13.7.09

muita azáfama, pouco tempo para os blogues

Azáfama do trabalho e dos passeios em barco à vela. Este é o meu ano da Vela, e está quase a terminar. Como se não bastasse, decidi alterar os hábitos de consumo de drogas. Abandonei os fumos e passei para as pastilhas. A paciência não é muita para a escrita solta. Mantém-se a disciplina de escrever um pouco dos contos, mais nada. Em Setembro, com as chuvas e os cogumelos voltará a escrita em salpicos.
;p




16.6.09

Je m'accuse!

Acuso-me de viver o presente imediato, de olhos revirados para as “grandiosidades” do passado, suspenso nas memórias da saudade, desinteressado no amanhã.
Acuso-me de pertencer a um povo que alargou o mundo mas não promoveu qualquer “encontro de civilizações”, relegando-se para o papel de moço de fretes no transporte de mercadorias. Um povo que aspirou a um Império geográfico e sucumbiu no analfabetismo, hoje, na iliteracia.
Acuso-me de aguardar a salvação sebastianista, achando, por isso, inútil participar em qualquer esforço, singular ou colectivo.
Acuso-me de praticar a indolência atribuída ao psicossomatismo mediterrânico (alimentação, clima, etc), folgando amiúde, fazendo gaifonas ao esforço colectivo, rindo-me dos que trabalham.
Acuso-me de ter herdado e preservado a cultura judaico-cristã de feição católica, nomeadamente nos seus cultos da resignação e da divina providência, postulados que adiam as soluções imediatas para os maiores problemas dos desamparados, remetendo-os para posterior compensação no domínio divino.
Acuso-me de me ter alheado dos problemas da sociedade negligenciando a crítica aos actos daqueles que elegi, levianamente, sem inquirir das suas capacidades e honestidade.
Acuso-me de atribuir os maus resultados da minha prestação, como cidadão, à crise económica mundial, à situação geográfica periférica do país, e ao aquecimento global.
Acuso-me de oferecer resistência à mudança. A qualquer mudança.
Acuso-me de não denunciar o gatuno do bairro, o político desonesto, o director corrupto.
Acuso-me de pactuar com a falsa instrução e a falsa educação, implementadas pelas dinâmicas, ditas, reformistas.
Acuso-me de respeitar a opinião, qualquer opinião por mais absurda que seja, e ignorar a Razão.
Acuso-me da prática da arrogância do impoluto que, cinicamente, recusa o diálogo escondendo-se num silêncio de sábio insolente.
Acuso-me de dialogar apenas com as chávenas de café e os companheiros de esplanada, excelentes tribunos, autistas como eu.
Acuso-me de não saber o nome de todos os jogadores da equipa do meu clube, que não me lembro agora se é o Benfica, o Sporting ou o Porto.
Acuso-me de aceitar a deturpação da Justiça e invocar a Verdade, a minha verdade, como valor supremo.
Acuso-me de tudo. Sou culpado!

- Diz-me espelho meu, haverá algum português mais português do que eu?

Leitura recomendada: “Pantagruel”, de Rabelais

12.6.09

Calores da estação


Descanso da febre da Antropologia das Religiões no calor de Monsaraz.

6.6.09

E quando "as estruturas" são piores que os chefes, como se faz?

1.6.09

cogumelos com novilho e abacate

(esta foto, tirada daqui)


Shitake com ganso de novilho
condimentado com pimenta preta
guarnecido com abacate com mel

Estava bom!

cogumelos shitake frescos
gansos de novilho a frigir num fio de óleo
os "gansos" e a pêra-abacate

salteando os shitake
et voilá!

mais uma cervejita preta para deslizar!
;d

28.5.09

não um utensílio, mas um fim

O homem, segundo Confúcio*, não é um utensílio mas um fim. Os objectivos de prosperidade não deveriam polarizar todas as motivações. Confúcio vê no bem-estar material uma simples etapa que permite ascender à educação total do homem. Muitos governos estão ainda hipnotizados por uma educação para a produtividade, ao passo que seria necessário pensar uma produtividade para a educação.

Pe. Charbonnier - “La Chine sans muraille”

Independentemente das manipulações dos ensinamentos atribuídos a Confúcio (quer por capitalistas como por comunistas), esta acepção do Padre Charbonnier parece-me, na sua simplicidade, profundamente acertada. Mas, como já poucos reflectem com sinceridade, as coisas e o mundo flutuam num caldo virtual de problemas, relações e equações ilusórias. A armadilha fecha-se.


*Kong fuzi ou seja, o mestre Kong, de seu verdadeiro nome Kong Qin.

21.5.09

Dorme Bobi, dorme

Os miúdos ouviram-nos ganir no contentor do lixo e levaram para casa os quatro cachorros, ainda de olhos fechados. No mesmo dia, distribuíram-nos pelos amigos. Fiquei com um macho, o único que viria a sobreviver. Calhou-me criar o Bobi. Os biberões, as limpezas e os mimos, o levantar da noite e do sono, de duas em duas horas, durante as primeiras semanas…
E o Bobi foi vencendo as poucas probabilidades de sobreviver. Cresceu e tornou-se num amigo simpático.Guardava o lar com o seu ladrar irritante, era paciente com os miúdos e, como muitos outros da sua espécie, adorava bolachas.
Gosto de escrever, mas deixo o resto das memórias do Bobi entregue às imagens.
O Bobi adormeceu hoje, para sempre.
Dorme Bobi, dorme.


Bobi "O Leão das Estepes"

Bobi "O Cão que ri"
Bobi "o cãocrodilo"
Bobi "o cãolifante"
Bobi...bolachinha, bolachinha?
Bobi e Gabi
Bobi "o sorrateiro"

BOBI (1995 - 2009)
.
Koniec

semos us mayores!


A maioria está com ele, mas a maioria detesta-o!
Há várias maiorias em Portugal. Julgo, até, que não existe qualquer minoria. E assim se confirma o slogan mais português de sempre: -SEMOS US MAYORES!

10.5.09

Bem pode ser assim

A situação política do país caminha para um desfecho dramático e se não acontecer algo assim nas próximas eleições, bem poderá acontecer nas seguintes ou antes disso.

Há três cenários governativos para Portugal:

1- PS ou PSD a governar, com ou sem CDS. É apenas mais do mesmo que já experimentámos.

2- PS, PSD e BE (os três maiores, reflectindo várias tendências, como resposta a um cenário de ausência de maioria unipartidária). O país deixa de ser “governável” nos moldes em que tem vindo a ser, isto é, em que os que estão no governo se governam. Esbatem-se ou desaparecem as arbitrariedades e prepotências do sistema governativo unipartidário. A imprensa e a opinião pública recuperam alguma liberdade perdida. Maior liberdade, mais fiscalização da imprensa e do público, mais transparência, resultam em factores que inibem os desmandos dos governantes e dos caciques locais.

3- Não há entendimento político e nenhum partido consegue governar pelo que resta a opção de governos minoritários extra ou supra-partidários de iniciativa presidencial com, ou sem, a presença de militares.

Entre as três, venha o diabo e escolha, pois que todas resultam da incapacidade dos portugueses em construir e manter uma democracia. Porém, ainda assim, prefiro experimentar a 2ª.

9.5.09

Playboy Kitsch?


Razão tinha eu, logo em jovem. Nunca gostei da Playboy. Aquilo sempre me pareceu coisa enlatada, junk food tipo MacDonalds. Antes a Penthouse, embora a minha preferida fosse mesmo a Fiesta com as lindíssimas latinas de busto proeminente, mas comedido.

A Virgem Margarida



Só hoje tomei conhecimento desta notícia publicada no Correio da Manhã de 29 de Abril, da qual transcrevo um excerto e comento seguidamente.

«Margarida Menezes tem 26 anos e é virgem por convicção. Recusa ter relações sexuais de uma noite, uma semana ou de um mês. À espera do príncipe encantado, Margarida criou o Clube das Virgens mas lamenta que durante mais de um ano não tenham surgido sócias. “Agora, o meu desejo é que as sócias finalmente apareçam.” Até agora, apenas recebeu mensagens de virgens anónimas e até de homens que assumiram a sua virgindade. “Respondi-lhes que não podia aceitá-los porque a minha ideia era só para as mulheres”, esclareceu. Margarida deu o primeiro beijo na boca aos 22 anos, mas a relação com o Paulo não durou um mês. Curiosamente, diz que o desejo dos homens em possuir uma mulher virgem é um falso mito. “Sinto que até se afastam quando lhes digo que sou virgem”, revela Margarida.
Continua virgem porque é muito romântica. “Também por falta de sorte. Ainda não conheci o meu príncipe encantado que virá num cavalo branco”, confessa.»


«Recusa ter relações sexuais de uma noite, uma semana ou de um mês» – Caramba, ninguém disse à rapariga que as relações sexuais não duram tanto tempo?
«criou o Clube das Virgens mas lamenta que…não tenham surgido sócias» - Pois, as sócias não têm tempo para essas coisas, andam ocupadas perdendo a virgindade e confirmando-o repetidamente, incrédulas.
«deu o primeiro beijo na boca aos 22 anos, mas a relação com o Paulo não durou um mês» - Tava-se mesmo a ver que o desgraçado ia aguentar muito mais tempo como se fosse um S.Paulo feito de pau e não um Paulo de pau feito.
«o desejo dos homens em possuir uma mulher virgem é um falso mito. “Sinto que até se afastam quando lhes digo que sou virgem”» – E estavas à espera de quê? Uns devem achar que és portadora de H1N1, outros que terás algum problema psicológico e os últimos encaram a tarefa defenestrativa com pouco entusiasmo porque dá mais trabalho do que prazer, ainda por cima tratando-se de hímen calcificado pelo tempo.
«À espera do príncipe encantado…» – Oh rapariga, abre os olhos, os príncipes encantados são quase todos gay’s, isso vê-se logo num gajo vestido com colants e sorriso pepsodent montado num cavalo branco!

Olha, nem sei que te diga.
Parabéns! Continua assim?!

PS – Já consideraste a hipótese do Convento?

8.5.09

sobre o blogue Mesa-Redonda

Considerando as explicações prestadas pelo "mesa-redonda", suficientemente convincentes, removo o post que deu origem ao mail que me foi enviado.

