da Beleza

«O Mestre de Cerimónias dirige-se ao altar do 2º Vigilante, iluminando-o, e este dá uma pancada com o malhete e diz: - Que a beleza ornamente os nossos trabalhos.»

A Beleza nunca foi algo de absoluto e imutável, pelo contrário assumiu formas diferentes segundo a cultura de cada período histórico e de cada região, quer na apreciação do homem ou da mulher quer na dos objectos, dos animais e das paisagens, ou mesmo a beleza das ideias e, até, da divindade.

Por vezes, num mesmo tempo histórico a beleza é abordada de forma muito diferente consoante é retratada pelos pintores e escultores ou pelos escritores. Basta pensar como um ser alienígena interpretaria a noção de beleza feminina se deparasse simultaneamente com uma pintura de Almada Negreiros e uma descrição literária de Camilo Castelo Branco, ainda que estes autores não tenham coexistido no tempo (Camilo morreu em 1890, Negreiros nasceu 3 anos depois).

Do Almada refiro-me a uma daquelas mulheres matronas, cubistas e debruçadas sobre si, contendo o mundo em si. Do Camilo, a pormenorizada descrição de uma Isaura que, cito: «… não é alta. Pertence àquela estatura que chamam mediana, a mais regular, a menos defeituosa, (…) [os cabelos] Negros e luzentes, levemente ondeados, nus de enfeites e ataviados com comodidade, e gentileza. Duas grandes tranças lhos dividiam, para se entrançarem de novo, presas em duas grossas roscas por travessas. Quando as soltava, as duas serpentes ondeavam-lhe por sobre as espáduas até à cinta. (…) [as sobrancelhas] irrepreensivelmente curvas, dividem-se por uma incisão quase imperceptível: longas, negras, e bastas. As pestanas, se ela descai as pálpebras naquele pendor da meiguice natural, quase lhe quebram a luz dos olhos, alindando-os, se é possível, ainda mais. (…) [os olhos] Meigos e vertiginosos. Reflectem a luz frouxa das paixões suaves, e as labaredas cintilantes das paixões escandecidas.».

Ora, na sociedade ocidental é o ideal masculino que pontifica, um ideal preso ao instinto sexual que explica e justifica o apreço pelos traseiros femininos proeminentes, com reservas de gordura para a gestação, os quadris largos que facilitam o parto, e os seios fartos para amamentar. E contra isto pouco pode a moda, contra essa memória táctil dos homens que por muito que apreciem uma mulher linda e magra jamais esquecerão a diferença entre estreitar nos seus braços uma cintura feminina que deixa revelar os ossos ou uma cintura substancial, bem mais voluptuosa.

As sociedades modernas ocidentais estabelecem ainda uma relação entre beleza física, inteligência e poder económico, ou seja, cultiva-se a crença de que uma pessoa bonita tem mais capacidades e mais sucesso. Dos feios considera-se sempre que são pobres, rudes, e falhos de êxito. Tal preconceito ainda amplia mais as dificuldades de ascensão social dessas pessoas; o poeta Vinicius de Morais já tinha escrito a respeito das mulheres: «as muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental.».

As preocupações com o Belo já vêm de longe. Platão terá sido um dos primeiros pensadores a formular a pergunta “O que é o Belo?”, empreendendo uma resposta ampla e cabal em que o Belo é identificado com o Bem, a Verdade e a Perfeição.

Assim, ao conceito de beleza atribuiu uma natureza autónoma, separada do mundo sensível, justificando que uma coisa é mais ou menos bela dependendo da sua inscrição/participação na ideia suprema de beleza; e criticou a arte que se limitava a copiar a natureza ignorando a beleza que o mundo das ideias contém. Mas se Platão ligou a arte à beleza, Aristóteles separou-a, anunciando que a arte é uma criação especificamente humana, e que o Belo não pode ser desligado do homem pois existe neste intrinsecamente.

Na Idade Média o cristianismo fundou um conceito de Beleza identificando-a com Deus, o Bem e a Verdade. E por aqui se seguirá durante séculos, numa colagem excessiva da ética à estética. Santo Agostinho acorrentou a beleza à harmonia, evocando o concurso da unidade, do número, da igualdade, da proporção e da ordem; reiterando que a beleza do mundo não é mais do que o reflexo da suprema beleza de Deus. Por sua vez, São Tomás de Aquino ligou-a ao Bem e à observância de determinadas condições fundamentais: Integridade ou Perfeição; Proporção ou Harmonia; Claridade ou Luminosidade; uma vez mais identificando a beleza com Deus.

Entre os séculos XVI e XVIII as academias impõem as estéticas aristotélicas e as suas regras visando alcançar a perfeição na arte, ainda que na segunda metade do séc. XVIII comecem a emergir ideias que proclamam a subjectividade do Belo. É o tempo em que as sociedades europeias atravessam grandes convulsões, com o início da revolução industrial e as importantes alterações políticas verificadas na América e na França. Nesta conjuntura de efervescências novas ideias despontam e a questão do Belo é equacionada como um problema de gosto.

E neste contexto surge Immanuel Kant, o criador do pensamento que embasa a estética contemporânea. Para este filósofo do séc. XVIII os nossos entendimentos estéticos têm fundamentos subjectivos dado que não se podem apoiar em conceitos pré-determinados. E assim, o critério de beleza que neles se exprime é o do simples prazer que nos acomete. A universalidade do Belo passa a ser subjectiva, como subjectivo é o juízo do gosto.

«Continua a ser verdade que, ao julgar belo um objecto, consideramos que o nosso juízo deve ter um valor universal e que todos devem (ou deveriam) partilhar o nosso julgamento. Mas como a universalidade do juízo do gosto não requer a existência de um conceito a que e deva adequar, a universalidade do belo é subjectiva: é uma pretensão legítima da parte de quem exprime o julgamento, mas não pode assumir de maneira nenhuma o valor de universalidade cognoscitiva. “Sentir” com o intelecto que a forma de um quadro de Watteau que representa uma cena galante é rectangular ou “sentir” com a razão que cada gentil-homem tem o dever de oferecer ajuda a uma mulher em dificuldade não é o mesmo que “sentir” que seja belo o quadro que está a ser examinado: de facto, neste caso, tanto o intelecto como a razão renunciam à supremacia que respectivamente exercem no campo cognoscitivo e no moral, e metem-se em jogo livre com a faculdade imaginativa, segundo as regras ditadas por esta última.» ECO, Umberto – História da Beleza (p. 264)

Embora se reconheça, então, a incapacidade da Razão em impor os seus valores sobre esta matéria tão subjectiva que é a definição do Belo, ela (a Razão) não está afastada da discussão; mormente pela mão daquele eminente filósofo que consegue inscrever parcialmente essa natureza vaga nas regras da Razão.

Ainda no século XVIII ganham força as noções de génio, gosto, imaginação e sentimento e assiste-se à construção do conceito Sublime. Uma vez que o Belo é uma expressão da liberdade, sentimo-nos livres na beleza porque os instintos sensíveis estão em harmonia com a lei da razão; já o sentimento de liberdade no sublime deriva do facto dos instintos sensíveis não terem influência sobre as leis da razão, porque aqui é o espírito que age autonomamente. Esta aparente contradição mais não espelha do que o dualismo da natureza humana.

Em seguida, os românticos exploram as dualidades, nomeadamente a anterior entre Belo e Sublime, e levam mais longe essa constatação da natureza dual, da ocorrência dos géneros, na nossa qualificação estética do mundo: beleza e melancolia; coração e razão; reflexão e impulso coexistem, sendo essa coexistência encarada como natural.

