Só vai piorar!



 


Ainda não vimos nada!

Por António Barreto

14 de Junho de 2020

 

Republicanos, corporativistas, fascistas, comunistas e até democratas mostraram, nos últimos séculos, que se dedicaram com interesse à revisão selectiva da História, assim como à censura e à manipulação.

É triste confessar, mas ainda estamos para ver até onde vão os revisores da História. Uma coisa é certa: com a ajuda dos movimentos anti-racistas, a colaboração de esquerdistas, a covardia de tanta gente de bem e o metabolismo habitual dos reaccionários, o movimento de correcção da História veio para ficar.

Serão anos de destruição de símbolos, de substituição de heróis, de censura de livros e de demolição de esculturas. Até de rectificação de monumentos. Além da revisão de programas escolares e da reescrita de manuais.

Tudo, com a consequente censura de livros considerados impróprios, seguida da substituição por novos livros estimados científicos, objectivos, democráticos e igualitários. A pujança deste movimento através do mundo é tal que nada conseguirá temperar os ânimos triunfadores dos novos censores, transformados em juízes da moral e árbitros da História.

Serão criadas comissões de correcção, com a missão de rever os manuais de História (e outras disciplinas sensíveis como o Português, a Literatura, a Geografia, o Meio Ambiente, as Relações Internacionais…), a fim de expurgar a visão bondosa do colonialismo, as interpretações glorificadoras dos descobrimentos e os símbolos de domínio branco, cristão, europeu e capitalista.

Comissões purificadoras procederão ao inventário das ruas e locais que devem mudar de nome, porque glorificam o papel dos colonialistas e dos traficantes de escravos. Farão ainda o levantamento das obras de arte públicas que prestam homenagem à política imperialista, assim como aos seus agentes. Já começou, aliás, com a substituição do Museu dos Descobrimentos pelo Memorial da Escravatura.

Teremos autoridades que tudo farão para retirar os objectos antes que as hordas cheguem e será o máximo de coragem de que serão capazes. Alguns concordarão com o seu depósito em pavilhões de sucata. Outros ainda deixarão destruir, gesto que incluirão na pasta de problemas resolvidos.

Entretanto, os Centros Comerciais Colombo e Vasco da Gama esperam pela hora fatal da mudança de nome.

Praças, ruas e avenidas das Descobertas, dos Descobrimentos e dos Navegantes, que abundam em Portugal, serão brevemente mudadas.

Preparemo-nos, pois, para remover monumentos com Albuquerque, Gama, Dias, Cão, Cabral, Magalhães e outros, além de, evidentemente, o Infante D. Henrique, o primeiro a passar no cadafalso. Luís de Camões e Fernando Pessoa terão o devido óbito. Os que cantaram os feitos dos exploradores e dos negreiros são tão perniciosos quanto os próprios. Talvez até mais, pois forjaram a identidade e deram sentido aos mitos da nação valente e imortal.

Esperemos para liquidar a toponímia que aluda a Serpa Pinto, Ivens, Capelo e Mouzinho, heróis entre os mais recentes facínoras. Sem esquecer, seguramente, uns notáveis heróis do colonialismo, Kaúlza de Arriaga, Costa Gomes, António de Spínola, Rosa Coutinho, Otelo Saraiva de Carvalho, Mário Tomé e Vasco Lourenço.

Não serão esquecidos os cineastas, compositores, pintores, escultores, escritores e arquitectos que, nas suas obras, elogiaram os colonialistas, cúmplices da escravatura, do genocídio e do racismo. Filmes e livros serão retirados do mercado.

Pinturas murais, azulejos, esculturas, baixos-relevos, frescos e painéis de todas as espécies serão destruídos ou cobertos de cal e ácido. Outras comissões terão o encargo de proceder ao levantamento das obras de arte e do património com origem na África, na Ásia e na América Latina e que se encontram em Portugal, em mãos privadas ou em instituições públicas, a fim de as remeter prontamente aos países donde são provenientes.

