Geração à Rasca (texto anónimo 2011)

«Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras.»


Existe uma geração à rasca? Existe mais do que uma! Certamente! Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes as agruras da vida. Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar com frustrações. A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também estão) à rasca são os que mais tiveram tudo. Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.

Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a minha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos) vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós 1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor. Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos…), mas também lhes deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de diversão, cartas de condução e 1º automóvel, depósitos de combustível cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada. Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado com que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes.

Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego, … A vaquinha emagreceu, feneceu, secou. Foi então que os pais ficaram à rasca. Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde não se entra à borla nem se consome fiado. Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar a pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a pais. São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade, nem dos qualquercoisaphones ou pads, sempre de última geração.

São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter de dizer “não”. É um “não” que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas, porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem, querem o que já ninguém lhes pode dar! A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo menos duas décadas. Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados.

Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na proporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com que o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade operacional. Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em sítio nenhum. Uma geração que tem acesso a informação sem que isso signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere. 

Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que este, num tempo em que nem um nem outro abundam.

Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras. Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável. Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada. Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o desespero alheio.

Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e inteligência nesta geração? Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos! Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e nem são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como todos nós). Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados académicos, porque, que inveja!, que chatice!, são betinhos, cromos que só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e, oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a subir na vida.

E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares a que alguns acham ter direito e que pelos vistos – e a acreditar no que ultimamente ouvimos de algumas almas – ocupamos injusta, imerecida e indevidamente?! Novos e velhos, todos estamos à rasca.

Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens. Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme convicção de que a culpa não é deles. A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nem fazer melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, e a sociedade não consegue, não quer, não pode assumi-la. Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam. Haverá mais triste prova do nosso falhanço?

Pode ser que tudo isto não passe de alarmismo, de um exagero meu, de uma generalização injusta. Pode ser que nada/ninguém seja assim.

(Texto publicado em 2011, de autoria desconhecida, falsamente atribuído a Mia Couto, e facilmente perceptível que o criativo escritor, engajado na corrente da ilusão poética, nunca o escreveria por se tratar de um texto demasiado realista)

a agenda imbecil dos manifestantes




Contra todos os iconoclasmas
Vítor Serrão

A violência contra as obras de arte é sempre um acto fascista, sejam quais forem as razões invocadas ou as bandeiras que se desfraldem para o levar à prática.
13 de Junho de 2020, 0:00

Alegadamente ligadas a manifestações de apoio ao esclavagismo, ao colonialismo, ao suprematismo branco e a outras formas de ignominiosa opressão, tanto na Virgínia como em Antuérpia, em Hamilton, em Lisboa, e em outras cidades do mundo, na sequência dos justos protestos contra o bárbaro assassinato do afro-americano George Floyd em Minnesota, veio pôr a nu uma velha questão com que a humanidade se confronta desde que existem registos históricos: a vandalização de monumentos que em algum momento passaram a ser vistos como símbolos nefastos por parte de determinadas dinâmicas políticas, sociais, religiosas, ou de defesa de um gosto preestabelecido.

O tema é antigo e sempre perigosamente recorrente, mostrando à saciedade quão acéfalo é o pendor dos homens para a violência gratuita e quão frágeis para lhe resistir são as obras de arte e os monumentos da História – sempre, nesse contexto, as primeiras vítimas a tombar. O recente livro de Éric Vuillard A Guerra dos Pobres, centrado nas revoltas camponesas na Alemanha no tempo da Reforma protestante, e na sua subsequente e violentíssima repressão, mostra bem como o ódio contra tudo o que possa ser considerado diferente alimenta as ondas de iconoclasma. Em nome da fé, em nome de Deus, em nome dos poderes instituídos, em nome de direitos ditos inalienáveis, mataram-se povos inteiros e destruíram-se patrimónios civilizacionais inestimáveis. Foi assim, mas parece que esquecemos.

A História da Arte, a museologia e as Ciências do Património têm justamente contribuído para fortalecer essa consciência de pertença. Recorro às sábias palavras do discurso de José Tolentino de Mendonça no Dia de Camões e das Comunidades e cujo sentido é mais ou menos este: a raiz da civilização é a comunidade, e o seu fermento é a cultura partilhada. Como diz o poeta, “é na comunidade que a nossa história começa, quando do eu fomos capazes de passar ao nós e de dar a este uma determinada configuração histórica, espiritual e ética”. Com máximo propósito, estas palavras ganham sentido face aos actos de violência contra obras de arte – os monumentos públicos, as estátuas e os memoriais – que, nos últimos dias, se têm multiplicado em várias cidades do nosso planeta, e também em Portugal, na onda dos sentidos protestos contra a repressão xenófoba nos EUA.

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Ora o repúdio mais que legítimo por tais actos, bem como por outras ignomínias que se praticam contra a raça, a classe social, a religião, a língua ou a cultura daqueles que são vistos como “os outros”, destruindo os seus símbolos de identidade cultural e patrimonial, não pode em nenhuma circunstância justificar respostas onde também o recurso à iconoclastia faz parte da agenda de protesto  Quando as coisas assim se confundem, que capital de esperança sobra para a grande massa de mulheres e homens conscientes e consequentes, que vêem no farol da Cultura o seu campo de afirmação identitária ? O iconoclasma é sempre um acto inadmissível, e não se resume naturalmente aos atentados do Daesh, ou dos talibans, contra museus, monumentos e demais patrimónios da humanidade, pois se alarga às atrocidades dos senhores do mundo nas guerras de cobiça contra populações inteiras para pilhagem e controle dos seus recursos.


