Celebrar a Restauração da Independência

Celebrar a Restauração da Independência
- Ou a vontade de um projecto colectivo -



A 19 de Março de 1604 nascia em Vila Viçosa D. João, filho de D. Teodósio (VII Duque de Bragança) e de D. Ana de Velasco y Giron, e neto de D. Catarina de Bragança, uma das herdeiras legítimas ao trono, em grau de igualdade com Filipe II de Espanha. No entanto foi este monarca espanhol que veio a tornar-se rei de Portugal. Um rei com duas coroas.

As promessas de Filipe I nas Cortes de Tomar e a riqueza do reino espanhol granjearam vasto apoio à instauração da união ibérica. Porém, tudo mudou no início do século XVII com a crise que afectou a Espanha sobretudo devido à sua envolvência na Guerra dos Trinta Anos, que implicou a mobilização dos exércitos portugueses e o lançamento de novos impostos em território nacional.

Com Filipe III de Portugal, o país tornou-se numa mera província espanhola, com o monarca residindo permanentemente em Espanha, e a regência entregue a D. Margarida, Duquesa de Mântua, auxiliada por Miguel de Vasconcelos, o Escrivão da Fazenda do Reino.

Este desrespeito pelas promessas feitas nas Cortes de Tomar conduziu ao crescente descontentamento português, com vários levantamentos populares e revoltas, como a de 1637 em Évora (Revolta do Manuelinho), que se espalhou por outros pontos do país, mas prontamente abafada pelos militares espanhóis.

Porém, o descontentamento já era generalizado, visto que o país não estava a ser governado segundo os seus interesses e as colónias portuguesas eram constantemente vítimas de ataques de ingleses e holandeses. Desta forma foi ganhando consistência o desejo de ver restaurada a independência e, nesse ambiente, e sobretudo a partir de 1636, D. João começou a ser encarado como a figura adequada para substituir Filipe III no trono português.

Em 1637, esse desejo de restauração da independência ganhou mais força no seio da nobreza, do clero e da burguesia, estendendo-se até ao povo, e em Novembro de 1640 um grupo de conjurados planeou a revolução. João Pinto Ribeiro, representando os conjurados, dirigiu-se a casa de D. João para acertar os preparativos da revolução mas, inicialmente, D. João recusou. E foi a sua esposa, Luísa de Gusmão, que o convenceu que seria melhor morrer reinando do que servindo, atribuindo-se-lhe a frase “ Melhor ser Rainha por um dia, do que duquesa toda a vida”.

Podemos, pois, dizer que restauração da independência portuguesa de Dezembro de 1640 foi desencadeada para superar a crise política decorrente da prepotente e ofensiva governação do Conde-Duque de Olivares, que impôs medidas que contrariavam as promessas de autonomia feitas nas Cortes de Tomar de 1581 por Filipe I de Portugal.




Retrato de D. João IV, de autor desconhecido, existente na Torre do Tombo


A 1 de Dezembro de 1640, em Lisboa, os revoltosos tomaram o poder e aclamaram D. João, Duque de Bragança, como rei de Portugal. O golpe de Estado palaciano envolveu cerca de meia centena de aristocratas portugueses. Este acontecimento foi acompanhado de alguns assassinatos, designadamente de Miguel de Vasconcelos, o representante da administração espanhola de Filipe III de Portugal.

No dia 6 de Dezembro D. João chegou a Lisboa onde foi recebido entusiasticamente pelo povo e pelos representantes da nobreza e do clero, sendo aclamado solenemente como D. João IV, rei de Portugal, no dia 15 de Dezembro. Não obstante a restauração de facto ter ocorrido em 1640, só houve uma restauração de jure nas Cortes de Lisboa de 1641, pois foi aí que se consagrou a legitimidade dinástica da casa de Bragança.

Não se pense, porém, que a seguir tudo foi um mar de rosas. Bem pelo contrário. O Governo de D. João IV nem sempre contou com o apoio de todos os portugueses, nem mesmo das esferas mais próximas do poder. A atestar isto verificaram-se conspirações contra o monarca; a mais perigosa ocorreu menos de um ano depois de ter sido coroado e nela participaram membros da aristocracia, da burguesia e do alto clero, em consequência da crise económica que pautou o seu reinado, bem como pelos fracassos da sua diplomacia europeia.

Empenhado na manutenção da independência solicitou ajuda militar aos tradicionais inimigos de Espanha mas tais empreendimentos não só se revelaram infrutíferos como, até, prejudiciais. A tentativa de assinar um tratado de paz com a Holanda, que granjeasse o seu apoio militar e diplomático, redundou em fracasso já que os holandeses estavam astutamente empenhados na conquista de territórios ultramarinos portugueses e só em 1657 anuíram em tal tratado, depois de já terem tomado muitas possessões até então portuguesas.

A França, que havia prometido ajuda a Portugal nunca a concretizou e nem permitiu a presença de Portugal nas negociações de 1648 que estabeleciam o fim da Guerra dos Trinta Anos. Até a Inglaterra atacou Portugal em 1650 e 1654 e o sequente tratado de paz revelou-se humilhante e oneroso, mercê da obrigatoriedade de abertura do nosso império ao tráfico inglês e à entrega dos territórios de Bombaim e Tânger como dote de D. Catarina, esponsal de Carlos II de Inglaterra. E as adversidades não ficaram por aqui, até a Santa Sé recusou auxiliar os interesses portugueses, ao não reconhecer a nossa independência e ao não confirmar os bispos nas dioceses portuguesas.

De entre os vários e poderosos reinos europeus da altura apenas a Suécia se dispôs a prestar algum auxílio, enviando armas, abastecimentos e mercenários, para Portugal enfrentar militarmente a Espanha. E os custos da guerra com os nossos vizinhos, que configuravam uma autêntica sangria de fundos, tiveram repercussões a nível ultramarino, provocando irremediáveis perdas.

No território nacional continental o principal teatro das operações militares era o Alentejo, de onde partiam as incursões militares sobre Espanha, assolando aldeias e vilas, e que só não foram rapidamente contrariadas porque a Espanha ainda se encontrava profundamente envolvida na Guerra dos Trinta Anos (até 1859), e nos conflitos na Catalunha. Para além das pequenas batalhas de fronteira ocorreram algumas de maior monta, como o cerco de Badajoz feito pelas tropas portuguesas, que no entanto não lograram alcançar a rendição daquela praça, ou o grande confronto do Montijo em 1644, e o de Elvas em 1659.

