora do Porto Salvo, construída no séc. XVI por comerciantes italianos que vieram estabelecer-se em Lagos, acham-se transformadas em armazéns de arrecadação pertencentes ao quartel. Lagos possuía também quatro conventos. O das freiras carmelitas, de Nossa Senhora da Conceição, fundado em 1554, bastante danificado em 1755 e reconstruído depois. O dos frades franciscanos, edificado em 1560; o dos frades trinos, fundado em 1599; e o de S. João de Deus, em que se estabeleceu um hospital militar, levantado em 1696.

A cidade conta com quatro praças e algumas ruas boas, porém as outras são estreitas e tortuosas, e todas mal calçadas. Um aqueduto, obra de D. Manuel, conduz bom caudal de água vindo do Paúl. Percorrendo uma extensão de 410 braças, abastece a povoação e fornece aguada aos navios. Para este fim existe um chafariz junto à Porta Nova e da muralha, que cai sobre o rio.

Lagos é praça d’armas e a sua primeira fortificação data do reinado de D. Afonso IV, ou talvez do tempo de D. Diniz. Constava de uma cerca de muros com torres e portas. Nos fins do séc. XVI, inícios do séc. XVII, edificou-se nova cerca de muralhas, que ao presente se conserva, com oito portas e catorze baluartes. Para o lado do rio tem as portas de S. Gonçalo, do Cais, de S. Roque, e Nova, e cinco redutos. Para o lado de terra tem as portas de Portugal, do Postigo, de Quartos, e da Vila, e nove baluartes.

Lagos exporta cereais e legumes, muitos figos, algum vinho, aguardente, muito peixe salgado, azeite de oliveira e óleo de peixe, e diversos produtos de palma e de fio de piteira. Embora possua uma agricultura que em certos anos regista boa produtividade, as pescas são a actividade principal. Empregam-se nelas muitas embarcações e centenas de pescadores que não limitam a sua actividade ao Algarve mas demandam, também, Marrocos. A pesca do atum assume grande importância. A feira anual realiza-se a 12 de Outubro.



alguns comentários no FB


Proibição do uso do Burquíni em praias francesas
A questão não é essa, da igualdade de direitos e tratamento igual (de que tanto nos orgulhamos de cultivar) mas sim a conotação com um momento de afirmação do islamismo radical, via terrorismo. Se as mulheres muçulmanas tivessem aparecido nas praias europeias com estas vestes há 10/15 anos, ninguém contestaria tal facto; hoje, tem outra conotação (senão mesmo um motivo intencional), nos tempos correntes tem uma leitura que eu e muitos outros europeus (não islamitas) fazemos: a sintonia com o islamismo radical.
Para muitos não muçulmanos, como eu, um hipotético islão moderado não oferece nenhuma credibilidade, apenas verificamos a existência de islamitas terroristas e islamitas não terroristas mas que toleram os primeiros. Portanto, todas as atitudes que visem contrariar e diminuir o impacto social, político e religioso do islão na Europa, são bem-vindos. Neste momento, os islamitas afiguram-se como sub-humanos aos olhos de muitos europeus, se isso é resultado de uma actuação passada errada ocidental ou particularmente resultado de uma cultura obscurantista, retrógrada, ofensora dos valores humanistas ocidentais, como parece ser a postura da cultura islamita, esse é um aspecto de importância secundária.
Eu até posso estar errado nalguns aspectos (e como eu, outros milhões), mas este é o sentimento crescente entre os herdeiros da dita cultura ocidental e é, em grande parte, com base nele que vai ser tecida a relação futura com a anomalia islâmica.

Sobre Relvas
O homem já tinha explicado que ninguém o cumprimentava nos ministérios quando ia visitar algum ministro, depois do título passou a ouvir: - Bom dia Sr. Dr.! É razão mais que suficiente para ter arranjado um canudo que não valia menos do que aqueles das novas oportunidades ou daqueloutros obtidos com notas votadas em plenários nos pós-25 Abril. A merdaleja continua, quer lhe tirem o canudo, quer não.

