Arriscar é Viver

Anne Dufourmantelle - Fotografia: France Inter

« A segurança engendra mais o medo do que o inverso; o risco faz parte da vida, mais, sem se correrem riscos não se vive realmente; onde há perigo é onde há também salvação; viver não é só ter nascido. Recusar o risco é recusar viver. Numa França — numa Europa — sob ameaça terrorista não esquecer que esta é sempre também arma política do controlo das liberdades.
Qualquer resposta securitária é já política: todos os totalitarismos usam a ameaça terrorista para liquidar as alternativas. O “risco zero” é um fantasma. O custo de demasiada protecção é alto demais: troca- se Big Brother por Big Mother. Estar inteiramente vivo é um risco que poucos querem correr — há muitas vidas que, mirradas pelo medo de tudo, já perderam a liberdade.»


José Cutileiro sobre Anne Dufourmantelle (1964-2017); filósofa francesa, uma das mentes mais estimulantes da actualidade, que acreditava que recusar o risco é recusar viver. In Expresso 2017.08.12

comentar, comentários, comentadores



be sure brain is in gear before engaging mouth é um ditado inglês permanentemente incinerado nas caixas de comentários dos blogues, sites, redes sociais e jornais, cumprindo a sentença de Umberto Eco: “As redes sociais deram voz aos imbecis”. Ora, considerando que os néscios não têm consciência do seu estado, estamos perante um problema sem solução.


«Era uma bela utopia: abrir os sites dos jornais e revistas aos comentários dos leitores, promovendo assim o debate, a troca de argumentos, a socialização do saber, o ideal democrático de uma esfera pública alargada e cada vez mais esclarecida, conforme ao projecto moderno de uma sociedade transparente. Resultou, afinal, numa forma tenebrosa de obscurantismo e fomentou a exibição pública das reacções intelectualmente primárias e socialmente reprovadas, como são a injúria e a agressão. Um especialista americano deste mundo digital perguntava há algum tempo na revista The Atlantic: “Quantos comentários devo eu ler, na Internet, para perder a fé na humanidade? Muitas vezes, a resposta é: um comentário”. (...)»
Peça completa aqui

Reciclar Plástico - Certo ou Errado?



Defender a reciclagem do plástico não será uma maneira de encorajar a continuação do seu uso e uma forma de apoiar a indústria do plástico? Ao invés, não reciclar o plástico não será uma forma de o tornar mais caro e menos competitivo face aos produtos alternativos; e por via disso um modo de acelerar o seu declínio e abandono?! É certo que vivemos na era do plástico e que a vida moderna tal como a conhecemos não pode dispensar de supetão a tecnologia dos polímeros e os inúmeros tipos de plásticos existentes, mas produzem-se diariamente milhões de toneladas de plástico para aplicações em que este material pode ser substituído por tecidos e pastas de celulose. Pensar na não reciclagem será, nesta circunstância, um erro?

da Série: Não há vacas sagradas nem tabus, tudo é discutível, tudo serve para reflectir e exercitar o músculo cérebro.

o hostel subterrâneo - microcontos de abalar


O vizinho escavara o solo por baixo das residências contíguas à sua e aí instalara quartos para os seus hóspedes, a quem contava a história de que naqueles subterrâneos haviam vivido heróis da luta contra a ditadura e o fascismo que, andando fugidos, ali encontraram refúgio tal como outros no tempo das invasões francesas, opressão estrangeira que levara o seu antepassado José Augusto da Silveira a construir aqueles apêndices subterrâneos para aí esconder os nacionalistas, resistentes e revoltosos contra o jugo napoleónico. 
Eis a decifração do mistério do hostel instalado numa pequena casa de um antigo bairro operário para onde entravam e de onde saiam dezenas e dezenas de pessoas, situação que trazia a vizinhança profundamente intrigada desde o início do Verão.

o suicídio da fotocopiadora - microcontos de abalar



O último ímpeto destravou a fotocopiadora que iniciou uma rolagem pelo pavimento brilhante e o deus das coisas mecânicas fez com que uma das pequenas rodas bloqueasse no ângulo exacto para permitir que a máquina descrevesse uma curva apertada que a lançou escadaria abaixo. No patamar inferior ameaçou a jovem ama e as duas crianças que se divertiam no jardim -baloiçando os petizes impulsionados pela rapariga, motivo constante nos azulejos oitocentistas que forram as paredes dos dois andares - ao fazer-lhes uma tangente; mas a máquina copista continuou e galgou o último lanço da escadaria precipitando-se finalmente na rua, onde capotou saltando-lhe a tampa e as gavetas cheias de folhas que se espalharam por ali, umas imaculadamente brancas e outras com uma face já impressa onde se via um cu e uma púbis feminina esborrachados contra o vidro da fotocopiadora. Os poucos transeuntes da antemanhã acharam estranho o incidente mas não disseram nada, absolutamente nada.

dos engodos e iscos que se usam na pesca - microcontos de abalar




… e depois da gaja de mamas falsas e falso sotaque americano, mandaram uma pseudo-francesa franzina que ensaiava um imitado arrevesado inglês, e ainda duas adolescentes confusas empurradas escada acima, depois foi já nem sei quem e uma ex-professora com uma imagem colada, e ainda uma divorciada sorridente de vestido esvoaçante… E não despedem a inábil psicóloga, asnos?!

A uma esquina dobrada a víbora mentecapta ri-se esfregando as escamas.

o pocesso I - microcontos de abalar



- Vá, diz lá quantos destes tens?! Ouviu-se numa cidade kafkiana. Luís era um tipo engraçado; comia com os dedos, costume que trouxera de um rali no deserto e do convívio com uma família berbere. Os olhos de carneiro em cagulo na bandeja, mirando-o fixamente, era a memória mais intensa que retivera dessa aventura pelos areais do Norte de África. Isso saberia responder ao interrogador, mas não a quantidade de dentes que tinha na boca.

