Não discuto, declaro! O erro da nova era.

A vitória de Bolsonaro representa um retrocesso civilizacional para o Brasil? Assim o creio, porque o progresso das sociedades não se pode rever minimamente nos “valores” que ele defende. Porém, importa perceber como e porque aconteceu isto, e quem foram os responsáveis.

Importa perceber como o povo brasileiro ficou refém exclusivamente de opções políticas desastrosas. Importa, porque depois de Trump e de Bolsonaro mais resultados semelhantes estarão em marcha, seja nas américas ou mesmo na velha Europa (onde aliás já começou, veja-se a sua concretização na Polónia, na Hungria, na Itália, e a sua expansão na Alemanha e até, pasme-se, na França).

E interpretar o resultado das eleições que elegem este tipo de gente como uma manobra calculada e executada por grupos de interesses económicos é uma pueril manifestação de ignorância. Ainda que tais grupos lá estejam, investindo e aproveitando-se destes fenómenos, a análise deve ser mais abrangente.

Uma característica cada vez mais evidente nos dias de hoje é o extremismo das opiniões que conduz à situação de radicalismo total. E por que é que isto acontece?

Sem dúvida que os erros da governação materializados na corrupção, na arrogância e na prepotência dos governantes - particularmente naqueles que se apresentam como desvelados democratas e indubitáveis representantes do povo -, estarão na base das contestações e do desencanto das massas; mas como é que na actualidade as pessoas se extremam, não querendo sequer discutir as opiniões dos outros? E porque é que, em consequência, se afastam dos legados civilizacionais, elegendo para os mais altos cargos da política pessoas que renegam esses valores?

Talvez porque a velocidade a que a informação é disponibilizada conduza a que os indivíduos/eleitores envolvidos na cacofonia reinante se mostrem indiferentes, e até contrários, à aceitação desses legados. Afinal de contas este fenómeno vem ocorrendo num mundo onde as informações surgem permanentemente, e de todos os lados, a uma velocidade vertiginosa que só contribui para confundir, para enganar e para cristalizar a opinião de cada um num extremismo fanático.

Hoje, a revolução dos meios de comunicação e a explosão das redes sociais facilitou o encontro de pessoas que pensam da mesma forma, evitando o confronto de ideias e conduzindo os grupos a assumirem posições cada vez mais radicais, já que discutem apenas entre si e reforçam as suas convicções, extremando-as; convencidos de que detém a razão absoluta.

Coisa semelhante observa-se, desde há muito, entre a maioria dos adeptos do futebol. Mas o clubismo e os clubes de Futebol não são eleitos para governar, nem deles se espera que observem os fundamentos da democracia. Eles existem para competir e a competição é, por si só, uma acção de extremos. Um tudo ou nada do qual depende a superação do adversário e a vitória sobre ele.

Regressemos ao radicalismo das posições políticas, que impede a ocorrência da discordância, porque não há tempo nem espaço para a discussão construtiva, deixando caminho livre para outra manifestação acéfala e muito mais perigosa, a produção de violência – e não será necessário recordar acontecimentos recentes em que o discurso do ódio provocou a violência material.

Sabemos que a solução para alcançar a harmonia implica evitar os extremismos e praticar a discussão sincera em que as partes em confronto se dispõem a ceder algo nas suas convicções, procurando uma solução de compromisso, melhor do que aquela que tinham inicialmente porque que não incluía o outro.

Porém, isso requer a prática de duas virtudes fundamentais cultivadas ao longo do processo civilizacional da humanidade: a tolerância e a humildade. Mas como é que se praticam a tolerância e a humildade nestes tempos conturbados, numa época em que o orgulho, no seu pior sentido, o da soberba, é exaltado cada vez mais?

É necessário que o indivíduo possua suficiente discernimento para perceber e aceitar que mesmo dentro do seu grupo de convicções fundamentalistas existe um limite, um limite que é estabelecido pelos alicerces da sociedade em paz, da democracia (da vida em harmonia que procura dirimir, ou pelo menos amortecer, o conflito), e que ir além desse limite só resultará na destruição da civilização. Sem esta consciência não é possível sair do pântano das emoções, e das suas convicções extremadas, em que vivemos actualmente.



Linguarejar... é o que se pode fazer num país de iletrados.

Excerto de texto de Helena Sacadura Cabral.
— Desde que os americanos se lembraram de começar a chamar aos pretos "afro-americanos", com vista a acabar com as raças por via gramatical, isto tem sido um fartote pegado!
— As criadas dos anos 70 passaram a "empregadas domésticas" e preparam-se agora para receber a menção de "auxiliares de apoio doméstico".
— De igual modo, extinguiram-se nas escolas os "contínuos" que passaram todos a "auxiliares da acção educativa" e agora são "assistentes operacionais".
— Os vendedores de medicamentos, com alguma prosápia, tratam-se por "delegados de informação médica".
— E pelo mesmo processo transmudaram-se os caixeiros-viajantes em "técnicos de vendas".
— O aborto eufemizou-se em "interrupção voluntária da gravidez";
— Os gangs étnicos são "grupos de jovens";
— Os operários fizeram-se de repente "colaboradores";
— As fábricas, essas, vistas de dentro são "unidades produtivas" e vistas da estranja são "centros de decisão nacionais".
— O analfabetismo desapareceu da crosta portuguesa, cedendo o passo à "iliteracia" galopante.
— Desapareceram dos comboios as 1.ª e 2.ª classes, para não ferir a susceptibilidade social das massas hierarquizadas, mas por imperscrutáveis necessidades de tesouraria continuam a cobrar-se preços distintos nas classes "Conforto" e "Turística".
— A Ágata, rainha do pimba, cantava chorosa: "Sou mãe solteira..." ; agora, se quiser acompanhar os novos tempos, deve alterar a letra da pungente melodia: "Tenho uma família monoparental..." - eis o novo verso da cançoneta, se quiser fazer jus à modernidade implante.
— Aquietadas pela televisão, já se não vêem por aí aos pinotes crianças irrequietas e "terroristas"; diz-se modernamente que têm um "comportamento disfuncional hiperactivo".
— Do mesmo modo, e para felicidade dos "encarregados de educação", os brilhantes programas escolares extinguiram os alunos cábulas; tais estudantes serão, quando muito, "crianças de desenvolvimento instável".
— Ainda há cegos, infelizmente. Mas como a palavra fosse considerada desagradável e até aviltante, quem não vê é considerado "invisual". (O termo é gramaticalmente impróprio, como impróprio seria chamar inauditivos aos surdos - mas o "politicamente correcto" marimba-se para as regras gramaticais...)
— As putas passaram a ser "senhoras de alterne".
— Para compor o ramalhete e se darem ares, as gentes cultas da praça desbocam-se em "implementações", "posturas pró-activas", "políticas fracturantes" e outros barbarismos da linguagem.
— E assim linguajamos o Português, vagueando perdidos entre a "correcção política" e o novo-riquismo linguístico.
Estamos "tramados" com este 'novo português'; não admira que o pessoal tenha cada vez mais esgotamentos e stress.
Já não se diz o que se pensa, tem de se pensar o que se diz de forma 'politicamente correcta'.
Hoje não se fala português... linguareja-se!
(Helena Sacadura Cabral)