Dar voz aos imbecis
Mais uma carrada de imbecis, que nem sabem o que lêem no Facebook, nem quando foi escrito ou dito, nem em que contexto. O Umberto Eco tinha razão: as redes sociais dão voz aos imbecis, e temos de viver com isso. Não me esqueço dos parvalhões que se insurgiram contra o Henrique Raposo quando nem leram integralmente o texto que ele escrevera - sobre os algarvios; e mais tarde o livro sobre alentejanos. É a imperiosidade da afirmação "Eu existo!" aliada ao efeito rebanho.

Sobre a escola de hoje
Sem réguas e ponteiros de castigar a escola perdeu a essência poética. Como perdeu o calor humano desse contacto físico breve entre carnes e madeiras, correctivo que se expandia frequentemente por um ou dois parceiros e ricocheteava nas paredes com aquela intensidade exacta que garantia a recordação para a eternidade. Isso, sim, eram escolas que marcavam para a vida. Hoje, a escola é um amontoado de carne indistinta e amorfa para serviço dos macdonalds locais. :D

«O país não promove o mérito, é o país exemplar da mediocracia, o poder da mediocridade, na política, nas empresas e em muitas outras áreas. Com a mediocridade doce no poder político, económico e desportivo & etc., com a corrupção mais suave do mundo, com um sistema legal-judicial que deixa passar os crimes de colarinho, com dias bonitos e paisagens espectaculares -- quem quer mais?» Justíssimo retrato de Portugal por Eduardo Cintra Torres

dos grunhos

Este país é grunho porque os portugueses são grunhos. Século após século continua a ser o país dos três éfes: Fátima, Fado e Futebol, e isso diz tudo acerca desta gentalha obnóxia. Não quero saber das excepções, não são as excepções que movimentam a máquina. 
Porém, para os arautos da nacional cagança e demais horrorizados com a afirmação inicial lá virão os salvíficos Marcelos, mais os Sousas, afirmar o contrário, que somos um povo que exsuda dignidade e valentia, e que o melhor do país é mesmo a sua gente, e que não devemos dar ouvidos aos profetas da desgraça. 
Entretanto, os Marcelos, os Sousas, e os sicários, correligionários, primos e demais séquito continuam as suas vidas opulentas e fáceis, vidas de grunhos-mor parasitas, enquanto os grunhos reles sobrevivem e alimentam a máquina perfeita. 
Viva Portugal!




«O país não promove o mérito, é o país exemplar da mediocracia, o poder da mediocridade, na política, nas empresas e em muitas outras áreas. Com a mediocridade doce no poder político, económico e desportivo & etc., com a corrupção mais suave do mundo, com um sistema legal-judicial que deixa passar os crimes de colarinho, com dias bonitos e paisagens espectaculares -- quem quer mais?»
Justíssimo retrato de Portugal por Eduardo Cintra Torres

citando Paulo Tunhas em CAIXA GERAL DE DEPÓSITOS Os sonhadores, o ridículo e o princípio de realidade

«…Mas melhor ainda foi o que disse um discípulo de Sócrates com indiscutível talento para a recomposição do mundo em função dos interesses partidários, João Galamba. Não percebia a intenção do PSD e do CDS. Então eles não estavam mesmo a ver que o inquérito, a ir em frente, chamuscaria esses dois partidos? Raras vezes se viu tanta franqueza como aqui. Ou desprezo pelo cidadão comum, que não se apaixona pelos conflitos partidários. Desconto a ameaça implícita, que é o menos importante. O que sobra é um belo exemplo da “ética republicana”: a busca pública da verdade que se lixe.»

 Original aqui


Os islamófilos [ou sub-humanos]

(…) E estúpido também é acreditar nas aflições de tantas almas perante os "ataques homo-bi-transfóbicos". Sobretudo quando essas almas defendem em simultâneo o exacto tipo de cultura que, em vez de ridicularizar a homofobia, incentiva-a. E que, em vez de punir as atrocidades cometidas a pretexto, legitima-as. Toda a versão "mediática" da discoteca Pulse ignora o elefante no meio da sala - e que partiu a louça por culpa de Newton e da gravidade.
(…)
Por mim, tenderia a crer piamente no islão moderado se este entregasse com regularidade os seus radicais filhos à polícia ou, na falta de esquadra próxima, os pendurasse no alto de um poste. A quantidade de desculpas prontas ou pesares tardios com que trata psicopatas faz-me duvidar ligeiramente do empenho do islão moderado em justificar a designação. É claro que muitos muçulmanos não sonham com a explosão de transeuntes. Porém, já que se pretende banir ou castigar opiniões, seria interessante questioná-los sobre o respeito que dedicam às mulheres, a certos grupos étnicos, a determinadas religiões e, se não for maçada, aos homossexuais. Aliás, eles respondem ainda que ninguém lhes pergunte. Os "activistas" é que fingem não ouvir.