Os principais monumentos erectos em homenagem à expansão, a começar pelos Jerónimos e pela Torre de Belém, serão restaurados com o cuidado de lhes retirar os elementos de identidade colonialista. Os memoriais de homenagem aos mortos em guerras do Ultramar serão reconstruídos a fim de serem transformados em edifícios de denúncia do racismo. Não há liberdade nem igualdade enquanto estes símbolos sobreviverem.

Muitos pensam que a História é feita de progresso e desenvolvimento. De crescimento e melhoramento. Esperam que se caminhe do preconceito para o rigor. Do mito para o facto. Da submissão para a liberdade.

Infelizmente, tal não é verdade. Não é sempre verdade. Republicanos, corporativistas, fascistas, comunistas e até democratas mostraram, nos últimos séculos, que se dedicaram com interesse à revisão selectiva da História, assim como à censura e à manipulação.

E, se quisermos ir mais longe no tempo, não faltam exemplos. Quando os revolucionários franceses rebaptizaram a Catedral de Estrasburgo, passando a designá-la por Templo da Razão, não estavam a aumentar o grau de racionalidade das sociedades. Quando o altar-mor de Notre Dame foi chamado de Altar da Liberdade caminharam alegremente da superstição para o preconceito.

E quando os bolchevistas ocuparam a Catedral de Kazab, em São Petersburgo e apelidaram o edifício de Museu das Religiões e do Ateísmo, não procuravam certamente a liberdade e o pluralismo. E também podemos convocar os Iconoclastas de Istambul, os Daesh de Palmira ou os Taliban de Bamiyan que destruíram símbolos, combateram a religião e tentaram apropriar-se tanto do presente como do passado.

Os senhores do seu tempo, monarcas, generais, bispos, políticos, capitalistas, deputados e sindicalistas gostam de marcar a sociedade, romper com o passado e afastar fantasmas. Deuses e comendadores, santos e revolucionários, habitam os seus pesadelos. Quem quer exercer o poder sobre o presente tem de destruir o passado.

Muitos de nós pensávamos, há cinquenta anos, que era necessário rever os manuais, repensar os mitos, submeter as crenças à prova do estudo, lutar contra a proclamação autoritária e defender com todas as forças o debate livre.

É possível que, a muitos, tenha ocorrido que faltava substituir uma ortodoxia dogmática por outra. Mas, para outros, o espírito era o de confronto de ideias, de debate permanente e de submissão à crítica pública.

O que hoje se receia é a nova dogmática feita de novos preconceitos. Não tenhamos ilusões.

Se as democracias não souberem resistir a esta espécie de vaga que se denomina libertadora e igualitária, mergulharão rapidamente em novas eras obscurantistas.»

 

O SOCIALISMO PEDINTE

"A imagem do PM António Costa com o PM holandês, Mark Rutte, há umas semanas em Haia vale mais do que mil palavras. Rutte faz uma vénia leve com a cabeça, o novo tratamento dos tempos do Covid. Costa está dobrado, simbolizando, com aquele gesto, a dependência absoluta do regime socialista em relação ao dinheiro europeu. Aquela é a fotografia do socialismo pedinte que nos governa.

Em Portugal, os dirigentes socialistas falam com voz grossa contra os holandeses e contra Orban. Mas quando toca a receber dinheiro da Europa, tudo se faz e tudo se esquece para receber os fundos e o capital que o regime socialista precisa para sobreviver, fazer negócios e reforçar o seu poder em Portugal.

A economia portuguesa enfrenta dois problemas muito complicados (estão ligados): falta de capital para investir e uma dívida (pública e privada) brutal. É um país sem capital e endividado até ao pescoço. O Banco Central Europeu é absolutamente crucial para gerir a dívida. Sem BCE e sem Euro, Portugal estaria falido. Em relação ao capital, durante uns anos, os dinheiros chinês e angolano disfarçaram a realidade. Mas, por razões diferentes, já não podemos contar com investimento chinês e angolano. A maior fonte de capital, dos últimos 35 anos, Bruxelas, torna-se ainda mais indispensável. A economia portuguesa não sobrevivia sem a União Europeia. E no partido socialista, todos sabem isso. As irritações de Costa com os holandeses e os desabafos de Pedro Nuno dos Santos contra Merkel são absolutamente irrelevantes.