dos fascistas, neo-fascistas e para-fascistas

«Os bloquistas defendem a censura a Marine Le Pen e criticam a censura a Luaty Beirão enquanto os comunistas defendem a censura a Luaty Beirão e criticam a censura a José Saramago enquanto os nacionalistas defendem a censura a José Saramago e criticam a censura a Marine Le Pen. [Voltar ao início.] Cada fascista tem o seu próprio auto-de-fé.»
de Miguel Granja aqui





teatrices




«Chegou apressada, nervosa e vulnerável, incapaz de remover o plástico do maço de cigarros que pretendia fumar, iniciando-se tardiamente naquele vício, agora, para lá da meia-idade e perante a reprovação de um neto, dizia. Auxiliada na tarefa de remoção do impertinente plástico, despejou um percentil da vida em sinopse nérvea, implicando o recente desentendimento com o namorado e a toxicodependência do filho, tragédia que lhe provocou uma depressão. Entre o sorriso teatral e a lágrima encenada, deitou-se à arte divinatória decifrando o signo do interlocutor e daí retirando o imperativo em jogar na lotaria, dada a assertividade manifestada. Concluiu a actuação efectuando o último item requerido, o contacto físico, pelos ósculos de despedida que solicitou; e foi-se, com as indicações da papelaria onde poderia comprar um duodécimo – jogo, para si, enigmático -, e a recomendação de se abandonar ao areal e às águas da praia urbana onde aqueles elementos naturais reverberam a força do astro-rei e diluem os achaques psicológicos. Que tenha muita sorte.»
Continuam amadores!

dos indígenas


O Parlamento Europeu e os povos indígenas
Francisco Assis (Eurodeputado do PS) in PÚBLICO 5 de Julho 2018

O relatório aprovado visa alertar para a reiterada violação dos direitos indígenas e a indevida apropriação de terras em larga escala

Há mais de cem anos, um antropólogo norte-americano de origem alemã, Franz Boas, rompeu com a concepção de uma antropologia evolucionista de fundamentação racista, e iniciou uma outra forma de olhar para o mundo indígena. A sua obra constituiu uma verdadeira reviravolta epistemológica, dotada de um enorme potencial transformador nos planos político e cultural. Essa transformação verificou-se de facto no mundo da antropologia, e para isso basta lembrarmos alguns dos seus nomes mais conhecidos, como Malinowski e Lévi-Strauss. Não é certo que as consequências no plano político tenham sido de idêntica dimensão. Ainda hoje os povos indígenas são percebidos por largos sectores da humanidade como expressões de uma resistência anacrónica ao progresso e à contemporaneidade. Nem o facto de a própria ideia de progresso ter sido submetida a uma dura apreciação crítica na cultura Ocidental conduziu a uma alteração radical desse tipo de percepção sobre a natureza dos indígenas. Ora, esta visão concorre fortemente para o estatuto de subalternidade que continua a afectar pelo menos 370 milhões de seres humanos dispersos por todo o planeta, que integram a categoria de povos indígenas. Eles são, na maior parte dos casos, objecto de um olhar racista, que não raras vezes os remete para um estatuto quase infra-humano, que se traduz na sujeição a uma violência real e simbólica absolutamente insuportável. Não estamos sequer a falar da sua história nos últimos séculos, mas sim daquilo que constitui a sua vivência presente. Os indígenas são vistos e tratados como uma espécie de “lumpenhumanitat”, destinado a desaparecer e tratado sordidamente.

Foi justamente por ter contactado com esta realidade, quer através de vários encontros com representantes destes povos que se deslocaram a Bruxelas e a Estrasburgo, quer através de diversas visitas que realizei nos últimos anos a algumas destas comunidades no espaço latino-americano, que me empenhei na elaboração de um relatório subordinado ao tema das violações dos direitos dos povos indígenas no mundo e da apropriação ilegal de terras. Esse relatório foi discutido esta semana no plenário do Parlamento Europeu em Estrasburgo e aprovado com os votos de mais de três quartos dos deputados europeus. Num tempo de crise política e moral em grande parte suscitada pela dificuldade em encontrar uma resposta adequada à questão das migrações, esta expressiva votação ainda diz muito acerca do comprometimento dos representantes políticos europeus, da direita à esquerda, com alguns dos valores que comummente reclamamos como matriciais no projecto europeu. É claro que é mais fácil votar a favor de um relatório do que agir de forma consequente e útil na promoção de princípios, valores e direitos concretamente associáveis a grupos de populações anatematizadas. Contudo, um voto é já um compromisso, uma clara declaração de intenções, uma expressão de um ideal regulador. Por isso mesmo, creio que o Parlamento Europeu esteve à altura das suas responsabilidades ao aderir ao conteúdo de um texto que visa sobretudo alertar para duas questões de inegável actualidade: a reiterada violação dos direitos indígenas por esse mundo fora e a indevida apropriação de terras em larga escala, por parte da indústria extractiva e do agronegócio, que põem em causa os ancestrais direitos de algumas comunidades humanas ao usufruto da terra e prejudicam o equilíbrio ambiental planetário devido à redução drástica da biodiversidade e à destruição de amplas áreas florestais.
Convirá referir que não está subjacente a este relatório qualquer propensão para a idealização acrítica dos estilos de vida e das práticas sociais e culturais prevalecentes nas múltiplas comunidades indígenas. Tão-pouco ignoramos a natureza complexa que caracteriza a necessária articulação destas mesmas comunidades com os contextos sociais e estatais em que estão inevitavelmente inseridas, para já não falarmos da sua inserção no fenómeno da globalização. Tal como em todos os restantes casos, recusamos qualquer perspectiva essencialista que aponte para uma identidade rígida e fechada. É óbvio que a aceleração do tempo histórico também se repercute em sociedades que não podem ter um estatuto a-histórico. Como sabemos, são raríssimos os casos de comunidades indígenas que optaram pelo isolamento voluntário em relação ao resto do mundo. Reconhecendo assim o carácter inevitavelmente problemático das articulações atrás referidas, o que está em causa é a salvaguarda do direito das comunidades indígenas decidirem sobre o seu próprio futuro e sobre a natureza, o ritmo e os modos da sua interacção com a realidade circundante.

Infelizmente, verificamos que este direito lhes tem sido sistematicamente sonegado, o que não quer dizer que não existam bons exemplos em vários países do mundo. Por outro lado, e sem qualquer enfoque meramente utilitarista, temos que reconhecer que a preservação de vastos territórios sob parcial jurisdição indígena contribui fortemente para evitar a escalada de monoculturas agrícolas ou de gigantescas extracções mineiras que a serem concretizadas produziriam efeitos muito negativos para toda a humanidade.