Escuteiros e Escoteiros


«Ao todo, o Corpo Nacional de Escutas (CNE) é composto por 72 mil escuteiros. Existe desde 1923. Através dos lenços que usam pode identificar-se tanto a idade como a proveniência de cada escuteiro. Em todos os lenços, independentemente da cor, há uma insígnia que indica o distrito do agrupamento. Os lobitos, com o lenço amarelo, são os mais novos, dos seis aos dez anos. Logo a seguir, até aos 14 e com os lenços verdes, vêm os exploradores. A etapa seguinte faz-se nos pioneiros, que usam a cor azul ao pescoço, até aos 18. De vermelho, os caminheiros podem ser a última parte do percurso. Geralmente, aos 22 anos, o caminheiro sai dos escuteiros ou prossegue a formação para se tornar chefe, que enverga um lenço verde-escuro integral. As divisões etárias entre escuteiros marítimos (um ramo do escutismo do CNE onde as actividades são essencialmente marítimas), correspondem às mesmas do escutismo terrestre, mas têm nomes diferentes. Com excepção para os lobitos, que têm a mesma designação, os marítimos vão dos moços aos companheiros, passando pelos marinheiros. Em Portugal há também os escoteiros, que não estão associados a qualquer religião, e que existem no país desde 1912 (desde 1911 em Macau). Segundo a página na Internet da Associação dos Escoteiros de Portugal (AEP), o movimento é composto por cerca de 10 mil escoteiros, distribuídos por 150 grupos locais.»
C.S. in PUBLICO 2017.08.01



Música e Literatura, as artes maiores; o resto é bonecada

Eduardo Lourenço por Nuno Ferreira Santos - PÚBLICO



Isabel Lucas: Sempre analisou as questões da identidade a partir da literatura e sobretudo da poesia. A melhor maneira de conhecer um povo é a partir da literatura que ele produz?

Eduardo Lourenço: - Sim, a arte em geral. A literatura não tem uma função. É um efeito do que somos de mais misterioso, de mais enigmático e ao mesmo tempo de mais ambicioso. Penso que, de todas as artes, a que revela o que a Humanidade é de mais profundo e absoluto é a música. A literatura é uma música um tom abaixo. Não se explica, não é da ordem do conceito como a filosofia. É natural que os homens reservem à literatura a sua maior atenção. A literatura é o nosso discurso fantasmático, absoluto. Todas as culturas se definem pela relação com o seu próprio imaginário. A encarnação dele é a literatura.


In Publico 2017.07.31

Uma entrevista muito interessante

foto do Jornal i



«Escritores como José Rodrigues dos Santos, Miguel Sousa Tavares, Domingos Amaral, Margarida Rebelo Pinto, etc., devem ser estudados, não pela fama, pelo prestígio ou pelo dinheiro que possuem, mas porque têm um alcance social enorme. Não só para perceber o que é que há nesses livros que atrai tantas pessoas, mas também para criticar a visão estática, rudimentar e esquemática da realidade que está por trás desses romances. E ainda para chamar a atenção para um determinado clima estilístico, quase sempre bastante rançoso e sem grandes subtilezas intelectuais, onde as metáforas, as comparações, o léxico, a própria estrutura frásica, a arquitectura de conjunto só por caridade é que podem ser considerados literatura.» 
(negrito do autor do blogue)

Texto completo aqui




«Veja-se a referência constante do Miguel Sousa Tavares à sua memória de um Algarve supostamente original, para onde ele ia desde os primeiros dentes. Normalmente é acompanhada de um lamento fúnebre pelas praias que, invadidas pela maré humana do turismo de massas, perderam o seu encanto e a sua autenticidade. De facto, para certas famílias, a democracia é uma chatice. Afastadas e despojadas de alguns dos seus antigos privilégios, como o acesso a praias quase privativas ou o gozo de viajarem de forma confortável, sem precisarem de contactar com plebe tumultuosa e abjecta, essas famílias desenvolveram uma visão pessimista da democracia, transformaram a sua decepção numa visão trágica do mundo. É isso que explica, de resto, que MST se coloque na posição do herói que empreende uma busca dos valores autênticos degradados por uma sociedade que deixou de respeitar as tradições e os costumes locais.»
(...)
«Na verdade, o que está na origem da exibição de ignorância de muitas das nossas elites é precisamente o facto de consumirem subprodutos ou maus produtos culturais em doses elevadas. É a própria indigência cultural, em muitos casos susceptível de vergonha, das nossas elites que explica a sua mediocridade, a sua falta de civismo, a sua ignorância. Além disso, as chamadas classes populares ou médias baixas, sobretudo agora que incluem uma série de pessoas com estudos superiores, não são constituídas apenas por pessoas que só consomem maus produtos culturais, nem são necessariamente aquelas que possuem menos ferramentas para decifrar as mensagens supostamente mais complexas dos produtos da alta cultura ou com grande prestígio cultural.»
(...)
«Exceptuando umas fotografias dele em Nova Iorque, com um casaco novo e disposição alegre e jovial, que o Valter publicou num site que utilizava para se promover. Já que tinha ficado com os meus direitos de autor, ao menos que lhes desse bom uso… Tudo indicava que sim, porque, muito masoquista, fui acompanhando, durante algum tempo, as viagens dele à volta do mundo graças às vendas do Couves & Alforrecas…»




António Barreto em entrevista

Breve, sobre a excelente entrevista a António Barreto no Observador, aqui

Dos mitos da reforma Agrária: «O mapa do Alentejo das ocupações é muito claramente o mapa das melhores herdades. E as leis, quando se dizia que serviam para penalizar os proprietários absentistas, fizeram uma coisa absolutamente miserável: penalizaram as benfeitorias.»