Tal como essas acções à margem dos mais elementares princípios éticos, também a violência contra as obras de arte é sempre um acto fascista, sejam quais forem as razões invocadas ou as bandeiras que se desfraldem para o levar à prática. Chamar às obras de arte “degeneradas” (como fazia Goebbels na tristemente célebre exposição de Munique em 1937) ou “contaminadas” (como a historiografia de arte do Estado Novo chamava às artes miscigenadas no contexto da colonização e do império) foi sempre, como se recorda, linguagem dos totalitarismos e justificação para todos os actos suprematistas contra a afirmação cultural “subdesenvolvida”.

Ora tal argumentação anti-patrimonial e cunho suprematista não poderá em nenhuma circunstância, por acrescidas razões, ser tomada como arma dos que justamente se revoltam em nome de princípios de igualitarismo e justiça social... Como historiador de arte que sou, admito que se retirem obras de arte, por razões estéticas ou simbólicas (e quantas o não foram ao longo da História!), resguardadas em museus ou deslocalizadas da sua função gratulatória primeva, mas nunca posso tolerar que essas mesmas peças e monumentos se brutalizem, ou destruam! Na triste saga a que assistimos por causa da vandalização da estátua do Padre António Vieira, no Largo da Misericórdia, não existe fronteira que branqueie radicalismos, consoante a tonalidade ideológica, sabendo-se que, à espreita, temos os extremistas de direita, sempre ávidos de usar – pelas piores razões – situações como estas em seu proveito...

Pergunto: não aprendemos nós todos com a História? Parece que não sabemos, mas devíamos saber, que todas as obras de arte (independentemente da sua maior ou menor qualidade estética) são sempre trans-contextuais e, mais!, estão isentas de culpa pelos desmandos da cegueira humana. Vamos retirar de exposição pública no Metropolitan Museum de Nova Iorque o excepcional retrato do Cardeal Fernando Niño de Guevara, pintado por El Greco (c. 1600), porque o retratado é uma figura infame, responsável por inúmeras fogueiras inquisitoriais, coisa que aliás o próprio pintor bem sabia, deixando na tela a impressão da sua antipatia pelo modelo? Ora as obras de arte não se confundem nem esgotam nos temas que representam! Elas são permanentemente trans-contemporâneas e assim desfilam diante dos nossos olhares como um permanente e renovado desafio à percepção, à sensibilidade, à inteligência e aos novos saberes.

No excelente discurso que proferiu na cerimónia do Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades, Tolentino de Mendonça lembrou uma parábola que atribuiu à antropóloga e activista social Margaret Mead (1901-1978) para nos confrontar com os males maiores do nosso tempo: a cobiça e o egoísmo, parceiros da incultura e, como tal, antíteses da fraternidade. A parábola, creio, diz-nos diz tudo aquilo que o conceito de Comunidade encerra: “Um estudante teria perguntado a Margaret Mead qual seria para ela o primeiro sinal de civilização. E a expectativa geral é que nomeasse, por exemplo, os primeiríssimos instrumentos de caça, as pedras de amolar ou os ancestrais recipientes de barro. Mas a antropóloga surpreendeu a todos, identificando como primeiro vestígio de civilização um fémur quebrado e cicatrizado. No reino animal, um ser ferido está automaticamente condenado à morte, pois fica fatalmente desprotegido face aos perigos e deixa de se poder alimentar a si próprio.

Que um fémur humano se tenha quebrado e restabelecido documenta a emergência de um momento completamente novo: quer dizer que uma pessoa não foi deixada para trás, sozinha; que alguém a acompanhou na sua fragilidade, dedicou-se a ela, oferecendo-lhe o cuidado necessário e garantindo a sua segurança, até que recuperasse. A raiz da civilização é, por isso, a comunidade. É na comunidade que a nossa história começa.”

As obras de arte – todas elas – contribuem para esta configuração histórica, cultural, espiritual e ética do mundo. Não só o mundo em que foram produzidas e vivenciadas, mas também os mundos que se seguiram, e o mundo actual, em que essas mesmas obras continuam a ser vistas, quanto mais não seja como testemunho vivo de uma História comum.

Sim, as obras de arte, porque social e ideologicamente comprometidas, dão sempre testemunho e suscitam debate, seja no espaço público, no museu, no edifício religioso ou civil onde se exponham aos olhares de ontem, de hoje e de amanhã. É uma experiência dialogal de afectos, capaz de subverter o silêncio terrível que habita o coração dos homens e de impactar o imperioso abraço solidário por que todos ansiamos. Neste diálogo estético e afectivo não pode haver lugar para a vandalização e a destruição.

https://www.publico.pt/2020/06/13/opiniao/opiniao/iconoclasmas-1920437

Yin Yang?