Haverá quem argumente que a União Europeia não dispõe de legitimidade para se pronunciar sobre este tema. A prova mais evidente da mediocridade desta tese reside no facto de inúmeros representantes destes povos solicitarem directamente ao Parlamento Europeu a adopção de posições claras sobre este assunto. Não incumbindo ao Parlamento Europeu o papel de provedor-geral da humanidade, não pode contudo deixar de o responsabilizar o facto de, por mérito próprio, ter despertado inegáveis expectativas em todos quantos se dedicam à salvaguarda e promoção dos direitos humanos. Isto desautoriza um certo discurso anti-Ocidental, primário e grotesco, que continua a ser produzido por alguns sectores mais extremistas das nossas sociedades. Tal discurso é tão negativo como aquele, de sinal contrário, que se extasia no enaltecimento da proclamada superioridade de uma suposta civilização Ocidental de carácter puramente essencialista e despudoradamente racista. Felizmente, o Ocidente não é nem uma coisa, nem outra, e o espaço político europeu tem-se revelado o mais aberto à compreensão do outro em todos os planos em que este se manifesta.

Que o Parlamento Europeu, no meio de tantas urgências, de tão diversas solicitações sectoriais, de uma quase inevitável propensão para a abordagem mecânica dos temas mais mediáticos, tenha encontrado tempo para discutir um relatório sobre os povos indígenas é algo que a meu ver merece ser registado. Que deputados comunistas, verdes, liberais, conservadores, democratas-cristãos e, naturalmente, socialistas como eu próprio, se tenham empenhado profundamente numa discussão que para muitos poderia ser vista como ociosa ou anacrónica, revela, a meu ver, uma coisa: a Europa está muito longe de estar tão doente como por vezes se apregoa.


30 anos separam estes dois livros




Comprei a obra de Morin em meados dos anos 90 e, então, achei-o pertinente. Porém, hoje verifico que no mundo hodierno não é a meia dúzia de indivíduos conscientes que moldam a caminhada civilizacional. São as ideias simples que movem a marcha das sociedades, porventura, e infelizmente, escoradas naquela “visão reducionista e simplista do Homem e do Mundo”. Porque nas democracias ocidentais é a consciência limitada das massas, inflamada por um confuso conceito de liberdade pessoal, que escolhe o caminho.
Trinta anos depois do lançamento da obra de Morin, valerá a pena ler “A Estranha Morte da Europa” do autor Douglas Murray.

PENSAR A EUROPA (1987) - «A reflexão de Edgar Morin incide sobre o panorama da ciência contemporânea que se apresenta como um "mosaico" de disciplinas isoladas e separadas entre si. Esta fragmentação remete para a necessidade de encontrar um novo método, que repense a tradição científica ocidental. Partindo do desenvolvimento das diversas ciências, especialmente da física, da biologia, da cibernética e da ecologia, Morin transmite a ideia de "complexidade", que caracteriza todas as esferas da actividade humana, desde o mundo físico e natural até ao universo das sociedades humanas. Estas realidades (física e social), têm de ser pensadas de uma forma dinâmica e intercomunicativa: o natural não ser entendido desligado do social e vice-versa, e o todo das partes que o compõem, também perspectivados numa lógica de reciprocidade.  Em síntese, Morin tem como objectivo ultrapassar a visão reducionista e simplista do Homem e do Mundo, que domina o pensamento ocidental há trezentos anos.»


A ESTRANHA MORTE DA EUROPA (2017) - «… é o relato de um continente e de uma cultura à beira do suicídio. A queda nas taxas de natalidade, a imigração em massa e a cultura da auto-desconfiança e do ódio tornaram os europeus incapazes de se defender e de resistir à sua transformação abrangente como sociedade.
Este livro não é apenas uma análise da realidade demográfica ou política, é também o testemunho de um continente em autodestruição. Em cada capítulo, Murray dá um passo atrás e analisa os temas mais profundos que estão por detrás da possível morte da Europa, de uma atmosfera de ataques terroristas em massa à estável erosão das nossas liberdades. Aborda o desapontante falhanço do multi-culturalismo, a viragem de Angela Merkel em relação às migrações e a fixação do Ocidente na culpa.
Viajando até Berlim, Paris, Escandinávia, Lampedusa e Grécia, o autor desvenda o mal-estar no coração da cultura europeia e ouve as histórias daqueles que chegaram vindos de longe. E termina com duas visões da Europa - uma de esperança e uma pessimista - que retratam um continente em crise e oferecem uma escolha do que podemos fazer no futuro.
A estranha morte da Europa explica com clareza os males que ameaçam a sobrevivência da Europa.
Na sua ânsia de se abrir para outras culturas e festejá-las ostensivamente, a Europa esquece-se de festejar e respeitar a sua própria, num acto insano de auto-sabotagem.
A Europa está morrendo, condenada pelo colapso voluntário da sua cultura que parece incapaz até mesmo de reconhecer, e menos capaz ainda de se defender de uma conquista hostil vinda de fora de suas fronteiras.
Os terríveis despotismos do fascismo e do comunismo do século 20 afiguram-se como tentativas de erigir um equivalente secular e político da verdade religiosa absoluta. Desde então, o secularismo vem corroendo com firmeza qualquer remanescente de pensamento ou crença, e neste vácuo de um mundo sem significado o islão aproveitou para penetrar.
Não há como regredir do nosso iluminismo contemporâneo, dominado pelo saber científico. E o que nos parece determinar nossa “superioridade” intelectual e moral pode vir a causar a nossa queda fatal.
E o que faremos, como sociedade, para nos defender? Voltaremos a acreditar em Deus? Ou acordaremos para rechaçar os nossos inimigos, isto é, inimigos do nosso estilo de vida inflamado de liberdade pessoal?»