Muitos em Portugal celebraram o último Conselho Europeu com um “momento histórico” para a Europa. Terá sido. Mas também foi um momento do maior “fracasso histórico” do regime português desde o 25 de Abril: aproveitar a integração europeia para fortalecer a nossa economia e construir uma sociedade próspera. Três décadas e meia depois, e muitos mil milhões de euros oferecidos por Bruxelas, temos uma economia fraca e vivemos numa sociedade remediada. Tal como em 1985, em 2020, continuamos na cauda da Europa e a pedinchar dinheiro. Eis, a maior vergonha da história portuguesa dos últimos 35 anos.

Muitos socialistas também pedem à União Europeia para ser uma verdadeira “união de transferências” (de dinheiro, bem entendido). Ainda mais? Desde 1985, Portugal recebeu de Bruxelas mais de cem mil milhões de Euros a fundo perdido. Quando o país ficou insolvente, em 2011, a União Europeia emprestou mais cerca de 50 mil milhões de Euros (o resto foi o FMI) para a economia nacional sobreviver. Se isto não é uma União de transferências, o que é? Agora os responsáveis socialistas garantem que se vai “usar bem o dinheiro que aí vem.” Pergunto: alguém acredita que um governo socialista sabe gastar bem dinheiro? Ninguém acredita. Não acreditam os holandeses, não acreditam os portugueses e não acreditam os ministros do nosso governo. Como mostra a realidade desde 1995, os governos socialistas sabem desperdiçar recursos, não sabem investir.

Só há uma maneira de os fundos que aí vêm não serem inteiramente desperdiçados, tal como sabem os holandeses e os alemães: uma fiscalização por parte da União Europeia. Ainda não é claro nem certo, mas tudo aponta para que a Comissão Europeia e o Conselho controlem a utilização dos empréstimos e dos fundos oferecidos. Nesse sentido, as decisões do Conselho Europeu indicam o fim da “união de transferências” e o início de uma união económica e financeira. Haverá mais fundos e dívida comum europeia, mas os pais mais dependentes, como o nosso, vão perder soberania e poder. Cada vez haverá mais decisões tomadas em Bruxelas e menos em Lisboa.

Tudo isto é trágico: a dependência total da União Europeia e a absoluta falta de confiança no governo para investir os fundos da melhor maneira. Desde 1985, Portugal teve tudo para ser um país com uma economia forte, uma sociedade próspera e independente politicamente. O objectivo dos fundos europeus é enriquecer para ser mais independente. O nosso regime político, do passado, recebeu independência, e ao futuro deveria deixar prosperidade. Mas falhou. Continuamos pobres, cada vez mais dependentes de Bruxelas, e deixamos um monte de dívidas para o futuro. Nunca tão poucas gerações traíram tanto muitas outras gerações. As que já morreram, e as que estão por nascer. Como foi possível isto acontecer?"

João Marques de Almeida In OBSERVADOR, 26 Jul. 2020


Geração à Rasca (texto anónimo 2011)

«Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras.»


Existe uma geração à rasca? Existe mais do que uma! Certamente! Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes as agruras da vida. Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar com frustrações. A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também estão) à rasca são os que mais tiveram tudo. Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.

Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a minha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos) vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós 1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor. Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos…), mas também lhes deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de diversão, cartas de condução e 1º automóvel, depósitos de combustível cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada. Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado com que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes.

Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego, … A vaquinha emagreceu, feneceu, secou. Foi então que os pais ficaram à rasca. Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde não se entra à borla nem se consome fiado. Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar a pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a pais. São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade, nem dos qualquercoisaphones ou pads, sempre de última geração.

São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter de dizer “não”. É um “não” que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas, porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem, querem o que já ninguém lhes pode dar! A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo menos duas décadas. Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados.

Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na proporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com que o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade operacional. Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em sítio nenhum. Uma geração que tem acesso a informação sem que isso signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere. 

Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que este, num tempo em que nem um nem outro abundam.

Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras. Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável. Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada. Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o desespero alheio.

Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e inteligência nesta geração? Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos! Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e nem são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como todos nós). Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados académicos, porque, que inveja!, que chatice!, são betinhos, cromos que só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e, oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a subir na vida.

E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares a que alguns acham ter direito e que pelos vistos – e a acreditar no que ultimamente ouvimos de algumas almas – ocupamos injusta, imerecida e indevidamente?! Novos e velhos, todos estamos à rasca.

Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens. Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme convicção de que a culpa não é deles. A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nem fazer melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, e a sociedade não consegue, não quer, não pode assumi-la. Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam. Haverá mais triste prova do nosso falhanço?

Pode ser que tudo isto não passe de alarmismo, de um exagero meu, de uma generalização injusta. Pode ser que nada/ninguém seja assim.

(Texto publicado em 2011, de autoria desconhecida, falsamente atribuído a Mia Couto, e facilmente perceptível que o criativo escritor, engajado na corrente da ilusão poética, nunca o escreveria por se tratar de um texto demasiado realista)

a agenda imbecil dos manifestantes




Contra todos os iconoclasmas
Vítor Serrão

A violência contra as obras de arte é sempre um acto fascista, sejam quais forem as razões invocadas ou as bandeiras que se desfraldem para o levar à prática.
13 de Junho de 2020, 0:00

Alegadamente ligadas a manifestações de apoio ao esclavagismo, ao colonialismo, ao suprematismo branco e a outras formas de ignominiosa opressão, tanto na Virgínia como em Antuérpia, em Hamilton, em Lisboa, e em outras cidades do mundo, na sequência dos justos protestos contra o bárbaro assassinato do afro-americano George Floyd em Minnesota, veio pôr a nu uma velha questão com que a humanidade se confronta desde que existem registos históricos: a vandalização de monumentos que em algum momento passaram a ser vistos como símbolos nefastos por parte de determinadas dinâmicas políticas, sociais, religiosas, ou de defesa de um gosto preestabelecido.

O tema é antigo e sempre perigosamente recorrente, mostrando à saciedade quão acéfalo é o pendor dos homens para a violência gratuita e quão frágeis para lhe resistir são as obras de arte e os monumentos da História – sempre, nesse contexto, as primeiras vítimas a tombar. O recente livro de Éric Vuillard A Guerra dos Pobres, centrado nas revoltas camponesas na Alemanha no tempo da Reforma protestante, e na sua subsequente e violentíssima repressão, mostra bem como o ódio contra tudo o que possa ser considerado diferente alimenta as ondas de iconoclasma. Em nome da fé, em nome de Deus, em nome dos poderes instituídos, em nome de direitos ditos inalienáveis, mataram-se povos inteiros e destruíram-se patrimónios civilizacionais inestimáveis. Foi assim, mas parece que esquecemos.

A História da Arte, a museologia e as Ciências do Património têm justamente contribuído para fortalecer essa consciência de pertença. Recorro às sábias palavras do discurso de José Tolentino de Mendonça no Dia de Camões e das Comunidades e cujo sentido é mais ou menos este: a raiz da civilização é a comunidade, e o seu fermento é a cultura partilhada. Como diz o poeta, “é na comunidade que a nossa história começa, quando do eu fomos capazes de passar ao nós e de dar a este uma determinada configuração histórica, espiritual e ética”. Com máximo propósito, estas palavras ganham sentido face aos actos de violência contra obras de arte – os monumentos públicos, as estátuas e os memoriais – que, nos últimos dias, se têm multiplicado em várias cidades do nosso planeta, e também em Portugal, na onda dos sentidos protestos contra a repressão xenófoba nos EUA.