(…)

texto completo  aqui

com Vasco Pulido Valente






Acordo Ortográfico 1990

9 argumentos contra o Acordo Ortográfico de 1990
por Manuela Barros

«Qualquer crítica - e qualquer defesa - que se baseie sobretudo em insultos não é crítica nem defesa: é mero desabafo. Não vale nada. Por isso apresento uma série de argumentos relativos à eficiência operativa do AO 90 e a aspectos de ordem linguística, educativa, sociológica, diplomática, económica e de preservação patrimonial. Todos eles me levam a não concordar com a sua aplicação.

1. Argumento da pouca eficácia: O AO 90, em vez de diminuir o número de palavras que se escreviam diferentemente em Portugal e no Brasil, aumentou-o consideravelmente. Segundo um estudo de Maria Regina Rocha (que exclui três tipos de vocábulos), 2.691 palavras que se escreviam de forma diferente mantêm-se diferentes; apenas 569 que eram diferentes se tornaram iguais; 1.235 palavras que eram iguais tornaram-se diferentes e, destas, 200 mudaram apenas em Portugal, dando origem a soluções aberrantes como aceção, conceção, confeção, contraceção, deceção, impercetível..., enquanto no Brasil se continua a escrever acepção, concepção, confecção, contracepção, decepção, imperceptível, etc. (cf. “A falsa unidade ortográfica”, Jornal Público, 19.01.2013, retomado em http://ciberdúvidas.iscte-iul.pt/.)

2. Argumento de ordem fonológica: Uma das características da língua portuguesa falada em Portugal é a chamada “elevação das vogais átonas”, ou seja: para nós, a pronúncia das vogais “a” , “e” e “o” em posição tónica não é a mesma que a que têm em posição átona. Compare-se o primeiro “a” de “casa” com o de “casinha”: na primeira palavra o “a” é aberto, e na segunda o “a” é fechado. Compare-se o “e” de “mesa” com o primeiro de “meseta”: em “mesa” pronunciamos “ê”, em “meseta” o “e” é mudo. Mesmo que esse “e” desapareça da fala e digamos “mzeta”, continuamos a perceber que se trata de “meseta”. Dizemos “tolo” com “ô” mas em “tolice”, o “o” é fechado. Esta regra é de aprendizagem automática, desde a primeira infância. Existem excepções, por motivos etimológicos e de paradigma morfológico: caveira, dilação, especar, especular, padeira, relator, retrovisão e algumas mais. Algumas dessas palavras até costumavam, até certa altura, levar um acento grave para indicar que a vogal era aberta: pàdeira e rètaguarda por exemplo. Hoje ele só subsiste como indicador da junção do artigo “a” com a preposição “a” e com os demonstrativos aquele, aquela, aquilo (“Dei um bolo à Maria”, “Àquele nunca falo”). Em 1971 no Brasil e em 1973 em Portugal foi eliminado dos advérbios de modo, e assim “sòmente” e “fàcilmente” passaram a escrever-se “somente”, “facilmente”. Considerou-se inútil porque “os falantes da língua sabiam como se pronunciavam as palavras”. Foi talvez essa a primeira “facada” que os legisladores da língua deram na transparência que a escrita devia ter para quem o português não era a língua materna – como era o caso da maior parte dos nativos das colónias de então. Noutros casos subsistia porém o recurso a letras etimológicas, com a função de indicar que as vogais que as precediam eram abertas. É o caso de “nocturno”,“espectador”, “tractor”. Sem esse auxílio, a regra de fechamento da vogal que não tem acento tónico tende a aplicar-se. É por isso que o AO 90 induz a que se leia “nuturno” ou, quando muito, “nôtúrno”; “espetador” como um derivado de “espeto” e “trator” com “a” fechado, vocábulo que não existe. Quer dizer, o AO aumentou desmesuradamente o número das excepções a uma regra de pronúncia que permitia uma leitura intuitiva.