5.5.09

vem aí o filme Claustro Fobia



Eu faço o papel de sacristão do convento

4.5.09

"The End" ou "Koniec" - Um suspiro no final da fita


Imperativos profissionais têm-me proporcionado, ao longo dos últimos 15 anos, o contacto com várias figuras públicas, apesar de desenvolver a minha actividade num cantinho de província, já de si, periférica. Faço-lhes o “boneco”, quer dizer, registo imagens de variadas situações envolvendo essas figuras. São, frequentemente, gente da política e do mundo do espectáculo, por vezes gente ligada às artes ou à cultura em geral, gente que costuma aparecer nas televisões.
É notório que, muitas vezes, a figura que vemos na TV não corresponde à pessoa “ao vivo”. Umas vezes decepcionam, outras surpreendem mas, quase sempre são diferentes daquilo que a TV revela. Raro, é a pessoa de carne o osso corresponder exactamente àquilo que a televisão nos mostra. Mas era assim com aquele senhor, sobejamente conhecido como o maior divulgador da Banda Desenhada e do Cinema de Animação – esse era exactamente o nome do seu programa televisivo que, notícias preocupantes, indicam ter sido substancialmente “apagado” dos arquivos da RTP.
Ao cabo de centenas de horas a vê-lo do lado de lá do ecrã, sorridente e simpático, tratando os espectadores por “amiguinhos”, chegou o dia de o conhecer pessoalmente.
Aconteceu no Cine – Teatro Império, em finais dos anos 70, num evento relacionado com Cinema de Animação. Acompanhava-me o meu colega de escola Henrique Carreiro e, no final da apresentação, abordámos o senhor. Movia-nos não só a emoção do contacto real com a personagem saída do ecrã mas, também, colocar algumas questões sobre publicação de B.D, pois por esse tempo ensaiávamos uma história de quadrinhos. E fomos recebidos com o habitual sorriso e uma inequívoca atenção. Foi uma breve conversa da qual já nem recordo todos os pormenores. Mas não esqueci a cordialidade e a simplicidade que aquele Senhor transmitia. Faleceu, hoje. Enriqueceu-nos com a sua passagem pela vida, relembro a animação dos países de Leste, sobretudo dos polacos, das personagens hilariantes de Tex Avery e muito especialmente o trabalho inovador do canadiano Norman McLaren, talvez um dos maiores contribuidores para a valorização da Animação como Arte.
Obrigado, Vasco Granja.

2.5.09

O Fado já não manda em Portugal...

Começo por dizer que até gosto de Fado, mas, felizmente, o Humor vai destronando a melancolia e o luto da expressão vocal maior do nacionalismo português. Para isso basta ligar a TV e assistir aos telejornais.
O Tribunal da Lousã foi assaltado e foram queimados vários processos. O Juiz presidente diz que é impossível saber o que foi destruído, mas o Ministério Público diz que vai fazer um inquérito e determinar o que ardeu. Pergunto, como é que vão fazer esse inventário?

A Pirataria não é penalizável?



A Fragata portuguesa Corte Real capturou 19 piratas mas libertou-os pouco depois (certamente não eram piratas como a da imagem), supostamente, porque o Código Penal Português não prevê a pirataria?! Ora, se a pirataria não é penalizável, isso quer dizer que não estamos a salvo dela quando navegamos nas nossas águas territoriais?
Mas então a fragata não está integrada numa esquadra da NATO que deve reger-se por regras internacionais e especiais? Então cada um dos navios de diferente nacionalidade exerce as suas funções de acordo com a legislação do seu país de origem? E, se as leis portuguesas não permitem deter os piratas, que leis permitiram apreender-lhes as armas?
Sinceramente, não compreendo qual é o papel da esquadra da NATO naquela área do mundo, nem qual o papel da unidade portuguesa. Se a operacionalidade está dependente de uma questão de leis, desenterre-se o “código penal” do séc. XV e envie-se Afonso de Albuquerque para resolver os problemas da pirataria.
É evidente que estou a ironizar. Os marinheiros portugueses limitaram-se a agir de acordo com país faz-de-conta que representam. E nós bem sabemos que a pirataria deixou, há muito, de ser penalizada. Veja-se o que acontece aos piratas engravatados que nos saqueiam todos os dias: Nada!

Eu, então, se deito as mãos a uma pirata destas, assalto-lhe o baú!!!

Reflexões ímpias

“É muita areia para a minha camioneta”, ou para a camioneta de qualquer um. É o que é um computador. Uma porção de grãos de areia (sílica), magistralmente ordenados e conectados com outras tantas porções de alumínio, cobre, estanho, ferro… Enfim, um ridículo repositório de minerais conversando uns com os outros através de zeros e uns que nada significam mas que, simultaneamente, estão tão próximos do segredo do Universo. E tal como Deus, o computador resulta da intuição de seres abjectamente imperfeitos.

27.4.09

E vai ser sempre assim?

(…)

Vão suceder-se os governos minoritários, alguns de iniciativa presidencial. Estes governos terão curta duração porque, enquanto tentam governar o país no Terreiro do Paço, o Parlamento boicota-lhes a acção em S. Bento. Alguns desses governos serão de iniciativa presidencial, levando o Presidente, qualquer que ele seja, a encostar-se aos militares para reforçar a sua autoridade.

(…)

As condições económicas, em parte fruto da crise internacional, agravam-se, multiplicando os défices do Estado e fazendo escalar a dívida pública. Muitos portugueses vão optar por emigrar, especialmente para o Brasil e para a antiga África portuguesa. A criminalidade aumenta e haverá episódios de violência. Uma baixa considerável do nível de vida dos portugueses acompanhará a situação económica e política.

(…)

Foi sempre assim em Portugal. Porque é que agora havia de ser diferente?


Catastrófico, mas realista, considerando o desânimo dos portugueses. Realista porque congruente com o entendimento que fazemos, hoje, do estado em que se encontra o país. A acontecer como o diz Pedro Arroja, aqui, só reforça a irracionalidade dos humanos (neste caso, dos portugueses), que se empurram para uma ciclicidade histórica asinina. Porém, aceitando que as coisas não têm que ser assim, que não existe um destino marcado, o facto é que as opções tendem a confirmar esse conceptualismo pseudo-científico que postula a tal ciclicidade a que o título do artigo remete.

25.4.09

Ecologias

Aquecimento Global aumenta gelo na Antártida? - Os alarmistas andam à rasca. Agora que é uma evidência que o gelo da Antárctida está praticamente em máximos históricos...

CO2 - as evoluções climáticas e dos níveis de concentração de CO2 são tudo, menos correlações significativas. Deduz que das quantidades muito significativas de dinheiro que estão a ser dirigidas para a salvação do Planeta, muitas são um desperdício. Um exemplo evidenciado diz respeito às eólicas em França, cuja electricidade até nem é precisa, desfigurando as paisagens e consumindo valiosos recursos públicos.

Energia eólica – as pequeninas e as grandes - Os vendedores e ecologistas apregoam-nas como a solução para os problemas de consumo de energia em casa, e noutros locais. Eu, pessoalmente, quando as vejo (as eolicazinhas, claro), estão sempre paradas. Das maiores, já todos sabemos que só subsistem à conta dos subsídios; das pequeninas, saiu agora um relatório claro!

Leia tudo isto e muito mais num espaço dedicado a evidenciar os disparates que se dizem e fazem à volta da Ecologia. Especialmente dedicado aos ecologistas da treta…!

Em: http://ecotretas.blogspot.com/

24.4.09

elas é que sabem combater a crise

video

15.4.09

Para ler nas férias... grandes.



O VOLP - Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, apresenta a grafia de 349.737 palavras, em 976 páginas e é o resultado, do lado brasileiro, do célebre Acordo Ortográfico em que «para se "simplificar" a ortografia, atentou-se contra a etimologia e "complicou-se" a compreensão...». Uma tragédia “literária” certamente repleta de barbaridades ortográficas.

7.4.09

acho que já vi este filme


Acho que já vi este filme, mas não gostei.
O actor principal é cá um canastrão!!!
Nem sei como o Kaos pode fazer publicidade a tal coisa.

3.4.09

Sócrates processa

João Miguel Tavares, colunista do DN, foi processado por Sócrates por ter publicado num artigo "Ver José Sócrates apelar à moral na política é tão convincente quanto a defesa da monogamia por parte de Cicciolina". Recomendo ao colunista do DN que argumente falha na transposição do texto que no original seria: "Ver José Sócrates apelar à monogamia na política é tão convincente quanto a defesa da moral por parte de Cicciolina". É preciso é dar qualquer coisa, uma desculpa qualquer, sobre a qual a "justiça" possa elaborar.

26.3.09

Portugal - trespasse ou aluguer?

...
Estamos Falidos! Estamos Falidos! Gritou desesperado o 1º Ministro, amparando a cabeça nas mãos e lançando-se precipitadamente para o extremo oposto da sala, acotovelando as cabeças dos restantes ministros, ainda sentados em torno da mesa governamental.
- Porque é que não me disseram nada? - Porque é que sou sempre o último a saber?
Santos Silva, já em pé, faz-lhe gestos para se acalmar, enquanto Manuel Pinho se raspa sub-repticiamente, valendo-se da sua conveniente estatura. Na mão, no saco do portátil, os calções e a toalha de banho esclareceriam o atónito contínuo que ainda o ouve gritar para o choffeur, enquanto desaparece na curva do corredor, “- Para o Allgarve, rápido!”.
Quem é que tem dinheiro? Quem é que tem dinheiro? Repete incessantemente Teixeira dos Santos, voltando-se ora para a esquerda ora para a outra esquerda, desorientado. A resposta deu-a Luís Amado: - Os chineses! Os chineses é que têm a massa!
Jaime Silva piscou o olho a Silva Pereira e rematou em voz baixa, apenas para o ministro da presidência ouvir: - Já sei! Alugamos isto aos chineses. Um país-loja. Uma enorme loja para fornecer a Europa. Até podíamos colocar uma lanterna gigante pendurada no Cristo-Rei…
Com a cara entre as mãos, Sócrates, sentado no chão, ao canto da sala, chora compulsivamente marcando, com a cabeça na parede, um compasso ternário (muito mal marcado, diga-se em abono da verdade).
Da rua, da multidão gigantesca, sobe um clamor de contrabaixo de onde escapam frases de ordem mais estridentes, depressa engolidas no bramido profundo da turba que afoga esses gritos mais agudos que ciclicamente repetem: - À MORTE! - À MORTE! Misturadas com incontáveis e inspiradas invectivas dirigidas aos governantes.
Nuno Teixeira, lívido, de olhar vidrado e fixo num ponto da parede oposta ao lugar que ocupa, não proferira uma palavra nem ousara um único gesto, desde o início da reunião. Enquanto Rui Pereira se desfaz em contactos telefónicos com os comandos policiais - de há muito expulsos das ruas pelo milhão de pessoas que marcham pelas ruas da capital -, Alberto Costa e Mário Lino entreolham-se apreensivos. Os outros não estão lá. Uns porque ficaram retidos nos afazeres oficiais onde foram surpreendidos pela revolta popular, outros porque apanhados pela turba e, praticamente, linchados na via pública. A coitada da Lurdes Rodrigues safou-se apenas com uns bofetões criteriosamente aplicados por uma jovem licenciada em psicologia que a reconheceu à saída do restaurante onde almoçara com dirigentes sindicais – que também levaram uns tabefes e umas biqueiradas no recto, especialmente os que não conseguiram esquivar-se à bota pontiaguda de um chulo de Xabregas com contas por ajustar com polícias, políticos ou, na ausência destes, dirigentes sindicais que, no seu entender, servem muito bem para o “desopilar do fígado”.
Voam vidros em estilhaços e alguns polícias já praticamente à paisana, e au naturel, aprendem também os princípios do voo curto planado, rasante às cabeças atarantadas da extensa mole humana que ocupa todo o espaço visível. Os edifícios, transformados em ilhas, porque rodeados por um imenso oceano de gente, coisa como nunca se vira antes numa cidade, exibem os seus habitantes, debruçados nas varandas ou espreitando por cada buraco de portada ou janela. Lisboa revolta-se, Lisboa assiste, Lisboa existe.
Em desespero, na eminência do assalto final, o ministro telefonista tecla o número da embaixada chinesa em Lisboa e, na pausa da chamada, ausculta os seus pares: - Trespasse ou aluguer?