Politicamente, o povo português é infantil, para não dizer imbecil: «quando, por exemplo, nos debates parlamentares ou noutras ocasiões alguém diz “isto é a política da direita”, isso é um insulto. E passa como tal. Se for o contrário, “isso é de esquerda”, para a maior parte das pessoas é qualificativo.»

A estratégia é apoiar quem delapida o erário público e divide migalhas com os jornaleiros: «nos tempos que correm há uma tendência primordial de complacência com a esquerda. E há o contrário, há alguma predisposição pouco amigável com a direita. O bom momento que este Governo viveu neste ano e meio ficou a dever-se, em grande parte, à complacência, à cortesia, da imprensa em geral.»

Ai, sacrilégio, ter opinião própria e divergente da esquerdalha: «…conheço muito bem o programa político do PCP e do BE, o que quer que se faça com estes dois partidos é sempre com uma intenção: é mais um passo para chegar ao mesmo sítio. E esse sítio é “não Europa, não euro, não NATO, não democracia conforme a conhecemos”. E eu não quero isso, não quero fazer bocadinhos de caminho com alguém que não quer ir para o mesmo sítio que eu.»

Por isso é tão cobiçado e vilipendiado: «A única coisa sólida que há em Portugal é o Estado. Para se agarrar. Já há pouca cultura, há pouca economia, pouca empresa. Os partidos políticos olham para a economia mas, infelizmente, com muito más intenções. Houve corrupção por tudo quanto é sítio, isto é, partidos a tentarem encontrar uma base sólida de subsistência.»


sintonias

Sem me querer comparar ao magnífico escritor Reinaldo Moraes (até porque nem posso comparar-me com nenhum escritor), descobri agora que ambos produzimos em 2010 um par de textos religiosamente ímpios e iconoclastas, o meu aqui e o dele ali. Considerando plausível que outros milhares de criaturas terão feiro o mesmo por esse mundo fora, na mesma altura, será exagero chamar-lhe coincidência, antes uma simples sintonia genérica.

Desse autor, anoto, para uso futuro, as obras publicadas: 
Tanto Faz 
Pornopopeia
O Cheirinho do Amor
Umidades


o Incêndio Costa -Lacerda

O incêndio Costa-Lacerda
Henrique Raposo


«Num país que levasse a sério a transparência e a responsabilização, António Costa já estava politicamente destruído. Como se o nepotismo do negócio TAP (amigo Lacerda) não fosse suficiente, assistimos nesta semana a um desnorte inédito ao nível da estrutura do Estado. Agora percebe-se que a campanha eleitoral desastrada de 2015 que conduziu à sua derrota não foi um acaso: quando sai do círculo lisboeta onde é protegido por jornalistas, comentadores e senadores, quando é testado a sério, Costa falha. É incompetente. Mas a questão, como dizia há pouco, vai muito além desta semana. A tragédia de Pedrógão é a consequência de falhas graves do passado de Costa e do regime.

O tal Siresp foi recontratado por Costa em 2005. O problema aqui não é a mera incompetência ou falta de coragem para rasgar esta PPP que tem o dedo da PT, do BES, do BPN — algo que Costa partilha com outros ministros do PSD antes e depois de 2005. O problema, meus caros, é que Costa recontratou o Siresp num negócio que envolveu o amigo Lacerda. A sua carreira política devia ter morrido aqui. Não morreu. Costa é da esquerda lisboeta, ou seja, tem um salvo-conduto que o coloca acima do bem e do mal. Sucede ainda que os primeiros-ministros do PS têm o direito divino de trazer as suas amizades para o perímetro do dinheiro público.

Mas continuemos, porque o incêndio Lacerda também continua. Costa foi o ministro que desprezou o grande estudo feito neste século para a reforma do combate aos fogos. Um dos grandes especialistas, José Miguel Cardoso Pereira, escreveu nesse estudo o que agora é tragicamente evidente: não se pode concentrar tudo a jusante, no combate; é preciso retirar a proteção civil do combate ao fogo, é preciso criar um corpo de sapadores/engenheiros que trabalhe de janeiro a dezembro; como se faz no Chile, Espanha, Austrália, Califórnia, podemos fazer mais com menos dinheiro.

Como o próprio Ascenso Simões reconheceu, Costa desprezou o estudo e optou pela política voluntarista do combate, adjudicando, entre outras coisas, os helicópteros Kamov. Estes Kamovs, além de caríssimos, são inúteis. Ou seja, a incompetência de Costa surge de novo, mas vem acompanhada de algo ainda mais grave: nepotismo e eleitoralismo. Costa contratou os Kamovs num negócio que voltou a envolver o amigo Lacerda, desprezou o saber científico, cedeu ao mais fácil e ao mais telegénico: a foto ao lado dos grandes meios, que, segundo os especialistas, não resolvem o problema. Em resumo, tudo o que está errado no regime e no sistema de proteção civil cruza-se com Costa e com esta tragédia — talvez a maior desde as cheias de 1967.


Não falo de 1967 por acaso. Costa e Marcelo impuseram ao país uma atmosfera idêntica àquela que Salazar impôs em 1967: foi a natureza, nada podia ser feito, não houve erros técnicos ou políticos, fazer perguntas é antipatriótico, siga a banda. E muito jornalismo pactuou e pactua com a narrativa. Aliás, tem sido abjeta a forma como muitos media têm glorificado as lágrimas e abraços dos governantes, como se tivessem sido eles a sofrer a tragédia, como se tivessem sido eles a perder filhos, pais e avós. Está para lá do revoltante, é grotesco.»

Cosmopolita ou provinciano?

E eu, que não gosto de viajar, poderei ser um cosmopolita ou sou um irremediável provinciano - ou mesmo apenas um aldeão?!