Como funcionário público ficava-me bem votar PS, BE ou PCP, mas assim que ligo o cérebro reconheço que o mais próximo daquilo que acho correcto é defendido pelo Iniciativa Liberal.
A grande dúvida é se devo desligar o cérebro ou deixá-lo ligado; mesmo sabendo que na verdade não fará qualquer diferença na sociedade.
Ligado, alimento a consciência; desligado, alimento o corpo. Divido-me assim, naturalmente, na eterna dualidade entre espírito e matéria, entre Yin e Yang, e cavalgo o paradoxo de não ser uma coisa nem outra, de não escolher uma coisa ou outra, penando nessa terra de ninguém que existe entre os opostos, por recusar alimentar o crescente maniqueísmo em que o mundo de hoje se vai precipitando.​ Por isso, o boletim de voto não pode exprimir o que desejo.


Não gosto de nenhum, mas não deixa de ser curiosa esta apreciação superficial da realidade
Lá por falar bem (se é que fala), não quer dizer que diga verdades.
Mais uma apreciação curiosa e superficial da realidade.


Do Pensar ao Agir





Do Pensar ao Agir
Ninguém morre afogado ao cair ao mar; morre afogado se lá ficar.

O rumo viável para a sociedade hodierna é o da melhoria e aperfeiçoamento constantes através de reformas permanentes e consecutivas dos instrumentos, dos mecanismos e das instituições das sociedades democráticas que conhecemos, sabendo-as imperfeitas e muito deficitárias em vários aspectos.

A caminhada é árdua e cheia de escolhos, mas sempre assim foi ao longo da História. História em que os humanos tiveram de enfrentar uma Natureza que não facilitou subsistência, que não se criou à medida da humanidade, que teve, portanto, de ser domada e conquistada. Desafios em que os grupos tiveram, também, de enfrentar comunidades concorrentes, por vezes até à aniquilação do outro. E hoje, o desafio maior que se coloca exige que a civilização corrija a sua actuação global sob pena de comprometer irremediavelmente a sustentabilidade do planeta.

Ora, essa mesma História também ensina que as alternativas aos modelos democráticos conduzem a formas opressivas e totalitárias que suprimem todas as liberdades individuais e condicionam gravemente as liberdades colectivas. Afastando-se, portanto, dos ideais e valores do Humanismo e da Razão tão trabalhosamente conquistados e adoptados pela epopeia civilizacional edificadora de um racionalismo ético e moral.

Resta-nos, pois, esse caminho truculento de azedumes, irritações, gritarias, e das estultícias que bastas vezes enlameiam o concurso da inteligência; a par dessa caminhada desejável, mais ou menos harmoniosa, mais ou menos progressista, mais ou menos pacífica. É assim, naturalmente.

É assim, mas é difícil de compreender pela maioria das pessoas que, habituadas às facilidades e comodidades de 70 anos de paz e prosperidade (pelo menos em grande parte do mundo ocidental), não aceitam as fraquezas da vida em democracia, falhas protagonizadas por toda a sorte de oportunistas e trambiqueiros, pela cobiça e ganancia dos que procuram o lucro e a riqueza desmesurada, o brilho dos metais preciosas e das enganadoras lantejoulas, a fama e o reconhecimento público da sua identidade e da sua vaidade.

Porém, não há alternativa aceitável a esta luta constante, a este esgrimir permanente da paciência e da lucidez. A História mostrou-o repetidamente; as experiências alternativas resultaram sempre em pesado sofrimento e brutal aniquilação de milhões de seres humanos.

Se o que temos não é perfeito, então aperfeiçoemos. Não existe nenhuma democracia perfeita, e a alternativa à democracia será sempre algo muito pior. Se Pensar é relativamente fácil, já a acção poderá ser mais difícil. Porém, há algo muito importante a dizer sobre o Agir: Toda a mudança que se deseja tem de começar dentro de nós.

F. Castelo
2020.04.28

riquezas e pobrezas

Esses ignorantes que andam por aí a publicar panegíricos a um Portugal riquíssimo que tem tudo, mas mal-aproveitado, deviam começar por constatar que nunca fomos um país rico, nem sequer um território com aptidão agrícola. Com excepção da pequena faixa das lezírias ribatejanas tudo o resto é uma pobreza franciscana. E o artigo abaixo também refere isso.

O braço longo da História
M. Fátima Bonifácio – Historiadora - 22 de Abril de 2020 – Jornal Público

Na UE, a cisão Norte/Sul, patente nas crises de 2007-8 e na actual tremenda crise do coronavírus, não deriva da petulância “repugnante” do ministro holandês nem da falta de caridade da Senhora Merkel. Tal cisão tem raízes ancestrais e, de certo modo, naturais.

Europa do Norte e Europa do Sul: duas Europas que se defrontam em época de crise. Foi assim em 2007/08. Volta a ser assim em 2020. Não. Não é por causa da Senhora Merkel e dos alemães; não é por causa dos holandeses e do seu “repugnante” ministro das Finanças que actualmente representa a Holanda no Eurogrupo. Ou melhor, será por causa disto tudo e mais alguma coisa, mas a cisão da Europa entre Norte e Sul tem raízes seculares.