...

24.3.09

ultrapassado

É assustador como as coisas ficam rapidamente ultrapassadas, fora de moda e, sobretudo, funcionalmente obsoletas. Sabem do que falo. De tudo. Dos computadores e telemóveis até aos hábitos quotidianos, passando pelas rodas dos skates, o frango de churrasco e o arroz doce. Vem isto a propósito da imagem de frontispício deste blogue acusar, também, uma notória decadência estética, a julgar por esta outra que encontrei na net, enquanto procurava contributos para auxiliar um amigo. Agora tenho de encomendar um novo trabalho de gravação a cinzel. É assim, um tipo não pode descuidar-se. Há que andar atento às novidades.



A evolução recente dos hábitos...

«Epa tenho que apresentar o trabalho de ÿÿÿÿÿÿÿÿ disciplina de £??H precisava que me arranjasses q` imagens sobre hábitos ÐÏࡱá > þÿ  [1] £¥ þÿÿÿ¡¢ÿÿÿÿÿ ÿÿÿÿÿÿ ÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿ ÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿ ÿÿÿÿÿÿÿÿ ÿÿÿÿ ÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿ ÿÿÿ ÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿ ÿÿÿÿÿÿÿ ÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿ ÿÿÿÿÿÿÿ ÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿ ÿÿÿÿÿÿÿÿÿ ÿÿÿÿÿ ÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿ ÿ ÿÿÿÿÿÿÿ ÿÿÿÿÿÿÿÿ ÿÿÿÿ ÿÿÿì¥Áq`ð¿ »
.
Eu sou um tipo diligente quando se trata de ajudar os amigos. Tendo recebido este mail com mensagem truncada e não sendo clara a natureza dos hábitos solicitados assumi que, melhor do que nada, o meu amigo podia apresentar um trabalho sobre qualquer coisa. Mandei-lhe este.






10.3.09

foi tango



Não sei bem porque gosto de ouvir Tango. Não sei porque gosto mais de ver Tango do que qualquer outro espectáculo dançado. Sei que para além da sensualidade da dança e da música deliciosamente dramática, há mais qualquer coisa misteriosa, ou pelo menos intrigante. Será porque há ali uma perfeita comunhão entre a música e a dança? E quando os movimentos atingem um ritmo quase alucinante e nós, espectadores, começamos a torcer por um desenlace feliz?! Por vezes, até me esqueço de fotografar. O tango é porreiro.

21.2.09

deuses de pau


Tinha uma minúscula loja na rua principal da pequena cidade de província. Embora consciente da sua condição de ser religioso e da herança cultural judaico-cristã que lhe condicionava o pensar e o agir, nunca professara qualquer religião.

Começou por esculpir na madeira pequenas figuras inexpressivas, apresentando-as de frente, erectas, rígidas, despidas de pormenores ou particularidades enriquecedoras que não o talhe preciso das linhas angulares. Naquelas madeiras negras as imagens ganhavam uma estranha força, uma energia magnética que prendia a atenção de quantos as viam à primeira. De início, os visitantes da lojinha de souvenirs, julgavam tratar-se de réplicas de estatuetas ameríndias para, em segunda apreciação, as conotarem com o antigo Egipto. Mais adiante acabariam por ficar baralhados e suspeitando tratarem-se de divindades locais.

E ele alimentava essas fantasias, contava a história de cada peça, do deus que representava, o seu nome, atributos e faculdades divinas. Com o correr do tempo, quase duas décadas de dedicado labor exclusivo, construíra um gigantesco panteão de divindades e traçara-lhes, até, relações de parentesco e procedência.

Tudo começara com a primeira peça criada, uma deusa da fertilidade, matrona de peitos proeminentes, barriga extravagante, lábios carnudos e olhar vazio.

O diabo foi a filha da vizinha do primeiro esquerdo afirmar que fora do toque acidental dado na estatueta, com a mão, que a barriga lhe crescera. A partir daí a vizinhança deixou de entrar na loja das estatuetas. Apenas os turistas lá iam, por curiosidade, ao depararem com as estranhas peças na montra, por isso ou para fugir à inclemência da canícula estival a meio calcorreio da rua principal.

Incapaz de arrancar à jovem a identidade do intérprete do jogo prenhez, a mãe da pequena apressou-se a espalhar o milagre, até porque constava que a jovem, já na casa dos trinta, ainda era virgem. Nunca fora moça de andar por aí metendo-se debaixo de cada um ou alçando a perna no vão sombrio de alguma escadaria de prédio. Assim se dizia na cidade, e como o que o povo diz é quase sempre verdade…

Que a tal deusa da fertilidade fizesse milagre, assim, a uma jovem que lhe tocara descuidadamente, era coisa que a cada um cabia acreditar ou não, e ficaria a cidade disso esquecida depois de esgotado o assunto nos três dias de falatório regulamentar, se não se desse outro inesperado episódio.

Um velho marítimo, que muitas vezes ia, de dedo em riste, indicar a loja aos turistas que perguntavam pelo artesanato local, terá, por mor dessa atenção, recebido uma estatueta em sinal de gratidão.

E o velho pescador experimentou os atributos de um deus austero, de barba hirsuta e cãs brancas. Padecendo de reumatismos, eis que, aspergido trinta vezes com borrifos de medronho derramado pela cabeça da estatueta, logo curou as maleitas reumáticas.

Juntando-se o facto da esquizofrénica esposa do embaixador ter comprado uma das estatuetas que espreitam os transeuntes pela montra, cismado naquele olhar “com vida”, como ela entendia que a estatueta possuía e os olhos testemunhavam; depressa uma legião de habitantes, de todas as condições económicas e sociais, adoptou um pequeno deus de madeira como protector do lar, ou curador de males a que os médicos não davam remédio.

Rapidamente, irromperam em várias habitações da pacata urbe, os mais singulares milagres protagonizados pelas abonecadas divindades.

Uns poucos habitantes, descrentes nestas coisas, gozavam os vizinhos quando os viam reverenciar a estatueta adoptada. Lançavam jocosidades, quer à vizinha, quer a um simples conhecido que com eles se cruzava nessas andanças de passear o deus, levá-lo a polir, envernizar ou em viagem breve para mostrar à amiga da prima que vive no outro extremo da cidade e que nada resolve da sua infertilidade. Mesmo ali, um desavergonhado e descrente vizinho terá rematado: - Trazes um deus feito de pau ou um deus de pau feito?

Duplicam-se as festas privadas em honra de cada deidade caseira, convidam-se amigos e estranhos a fim de evidenciar a supremacia milagreira do deus pessoal eleito em detrimento do alheio, revelam-se particularidades até então insuspeitas, truques e segredos guardados, diz-se, em livros muito antigos; destaca-se a qualidade dos prodígios realizados. E até se estabelecem genealogias entre aquelas divindades representadas em madeira e os seus novos adoradores.

Uma verdadeira competição alastra pela cidade convertendo velhos e novos, ocupando o lugar da clubite desportiva e da partidarite política. De cada lado defende-se a verdade garantida pela experiência e testemunho dos seus, e descrê-se nas mirabolantes descrições dos fenómenos alheios.

Daí até alguns se arvorarem a sacerdotes de uma nova religião tendo por figura principal um boneco de madeira preta de 80cm de altura, de superfície polida e brilhante, e globos oculares tintados de azul, e ao surgimento de procissões nocturnas que atravessam algumas ruas da cidade com esses bonecos empoleirados em andores, foi um passo. Passo de uma caminhada que conduziu, depois, aos primeiros confrontos verbais entre sectários de diferentes cultos.

As autoridades foram apanhadas desprevenidas quando, num fim-de-semana de Outubro, uma enorme algazarra seguida de poderosa sessão de pancadaria rebentou no rossio, por motivos de confluência simultânea de duas procissões que pretendiam percorrer o mesmo itinerário.

Houve insultos, juras de morte e uns “hei-de cagar à tua porta!”, facadas agendadas e tiros de caçadeira prometidos: “vai mesmo em cheio nos cornos, ó cabrão!”; e houve vários feridos, embora ligeiros. Alguns dos acólitos mais excessivos foram detidos pelas autoridades que, pouco antes da meia-noite, colocaram um ponto final na raivosa batalha campal.

Farto das desavenças entre vizinhos e familiares, entre membros do mesmo clube, camaradas do mesmo partido, companheiros de tertúlias, confrades das mesmas associações, e particularmente assustado com o rumo que as coisas tomavam, o edil mandou confiscar todas as imagens desses deuses, santos ou demónios que tomavam conta da sua cidade.

Procedeu-se à recolha de todas as estatuetas e foi decidido enterrá-las num enorme buraco escavado no centro de um terreno sagrado. Assim exigiam os seguidores, adoradores e proprietários das peças que diziam, sagradas. Foi escolhida uma velha Igreja abandonada, e ali foram soterradas.

Durante anos ali ficaram esquecidas as largas centenas de estatuetas que, em tempos idos, haviam sobressaltado a quietude e pacatez meridional da pequena cidade de província.

Mobilizados pela recente onda de recuperação do património histórico e edificado, num afã de marcar lugar nessa moda nova, muitos edifícios e monumentos da cidade foram submetidos a intervenções de simples cosmética uns, de profunda e aturada remodelação outros. À velha Igreja coube um quinhão desse protagonismo mas, antes de se proceder à recuperação das estruturas, houve que realizar trabalhos de arqueologia que, inesperadamente, encontraram e exumaram uma enorme quantidade de estatuetas de madeira.