eventuais leituras para férias


«A Estranha Morte da Europa é o relato de um continente e de uma cultura à beira do suicídio. A queda nas taxas de natalidade, a imigração em massa e a cultura da auto-desconfiança e do ódio tornaram os europeus incapazes de se defender e de resistir à sua transformação abrangente como sociedade.
Este livro não é apenas uma análise da realidade demográfica ou política, é também o testemunho de um continente em autodestruição. Em cada capítulo, Murray dá um passo atrás e analisa os temas mais profundos que estão por detrás da possível morte da Europa, de uma atmosfera de ataques terroristas em massa à estável erosão das nossas liberdades. Aborda o desapontante falhanço do multi-culturalismo, a viragem de Angela Merkel em relação às migrações e a fixação do Ocidente na culpa.
Viajando até Berlim, Paris, Escandinávia, Lampedusa e Grécia, o autor desvenda o mal-estar no coração da cultura europeia e ouve as histórias daqueles que chegaram vindos de longe. E termina com duas visões da Europa - uma de esperança e uma pessimista - que retratam um continente em crise e oferecem uma escolha do que podemos fazer no futuro.
A estranha morte da Europa explica com clareza os males que ameaçam a sobrevivência da Europa.
Na sua ânsia de se abrir para outras culturas e festejá-las ostensivamente, a Europa esquece-se de festejar e respeitar a sua própria, num acto insano de auto-sabotagem.
A Europa está morrendo, condenada pelo colapso voluntário da sua cultura que parece incapaz até mesmo de reconhecer, e menos capaz ainda de se defender de uma conquista hostil vinda de fora de suas fronteiras.
Os terríveis despotismos do fascismo e do comunismo do século 20 afiguram-se como tentativas de erigir um equivalente secular e político da verdade religiosa absoluta. Desde então, o secularismo vem corroendo com firmeza qualquer remanescente de pensamento ou crença, e neste vácuo de um mundo sem significado o islão aproveitou para penetrar.
Não há como regredir do nosso iluminismo contemporâneo, dominado pelo saber científico. E o que nos parece determinar nossa “superioridade” intelectual e moral pode vir a causar a nossa queda fatal.
E o que faremos, como sociedade, para nos defender? Voltaremos a acreditar em Deus? Ou acordaremos para rechaçar os nossos inimigos, isto é, inimigos do nosso estilo de vida inflamado de liberdade pessoal?»


A morte da competência  - O populismo contemporâneo aumentou o desdém pelos peritos e elites de todo o género, seja na política externa, na cultura, na economia, e até mesmo na ciência e na saúde.
Enquanto a Internet permitiu que mais pessoas tenham mais acesso a mais informação do que nunca, também lhes deu a ilusão do conhecimento, quando na verdade elas estão afogadas em dados. Daí resulta um manancial inesgotável de rumores, mentiras...




Depois de A QUEDA DA BALIVERNA, o autor dispensa apresentações.

A ética e a vara de loureiro*


Para o bem e para o mal as redes sociais vieram para ficar, dando voz à populaça. Uma voz por vezes imbecil e impertinente, e raras vezes pertinente e consequente; afinal de contas espelhando a soma das iliteracias e desinformações de cada uma das vozes singulares, reunidas na monumental arenga cacófona própria de um país com grave deficit de instrução e informação.

As redes sociais já conduziram à demissão de altos cargos da administração pública (Espanha e E.U.A. são disso exemplo), e vão, paulatinamente, ainda que de modo acanhado entre nós, portugueses, obrigando a que aquela classe possidente e nada democrática, dos políticos, vá sentindo os ventos da mudança, particularmente no que respeita à ética e à moralização da sua actividade. O que acabo de dizer não constitui o reconhecimento de que a tendência abusiva e abusadora, que os tem caracterizado nestas quatro décadas e meia de Democracia, esteja em retrocesso. Só um ingénuo pensaria assim. Até porque, frequente e ardilosamente, o episódico e singular discurso de mea culpa não passa de estratégia eleitoralista, minuciosamente calculada no tempo e no lugar. Não nos iludamos, portanto.

Porém, qualquer reflexão séria e consciente sobre a qualidade dos políticos que temos terá de equacionar a constatação da estreita ligação desses políticos com o povo que somos. Eles não vieram de Marte, foram e são extraídos do mesmo húmus material e cultural onde todos medramos.

Se a maior parte de nós se recusa a construir Democracia, porque vira as costas à discussão dos problemas e à participação cívica - por achar essa discussão inquinada e manipulada pelos políticos “profissionais” -, pelo menos devemos usar a voz para fazer ouvir que estamos descontentes. E nem que seja por motivos exclusivamente eleitoralistas, algum efeito poderá resultar. Porque se os políticos não corrigirem o seu abuso, nunca incutirão nas massas os valores éticos imprescindíveis à vida em comunidade e em democracia. E o seu exemplo ficará apenas ao serviço da destruição moral da sociedade.

Triste exemplo, o de Sócrates e o dos actuais dirigentes do PS, triste e perigoso exemplo para o País, como tem acontecido.

E agora por isso, onde andará aquele rapaz, do meu partido, que em tempos idos telefonou ao progenitor transmitindo com urgência ministerial a importante mensagem: - Papá, já sou Ministro! Aposentou-se com os bolsos recheados de milhões de euros ilegalmente subtraídos aos contribuintes, e goza hoje um invejável descanso num destino exótico?!

Há quem diga que vergastar com vara de loureiro é melhor discurso do que palavreado pendurado numa rede social.

Parábola final da Homilia
“O trigo só é sovado porque é trigo; fosse joio, nem seria tocado por quem o debulha.”


*sei que, tradicionalmente, é a vara de marmeleiro que se usa mas, ao substituí-la pela de loureiro, tento evitar o desbaste daquela árvore da qual depende o fabrico de um produto tão apreciado pelos portugueses: a marmelada.

A grande desmatação de 2018


A grande desmatação de 2018
Maria José Castro
https://observador.pt/opiniao/a-grande-desnatacao-de-2018/


Testemunho de uma professora da Universidade do Algarve que descreve os males feitos nos terrenos daquela escola superior e também em todo o barrocal, onde se estão a dizimar majestosas alfarrobeiras.

Na Universidade do Algarve, fomos todos convocados pelos Serviços Técnicos, e nossas famílias, para participar na acção de voluntariado que teve lugar no passado sábado, de “limpeza de mato e recolha de material sólido combustível” no campus de Gambelas. “Material sólido combustível” – é assim que agora se designam as árvores e outra vegetação e seres que neles habitam. Pobre pinhal do campus de Gambelas!

As árvores arbustos e ervas que nos pedem para “limpar”, são parte de um ecossistema, têm variedade, albergam insectos, répteis e outros seres; as aves dependem da manta morta do solo, dos arbustos e das copas dos pinheiros para repouso e nidificar. As copas dos pinheiros reduzem a luz que limita a vegetação que cresce no solo. A manta morta que cobre o solo, é precisa para regenerar todo o sistema. Estamos na época do ano mais sensível para a procriação da maior parte destas espécies vegetais e animais, em particular as aves, que já começaram a construir os ninhos. O ruído invasivo das motosserras e roçadeiras que se tem ouvido nos últimos dias não deixa dúvidas sobre o que está a acontecer aos pinheiros e restante vegetação e seres que neles habitam e deles dependem. É a contribuição da Universidade do Algarve para a salvação da floresta em Portugal!

Um país cronicamente incapaz de prevenir fogos ao longo de décadas, vira-se agora com ferocidade contra a primeira vítima do fogo, a natureza, que por ser combustível e arder, tem que ser eliminada, mesmo que sejamos nós, incauta ou criminosamente, a atear 99 % dos fogos – se não houver vítima, não pode haver agressor ou agressão; se não houver combustível, não há combustão. Os nossos governantes podiam ter decretado acabar com o ar – porque sem oxigénio também não há combustão – mas como provavelmente têm conhecimentos de química iguais aos que têm sobre combate a incêndios florestais, lembraram-se de eliminar a vegetação em geral.