Há muitos e muitos anos, há décadas, aprendi com Marc Bloch que o rio Loire, que atravessa a França de Leste a Oeste – nasce no Sul, próximo de Grenoble, mas rapidamente sobe até Orléans, vira a 90 graus para o Oeste e desagua no Atlântico –, era um separador entre duas civilizações agrárias. Esta separação residia numa diferença decisiva do tipo de solo agrícola: a Norte do Loire, a terra era úbere, pesada e húmida; a Sul, e até ao Mediterrâneo, era seca, leve, arenosa e cheia de pedregulhos. Este facto geológico determinou destinos diferentes. Os terrenos nortenhos eram mais produtivos, mais férteis e, sobretudo, mais propícios à cultura cerealífera; os terrenos do Sul eram áridos, avaros, pouco produtivos e próprios para arbustos ou algumas árvores como as oliveiras ou os sobreiros; eram terrenos onde a cultura cerealífera não florescia. Naquela época, em que a fecundidade da agricultura era determinante da riqueza ou da pobreza, o Norte já era mais rico do que o Sul.

Esta imensa brecha geológica, que, só por si, garantiria ao Norte um retorno agrícola mais farto, determinou opções técnicas que ditaram formas de organização social diversas. Estamos algures no século XIV, que apropriadamente foi canonizado como a primeira revolução agrícola da nossa era. A Norte do rio Loire, foi introduzida a charrua como instrumento de arar: o solo, pesado e húmido, como se disse, era maleável, adaptava-se bem às passagens, repassagens e revolvimento da terra, destinados a promover a sua fecundidade; sobretudo, as charruas, puxadas a bois ou a cavalos, aliviavam o esforço humano e não exigiam uma perícia por aí além.

Mas as charruas não eram um instrumento ideal para os solos mediterrânicos, a Sul do Loire, secos, arenosos e pedregosos. Aqui, o antigo arado exigia mãos muito treinadas para o fazer sulcar a terra com a profundidade requerida. Era esta uma técnica muito apurada por gerações e gerações de camponeses, transmitida através das famílias. Era uma técnica que requeria uma perícia particular, aprendida por tradição familiar; era uma técnica que não se coadunava com a impreparação de trabalhadores assalariados desprovidos do treino minucioso requerido pelo tradicional arado. Aqui, no Sul, a lavra da terra era um encargo da família, iniciada nas técnicas antigas; no Norte, a família também contava, mas a charrua facilitava a contratação de leigos desconhecedores dos segredos que presidiam à condução hábil e eficaz de um arado.

Não admira, pois, que a rotação trienal das culturas, a revolução agrícola que aumentou exponencialmente a produtividade da terra, tenha desde cedo sido introduzida e implementada no Norte, enquanto no Sul se prolongava a rotineira rotação bianual: metade dos solos permanecia todos os anos em pousio, um método primitivo de regenerar a terra. No Norte, o pousio afectava apenas um terço das terras aráveis, e os camponeses nortenhos não tardaram a descobrir que a plantação de forragens para o gado proporcionava uma dupla vantagem: tais plantações eram mais eficazes do ponto de vista da regeneração do solo, ao mesmo tempo que forneciam farto alimento para os gados. O Sul ficou para trás e continuou a ficar para trás: a revolução agrícola do século XVII-XVIII, de que a Inglaterra foi pioneira, viabilizada pela delimitação física (“enclosures”) da propriedade de cada um, corroeu ou mesmo destruiu a coesão da comunidade rural das aldeias, com as suas regras e preceitos, abrindo espaço à livre iniciativa e criatividade de cada um. O individualismo penetrou no mundo rural. Os terrenos comunitários não desapareceram, mas viram-se, tal como as pastagens comuns, drasticamente cerceados.

Para perceber o choque entre duas europas, uma do Norte e outra do Sul, é preciso olhar até onde chega o braço longo da História. No próximo Conselho Europeu de 23 de Abril, logo veremos se a União Europeia se deixa abraçar pelo grande urso da História

O Sul só muito superficialmente partilhou da revolução agrícola do século XVII-XVIII, intimamente ligada à revolução industrial, de que mais uma vez a Inglaterra foi a pioneira. A transformação do mundo rural libertou mão-de-obra para as novas manufacturas e as novíssimas fábricas. Em Portugal, no século XIX, o sistemático deficit cerealífero foi uma constante aflição dos governantes: o Alentejo latifundiário não produzia pão suficiente. Salazar sonhou com a auto-suficiência cerealífera de Portugal, elegendo – sem nenhuma originalidade – o Alentejo como o grande celeiro nacional. Até que se percebeu, há não tanto tempo como isso, que o Alentejo, além da tradicional cortiça, era uma terra de vinho e azeite. Tendo ficado para trás na agricultura, Portugal também ficou para trás na indústria em geral. Nunca tivemos, verdadeiramente, uma revolução industrial: passámos (quase) directamente da agricultura para os serviços.

Na UE, a cisão Norte/Sul, patente nas crises de 2007-8 e na actual tremenda crise do coronavírus, não deriva da petulância “repugnante” do ministro holandês; nem da falta de caridade da Senhora Merkel. Tal cisão tem raízes ancestrais e, de certo modo, naturais. Para perceber o choque entre duas Europas, uma do Norte e outra do Sul, é preciso olhar até onde chega o braço longo da História. No próximo Conselho Europeu de 23 de Abril, logo veremos se a União Europeia se deixa abraçar pelo grande urso da História.



Mensagem a alguém que irá partir.



Diz-me o vento Norte que irás partir. E não o posso impedir. 