No meio de um tremor telúrico que sobressaltou a população, cederam as paredes da Igreja, descolando-se umas das outras e ruindo parcialmente. As pesadas portas em madeira férrea saltaram dos engonços e caíram na rua. O resto, conta alguém que diz que lho contou outrem que é amigo de um que viu, do enorme buraco aberto no chão, elevarem-se estranhos seres alados que esvoaçaram, para além do campanário, ascendendo em espirais rumo aos céus. O buraco de onde saíram lá estava, forrado com a colossal mortalha com que as haviam sepultado antes.
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13.2.09

exemplo a copiar por cá


Afinal, as etiquetas não servem apenas para o tabaco.

12.2.09

O ditador... a SIC, e os espectadores

Artigo resultante de troca de comentários num post do blogue portugal dos pequeninos publicado no canallagos, revisto, e republicado aqui.

O ditador, a amiga, a francesa, a quiromante, a afilhada, a governanta, a outra mais nova, o choffeur, a condessa, o cardeal… a SIC, e os espectadores portugueses.

Vi a Soraia Chavez a seduzir Salazar e este a alternar entre uma pronúncia axim e outra assim. Vinguei-me! A SIC vingou-me daqueles meus amigos que dizem já ter visto um porco andar de bicicleta e que portanto já viram tudo. E como eu não vi tal façanha porcina…

Entretanto, arde a blogosfera em escritos incendiários, evocativos e explicativos do “porque Salazar faz falta”. Inflama-se lançando o anátema sobre a SIC que ousa vulgarizar a imagem do “grande estadista” que, no dizer de alguns: “governou uma nação pluri-continental do tamanho da Europa e consta que morreu pobre e nunca se deixou manipular pelos banqueiros ou plutocratas”; “Salazar ficou e está na História como um político de categoria mundial, um professor catedrático de finanças com obra publicada e realizada e um pensador político e social com muita actualidade”.

Um outro bloguista parece gritar até à rouquidão: “QUANTO MAIS TENTAREM DESVALORIZAR, O GRANDE ESTADISTA E PORTUGUES, MAIS O ELEVAM A UMA CATEGORIA SUPERIOR....PORQUE ELE ERA MESMO SUPERIOR. CHOCAR-ME-IA SE ELE GOSTASSE DE HOMENS, AGORA UM HOMEM COM H GRANDE GOSTA SEMPRE DO BELO, DO FEMININO, NADA DE CONFUSÕES. BEM TENTAM ESTES GANGS DENEGRIR ESSE GRANDE FILHO QUE A NAÇÃO NOS DEU.”

E a coisa segue, num coro rameloso: “Quando se começar a analisar a vida íntima destes hominídeos que tentam desesperadamente diminuir e achincalhar Salazar, então é o bonito!” e “Salazar foi o maior estadista do século XX, basta ler um pouco sobre o Estado Novo. É evidente, que para os malfeitores que nos governam, sentem necessidade de diminuir a grandiosidade de Salazar, é que se o povo começar a comparar vai perceber que anda a ser roubado desde o 25 de Abril.”

E eu discorro, placidamente (que estas coisas já não me revoltam): Pois, o povo anda a ser roubado mas não é apenas desde o 25 de Abril. Sem retornar ao Alentejo dos anos 50 e às campanhas do trigo que deixavam com fome quem nelas trabalhava, (assim mo diz a minha mãe, por experiência própria), fico-me pelo que vi em finais dos anos 60 e inícios dos 70: o povo que trabalhava nas fábricas da Indústria Conserveira, 12 ou 14 horas por dia, para receber um salário de miséria. Eu sei, porque estava lá. Já nessa altura alguém andava a roubar o povo, ou não?

Desgraçado país, este, em que, esquecida a ética e abandonados os valores do humanismo elementar no exercício da política, se recorre à evocação e se tenta recuperar a memória de um homem vulgar que só foi grande no autoritarismo a que submeteu o seu povo. Recatado, simples, honesto com o erário público? Pouco me interessa e nem discuto, aceitando por verdadeiro. E o resto? Quantos morreram e quantos viram as suas vidas trucidadas em nome de um ideal pátrio imperial e anacrónico – para meados do séc. XX – fundado em teorias patéticas como o lusotropicalismo?

Quanto custou a este país o imobilismo do Estado Novo, a proibição do liberalismo económico, o proteccionismo dispensado a meia dúzia de oligarcas, o cerceamento da iniciativa privada, o adiamento da construção de um estado moderno?

A História não se repete, ciclicamente, como se tal estivesse inscrito num fado predeterminado pela divindade. Somos nós que repetimos os erros e, dessa forma, andamos às voltas em vez de avançar. E é um erro avaliar os políticos de hoje – mesmo que estes sejam péssimos, como são –, pela bitola de um ditadorzeco que só não deve ser esquecido porque devemos evitar repetir o erro de adoptar outra figura paternalista como o Dr. Salazar.

Entendo o desespero de quem não encontra na nossa história contemporânea, nem na praça pública de hoje, uma figura carismática, honesta e protectora (ao ponto de nos resolver todos os problemas; exorcizar os medos, proteger do vizinho do lado, do chefe, do drogado, do ladrão e do patrão), que sirva de modelo. Mas a essência da Democracia é assim, dispensa tutores e clama à participação de cada cidadão. Sem participação cívica e política resta-nos o regresso cíclico e errático à ilusão salazarista… ou sebastianista para os que sintam pudor em identificar-se com o Don Juan de Santa Comba Dão.

Quanto à produção da SIC, não merece mais do que um gracejo: Bem pode navegar na corrente da metaficção historiográfica, um sucedâneo de pós-modernismo que postula (numa das pronúncias videográficas do paizinho da nação): “Não foi axim, mas podia ter xido!”.

28.1.09

metahistória

A escrita que me interessa produzir não é um exercício do absurdo, ou réplica literária da dramaturgia de vanguarda, embora receba daqui alguma influencia – nomeadamente na apresentação dos distintos momentos (tradicionalmente capítulos), como quadros cénicos salpicados de atmosfera teatral. O que escrevo tenta inserir-se na linha da nova estirpe do romance histórico, moldada no pós-modernismo, que trata a história com uma independência absoluta. Nestas ficções pós-modernas, o “tratamento” dado à história recorre a paradoxos, exageros, a sucessões de elementos díspares aparentemente desordenados, atingindo por vezes a desconstrução total do facto histórico. Livre da sua natureza temporal linear, dessa tirania do discurso do contínuo, a história é apresentada como uma sequência de intercalações, uma sucessão de sobressaltos cronológicos.

Será coisa perturbadora mudar assim a história, mas esta peculiar opção literária vive do diálogo individual do autor com a história, procurando, entre outros aspectos, que as suas construções especulativas contestem a resignação perante a falsa inevitabilidade do facto pretérito, resultando um: - … se não foi assim, podia ter sido!

O alvo principal deste discurso irónico é o repositório dos factos estabelecidos bem como as interpretações desses factos. O devir histórico, na sua caminhada, apresenta-se como um desgaste de vidas, de opções e de oportunidades, uma vez que a escolha de uma única possibilidade implicou a eliminação das alternativas. Eis o campo de batalha desta ficção pós-moderna, a metaficção historiográfica, que elege a impossibilidade como propósito: as possibilidades perdidas, descartadas, do passado, são apresentadas como tendo realmente acontecido.

Tivesse eu a preocupação de escrever para os outros e este seria o móbil da minha acção, um desafio lançado ao leitor: Entre a “certeza” da história real que sobejamente conhece e a história possível que a ficção lhe apresenta forma-se um momentum de reconstrução do conhecimento, que compete ao leitor moldar até onde o seu interesse e as suas capacidades o permitam. Mas não é esse, exactamente, o meu motivo. Iniciado no conto Claustro Fobias, continuo o exercício da escrita, por um lado naquilo que respeita à forma, aperfeiçoando a sintaxe, procurando o equilíbrio entre a limpidez discursiva e os artifícios das figuras de estilo ou de um vocábulo mais pomposo, agora com o desafio acrescido que representa a construção de um texto que se inscreva na corrente da metaficção historiográfica; e por outro lado na utilização do léxico da primeira metade do séc. XV, especialmente a terminologia náutica desse período.

Esse é o exercício que me proponho realizar, escolhendo como ponto de partida cronológico, o ano de 1434, e o espaço físico, a cidade de Lagos. Mas são apenas pontos de partida, não sabendo ainda por onde, e quando, na linha do tempo, viajarão os personagens do(s) enredo(s). O mar e a navegação afirmam-se como moldura e fundo da narrativa. Os personagens, como Gil Eanes e outros, hão-de agir e interagir numa conformidade ora verosímil, ora desconcertante, ao sabor dos ventos e marés da imaginação, do desassossego e do inconformismo do autor.

O primeiro quadro já foi publicado aqui. Quer se trate de um capítulo meramente exploratório, quer venha a integrar o texto final, o mote está dado.

24.1.09

ad hominem

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"Um escrito, assumidamente, ad hominem"
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Excelente texto a ler aqui
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20.1.09

contos populares - "As Invasões Francesas"


Quando os franceses invadiram Portugal, precedeu-os a fama terrível das suas infâmias: uma história cheia de roubos, assassínios, crueldades, bestialidades, estupros, de toda a espécie de violências e crimes.
Perante duas irmãs contavam-se as façanhas horrorosas dos tais franceses:
- Eles roubam, matam os homens, violam as mulheres…
Subitamente, ouviu-se grande algazarra na rua, gritos e correrias. Eram os franceses que chegavam. Apavorados, os que ali estavam fugiram abandonando a casa, excepto as duas irmãs, que se deixaram ficar, tranquilas, sentadas na sala.
Os franceses entram de rompante, em magote, e elas fecham os olhos. Eles revolvem tudo, correm os cantos à casa, arrombam gavetas e armários, roubam todos os objectos de valor que encontram, olham para as duas irmãs, e retiram-se em tropel.
Ao ruído enorme que eles tinham feito sucede-se um silêncio lúgubre.
As manas, não ouvindo nada, abrem a medo os olhos: - ninguém.
Levantam-se, correm todas as divisões: - tudo deserto!
Vão à janela, o magote dos franceses seguia rua abaixo.
Umas das irmãs para a outra:
- Ò mana, então os franceses não violam?

17.1.09

Contos populares - "O Poder da Publicidade"

Aqui há uns anos andou pelas vilas do interior, um homem que dizia ter inventado um unguento milagroso para a cura das hemorróidas. Mal chegava a cada terra, espalhava anúncios por todas as lojas, pelas ruas, afixava em taipais e tapumes de obras, nas paredes, expositores, postes de iluminação, enfim, por todo o lado.