É surpreendente que a implementação da lei das limpezas de 2006 esteja a ser acatado de forma tão resignada pela população em geral, sem discussão ou questionamento sobre possíveis consequências e eficácia, nos meios de comunicação social. Há algumas, poucas, vozes dissonantes, mas não têm tempo de antena. Não sei se é menos ou mais surpreendente que a Universidade siga a passividade do resto da nação, mas é com certeza lamentável, porque as universidades, por vocação e missão, podem ser um dos últimos redutos de defesa da verdade, da liberdade de expressão, do esclarecimento e debate público de ideias e de independência do poder político.

No campus de Gambelas, era de temer o pior, com aquilo a que se tem assistido desde 2013, quando os trabalhos de jardinagem, antigamente feitos por dois jardineiros do quadro, foram adjudicados à empresa Ferrovial na sua vertente de “valorização de resíduos sólidos”. Com efeito, a valorização foi só para a empresa, porque a Universidade ficou não só com o dobro dos custos, como ficou com os estragos irreversíveis causados pelas podas mutilantes dos pinheiros e o abate de exemplares saudáveis. E tudo isto feito sem qualquer respeito pelo calendário, sem lembrança das muitas aves que nidificam no campus na Primavera, sem qualquer consideração pelas práticas de boa poda, mesmo naqueles casos em que se justificavam cortes – muitos pinheiros “podados” já desenvolveram tumores provocados por rasgões no tronco, ou cortes feitos logo após chover. Alguns ficaram com a copa ridiculamente reduzida, desventrada e totalmente descompensada – o que resta são aleijões ou emaranhados de paus. Muitos, e há que incluir alguns plátanos, têm morte anunciada. Convém saber que estas práticas de desbaste radical, juntamente com perturbação das raízes, são a razão da morte e queda de muitas árvores. Uma árvore é um ser vivo!

Tal insensibilidade e ignorância espelham infelizmente aquilo que se vê por todo o lado – as práticas de podas abusivas que lesam a estética e comprometem a viabilidade da árvore tornaram-se um cenário tristemente banal e aumentaram a ritmo alucinante nos últimos anos. Estas práticas, que em alguns países configuram crimes ambientais, mesmo quando perpetradas em terrenos privados, aqui são sempre justificadas por qualquer razão irracional e mesquinha, ou simplesmente, como se diz no Algarve, porque “as árvores querem-se cortas”. Não há travão ético, estético, nem legal, para refrear o apetite crescente por madeira e outros detritos vegetais, que é a verdadeira força motriz que impulsiona toda esta voracidade podadora recente. Árvores e restante vegetação são em geral vistas entre nós como um estorvo ou apêndice inútil da paisagem, mas – que azar para elas e demais criaturas que delas dependem – cada vez mais uma fonte de rendimento irresistível, desde a venda de madeiras nobres, que atingem no mercado centenas de euros por metro cúbico, como o plátano, o jacarandá ou o cedro, até à transformação para composto, pellets e afins, biogás e electricidade. Quando podar, devastar, recolher, só dava trabalho e nenhum lucro, esses serviços eram realizados por funcionários camarários. Embora as atrocidades tivessem aumentado na razão da evolução das “tecnologias da poda” e diminuição da formação dos podadores, ainda ia havendo uma certa indiferença tolerante. Quando começaram a dar lucro, e muito, rapidamente os mesmos serviços passaram para as mãos de empresas privadas, e desde então, não há erva ou árvore centenária que não esteja à mercê dos exércitos de sapadores recrutados por estas empresas – mão de obra barata não falta e quanto mais energúmenos melhor.

A lei da limpeza de terrenos de 2006, tão precipitada e draconianamente implementada pelo governo com requintes inauditos de intimidação e ameaça, anunciada de forma atabalhoada, está a levar a atrocidades que se podem ver por todo o lado. Quem tem um pedaço de terreno em volta da casa e aplicar a lei até 50 metros em redor de casa (100 metros de povoamentos), vai ficar a viver num semi-deserto. Os vizinhos têm que fazer o mesmo e o deserto alastra. Em zonas rurais as pessoas estão divididas entre sentimentos de ansiedade, medo, indignação, sabendo que façam o que façam, perdem sempre: porque não suportam os custos da limpeza, porque vão ter de escolher entre “fazer do coração tripas” e destruir elas próprias árvores e vegetação à volta da casa ou arriscar pagar a multa — o afastamento de mínimo de quatro metros entre copas e entre fachadas e copas vai eliminar mais de metade das árvores. O e-mail enviado pelas finanças avisa ameaçadoramente: “Se não o fizer até 15 de março, pode ser sujeito a processo de contraordenação. As coimas podem variar entre 140 a 5 mil euros, no caso de pessoa singular, e de 1500 a 60 mil euros, no caso de pessoas coletivas” e terá uma brigada sapadora enviada pela autarquia a entrar em casa e cortar o que quiser. Muitos proprietários nas zonas mais afectadas pelos incêndios já estão a vender os terrenos ao desbarato porque os lucros que extraem da terra não cobrem o que iriam ter que gastar em limpezas.

No caminho que faço diariamente para a Universidade, nas última semanas, foram reduzidas a tocos centenas de oliveiras e alfarrobeiras, muitas seculares, hectares de terreno  foram totalmente descarnados. A lei das limpezas veio apressar estas razias, que têm acontecido nos últimos anos devido a estar tudo à venda e os proprietários cortarem as árvores para lenha quando vendem os terrenos. Na vila de S. Brás de Alportel, as únicas árvores de grande porte que ainda não tinham sido decapitadas em espaço público, que eram oliveiras e alfarrobeiras, foram arrasadas há duas semanas, perto do quartel da GNR, para dar o exemplo aos munícipes. Em Espanha, onde as alfarrobeiras e oliveiras centenárias são protegidas por lei, a poda de UMA alfarrobeira centenária é notícia de jornal. Aqui, no barrocal algarvio, perante a indiferença de todos, as majestosas alfarrobeiras, que podiam ser o ex-libris do Algarve, têm sido dizimadas na última meia dúzia de anos. Com elas, há aves que vão desaparecer, como os papa-figos. São “árvores de grande porte” e como tal uma ameaça pública.

O ministro Cabrita está entusiasmado com a mobilização dos portugueses e com o que vê à sua volta – “e ainda temos até ao final de Maio”. A GNR já está no terreno para assinalar as situações de incumprimento e as multas vão começar a chegar, que têm agora o carácter de notificação dos proprietários para a limpeza, que se for feita até final de Maio anulam a multa. Supõe-se, o governo não esclareceu, que depois do final de Maio as autarquias tenham que avançar (até quando?), senão serão elas as multadas com perda de financiamento pelo governo central (o mesmo governo que quer descentralizar). Podemos esperar toda a sorte de arbitrariedades, confusões, guerras com as autoridades e entre vizinhos. “E tem mais”, avisou ameaçadoramente o primeiro-ministro Costa em Tondela – “as autarquias têm direito de tomar posse das terras e de se cobrarem pela venda do material lenhoso e exploração das terras”.