Se assim for, resta-me guardar uma subtil e inconformada tristeza, mas também recordações boas que apaziguarão o profundo despeito pela má-sorte que te leva para longe, demasiado longe. Cada amigo/a que parte é um bocado de nós que se vai.

Um simples pensamento me abranda a revolta visceral por essa partida imposta: o de que não importa grandemente que mais uma estrela se afaste para medonha e inalcançável distância porque na verdade ela continuará a brilhar no meu firmamento.

Mas uma despedida é sempre coisa dolorosa pois as vidas estão ligadas por fios invisíveis que em certos momentos se sentem, como quando alguém se aparta bruscamente; são fios como os da teia de aranha que vibram à menor agitação e que nos fazem vibrar em uníssono.

Sinto vividas mil vidas antes desta, provavelmente em muitas delas nos encontrámos e despedimos, quer por motivos idênticos ou outros muito diferentes; e tudo isso significa que um adeus é simultaneamente o adeus repetido nos últimos milhares de anos e um até logo, prelúdio de um novo recomeço.

Paz e Serenidade rumo ao Uno de onde tudo flui e onde tudo regressa.


O Terramoto de Agadir aconteceu há 60 anos

Sismo de Agadir
Foi na noite de 29 de Fevereiro de 1960; cumpria-se o Ramadão e, numa fracção de segundo, um poderoso terramoto varreu a cidade de Agadir. 

O telúrico abalo fatal deixou cerca de quinze mil mortos e dezenas de milhares de feridos. Entre eles também estavam algarvios, daqueles que atravessavam as 200 milhas náuticas (Faro-Casablanca) apenas por alguns meses, outros por alguns anos, e outros ainda para a vida inteira. Desde os anos 30 e até aos anos 70 os algarvios estabeleciam-se em Kenitra, Rabat, Casablanca, Safi e Agadir. Elas trabalhavam nas fábricas de conservas e eles nos barcos de pesca e nas armações do atum.

Naquela fatídica noite de 29 de Fevereiro a intensidade do sismo foi apenas de 5,7 na escala de Richter mas, por a cidade se situar exactamente sobre a falha geológica, a destruição foi extremamente severa. Testemunhos da altura falam de pânico nas ruas, cadáveres amontoados, salvamentos miraculosos, actos de heroísmo, mas também violência e pilhagens. 

Foi há 60 anos, e o resultado daquele impressionante cataclismo levou à adopção de novas normas de construção anti-sismica, inclusivamente em Portugal.

Referencio esta efeméride porque é uma história duplamente ligada ao Algarve, não  apenas pelos algarvios que lá trabalhavam e morreram, ficaram feridos ou incólumes mas viveram para contar a história (e lembro-me dos mais velhos de Olhão contarem que a terra se rasgara abrindo-se para engolir casas e pessoas, e que assim desapareceram os vizinhos fulano e sicrano), mas também porque ambos os países se localizam na margem da placa euro-asiática, partilhando as vicissitudes daqueles acidentes geofísicos que de tempos a tempos nos abalam duramente.


Agadir hoje


A cor da bola


Está aí a nova “inflamação” social. Milhares de pessoas escandalizadas com o fenómeno do racismo no Futebol. Provavelmente, a esmagadora maioria desta gente não se pronunciou antes, escandalizada com o facto de o Futebol constituir um valhacouto da violência - nem só verbal -, e onde todo o tipo de insultos e ofensas acontece repetidamente sem suscitar alvoroço.

Quero lá saber desta inflamação momentânea acerca do suposto insulto racista; insulto é insulto, seja qual for a sua natureza. Mas percebo que o anti-racismo está na moda, muito mais do que o racismo. Um maná para jornais e televisões.

Decorreu por aí uma campanha televisiva (de louvar) em que os filhos repreendem os comportamentos violentos dos pais; e até há um dirigente clubista que pretende escorraçar elementos “animalescos” das claques do seu clube (ainda será rematado para fora das linhas por ter dividido o clube!); e por aqui ficamos.

É óbvio que o discurso geral é sempre contra tais manifestações de agressividade e ódio, mas, e os actos?! Independentemente daquilo que discursam, todos os que apoiam e aplaudem o Futebol alimentam este fenómeno. Ora, experimentem lá fazer uma greve ao Futebol.

Se nunca me interessei grandemente por este showbiz (actividade que de Desporto não tem nada), nos últimos anos afastei-me completamente. Não dou para essa cloaca onde desemboca tudo, inclusive o pior que a sociedade tem – manifestado em comportamentos de manada, animalescos e irracionais – e que essa sociedade não mostra intenções de alterar.

«O Fernando [Peyroteo] havia de corar de vergonha se pudesse ver que o futebol dos golos e da festa se transformou num pântano de corruptos, onde não há decência nem decoro e de onde fogem todas as pessoas de bem. O mundo dos clubes portugueses de futebol é um triste palco voyeurista, metade "Casa dos segredos", metade dança do varão, onde os atores - dirigentes, assessores, árbitros, comentadores, juízes e todos aqueles sem talento a quem as televisões oferecem visibilidade à troca de audiências sem valor - representam o pior da nossa sociedade.» José Manuel Diogo in JN Março 2018

Lagos - 447 anos de elevação a cidade

gravura de Lagos no séc XVIII

Numa das suas visitas a esta vila, D. sebastião decidiu elevá-la a cidade, o que aconteceu no dia 27 de janeiro de 1573.