Era um cartaz colorido, em papel macio, com grafismos apurados, que dava conta da sua miraculosa invenção. Decorridas duas ou três semanas, o inventor abandonava a terra com os bolsos cheios de dinheiro. E por toda a parte por onde passava, mesmo pelas terras mais saudáveis em questão de hemorroidal, o mal surgia logo, replicado por todo o lado. Cu que fosse cu, logo ganhava a enfermidade.

Tal ocorrência deixava as pessoas pensativas, cismando como aconteceria tal coisa. Como é que este homem, apenas pela sua presença, conseguia desabrochar tantas hemorróidas? Eram povoações inteiras de cu adoentado. Como conseguia despertar essas coisas adormecidas no mais fundo de cada um? Numa vila em que não havia um único caso de hemorroidal recenseado até então, passava ele todo o dia a atender clientes, vendendo a pomada mágica.

Finalmente, um dia descobriu-se o mistério. Os cartazes que profusamente distribuía, feitos em papel fino, suave e macio, eram logo destinados à aplicação usual dada a todos os papéis semelhantes a que se deitava mão. Só que o papel destes anúncios era preparado com um produto químico que fazia despertar as malfadadas glândulas rectais. Ora, cada um que os usava, transformava-se logo em potencial cliente do especialista. E assim enriqueceu este engenhoso empreendedor.

Moral da história: nunca subestimes o poder da publicidade!

29.12.08

Bolas...de sabão



(…) A AllBall Inc. – Portugal Branch funcionava num velho edifício de seis andares, na baixa da cidade, junto ao porto. O edifício possuía, no rés-do-chão, uma enorme loja onde se vendiam todo o tipo de bolas, para as várias modalidades desportivas. Também ali estavam localizados, nas traseiras, voltados para a doca, os armazéns dos produtos que a empresa comercializava. Nos restantes pisos funcionavam os outros serviços da sucursal da marca norte-americana.
(…)
A mando do Administrador-Geral, o chefe colocara-o em “isolamento”, avisando as funcionárias dos vários departamentos que não se deixassem fotografar para os calendários e catálogos de brincar que ele fazia – montando meticulosamente os rostos das colegas ao lado das estrelas das várias modalidades desportivas –, e que as jovens tanto apreciavam.
(…)
O chefe assemelhava-se fisicamente à personagem de comédia britânica mr. Bean. Comportamental e psicologicamente era mais ao género da personagem Waylon Smithers, o solicito assistente de mr. Burns da série animada “Os Simpsons”, sempre a lamber os sapatos do patrão e o chão que este pisa. Obedecendo cegamente às instruções superiores o chefe reduzira-lhe as solicitações de serviços atenuando, consequentemente, o seu volume de trabalho.
(…)
As secções que funcionavam ao lado do seu estúdio foram mudadas para outras dependências vazias, ou mal ocupadas, do enorme casarão. Assim, viu afastar-se a Secção de Controlo de Vendas e a de Informações em linha. Até a arrecadação da limpeza foi deslocada para outra ala do edifício. Isolamento, era a estratégia adoptada. Porém, não se tratava de um castigo por falta cometida. Era, antes, corolário da acção insidiosa de que fora alvo e contra a qual se revoltara. E essa revolta, revelada incómoda, havia que silenciar. A perversidade do poder ganhava.
A partir de então passou a ter por único vizinho, numa sala contígua, um símio que ouvia rádio, gritava e dava murros na parede quando os jogadores do F.C.Porto falhavam os remates, não se sabe se de contentamento ou irritação.
Não satisfeitos com o degredo ainda faziam inspecções periódicas ao local de trabalho, inquirindo sobre a sua ocupação, acerca do uso dos utensílios e ferramentas do seu mister, da quantidade de água que consumia, ou das folhas de papel que gastava. Um dia, chegaram a medir a quantidade de pigmento existente num tinteiro da impressora, não fosse andar a imprimir coisas não autorizadas.
(…)
Dado como mentalmente afectado, não só foi proscrito profissionalmente como tentaram afastá-lo do convívio social habitual. Até à professora dos tempos da primária fizeram chegar a mensagem de que não andava bem, e que ela nem devia continuar a responder aos postais que sazonalmente trocavam, dando conta da saúde dela e do sucesso dele, resultado de uma longa amizade começada, justamente, nos bancos da escola.
(…)
Já não ia tantas vezes ao exterior para sessões de fotografia artística com as sorridentes modelos que apresentavam os produtos. Agora, ocupava-se de trabalho mais individual, mais técnico, registando os produtos novos – igualmente para os catálogos oficiais da marca –, ou aplicando os seus conhecimentos de metrologia na verificação das dimensões, volumes e capacidades das mais variadas bolas.
(…)
Deixou vaguear o olhar pela sala. Na sua frente um poster com um gigantesco hemisfério seccionado prende a atenção pelas palavras coloridas de formatos variados: Pelota, Ball, Bal, Ballon, Palla, Pilka, Boll, Pilota, Pallo, Top, توپ , Топка. Bola, nos vários idiomas do mundo. Na parede posterior um armário exibe dezenas de bolas de futebol, desde as primeiras, com uma abertura por onde entra a câmara de borracha, a inglesa de couro do séc. XIX - ainda ostentando o tiento - até à mais recente Teamgeist, passando pela longa evolução das de cauchu e pela primeira totalmente sintética, a Azteca, estreada em 1986 no México, reviu Saltillo...
O toque do telefone suspendeu-lhe os pensamentos, e o resultado da breve conversa tida com alguém que desconhecia trouxe-lhe nova apreensão: porque diabos o andavam a aliciar com propostas de trabalho? Já na semana anterior recebera um e-mail da Finne e, agora, alguém que se dizia representante da Mikasa pretendia contratá-lo para um part-time! Que coisa tão estranha, sobretudo porque o seu contrato profissional não lhe permitia esse tipo de relacionamento com empresas concorrentes, e elas sabiam-no.
(…)


Excerto de: “Cambra D’ar”

26.11.08

Um país, dois sistemas, ou de como as coisas tendem para os pares




Recebi há dias, pelo correio electrónico, um daqueles filmes que pretendem alertar para um futuro em que a supremacia económica da Ásia colocará os dois gigantes, China e Índia, no topo da pirâmide mundial. O filme referia os muitos estudantes sobredotados que ambos possuem, o facto de estudarem, já, respostas para problemas que ainda não existem mas que se supõem emergentes, e muitos outros aspectos tratados em quantidades astronómicas, do tipo: a China tem mais alunos sobredotados do que a totalidade dos alunos norte-americanos, etc. tudo, portanto, numa escala esmagadora. Curiosamente, o filme não contabiliza o número de vacas à solta nas ruas das cidades indianas, que é coisa que sempre me fez confusão, a mim e a qualquer automobilista português, para não falar nos italianos.

Esta coisa das grandezas trouxe-me agora à memória o José Duque, alentejano que veio para Lagos abraçar a faina marítima na arte do rapa e que, certo dia, em Sagres, olhando a imensidão do mar atlântico desabafou: - que granda pupriedade… e nem um chaparro têin?!

Seguia eu a caminho de ficar preocupado com estas assombrosas revelações, as do filme, quando uma reflexão acidental – que no meu caso deveria classificar como normal, pois, devido a uma queda ocorrida em criança, só reflicto acidentalmente – me fez perceber as mais recentes estratégias político-económicas ocidentais. E esta ponderação abortou o desassossego em progressão.

Tranquilizei-me e sorri, semicerrando os olhos, assim ao estilo de um manchu matreiro, observando um imaginário adversário que se encontraria na minha frente, o que era difícil pois na minha frente está a lareira e… coitado, retomemos o enredo:
- Ah, vocês pensavam que de lojinha em lojinha iam tomar conta disto tudo? Por esta altura o leitor já percebeu que esta fala é minha, quer dizer, sou eu, de olhos semicerrados, tipo fú-manchu com um roupão de veludo azul e vermelho e uns bigodes pendentes, com quase meio metro, unhas enormíssimas e o cabelo num carrapito, a enfrentar o opositor, vou continuar: - Ah… pensavam que os ocidentais decadentes estavam a dormir? Pois bem se vão tramar! O farol da cultura ocidental não dorme em serviço, os nossos amigos americanos já reagiram e, em tempo útil, adoptaram o vosso estratagema: "um país, dois sistemas". Chama-se a isto “passar a perna” ou, para melhor entenderem: “passal a pelna”.

Pois foi, os americanos acabaram de instituir o socialismo para os ricos, com especial atenção às espécies em sobressalto: banqueiros, especuladores e políticos; enquanto mantêm o capitalismo para os pobres. Um país, dois sistemas. Assim é que é!

E em Portugal seguimos o mesmo caminho. Peço desculpa, uma vez que mete socialismo será mais apropriado dizer que “seguimos a mesma via”, assim é que está correcto.

Então, orientais, pensavam que os lusitanos estavam a dormir? Naaa… é que nós temos cá dois partidos de gente astuta, atenta a essas estratégias de levantinos que desejam, desavergonhadamente, roubar o lugar que nos pertence por direito, diritto di vino ainda para mais.

Repare o leitor que sempre foi a argúcia dos nossos governantes que nos salvou aos ditames dos de levante. Ao longo de toda a História sempre assim foi. São estes que cantava o Poeta quando os dizia da ínclita geração, o Camões pois claro. Eu nunca acreditei nessa tese que defende que o Poeta se referia aos filhos da Filipa de Lencastre, digo isto porque fitei demoradamente, e por diversas vezes, com o meu semblante de manchu, o filho que está sentado ali na Praça da Música vai quase para meio século, e não lhe vi jeito de ser ínclito, ainda para mais cagado pelas gaivotas. E veja-se, agora que o taparam ninguém se ofendeu. Ora vá-se lá tapar o Afonso, ao berço da nacionalidade. Esse, sim, um autêntico ínclito. Havia de ser lindo, as mães bragantinas montavam logo um arraial de bordoada como fizeram com as criaturas brasileiras que procuravam ganhar a vida a coberto da lei da economia popular: uma mulher para muitos homens; mas isso é outra história, a que havemos de voltar lá mais para o Natal, ou mesmo na Páscoa se o Carnaval for curto.