«Ser da província ou ser provinciano não é a mesma coisa. Há provincianos nas grandes cidades e gente cosmopolita em aldeias. Uma aldeia pode gerar cidadãos com uma visão plural do mundo e uma cidade pessoas pequeninas na visão das coisas. O cosmopolitismo não corresponde à situação de se viajar muito, de se “conhecer” o mundo — há gente que viu o mundo todo sem ter visto mais que o próprio umbigo. O verdadeiro cosmopolita não precisa de dizer que foi à Argentina, que tem amigos em Sydney ou negócios em Xangai. Que tem casa em Paris ou passa férias na Toscânia. Que esteve um ano em Cape Town e escreveu histórias sobre a América profunda. O verdadeiro cosmopolita não se vê como um português que é mais “civilizado” que os outros. Que fez mais milhas, que fala mais línguas. O cosmopolitismo não corresponde a uma espécie de erudição feita viagem, comparando o cosmopolita com quem não é. O cosmopolitismo é acima de tudo, sentir-se bem em diferentes lugares, com diferentes pessoas, não renegando a própria identidade e exercendo a alteridade, gerando sobre as duas sucessivas oportunidades de alargamento. Assim, um cosmopolita não “vai ao estrangeiro”, pois, de alguma forma, vá onde vá, está sempre em casa e não precisa de o anunciar, repetidamente, a toda a gente.» – Jorge Barreto Xavier

como começar uma guerra

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os Nem Nem

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Nem Lutero nem Francisco

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O fim está próximo?


Se olharmos para a História facilmente percebemos que nunca a humanidade viveu tão bem, que nunca teve condições tão favoráveis para viver, ainda que subsistam grandes assimetrias entre a riqueza e a pobreza, ainda que decorram dezenas de sangrentos conflitos regionais, ainda que mais de metade da população dos países ricos viva sob angústias constantes, e igual número nos países pobres viva no limiar da sobrevivência. 

O espectro do pessimismo assola o planeta; seja à custa da ameaça da destruição total na Coreia, seja o derretimento das calotes polares, a fome no mundo, os ataques terroristas, ou a crise económica, cultural e política; tudo factores que nos fazem temer o fim da humanidade. Porém, um cientista e investigador destes assuntos, Max Roser, argumenta que se olharmos para os últimos dois séculos temos muitos motivos para estarmos optimistas com os rumos que tomámos, ainda que qualquer pesquisa científica feita num vasto universo de inquiridos traduza como resultado a firme convicção de que o mundo está a ficar pior (assim aconteceu recentemente com 18 mil inquiridos na Grã-Bretanha). 


Mas se admitirmos que um mundo melhor significa um mundo com mais saúde e educação, menos pobreza e menos mortes, Roser tem razão. Para saber mais consultar o estudo aqui. 


Porém, e não obstante essas conquistas da ciência, da tecnologia e da civilização, não devemos ignorar as reflexões daqueles que pensam sobre o mundo e a vida, reflexões pertinentes que abordam a natureza e o comportamento dos humanos.


«O mal e o remédio estão em nós. A mesma espécie humana que agora nos indigna, indignou-se antes e indignar-se-á amanhã. Agora vivemos um tempo em que o egoísmo pessoal tapa todos os horizontes. Perdeu-se o sentido da solidariedade, o sentido cívico, que não deve confundir-se nunca com a caridade. É um tempo escuro, mas chegará, certamente, outra geração mais autêntica. Talvez o homem não tenha remédio, não tenhamos progredido muito em bondade em milhares e milhares de anos sobre a Terra. Talvez estejamos a percorrer um longo e interminável caminho que nos leva ao ser humano. Talvez, não sei onde nem quando, cheguemos a ser aquilo que temos de ser. Quando metade do mundo morre de fome e a outra metade não faz nada... alguma coisa não funciona. Talvez um dia! José Saramago, in La Verdade (1994)»

Morrer entre Brutos

Foto: Rui Oliveira/Global Imagens

«Nações menos infantis não descansariam até varrer os demagogos que celebram glórias imaginárias e fintam as desgraças autênticas. Portugal, não. Portugal respeita os mortos, leia-se espera que os vivos não perturbem a “estabilidade”. Portugal observa prioridades, leia-se deixa arrefecer o assunto. Portugal não cede à baixa política, leia-se permite a impunidade geral. Portugal está unido, leia-se criou-se um ambiente hostil a questões desagradáveis. Portugal, repete-se, é uma nação muito forte, leia-se um recreio de oportunistas, desnorteados ao primeiro assomo da realidade.»

artigo completo aqui

a língua portuguesa, a língua "brasileira" e o tradutor do google

Nem pensar em usar o Google Tradutor para traduzir um parágrafo de português para qualquer outra língua, pois aquela ferramenta não reconhece a nossa língua. Embora figure lá “português” trata-se de “brasileiro”, com todas as diferenças lexicais, sintácticas e semânticas em relação à nossa língua. Por isso sai merda de pasmar daquelas traduções.

Os brasileiros bem podiam dar um autêntico grito do Ipiranga e declarar a existência da língua brasileira. Dessa forma, sempre declaravam unilateralmente a sua independência em relação aos “colonialistas” portugueses. É aquela questão do Brasil não ter conquistado a sua independência lutando, pois ela foi-lhes outorgada pela potência colonizadora – caso singular na América Latina. 

Claro que quando algum português afirma que os brasileiros não falam português mas brasileiro é imediatamente alvo da chacota de outros portugueses que se acham cultos, porque toda a gente sabe que a língua oficial do Brasil é o português. Ora isto é exactamente a diferença entre a realidade e a pseudo-sabedoria, realidade que esses “inteligentes” desconhecem. Perguntem aos actores portugueses a trabalhar no Brasil se não têm de adoptar rapidamente o vocabulário, e até alguma pronúncia brasileira (ou abrasileirada), para se fazerem entender em terras de Vera Cruz?! Mas os nossos “inteligentes” acham que os brasileiros nos entendem como nós os entendemos a eles (por força da literacia auditiva brasileira que as telenovelas têm inculcado por cá durante décadas), o que não é verdade. E por outro lado nem querem ouvir falar em abrir mão da posição que ocupamos no ranking das línguas mais faladas no mundo; uma rematada palermice.