Vale a pena ver o vídeo da visita do primeiro-ministro, porque, ironicamente, nas casas ardidas por onde o primeiro-ministro Costa e sua comitiva passam, e onde faz o seu discurso, a única coisa que não ardeu foram as árvores e arbustos mesmo junto às paredes, que dão a única nota de vida e alegria num cenário devastado. Os telhados e o interior arderam, até o betão vergou – pelo que se depreende que o fogo deve ter vindo do ar, de algum eucaliptal ali perto. Como este ano o crescimento de pastos começou mais tarde, as limpezas que agora estão a ser feitas, com mais luz no chão sem a sombra das copas e arbustos cortados, com chuva, vão resultar num vigoroso crescimento de ervas que vai cobrir tudo e estar no ponto de palha em Julho. O rastilho perfeito para iniciar fogos. E quanta natureza vai ser destruída até lá, quantas árvores, quantas aves?

Tudo isto é de uma bestialidade impensável, uma violência que vai atingir economicamente muitas pessoas e que entra já na esfera da liberdade pessoal de cada um. Aplicada a lei, as casas que têm uma floresta a 50 metros vão ficar com um risco de incêndio pouco menor, as que não tinham uma floresta à volta, vão ficar no semi-deserto, e com o mesmo risco – é a lei absurdamente cega que trata todo o território como igual e que leva tudo à frente. Quem ganha – para já o governo, que assim se demite de qualquer responsabilização por fogos futuros (os malvados que não limparam os terrenos é que tiveram a culpa), as brigadas de desmatação que estão a aparecer como cogumelos e começaram a cobrar fortunas. O ministro Cabrita contrapõe que o lado positivo é que que se estão a criar muitos postos de trabalho! E podem ser permanentes, porque de agora em diante, como a natureza volta a crescer, não vamos parar de desmatar o ano inteiro.  Mas vai haver outros que vão ganhar muito com a lei, e disso pouco se fala.

A lei das limpezas que agora se invoca existir desde 2006, não foi criada para prevenir fogos. Foi criada para suportar a implementação de 15 centrais de biomassa destinadas à produção de electricidade, previstas no mesmo ano, quando foi lançado um concurso, na largada da grande corrida às renováveis promovida pelo governo Sócrates; implementação essa que não se concretizou, porque investimento, subsídios e potência de rede foram sugados pelo lobby das eólicas. Por esta razão a lei nunca foi cumprida, da mesma forma que no mesmo período nunca foram tomadas quaisquer medidas de prevenção de incêndios, por decreto ou outras. Aliás, nestes anos fez-se exactamente o contrário – o que restava da guarda florestal e postos de vigilância foi desmantelado por completo; não houve endurecimento na criminalização de incendiários ou actos negligentes; arranjou-se um calendário para a “época de fogos” de Julho a Setembro como a de banhos na praia, que se esperou que S. Pedro e os incendiários também seguissem.

À medida que se foi esgotando financiamento, subsídios, potência de rede disponível e sítios com muito vento para espetar ventoinhas (sem restrições de ordem paisagística ou ecológica), assim se foi refreando a fúria eólica. Mas cresceu a do solar, porque os painéis são já tão baratinhos, e o preço que pagamos pelo kWh é já tão elevado, que os investidores podem ter chorudos lucros cobrindo vastíssimas áreas com painéis fotovoltaicos, mesmo sem subsídios directos. É isso que estão a fazer e ainda mal começaram – a Sul, a cultura do painel solar vai rivalizar com a do betão, do eucalipto e da agro-indústria, no domínio da paisagem. Esta nova onda de investimento desenfreado tem uma dimensão e ímpeto nunca vistos – antes ainda se simulavam preocupações ambientais, agora até esses floreados se deixaram cair. Está a ser resolvido o problema, para todas as renováveis, do esgotamento da potência de rede – a electricidade tem que ir para algum lado onde seja gasta – com a abertura das ligações para França através dos Pirenéus e agora as subterrâneas para Marrocos. A Comissão Europeia vai financiar em força (nós também), voltou o investimento de bancos e fundos especulativos. Voltaram as grandes barragens (que o ministro Matos Fernandes diz não poder parar porque não há dinheiro para as indemnizações), avança a eólica para o mar, chegou finalmente a oportunidade de ouro para as centrais de biomassa em Portugal.

Os incêndios de 2017 deram o pretexto que faltava para resolver o grande problema dessas centrais, que as leis das limpezas de 2006/2009 e a Portaria de 2009, que permitiu a requisição de desempregados para a limpeza de florestas, não conseguiu resolver: garantir o fornecimento de matéria vegetal em quantidades colossais e de forma regular, a custo “sustentável” (o económico, não o ecológico), que depende de uma engrenagem de corte, recolha e transporte. O custo da matéria-prima agora vai ser perto de zero para as empresas que a transformam – vamos todos contribuir directamente com a nossa cota parte de desmatação cega. Já não é necessário pensar em soluções geniais como a do sr. primeiro-ministro Costa (então candidato), que se lembrou que os refugiados podiam ir limpar as florestas para suprir a falta de mão de obra (eles devem ter ouvido e talvez por isso fujam todos mal chegam a Portugal).

A corrida aos lucros com os despojos do coberto vegetal de Portugal vai ser enorme – depois de termos o maior eucaliptal da Europa, e sermos já leaders na exportação de pellets (que são feitos em grande parte com madeira e não com desperdícios como se faz crer), até já ultrapassámos a Rússia, certamente vamos bater o record do kWh por m2 de território gerado com biomassa. Os interessados nesta biomassa toda, sempre os mesmos do costume, não se vão fazer rogados. Um comendador/comentador conhecido, ele próprio um arrivista das energias renováveis, dá uma ideia do que se poderá passar, na entrevista publicada na “Vida Rural” em Dezembro de 2010 — “A biomassa é o ovo de Colombo em Portugal”. Sobre os problemas que estas centrais levantam, ao nível da destruição de ecossistemas e conservação do solo, para não falar na mais que duvidosa “neutralidade” na produção de CO2, o pacote florestal do governo que contempla a criação de centrais de biomassa como medida essencial, nada refere.