Ele sabia que isto ia ser assim, o Camões, claro. O Magalhães deve ter segredado qualquer coisita. E o leitor sabe como o Magalhães é assim coiso e tal com o nosso primeiro, aquela cena dos dois indicadores a esfregar um no outro, o leitor sabe como é. Embora me pareça que o distinto navegador também passou a “pelna” no nosso primeiro ao ter-lhe apresentado o PC anão como coisa sua, quando apenas se aproveitou do Anoa que é o nome do Classmate PC na Indonésia. Enfim, já um navegador anterior tinha trazido rosas para outro príncipe, mas desconfio que eram rosas falsificadas, a julgar pelo roseiral que depois veio a frutificar cá no jardim à beira mar arroteado. Provavelmente comprou-as na primeira loja chinesa que encontrou ali para o norte de África, sem sequer ter ido lá abaixo ao Bojador, é que nem uma fotografia trouxe que atestasse o feito, caramba. Ora custava alguma coisa fazer umas fotos com o telemóvel? Bom, deixemos em paz esse nosso conterrâneo porque o coitado, envergonhado, escondeu-se dentro de uma saca de serrapilheira, e lá permanece.

O leitor, senão distraído, já reparou que tergiverso, mas em minha defesa digo que não tenho culpa das palavras ganharem independência e atirarem-se assim à maluca para o ecrã, construindo as coisas mais díspares como por exemplo falar neste preciso momento de chinesices, quando as posso comprar baratas ali na loja da esquina, sim, que isso da crise, inflações, deflações e recessões são coisas que qualquer honesto trabalhador pode tratar no divã do psicólogo. Abro um parêntesis, que não o sendo exactamente, serve o propósito, no que toca às inflações e para dizer que algumas se tratavam com as tais brasileiras de Bragança, agora parece que já não.

É tempo de regressar ao assunto principal que me trouxe a este exercício de escrita, e de forma sintética porque já não cabem mais letras na página do jornal.

Assim, venho por este meio apresentar o meu profundo agradecimento ao PS e ao PSD por nos terem colocado no caminho do sistema duplo. Finalmente! Desde o tempo do Scotex, logo copiado pela Renova, que me questionava porque raio não aplicavam tal solução à política?!
Em suma: O que seria deste país sem as vossas figuras gradas, os vossos gestores, administradores, assessores, colaboradores e todo o universo de outros habilidosos obradores que, admiravelmente, conseguiram formar em pouco mais de três décadas de democracia?! Foi tarefa árdua, com cursos intensivos, workshops à descrição, acções de formação incidindo da Informática à apanha de lapas passando pelo aperfeiçoamento técnico do lamber envelopes, e muito dinheiro gasto, muito dinheiro da madame Europa, mas vejam como resultou em cheio.

Caros senhores, acredito que o povinho está convosco, entusiasmado e pronto a prestar qualquer ajuda ou auxílio, ou ambas em simultâneo, que entendais necessário.

Com serenidade e confiança no futuro recordo um antigo desabafo do nosso mais alto magistrado, proferido em contexto que incluía a figura do funcionário público: - só mesmo esperar que morram!

Logo, já sabem, figuras gradas, se precisarem de uma contribuição para esquifes, é só pedir. Eu dou!

E longa vida aos dois sistemas! Já chega de vivermos apenas com um.
Agora quero ver o tal senhor repetir: - É o sistema!!!
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Escrever pelo prazer de escrever. Escrever para melhorar a escrita. Cada vez mais, menos preocupado em "comunicar" com hipotéticos leitores. Porque são poucos os que lêem e desses, nem todos o fazem com a devida atenção.
Este artigo foi publicado num jornal local online e ninguém acusou a incongruência da referência à estátua de Afonso Henriques em Braga. Nenhum dos leitores, que comigo o comentou, se referiu ao “erro”. Continuo, pois, a achar que não vale a pena escrever para os outros. Continuarei a escrever para mim.

24.11.08

Cap. 36* - O Salário do Poeta



(…)
Os risinhos petulantes faziam-se ouvir na plateia, provenientes do balcão. Era o general, em palco, que suscitava tal galhofa devido ao seu chapéu e ao facto de trazer contratado um poeta que lhe haveria de fazer versos laudatórios. Assim o desejava, e esperava, o velho ditador, preso ao fio da vida pela recordação dos seus dias de poder, agora afrontado pelos fantasmas e medos que criou.
Era essa conotação com o poeta original, sentado no extremo oposto, lá em baixo, na plateia, que suscitava a mordacidade do grupo.
Pobres criaturas, crendo que a representação ocorria unicamente no palco. Ingénuas no saber de não serem mais do que marionetas, como os outros, suspensos nas cordas de quem, em cena, os faz representar. O teatro também é assim, mas o grupinho não suspeita sequer. Nem poderiam, pois não passam de leitores de Paulo Coelho, revistas cor-de-rosa e boletins astrológicos.
No palco, o diálogo dramatiza-se entre o poeta ajustado e o vil contratador e, lá em cima, nas últimas cadeiras, as insolências continuam, em voz sumida, quase murmúrio, receosa de ser escutada na plateia; seguida dos costumeiros risinhos contidos. Não fossem os microfones omnidireccionais colocados no auditório, justamente para registar os ruídos e observações da assistência e, de facto, nem seriam ouvidas...
Mais tarde, os actores haveriam de desgostar de tal atitude desrespeitadora do seu trabalho. – Gente gira, mas boçal. Diriam.
Nem tanto, diria eu. Se dissesse algo. Mas eu não estava disponível, entretido na observação das reacções aos produtos que introduzo no meu laboratório de cobaias: mais uns eléctrodos aqui, uma incisão lobotómica ali… continuam a mexer, e reagem. Bom sinal!
(…)


Excerto do Cap. 36 da prosa “cambra d’ar” (título provisório)

16.11.08

Há coisas que… só aos pares.


Manhã cedinho, uma dezena de jovens a caminho da escola e alguns adultos que vão trabalhar aguardam na paragem do bairro. O autocarro detém-se e o homem de meia-idade sobe os degraus, quase empurrado pela impetuosidade dos jovens que procuram ocupar os seus bancos preferidos. Subitamente, um dos sapatos do homem engancha a virola no rebordo do último degrau e salta-lhe do pé; caindo aos trambolhões, regressa ao empedrado da rua. Atrapalhado, o homem não reage com a necessária presença de espírito, alertando o condutor. Ora, este, verificando não haver mais ninguém na paragem, fecha a porta e inicia a marcha, sabendo que a algazarra dos estudantes terminará com o carro em movimento. Ainda meio confuso o homem permanece de pé, imóvel, olhando para o sapato que se afasta, para lá da porta envidraçada. Nos dois lugares contíguos à entrada, dois rapazolas trocam sorrisos cúmplices deliciados com o transtorno do velho.
Transformado o pensamento, vencida a inércia, o homem descalça o outro sapato e, após recuperar o equilíbrio da sacudidela provocada pela mudança de velocidade, abre a janela sobre a cabeça dos jovens, e atira-o para a rua. Estupefactos, os rapazes fitam o homem; ele, sentindo a sua incompreensão, explica: - Assim, se alguém encontrar o primeiro, também encontrará o outro, e pode ser que precise….
Vem isto a propósito de passarmos o tempo a perder coisas e sentirmos esses acontecimentos como uma arrelia, uma injustiça até, resultando por vezes em situação penosa. Ora, associada a qualquer perda está sempre uma mudança (cá está… coisas emparelhadas). E a mudança tanto pode ser negativa, como positiva. Num caso ou noutro, o importante é perceber que uma certa dose de desprendimento das coisas e até, dos conceitos, é desejável, neste mundo de objectos, convencionalismos e atitudes que se permutam por baixo valor e sem grande dispêndio racional.
Prosseguia eu neste desassossego mental quando olhei para a foto que viria a ilustrar este devaneio escrito e logo nova questão surgiu, ao relembrar uma passagem de texto lido há dias: “Um belo par de sapatos faz a mulher sentir-se tão poderosa que pode mudar totalmente a maneira como ela se porta”. Reparem, inadvertidos leitores, como já saltei do sapato de um reformado para os pés de uma mulher.
Não vou procurar explicações para obsessões com sapatos, que isso deve ser coisa vastamente estudada mas, será que o sapato realiza a conquista de um símbolo de identidade e, consequentemente, de afirmação e de poder? É certo que o sapato de salto alto pode fazer prodígios na aparência de uma mulher. Além de a fazer mais alta, altera a postura de outras partes do corpo. Uma suposta pesquisa, publicada na revista inglesa European Urology, indica que o uso do salto alto poderá ajudar a relaxar e a fortalecer os músculos da região pélvica, relacionados com o orgasmo. Um outro estudo, de origem brasileira, conclui que o uso de salto alto pode evitar problemas de varizes pois parece melhorar em cerca de 30% o bombeamento do sangue. Do outro lado da barricada, porém, estão um sem número de ortopedistas que atribuem ao salto alto inúmeros problemas nos pés, como calos, joanetes, inflamações nas unhas e problemas nos tornozelos. Mais um par de teses antagónicas, portanto.
Não faço a mínima ideia – nem isso me interessa –, se as mulheres se submetem aos sapatos para que os homens se submetam a elas (é evidente que deixo fora da equação aspectos simples como o prazer que o conforto de um bom sapato pode proporcionar), se os homens é que são subjugados pelo salto alto das mulheres; tão-pouco me interessa determinar se os automóveis estão para os homens como os saltos altos para as mulheres; nem mesmo explorar outras considerações sobre essas peças com que protegemos os vinte e seis ossinhos de cada pé.
Teria o maior prazer em deixar a imaginação rodar livremente e partilhar os resultados convosco, se não urgisse dar um fim ao episódio do sapato… ou melhor, do par de sapatos deixados na via pública pelo passageiro do autocarro.
Emanuel é uma personagem díspar, bem conhecido no bas-fond citadino. Sem posses, que consumiu há muito: o emprego, o automóvel, o mobiliário e uma panóplia de tarecos; tudo foi diluído em água destilada e injectado nas veias, sob o signo de um pó esbranquiçado. Foi ele que apanhou o sapato que o homem deixara cair do autocarro. Foi Emanuel que lutou com um velho pastor alemão, seu co-domiciliado habitual no jardim central, ali perto, resgatando o outro sapato à bestial dentadura canina. Depois, bastaram dois tacos de madeira e uns pregos, rebuscados no desperdício da carpintaria do Aníbal, para inventar uns proficientes saltos altos. E eis Emanuel com o seu magnetismo animal renovado, confiante, tentando o sucesso e a fortuna, a postos para calcorrear avenidas, entrar em prédios monumentais, fazer-se receber em distintos gabinetes de gente importante que, ouvindo-o, poderá ajudar.
É tudo uma questão de coisas… aos pares.