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Ora o repúdio mais que legítimo por tais actos, bem como por outras ignomínias que se praticam contra a raça, a classe social, a religião, a língua ou a cultura daqueles que são vistos como “os outros”, destruindo os seus símbolos de identidade cultural e patrimonial, não pode em nenhuma circunstância justificar respostas onde também o recurso à iconoclastia faz parte da agenda de protesto  Quando as coisas assim se confundem, que capital de esperança sobra para a grande massa de mulheres e homens conscientes e consequentes, que vêem no farol da Cultura o seu campo de afirmação identitária ? O iconoclasma é sempre um acto inadmissível, e não se resume naturalmente aos atentados do Daesh, ou dos talibans, contra museus, monumentos e demais patrimónios da humanidade, pois se alarga às atrocidades dos senhores do mundo nas guerras de cobiça contra populações inteiras para pilhagem e controle dos seus recursos.


Tal como essas acções à margem dos mais elementares princípios éticos, também a violência contra as obras de arte é sempre um acto fascista, sejam quais forem as razões invocadas ou as bandeiras que se desfraldem para o levar à prática. Chamar às obras de arte “degeneradas” (como fazia Goebbels na tristemente célebre exposição de Munique em 1937) ou “contaminadas” (como a historiografia de arte do Estado Novo chamava às artes miscigenadas no contexto da colonização e do império) foi sempre, como se recorda, linguagem dos totalitarismos e justificação para todos os actos suprematistas contra a afirmação cultural “subdesenvolvida”.

Ora tal argumentação anti-patrimonial e cunho suprematista não poderá em nenhuma circunstância, por acrescidas razões, ser tomada como arma dos que justamente se revoltam em nome de princípios de igualitarismo e justiça social... Como historiador de arte que sou, admito que se retirem obras de arte, por razões estéticas ou simbólicas (e quantas o não foram ao longo da História!), resguardadas em museus ou deslocalizadas da sua função gratulatória primeva, mas nunca posso tolerar que essas mesmas peças e monumentos se brutalizem, ou destruam! Na triste saga a que assistimos por causa da vandalização da estátua do Padre António Vieira, no Largo da Misericórdia, não existe fronteira que branqueie radicalismos, consoante a tonalidade ideológica, sabendo-se que, à espreita, temos os extremistas de direita, sempre ávidos de usar – pelas piores razões – situações como estas em seu proveito...

Pergunto: não aprendemos nós todos com a História? Parece que não sabemos, mas devíamos saber, que todas as obras de arte (independentemente da sua maior ou menor qualidade estética) são sempre trans-contextuais e, mais!, estão isentas de culpa pelos desmandos da cegueira humana. Vamos retirar de exposição pública no Metropolitan Museum de Nova Iorque o excepcional retrato do Cardeal Fernando Niño de Guevara, pintado por El Greco (c. 1600), porque o retratado é uma figura infame, responsável por inúmeras fogueiras inquisitoriais, coisa que aliás o próprio pintor bem sabia, deixando na tela a impressão da sua antipatia pelo modelo? Ora as obras de arte não se confundem nem esgotam nos temas que representam! Elas são permanentemente trans-contemporâneas e assim desfilam diante dos nossos olhares como um permanente e renovado desafio à percepção, à sensibilidade, à inteligência e aos novos saberes.

No excelente discurso que proferiu na cerimónia do Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades, Tolentino de Mendonça lembrou uma parábola que atribuiu à antropóloga e activista social Margaret Mead (1901-1978) para nos confrontar com os males maiores do nosso tempo: a cobiça e o egoísmo, parceiros da incultura e, como tal, antíteses da fraternidade. A parábola, creio, diz-nos diz tudo aquilo que o conceito de Comunidade encerra: “Um estudante teria perguntado a Margaret Mead qual seria para ela o primeiro sinal de civilização. E a expectativa geral é que nomeasse, por exemplo, os primeiríssimos instrumentos de caça, as pedras de amolar ou os ancestrais recipientes de barro. Mas a antropóloga surpreendeu a todos, identificando como primeiro vestígio de civilização um fémur quebrado e cicatrizado. No reino animal, um ser ferido está automaticamente condenado à morte, pois fica fatalmente desprotegido face aos perigos e deixa de se poder alimentar a si próprio.