O Séc. XIX trará consigo uma autêntica religião da beleza, emoldurada pela efémera época de ouro do Ocidente: o período vitoriano em Inglaterra, o Segundo Império em França, o pontificado das virtudes burguesas e o despontar do capitalismo. Neste ambiente os artistas arriscam e avançam quebrando todas as normas, procurando o inusitado, o excêntrico, o inalcançável, ofendidos e talvez assustados pelas máquinas que oferecem a pura funcionalidade de novos materiais. Em parte, como reacção a essa uniformização e democratização galopantes, artistas como Courbet, Monet, Manet, Cézanne e outros rompem com os cânones e as convenções do academismo, anunciando a eclosão da arte moderna.

E no século XX sucedem-se as rupturas e explode uma multiplicidade de novas manifestações criativas. Surgem as artes decorativas, a art naif, a arte dos povos primitivos coevos, o artesanato rural; a Fotografia, o Cinema, o Design, a Rádio, etc.

Por outro lado, assiste-se a uma permanente insistência desconstrutivista em relação a todas as categorias estéticas: os conceitos e as fronteiras entre as artes são contestados; a arte é dessacralizada e perde a sua carga mítica e iniciática, tornando-se frequentemente um simples produto de consumo.

Neste ambiente, as estéticas normativas concebem uma beleza fundamentada em princípios inalteráveis, como a estética fenomenológica de Husserl; as estéticas marxistas e neomarxistas que vincam marcadamente a sua orientação sociológica; ou a estética informativa que procura sistematizar a avaliação da componente inovadora presente em cada obra de arte; mas é na estética das ciências que os ideais de beleza alcançam um discurso tanto mais revelador quanto inesperado. Raul Penaguião, um jovem matemático português, de 18 anos, dizia em 2012: «…a Matemática aplicada não me entusiasma muito, entusiasma-me a beleza das ideias matemáticas, pelo que quero seguir Matemática pura e investigação, e não tanto o quanto se relaciona com a realidade, pois nesse relacionamento perde-se muito: já dizia Albert Einstein, “Se as leis da Matemática se referem à realidade, elas não estão correctas; e, se estiverem correctas, não se referem à realidade”.»

Eis como ideia do Belo se impõe de uma forma tão óbvia aos valores concretos da realidade, reafirmando que a vida também encontra sentido numa componente subjectiva que existe para além do universo material.

Nós, seres humanos, temos necessidade de procurar ou criar a beleza, não só para recreação intelectual mas sobretudo porque ela é um guia para a vida, mesmo que o seu conceito dependa apenas de uma noção pessoal de harmonia.



Fontes consultadas:
- BOHM, Camila Camacho - UM PESO, UMA MEDIDA - O padrão da beleza feminina apresentado por três revistas brasileiras, Universidade Bandeirante de São Paulo -São Paulo, 2004
- ECO, Umberto – História da Beleza, Ed. Difel, Lisboa 2005
- GUATIMOSIM, Bárbara Maria Brandão - O BELO E O SUBLIME, Psicanálise & Barroco em Revista v.6, n.3: 48-59, jul.2008
- LINO, Alice de Carvalho - Considerações kantianas sobre os Gêneros - PADÊ: estudos em filosofia, raça, gênero e direitos humanos, UniCEUB, FACJS Vol.2,N.1/07. ISSN 1980-8887
- LINO, Alice de Carvalho – Belo e Sublime: A Mulher e o Homem na Filosofia de Immanuel Kant – Universidade Federal de Ouro Preto, 2008
- PENAGUIÃO, Raul “entrevista em 2012” http://caras.sapo.pt/famosos/2012-09-09-raul-penaguiao-entusiasma-me-a-beleza-das-ideias-matematicas
- SATIE, Luis - Estética e ética em Kant - Escola Superior de Administração Fazendária, Filosofia Unisinos, 2009
- VALENTE, Mariana – A Beleza das Ideias na Educação Científica – Centro de Estudos de História e Filosofia da Ciência, Departamento de Física, Universidade de Évora. Comunicação ao Seminário transdisciplinar “Currículo, Didáctica e Formação de Professores”- Évora, Maio, 2014

Tanto poeta e ninguém os ouve

Tanto poeta e ninguém os ouve
por Ana Cristina Pereira Leonardo

Tendemos a esquecer que o racismo já foi teoria que se pretendeu científica. E tempos houve em que as mulheres eram talvez, como os bichos, desprovidas de alma. A obra publicada entre 1853 e 1855 pelo Conde de Gobineau, “Ensaio sobre a Desigualdade das Raças Humanas”, fez escola nos salões europeus mais respeitáveis (sobretudo germanófilos) até acabar por chegar às mãos de Hitler que do seu título retirou matéria inspiradora, embora, paradoxalmente, não se possa dizer que o “Ensaio...” seja especialmente anti-semita ou nutra qualquer fé descabelada no papel dos arianos. Quanto às mulheres, já Paulo de Tarso as mandava estar caladas no culto e ainda agora o tão progressista Papa Francisco reafirmava que aquelas que quisessem ser ordenadas padres, melhor seria que fossem pregar para outras missas. O apartheid acabou na África do Sul em 1994 – sublinho, 1994. A homossexualidade foi doença encartada até 1990 – sublinho, 1990 – quando a Organização Mundial de Saúde a retirou finalmente da lista de doenças mentais. O casamento entre pessoas do mesmo sexo é reconhecido numa vintena de países e contam-se no mundo 193 países – sublinho, 193 – com assento na ONU (no início do século XX existiam à volta de 60 – o que significa, entre outras coisas, que os nacionalismos triplicaram em pouco mais de 100 anos). Em cerca de 50 deles a pena de morte continua em vigor e em quase uma vintena de outros não foi abolida da lei apesar de não ser aplicada há tempo considerável (alguns desses países fazem risivelmente parte do Conselho de Direitos Humanos da ONU). Entretanto, os conflitos armados adquiriram a peculiar particularidade de contabilizar cada vez mais vítimas civis: segundo o International Institute for Strategic Studies, enquanto na I Guerra Mundial estas representaram menos de 5% dos mortos, 75% é hoje a percentagem que cabe aos não combatentes (feridos incluídos). Quanto a refugiados e deslocados de guerra, a Agência da ONU para os Refugiados calculou um total de 65,3 milhões em 2015, uma em cada 113 pessoas do planeta, 51% crianças. No mesmo ano, a Organização Internacional do Trabalhou somou 197,1 milhões de desempregados, 27 milhões acima dos níveis anteriores à crise (para 2016 previu um acréscimo de 2,3 milhões).
“O medo vai ter tudo” escreveu Alexandre O’Neill na década de 60 do século passado. E antes dele T. S. Eliot: “Vai, vai, vai, disse a ave / O género humano não pode suportar muita realidade”. E ambos há muito mortos, Donald Trump foi eleito presidente da América.

Retirado do Facebook: porque nenhuma rede social é integralmente lixo ou coio de incultos e burgessos - embora por lá façam escola como acertadamente denunciou Umberto Eco

ainda a porcaria do AO90


O Doutor RUI MIGUEL DUARTE comenta as posições revisionistas do AO90 de Ana Salgado (Academia das Ciências de Lisboa). Aqui


POLITICAMENTE CORRECTO

O POLITICAMENTE CORRECTO E A DESTRUIÇÃO SOCIAL

Temos assistido ao longo das últimas décadas ao crescimento desmesurado do poder dos conceitos assentes no politicamente correcto, numa mirabolante “defesa do pluralismo”; conceitos que têm prejudicando mais do que beneficiado a sociedade hodierna, particularmente pelas formas como esses conceitos vêm sendo aplicados: num total desrespeito pela herança cultural, pelos costumes e pelas instituições basilares, como é o caso paradigmático da Família e do seu importante papel na estrutura social.