23.10.08

Fulgência

Admirava a estrela vermelha, a mais brilhante da constelação Orion, rodada a cabeça quase para Leste, quando o silêncio possível do tranquilo bairro desta pequena cidade foi interrompido por uma porta que se abre e uma voz de mulher gritando:
- Alexandre! Alexandre! Ó Alexaaandre!
E a resposta da voz imberbe, meio sumida na distância, respondendo:
- Vou jááá!!!
Ouvi a porta fechar-se e veio-me à ideia o movimento constante das ondas “em cada recuo, um recomeço”.
E não sei porquê.
Betelgueuse continuou a cintilar.

29.9.08

Não ficaria tão preocupado, compreende?

No momento da aterragem, com o avião oscilando num perigoso banking a baixa altitude, puxei o crucifixo para fora da camisa e, de olhos cerrados, beijei a imagem.

Aterrámos bem. Afinal, aquilo era o procedimento normal.
……..
O jornalista insistia em puxar-me pela manga do casaco enquanto as balas silvavam em torno de nós, espalmando-se contra a rocha do socalco onde nos encontrávamos. O homem estava estupefacto com a minha loucura, ali exposto às balas. Virei a cabeça para lhe sorrir no exacto momento em que uma das balas me perfurou o blusão de cabedal e se alojou no braço. Fiquei surpreendido e deixei-me cair para o lado do que me puxava. – Ó homem, você é doido? Você levou um tiro! E eu, meio aparvalhado, ainda disse: - Porra, o gajo falhou! Será um novato? Já pensou se fui atingido por uma bala de um puto que aguardou meses a fio pela autorização de participar num ataque? A bala pode estar suja, até mesmo oxidada. Esta merda pode infectar, já viu? Se o gajo tivesse acertado eu não ficaria tão preocupado, compreende? Só espero que a merda da bala não esteja infectada. Inch Allah!

E desmaiei.

É no que dá, ler coisas assim.

11.8.08

O Homem Biónico

(texto integral)

Perdeu as pernas e o braço direito no acidente. As próteses inteligentes que a Companhia de Seguros lhe proporcionou refizeram-lhe a vida de tal modo que quando saía de casa ninguém suspeitava que ali ia, simplesmente, uma metade de homem. Tal era a perfeição tecnológica dos dispositivos que lhe substituíam os membros naturais. Micro-circuitos electromecânicos permitiam-lhe, agora, executar movimentos antes impensáveis. Pequenos cérebros digitais programados reproduziam, minuciosamente, balanços e tremores naturais de um corpo humano, passadas largas, precisas, sem grande esforço ou cansaço. O conjunto das pernas continha uma pequena caixa electrónica com duas luzinhas sempre acesas, ora piscando ora fixas consoante o estado e as informações do sistema. Era o dispositivo de comando e controle, um avançado processador numérico que activava ou inibia minúsculas bombas de pressão, válvulas, micro servos, motores para aquecimento e ventilação, estruturas, tendões e músculos em fibras de kevlar, Trylam e Buckminsterfullerene e Biopolialanina, esse estranho produto resultante das investigações sobre biomimestismo das teias de aranha; controladores de humidade e temperatura, e da tonalidade da pele que mudava de acordo com a exposição aos raios solares, acompanhando as alterações sofridas pela sua genuína derme no resto do corpo. Um ligeiro zumbido, quase imperceptível ao ouvido humano, desprendia-se do mecanismo e esse era o único sinal revelador da sua existência.

Assim, de físico totalmente refeito pelos milagres da biotecnologia, o seu corpo alcançava uma sublime perfeição, muito para além dos propósitos do Criador. Não obstante tal reconstrução de si próprio, para além das inúmeras sessões de apoio psicológico que mantinha, uma estranha melancolia apossara-se do homem. Ausente de alegrias como se estas tivessem desaparecido com as partes em falta do seu corpo original, entediado ou decepcionado por, diariamente, encarar a dura realidade da reduzida dimensão do seu corpo verdadeiro, pois embora não sendo obrigado a isso, todos os dias removia as partes adicionais, recolhendo-se depois ao pequeno leito onde, na penumbra da noite, percorria, apalpando com a mão verdadeira, o minguado ser que era. Procuraria certificar-se de que não perdera mais nenhum bocado de si?! Desconfortável, num coto de figura incompleta, o homem ia esquecendo pouco a pouco o dinamismo dos dois primeiros anos em que fora descobrindo e desafiando as capacidades dos apêndices biónicos, a novidade que lhe permitira a prática de desportos que até então nunca experimentara, incontáveis e demorados convívios com os amigos, extensas e exóticas viagens pelo mundo. Tudo isso soçobrara numa profunda melancolia que o alargado pecúlio recebido a título indemnizatório não lograva ultrapassar. Agora, enfrentando a condição de ser semi-sintético, passada a novidade de possuir braço e pernas inteligentes quase indestrutíveis, o homem caíra num profundo torpor que o alheava totalmente das boas coisas da vida ao seu alcance.

Recolhia-se a uma cama de tamanho reduzido por não necessitar de uma de dimensões normais ou porque esta lhe ampliasse a miudeza que se sentia.

Originalmente de pequena estatura, era agora um nanico com menos de um metro de altura, ou comprimento, se, deitado; talvez fosse o homem mais pequeno do mundo. Consumido neste desarranjo depressivo o homem já raramente saía de casa. E não precisava. Tudo o que lhe era necessário, traziam-lhe à porta. Mordomias de sinistrado que a Seguradora provia enquanto fosse vivo.

Por vezes sentia-se obrigado a desligar os avisadores electrónicos dos apêndices, que teimavam solicitá-lo para passeatas higiénicas, relembrar-lhe tertúlias de amigos. Ora grasnavam as pernas, logo de madrugada, em polifonia sibilante piscando as luzinhas, ou o braço o desafiava para as partidas de ténis e jogos de bilhar que durante dois anos praticara com escrupulosa assiduidade. Nada disso lhe interessava mais, e aquelas vozes cibernéticas irritavam-no. Nem ligava à agenda de eventos do Moto Clube a que pertencia. Já nem tinha mota! Não que não pudesse conduzir uma. Hoje, com tais apetrechos biónicos bem podia acelerar sem medo pelas auto-estradas, montado em possante máquina que a larga fortuna lhe permitiria, ultrapassando os seus companheiros a 300 à hora, recorrendo à aptidão optimizadora da panóplia cyborg que possuía. Mas nada disso o excitava. Jazia, ensimesmado em pensamentos e sonhos de uma outra vida que poderia ter tido, desinteressado da que tinha.

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Numa tarde de Inverno, dessas que obrigam a ligar o aquecimento para enxotar as farripas de frio que se introduzem pela mais insignificante fresta de janela, em que corroía algum tempo ao computador, verificou com estranheza a quantidade de e-mails enviados para a empresa de próteses. Era normal as suas próteses reportarem à fábrica a necessidade de proceder a alguma manutenção ou enviar dados sobre pequenas afinações efectuadas, ou requisitar algum componente mas aquilo que ali estava representava um desmesurado volume de peças encomendadas. Que significaria tal coisa? Virou a cabeça e olhou interrogativamente para o suporte de alumínio onde encaixavam as pernas e o braço mas não proferiu qualquer pergunta a que os sistemas responderiam seguramente. Não interessava, as pernas e o braço que pedissem o que quisessem, era-lhe indiferente.

Cansado da posição incómoda a que o monitor do computador o obrigava, deixou descair a cabeça deslizando pelo lado da enorme almofada e entregou-se à planura da cama. Voltava aos sonhos e pensamentos imaginários, sendo-lhe difícil distinguir onde findavam os primeiros e começavam os segundos.

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Foi num dia que começou igual a tantos outros que a sala se encheu de pacotes e caixas de cartão provenientes da fábrica de próteses. Eram as encomendas. O sistema biónico, deslizando sobre as minúsculas rodinhas do suporte de alumínio anodizado, depressa tomou conta dos embrulhos e do seu conteúdo e, nos dias seguintes, o homem ouviu através da porta do quarto, entreaberta, uma série infindável de disparos das pistolas hidráulicas que posicionam, cortam e soldam peças, aspirando excessos e desperdícios. Mas nem estas tarefas executadas pelo avançado sistema biomecânico o removeram da prostração a que se votara. No final dos trabalhos veria que invenções tramavam as suas pernas coadjuvadas pelo fiel braço direito, na posse de tal parafernália.

Uns dias depois terminaram os ruídos e, quando o vulto do sistema biónico regressou ao quarto o homem verificou, estupefacto, que havia agora um ser com cabeça, tronco e o braço, que antes não existiam. O sistema, agora corpo completo e não simplesmente peças num suporte, tomou o seu lugar habitual, encostado à parede, estacionado em posição lateral à cama do homem. Ali, erecto, na obscuridade do quarto, aquele vulto imóvel era estranho, uma presença intimidadora a que não estava habituado.

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Deitado durante longos períodos, sob uma uma débil iluminação, quase residual, o homem ganhara o hábito de interpretar os mais ténues ruídos provenientes do exterior; do trânsito, das intempéries, de um ou outro altifalante anunciador de circo, produtos em saldo ou discursos gravados para ludibriar eleitores. Naquela manhã não foram os ruídos de fora nem os produzidos no interior da habitação que o despertaram. Não foram as lamúrias das suas próteses convidando-o, debalde, para sair, nem o fremir periódico dos transformadores durante as recargas eléctricas, mas sim o silêncio; um pesado silêncio despertara-o do sono leve em que planava. Rodou a cabeça e o olhar não encontrou as próteses, entretanto acrescentadas de restante carcaça humanóide; não estavam ali.

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Depois do corte da energia eléctrica e da linha de comunicações por falta de pagamento, cessaram as entregas domiciliárias, deixara de receber a comida, os jornais semanais que há muito desistira de ler mas continuamente recebera, e até a visita semanal da mulher da limpeza cessara. O quarto estava escuro e frio, muito frio, e o homem não despertava do delírio profundo em que mergulhara. Não acordaria mais.

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Os amigos ficaram entusiasmados com o seu regresso, voltara com boa disposição e ânimo, recuperara a alegria de viver. Saltitando sobre um pé, alternando para o outro, o homem parecia uma criança grande divertindo-se em equilíbrio sobre a beira do passeio empedrado, ou um funâmbulo passeando por corda esticada nas alturas. Prometera participar nas partidas de ténis e até aceitara o convite para um piquenique rural nas cercanias de uma aldeia da região saloia. Os amigos achavam-no um pouco mais alto, mais robusto, espadaúdo como nunca o tinham notado mas, satisfeitos com o retorno do companheiro generoso que tantas rodadas pagava aos confrades, não se importaram com as operações plásticas e acrescentos fisionómicos que pudesse ter feito no período em que se ausentara. Agora estava ali, era um tipo divertido, de humor contagiante, e isso sobrepunha-se a qualquer outro aspecto menos claro.

