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Os miúdos ouviram-nos ganir no contentor do lixo e levaram para casa os quatro cachorros, ainda de olhos fechados. No mesmo dia, distribuíram-nos pelos amigos. Fiquei com um macho, o único que viria a sobreviver. Calhou-me criar o Bobi. Os biberões, as limpezas e os mimos, o levantar da noite e do sono, de duas em duas horas, durante as primeiras semanas…




Aquecimento Global aumenta gelo na Antártida? - Os alarmistas andam à rasca. Agora que é uma evidência que o gelo da Antárctida está praticamente em máximos históricos...
CO2 - as evoluções climáticas e dos níveis de concentração de CO2 são tudo, menos correlações significativas. Deduz que das quantidades muito significativas de dinheiro que estão a ser dirigidas para a salvação do Planeta, muitas são um desperdício. Um exemplo evidenciado diz respeito às eólicas em França, cuja electricidade até nem é precisa, desfigurando as paisagens e consumindo valiosos recursos públicos.
Energia eólica – as pequeninas e as grandes - Os vendedores e ecologistas apregoam-nas como a solução para os problemas de consumo de energia em casa, e noutros locais. Eu, pessoalmente, quando as vejo (as eolicazinhas, claro), estão sempre paradas. Das maiores, já todos sabemos que só subsistem à conta dos subsídios; das pequeninas, saiu agora um relatório claro!
Leia tudo isto e muito mais num espaço dedicado a evidenciar os disparates que se dizem e fazem à volta da Ecologia. Especialmente dedicado aos ecologistas da treta…!


João Miguel Tavares, colunista do DN, foi processado por Sócrates por ter publicado num artigo "Ver José Sócrates apelar à moral na política é tão convincente quanto a defesa da monogamia por parte de Cicciolina". Recomendo ao colunista do DN que argumente falha na transposição do texto que no original seria: "Ver José Sócrates apelar à monogamia na política é tão convincente quanto a defesa da moral por parte de Cicciolina". É preciso é dar qualquer coisa, uma desculpa qualquer, sobre a qual a "justiça" possa elaborar.
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No momento da aterragem, com o avião oscilando num perigoso banking a baixa altitude, puxei o crucifixo para fora da camisa e, de olhos cerrados, beijei a imagem.
Aterrámos bem. Afinal, aquilo era o procedimento normal.
……..
O jornalista insistia em puxar-me pela manga do casaco enquanto as balas silvavam em torno de nós, espalmando-se contra a rocha do socalco onde nos encontrávamos. O homem estava estupefacto com a minha loucura, ali exposto às balas. Virei a cabeça para lhe sorrir no exacto momento em que uma das balas me perfurou o blusão de cabedal e se alojou no braço. Fiquei surpreendido e deixei-me cair para o lado do que me puxava. – Ó homem, você é doido? Você levou um tiro! E eu, meio aparvalhado, ainda disse: - Porra, o gajo falhou! Será um novato? Já pensou se fui atingido por uma bala de um puto que aguardou meses a fio pela autorização de participar num ataque? A bala pode estar suja, até mesmo oxidada. Esta merda pode infectar, já viu? Se o gajo tivesse acertado eu não ficaria tão preocupado, compreende? Só espero que a merda da bala não esteja infectada. Inch Allah!
E desmaiei.
É no que dá, ler coisas assim.