Sabemos como é inútil tentar contrariar a inexorável marcha do tempo, a evolução mental e o progresso social da Humanidade, que não pode ficar agarrada a um momento da história, a uma realidade social estática, a uma estagnação da sua caminhada; mas também não é aceitável construir a mudança, o progresso, de forma artificial desrespeitando a dinâmica natural do pulsar dos indivíduos e das sociedades. É que as conquistas humanas devem mais ao reformismo e à evolução paulatina e serena do que às revoluções, tantas vezes geradoras de retrocessos em vez de avanços.

Com o pretexto de combater e erradicar o preconceito tem-se vindo, afinal de contas, a fabricar e a alimentar novos preconceitos. Em vez de se suscitar a reflexão e a discussão sobre os problemas, impõe-se draconianamente a aceitação incondicional de tudo aquilo que é diferente, condenando os valores, até então, válidos e íntegros, forjados, testados e adoptados na longa marcha edificadora das sociedades.

Mesmo os indivíduos de sólida formação intelectual e moral acabam por colaborar nesta dinâmica tresloucada e destruidora, sendo forçados a aceitar comportamentos torpes, intelectualmente desonestos, amorais e anti-éticos, sob o pretexto de configurarem direitos humanos de minorias que, sendo diferentes, têm de ser respeitados. A isto chamam Pluralismo, uma realidade assente na destruição dos valores tradicionais e na emergência do singular e minoritário como mais importante do que o plural e maioritário.


É nesta realidade ensandecida que vivemos actualmente, com governantes impondo por decreto o modo como nos devemos comportar, e quanto devemos pagar para suportar e alimentar esse inusitado pluralismo que despreza a maioria dos cidadãos contribuintes (os empreendedores activos e, afinal de contas, os motores da sociedade); e tudo isso em prol de cidadãos invulgares, inactivos, não contribuintes e não empreendedores, tudo isso em nome de uma suposta solidariedade humana. O Estado, dito Social, estica uma corda que tem pouca elasticidade, e os artistas deste circo parecem não saber disso ou não querer saber. Por isso me pergunto se isto é uma actuação racional? E interrogo-me, igualmente, sobre quem ganha com estas diatribes, já que nem os que sustentam esta situação, nem os que dela parcialmente usufruem, verão no futuro a sua vida melhorar ou os seus problemas resolvidos?!

Doenças nacionais

«Dias depois de eu ter escrito «“Coisar” coisas inteligentes» Robert Skidelsky, renomado economista, professor, “lord”, biógrafo de J.M.Keynes,…esteve cá para participar no Festival Internacional de Cultura de Cascais, palestrou e deu uma entrevista. Do que discreteou, destaco
• no cravo — “a política de estímulos ao rendimento que o governo iniciou é demasiado tímida para ter efeitos visíveis na retoma. É uma escala muito, muito pequena. Quando se tem um nível de hiato do produto [distância entre o crescimento verificado e o potencial da economia] desta dimensão, subir pensões num montante mínimo não funciona. É preciso gastar muito dinheiroSe a ideia é estimular a economia com dinheiro público então é necessário mais dinheiro. Muito mais dinheiro, e a uma escala europeia. Tem de o fazer com grande impacto. Um pequeno país não pode fazer muito por si só. Tem de ser algo à escala europeia: tem de ser um programa de investimento europeu muito, muito grande
• na ferradura  “Portugal, como pequeno país na Zona Euro, só tem duas estratégias: ou aguenta e espera que as reformas do lado da oferta [muitas vezes referidas como reformas estruturais] tenham efeitos no tornar o país mais competitivo, e [ao mesmo tempo] espera por ajuda – a que conseguir das instituições da Zona Euro – ou opta por sair da Zona Euro com outros países, e ganha um instrumento adicional que é a taxa de câmbio”»

Artigo completo aqui

Lagos em meados do Séc. XIX


Lagos em meados do séc. XIX
por Francisco Castelo
(transcrição com adaptação de um texto de 1860, de Inácio de Vilhena Barbosa)

A meio dos anos mil oitocentos Lagos tinha uma população de 8.400 habitantes, sendo a segunda cidade do reino do Algarve.

Erguendo-se sobre três colinas existentes na margem direita de um pequeno rio (com cerca de meia légua de extensão), a cidade está situada na face ocidental de uma grande baía que recebe o nome da cidade. A barra do curso de água que forma o porto da cidade é defendida pela fortaleza da Ponta da Bandeira, que serve de registro, e pelo forte da Meia Praia. Para defesa da baía há diversos fortes em melhor ou pior estado de conservação, sendo o principal a fortaleza do Pinhão, edificada primitivamente em terra firme, e que ainda nos princípios do século passado [XVIII] formava uma península, mas que actualmente está cercada de mar, e arruinada, passando pequenas embarcações entre ela e terra. Outra fortaleza que se fez em frente a esta, para a substituir, também foi arruinada pelo mar. A barra, que há cem anos [c. 1750], apresentava sete a oito braças de fundo, agora apenas tem uns dez palmos.

A cidade tem duas paróquias: Santa Maria, que é matriz, e S. sebastião. A primeira encontra-se estabelecida na igreja da Misericórdia, desde o sismo de 1755 que destruiu a anterior igreja matriz [de Santa Maria da Graça]. A tentativa de reerguer o templo ficou-se pelas meias paredes tendo a obra parado aí e o espaço sido usado como cemitério nos tempos sequentes. A segunda paróquia foi edificada numa colina da cidade. É um grande templo de três naves, de fundação muito antiga, e reconstruído por D. João II que lhe trocou a invocação primitiva de Conceição pela de S. Sebastião, por ser este santo padroeiro o advogado contra a peste que então assolava todo o Algarve. Existem ainda a igreja de Santo António, que é capela militar, e várias ermidas. O edifício outrora ocupado pelo trem e igreja de Stª Bárbara serve agora de quartel militar; e a antiga igreja de S. Brás, e a de Nossa Senhora do Porto Salvo, construída no séc. XVI por comerciantes italianos que vieram estabelecer-se em Lagos, acham-se transformadas em armazéns de arrecadação pertencentes ao quartel. Lagos possuía também quatro conventos. O das freiras carmelitas, de Nossa Senhora da Conceição, fundado em 1554, bastante danificado em 1755 e reconstruído depois. O dos frades franciscanos, edificado em 1560; o dos frades trinos, fundado em 1599; e o de S. João de Deus, em que se estabeleceu um hospital militar, levantado em 1696.

A cidade conta com quatro praças e algumas ruas boas, porém as outras são estreitas e tortuosas, e todas mal calçadas. Um aqueduto, obra de D. Manuel, conduz bom caudal de água vindo do Paúl. Percorrendo uma extensão de 410 braças, abastece a povoação e fornece aguada aos navios. Para este fim existe um chafariz junto à Porta Nova e da muralha, que cai sobre o rio.

Lagos é praça d’armas e a sua primeira fortificação data do reinado de D. Afonso IV, ou talvez do tempo de D. Diniz. Constava de uma cerca de muros com torres e portas. Nos fins do séc. XVI, inícios do séc. XVII, edificou-se nova cerca de muralhas, que ao presente se conserva, com oito portas e catorze baluartes. Para o lado do rio tem as portas de S. Gonçalo, do Cais, de S. Roque, e Nova, e cinco redutos. Para o lado de terra tem as portas de Portugal, do Postigo, de Quartos, e da Vila, e nove baluartes.