D. João IV morre em 1656 e a regência de D. Luísa de Gusmão prolongou-se por muito tempo, o que deu azo à ocorrência de um golpe de Estado, em 1661, que colocou o príncipe no trono, golpe gizado por D. Luís de Vasconcelos e Sousa, Conde de Castelo Melhor, que se tornou primeiro-ministro e adoptou uma política de vincado reforço do poder central.

Porém, foi no reinado de Afonso VI que teve lugar a batalha decisiva para a consolidação da independência portuguesa, a batalha de Montes Claros, ocorrida em 17 de Junho de 1665. Do lado português um exército de 20.500 homens comandados pelo Marquês de Marialva, e do lado espanhol um exército de 22.700 homens comandados pelo Marquês de Caracena. Ao fim de 7 horas de intenso combate os espanhóis deram a batalha como perdida e retrocederam para lá da fronteira.

Dois anos depois, em 1667, o Infante D. Pedro, ajudado pelo Duque de Cadaval, lidera um golpe de Estado que leva à demissão do Conde de Castelo Melhor e à prisão do rei, resultando na sua abdicação. D. Pedro II é jurado Príncipe Regente nas Cortes de 1668, e é então firmado o Tratado de Paz com a Espanha, culminando o longo período de conflitos entre os dois reinos. O Tratado estabelecia a manutenção das fronteiras portuguesas e das possessões ultramarinas de Portugal, com excepção de Ceuta que ficaria para os espanhóis.

Impõe-se, agora, retroceder uns séculos na história de Portugal, para melhor enquadrar o nosso pensamento: Em 1096, o rei Afonso VI de Leão e Castela deu o governo do Condado Portucalense a Henrique da Borgonha, juntamente com a sua filha, a Infanta D. Teresa, passando Henrique a ser Conde de Portucale. D. Henrique governou no sentido de conseguir uma completa autonomia para o seu condado e efectivamente deixou-o muito mais livre do que recebera.

Em 1125, com catorze anos de idade, o seu filho Afonso Henriques, com o apoio da nobreza portuguesa da época, arma-se a si próprio cavaleiro  e enfrenta a sua mãe, D. Teresa, regente do Condado por morte do rei. Afonso Henriques e os fidalgos portucalenses não admitem o favoritismo da rainha pelos nobres galegos. A luta desenrola-se em vários episódios até que em 24 de Junho de 1128 se trava a Batalha de S. Mamede e D. Teresa é expulsa da terra que dirigira durante 15 anos. Depois de outras lutas bem-sucedidas contra  o seu primo, o rei Afonso VII de Leão e Castela, finalmente nasce o Reino de Portugal, e a dinastia dos Borgonha, com o seu primeiro rei, Afonso I de Portugal.

E é nesta enérgica insistência de luta pela independência que se firma o querer da nação portuguesa que ao longo da história o repetiu com igual empenho, instituindo a vontade indómita que fundamenta o seu projecto colectivo e em que se forjou uma identidade de Nação, Povo e Estado.

Historicamente, o sentimento anti-espanhol difundiu-se entre os portugueses muito antes do surgimento de qualquer ideologia iberista. Ao longo de oito séculos os portugueses fizeram do “perigo espanhol” um elemento do seu nacionalismo. Castela foi, assim, e desde o início de Portugal, o “Outro”, o vizinho que devia ser vigiado e, simultaneamente, aquele que desempenhava um papel fundamental na construção da nossa identidade colectiva: “Na cidade da Guarda mandava-se punir, em finais da Idade Média, quem chamasse a um vizinho “castelhano”, insulto equiparado ao de “puta”. Até o aforismo “de Castela, nem bom vento nem bom casamento”, cuja origem se perde nos inícios da nacionalidade portuguesa, logrou actualizar-se no idêntico “de Espanha, nem bom vento nem bom casamento”.

Mas, se a contemporaneidade racional, humanista e universalista, a cooperação actual entre os dois estados vizinhos, e a integração numa mesma organização de propósito europeu, remete para o baú da memória aqueles aforismos depreciadores sobre os nossos vizinhos, as conjunturas económicas podem reavivar essas resistências a uma aliança cabal, temendo-se ajuizadamente a diluição da independência de um Portugal engolido pela poderosa Espanha.

Com 878 anos para alguns, ou 838 anos para outros, conforme se tome por referencia a Batalha de Ourique de 1139 ou a bula manifestis probatum de 1179, Portugal assiste, hoje, a renovadas dinâmicas com vista à independência de várias nacionalidades europeias (Catalunha, País Basco, Escócia, Lombardia, etc;), observando paralelamente o reavivar de ideias antigas com vista ao federalismo ou confederalismo de estados ou nações, e particularmente, naquilo que mais nos toca, ao Iberismo.

Por mais interessantes que as ideias de Iberismo possam parecer convém não esquecer que a Espanha manteve sempre a perspectiva da reunificação ibérica entre as suas principais intenções políticas, verifique-se a este respeito a actuação espanhola de Afonso XIII de há 100 anos.

«Apesar das relações entre os dois países terem melhorado durante a contenda europeia, manteve-se o “litígio ibérico”: a crise em Portugal servia para justificar as ambições iberistas de Afonso XIII, monarca que até às vésperas da Primeira Guerra defendeu junto das potências europeias a conveniência e o interesse da Espanha numa “solução ibérica”.  (...) O regicídio fragilizou a posição externa portuguesa: a Espanha aproveitou a aproximação à Inglaterra e à França para tentar conseguir uma ascendência sobre Portugal. Convencido de que a revolução republicana desobrigaria a Inglaterra de defender Portugal, Afonso XIII não escondia que pensava desde 1908 numa união ibérica, mais ou menos voluntária.
Em 1911, rebentou nova crise em Marrocos, com soldados franceses a ocuparem Fez e a Espanha a responder com a ocupação de Larache, Arzila e Alcácer-Quibir. Crendo que a Espanha se aliara à Alemanha, os responsáveis políticos franceses buscaram apoio junto da Inglaterra.
Assim, até meados de 1912, a Espanha, isolada, enfrentou uma situação de tensão com a França e a Inglaterra por causa de Marrocos e, por conseguinte, o clima tornou-se pouco favorável para aventuras em Portugal.
No entanto, na segunda metade de 1912, a Espanha aproximou-se da Entente ao concluir um novo acordo com a França. Assinado este acordo, as ambições do rei espanhol tornaram a vir ao de cima. Na visita que fez a Paris em Maio de 1913, Afonso XIII ofereceu a beligerância espanhola ao lado da França numa possível guerra europeia, exigindo em troca a anexação de Portugal. (…)Em Fevereiro de 1913, Afonso XIII avisava Arthur Hardinge, embaixador inglês em Lisboa e anti-republicano, de que a Espanha exigiria o território metropolitano português caso a Alemanha e a Inglaterra partilhassem as colónias portuguesas».
FERREIRA P.B.R., “Iberismo, hispanismo e os seus contrários: Portugal e Espanha” págs. 185,186

São assuntos que merecem reflexão e debate, pois não devemos deixar-nos prender a nenhuma certeza absoluta já que essas não passam de dogmas. Isto é, se pugnamos pela nossa total independência enquanto Nação e Estado, podemos e devemos discuti-la, porque da discussão surgirá, obrigatoriamente, a actualização dos conceitos e das práxis dessa independência que queremos eternizar. Perigoso, é achar que o assunto não pode nem deve ser discutido, mantendo-o silenciado até que, um dia, nos surpreenda um ruidoso facto consumado, permitido pelo laxismo mental e ausência de conhecimento que a discussão aporta.