«Dom Henrique, (…) a quantos esta minha carta virem, faço saber que por ser certificado que o senhor rei meu sobrinho que Deus tem, vendo a vila de Lagos muito acrescentada em povoação e enobrecida por onde bem merecia ser cidade, havendo a isso respeito e aos muitos serviços que dos moradores da dita vila tinha recebido assim nos socorros e provimentos das armadas quando ao porto da dita vila como em outros serviços em que sempre o servirão e aos reis destes reinos como bons e leais vassalos e que tendo muito certo que sendo feita cidade e tendo os privilégios e liberdades que têm as outras cidades dos ditos reinos ainda seria muito mais nobrecida e receberia dos moradores dela muitos mais serviços. E querendo acrescentar assim por os ditos serviços que tinha recebido como pelos que ao diante esperava receber e por lhes fazer mercê de seu próprio mote certa ciência poder real e absoluto sem eles lho requerendo nem outros por eles, ouve por bem de a fazer cidade a 27 de janeiro de 1573. Dada em Lisboa, aos 19 dias do mês de março. Pedro de Seixas a fez. Ano do nascimento de nosso Senhor Jesus Cristo de 1579».

Drogas. A morte em vida

+ 2020.01.16
A Dora Isabel da Piedade não faleceu naquele dia 9 de Outubro de 2019, ao contrário do que me fora dito por familiares que habitam no nosso Bairro. E, portanto, o texto que redigi naquele dia foi um obituário antecipado; uma antecipação de 99 dias… ou talvez não! Ao invés, terá sido, sim, um obituário manifestamente atardado.
Nesse texto (abaixo reproduzido), que provocou alguma celeuma junto da merdaleja - gente ociosa de parapeito de janela, W7, W10 ou iPhone; e gente vácua que não liga o cérebro antes de abrir a boca - denunciava eu que a Dora já tinha morrido há muito tempo embora o seu espectro ainda caminhasse entre nós.
E quantos outros passam assim, diariamente, por nós e pela nossa disfarçada indiferença?
F. Castelo /2020.01.17


Drogas, a morte em vida

As drogas não trazem a morte, elas são a morte. E a pior morte é a que um indivíduo experimenta em vida.
Quantos, no passado, subjugados à escravidão, à tirania da ganância de outros, atravessaram a vida já mortos, despojados do mínimo laivo de liberdade e dignidade?!
Igualmente subjugados a uma escravidão, não imposta por terceiros mas resultante, sim, do seu livre-arbítrio, quantos desbarataram e desbaratam a sua vida, entregando-se aos enganadores prazeres da droga que vende uma falsa alegria, um prazer efêmero de episódica embriaguez dos sentidos, incapacitando-os de desfrutar das possibilidades que a vida disponibiliza?!
Num mundo complexo e competitivo, pejado de dificuldades e falsidades, os fracos baixam os braços e apontam as complicações e os conflitos como desculpas para embarcar num suposto modo de vida “alternativo”, “embriagante”, “redentor”, trocando a liberdade potencial que poderiam construir para si, por efémeros e enganadores prazeres.
Incapazes de fazer escolhas e, consequentemente, incapazes de controlar a sua existência, os fracos transformam-se em pessoas compulsivas, eternamente dependentes daquele vício que, amiudadamente, experimentaram inicialmente apenas por curiosidade, mas ao qual ficaram agarrados para sempre.
E justificam a si próprios o que fazem, em função daquilo que sentem sob o efeito ilusório das drogas.
Frequentemente, julgam, e dizem, que ninguém tem nada a ver com as suas vidas e com o rumo que escolheram para elas; logo aí começam a experimentar um dos maiores malefícios que a droga traz, o isolamento, e daí iniciam a caminhada vertiginosa rumo ao fim.
E a comunidade não consegue evitar isto. Ajuda no que pode e quando pode mas não evita estas mortes em vida de vidas que quando terminam, apenas formalizam o óbito.
A Dora faleceu hoje. Lá onde estiver, se tal sítio existir, esperemos que não chegue a acção gananciosa dos traficantes, e que finalmente encontre a serenidade que em vida não teve.
F. Castelo / 2019.10.09



Reflexos do passado no futuro

Imagem picada da Net


Reflexos do passado no futuro
Francisco Castelo 2019.09.08

Foi preciso esperar pelo final do século XX para que a fotografia alcançasse o estatuto pleno de documento histórico. Mas hoje, para os historiadores, a fotografia é um testemunho fiável na explicação de factos do passado, quer na dimensão individual quer social.

Por outro lado, sem as fotografias do velho álbum de família ou os retratos tipo passe dos cartões da escola ou do clube, ninguém consegue lembrar com clareza as suas feições de infância. É um facto.
A ideia poética de que a fotografia congelava um instante da vida que se eternizaria é agora posta em causa pelos milhões de fotografias que se fazem a cada momento e se armazenam nos mais variados suportes digitais, porque, simultaneamente, esta facilidade imensa de gerar imagens transformou a Fotografia em algo facilmente descartável.

Na verdade, as imagens digitais que hoje produzimos são arriscadamente provisórias, porque são de natureza volátil - um aglomerado de impulsos electromagnéticos - e, principalmente, porque raramente garantimos o seu correcto arquivamento.