Lagos exporta cereais e legumes, muitos figos, algum vinho, aguardente, muito peixe salgado, azeite de oliveira e óleo de peixe, e diversos produtos de palma e de fio de piteira. Embora possua uma agricultura que em certos anos regista boa produtividade, as pescas são a actividade principal. Empregam-se nelas muitas embarcações e centenas de pescadores que não limitam a sua actividade ao Algarve mas demandam, também, Marrocos. A pesca do atum assume grande importância. A feira anual realiza-se a 12 de Outubro.



alguns comentários no FB


Proibição do uso do Burquíni em praias francesas
A questão não é essa, da igualdade de direitos e tratamento igual (de que tanto nos orgulhamos de cultivar) mas sim a conotação com um momento de afirmação do islamismo radical, via terrorismo. Se as mulheres muçulmanas tivessem aparecido nas praias europeias com estas vestes há 10/15 anos, ninguém contestaria tal facto; hoje, tem outra conotação (senão mesmo um motivo intencional), nos tempos correntes tem uma leitura que eu e muitos outros europeus (não islamitas) fazemos: a sintonia com o islamismo radical.
Para muitos não muçulmanos, como eu, um hipotético islão moderado não oferece nenhuma credibilidade, apenas verificamos a existência de islamitas terroristas e islamitas não terroristas mas que toleram os primeiros. Portanto, todas as atitudes que visem contrariar e diminuir o impacto social, político e religioso do islão na Europa, são bem-vindos. Neste momento, os islamitas afiguram-se como sub-humanos aos olhos de muitos europeus, se isso é resultado de uma actuação passada errada ocidental ou particularmente resultado de uma cultura obscurantista, retrógrada, ofensora dos valores humanistas ocidentais, como parece ser a postura da cultura islamita, esse é um aspecto de importância secundária.
Eu até posso estar errado nalguns aspectos (e como eu, outros milhões), mas este é o sentimento crescente entre os herdeiros da dita cultura ocidental e é, em grande parte, com base nele que vai ser tecida a relação futura com a anomalia islâmica.

Sobre Relvas
O homem já tinha explicado que ninguém o cumprimentava nos ministérios quando ia visitar algum ministro, depois do título passou a ouvir: - Bom dia Sr. Dr.! É razão mais que suficiente para ter arranjado um canudo que não valia menos do que aqueles das novas oportunidades ou daqueloutros obtidos com notas votadas em plenários nos pós-25 Abril. A merdaleja continua, quer lhe tirem o canudo, quer não.

Dar voz aos imbecis
Mais uma carrada de imbecis, que nem sabem o que lêem no Facebook, nem quando foi escrito ou dito, nem em que contexto. O Umberto Eco tinha razão: as redes sociais dão voz aos imbecis, e temos de viver com isso. Não me esqueço dos parvalhões que se insurgiram contra o Henrique Raposo quando nem leram integralmente o texto que ele escrevera - sobre os algarvios; e mais tarde o livro sobre alentejanos. É a imperiosidade da afirmação "Eu existo!" aliada ao efeito rebanho.

Sobre a escola de hoje
Sem réguas e ponteiros de castigar a escola perdeu a essência poética. Como perdeu o calor humano desse contacto físico breve entre carnes e madeiras, correctivo que se expandia frequentemente por um ou dois parceiros e ricocheteava nas paredes com aquela intensidade exacta que garantia a recordação para a eternidade. Isso, sim, eram escolas que marcavam para a vida. Hoje, a escola é um amontoado de carne indistinta e amorfa para serviço dos macdonalds locais. :D

«O país não promove o mérito, é o país exemplar da mediocracia, o poder da mediocridade, na política, nas empresas e em muitas outras áreas. Com a mediocridade doce no poder político, económico e desportivo & etc., com a corrupção mais suave do mundo, com um sistema legal-judicial que deixa passar os crimes de colarinho, com dias bonitos e paisagens espectaculares -- quem quer mais?» Justíssimo retrato de Portugal por Eduardo Cintra Torres

dos grunhos

Este país é grunho porque os portugueses são grunhos. Século após século continua a ser o país dos três éfes: Fátima, Fado e Futebol, e isso diz tudo acerca desta gentalha obnóxia. Não quero saber das excepções, não são as excepções que movimentam a máquina. 
Porém, para os arautos da nacional cagança e demais horrorizados com a afirmação inicial lá virão os salvíficos Marcelos, mais os Sousas, afirmar o contrário, que somos um povo que exsuda dignidade e valentia, e que o melhor do país é mesmo a sua gente, e que não devemos dar ouvidos aos profetas da desgraça. 
Entretanto, os Marcelos, os Sousas, e os sicários, correligionários, primos e demais séquito continuam as suas vidas opulentas e fáceis, vidas de grunhos-mor parasitas, enquanto os grunhos reles sobrevivem e alimentam a máquina perfeita. 
Viva Portugal!




«O país não promove o mérito, é o país exemplar da mediocracia, o poder da mediocridade, na política, nas empresas e em muitas outras áreas. Com a mediocridade doce no poder político, económico e desportivo & etc., com a corrupção mais suave do mundo, com um sistema legal-judicial que deixa passar os crimes de colarinho, com dias bonitos e paisagens espectaculares -- quem quer mais?»
Justíssimo retrato de Portugal por Eduardo Cintra Torres

citando Paulo Tunhas em CAIXA GERAL DE DEPÓSITOS Os sonhadores, o ridículo e o princípio de realidade

«…Mas melhor ainda foi o que disse um discípulo de Sócrates com indiscutível talento para a recomposição do mundo em função dos interesses partidários, João Galamba. Não percebia a intenção do PSD e do CDS. Então eles não estavam mesmo a ver que o inquérito, a ir em frente, chamuscaria esses dois partidos? Raras vezes se viu tanta franqueza como aqui. Ou desprezo pelo cidadão comum, que não se apaixona pelos conflitos partidários. Desconto a ameaça implícita, que é o menos importante. O que sobra é um belo exemplo da “ética republicana”: a busca pública da verdade que se lixe.»

 Original aqui


Os islamófilos [ou sub-humanos]

(…) E estúpido também é acreditar nas aflições de tantas almas perante os "ataques homo-bi-transfóbicos". Sobretudo quando essas almas defendem em simultâneo o exacto tipo de cultura que, em vez de ridicularizar a homofobia, incentiva-a. E que, em vez de punir as atrocidades cometidas a pretexto, legitima-as. Toda a versão "mediática" da discoteca Pulse ignora o elefante no meio da sala - e que partiu a louça por culpa de Newton e da gravidade.
(…)
Por mim, tenderia a crer piamente no islão moderado se este entregasse com regularidade os seus radicais filhos à polícia ou, na falta de esquadra próxima, os pendurasse no alto de um poste. A quantidade de desculpas prontas ou pesares tardios com que trata psicopatas faz-me duvidar ligeiramente do empenho do islão moderado em justificar a designação. É claro que muitos muçulmanos não sonham com a explosão de transeuntes. Porém, já que se pretende banir ou castigar opiniões, seria interessante questioná-los sobre o respeito que dedicam às mulheres, a certos grupos étnicos, a determinadas religiões e, se não for maçada, aos homossexuais. Aliás, eles respondem ainda que ninguém lhes pergunte. Os "activistas" é que fingem não ouvir.