(texto integral)
Perdeu as pernas e o braço direito no acidente. As próteses inteligentes que a Companhia de Seguros lhe proporcionou refizeram-lhe a vida de tal modo que quando saía de casa ninguém suspeitava que ali ia, simplesmente, uma metade de homem. Tal era a perfeição tecnológica dos dispositivos que lhe substituíam os membros naturais. Micro-circuitos electromecânicos permitiam-lhe, agora, executar movimentos antes impensáveis. Pequenos cérebros digitais programados reproduziam, minuciosamente, balanços e tremores naturais de um corpo humano, passadas largas, precisas, sem grande esforço ou cansaço. O conjunto das pernas continha uma pequena caixa electrónica com duas luzinhas sempre acesas, ora piscando ora fixas consoante o estado e as informações do sistema. Era o dispositivo de comando e controle, um avançado processador numérico que activava ou inibia minúsculas bombas de pressão, válvulas, micro servos, motores para aquecimento e ventilação, estruturas, tendões e músculos em fibras de kevlar, Trylam e Buckminsterfullerene e Biopolialanina, esse estranho produto resultante das investigações sobre biomimestismo das teias de aranha; controladores de humidade e temperatura, e da tonalidade da pele que mudava de acordo com a exposição aos raios solares, acompanhando as alterações sofridas pela sua genuína derme no resto do corpo. Um ligeiro zumbido, quase imperceptível ao ouvido humano, desprendia-se do mecanismo e esse era o único sinal revelador da sua existência.
Assim, de físico totalmente refeito pelos milagres da biotecnologia, o seu corpo alcançava uma sublime perfeição, muito para além dos propósitos do Criador. Não obstante tal reconstrução de si próprio, para além das inúmeras sessões de apoio psicológico que mantinha, uma estranha melancolia apossara-se do homem. Ausente de alegrias como se estas tivessem desaparecido com as partes em falta do seu corpo original, entediado ou decepcionado por, diariamente, encarar a dura realidade da reduzida dimensão do seu corpo verdadeiro, pois embora não sendo obrigado a isso, todos os dias removia as partes adicionais, recolhendo-se depois ao pequeno leito onde, na penumbra da noite, percorria, apalpando com a mão verdadeira, o minguado ser que era. Procuraria certificar-se de que não perdera mais nenhum bocado de si?! Desconfortável, num coto de figura incompleta, o homem ia esquecendo pouco a pouco o dinamismo dos dois primeiros anos em que fora descobrindo e desafiando as capacidades dos apêndices biónicos, a novidade que lhe permitira a prática de desportos que até então nunca experimentara, incontáveis e demorados convívios com os amigos, extensas e exóticas viagens pelo mundo. Tudo isso soçobrara numa profunda melancolia que o alargado pecúlio recebido a título indemnizatório não lograva ultrapassar. Agora, enfrentando a condição de ser semi-sintético, passada a novidade de possuir braço e pernas inteligentes quase indestrutíveis, o homem caíra num profundo torpor que o alheava totalmente das boas coisas da vida ao seu alcance.
Recolhia-se a uma cama de tamanho reduzido por não necessitar de uma de dimensões normais ou porque esta lhe ampliasse a miudeza que se sentia.
Originalmente de pequena estatura, era agora um nanico com menos de um metro de altura, ou comprimento, se, deitado; talvez fosse o homem mais pequeno do mundo. Consumido neste desarranjo depressivo o homem já raramente saía de casa. E não precisava. Tudo o que lhe era necessário, traziam-lhe à porta. Mordomias de sinistrado que a Seguradora provia enquanto fosse vivo.
Por vezes sentia-se obrigado a desligar os avisadores electrónicos dos apêndices, que teimavam solicitá-lo para passeatas higiénicas, relembrar-lhe tertúlias de amigos. Ora grasnavam as pernas, logo de madrugada, em polifonia sibilante piscando as luzinhas, ou o braço o desafiava para as partidas de ténis e jogos de bilhar que durante dois anos praticara com escrupulosa assiduidade. Nada disso lhe interessava mais, e aquelas vozes cibernéticas irritavam-no. Nem ligava à agenda de eventos do Moto Clube a que pertencia. Já nem tinha mota! Não que não pudesse conduzir uma. Hoje, com tais apetrechos biónicos bem podia acelerar sem medo pelas auto-estradas, montado em possante máquina que a larga fortuna lhe permitiria, ultrapassando os seus companheiros a 300 à hora, recorrendo à aptidão optimizadora da panóplia cyborg que possuía. Mas nada disso o excitava. Jazia, ensimesmado em pensamentos e sonhos de uma outra vida que poderia ter tido, desinteressado da que tinha.