Acho que lhes ficava bem, aos brasileiros, imporem a diferença da sua língua, uma língua dinâmica, rica e que, nós portugueses, temos a sorte de compreender, uma língua muito semelhante à nossa porque é dela derivada, mas diferente na prática do quotidiano e até nas aplicações mais cuidadas, como o uso no meio científico e na literatura onde ocorrem, com frequência e variedade, adaptações de estrangeirismos e, sobretudo, aquela sintaxe tão diferente da nossa.

Sou a favor da definição diferenciada das línguas faladas em Portugal e Brasil, e como português não me assustaria nada, nem acharia redutor, que a língua portuguesa deixasse de ser a 6ª mais falada do mundo e passasse para o 50º lugar desse ranking de línguas. Afinal de contas existem apenas 59 milhões de falantes de italiano e no entanto a cultura italiana é uma referência mundial - sem necessidade de evocar e contabilizar o contributo da civilização romana da qual os italianos são os mais directos herdeiros.

Ora, verificando-se que os brasileiros não vão dar esse renovado e autenticamente merecido grito do Ipiranga, porque se estão borrifando para esta questão, a alternativa seria darmos nós, portugueses, o grito libertador, que até podia ser o grito do Ega (um afluente do Mondego, rio 100% português), libertando-nos dessa opressora língua brasileira (ou, para nós portugueses, português de terceira categoria). Mas isso nunca faremos porque o povo português é bacoco e, muito naturalmente, é dirigido por bacocos.

Entretanto, lá vou recorrendo ao inglês e ao francês, e cagando para a dita língua portuguesa do Google Tradutor.

a rémora

rémora juvenil fotografada na Meia Praia em 2017.04.15


A rémora é um peixe sem considerável critério próprio pois limita-se a ser conduzida pelo seu hospedeiro/transportador, revelando uma existência assente num manifesto oportunismo. Anima-a episodicamente um elementar sentido de sobrevivência que suscita um movimento rápido para voltar a prender-se ao hospedeiro quando, por algum motivo acidental, se desprende dele. São, pois, esses “golpes de rins” bruscos e salvíficos a sua única manifestação digna de registo. Nesse particular lembra alguns políticos de segunda categoria que só se mantém quando agarrados a um hospedeiro/condutor e que, logo que se perdem destes, ou os abandonam por qualquer motivo, acabam por dar à costa depois de uma aflitiva e exaustiva busca por um novo patrono.
A rémora da Meia Praia era apenas um juvenil cansado e confuso que insistia em acometer para o areal, indo ao encontro da morte, mau grado as tentativas realizadas de a levar de volta a águas mais profundas.
Neste giro infinito de comportamentos básicos que animam todas as espécies do reino animal resta-nos considerar que são os humanos, com a sua capacidade de desempenho racional e irracional, que copiam os seres mais elementares da Natureza, e não o contrário. 
Conheço muitas rémoras que por aí andam, à boleia, mas esta foi a primeira vez que fotografei e filmei uma do universo aquático.

do passado

«O passado é indispensável
Embora o passado seja algo de terminado, há duas razões que o tornam indispensável para compreendermos o que estamos a vivenciar e o que nos espera amanhã e depois. A primeira é que a população mundial é aproximadamente 7% de todos os seres humanos que já viveram. Por outras palavras, há mais mortos do que vivos, catorze para um, e é perigoso ignorarmos a experiencia acumulada de uma maioria tão grande da humanidade. Segundo, o passado é a nossa única fonte de conhecimento verdadeiramente fiável sobre o presente fugaz e sobre os múltiplos futuros que temos pela frente, dos quais somente um se concretizará.»
                                                  Niall Ferguson, Civilização - O Ocidente e os outros


Pode parecer pouco, 14 mortos para cada vivo, mas se fizermos contas verificamos que é um número muito plausível. Basta multiplicar a população actual - 7,5 biliões - por 14 e obtemos aquilo que será o número de seres humanos que viveram antes de nós.



da Beleza

«O Mestre de Cerimónias dirige-se ao altar do 2º Vigilante, iluminando-o, e este dá uma pancada com o malhete e diz: - Que a beleza ornamente os nossos trabalhos.»

A Beleza nunca foi algo de absoluto e imutável, pelo contrário assumiu formas diferentes segundo a cultura de cada período histórico e de cada região, quer na apreciação do homem ou da mulher quer na dos objectos, dos animais e das paisagens, ou mesmo a beleza das ideias e, até, da divindade.

Por vezes, num mesmo tempo histórico a beleza é abordada de forma muito diferente consoante é retratada pelos pintores e escultores ou pelos escritores. Basta pensar como um ser alienígena interpretaria a noção de beleza feminina se deparasse simultaneamente com uma pintura de Almada Negreiros e uma descrição literária de Camilo Castelo Branco, ainda que estes autores não tenham coexistido no tempo (Camilo morreu em 1890, Negreiros nasceu 3 anos depois).

Do Almada refiro-me a uma daquelas mulheres matronas, cubistas e debruçadas sobre si, contendo o mundo em si. Do Camilo, a pormenorizada descrição de uma Isaura que, cito: «… não é alta. Pertence àquela estatura que chamam mediana, a mais regular, a menos defeituosa, (…) [os cabelos] Negros e luzentes, levemente ondeados, nus de enfeites e ataviados com comodidade, e gentileza. Duas grandes tranças lhos dividiam, para se entrançarem de novo, presas em duas grossas roscas por travessas. Quando as soltava, as duas serpentes ondeavam-lhe por sobre as espáduas até à cinta. (…) [as sobrancelhas] irrepreensivelmente curvas, dividem-se por uma incisão quase imperceptível: longas, negras, e bastas. As pestanas, se ela descai as pálpebras naquele pendor da meiguice natural, quase lhe quebram a luz dos olhos, alindando-os, se é possível, ainda mais. (…) [os olhos] Meigos e vertiginosos. Reflectem a luz frouxa das paixões suaves, e as labaredas cintilantes das paixões escandecidas.».