Que um fémur humano se tenha quebrado e restabelecido documenta a emergência de um momento completamente novo: quer dizer que uma pessoa não foi deixada para trás, sozinha; que alguém a acompanhou na sua fragilidade, dedicou-se a ela, oferecendo-lhe o cuidado necessário e garantindo a sua segurança, até que recuperasse. A raiz da civilização é, por isso, a comunidade. É na comunidade que a nossa história começa.”

As obras de arte – todas elas – contribuem para esta configuração histórica, cultural, espiritual e ética do mundo. Não só o mundo em que foram produzidas e vivenciadas, mas também os mundos que se seguiram, e o mundo actual, em que essas mesmas obras continuam a ser vistas, quanto mais não seja como testemunho vivo de uma História comum.

Sim, as obras de arte, porque social e ideologicamente comprometidas, dão sempre testemunho e suscitam debate, seja no espaço público, no museu, no edifício religioso ou civil onde se exponham aos olhares de ontem, de hoje e de amanhã. É uma experiência dialogal de afectos, capaz de subverter o silêncio terrível que habita o coração dos homens e de impactar o imperioso abraço solidário por que todos ansiamos. Neste diálogo estético e afectivo não pode haver lugar para a vandalização e a destruição.

https://www.publico.pt/2020/06/13/opiniao/opiniao/iconoclasmas-1920437

Yin Yang?

Como funcionário público ficava-me bem votar PS, BE ou PCP, mas assim que ligo o cérebro reconheço que o mais próximo daquilo que acho correcto é defendido pelo Iniciativa Liberal.
A grande dúvida é se devo desligar o cérebro ou deixá-lo ligado; mesmo sabendo que na verdade não fará qualquer diferença na sociedade.
Ligado, alimento a consciência; desligado, alimento o corpo. Divido-me assim, naturalmente, na eterna dualidade entre espírito e matéria, entre Yin e Yang, e cavalgo o paradoxo de não ser uma coisa nem outra, de não escolher uma coisa ou outra, penando nessa terra de ninguém que existe entre os opostos, por recusar alimentar o crescente maniqueísmo em que o mundo de hoje se vai precipitando.​ Por isso, o boletim de voto não pode exprimir o que desejo.


Não gosto de nenhum, mas não deixa de ser curiosa esta apreciação superficial da realidade
Lá por falar bem (se é que fala), não quer dizer que diga verdades.
Mais uma apreciação curiosa e superficial da realidade.


Do Pensar ao Agir





Do Pensar ao Agir
Ninguém morre afogado ao cair ao mar; morre afogado se lá ficar.

O rumo viável para a sociedade hodierna é o da melhoria e aperfeiçoamento constantes através de reformas permanentes e consecutivas dos instrumentos, dos mecanismos e das instituições das sociedades democráticas que conhecemos, sabendo-as imperfeitas e muito deficitárias em vários aspectos.

A caminhada é árdua e cheia de escolhos, mas sempre assim foi ao longo da História. História em que os humanos tiveram de enfrentar uma Natureza que não facilitou subsistência, que não se criou à medida da humanidade, que teve, portanto, de ser domada e conquistada. Desafios em que os grupos tiveram, também, de enfrentar comunidades concorrentes, por vezes até à aniquilação do outro. E hoje, o desafio maior que se coloca exige que a civilização corrija a sua actuação global sob pena de comprometer irremediavelmente a sustentabilidade do planeta.

Ora, essa mesma História também ensina que as alternativas aos modelos democráticos conduzem a formas opressivas e totalitárias que suprimem todas as liberdades individuais e condicionam gravemente as liberdades colectivas. Afastando-se, portanto, dos ideais e valores do Humanismo e da Razão tão trabalhosamente conquistados e adoptados pela epopeia civilizacional edificadora de um racionalismo ético e moral.

Resta-nos, pois, esse caminho truculento de azedumes, irritações, gritarias, e das estultícias que bastas vezes enlameiam o concurso da inteligência; a par dessa caminhada desejável, mais ou menos harmoniosa, mais ou menos progressista, mais ou menos pacífica. É assim, naturalmente.