Estamos convictos que os portugueses desejam manter a sua independência com base na vontade que presidiu à fundação de Portugal e, sobretudo, pela confirmação desse querer repetidamente declarado ao longo da História. Preterir este fundamento de cunho identitário em prol da ideia de uma União ou Federação Ibérica, ou outra qualquer fórmula que dilua o sentir unitário português, poderá não ser mais do que um gratuito contrariar do espírito que presidiu à fundação de Portugal e à sua manutenção como estado independente, contra quaisquer desígnios.

A herança de um povo é algo mais complexo de que simples conceitos teóricos ou memórias de existências em comunhão tribal. É algo que é construído na partilha de aspirações, sofrimentos e valores conquistados. Por isso não pode ser tratada levianamente e reduzida pelas novas aquisições de um mundo contemporâneo que é, em certa medida, enganadoramente apresentado como um mundo global e alter-cultural. O que é um homem sem a sua herança cultural, sem a ligação que a história de um passado comum e a tradição lhe conferem? E não se trata de sobrevalorizar a nossa herança face às dos outros povos; a nossa não é melhor nem pior, mas é a nossa. O que será um povo sem a ligação ao seu passado, senão um povo sem referências no presente e, plausivelmente, sem perspectivas para um futuro colectivo?!

Tudo isto é questionável e discutível, concedemos; e se um dia os portugueses entenderem ignorar o seu passado, pois podem fazê-lo, porém será necessário aceitar que seremos então um povo que parte do zero e que, forçosamente, terá de construir uma nova identidade que sirva de esteio, de referencial, de fio condutor à sua unidade como povo ou nação. E então coloca-se a pergunta: Para quê começar de novo se já temos esse valor construído e cimentado?! Será que lhe reconhecemos assim tantos erros, tanta ineficácia e tamanha inutilidade face às novas valias da contemporaneidade?

Se alguns acham que estas acepções são antigas e obsoletas, em dissonância com a actualidade e a marcha civilizacional da humanidade, então também o serão os mais elementares sentimentos que perpassam pela alma humana. Porém, contra esses sentimentos ninguém, no seu perfeito juízo, brande a acusação de arcaísmo como qualificativo deste fervor independentista.

Por tudo isto, celebrar o 1º de Dezembro não é apenas celebrar a Restauração da Independência protagonizada por meia centena de personagens seiscentistas; é, sobretudo, assim o cremos, celebrar a vontade de um povo.

Fontes Consultadas:
- BRANDÃO DA LUZ J. L., “O Federalismo no ideal da República em Teófilo Braga e Manuel de Arriaga”, Universidade dos Açores
- CARNEIRO DE SOUSA I., “História de Portugal Moderno, Economia e Sociedade”, Universidade Aberta, 1996
- COELHO A. B. “História de Portugal VI – Da Restauração ao Ouro do Brasil”, Ed. Caminho, 2017
- DIAS J. M. B., “Da Questão Ibérica à União Europeia. Constantes e Mutações no Relacionamento Entre Espanha e Portugal”
- FERREIRA P. B. R., “Iberismo, hispanismo e os seus contrários: Portugal e Espanha (1908-1931) ” -Tese de Doutoramento em História Contemporânea, Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, 2016.
- HESPANHA A.M., ““História de Portugal Moderno, Político e Institucional”, Universidade Aberta, 1995
- TORGAL L.R., “Acerca do Significado Sociopolítico da “Revolução de 1640””, Revista de História das Ideias, Vol. 5, Universidade de Coimbra, 1984
- NETO V., “Iberismo e Municipalismo em F.F. Henriques Nogueira”, Revista das Ideias, Vol. 10, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1988.

rastilhos de pólvora


Alguns destes rastilhos de pólvora têm vindo a arder lentamente, mas parece que agora vão avançar mais lestos. A implosão da Europa é inevitável, e as potências totalitárias, de cunho ditatorial político ou religioso, aguardam sôfregas. E o "politicamente correcto" assente numa cartilha intelectual neo-esquerdista impõe este desvario. De tempos a tempos a Europa imbeciliza-se esquecendo as lições do passado, e por aí vamos.

"NÃO PODEMOS EVITAR A NECESSIDADE DE DEUS"


“NÃO PODEMOS EVITAR A NECESSIDADE DE DEUS”
Angélica Lidell – Dramaturga, encenadora, actriz, escritora e poetisa espanhola

«Sinto que se vive um tempo de puritanismo atroz. Onde tudo é ofensa. Não se vê a beleza com naturalidade. Antes como uma ameaça. Os tempos mais hipócritas são os mais puritanos. Vivemos num paradoxo. Por um lado, o sexo está por todo o lado, por outro quando se aborda a sexualidade em palco a censura é total. Quanto a Pasolini, ele está em mim desde sempre. É um companheiro de viagem. Um amigo. Um amigo morto. Nem sequer é uma influência.»
(…)
«O ritual corresponde a uma necessidade interna de nos libertarmos de conflitos. Em Itália, por exemplo, como julgo que aconteceu noutros sítios, os rituais pagãos foram aproveitados pelas religiões. Há um livro de Ernesto de Martino, chamado “La Terra del Rimorso” (1961), onde ele fala do efeito que a proibição de praticar certos rituais e danças teve na população. Segundo ele, as pessoas com problemas psiquiátricos e os internamentos em manicómios aumentaram significativamente, o que estaria relacionado com o fim de uma relação vertical, que não é horizontal na medida que essa é política. O fim da relação vertical, com Deus, deixa-nos numa situação insustentável. É por isso que acredito que é preciso devolver às pessoas a relação com o sagrado. Foi algo que tentámos extirpar da condição humana, porque associámos essa relação à Igreja, enquanto instituição. A verdade é que como seres humanos necessitamos de algo que nos supere. Os rituais não são uma imposição. Existiram desde o princípio do mundo, já estão inscritos nas pinturas rupestres. Safranski, por exemplo, diz que criámos uma sociedade horizontal, que massacrou toda uma relação vertical que também nos define. Há uma politização tão feroz que acaba por empobrecer a expressão. O mundo da arte, da expressão artística, tem de extirpar do ser humano tudo o que não nos corresponde.»
(…)
«As ideologias acabaram com o pensamento. Tornaram-se no oposto ao pensamento. Daí que a democracia esteja em crise, e acabe por ser uma utopia. Temos de regressar à democracia ateniense, e ao contrato social de Rousseau para perceber de onde viemos e para onde vamos. Depois de tudo o que aconteceu no século XX, só nos resta pensar que a democracia é uma velha utopia. O homem é algo mais. O homem é algo mais do que a democracia, mais do que o homem político»


In E – A Revista do Expresso, ed. 2343 de 23 Setembro de 2017

Sou Livre. Não voto!