Ora, na sociedade ocidental é o ideal masculino que pontifica, um ideal preso ao instinto sexual que explica e justifica o apreço pelos traseiros femininos proeminentes, com reservas de gordura para a gestação, os quadris largos que facilitam o parto, e os seios fartos para amamentar. E contra isto pouco pode a moda, contra essa memória táctil dos homens que por muito que apreciem uma mulher linda e magra jamais esquecerão a diferença entre estreitar nos seus braços uma cintura feminina que deixa revelar os ossos ou uma cintura substancial, bem mais voluptuosa.

As sociedades modernas ocidentais estabelecem ainda uma relação entre beleza física, inteligência e poder económico, ou seja, cultiva-se a crença de que uma pessoa bonita tem mais capacidades e mais sucesso. Dos feios considera-se sempre que são pobres, rudes, e falhos de êxito. Tal preconceito ainda amplia mais as dificuldades de ascensão social dessas pessoas; o poeta Vinicius de Morais já tinha escrito a respeito das mulheres: «as muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental.».

As preocupações com o Belo já vêm de longe. Platão terá sido um dos primeiros pensadores a formular a pergunta “O que é o Belo?”, empreendendo uma resposta ampla e cabal em que o Belo é identificado com o Bem, a Verdade e a Perfeição.

Assim, ao conceito de beleza atribuiu uma natureza autónoma, separada do mundo sensível, justificando que uma coisa é mais ou menos bela dependendo da sua inscrição/participação na ideia suprema de beleza; e criticou a arte que se limitava a copiar a natureza ignorando a beleza que o mundo das ideias contém. Mas se Platão ligou a arte à beleza, Aristóteles separou-a, anunciando que a arte é uma criação especificamente humana, e que o Belo não pode ser desligado do homem pois existe neste intrinsecamente.

Na Idade Média o cristianismo fundou um conceito de Beleza identificando-a com Deus, o Bem e a Verdade. E por aqui se seguirá durante séculos, numa colagem excessiva da ética à estética. Santo Agostinho acorrentou a beleza à harmonia, evocando o concurso da unidade, do número, da igualdade, da proporção e da ordem; reiterando que a beleza do mundo não é mais do que o reflexo da suprema beleza de Deus. Por sua vez, São Tomás de Aquino ligou-a ao Bem e à observância de determinadas condições fundamentais: Integridade ou Perfeição; Proporção ou Harmonia; Claridade ou Luminosidade; uma vez mais identificando a beleza com Deus.

Entre os séculos XVI e XVIII as academias impõem as estéticas aristotélicas e as suas regras visando alcançar a perfeição na arte, ainda que na segunda metade do séc. XVIII comecem a emergir ideias que proclamam a subjectividade do Belo. É o tempo em que as sociedades europeias atravessam grandes convulsões, com o início da revolução industrial e as importantes alterações políticas verificadas na América e na França. Nesta conjuntura de efervescências novas ideias despontam e a questão do Belo é equacionada como um problema de gosto.

E neste contexto surge Immanuel Kant, o criador do pensamento que embasa a estética contemporânea. Para este filósofo do séc. XVIII os nossos entendimentos estéticos têm fundamentos subjectivos dado que não se podem apoiar em conceitos pré-determinados. E assim, o critério de beleza que neles se exprime é o do simples prazer que nos acomete. A universalidade do Belo passa a ser subjectiva, como subjectivo é o juízo do gosto.

«Continua a ser verdade que, ao julgar belo um objecto, consideramos que o nosso juízo deve ter um valor universal e que todos devem (ou deveriam) partilhar o nosso julgamento. Mas como a universalidade do juízo do gosto não requer a existência de um conceito a que e deva adequar, a universalidade do belo é subjectiva: é uma pretensão legítima da parte de quem exprime o julgamento, mas não pode assumir de maneira nenhuma o valor de universalidade cognoscitiva. “Sentir” com o intelecto que a forma de um quadro de Watteau que representa uma cena galante é rectangular ou “sentir” com a razão que cada gentil-homem tem o dever de oferecer ajuda a uma mulher em dificuldade não é o mesmo que “sentir” que seja belo o quadro que está a ser examinado: de facto, neste caso, tanto o intelecto como a razão renunciam à supremacia que respectivamente exercem no campo cognoscitivo e no moral, e metem-se em jogo livre com a faculdade imaginativa, segundo as regras ditadas por esta última.» ECO, Umberto – História da Beleza (p. 264)

Embora se reconheça, então, a incapacidade da Razão em impor os seus valores sobre esta matéria tão subjectiva que é a definição do Belo, ela (a Razão) não está afastada da discussão; mormente pela mão daquele eminente filósofo que consegue inscrever parcialmente essa natureza vaga nas regras da Razão.

Ainda no século XVIII ganham força as noções de génio, gosto, imaginação e sentimento e assiste-se à construção do conceito Sublime. Uma vez que o Belo é uma expressão da liberdade, sentimo-nos livres na beleza porque os instintos sensíveis estão em harmonia com a lei da razão; já o sentimento de liberdade no sublime deriva do facto dos instintos sensíveis não terem influência sobre as leis da razão, porque aqui é o espírito que age autonomamente. Esta aparente contradição mais não espelha do que o dualismo da natureza humana.

Em seguida, os românticos exploram as dualidades, nomeadamente a anterior entre Belo e Sublime, e levam mais longe essa constatação da natureza dual, da ocorrência dos géneros, na nossa qualificação estética do mundo: beleza e melancolia; coração e razão; reflexão e impulso coexistem, sendo essa coexistência encarada como natural.