A aplicação cega da lei das limpezas de 2006 tem um alcance mais largo: vem colmatar em parte o que a reforma das florestas aprovada em Julho passado no Parlamento, com base num pacote proposto pelo governo em 2016, não conseguiu — a criação de um “banco de terras” — que ficou de fora do pacote, e que provavelmente teria mesmo sido aprovada pela tal “geometria variável”, não fora a proximidade de eleições autárquicas (com retoques cosméticos, não faltará muito para ser aprovada, como aconteceu com a lei do financiamento dos partidos). Este banco de terras, que é dado como a grande solução para o ordenamento do território e desenvolvimento do meio rural e do interior em particular, vai reunir terrenos privados sem dono, terrenos rústicos do estado, terrenos de que o estado toma posse por incumprimento de leis de manutenção, terrenos que o estado compra a privados com as receitas das vendas dos primeiros. Na revenda a privados, no caso de “património com vocação florestal”, as parcelas “deverão integrar uma área mínima de 100 hectares, da qual pelo menos 50% deverá ser constituída por propriedades com área inferior a 5 hectares”. Para a “agricultura”, vai ser dada preferência a jovens e desempregados! Todos os portugueses deviam ler com atenção estas propostas. Significam a maior mudança de mãos de terra que aconteceu em Portugal por decreto, desde a confiscação dos bens da coroa e ordens religiosas em 1834 – há duzentos anos, a venda dos bens nacionais promovida pelo governo liberal pretendia ser a redistribuição, por intermédio do Estado, de uma enorme riqueza, que iria impulsionar a classe média e o progresso de Portugal. Ao contrário do que aconteceu em França, em Portugal a riqueza acabou por ficar concentrada nas mãos de alguns que já tinham muito e mais uns quantos na órbita do poder político – ficaram com a alcunha dos “devoristas”. Portugal continuou no mais deprimente atraso e o progresso foi adiado. No Estado Novo, a plantação de pinheiro bravo e eucalipto também era a grande oportunidade de desenvolvimento do interior – deu no que deu.

O ministro Capoulas Santos anuncia agora, em primeira mão, a criação de uma “Nova Empresa Pública de Desenvolvimento e Gestão Florestal” que vai procurar identificar os prédios rústicos para arrendamento e garantir um rendimento anual aos proprietários, sobretudo “pessoas mais idosas”. Não disse em que moldes e com que critérios isso vai se feito. Mas parece ter pressa – é uma “questão de semanas”, afirma. Trata-se do plano B do banco de terras que foi chumbado pelo Parlamento em Julho? O ministro, que não conseguiu disfarçar o desconcerto que teve com o chumbo, avisou logo — “o Código Civil permitir-nos-á contornar o banco de terras”. Com banco ou sem banco, em áreas florestais, o Estado poderá tomar posse de terrenos abandonados, ou desenquadrados da vocação florestal. E como vai o governo convencer os agricultores idosos donos de terrenos rústicos, e os que não são idosos, a passarem a gestão das suas propriedades para a nova Empresa Pública? Ainda há uma esperança — poderá recorrer a “elementos dispersos da legislação”. Como a lei das limpezas?

Esta reforma das florestas parece feita à medida das ambições das indústrias do papel. O banco de terras, ou seu substituto, era a oportunidade para o estado impor áreas de floresta autóctone, floresta a sério — não se vislumbra essa intenção nas propostas do governo. Pelo contrário, pretendem aumentar a produção de eucalipto, tirando eucaliptal onde a produção não é rentável e plantando em terrenos mais produtivos que antes não tinham eucalipto – assim não se aumenta a área (mas também não se diminui). Quando se cortam eucaliptos, eles voltam a crescer sozinhos com o dobro da força – o que vai acontecer a estes ex-eucaliptais, que deixaram o solo arruinado? E que novos terrenos produtivos vão ser eucaliptados? O anterior governo queria pôr mais eucaliptos no Alentejo e regá-los com água do Alqueva. A lei que liberalizou a plantação de eucalipto em 2013, e que podia ter sido revogada em 2015, não foi – hipocritamente anunciou-se que iria ser, um dia. Foi agora, em Fevereiro deste ano. A corrida ao eucalipto disparou e foram plantados mais eucaliptos nestes dois anos do que nos dois anos após a lei ser aprovada. Sobre isto, em Novembro passado, o ministro Capoulas Santos desculpa-se com: “Roma e Pavia não se fizeram num dia”.

O mesmo ministro que dizia, entre os dois grandes fogos de 2017, que o governo fez o que poderá ser “a maior revolução que a floresta conheceu desde os tempos de D. Dinis”. O que aconteceu em Outubro deu-lhe razão… A poderosa indústria do papel lançou nos jornais uma fortíssima campanha publicitária paga (e outra aparentemente não-paga) quando o pacote da reforma da floresta foi anunciado, pondo-se no papel de virgem ofendida e alegando que estava a ser diabolizada, quando na verdade deve ter esfregado as mãos de contente com a reforma anunciada. Mais pareceu uma manobra coordenada entre as indústrias da celulose e o ministro Capoulas Santos: uns podem plantar mais eucaliptos, os outros podem simular que querem reduzir a sua plantação.

É bom lembrar que Portugal continental tem a quinta maior área absoluta de eucalipto no mundo, a seguir, à China, Brasil, Austrália e Índia, que têm 104, 92, 84 e 32 vezes a área de Portugal. Dos 22 milhões de hectares de área de eucalipto no mundo, Portugal tem quase 1 milhão – é a maior densidade de eucalipto do mundo. Comparativamente a Espanha, que tem características climáticas e de relevo do solo semelhantes a Portugal, e tendo em conta a diferença de tamanho do território, em Portugal a percentagem de área ardida em 2017 foi 25 vezes superior à que foi em Espanha. Por coincidência ou não, a densidade de eucalipto em Portugal, a maior do mundo, é 21 vezes maior que a de Espanha. Será que em Espanha não há alterações climáticas? Mas Espanha também leva o combate a incêndios muito mais a sério, sobretudo na prevenção, onde investe o triplo do que investe em combate, ao contrário de Portugal. O nosso governo em vez de produzir leis absurdas podia ir a Espanha ver o que exactamente lá se faz, que é o que o senso comum e observação da realidade mandam (bastava ler os elucidativos artigos publicados no “El País” sobre os fogos em Portugal).

Se uma pequena parcela do esforço intimidatório que está a ser exercido sobre todos os proprietários, fosse dirigido aos que fazem queimadas indevidas e aos incendiários, é possível que houvesse menos fogos este ano. Prefere-se atribuir às alterações climáticas e fenómenos estranhos a ocorrência de 542 fogos num só dia. Perseguir os incendiários não daria tanto lucro, nem tantos empregos, como dão as consequências da não-aplicação da lei das limpezas.

O ministro Capoulas Santos declarou há dias que esta é a maior operação de limpeza de floresta “em 800 anos de história”.

Em 1958, na China, o grande leader Mao Tse-Tung convocou toda a nação para erradicar a praga dos pardais, que roubavam cereais das colheitas e estavam a prejudicar o progresso económico da China – foi a grande campanha dos pardais. Os cidadãos chineses mobilizaram-se massivamente e durante dias vieram para o campo e bateram em tambores, em tachos e panelas o mais que puderam para aterrorizar os pardais e impedi-los de poisarem, até caírem mortos de exaustão. Outros foram mortos a tiro, os ninhos foram destruídos. Foram exterminados centenas de milhões de pássaros. As consequências do sucesso da campanha tornaram-se evidentes em 1960. Os pássaros não comiam só cereais, também comiam insectos. Sem pássaros os insectos proliferaram e destruíram as colheitas. Dezenas de milhões de pessoas morreram à fome.