(…)

texto completo  aqui

com Vasco Pulido Valente






Acordo Ortográfico 1990

9 argumentos contra o Acordo Ortográfico de 1990
por Manuela Barros

«Qualquer crítica - e qualquer defesa - que se baseie sobretudo em insultos não é crítica nem defesa: é mero desabafo. Não vale nada. Por isso apresento uma série de argumentos relativos à eficiência operativa do AO 90 e a aspectos de ordem linguística, educativa, sociológica, diplomática, económica e de preservação patrimonial. Todos eles me levam a não concordar com a sua aplicação.

1. Argumento da pouca eficácia: O AO 90, em vez de diminuir o número de palavras que se escreviam diferentemente em Portugal e no Brasil, aumentou-o consideravelmente. Segundo um estudo de Maria Regina Rocha (que exclui três tipos de vocábulos), 2.691 palavras que se escreviam de forma diferente mantêm-se diferentes; apenas 569 que eram diferentes se tornaram iguais; 1.235 palavras que eram iguais tornaram-se diferentes e, destas, 200 mudaram apenas em Portugal, dando origem a soluções aberrantes como aceção, conceção, confeção, contraceção, deceção, impercetível..., enquanto no Brasil se continua a escrever acepção, concepção, confecção, contracepção, decepção, imperceptível, etc. (cf. “A falsa unidade ortográfica”, Jornal Público, 19.01.2013, retomado em http://ciberdúvidas.iscte-iul.pt/.)

2. Argumento de ordem fonológica: Uma das características da língua portuguesa falada em Portugal é a chamada “elevação das vogais átonas”, ou seja: para nós, a pronúncia das vogais “a” , “e” e “o” em posição tónica não é a mesma que a que têm em posição átona. Compare-se o primeiro “a” de “casa” com o de “casinha”: na primeira palavra o “a” é aberto, e na segunda o “a” é fechado. Compare-se o “e” de “mesa” com o primeiro de “meseta”: em “mesa” pronunciamos “ê”, em “meseta” o “e” é mudo. Mesmo que esse “e” desapareça da fala e digamos “mzeta”, continuamos a perceber que se trata de “meseta”. Dizemos “tolo” com “ô” mas em “tolice”, o “o” é fechado. Esta regra é de aprendizagem automática, desde a primeira infância. Existem excepções, por motivos etimológicos e de paradigma morfológico: caveira, dilação, especar, especular, padeira, relator, retrovisão e algumas mais. Algumas dessas palavras até costumavam, até certa altura, levar um acento grave para indicar que a vogal era aberta: pàdeira e rètaguarda por exemplo. Hoje ele só subsiste como indicador da junção do artigo “a” com a preposição “a” e com os demonstrativos aquele, aquela, aquilo (“Dei um bolo à Maria”, “Àquele nunca falo”). Em 1971 no Brasil e em 1973 em Portugal foi eliminado dos advérbios de modo, e assim “sòmente” e “fàcilmente” passaram a escrever-se “somente”, “facilmente”. Considerou-se inútil porque “os falantes da língua sabiam como se pronunciavam as palavras”. Foi talvez essa a primeira “facada” que os legisladores da língua deram na transparência que a escrita devia ter para quem o português não era a língua materna – como era o caso da maior parte dos nativos das colónias de então. Noutros casos subsistia porém o recurso a letras etimológicas, com a função de indicar que as vogais que as precediam eram abertas. É o caso de “nocturno”,“espectador”, “tractor”. Sem esse auxílio, a regra de fechamento da vogal que não tem acento tónico tende a aplicar-se. É por isso que o AO 90 induz a que se leia “nuturno” ou, quando muito, “nôtúrno”; “espetador” como um derivado de “espeto” e “trator” com “a” fechado, vocábulo que não existe. Quer dizer, o AO aumentou desmesuradamente o número das excepções a uma regra de pronúncia que permitia uma leitura intuitiva.

3. Argumento de ordem morfológica: Há um princípio básico de qualquer ortografia: a coerência morfológica. O AO 90, seguindo estritamente a produção fonética, exige que se escreva “os egípcios são os nativos do Egito”. Conserva-se, e muito bem, o “p” do “egípcio” porque se pronuncia, mas em “Egito” perde-se a ligação gráfica entre o nome do país e o dos seus habitantes.

4. Argumento de linguística histórica: A língua portuguesa é, como todas as línguas naturais, um produto da História. A nossa deriva maioritariamente do latim, tem muitas raízes gregas, muitas achegas vocabulares árabes, tem remodelações renascentistas, tem neologismos oriundos das nações até onde viajou e dos variadíssimos povos, objectos e ideias que aqui foram chegando através dos séculos. A escrita reflecte essa riqueza. Sobretudo com o Renascimento, a nossa língua sofreu um impulso extraordinário. A partir dessa altura foram criadas ou recuperadas numerosas palavras com base no grego e latim. Não falemos nos termos da Botânica, Medicina, Biologia, Química, que não há lugar nem tempo para tamanha empresa. Falemos apenas de um processo: o da criação de palavras derivadas. Se repararem bem, a coerência morfológica que mencionei acima, é coisa que aparentemente falha: as palavras derivadas muitas vezes diferem daquela que lhes deram origem. Por exemplo, “lunar” e “luneta” não derivam de “lua”, “pedal” não deriva de “pé”, “lacticínio” não deriva de “leite”, “nocturno” não deriva de “noite”. Todas estas (e tantas, tantas outras...) palavras foram criadas, não a partir da palavra portuguesa (que sofreu todas as evoluções que o tempo imprimiu à raiz latina), mas sim directamente a partir do étimo latino, recuperado por pessoas eruditas: “luna-”, “pede-“, “lacte-“, “nocte-“. Uma coisa é o ter-se a pronúncia do latim transformado por via popular, através dos séculos (perdendo o “n“, o “l” e outras consoantes sonoras intervocálicas, transformando “–ct” em “-it”, etc.) outra coisa é criar-se uma palavra nova, aproveitando, reciclando um étimo já longínquo para fazer frente às novas necessidades de vocabulário. Deste modo, muitas das nossas palavras derivadas conservaram o étimo latino a partir do qual foram criadas. Elas fazem parte do património da língua, veiculando uma dupla marca de origem: social (erudita) e temporal (tardia).
5. Argumento educativo: Como ensinar a uma criança que “soturno” se lê com “o” fechado, pronunciado “u” na maior parte do país, e a palavra “noturno” se lê com “o” aberto”? A resposta é fácil: não se fala no assunto e fica o caso arrumado. Como ensinar a uma criança que da palavra “noite” se formou “noitada”, mas que “noiturno” e “noitívago” não existem, o que existe para o AO 90 é “noturno” e a dupla grafia “notívago” e “noctívago”? Não seria mais fácil escrever estas últimas com “ct” e dizer-lhe que são palavras entradas na língua por via erudita e não por via popular? E que, se elas, crianças, comeram papa “láctea”, esta é outra palavra também erudita, tal como “lacticínios” ? Escrever “laticínios” não remete para outra coisa a não ser para “lata”. Talvez a lata de leite condensado que se vende nos supermercados?