O Séc. XIX trará consigo uma autêntica religião da beleza, emoldurada pela efémera época de ouro do Ocidente: o período vitoriano em Inglaterra, o Segundo Império em França, o pontificado das virtudes burguesas e o despontar do capitalismo. Neste ambiente os artistas arriscam e avançam quebrando todas as normas, procurando o inusitado, o excêntrico, o inalcançável, ofendidos e talvez assustados pelas máquinas que oferecem a pura funcionalidade de novos materiais. Em parte, como reacção a essa uniformização e democratização galopantes, artistas como Courbet, Monet, Manet, Cézanne e outros rompem com os cânones e as convenções do academismo, anunciando a eclosão da arte moderna.

E no século XX sucedem-se as rupturas e explode uma multiplicidade de novas manifestações criativas. Surgem as artes decorativas, a art naif, a arte dos povos primitivos coevos, o artesanato rural; a Fotografia, o Cinema, o Design, a Rádio, etc.

Por outro lado, assiste-se a uma permanente insistência desconstrutivista em relação a todas as categorias estéticas: os conceitos e as fronteiras entre as artes são contestados; a arte é dessacralizada e perde a sua carga mítica e iniciática, tornando-se frequentemente um simples produto de consumo.

Neste ambiente, as estéticas normativas concebem uma beleza fundamentada em princípios inalteráveis, como a estética fenomenológica de Husserl; as estéticas marxistas e neomarxistas que vincam marcadamente a sua orientação sociológica; ou a estética informativa que procura sistematizar a avaliação da componente inovadora presente em cada obra de arte; mas é na estética das ciências que os ideais de beleza alcançam um discurso tanto mais revelador quanto inesperado. Raul Penaguião, um jovem matemático português, de 18 anos, dizia em 2012: «…a Matemática aplicada não me entusiasma muito, entusiasma-me a beleza das ideias matemáticas, pelo que quero seguir Matemática pura e investigação, e não tanto o quanto se relaciona com a realidade, pois nesse relacionamento perde-se muito: já dizia Albert Einstein, “Se as leis da Matemática se referem à realidade, elas não estão correctas; e, se estiverem correctas, não se referem à realidade”.»

Eis como ideia do Belo se impõe de uma forma tão óbvia aos valores concretos da realidade, reafirmando que a vida também encontra sentido numa componente subjectiva que existe para além do universo material.

Nós, seres humanos, temos necessidade de procurar ou criar a beleza, não só para recreação intelectual mas sobretudo porque ela é um guia para a vida, mesmo que o seu conceito dependa apenas de uma noção pessoal de harmonia.



Fontes consultadas:
- BOHM, Camila Camacho - UM PESO, UMA MEDIDA - O padrão da beleza feminina apresentado por três revistas brasileiras, Universidade Bandeirante de São Paulo -São Paulo, 2004
- ECO, Umberto – História da Beleza, Ed. Difel, Lisboa 2005
- GUATIMOSIM, Bárbara Maria Brandão - O BELO E O SUBLIME, Psicanálise & Barroco em Revista v.6, n.3: 48-59, jul.2008
- LINO, Alice de Carvalho - Considerações kantianas sobre os Gêneros - PADÊ: estudos em filosofia, raça, gênero e direitos humanos, UniCEUB, FACJS Vol.2,N.1/07. ISSN 1980-8887
- LINO, Alice de Carvalho – Belo e Sublime: A Mulher e o Homem na Filosofia de Immanuel Kant – Universidade Federal de Ouro Preto, 2008
- PENAGUIÃO, Raul “entrevista em 2012” http://caras.sapo.pt/famosos/2012-09-09-raul-penaguiao-entusiasma-me-a-beleza-das-ideias-matematicas
- SATIE, Luis - Estética e ética em Kant - Escola Superior de Administração Fazendária, Filosofia Unisinos, 2009
- VALENTE, Mariana – A Beleza das Ideias na Educação Científica – Centro de Estudos de História e Filosofia da Ciência, Departamento de Física, Universidade de Évora. Comunicação ao Seminário transdisciplinar “Currículo, Didáctica e Formação de Professores”- Évora, Maio, 2014

Tanto poeta e ninguém os ouve

Tanto poeta e ninguém os ouve
por Ana Cristina Pereira Leonardo

Tendemos a esquecer que o racismo já foi teoria que se pretendeu científica. E tempos houve em que as mulheres eram talvez, como os bichos, desprovidas de alma. A obra publicada entre 1853 e 1855 pelo Conde de Gobineau, “Ensaio sobre a Desigualdade das Raças Humanas”, fez escola nos salões europeus mais respeitáveis (sobretudo germanófilos) até acabar por chegar às mãos de Hitler que do seu título retirou matéria inspiradora, embora, paradoxalmente, não se possa dizer que o “Ensaio...” seja especialmente anti-semita ou nutra qualquer fé descabelada no papel dos arianos. Quanto às mulheres, já Paulo de Tarso as mandava estar caladas no culto e ainda agora o tão progressista Papa Francisco reafirmava que aquelas que quisessem ser ordenadas padres, melhor seria que fossem pregar para outras missas. O apartheid acabou na África do Sul em 1994 – sublinho, 1994. A homossexualidade foi doença encartada até 1990 – sublinho, 1990 – quando a Organização Mundial de Saúde a retirou finalmente da lista de doenças mentais. O casamento entre pessoas do mesmo sexo é reconhecido numa vintena de países e contam-se no mundo 193 países – sublinho, 193 – com assento na ONU (no início do século XX existiam à volta de 60 – o que significa, entre outras coisas, que os nacionalismos triplicaram em pouco mais de 100 anos). Em cerca de 50 deles a pena de morte continua em vigor e em quase uma vintena de outros não foi abolida da lei apesar de não ser aplicada há tempo considerável (alguns desses países fazem risivelmente parte do Conselho de Direitos Humanos da ONU). Entretanto, os conflitos armados adquiriram a peculiar particularidade de contabilizar cada vez mais vítimas civis: segundo o International Institute for Strategic Studies, enquanto na I Guerra Mundial estas representaram menos de 5% dos mortos, 75% é hoje a percentagem que cabe aos não combatentes (feridos incluídos). Quanto a refugiados e deslocados de guerra, a Agência da ONU para os Refugiados calculou um total de 65,3 milhões em 2015, uma em cada 113 pessoas do planeta, 51% crianças. No mesmo ano, a Organização Internacional do Trabalhou somou 197,1 milhões de desempregados, 27 milhões acima dos níveis anteriores à crise (para 2016 previu um acréscimo de 2,3 milhões).
“O medo vai ter tudo” escreveu Alexandre O’Neill na década de 60 do século passado. E antes dele T. S. Eliot: “Vai, vai, vai, disse a ave / O género humano não pode suportar muita realidade”. E ambos há muito mortos, Donald Trump foi eleito presidente da América.