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Numa tarde de Inverno, dessas que obrigam a ligar o aquecimento para enxotar as farripas de frio que se introduzem pela mais insignificante fresta de janela, em que corroía algum tempo ao computador, verificou com estranheza a quantidade de e-mails enviados para a empresa de próteses. Era normal as suas próteses reportarem à fábrica a necessidade de proceder a alguma manutenção ou enviar dados sobre pequenas afinações efectuadas, ou requisitar algum componente mas aquilo que ali estava representava um desmesurado volume de peças encomendadas. Que significaria tal coisa? Virou a cabeça e olhou interrogativamente para o suporte de alumínio onde encaixavam as pernas e o braço mas não proferiu qualquer pergunta a que os sistemas responderiam seguramente. Não interessava, as pernas e o braço que pedissem o que quisessem, era-lhe indiferente.
Cansado da posição incómoda a que o monitor do computador o obrigava, deixou descair a cabeça deslizando pelo lado da enorme almofada e entregou-se à planura da cama. Voltava aos sonhos e pensamentos imaginários, sendo-lhe difícil distinguir onde findavam os primeiros e começavam os segundos.
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Foi num dia que começou igual a tantos outros que a sala se encheu de pacotes e caixas de cartão provenientes da fábrica de próteses. Eram as encomendas. O sistema biónico, deslizando sobre as minúsculas rodinhas do suporte de alumínio anodizado, depressa tomou conta dos embrulhos e do seu conteúdo e, nos dias seguintes, o homem ouviu através da porta do quarto, entreaberta, uma série infindável de disparos das pistolas hidráulicas que posicionam, cortam e soldam peças, aspirando excessos e desperdícios. Mas nem estas tarefas executadas pelo avançado sistema biomecânico o removeram da prostração a que se votara. No final dos trabalhos veria que invenções tramavam as suas pernas coadjuvadas pelo fiel braço direito, na posse de tal parafernália.
Uns dias depois terminaram os ruídos e, quando o vulto do sistema biónico regressou ao quarto o homem verificou, estupefacto, que havia agora um ser com cabeça, tronco e o braço, que antes não existiam. O sistema, agora corpo completo e não simplesmente peças num suporte, tomou o seu lugar habitual, encostado à parede, estacionado em posição lateral à cama do homem. Ali, erecto, na obscuridade do quarto, aquele vulto imóvel era estranho, uma presença intimidadora a que não estava habituado.
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Deitado durante longos períodos, sob uma uma débil iluminação, quase residual, o homem ganhara o hábito de interpretar os mais ténues ruídos provenientes do exterior; do trânsito, das intempéries, de um ou outro altifalante anunciador de circo, produtos em saldo ou discursos gravados para ludibriar eleitores. Naquela manhã não foram os ruídos de fora nem os produzidos no interior da habitação que o despertaram. Não foram as lamúrias das suas próteses convidando-o, debalde, para sair, nem o fremir periódico dos transformadores durante as recargas eléctricas, mas sim o silêncio; um pesado silêncio despertara-o do sono leve em que planava. Rodou a cabeça e o olhar não encontrou as próteses, entretanto acrescentadas de restante carcaça humanóide; não estavam ali.
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Depois do corte da energia eléctrica e da linha de comunicações por falta de pagamento, cessaram as entregas domiciliárias, deixara de receber a comida, os jornais semanais que há muito desistira de ler mas continuamente recebera, e até a visita semanal da mulher da limpeza cessara. O quarto estava escuro e frio, muito frio, e o homem não despertava do delírio profundo em que mergulhara. Não acordaria mais.