6. Argumento sociológico: Antes de 1990 já existiam duas grafias em Portugal: a norma de 1945, muito bem destrinçada e explicada em Prontuários Ortográficos; e uma grafia difusa, sempre em reconstrução e evolução - a das mensagens juvenis - caracterizada pela simplicidade extrema, minimalista, com consoantes isoladas representando palavras, sem pontuação, nem cedilhas nem tiles. Esta tendência não fez senão acentuar-se com a generalização do uso electrónico. É nesta situação dicotómica que se insere uma terceira forma ortográfica, a do AO 90. Os defensores da norma de 45 agridem verbalmente os defensores da de 90 e vice-versa. E os jovens? Uns são penalizados nas notas por escreverem à antiga algumas palavras-ratoeira; outros são menosprezados porque escrevem à sua, deles, moda “simplex”; e os que escrevem “à moderna” deixam de respeitar as edições existentes na biblioteca da sua escola e inclusive invocam o pretexto da “confusão gráfica” para deixarem completamente de ler. Se o AO 90 não é um erro sociológico, não sei o que será.

7. Argumento diplomático: O Acordo Ortográfico de 1990 tinha-se proposto unificar a escrita de todos os países de língua oficial portuguesa. Este objectivo não foi conseguido. Portugal impôs unilateralmente uma grafia que não tem o acordo de todos . Diz-se que o AO 90 foi feito, essencialmente, para aumentar as vendas de livros portugueses no Brasil. Para isso pretendia unificar a escrita. Não unificou. Temos, por exemplo, acentos agudos onde os brasileiros têm acentos circunflexos (fenómeno /fenômeno, o que corresponde a uma efectiva diferença de pronúncia); e eliminamos o “c” e o “p” que são pronunciados em palavras brasileiras e não o são nas correspondentes portuguesas. Por exemplo, no Brasil: respectivo, perspectiva, recepção; em Portugal, segundo o AO: respetivo, perspetiva, receção, embora os “e” destas palavras não se pronunciem como os de “repetido” e “recessão”. Angola e Moçambique não assinaram o AO 90 (o que me parece um grande exemplo de bom senso, sobretudo se tivermos em conta o argumento que se segue). A opinião destes países de língua oficial portuguesa devia ter sido ponderada e tida em conta pelo governo português antes de avançar para uma “situação de facto” extremamente difícil de reverter.

8. Argumento económico: O que teria sido economicamente mais recomendável? Adoptar como obrigatório o AO 90 em nome de futuras vendas de futuros livros, tornando obsoletas as bibliotecas existentes? Ou manter a escrita de 1945, com todo o enorme acervo literário e científico que produziu? Leiamos as palavras da escritora moçambicana Paulina Chiziene: “Quantos dicionários Moçambique terá de comprar de novo? Quantos livros terá de mandar reescrever? Quantos livros de escola terão de ser refeitos, em nome de um acordo ortográfico? Será que vale a pena sacrificar tanto dinheiro dos pobres só para tirar um “c” e um “p” do que está escrito? [...] Penso que é um capricho tão desnecessário quanto caro”. (in “Tradutores contra o Acordo Ortográfico”, FB).

9. Argumento da preservação patrimonial: É natural que uma língua que se começou a escrever e ensinar há relativamente pouco tempo – por exemplo, o mirandês, no fim do século XX – não tenha qualquer obrigação de respeitar formas que os portugueses foram elaborando ao longo dos séculos. Porém a mim parece-me que todos nós, portugueses, que dispomos de uma língua escrita desde, pelo menos, D. Afonso II, temos obrigação de manter o mais possível as marcas históricas das palavras que até nós chegaram. A grafia portuguesa já em tempos renunciou a algumas marcas históricas: por exemplo, o “ph” e os “ll” etimológicos (pronunciados “f” e “l”), dado que esse modo de escrever induzia a leituras erradas, e podia, por isso mesmo, ser descartado. Porém o AO 90 vai longe demais, ao afectar de modo evidente a leitura das vogais não acentuadas e a íntima conexão lógica que existe dentro de cada paradigma vocabular. Ao modificar-se a escrita, com base numa (suposta) maior facilidade da sua aprendizagem, estabeleceu-se uma enorme confusão nessa mesma escrita e perdeu-se a possibilidade de jovens e menos jovens compreenderem os mecanismos de formação das palavras. Perdeu-se o nexo entre elas.

Para terminar: Outra coisa ainda deveria ser tida em conta: ao renunciar de modo cego às marcas históricas, este “acordo” insere-se num movimento global de apagamento da memória e de negação da História. Terrível movimento, que cada dia se torna mais evidente e que deixará sem raízes, sem passado, uma série de povos, se não a maioria. E que já está deixando o mundo à deriva, presa dócil de todas as tiranias. Admiramo-nos do modo como estão sendo destruídos monumentos, museus, cidades, inúmeras etnias e línguas. Este desrespeito, este crime que hoje nos parece abrupto, começou devagar, por pequenas coisas, aparentemente insignificantes.

É inelutável? Será irreversível? Há quem diga que é demasiado tarde para recuar. Mas talvez ainda se possa fazer qualquer coisa. Mesmo este Acordo, que ainda não está instaurado em todo o mundo lusófono, é passível de emendas fundamentais. Ou de ser conscientemente desobedecido por muitos e muitos anos.»

sobre PPC


Maria de Fátima Bonifácio  

«Desde o Congresso do PSD, tão morno e tão maçador que foi qualificado de “anestésico”, correm as lamúrias sobre a “fragilidade” e o “isolamento” de Passos Coelho, de quem o povo laranja teria esperado que se reinventasse, mas que, para grande decepção dos adeptos, se apresentou ao conclave igualzinho a si mesmo. Ainda por cima, disse – e repetiu – com toda a clareza que o PSD não voltaria ao poder na semana seguinte, nem ainda no mês de Maio do ano em curso, o máximo de espera suportável. Que não: que a actual maioria, legal e legítima, se revelara mais sólida do que se julgara; que era impossível assinar-lhe uma longevidade certa e definida; e que, por conseguinte, o PSD teria pela frente uma longa, indeterminável fase de oposição. Passos, portanto, não tinha nada de verdadeiramente empolgante para oferecer. Ganhara as eleições de 2015, é certo; operara o milagre de conseguir que Portugal tivesse uma “saída limpa” do programa de assistência da Troika, é também certo; mas o seu tempo acabara. E só não teria acabado se ele tivesse demonstrado uma acrobática habilidade para se “reinventar” a si mesmo, o que infelizmente não se verificara. De Passos se poderia dizer que não aprendera nada, nem esquecera nada.

Não me tinha ocorrido a ideia de que as grandes qualidades de Pedro Passos Coelho, que estiveram na origem do seu sucesso político e governativo, só tivessem, afinal, validade cíclica. Julgava que o realismo, o pragmatismo, a exigência, a resiliência, a coragem, a força de carácter, a integridade política eram trunfos para todas as estações. Pelos vistos, não são. E não são certamente os atributos requeridos, necessários ou sequer desejáveis para um “novo ciclo político”. Quais serão eles?

Pesquei à linha nas declarações dos seus opositores. Desde logo, claro, capacidade afectiva e vocação sentimental. Capacidade para se condoer, de forma que seja bem visível e audível, com os pensionistas mais pobres, por exemplo. Depois, claro, um módico de “maleabilidade”, que no dicionário dos seus críticos dentro do PSD significa predisposição para começar por recapitular erros, e acabar num mea culpa; ou seja, renegar tudo o que fez dele o líder e candidato a primeiro-ministro mais votado nas eleições de Outubro de 2015. E significa ainda, no dicionário dos seus adversários mais ressabiados, “abertura” a um “diálogo” com António Costa que vá evoluindo para uma compreensão mútua que, por sua vez, acabe por desaguar numa colaboração afável, franca e prestimosa. Seria uma maneira elegante de o presidente do PSD romper o seu alegado isolamento. Quer dizer, uma maneira de os pequenos e os grandíssimos boys do PSD — os “mais magoados” e os “mais ansiosos” — não fazerem a travessia da oposição em regime de absoluta “abstinência”.