3. Argumento de ordem morfológica: Há um princípio básico de qualquer ortografia: a coerência morfológica. O AO 90, seguindo estritamente a produção fonética, exige que se escreva “os egípcios são os nativos do Egito”. Conserva-se, e muito bem, o “p” do “egípcio” porque se pronuncia, mas em “Egito” perde-se a ligação gráfica entre o nome do país e o dos seus habitantes.

4. Argumento de linguística histórica: A língua portuguesa é, como todas as línguas naturais, um produto da História. A nossa deriva maioritariamente do latim, tem muitas raízes gregas, muitas achegas vocabulares árabes, tem remodelações renascentistas, tem neologismos oriundos das nações até onde viajou e dos variadíssimos povos, objectos e ideias que aqui foram chegando através dos séculos. A escrita reflecte essa riqueza. Sobretudo com o Renascimento, a nossa língua sofreu um impulso extraordinário. A partir dessa altura foram criadas ou recuperadas numerosas palavras com base no grego e latim. Não falemos nos termos da Botânica, Medicina, Biologia, Química, que não há lugar nem tempo para tamanha empresa. Falemos apenas de um processo: o da criação de palavras derivadas. Se repararem bem, a coerência morfológica que mencionei acima, é coisa que aparentemente falha: as palavras derivadas muitas vezes diferem daquela que lhes deram origem. Por exemplo, “lunar” e “luneta” não derivam de “lua”, “pedal” não deriva de “pé”, “lacticínio” não deriva de “leite”, “nocturno” não deriva de “noite”. Todas estas (e tantas, tantas outras...) palavras foram criadas, não a partir da palavra portuguesa (que sofreu todas as evoluções que o tempo imprimiu à raiz latina), mas sim directamente a partir do étimo latino, recuperado por pessoas eruditas: “luna-”, “pede-“, “lacte-“, “nocte-“. Uma coisa é o ter-se a pronúncia do latim transformado por via popular, através dos séculos (perdendo o “n“, o “l” e outras consoantes sonoras intervocálicas, transformando “–ct” em “-it”, etc.) outra coisa é criar-se uma palavra nova, aproveitando, reciclando um étimo já longínquo para fazer frente às novas necessidades de vocabulário. Deste modo, muitas das nossas palavras derivadas conservaram o étimo latino a partir do qual foram criadas. Elas fazem parte do património da língua, veiculando uma dupla marca de origem: social (erudita) e temporal (tardia).
5. Argumento educativo: Como ensinar a uma criança que “soturno” se lê com “o” fechado, pronunciado “u” na maior parte do país, e a palavra “noturno” se lê com “o” aberto”? A resposta é fácil: não se fala no assunto e fica o caso arrumado. Como ensinar a uma criança que da palavra “noite” se formou “noitada”, mas que “noiturno” e “noitívago” não existem, o que existe para o AO 90 é “noturno” e a dupla grafia “notívago” e “noctívago”? Não seria mais fácil escrever estas últimas com “ct” e dizer-lhe que são palavras entradas na língua por via erudita e não por via popular? E que, se elas, crianças, comeram papa “láctea”, esta é outra palavra também erudita, tal como “lacticínios” ? Escrever “laticínios” não remete para outra coisa a não ser para “lata”. Talvez a lata de leite condensado que se vende nos supermercados?

6. Argumento sociológico: Antes de 1990 já existiam duas grafias em Portugal: a norma de 1945, muito bem destrinçada e explicada em Prontuários Ortográficos; e uma grafia difusa, sempre em reconstrução e evolução - a das mensagens juvenis - caracterizada pela simplicidade extrema, minimalista, com consoantes isoladas representando palavras, sem pontuação, nem cedilhas nem tiles. Esta tendência não fez senão acentuar-se com a generalização do uso electrónico. É nesta situação dicotómica que se insere uma terceira forma ortográfica, a do AO 90. Os defensores da norma de 45 agridem verbalmente os defensores da de 90 e vice-versa. E os jovens? Uns são penalizados nas notas por escreverem à antiga algumas palavras-ratoeira; outros são menosprezados porque escrevem à sua, deles, moda “simplex”; e os que escrevem “à moderna” deixam de respeitar as edições existentes na biblioteca da sua escola e inclusive invocam o pretexto da “confusão gráfica” para deixarem completamente de ler. Se o AO 90 não é um erro sociológico, não sei o que será.