As minhas razões para não votar: 
Não votar é uma atitude que incomoda e aborrece o establishment político, não tanto quanto o Estado incomoda os cidadãos, mas ainda assim é incómodo para todos aqueles candidatos desejosos de comandar as nossas vidas. 
Tragicamente, entre todos aqueles candidatos é difícil identificar o mal menor porque todo o sistema está minado pela corrupção, do mais alto escalão nacional até ao mais baixo escalão autárquico, ainda que nem todos os agentes políticos da administração sejam corruptos. 
E, depois, porque há muito mais hipóteses de ser atropelado a caminho da assembleia de voto do que hipóteses do meu voto mudar alguma coisa na política local ou nacional. 
Porém, não votar não significa total afastamento da política, porque esta é algo muito mais abrangente do que só as eleições. 
Em resumo, e ironizando, ao não votar escolho o voto num hipotético candidato chamado NINGUÉM porque: Ninguém cumpre promessas; Ninguém resolve os problemas do país; Ninguém dá atenção aos novos problemas que se colocam à sociedade actual. E por isso Ninguém merece o meu voto.
A Liberdade foi conquistada para garantir o exercício de consciência, de opinião e de opção. A Liberdade existe para permitir a expressão do meu livre-arbítrio, quer ele seja votar... ou não votar.
Nota: Este artigo não visa incitar a não votar, constituindo apenas uma justificação para a minha opção.

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O que é o Lorem Ipsum?

Lorem Ipsum é um texto modelo da indústria tipográfica e de impressão. O Lorem Ipsum tem vindo a ser o texto padrão usado por estas indústrias desde o ano de 1500, quando uma misturou os caracteres de um texto para criar um espécime de livro. Este texto não só sobreviveu 5 séculos, mas também o salto para a tipografia electrónica, mantendo-se essencialmente inalterada. Foi popularizada nos anos 60 com a disponibilização das folhas de Letraset, que continham passagens com Lorem Ipsum, e mais recentemente com os programas de publicação como o Aldus PageMaker que incluem versões do Lorem Ipsum.

Porque é que o usamos?

É um facto estabelecido de que um leitor é distraído pelo conteúdo legível de uma página quando analisa a sua mancha gráfica. Logo, o uso de Lorem Ipsum leva a uma distribuição mais ou menos normal de letras, ao contrário do uso de "Conteúdo aqui, conteúdo aqui", tornando-o texto legível. Muitas ferramentas de publicação electrónica e editores de páginas web usam actualmente o Lorem Ipsum como o modelo de texto usado por omissão, e uma pesquisa por "lorem ipsum" irá encontrar muitos websites ainda na sua infância. Várias versões têm evoluído ao longo dos anos, por vezes por acidente, por vezes propositadamente (como no caso do humor).

De onde é que ele vem?

Ao contrário da crença popular, o Lorem Ipsum não é simplesmente texto aleatório. Tem raízes numa peça de literatura clássica em Latim, de 45 AC, tornando-o com mais de 2000 anos. Richard McClintock, um professor de Latim no Colégio Hampden-Sydney, na Virgínia, procurou uma das palavras em Latim mais obscuras (consectetur) numa passagem Lorem Ipsum, e atravessando as cidades do mundo na literatura clássica, descobriu a sua origem. Lorem Ipsum vem das secções 1.10.32 e 1.10.33 do "de Finibus Bonorum et Malorum" (Os Extremos do Bem e do Mal), por Cícero, escrito a 45AC. Este livro é um tratado na teoria da ética, muito popular durante a Renascença. A primeira linha de Lorem Ipsum, "Lorem ipsum dolor sit amet..." aparece de uma linha na secção 1.10.32.
O pedaço mais habitual do Lorem Ipsum usado desde os anos 1500 é reproduzido abaixo para os interessados. As secções 1.10.32 e 1.10.33 do "de Finibus Bonorum et Malorum" do Cícero também estão reproduzidos na sua forma original, acompanhados pela sua tradução em Inglês, versões da tradução de 1914 por H. Rackham.

Onde posso arranjar algum?

Existem muitas variações das passagens do Lorem Ipsum disponíveis, mas a maior parte sofreu alterações de alguma forma, pela injecção de humor, ou de palavras aleatórias que nem sequer parecem suficientemente credíveis. Se vai usar uma passagem do Lorem Ipsum, deve ter a certeza que não contém nada de embaraçoso escondido no meio do texto. Todos os geradores de Lorem Ipsum na Internet acabam por repetir porções de texto pré-definido, como necessário, fazendo com que este seja o primeiro verdadeiro gerador na Internet. Usa um dicionário de 200 palavras em Latim, combinado com uma dúzia de modelos de frases, para gerar Lorem Ipsum que pareçam razoáveis. Desta forma, o Lorem Ipsum gerado é sempre livre de repetição, ou de injecção humorística, etc.



picado daqui 
http://pt.lipsum.com/

Deus dá NOS a quem... paga mais


A NOS está a informar os seus clientes de que as frequências dos canais de televisão que se acedem sem box vão ser reconfiguradas a partir de 3 de Outubro, e que se o cliente não possuir uma televisão que os consiga sintonizar poderá alugar um sintonizador pela módica quantia de 0,99€/mês. Ora o que isto quer dizer é que a NOS vai “empurrar” as frequências dos canais de TV para fora da capacidade de sintonia das televisões (de todas) e esperar que quem queira continuar a ver os canais que via (e agora até aumentaram para 110 canais – que generosos que são!) terá de desembolsar mais um eurito por mês por cada TV que tem ligada ao cabo – isto, para além da que está ligada à box. 
Eles não descansam, estão sempre a adoptar mais uma variante para chular o cliente; mas para não parecer um assalto, e uma flagrante alteração à prática contratada pelo cliente (e atenção que “prática” não significa condições contratuais), lá deixam 23 canais na gama de frequências que tem sido usada, possibilitando ver esses canais sem necessidade de alugar o tal sintonizador, por agora… claro. 
Vá, burro, paga!