Para inaugurar tão virtuosa “abertura”, não basta declarar (como Passos declarou num surpreendente momento de fraqueza) — «Social-democracia sempre!». Não. É preciso mais. É preciso expurgar todo o seu discurso do mais ténue vestígio da danosa ideologia liberal ou neoliberal que, durante o seu mandato como primeiro-ministro, pespegou no Partido Social Democrata uma nódoa diabólica. E ainda não chega. José Eduardo Martins, um crítico que já ascendeu a herói pela extraordinária coragem de ter comparecido em Espinho, queixou-se no Diário de Notícias de que “No passado recente […] escasseou a sensibilidade social, foram muitos os momentos de deriva ideológica em que a matriz social-democrata foi esquecida.” Será que o aspirante a futuro presidente do PSD ignora que a social-democracia é cara demais para um país que Passos tirou da bancarrota, um feito que ele próprio reconhece no mesmo texto?!

Pouco importa: houve “deriva ideológica”, ponto. Como revela o jornalista Vítor Matos, “Não basta falar de desigualdades para se tornar mais social-democrata.” Passos que não venha agora com essa. É velha; está gasta. Em Espinho, Passos “não levou ao país nem ao partido nada de novo”. Não forneceu uma só pista que permitisse diferenciar o PSD “do que fez nas últimas legislativas”. Mais: nada disse “sobre aquilo que é hoje essencial para o centro-direita”; apresentou-se o mesmo Passos, “com o mesmo tom, a mesma estratégia, a mesma resiliência, a mesma frieza, a mesma teimosia”. Mais grave ainda: “Em tempo de afectos na política”, nem ao menos se emocionou ou teve “uma palavra de afecto para os pensionistas e Marcelo ganhou assim”. E Vítor Matos conclui muito logicamente: “Parece que não aprendeu a lição.” Qual lição? A de ter vencido as eleições com esta carrada de defeitos? Relapso e contumaz, Passos “manteve as ideias que trazia da campanha eleitoral”. Nada me parece mais acertado. Apesar de todo o foguetório e de todos os malabarismos para impressionar incautos, a verdade é que estamos perante “péssimas notícias” no horizonte económico-financeiro, considerando Graça Franco (4.4.16) que o que se perspectiva “é mau demais para continuar a fingir que não se passa nada”.

Alguém me explique por que haveria de mudar aquelas ideias. Passos apresentou-se em campanha com um programa de governo para o novo ciclo pós-Troika. Ganhou as eleições, mas o Parlamento recusou-o para primeiro-ministro. Deveria, por isso, deitar as suas ideias borda fora e improvisar um programa diferente pelo motivo de ter passado à oposição? A tática oposicionista, essa, suponho que seja diferente do estilo e modo de estar no poder. Mas o que em campanha era julgado bom e necessário para o País, transforma-se em mau e desnecessário só porque se transitou para a bancada do combate contra o governo ? E, já agora, “o que é hoje o essencial para o centro-direita”? Ser o mais social-democrata possível ? Ter um discurso idêntico ao do partido costista e adjacentes? Por outras palavras: competir com a esquerda radical para ver quem gasta ou promete gastar mais?! Como conclui muito acertadamente João Miguel Tavares (Público, 5.4.16), se a “geringonça”, por milagre, resultar, no que também eu não acredito, “o tempo será sempre de António Costa, e nunca dos sociais-democratas do PSD”.

Esta verdade, porém, não entra nas cabecinhas dos “mais magoados” e dos “mais ansiosos” (Vítor Matos), que pedem a auto-reinvenção de Passos, o exortam a ser mais social-democrata e lhe exigem “novidades”. Pedem-lhe, em suma, o poder de volta o mais rápido possível e a qualquer preço. Estou em crer que Passos não se deixará empurrar pela esquerda do partido para uma derrota anunciada. Sinal disso foi a promoção de Maria Luís. Tenho grande apreço pela ex-ministra. Apreço e simpatia: gosto de pessoas inteligentes, convictas, intrépidas, e dispenso expansões públicas de emoções e sentimentos. Embora não tenha a certeza de que fosse preciso um sinal tão forte, a roçar a provocação, o sinal confirma que Passos Coelho não faz a menor tenção de se reinventar.

E ainda bem. Porque se algo é preciso reinventar – e ele é o homem certo para isso – é a própria social-democracia. Porquê? Porque, historicamente, esta já venceu: o que começou a erguer sobre os escombros da Segunda Guerra enraizou-se, vingou. desenvolveu-se e generalizou-se. É hoje, no Ocidente europeu, um património civilizacional tanto da esquerda como da direita. O que falta para sair do impasse actual e arrombar portas que lhe permitam continuar a viver? Falta remover os obstáculos, fruto de ideologias e doutrinas obsoletas, que entravam o progresso do capitalismo.

Sim, do capitalismo. Porquê? Porque o capitalismo, assente na propriedade privada e na concorrência, é historicamente o regime que mais riqueza e prosperidade gerou até hoje, e que retirou centenas de milhões de pessoas da miséria extrema. E é também, em toda a História, o regime económico que mais liberdade, individual e colectiva, concede às sociedades. Num mundo globalizado e que já não dorme, a estatização da economia (e portanto da sociedade), as planificações económicas e os proteccionismos de outrora não são possíveis, nem desejáveis. A social-democracia de cariz keynesiano está esgotada. E a sua urgente reinvenção terá de provir, e só pode provir de um casamento harmonioso com o liberalismo económico. Não é uma contradição e ainda menos um paradoxo. Quem tem medo da palavra “liberal”?

Muito boa gente. Paulo Rangel, por exemplo, num artigo sobre “Mobilidade Social” (Público, 5.4.16), esmera-se a explicar o distinguo fundamental: “O PSD tem um ímpeto liberalizador – que não é o mesmo que um ímpeto liberal.” Deus nos livre! “Numa economia altamente estatizada [como a nossa, supõe-se], liberalizar não é naturalmente ser liberal.” Confesso que a subtileza da nuance me escapa. Muitos social-democratas estão erradamente convencidos de que a social-democracia de cariz keynesiano resolve os problemas da desigualdade e do Estado Social com mais doses de social-democracia keynesiana – ainda mais Estado, ainda mais impostos. Do meu ponto de vista, resolvem-se liberalizando-a, porque esses problemas radicam essencialmente na insuficiência de riqueza. Votei em Passos Coelho porque o achava talhado para padrinho de um casamento a meu ver feliz e necessário. Espero que ele não se reinvente. À sua volta, quase só vejo anões.»

Antena 2



Império dos Sentidos é o programa diário da Antena 2 que está no ar entre as 7h00 e as 10h00 pela voz de Paulo Alves Guerra. Não sei quando começou mas tem pelo menos uns 9 anos. É um programa muito vivaz porque o apresentador emprega um ritmo discursivo semelhante ao usado nas notícias e um tom emotivo muito próprio e colorido pelas constantes interjeições, o que contrasta bastante com a forma monótona, impessoal e desprovida de emoção, que durante décadas se ouviu naquela emissora nacional. Desta forma inteligente João Guerra prende a atenção por mais extensa ou intrincada que seja a matéria do seu discurso. Vale a pena ouvir, tal como outros programas da Antena 2, a emissora que é um marco na resistência contra a frivolidade e o mau gosto que impera nas ondas hertzianas portuguesas.

Imaginem...