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Os amigos ficaram entusiasmados com o seu regresso, voltara com boa disposição e ânimo, recuperara a alegria de viver. Saltitando sobre um pé, alternando para o outro, o homem parecia uma criança grande divertindo-se em equilíbrio sobre a beira do passeio empedrado, ou um funâmbulo passeando por corda esticada nas alturas. Prometera participar nas partidas de ténis e até aceitara o convite para um piquenique rural nas cercanias de uma aldeia da região saloia. Os amigos achavam-no um pouco mais alto, mais robusto, espadaúdo como nunca o tinham notado mas, satisfeitos com o retorno do companheiro generoso que tantas rodadas pagava aos confrades, não se importaram com as operações plásticas e acrescentos fisionómicos que pudesse ter feito no período em que se ausentara. Agora estava ali, era um tipo divertido, de humor contagiante, e isso sobrepunha-se a qualquer outro aspecto menos claro.
O homem despediu-se com um largo sorriso, dirigindo-se para a sua nova casa situada no bairro mais dispendioso da vila.
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Nas urgências, deitado sobre uma maca, o homem gemia. Uma das pernas pendia, praticamente decepada pela articulação coxo-femural, apoiada nas mãos do jovem enfermeiro estagiário para que não tombasse no chão. A outra perna jazia deposta ao lado da maca. De uma fractura exposta, num dos braços retorcido para trás, pelo ombro, jorrava sangue mal estancado pelo enfermeiro graduado que competia com outro colega e dois médicos pelo espaço exíguo em torno do homem que se esvaía. Recolhido de um acidente que envolvera o motociclo que pilotava, o homem, em choque, ora gemia de dor ora gritava pelas pernas e pelo braço biónicos, num chamamento pungente a que os profissionais da emergência médica não ligavam, empenhados na contenção das hemorragias que exauriam aquele corpo já meio perdido.

A fotografia, captada em contexto que nada deve ao conteúdo que se apresenta aqui, é usada para representar a evolução rumo ao homem biónico que, para além de “optimizado” nas suas capacidades físicas – não fuma, não ingere álcool e copula agendado – complementa o seu porte físico com apêndices hi-tech, dilatando o seu porte atlético, levando-o a acreditar-se capaz de desafiar Hermes.
Mas notem que é um homem sem cabeça (animal racional superior - entendo que o superlativo é apenas por não existir termo comparativo à altura), pois para coordenar simplesmente o amontoado de músculos, basta um pequeno chip no alto do pescoço. Recusa-se este homem a olhar além do seu corpo, ou de um outro temporariamente adentro do seu espaço vital por razões de prazer ou procriação. E é nessa recusa de sair de si, de pensar e agir, que o homem cede à NÃO CULTURA.
Vem isto a propósito dos inúmeros livros que se publicam neste país, especialmente nesta época, supostamente para que os veraneantes ocupem o intelecto com ARTE (coisas que mudam a mente). Ora, escrever/publicar um livro é um acto de arte, e é um grito de guerra. Porém, tal coisa é impossível num país sem guerreiros. Os que publicam profusamente são, na maioria, gente comatosa, entrincheirada, aprisionada, ou engajada na conservação do statu quo. Um livro, qualquer livro a sério, de fotografia ou um romance, exige inquietude, angústia, raiva, desespero, revolta, ressentimento, temperamento trágico e conhecimento exterior a si. Exige o concurso de todas estas propriedades ou apenas de algumas, mas não seguramente as "qualidades" que escoam das páginas da maioria do que é publicado entre nós. Pura lerdice imprópria para exercitar a inteligência.
A única coisa que por cá se publica é folhetins de passeios de endinheirados meninos de outrora, hoje figuras de ecrãs. Isso, e biografias encomendadas, de putas demandando ajustes de contas. Comparativamente, este segundo tema merece mais crédito, pelos atributos éticos e morais das biografadas, mas não pela qualidade literária dos volumes produzidos.
Cuidem-se, pois, das obscenidades que as editoras apresentam nesta altura e rebusquem nas literaturas de épocas em que existiam escritores – gente que usava a cabeça e não apêndices de carbono –, as obras para vosso deleite intelectual. Fica uma sugestão: “A Derrocada da Baliverna”, de Dino Buzzatti.
A evitar: Reedições de Lobsang Rampa (que estas coisas da terceira visão são viciosas), ou os comoventes moralismos de Paulus Lepus.