Correcção a um texto publicado em revista da especialidade

Porque o colunista da Só Clássicas tomou apontamentos incorrectos na entrevista telefónica e a correcção que lhe enviei já não terá ido a tempo, aqui fica publicado abaixo o texto correcto.



A minha experiência com ciclomotores e motociclos é simples e rápida de contar. Começou aos 12 anos de idade, com uma Casal de 4 velocidades que era do meu pai. Corria o ano da revolução, 1974, e as voltas com a motorizada circunscreviam-se ao perímetro da fábrica de conservas onde o meu pai trabalhava e à oficina/fundição de chumbo, em espaço adjacente, que ele explorava em actividade pós-laboral. Lembro-me de escorregar duas ou três vezes na calçada gordurosa do acesso à fábrica - devido aos restos de sardinha que escorriam das camionetas e do sistema sem-fim de drenagem da fábrica -, e ir “depositar” suavemente, a velha Casal, no chão de paralelepípedos luzidios e gastos pelo uso.

Poucos anos depois enfileirava com amigos na desmontagem e remontagem com alterações, de velhas máquinas como o JLO 50cc, que ficava apto a trepar as arribas inclinadas das praias da zona; e andar às voltas com a mecânica de um velho SACHS andorinha, tentando fazer daquilo uma máquina de competição.

Depois das experiências com uma scooter CARINA (125 ou 150 cc?), e uma Florette 50cc, e de experimentar um SACHS V5, mais tarde, já com carta de mota, comprei uma BSA c10 de 1954. Tinha carburador AMAL que funcionava por gravidade, e quando se inclinava muito a mota, o motor parava. Os meus amigos gracejavam dizendo que não me podia deitar nas curvas, ou perdia a corrida. Quando a comprei, tinha a embraiagem desmontada; o anterior proprietário tinha acabado de instalar as cortiças nos discos mas não as tinha rectificado, nem montado. Tive de arranjar os prismas triangulares em borracha - cortados de um pneu velho de tractor agrícola -, e montei tudo; mas como as cortiças tinham ficado com espessuras diferentes a mota perdia a embraiagem ao fim de uns cinco minutos de viagem. E eu sem saber porque acontecia aquilo. Uma autêntica novela em duas rodas… sem mudanças.

Depois adquiri uma Virago 250 que achei demasiado parecida a uma 50cc, com as mesmas vibrações da velha Casal do meu pai, nomeadamente provenientes do cabo de travão da roda dianteira, portanto rapidamente troquei por uma DNEPR MT81 com side-car tracionado e marcha atrás. Afinar a folga das válvulas daquilo era uma epopeia pois a máquina nada tinha que se pudesse considerar de precisão: cada porca das válvulas tinha a sua medida e alguns parafusos do quadro nem tinham cabeça, senão uma certa redução da forma cilíndrica, por martelamento, suficiente para dar uso a uma chave de bocas. A folga das válvulas devia ser de 0,07 mas o motor trabalhava à mesma com 4 ou 5 vezes maior abertura de folga.

Um dia fiquei sem a embraiagem - por ter saltado o perno da haste recuperadora -; mas como a mota tinha dois sistemas de comando da embraiagem, manete e pedal, lá consegui chegar a casa usando o pedal num irritante pára/arranca. Valeu-me o representante da Marca, a Moto Formosa, do Porto, que prontamente reparou o problema na caixa de velocidades, oferecendo ainda um sinobloco para a transmissão, que era por veio, uma câmara-de-ar suplente (já que eu não encontrava por cá uma câmara de ar de ceifeira agrícola, supostamente igual), e ainda um conjunto de raios (pois havia partido um recentemente numa das minhas deslocações locais), tudo a custo zero.

Havia ainda outro problema frequente: a alteração da sensibilidade da direcção devido à suspensão de braço oscilante exigir a correcta lubrificação, por grafite, da caixa de direcção, situação que eu alterara inadvertidamente com lavagens sob pressão. Mas era maravilhosa a reacção dos entusiastas daquelas réplicas da BMW do tempo da II Guerra Mundial, particularmente as crianças, como a minha filha que aos 6/7 anos adorava viajar no side-car, nem que fosse em pequenas viagens como quando a ia levar ou buscar à escola.

No fim, era uma mota engraçada que suscitava muita admiração nas concentrações de motas, mas gastava 11L aos 100Km, não passava dos 110 Km/h e tinha o inconveniente dos side-cars, ficar engarrafada no trânsito automóvel, pelo que a vendi, ficando apenas com a Virago 535 que já tinha adquirido há algum tempo.

Com a Virago fiz as mais interessantes viagens pelo Algarve e parte do Alentejo, só repetidas com a última e actual montada, a Honda Deauville 650. Entre as duas ainda tive uma última 50cc, uma scooter Yamaha BMX, que proporcionou alguns passeios rápidos a objectivos de Fotografia para além de grande mobilidade e versatilidade no trânsito citadino do quotidiano.


E é esta a minha memória de experiências em duas ou três rodas com motor.
Francisco Castelo
Mar.2017




Irrito-me, logo existo


O que mais há por aí são descontentes e desbocados que se ralam e ralam os outros com as coisas que acontecem neste país: com os políticos, os banqueiros, os que mandam e os que obedecem, os que fazem e os que deixam fazer, com os incêndios e as cheias, as estradas, os acidentes, os hospitais, os doentes e os funerais, os ladrões e os polícias, com as sardinhas, e as batatas e as hortaliças. Mas isso não me preocupa porque toda esta gente que se arrelia, pertinente ou impertinentemente, age dessa forma porque gosta de Portugal; mesmo que seja um gosto contemplativo, patriótico, patético ou até oportunista, toda essa gente gosta; mesmo que nem saiba como gostar, qual a melhor forma de gostar, mas gostam!

Preocupa-me é saber que existem alguns que nunca se incomodam nem se irritam, que não exultam nem vibram, que não se manifestam, que nunca são tolos nem fúteis nem banais, que parecem nem estar, mas que existem.