Estamos, portanto, perante uma conjuntura cultural que produz registos imagéticos impermanentes, o que nos leva a considerar que muitas dessas “memórias visuais” não chegarão a um futuro distante. Isto é grave, pois aprendemos, há muito, que a imagem é um testemunho de algo que foi e, consequentemente, uma memória válida do nosso passado.

A fotografia como parte do acervo cultural de uma sociedade transporta significados culturais, políticos, ideológicos, etc. mas as condições em que cada fotografia foi realizada expressam sentidos e motivações dos seus actores: desde logo a perspectiva do próprio fotógrafo e, frequentemente, a perspectiva do patrono do seu trabalho, pelo que é sempre discutível a tentativa de tradução de uma época, ou de uma ideia, a partir de fotografias.

E por isso, o discurso que cada fotografia carrega pode e deve ser questionado, tal como acontece com os outros documentos históricos. A fotografia não é detentora da verdade; ela não revela as coisas como são, mas tão somente concepções e mensagens que queremos produzir de uma determinada forma, subjectiva, e que achamos mais adequada. Na verdade, a fotografia não é uma reprodução da realidade mas apenas uma representação dessa realidade.

No entanto as fotografias continuam a ser um instrumento da memória pessoal, e até colectiva, ainda que, naturalmente, sejam manipuladas de acordo com os nossos gostos e interesses pessoais.

Sendo a Fotografia a mais fiel forma visual de registar a realidade, tendemos a aceitá-la como reprodução dessa realidade, e nisso reside um dos seus maiores valores. O problema é que já não podemos esperar que as imagens que produzimos hoje vão perdurar no futuro; e se não perdurarem o que espera cada indivíduo que perdeu os retratos de si próprio, é o total oblívio. Dele se esquecerão rapidamente os netos, e dele nunca se lembrarão os bisnetos. Desse sujeito que vai ser esquecido não me refiro apenas à imagem do seu rosto, mas uma memória mais abrangente e complexa que remete e evoca o seu tempo e o seu protagonismo na marcha da sua família, da sua comunidade e, consequentemente, no devir da sociedade em geral.

E se esse esquecimento é o resultado a nível pessoal/individual, coisa idêntica acontecerá a nível social pois enormes serão os lapsos, as fendas abertas, nas memórias das comunidades. Sem imagens do passado - mais ou menos recente é indiferente -, perde-se uma parte da história individual e colectiva; perde-se memória. Ora, um indivíduo sem memória é um indivíduo sem passado. E o mesmo poderemos dizer de uma sociedade. E uma sociedade sem consciência do seu passado é uma sociedade que repete, eternamente, os mais grosseiros erros.

Temo que daqui a 50 anos seja mais fácil recordar visualmente as primeiras décadas do século XX do que as primeiras décadas do século XXI.

Gravar em vários e diferentes suportes (digitais e físicos) as imagens que hoje produzimos, é uma forma de fazer perdurar essas memórias visuais. Garantir a sua longevidade e tratá-las como herança que deve ser preservada pelas gerações seguintes é a única garantia de perenidade de uma parte daquilo que fomos e fizemos na vida – uma parte que poderá ser bastante para conhecer o passado. Uma parte que poderá enformar uma importante diferença na marcha das sociedades e da espécie humana

Verão Cherry


O meu Verão chegou hoje, e com ele o calor incómodo que não deixa dormir.

Cereja, o tanas.
Se há coisa de que nunca gostei é dessa invenção tomatal que dá pelo nome de Cherry. Logo, porque é um nome meio abichanado, soa a chérie, e enganador pois trata-se de um tomate e não de uma cereja (cherry); um frutinhozinho enfezado e distante do verdadeiro tomate másculo das hortas portuguesas, daqueles que enchem as mãos e o estômago quando seccionados pelo equador, exibindo o corte dos hemisférios prontamente polvilhados com sal grosso e devidamente esfregados um no outro para entranhar na polpa vermelha os cristais do maravilhoso cloreto de sódio.
Cherry é nome de gato de companhia ou bombom licoroso mas nunca nome de um fruto nobre que há séculos providencia a alimentação de verdadeira gente de trabalho. Para uns é legume para outros hortaliça, mas todos conhecemos pela simples designação de TOMATE.
Tomate Cherry é coisa pindérica citadina para alimento de cús finos. Acresce que aquelas ridículas bolinhas vermelhas lembram as respectivas do azevinho, não comestíveis, e apenas colhidas para uso decorativo. E o sabor? Que dizer do sabor, ou da ausência dele naqueles minúsculos pseudo-tomates? Que regressem ao bonsai de onde foram colhidos porque não são tomates dignos de homens com “t” grande, caramba.

Nua(s)
Olhavam uma para a outra indecisas: - Tu primeiro.
– Não, não; tu primeiro! Retorquiu a outra.
O impasse haveria de chegar ao fim pelo que não prolongo a narrativa descrevendo o tempo decorrido e o diálogo lacónico que o preencheu.
A primeira despiu-se toda e a expressão apreensiva inicial foi dando lugar a um sorriso em crescendo suscitado pela nova sensação de “liberdade”.
A outra já se preparava para seguir o exemplo, rendida à concretização da velha aspiração de se libertar da incómoda pele, quando a primeira foi bruscamente agarrada e, num ápice, devorada. A segunda banana teve idêntico destino, claro.