É assim, mas é difícil de compreender pela maioria das pessoas que, habituadas às facilidades e comodidades de 70 anos de paz e prosperidade (pelo menos em grande parte do mundo ocidental), não aceitam as fraquezas da vida em democracia, falhas protagonizadas por toda a sorte de oportunistas e trambiqueiros, pela cobiça e ganancia dos que procuram o lucro e a riqueza desmesurada, o brilho dos metais preciosas e das enganadoras lantejoulas, a fama e o reconhecimento público da sua identidade e da sua vaidade.

Porém, não há alternativa aceitável a esta luta constante, a este esgrimir permanente da paciência e da lucidez. A História mostrou-o repetidamente; as experiências alternativas resultaram sempre em pesado sofrimento e brutal aniquilação de milhões de seres humanos.

Se o que temos não é perfeito, então aperfeiçoemos. Não existe nenhuma democracia perfeita, e a alternativa à democracia será sempre algo muito pior. Se Pensar é relativamente fácil, já a acção poderá ser mais difícil. Porém, há algo muito importante a dizer sobre o Agir: Toda a mudança que se deseja tem de começar dentro de nós.

F. Castelo
2020.04.28

riquezas e pobrezas

Esses ignorantes que andam por aí a publicar panegíricos a um Portugal riquíssimo que tem tudo, mas mal-aproveitado, deviam começar por constatar que nunca fomos um país rico, nem sequer um território com aptidão agrícola. Com excepção da pequena faixa das lezírias ribatejanas tudo o resto é uma pobreza franciscana. E o artigo abaixo também refere isso.

O braço longo da História
M. Fátima Bonifácio – Historiadora - 22 de Abril de 2020 – Jornal Público

Na UE, a cisão Norte/Sul, patente nas crises de 2007-8 e na actual tremenda crise do coronavírus, não deriva da petulância “repugnante” do ministro holandês nem da falta de caridade da Senhora Merkel. Tal cisão tem raízes ancestrais e, de certo modo, naturais.

Europa do Norte e Europa do Sul: duas Europas que se defrontam em época de crise. Foi assim em 2007/08. Volta a ser assim em 2020. Não. Não é por causa da Senhora Merkel e dos alemães; não é por causa dos holandeses e do seu “repugnante” ministro das Finanças que actualmente representa a Holanda no Eurogrupo. Ou melhor, será por causa disto tudo e mais alguma coisa, mas a cisão da Europa entre Norte e Sul tem raízes seculares.

Há muitos e muitos anos, há décadas, aprendi com Marc Bloch que o rio Loire, que atravessa a França de Leste a Oeste – nasce no Sul, próximo de Grenoble, mas rapidamente sobe até Orléans, vira a 90 graus para o Oeste e desagua no Atlântico –, era um separador entre duas civilizações agrárias. Esta separação residia numa diferença decisiva do tipo de solo agrícola: a Norte do Loire, a terra era úbere, pesada e húmida; a Sul, e até ao Mediterrâneo, era seca, leve, arenosa e cheia de pedregulhos. Este facto geológico determinou destinos diferentes. Os terrenos nortenhos eram mais produtivos, mais férteis e, sobretudo, mais propícios à cultura cerealífera; os terrenos do Sul eram áridos, avaros, pouco produtivos e próprios para arbustos ou algumas árvores como as oliveiras ou os sobreiros; eram terrenos onde a cultura cerealífera não florescia. Naquela época, em que a fecundidade da agricultura era determinante da riqueza ou da pobreza, o Norte já era mais rico do que o Sul.

Esta imensa brecha geológica, que, só por si, garantiria ao Norte um retorno agrícola mais farto, determinou opções técnicas que ditaram formas de organização social diversas. Estamos algures no século XIV, que apropriadamente foi canonizado como a primeira revolução agrícola da nossa era. A Norte do rio Loire, foi introduzida a charrua como instrumento de arar: o solo, pesado e húmido, como se disse, era maleável, adaptava-se bem às passagens, repassagens e revolvimento da terra, destinados a promover a sua fecundidade; sobretudo, as charruas, puxadas a bois ou a cavalos, aliviavam o esforço humano e não exigiam uma perícia por aí além.