Boas Férias.
Não esperava Martim encontrar um ínvido funcionário no estaleiro de Alvor, homem de meia-idade, calvo, de estranho tino e paciência mínima. Que não, que tal reparação nunca poderia ser executada com tal rapidez, argumentava o tonsurado calafate. Que sim, respondia o imberbe marinheiro do escudeiro Eanes, que tal houvera sido combinado uma semana antes entre o seu amo e o mestre do estaleiro. A barca teria de ficar operacional para a empresa que se avizinhava. Era urgente, exclamava o jovem lacobrigense de feição pueril - por vezes enganadora do seu género - ao obstinado alvoreiro.
Descansando da pesada remada que vencera a baía e a corrente do rio, acolhidos na sombra dos decaídos barracos de apetrechos do estaleiro, os oito remadores aguardavam o desenrolar da discussão. Para lá da faixa de sombra projectada no terreiro lamacento, sob a inclemente baforada algarvia do astro rei, fulge o rosto irado do mancebo e rebrilha a calva do recepcionista da instalação náutica. Por esta altura pensarão os remadores que a demanda vai descambar em pancadaria, enquanto deslizam olhares duvidosos na apreciação dos franzinos bicípites do arrais da barca, revelando falta de robustez para brandir convenientemente um remo. A barca assiste, serenamente, ao arrazoado diálogo que o seu mastro partido originou, baloiçando-se, alheada, nas águas cristalinas provenientes da serra de Monchique que ali se caldeiam com as do oceano.
A companha maruja regressa à cidade a pé, depois de franqueada à margem poente da foz alvorina, desviando-se episodicamente do extenso areal da meia praia para breves incursões aos laranjais e vinhas que bordejam a doirada moldura da baía. O jovem ocupa a frente do pelotão, num porte altivo, sacudido apenas quando enterra um dos pés nas areias quentes que a maré alta deixou por caminho, alheio ao chamamento das guloseimas que amiúde experimentou, então à sorrelfa de trabalhos e empenhamentos ordenados pelo seu amo. Segue orgulhoso, brilhando-lhe os olhos esverdeados onde se reflecte, esbatida, a alvura do casario da cidade que se aproxima.
(…)
O senhor Infante está na Vila! E logo tremeram os serventes da sua casa, os gentis-homens e outros destacados cidadãos da urbe, tremendo crianças e mulheres, das virtuosas às toleradas, senhoras, trapeiras, donzelas de coifa ou descabeladas padeiras, tremeram as alimárias citadinas sob a cangalha das bilhas da água que distribuem, agitaram-se as grasnentas gaivotas e, até, os barcos em manobra ou ancorados estremeceram: desamarra-me! Parecia gritar o barinel. -Que quero partir rio baixo, à deriva. Parecia assim, mas não seria apenas singelo baloiçar das águas em correnteza ditada pela estrela lunar?
Imerecido e injusto juízo é o destas fracas gentes acerca deste dignatário da ínclita geração.
(...)
1 – Inicialmente, igual a mil passos, a milha acabou sendo modificada para cerca de três vezes essa distância. A distância a que aludimos não seria superior a 600m.
2 – Crê-se que a barra da ribeira de Bensafrim terá, ao longo da Idade Média e Moderna, alternado a sua localização entre a indicada no texto e a actual, devido a processos de assoreamento e desassoreamento das referidas barras.
Faço poemas como se cuspisse. Ou melhor, como se escarrasse. Com o mesmo desprendimento desse impulso secundário. Fazer poemas, tal como ler ou fotografar, afasta-me do que verdadeiramente gosto, escrever prosa – mordaz, humorística, o drama, ou a ficção – por isso maltrato essas actividades. E toda a gente gosta mais dos meus poemas do que dessa outra escrituração que exercito. Isso ainda me indispõe mais com a escrita poética. Isto vem a propósito de ter escrito isto em cinco minutos, enquanto ia trocando considerações sobre poesia acidental com a Mena G, no messenger.