Astronauta e Cª.
- Quando for grande quero ser marinheiro, astronauta, cozinheiro…
- ERRO! ERRO, PUTO! Porque raio queres ser isso quando fores grande? É em pequeno que se deve querer tais coisas, afinal de contas quer o navio, a nave espacial ou a cozinha têm mais espaço para explorar. Sendo grande, quere-se é uma enorme espreguiçadeira onde recordar as explorações feitas em pequeno.

Tomate Cherry é que não.

da viperina boçal



A víbora com cabeça de galinha afastara-se um pouco, esperando que ele seguisse a tonta da amiga que anunciara a ida ao multibanco mais próximo e se despedira dele com um inusitado ósculo, supostamente provocador. 

E ele, estupefacto, hesitava acreditar que o julgassem assim tão ingénuo e tolo, incapaz de perceber o enrolo que as estúpidas mulheres desenhavam. 
Que mongas!

Espaço Pessoal


Espaço Pessoal




“Subtil como um paquiderme” é a definição que elegi há muitos anos para designar os desastrados e particularmente aquelas pessoas “chatas” que se colocam praticamente sobre nós, procurando falar a curta distância do nosso rosto e que, por vezes, ainda exageram essa violação do espaço pessoal, segurando-nos o braço. Quando este espaço é invadido, sem permissão, geralmente reagimos através de comportamentos não-verbais. O corpo discursa, contorce-se, procura esquivar-se da intrusão.

Aos homens que assim agem sempre me apeteceu pontapeá-los ou, pelo menos, dar-lhes um valente empurrão; claro que não o faço mas encurto rapidamente a conversa, por vezes de forma nada polida.

Embora igualmente irritado, em relação às mulheres sempre me apeteceu levar a coisa para a mordacidade e devolver-lhes a violação do meu espaço pessoal tocando-as sem pudor, fazendo deslizar a minha mão por um dos seus braços ou pernas, procurando chocar e rindo-me disso. 

Claro que recolho as mais surpreendentes reacções, mas o que é curioso é que na maioria dos casos elas continuam a não perceber; não tiveram consciência de que violaram o meu “raio mínimo de existência” como o define Laura Nascimento numa resposta a uma leitora no jornal SOL de 25 de Junho de 2014, e em que remata uma possível explicação: “Não quero parecer snob, mas tenho visto que as necessidades pessoais de espaço dependem também da educação e do nível sociocultural das pessoas”.

Eu é que nunca percebi como é que há pessoas que não compreendem o conceito de proximidade ou de espaço pessoal vital, um espaço que varia de pessoa para pessoa mas que, regra geral, é de uns 40/50 cm, e que não deve ser infringido. Não se trata apenas de uma questão física mas também de uma questão psicológica.

Edward Hall estudou este assunto em 1963 e teorizou alguns aspectos interessantes sobre o “espaço pessoal” ou “distância interpessoal” (Comfortable Interpersonal Distance). E depois dele outros investigadores também se debruçaram sobre essa área abstracta que serve para regular a intimidade em situações de convívio social. Quanto mais próximo de alguém, maior a possibilidade de estímulo visual, táctil, auditivo e olfactivo, o que é uma excelente receita para deixar as pessoas desconfortáveis. 

Ainda que pareça existir uma relação entre as diferentes culturas e a extensão dessa distância, é óbvio que não me refiro à prática geral em cada país ou cultura, mas sim aos exageros, aos prevaricadores inconscientes desta etiqueta social, os “subtis paquidermes”.



50 anos da PSP em Lagos

A segurança pública é o significado que instintivamente associamos ao conceito de polícia, e é um domínio constitucional (artº 272º da CRP) cuja interpretação remete para o exercício dos direitos pessoais. O direito à segurança é indissociável do direito à liberdade, porque a segurança materializa-se numa liberdade fundamental sem a qual nenhuma das outras liberdades pode ser alcançada. E por esse motivo não existe liberdade dissociada da segurança, como não existe cidade sem polícia.

A Polícia de Segurança Pública estabeleceu-se em Lagos em 17 de Abril de 1969. Há notícia (não confirmada) de ter cá estado antes, durante um breve período, instalada no piso térreo do edifício dos Paços do Concelho, numa sala com porta virada para a Rua da Barroca (onde mais tarde funcionou o laboratório de análises do leite).

Foi primeiro comandante da esquadra - instalada na antiga cadeia, sita na Rua General Alberto da Silveira - o 1º sub-chefe Emídio Damião Samúdio. O efectivo era composto por uma dezena de elementos: o comandante, três guardas de 1ª classe e seis guardas de 2ª classe.

A segurança pública de pessoas e bens, mantida em desempenho permanente pela PSP ao longo das cinco décadas de serviço na cidade de Lagos, suscita esta singela, mas justa, referência à efeméride.


Legenda da foto: Patrulha da PSP na Rua Direita (então Rua Dr. Oliveira Salazar) em Maio de 1969, com a cidade engalanada para receber a visita do Presidente da República e a inauguração da estátua do navegador Gil Eanes (ou Setembro de 1973, aquando da visita do PR por ocasião das comemorações do IV centenário da cidade de Lagos?).