Guerra dos Tronos





Game of Thrones é claramente uma cowboiada americana, género que Hollywood leva aos limites da repetição quer situe a acção num passado ou futuro distante, em cenários pré-históricos, contemporâneos, bucólicos, góticos, palacianos ou mundanos, ali à esquina ou num planeta distante ou universo paralelo. Lá estão os Rangers da Patrulha da Noite que combatem os indios (White Walkers) de Sitting Bull (Night King), como estão também os rancheiros, príncipes e rainhas do gado, empreendedores dos caminhos-de-ferro, especuladores de terrenos, garimpeiros e demais personagens que não perco tempo a identificar. Nota especial para a tripla de godzillas voadoras emprestadas de outro género fílmico de eleição, a tragicomédia americana, a estes re-ocupados do género “vaca-rapaz” (cowboy, numa das melhores traduções jamais encontrada para a nossa língua). 
Queriam o quê, que dissesse que está ao nível de Sófocles, Moliére ou Tchekov?!

das madrassas em Portugal

«A Constituição da República Portuguesa que, por um erro estúpido decorrente do medo em que se vivia na época em que foi redigida, proibiu no nº 4 do Artigo 46º, não as organizações que perfilhem a ideologia totalitária, mas apenas as organizações que perfilhem a ideologia fascista, abrindo as portas da permissividade a todos os fascismos que têm outras designações e que esta e outras madrassas como ela defendem, nomeadamente o socialismo.»

texto completo aqui

Arriscar é Viver

Anne Dufourmantelle - Fotografia: France Inter

« A segurança engendra mais o medo do que o inverso; o risco faz parte da vida, mais, sem se correrem riscos não se vive realmente; onde há perigo é onde há também salvação; viver não é só ter nascido. Recusar o risco é recusar viver. Numa França — numa Europa — sob ameaça terrorista não esquecer que esta é sempre também arma política do controlo das liberdades.
Qualquer resposta securitária é já política: todos os totalitarismos usam a ameaça terrorista para liquidar as alternativas. O “risco zero” é um fantasma. O custo de demasiada protecção é alto demais: troca- se Big Brother por Big Mother. Estar inteiramente vivo é um risco que poucos querem correr — há muitas vidas que, mirradas pelo medo de tudo, já perderam a liberdade.»


José Cutileiro sobre Anne Dufourmantelle (1964-2017); filósofa francesa, uma das mentes mais estimulantes da actualidade, que acreditava que recusar o risco é recusar viver. In Expresso 2017.08.12

comentar, comentários, comentadores



be sure brain is in gear before engaging mouth é um ditado inglês permanentemente incinerado nas caixas de comentários dos blogues, sites, redes sociais e jornais, cumprindo a sentença de Umberto Eco: “As redes sociais deram voz aos imbecis”. Ora, considerando que os néscios não têm consciência do seu estado, estamos perante um problema sem solução.


«Era uma bela utopia: abrir os sites dos jornais e revistas aos comentários dos leitores, promovendo assim o debate, a troca de argumentos, a socialização do saber, o ideal democrático de uma esfera pública alargada e cada vez mais esclarecida, conforme ao projecto moderno de uma sociedade transparente. Resultou, afinal, numa forma tenebrosa de obscurantismo e fomentou a exibição pública das reacções intelectualmente primárias e socialmente reprovadas, como são a injúria e a agressão. Um especialista americano deste mundo digital perguntava há algum tempo na revista The Atlantic: “Quantos comentários devo eu ler, na Internet, para perder a fé na humanidade? Muitas vezes, a resposta é: um comentário”. (...)»
Peça completa aqui

Reciclar Plástico - Certo ou Errado?



Defender a reciclagem do plástico não será uma maneira de encorajar a continuação do seu uso e uma forma de apoiar a indústria do plástico? Ao invés, não reciclar o plástico não será uma forma de o tornar mais caro e menos competitivo face aos produtos alternativos; e por via disso um modo de acelerar o seu declínio e abandono?! É certo que vivemos na era do plástico e que a vida moderna tal como a conhecemos não pode dispensar de supetão a tecnologia dos polímeros e os inúmeros tipos de plásticos existentes, mas produzem-se diariamente milhões de toneladas de plástico para aplicações em que este material pode ser substituído por tecidos e pastas de celulose. Pensar na não reciclagem será, nesta circunstância, um erro?

da Série: Não há vacas sagradas nem tabus, tudo é discutível, tudo serve para reflectir e exercitar o músculo cérebro.

o hostel subterrâneo - microcontos de abalar


O vizinho escavara o solo por baixo das residências contíguas à sua e aí instalara quartos para os seus hóspedes, a quem contava a história de que naqueles subterrâneos haviam vivido heróis da luta contra a ditadura e o fascismo que, andando fugidos, ali encontraram refúgio tal como outros no tempo das invasões francesas, opressão estrangeira que levara o seu antepassado José Augusto da Silveira a construir aqueles apêndices subterrâneos para aí esconder os nacionalistas, resistentes e revoltosos contra o jugo napoleónico. 
Eis a decifração do mistério do hostel instalado numa pequena casa de um antigo bairro operário para onde entravam e de onde saiam dezenas e dezenas de pessoas, situação que trazia a vizinhança profundamente intrigada desde o início do Verão.

o suicídio da fotocopiadora - microcontos de abalar



O último ímpeto destravou a fotocopiadora que iniciou uma rolagem pelo pavimento brilhante e o deus das coisas mecânicas fez com que uma das pequenas rodas bloqueasse no ângulo exacto para permitir que a máquina descrevesse uma curva apertada que a lançou escadaria abaixo. No patamar inferior ameaçou a jovem ama e as duas crianças que se divertiam no jardim -baloiçando os petizes impulsionados pela rapariga, motivo constante nos azulejos oitocentistas que forram as paredes dos dois andares - ao fazer-lhes uma tangente; mas a máquina copista continuou e galgou o último lanço da escadaria precipitando-se finalmente na rua, onde capotou saltando-lhe a tampa e as gavetas cheias de folhas que se espalharam por ali, umas imaculadamente brancas e outras com uma face já impressa onde se via um cu e uma púbis feminina esborrachados contra o vidro da fotocopiadora. Os poucos transeuntes da antemanhã acharam estranho o incidente mas não disseram nada, absolutamente nada.

dos engodos e iscos que se usam na pesca - microcontos de abalar




… e depois da gaja de mamas falsas e falso sotaque americano, mandaram uma pseudo-francesa franzina que ensaiava um imitado arrevesado inglês, e ainda duas adolescentes confusas empurradas escada acima, depois foi já nem sei quem e uma ex-professora com uma imagem colada, e ainda uma divorciada sorridente de vestido esvoaçante… E não despedem a inábil psicóloga, asnos?!