Mas as charruas não eram um instrumento ideal para os solos mediterrânicos, a Sul do Loire, secos, arenosos e pedregosos. Aqui, o antigo arado exigia mãos muito treinadas para o fazer sulcar a terra com a profundidade requerida. Era esta uma técnica muito apurada por gerações e gerações de camponeses, transmitida através das famílias. Era uma técnica que requeria uma perícia particular, aprendida por tradição familiar; era uma técnica que não se coadunava com a impreparação de trabalhadores assalariados desprovidos do treino minucioso requerido pelo tradicional arado. Aqui, no Sul, a lavra da terra era um encargo da família, iniciada nas técnicas antigas; no Norte, a família também contava, mas a charrua facilitava a contratação de leigos desconhecedores dos segredos que presidiam à condução hábil e eficaz de um arado.

Não admira, pois, que a rotação trienal das culturas, a revolução agrícola que aumentou exponencialmente a produtividade da terra, tenha desde cedo sido introduzida e implementada no Norte, enquanto no Sul se prolongava a rotineira rotação bianual: metade dos solos permanecia todos os anos em pousio, um método primitivo de regenerar a terra. No Norte, o pousio afectava apenas um terço das terras aráveis, e os camponeses nortenhos não tardaram a descobrir que a plantação de forragens para o gado proporcionava uma dupla vantagem: tais plantações eram mais eficazes do ponto de vista da regeneração do solo, ao mesmo tempo que forneciam farto alimento para os gados. O Sul ficou para trás e continuou a ficar para trás: a revolução agrícola do século XVII-XVIII, de que a Inglaterra foi pioneira, viabilizada pela delimitação física (“enclosures”) da propriedade de cada um, corroeu ou mesmo destruiu a coesão da comunidade rural das aldeias, com as suas regras e preceitos, abrindo espaço à livre iniciativa e criatividade de cada um. O individualismo penetrou no mundo rural. Os terrenos comunitários não desapareceram, mas viram-se, tal como as pastagens comuns, drasticamente cerceados.

Para perceber o choque entre duas europas, uma do Norte e outra do Sul, é preciso olhar até onde chega o braço longo da História. No próximo Conselho Europeu de 23 de Abril, logo veremos se a União Europeia se deixa abraçar pelo grande urso da História

O Sul só muito superficialmente partilhou da revolução agrícola do século XVII-XVIII, intimamente ligada à revolução industrial, de que mais uma vez a Inglaterra foi a pioneira. A transformação do mundo rural libertou mão-de-obra para as novas manufacturas e as novíssimas fábricas. Em Portugal, no século XIX, o sistemático deficit cerealífero foi uma constante aflição dos governantes: o Alentejo latifundiário não produzia pão suficiente. Salazar sonhou com a auto-suficiência cerealífera de Portugal, elegendo – sem nenhuma originalidade – o Alentejo como o grande celeiro nacional. Até que se percebeu, há não tanto tempo como isso, que o Alentejo, além da tradicional cortiça, era uma terra de vinho e azeite. Tendo ficado para trás na agricultura, Portugal também ficou para trás na indústria em geral. Nunca tivemos, verdadeiramente, uma revolução industrial: passámos (quase) directamente da agricultura para os serviços.

Na UE, a cisão Norte/Sul, patente nas crises de 2007-8 e na actual tremenda crise do coronavírus, não deriva da petulância “repugnante” do ministro holandês; nem da falta de caridade da Senhora Merkel. Tal cisão tem raízes ancestrais e, de certo modo, naturais. Para perceber o choque entre duas Europas, uma do Norte e outra do Sul, é preciso olhar até onde chega o braço longo da História. No próximo Conselho Europeu de 23 de Abril, logo veremos se a União Europeia se deixa abraçar pelo grande urso da História.