Como disse Henry Thoreau, filósofo e naturalista americano, “qualquer idiota pode fazer uma regra e qualquer idiota a seguirá”.

Avancemos, pois, com a roçadeira e a motosserra!»






"Presidente da República elogia a medida de limpeza de terrenos em redor das habitações decidida pelo Governo, considerando que tem um objetivo psicológico" in jornal Expresso

Ah, possui um objectivo psicológico?! E o objectivo deve ser desorientar, desanimar e prejudicar os portugueses e a Natureza.

Concursos televisivos




A Televisão é inimiga da cultura porque ilude os telespectadores e, por maioria de razão, os participantes nos seus “concursos de cultura geral” materializados naquelas sessões de perguntas e respostas sobre algo que podemos considerar como “conhecimento de um certo enciclopedismo”, coisa bacoca que nada deve à sabedoria.

A Televisão é inimiga da cultura porque apresenta temas e questões demasiado eruditas para a sua audiência, ponto final.

Há poucos minutos, perguntava-se num canal nacional, para as mesmas respostas (ver imagem), qual daquelas pessoas nunca tinha pintado o retrato de um Presidente da República.
Perante o assombro da concorrente, que olhava para o painel como um boi olha para um palácio, usaram o recurso de mudar a pergunta, mantendo as mesmas respostas (ver imagem).

O resultado foi idêntico e mais uma vez foi accionado o recurso, desta vez mudando a concorrente. E a nova candidata a um prémio, que ignoro qual seja, acabou por acertar na resposta apostando no nome que lhe parecia o mais antigo (de facto Columbano Bordalo Pinheiro  soa a mais antigo do que Gonçalo M. Tavares, porque na actualidade Columbano não é um nome próprio usual). Enfim, é a verrina da Televisão, moendo a cabecinha das gentes “normais” com idiotices ligadas à cultura. Porque é que não perguntam sobre coisas que demonstram a verdadeira sabedoria das pessoas, como por exemplo, quantos são 12+7 ou quantos amores concorrem na famosa canção do Marco Paulo, já para não falar sobre o conhecimento dos horários das telenovelas?

Ouçam o que vos digo: A Televisão está a prestar um mau serviço a este povo, e já é altura de alguém fazer alguma coisa para acabar com esta vergonha. Perguntas eruditas, não! Isso é discriminação intelectual!

PS: - Havia um empresário local proprietário de umas tantas prateleiras com livros que decoravam uma sala na sua opulenta habitação. Porém, honesto, confessava àqueles amigos que lhe admiravam os extensos metros lineares de livros, que não gostava de ler pois nunca tinha adquirido tal vício; e explicava: “para não parecer um completo iletrado, decorei os títulos dos livros e os nomes dos autores, embora os misture por vezes”.
Desta forma o homem não era realmente um “completo iletrado” mas apenas um iletrado parcial, naquela parte que respeita ao conteúdo dos objectos literários, ou melhor, dos objectos decorativos.

Hélio José partiu para a eternidade


Foi com enorme pesar que, ontem (23 de Março de 2018), tomei conhecimento do falecimento do Hélio José, homem da Rádio e dos jornais, lacobrigense que viveu em África e regressou à sua terra natal nas condições em que regressaram milhões de outros portugueses de alma africana. Era um daqueles homens que nos servem de exemplo pela dignidade e honestidade que colocam em tudo o que fazem e naquilo que são. Não esquecerei o seu carácter de permanente questionador nem o seu sentido de humor, discreto e inteligente. Lagos, que tanto amava, perdeu mais um dos seus eternos defensores e admiradores. Deixa, na memória de quem o conheceu melhor, a recordação de uma pessoa honrada e exemplar. Um amigo. Que descanse em paz.

Hélio José, passando pela animação de rua da sua querida Lagos, num dia de Verão, em Agosto de 2015.

Hélio José, num Verão mais distante
 Hélio José, na Britaica, em 30 de Dezembro de 2003
Hélio José, em Abril de 2008, na Rua da Barroca
Uma das últimas fotos que fiz ao Hélio José, em Agosto de 2016




telecinemices




Nas séries televisivas americanas, como aliás em quase todas as produções holywoodescas, impera demasiado artificialismo (no sentido de distanciamento do real), onde é fácil detectar que se trata de um plateau super-encenado. Já nas séries britânicas há mais naturalidade e maior aproximação ao real, seja no que toca à maquilhagem dos actores seja no que concerne à Fotografia (particularmente no campo da iluminação).

Outro aspecto que detesto na “escola” americana é o tempo, a rapidez com que as cenas se sucedem; e detestando também o oposto, a lusa modorra entediante dos filmes de Manuel de Oliveira p. ex., encontro no tempo da cinematografia britânica a dinâmica que considero mais atractiva.

É verdade que também prefiro a arte de representar britânica, que considero muito superior à americana, mais sólida e convincente, embora admita que em parte isso se deva a não conhecer tão bem os actores britânicos, pelo que os seus personagens não vêm inquinados com a carga de personagens anteriores, como acontece amiúde com os actores americanos.

Generalizar não é coisa ajuizada pelo que ressalvo as excepções: As várias “escolas” de audiovisuais americanas produziram ao longo dos tempos centenas de excelentes obras, e alguma obras-primas incontornáveis na história do cinema e da televisão. Diria é que, comparativamente, i. e. considerando as dimensões volume e escala, os norte-americanos ficam muito aquém da tríade europeia: ingleses, franceses e italianos.

Obviamente, trata-se de uma opinião subjectiva, como subjectiva é - porque pessoal - toda a interpretação que se faça do universo das imagens.

Em todo o caso, e em matéria de filmes e séries, americano ou americanizado, não, obrigado! Continuo a achá-los demasiado “infantis”; ainda que reconheça, e talvez por isso mesmo, que continuam a ser os mestres do entretenimento. Já acerca do mundo da música tenho opinião muito diferente, pelo que não se trata de nenhum preconceito contra a cultura norte-americana.

Prefiro uma série simples britânica, como MidSomer Murders, ao aparato cénico, plástico, e distante da minha realidade, que é a série norte-americana Blue Bloods.

Uma nota final para referir que tem sido muito interessante apreciar as produções internacionais de países da região escandinava (em sentido amplo: Dinamarca, Suécia, Noruega, Islândia e Finlândia), com a participação de norte-americanos, ingleses, franceses e outros, em excelentes realizações que rejuvenescem e actualizam a indústria da ficção tele/cinematográfica; talvez resultado da mistura dos contributos das diferentes escolas e culturas?!