«... Apesar do seu mester de puta, fora sempre uma mulher temente a Deus, nunca deixando de dar esmolas para a Igreja ou de ir nas procissões de penitentes quando o trabalho lho permitia e, durante os anos de encarceramento nas prisões do Santo Ofício, suplicara em vão por um padre que a ouvisse em confissão, mas tal privilégio era apenas concedido aos moribundos e nem esse parco consolo lograra obter dos inquisidores.
Ao contrário de muitas companheiras de ofício, jamais se entregara a práticas de feitiçaria, nem usara receitas ou filtros para prender um amante, como abafar um peixe vivo na madre e servir-lho cozido, feito de que se gabava a amiga Angustias, amassar e moldar uma broa nas nádegas para lha oferecer acabada de sair do forno, segundo aconselhava a azougada Rosália ou ainda fazer-lhe beber uma mistura do seu próprio sémen com o sangue das suas regras, remédio infalível oferecido pela velha Francisca, de um bordel de Sevilha. Os inquisidores tinham certamente arrancado essas acusações à sua criada, às companheiras daquela noite lhe bastara o seu engenho e arte, além da beleza do rosto e da perfeição do corpo que, para bem e para mal dos seus pecados, lhe pusera aos pés, rendida em carne e espírito e com a bolsa aberta, a realeza de Espanha.
À vista do seu corpo nu, nem mesmo os padres inquisidores que lhe davam os tratos haviam escapado à tentação do desejo e ao pecado da luxúria. Apesar do terror e do sofrimento, não pudera deixar de ver o brilho lascivo dos olhos fugidios, o suor e a vermelhidão dos rostos convulsionados pelo alvoroço do sexo e do sangue, enquanto lhe afastavam as coxas e lhe escanhoavam a sedosa cabeleira entre as pernas, metendo-lhe os dedos brutais na vagina ou usando umas agulhas compridas para lhe esquadrinharem os lábios e o clítoris à procura do estigma maléfico, da marca da feiticeira, quando se inclinavam para lhe perguntar onde tens escondida a Garra do Diabo?, as línguas lambendo os beiços secos da volúpia com que observavam as contorções do seu corpo preso ao potro, arqueando-se a cada volta das cordas que lhe esticavam os braços e as pernas, até os seios parecerem rebentar-lhe no peito e as nádegas e coxas abrirem os seus íntimos, resguardos à concupiscência daquelas naturezas que os hábitos negros, os cilícios e os jejuns não logravam amortalhar: fornicaste com o Demo? praticaste o acto nefando da sodomia?
Não saberia dizer se era o remorso, se o medo do Inferno ou apenas a sua torpe perversidade que levava os padres inquisidores a encarniçarem-se com requintes de pasmosa crueza contras as partes do seu corpo que amantes poetas haviam outrora glorificado em canções e vilancicos já olvidados. Com os ossos quebrados e deformados, violada e sodomizada por toda a sorte de objectos rombos ou cortantes da infernal panóplia dos seus algozes que a rasgavam e mutilavam até à inconsciência da dor, usada e abusada na cela pelos carcereiros e guardas na impunidade da escuridão e do abandono, a sua pele de nácar e rosas tornara-se num pergaminho enrugado por roxas cicatrizes, donde pendiam as pregas dos seios queimados, sem mamilos, e a boca do seu corpo, fonte de desejos e duelos, era agora uma fossa pútrida a destilar venenos.
(...)
Um fio do pálido sol de Dezembro incidia nos cabelos do Desejado, arrancando-lhe fulgores de cobre que lhe manchavam o rosto de uma poeira dourada, acentuando o brilho azulado dos olhos. “Bastião! Bastião!”, gritou Luna Diaz com todas as forças do seu peito, erguendo as mãos para a tribuna, mas o nome que a sua dor soltou e a língua mutilada não pôde articular soou como um ronco animalesco de agonia que fez estremecer de asco el-rei D. Sebastião.»
“D. Sebastião e o Vidente”, de Deana Barroqueiro, Porto Editora 2006