A uma esquina dobrada a víbora mentecapta ri-se esfregando as escamas.

o pocesso I - microcontos de abalar



- Vá, diz lá quantos destes tens?! Ouviu-se numa cidade kafkiana. Luís era um tipo engraçado; comia com os dedos, costume que trouxera de um rali no deserto e do convívio com uma família berbere. Os olhos de carneiro em cagulo na bandeja, mirando-o fixamente, era a memória mais intensa que retivera dessa aventura pelos areais do Norte de África. Isso saberia responder ao interrogador, mas não a quantidade de dentes que tinha na boca.

Escuteiros e Escoteiros


«Ao todo, o Corpo Nacional de Escutas (CNE) é composto por 72 mil escuteiros. Existe desde 1923. Através dos lenços que usam pode identificar-se tanto a idade como a proveniência de cada escuteiro. Em todos os lenços, independentemente da cor, há uma insígnia que indica o distrito do agrupamento. Os lobitos, com o lenço amarelo, são os mais novos, dos seis aos dez anos. Logo a seguir, até aos 14 e com os lenços verdes, vêm os exploradores. A etapa seguinte faz-se nos pioneiros, que usam a cor azul ao pescoço, até aos 18. De vermelho, os caminheiros podem ser a última parte do percurso. Geralmente, aos 22 anos, o caminheiro sai dos escuteiros ou prossegue a formação para se tornar chefe, que enverga um lenço verde-escuro integral. As divisões etárias entre escuteiros marítimos (um ramo do escutismo do CNE onde as actividades são essencialmente marítimas), correspondem às mesmas do escutismo terrestre, mas têm nomes diferentes. Com excepção para os lobitos, que têm a mesma designação, os marítimos vão dos moços aos companheiros, passando pelos marinheiros. Em Portugal há também os escoteiros, que não estão associados a qualquer religião, e que existem no país desde 1912 (desde 1911 em Macau). Segundo a página na Internet da Associação dos Escoteiros de Portugal (AEP), o movimento é composto por cerca de 10 mil escoteiros, distribuídos por 150 grupos locais.»
C.S. in PUBLICO 2017.08.01



Música e Literatura, as artes maiores; o resto é bonecada

Eduardo Lourenço por Nuno Ferreira Santos - PÚBLICO



Isabel Lucas: Sempre analisou as questões da identidade a partir da literatura e sobretudo da poesia. A melhor maneira de conhecer um povo é a partir da literatura que ele produz?

Eduardo Lourenço: - Sim, a arte em geral. A literatura não tem uma função. É um efeito do que somos de mais misterioso, de mais enigmático e ao mesmo tempo de mais ambicioso. Penso que, de todas as artes, a que revela o que a Humanidade é de mais profundo e absoluto é a música. A literatura é uma música um tom abaixo. Não se explica, não é da ordem do conceito como a filosofia. É natural que os homens reservem à literatura a sua maior atenção. A literatura é o nosso discurso fantasmático, absoluto. Todas as culturas se definem pela relação com o seu próprio imaginário. A encarnação dele é a literatura.


In Publico 2017.07.31

Uma entrevista muito interessante

foto do Jornal i



«Escritores como José Rodrigues dos Santos, Miguel Sousa Tavares, Domingos Amaral, Margarida Rebelo Pinto, etc., devem ser estudados, não pela fama, pelo prestígio ou pelo dinheiro que possuem, mas porque têm um alcance social enorme. Não só para perceber o que é que há nesses livros que atrai tantas pessoas, mas também para criticar a visão estática, rudimentar e esquemática da realidade que está por trás desses romances. E ainda para chamar a atenção para um determinado clima estilístico, quase sempre bastante rançoso e sem grandes subtilezas intelectuais, onde as metáforas, as comparações, o léxico, a própria estrutura frásica, a arquitectura de conjunto só por caridade é que podem ser considerados literatura.» 
(negrito do autor do blogue)

Texto completo aqui




«Veja-se a referência constante do Miguel Sousa Tavares à sua memória de um Algarve supostamente original, para onde ele ia desde os primeiros dentes. Normalmente é acompanhada de um lamento fúnebre pelas praias que, invadidas pela maré humana do turismo de massas, perderam o seu encanto e a sua autenticidade. De facto, para certas famílias, a democracia é uma chatice. Afastadas e despojadas de alguns dos seus antigos privilégios, como o acesso a praias quase privativas ou o gozo de viajarem de forma confortável, sem precisarem de contactar com plebe tumultuosa e abjecta, essas famílias desenvolveram uma visão pessimista da democracia, transformaram a sua decepção numa visão trágica do mundo. É isso que explica, de resto, que MST se coloque na posição do herói que empreende uma busca dos valores autênticos degradados por uma sociedade que deixou de respeitar as tradições e os costumes locais.»
(...)
«Na verdade, o que está na origem da exibição de ignorância de muitas das nossas elites é precisamente o facto de consumirem subprodutos ou maus produtos culturais em doses elevadas. É a própria indigência cultural, em muitos casos susceptível de vergonha, das nossas elites que explica a sua mediocridade, a sua falta de civismo, a sua ignorância. Além disso, as chamadas classes populares ou médias baixas, sobretudo agora que incluem uma série de pessoas com estudos superiores, não são constituídas apenas por pessoas que só consomem maus produtos culturais, nem são necessariamente aquelas que possuem menos ferramentas para decifrar as mensagens supostamente mais complexas dos produtos da alta cultura ou com grande prestígio cultural.»
(...)
«Exceptuando umas fotografias dele em Nova Iorque, com um casaco novo e disposição alegre e jovial, que o Valter publicou num site que utilizava para se promover. Já que tinha ficado com os meus direitos de autor, ao menos que lhes desse bom uso… Tudo indicava que sim, porque, muito masoquista, fui acompanhando, durante algum tempo, as viagens dele à volta do mundo graças às vendas do Couves & Alforrecas…»




António Barreto em entrevista

Breve, sobre a excelente entrevista a António Barreto no Observador, aqui

Dos mitos da reforma Agrária: «O mapa do Alentejo das ocupações é muito claramente o mapa das melhores herdades. E as leis, quando se dizia que serviam para penalizar os proprietários absentistas, fizeram uma coisa absolutamente miserável: penalizaram as benfeitorias.»

Politicamente, o povo português é infantil, para não dizer imbecil: «quando, por exemplo, nos debates parlamentares ou noutras ocasiões alguém diz “isto é a política da direita”, isso é um insulto. E passa como tal. Se for o contrário, “isso é de esquerda”, para a maior parte das pessoas é qualificativo.»