“Imaginem um jovem ocidental a vir aqui e a levar a cabo uma missão suicida numa das nossas praças públicas em nome da Cruz. Imaginem que dois arranha-céus haviam colapsado numa capital árabe, e que um grupo extremista cristão, vestindo roupas do milénio passado, haviam assumido responsabilidade pelo evento enquanto destacavam a sua determinação em ressuscitar ensinamentos cristãos ou decisões cristãs, de acordo com a sua percepção, para viver como no tempo [de Jesus] e dos discípulos, e para implementar certos edictos de teólogos cristãos…  
                                                                                                          tirado daqui

Alentejo prometido



Quando a escrita é escorreita sinto o prazer da leitura. A leitura do livrinho “Alentejo prometido”, que prenunciava nas primeiras linhas um retrato nostálgico, depressa se transformou numa espécie de crónica antropológica que me recordou a carta de Pero Vaz de Caminha dando conta do achamento do Brasil. O relato de um mundo desconhecido.

O livro é portador de um conteúdo que, relacionando dados e factos históricos, sociológicos e demográficos, incomoda muitos alentejanos, talvez porque se vêem confrontados com um exercício reflectivo, sobre si próprios, nunca antes ensaiado. E será essa novidade que incomoda. Porém, Henrique Raposo não deixa de retratar uma terra amada, embora escandalosamente adiada pelos poderes e, sobretudo, pelos seus naturais.

E este contar da sua juventude nessa terra, manifesta a decepção resultante das oportunidades perdidas e o enfatuamento com a indolência das gentes, numa desilusão que ombreia com o fascínio pelas coisas desconhecidas do passado, no presente ciosamente mantidas em segredo.

Não reconheço aquele “odor a haxixe dos eucaliptos”, dois aromas que não me cheiram nada semelhantes mas, enfim, a cada nariz a sua sentença – nem imagino o que responderia o Henrique Raposo ao Zé Cravinho se o ouvisse dizer que os cogumelos laranjinhas (amanita dos césares) cheiram a vagina quando já têm um par de dias para além do prazo?!

Revisitei, na caracterização que o autor faz daqueles alentejanos, muito daquilo que deles conheço porque ao longo de umas três décadas repeti uma peregrinação estival alentejana e, portanto vi, vivi, e senti relativamente bem esse ambiente.

Embora pareça que nesta caracterização subjaz a construção de um estereótipo, recrutado para a tarefa do relato/denúncia que o autor opera, tal não deve ser confundido com um cliché ou com uma criação meramente ficcional, pois são muitos e variados os números apresentados sobre os fenómenos sociais e demográficos da sub-região em apreço.

Neste Alentejo, certamente nenhum dos autóctones se revê, pois para tais exercícios de percepção é imperioso o distanciamento. Distanciamento de quem foi e se demorou e que, ao regressar, olha para aquela planície ou para aquele monte como quem olha para uma pintura ou uma peça de teatro e sobre eles reflecte, naquele hiato de tempo que antecede o acto mágico da pintura o voltar a integrar como figurante na paisagem, ou o cenário o absorver para protagonista da representação.

Claro que o livrinho teria de suscitar indignação e as consequentes invectivações ao autor, mormente da parte dos alfabetizados iletrados, incapazes de leituras mais sérias do que as míseras coboiadas do Rodrigues dos Santos. Mas estou certo de que o autor agradece, pois com tais azedumes propalados o livrinho vende-se melhor.

Já anteriormente alguns dos meus conterrâneos algarvios haviam trilhado essa senda da apreciação literária embotada, quando, em crítica a um terço de artigo escrito pelo mesmo autor, sobre gentes de Odiáxere - Lagos, vociferaram, vituperaram e insultaram, sem perceberem que o artigo completo desembocava mais perto do panegírico do que do agravo que o mísero terço destacado do texto precipitadamente insinuava.

Na era da comunicação global e da teia de ligações electrónicas que conectam pessoas, gentalha, e sub-humanos (estou a pensar nos feiosos do ISIS e do DAESH), e em que todos querem ter opinião mas em que só as vozes críticas se destacam é, pois, imperioso criticar. Criticar bradando alto, esperneando e inserindo bonequinhos de feia catadura nas redes sociais. E por isso criticam, mesmo que não percebam a ponta de um corno daquilo que leram ou mesmo do que falam. Declarar, é o comprovativo de que se existe. 

Assim o declaro.





da ARTE

Diz o Armindo Gaspar, e provavelmente com razão: - A Música só é difícil nos primeiros 20 anos. 
Não me causa estranheza tal afirmação, até porque sempre entendi que só existem duas manifestações artísticas verdadeiramente autênticas, na sua dificuldade técnica e no seu valor criativo: a Música e a Literatura. 
E no extremo oposto, a Fotografia p. ex.. Mostrem-me uma peça musical, de valor, que tenha sido criada aleatoriamente; ou um romance composto pela junção anárquica de frases. Ao invés, quantas fotografias acidentais, fruto do acaso, têm passado por obras de arte? 
Ou até mesmo aquelas pinturas resultantes do despejar de baldes de tinta, ou do aspergir de pincéis ensopados, sobre uma tela?! Pelo meio andará uma outra Pintura, o Desenho (incluindo a Arquitectura), a Escultura e outras manifestações artísticas que, não alcançando o valor da Literatura ou da Música, também não se reduzem a esse baixo nível das manifestações conceptuais que enxameiam a Arte Contemporânea.


"ARTE" - fotografia acidental

Mente a Fotografia

«La obra de Joan Fontcuberta se inscribe en una línea crítica de la concepción de la fotografía como evidencia de lo real. Muchos de sus trabajos versan sobre el “poner en duda” la verdad que se le otorga a las imágenes fotográficas. Se posiciona en una línea de cuestionamiento y duda hacia la veracidad de la imagen fotográfica. Afirma que:
“(…) Toda fotografía es una ficción que se presenta como verdadera. Contra lo que nos han inculcado, contra lo que solemos pensar, la fotografía miente siempre, miente por instinto, miente porque su naturaleza no le permite hacer otra cosa. Pero lo importante no es esa mentira inevitable, lo importante es cómo la usa el fotógrafo, a qué intenciones sirve. Lo importante, en suma, es el control ejercido por el fotógrafo para imponer una dirección ética a su mentira. El buen fotógrafo es el que miente bien la verdad (...)” (Fontcuberta, 1997)»


e Deus?

“Quando os homens deixarem de acreditar em Deus, isso não significará que não acreditam em nada, mas que acreditam em tudo”.

Umberto Eco

Presidenciais 2016

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
 Estendendo-me os braços, e seguros
 De que seria bom que eu os ouvisse
 Quando me dizem: "vem por aqui!"
 Eu olho-os com olhos lassos,
 (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
 E cruzo os braços,
 E nunca vou por ali...
 (...)
Não, não vou por aí!
Só vou por onde Me levam meus próprios passos...»
(Cântico Negro - José Régio)

Estou cansado da lógica partidária, e dos seus gurus calculistas que de longe traçam caminhadas de realização pessoal em que não se vislumbra um resquício credível de dedicação à causa pública. Pelo contrário, os candidatos afiguram-se continuadamente reféns de lobbys das mais variadas naturezas, sejam de carácter económico ou simplesmente gerados em empatias e cumplicidades tecidas ao longo dos seus percursos políticos.
Irei por aqui, com as fragilidades e as eventuais contradições que mesmo o melhor dos candidatos terá e, sem ilusões nem falsas esperanças, numa singela manifestação de apoio ao imperativo de recuperar os valores éticos para a vida política e a gestão da res publica.



(clicar na foto para ver entrevista)