7. Argumento diplomático: O Acordo Ortográfico de 1990 tinha-se proposto unificar a escrita de todos os países de língua oficial portuguesa. Este objectivo não foi conseguido. Portugal impôs unilateralmente uma grafia que não tem o acordo de todos . Diz-se que o AO 90 foi feito, essencialmente, para aumentar as vendas de livros portugueses no Brasil. Para isso pretendia unificar a escrita. Não unificou. Temos, por exemplo, acentos agudos onde os brasileiros têm acentos circunflexos (fenómeno /fenômeno, o que corresponde a uma efectiva diferença de pronúncia); e eliminamos o “c” e o “p” que são pronunciados em palavras brasileiras e não o são nas correspondentes portuguesas. Por exemplo, no Brasil: respectivo, perspectiva, recepção; em Portugal, segundo o AO: respetivo, perspetiva, receção, embora os “e” destas palavras não se pronunciem como os de “repetido” e “recessão”. Angola e Moçambique não assinaram o AO 90 (o que me parece um grande exemplo de bom senso, sobretudo se tivermos em conta o argumento que se segue). A opinião destes países de língua oficial portuguesa devia ter sido ponderada e tida em conta pelo governo português antes de avançar para uma “situação de facto” extremamente difícil de reverter.

8. Argumento económico: O que teria sido economicamente mais recomendável? Adoptar como obrigatório o AO 90 em nome de futuras vendas de futuros livros, tornando obsoletas as bibliotecas existentes? Ou manter a escrita de 1945, com todo o enorme acervo literário e científico que produziu? Leiamos as palavras da escritora moçambicana Paulina Chiziene: “Quantos dicionários Moçambique terá de comprar de novo? Quantos livros terá de mandar reescrever? Quantos livros de escola terão de ser refeitos, em nome de um acordo ortográfico? Será que vale a pena sacrificar tanto dinheiro dos pobres só para tirar um “c” e um “p” do que está escrito? [...] Penso que é um capricho tão desnecessário quanto caro”. (in “Tradutores contra o Acordo Ortográfico”, FB).

9. Argumento da preservação patrimonial: É natural que uma língua que se começou a escrever e ensinar há relativamente pouco tempo – por exemplo, o mirandês, no fim do século XX – não tenha qualquer obrigação de respeitar formas que os portugueses foram elaborando ao longo dos séculos. Porém a mim parece-me que todos nós, portugueses, que dispomos de uma língua escrita desde, pelo menos, D. Afonso II, temos obrigação de manter o mais possível as marcas históricas das palavras que até nós chegaram. A grafia portuguesa já em tempos renunciou a algumas marcas históricas: por exemplo, o “ph” e os “ll” etimológicos (pronunciados “f” e “l”), dado que esse modo de escrever induzia a leituras erradas, e podia, por isso mesmo, ser descartado. Porém o AO 90 vai longe demais, ao afectar de modo evidente a leitura das vogais não acentuadas e a íntima conexão lógica que existe dentro de cada paradigma vocabular. Ao modificar-se a escrita, com base numa (suposta) maior facilidade da sua aprendizagem, estabeleceu-se uma enorme confusão nessa mesma escrita e perdeu-se a possibilidade de jovens e menos jovens compreenderem os mecanismos de formação das palavras. Perdeu-se o nexo entre elas.

Para terminar: Outra coisa ainda deveria ser tida em conta: ao renunciar de modo cego às marcas históricas, este “acordo” insere-se num movimento global de apagamento da memória e de negação da História. Terrível movimento, que cada dia se torna mais evidente e que deixará sem raízes, sem passado, uma série de povos, se não a maioria. E que já está deixando o mundo à deriva, presa dócil de todas as tiranias. Admiramo-nos do modo como estão sendo destruídos monumentos, museus, cidades, inúmeras etnias e línguas. Este desrespeito, este crime que hoje nos parece abrupto, começou devagar, por pequenas coisas, aparentemente insignificantes.

É inelutável? Será irreversível? Há quem diga que é demasiado tarde para recuar. Mas talvez ainda se possa fazer qualquer coisa. Mesmo este Acordo, que ainda não está instaurado em todo o mundo lusófono, é passível de emendas fundamentais. Ou de ser conscientemente desobedecido por muitos e muitos anos.»