A estratégia é apoiar quem delapida o erário público e divide migalhas com os jornaleiros: «nos tempos que correm há uma tendência primordial de complacência com a esquerda. E há o contrário, há alguma predisposição pouco amigável com a direita. O bom momento que este Governo viveu neste ano e meio ficou a dever-se, em grande parte, à complacência, à cortesia, da imprensa em geral.»

Ai, sacrilégio, ter opinião própria e divergente da esquerdalha: «…conheço muito bem o programa político do PCP e do BE, o que quer que se faça com estes dois partidos é sempre com uma intenção: é mais um passo para chegar ao mesmo sítio. E esse sítio é “não Europa, não euro, não NATO, não democracia conforme a conhecemos”. E eu não quero isso, não quero fazer bocadinhos de caminho com alguém que não quer ir para o mesmo sítio que eu.»

Por isso é tão cobiçado e vilipendiado: «A única coisa sólida que há em Portugal é o Estado. Para se agarrar. Já há pouca cultura, há pouca economia, pouca empresa. Os partidos políticos olham para a economia mas, infelizmente, com muito más intenções. Houve corrupção por tudo quanto é sítio, isto é, partidos a tentarem encontrar uma base sólida de subsistência.»


sintonias

Sem me querer comparar ao magnífico escritor Reinaldo Moraes (até porque nem posso comparar-me com nenhum escritor), descobri agora que ambos produzimos em 2010 um par de textos religiosamente ímpios e iconoclastas, o meu aqui e o dele ali. Considerando plausível que outros milhares de criaturas terão feiro o mesmo por esse mundo fora, na mesma altura, será exagero chamar-lhe coincidência, antes uma simples sintonia genérica.

Desse autor, anoto, para uso futuro, as obras publicadas: 
Tanto Faz 
Pornopopeia
O Cheirinho do Amor
Umidades


o Incêndio Costa -Lacerda

O incêndio Costa-Lacerda
Henrique Raposo


«Num país que levasse a sério a transparência e a responsabilização, António Costa já estava politicamente destruído. Como se o nepotismo do negócio TAP (amigo Lacerda) não fosse suficiente, assistimos nesta semana a um desnorte inédito ao nível da estrutura do Estado. Agora percebe-se que a campanha eleitoral desastrada de 2015 que conduziu à sua derrota não foi um acaso: quando sai do círculo lisboeta onde é protegido por jornalistas, comentadores e senadores, quando é testado a sério, Costa falha. É incompetente. Mas a questão, como dizia há pouco, vai muito além desta semana. A tragédia de Pedrógão é a consequência de falhas graves do passado de Costa e do regime.

O tal Siresp foi recontratado por Costa em 2005. O problema aqui não é a mera incompetência ou falta de coragem para rasgar esta PPP que tem o dedo da PT, do BES, do BPN — algo que Costa partilha com outros ministros do PSD antes e depois de 2005. O problema, meus caros, é que Costa recontratou o Siresp num negócio que envolveu o amigo Lacerda. A sua carreira política devia ter morrido aqui. Não morreu. Costa é da esquerda lisboeta, ou seja, tem um salvo-conduto que o coloca acima do bem e do mal. Sucede ainda que os primeiros-ministros do PS têm o direito divino de trazer as suas amizades para o perímetro do dinheiro público.

Mas continuemos, porque o incêndio Lacerda também continua. Costa foi o ministro que desprezou o grande estudo feito neste século para a reforma do combate aos fogos. Um dos grandes especialistas, José Miguel Cardoso Pereira, escreveu nesse estudo o que agora é tragicamente evidente: não se pode concentrar tudo a jusante, no combate; é preciso retirar a proteção civil do combate ao fogo, é preciso criar um corpo de sapadores/engenheiros que trabalhe de janeiro a dezembro; como se faz no Chile, Espanha, Austrália, Califórnia, podemos fazer mais com menos dinheiro.

Como o próprio Ascenso Simões reconheceu, Costa desprezou o estudo e optou pela política voluntarista do combate, adjudicando, entre outras coisas, os helicópteros Kamov. Estes Kamovs, além de caríssimos, são inúteis. Ou seja, a incompetência de Costa surge de novo, mas vem acompanhada de algo ainda mais grave: nepotismo e eleitoralismo. Costa contratou os Kamovs num negócio que voltou a envolver o amigo Lacerda, desprezou o saber científico, cedeu ao mais fácil e ao mais telegénico: a foto ao lado dos grandes meios, que, segundo os especialistas, não resolvem o problema. Em resumo, tudo o que está errado no regime e no sistema de proteção civil cruza-se com Costa e com esta tragédia — talvez a maior desde as cheias de 1967.


Não falo de 1967 por acaso. Costa e Marcelo impuseram ao país uma atmosfera idêntica àquela que Salazar impôs em 1967: foi a natureza, nada podia ser feito, não houve erros técnicos ou políticos, fazer perguntas é antipatriótico, siga a banda. E muito jornalismo pactuou e pactua com a narrativa. Aliás, tem sido abjeta a forma como muitos media têm glorificado as lágrimas e abraços dos governantes, como se tivessem sido eles a sofrer a tragédia, como se tivessem sido eles a perder filhos, pais e avós. Está para lá do revoltante, é grotesco.»

Cosmopolita ou provinciano?

E eu, que não gosto de viajar, poderei ser um cosmopolita ou sou um irremediável provinciano - ou mesmo apenas um aldeão?!

«Ser da província ou ser provinciano não é a mesma coisa. Há provincianos nas grandes cidades e gente cosmopolita em aldeias. Uma aldeia pode gerar cidadãos com uma visão plural do mundo e uma cidade pessoas pequeninas na visão das coisas. O cosmopolitismo não corresponde à situação de se viajar muito, de se “conhecer” o mundo — há gente que viu o mundo todo sem ter visto mais que o próprio umbigo. O verdadeiro cosmopolita não precisa de dizer que foi à Argentina, que tem amigos em Sydney ou negócios em Xangai. Que tem casa em Paris ou passa férias na Toscânia. Que esteve um ano em Cape Town e escreveu histórias sobre a América profunda. O verdadeiro cosmopolita não se vê como um português que é mais “civilizado” que os outros. Que fez mais milhas, que fala mais línguas. O cosmopolitismo não corresponde a uma espécie de erudição feita viagem, comparando o cosmopolita com quem não é. O cosmopolitismo é acima de tudo, sentir-se bem em diferentes lugares, com diferentes pessoas, não renegando a própria identidade e exercendo a alteridade, gerando sobre as duas sucessivas oportunidades de alargamento. Assim, um cosmopolita não “vai ao estrangeiro”, pois, de alguma forma, vá onde vá, está sempre em casa e não precisa de o anunciar, repetidamente, a toda a gente.» – Jorge Barreto Xavier