Retirado do Facebook: porque nenhuma rede social é integralmente lixo ou coio de incultos e burgessos - embora por lá façam escola como acertadamente denunciou Umberto Eco

ainda a porcaria do AO90


O Doutor RUI MIGUEL DUARTE comenta as posições revisionistas do AO90 de Ana Salgado (Academia das Ciências de Lisboa). Aqui


POLITICAMENTE CORRECTO

O POLITICAMENTE CORRECTO E A DESTRUIÇÃO SOCIAL

Temos assistido ao longo das últimas décadas ao crescimento desmesurado do poder dos conceitos assentes no politicamente correcto, numa mirabolante “defesa do pluralismo”; conceitos que têm prejudicando mais do que beneficiado a sociedade hodierna, particularmente pelas formas como esses conceitos vêm sendo aplicados: num total desrespeito pela herança cultural, pelos costumes e pelas instituições basilares, como é o caso paradigmático da Família e do seu importante papel na estrutura social.

Sabemos como é inútil tentar contrariar a inexorável marcha do tempo, a evolução mental e o progresso social da Humanidade, que não pode ficar agarrada a um momento da história, a uma realidade social estática, a uma estagnação da sua caminhada; mas também não é aceitável construir a mudança, o progresso, de forma artificial desrespeitando a dinâmica natural do pulsar dos indivíduos e das sociedades. É que as conquistas humanas devem mais ao reformismo e à evolução paulatina e serena do que às revoluções, tantas vezes geradoras de retrocessos em vez de avanços.

Com o pretexto de combater e erradicar o preconceito tem-se vindo, afinal de contas, a fabricar e a alimentar novos preconceitos. Em vez de se suscitar a reflexão e a discussão sobre os problemas, impõe-se draconianamente a aceitação incondicional de tudo aquilo que é diferente, condenando os valores, até então, válidos e íntegros, forjados, testados e adoptados na longa marcha edificadora das sociedades.

Mesmo os indivíduos de sólida formação intelectual e moral acabam por colaborar nesta dinâmica tresloucada e destruidora, sendo forçados a aceitar comportamentos torpes, intelectualmente desonestos, amorais e anti-éticos, sob o pretexto de configurarem direitos humanos de minorias que, sendo diferentes, têm de ser respeitados. A isto chamam Pluralismo, uma realidade assente na destruição dos valores tradicionais e na emergência do singular e minoritário como mais importante do que o plural e maioritário.


É nesta realidade ensandecida que vivemos actualmente, com governantes impondo por decreto o modo como nos devemos comportar, e quanto devemos pagar para suportar e alimentar esse inusitado pluralismo que despreza a maioria dos cidadãos contribuintes (os empreendedores activos e, afinal de contas, os motores da sociedade); e tudo isso em prol de cidadãos invulgares, inactivos, não contribuintes e não empreendedores, tudo isso em nome de uma suposta solidariedade humana. O Estado, dito Social, estica uma corda que tem pouca elasticidade, e os artistas deste circo parecem não saber disso ou não querer saber. Por isso me pergunto se isto é uma actuação racional? E interrogo-me, igualmente, sobre quem ganha com estas diatribes, já que nem os que sustentam esta situação, nem os que dela parcialmente usufruem, verão no futuro a sua vida melhorar ou os seus problemas resolvidos?!

Doenças nacionais

«Dias depois de eu ter escrito «“Coisar” coisas inteligentes» Robert Skidelsky, renomado economista, professor, “lord”, biógrafo de J.M.Keynes,…esteve cá para participar no Festival Internacional de Cultura de Cascais, palestrou e deu uma entrevista. Do que discreteou, destaco
• no cravo — “a política de estímulos ao rendimento que o governo iniciou é demasiado tímida para ter efeitos visíveis na retoma. É uma escala muito, muito pequena. Quando se tem um nível de hiato do produto [distância entre o crescimento verificado e o potencial da economia] desta dimensão, subir pensões num montante mínimo não funciona. É preciso gastar muito dinheiroSe a ideia é estimular a economia com dinheiro público então é necessário mais dinheiro. Muito mais dinheiro, e a uma escala europeia. Tem de o fazer com grande impacto. Um pequeno país não pode fazer muito por si só. Tem de ser algo à escala europeia: tem de ser um programa de investimento europeu muito, muito grande
• na ferradura  “Portugal, como pequeno país na Zona Euro, só tem duas estratégias: ou aguenta e espera que as reformas do lado da oferta [muitas vezes referidas como reformas estruturais] tenham efeitos no tornar o país mais competitivo, e [ao mesmo tempo] espera por ajuda – a que conseguir das instituições da Zona Euro – ou opta por sair da Zona Euro com outros países, e ganha um instrumento adicional que é a taxa de câmbio”»

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