O homem despediu-se com um largo sorriso, dirigindo-se para a sua nova casa situada no bairro mais dispendioso da vila.

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Nas urgências, deitado sobre uma maca, o homem gemia. Uma das pernas pendia, praticamente decepada pela articulação coxo-femural, apoiada nas mãos do jovem enfermeiro estagiário para que não tombasse no chão. A outra perna jazia deposta ao lado da maca. De uma fractura exposta, num dos braços retorcido para trás, pelo ombro, jorrava sangue mal estancado pelo enfermeiro graduado que competia com outro colega e dois médicos pelo espaço exíguo em torno do homem que se esvaía. Recolhido de um acidente que envolvera o motociclo que pilotava, o homem, em choque, ora gemia de dor ora gritava pelas pernas e pelo braço biónicos, num chamamento pungente a que os profissionais da emergência médica não ligavam, empenhados na contenção das hemorragias que exauriam aquele corpo já meio perdido. - As minhas pernas andam por aí, andam por aí! Enganaram-me, as minhas pernas. Enganaram-me!


9.8.08

pensamentos descontínuos

A provocação sistemática
é a única reacção possível
contra a hipocrisia da sociedade
2001

5.8.08

a evulssão du uomãi cem cabessa



A fotografia, captada em contexto que nada deve ao conteúdo que se apresenta aqui, é usada para representar a evolução rumo ao homem biónico que, para além de “optimizado” nas suas capacidades físicas – não fuma, não ingere álcool e copula agendado – complementa o seu porte físico com apêndices hi-tech, dilatando o seu porte atlético, levando-o a acreditar-se capaz de desafiar Hermes.

Mas notem que é um homem sem cabeça (animal racional superior - entendo que o superlativo é apenas por não existir termo comparativo à altura), pois para coordenar simplesmente o amontoado de músculos, basta um pequeno chip no alto do pescoço. Recusa-se este homem a olhar além do seu corpo, ou de um outro temporariamente adentro do seu espaço vital por razões de prazer ou procriação. E é nessa recusa de sair de si, de pensar e agir, que o homem cede à NÃO CULTURA.

Vem isto a propósito dos inúmeros livros que se publicam neste país, especialmente nesta época, supostamente para que os veraneantes ocupem o intelecto com ARTE (coisas que mudam a mente). Ora, escrever/publicar um livro é um acto de arte, e é um grito de guerra. Porém, tal coisa é impossível num país sem guerreiros. Os que publicam profusamente são, na maioria, gente comatosa, entrincheirada, aprisionada, ou engajada na conservação do statu quo. Um livro, qualquer livro a sério, de fotografia ou um romance, exige inquietude, angústia, raiva, desespero, revolta, ressentimento, temperamento trágico e conhecimento exterior a si. Exige o concurso de todas estas propriedades ou apenas de algumas, mas não seguramente as "qualidades" que escoam das páginas da maioria do que é publicado entre nós. Pura lerdice imprópria para exercitar a inteligência.

A única coisa que por cá se publica é folhetins de passeios de endinheirados meninos de outrora, hoje figuras de ecrãs. Isso, e biografias encomendadas, de putas demandando ajustes de contas. Comparativamente, este segundo tema merece mais crédito, pelos atributos éticos e morais das biografadas, mas não pela qualidade literária dos volumes produzidos.

Cuidem-se, pois, das obscenidades que as editoras apresentam nesta altura e rebusquem nas literaturas de épocas em que existiam escritores – gente que usava a cabeça e não apêndices de carbono –, as obras para vosso deleite intelectual. Fica uma sugestão: “A Derrocada da Baliverna”, de Dino Buzzatti.

A evitar: Reedições de Lobsang Rampa (que estas coisas da terceira visão são viciosas), ou os comoventes moralismos de Paulus Lepus.

Boas Férias.

F.Castelo

31.7.08

Coca Cola Time

Sentei-me num dos cantos da esplanada para, em cinco minutos, tomar a habitual meia-de-leite, ritual que acompanha o diário Glucophage (coisas de diabético). Ali, ao canto, o meu cachimbo não incomodava a jovem que, no centro da esplanada, tomava o seu pequeno-almoço. Em frente, do outro lado da pequena rua, uma equipa procedia à montagem de um toldo protector da montra da loja de recuerdos. Empoleirado, numa escada, um homem de meia-idade vai aparafusando os suportes do toldo, recebendo a assistência de um jovem Adónis moreno. A rapariga não desvia os olhos do exemplar latino, seguindo-lhe as idas e voltas à viatura de apoio. Cada movimento dele produz uma dentada na tosta que ela deglute afincadamente. Eu acompanho o deslumbramento da jovem e, findo o meu ritual, pago, levanto-me e abandono o local, deixando-a entregue ao seu sôfrego enlevo matinal.

19.7.08

A Barca Bela ou de como a bela foi na barca

Martim saltou para a barca e um dos homens firmou as mãos na laje do cais, empurrando-a, afastando a embarcação. A correnteza da maré era tão fraca que nem ajudou a vencer a escassa milha1 que separa o velho cais da foz da ribeira, encastrada nos areais, para lá da praia de S. Roque2. Trabalharam os remos.

Iam para Alvor por mor de reparar o mastro quebrado da barca. Não que não houvesse mãos capazes de o fazer no burgo mas por respeito pelo contrato de assistência da marca. Assim ordenara Gil Eanes interpretando a proverbial avareza do seu amo, o senhor Infante D. Henrique. Para quê pagar tal serviço a artesãos do lugar se, a parca distância, tinham um serviço gratuito?! Assim ajustava o auto de garantia firmado na compra da barca, num stand da feira náutica de Alvor, no dia dezoito de Fevereiro do ano da graça de MCDXXXI (mil quatrocentos e trinta e um - para a malta recém formada pelo sistema de ensino português não entender como um cartão de memória digital).

Não esperava Martim encontrar um ínvido funcionário no estaleiro de Alvor, homem de meia-idade, calvo, de estranho tino e paciência mínima. Que não, que tal reparação nunca poderia ser executada com tal rapidez, argumentava o tonsurado calafate. Que sim, respondia o imberbe marinheiro do escudeiro Eanes, que tal houvera sido combinado uma semana antes entre o seu amo e o mestre do estaleiro. A barca teria de ficar operacional para a empresa que se avizinhava. Era urgente, exclamava o jovem lacobrigense de feição pueril - por vezes enganadora do seu género - ao obstinado alvoreiro.

Descansando da pesada remada que vencera a baía e a corrente do rio, acolhidos na sombra dos decaídos barracos de apetrechos do estaleiro, os oito remadores aguardavam o desenrolar da discussão. Para lá da faixa de sombra projectada no terreiro lamacento, sob a inclemente baforada algarvia do astro rei, fulge o rosto irado do mancebo e rebrilha a calva do recepcionista da instalação náutica. Por esta altura pensarão os remadores que a demanda vai descambar em pancadaria, enquanto deslizam olhares duvidosos na apreciação dos franzinos bicípites do arrais da barca, revelando falta de robustez para brandir convenientemente um remo. A barca assiste, serenamente, ao arrazoado diálogo que o seu mastro partido originou, baloiçando-se, alheada, nas águas cristalinas provenientes da serra de Monchique que ali se caldeiam com as do oceano.

Não se chega a vias de facto, nem saberemos se tal iria acontecer. A intervenção do mestre carpinteiro, entretanto chegado ao bulício, determina que os serventes alem o batel e que se apressem nas reparações.

A companha maruja regressa à cidade a pé, depois de franqueada à margem poente da foz alvorina, desviando-se episodicamente do extenso areal da meia praia para breves incursões aos laranjais e vinhas que bordejam a doirada moldura da baía. O jovem ocupa a frente do pelotão, num porte altivo, sacudido apenas quando enterra um dos pés nas areias quentes que a maré alta deixou por caminho, alheio ao chamamento das guloseimas que amiúde experimentou, então à sorrelfa de trabalhos e empenhamentos ordenados pelo seu amo. Segue orgulhoso, brilhando-lhe os olhos esverdeados onde se reflecte, esbatida, a alvura do casario da cidade que se aproxima.

(…)

O senhor Infante está na Vila! E logo tremeram os serventes da sua casa, os gentis-homens e outros destacados cidadãos da urbe, tremendo crianças e mulheres, das virtuosas às toleradas, senhoras, trapeiras, donzelas de coifa ou descabeladas padeiras, tremeram as alimárias citadinas sob a cangalha das bilhas da água que distribuem, agitaram-se as grasnentas gaivotas e, até, os barcos em manobra ou ancorados estremeceram: desamarra-me! Parecia gritar o barinel. -Que quero partir rio baixo, à deriva. Parecia assim, mas não seria apenas singelo baloiçar das águas em correnteza ditada pela estrela lunar?

Imerecido e injusto juízo é o destas fracas gentes acerca deste dignatário da ínclita geração.

(...)

1 – Inicialmente, igual a mil passos, a milha acabou sendo modificada para cerca de três vezes essa distância. A distância a que aludimos não seria superior a 600m.

2 – Crê-se que a barra da ribeira de Bensafrim terá, ao longo da Idade Média e Moderna, alternado a sua localização entre a indicada no texto e a actual, devido a processos de assoreamento e desassoreamento das referidas barras.

12.7.08

merdas do calor

Faço poemas como se cuspisse. Ou melhor, como se escarrasse. Com o mesmo desprendimento desse impulso secundário. Fazer poemas, tal como ler ou fotografar, afasta-me do que verdadeiramente gosto, escrever prosa – mordaz, humorística, o drama, ou a ficção – por isso maltrato essas actividades. E toda a gente gosta mais dos meus poemas do que dessa outra escrituração que exercito. Isso ainda me indispõe mais com a escrita poética. Isto vem a propósito de ter escrito isto em cinco minutos, enquanto ia trocando considerações sobre poesia acidental com a Mena G, no messenger.

15.6.08

D. Sebastião e o Vidente

«... Apesar do seu mester de puta, fora sempre uma mulher temente a Deus, nunca deixando de dar esmolas para a Igreja ou de ir nas procissões de penitentes quando o trabalho lho permitia e, durante os anos de encarceramento nas prisões do Santo Ofício, suplicara em vão por um padre que a ouvisse em confissão, mas tal privilégio era apenas concedido aos moribundos e nem esse parco consolo lograra obter dos inquisidores.

Ao contrário de muitas companheiras de ofício, jamais se entregara a práticas de feitiçaria, nem usara receitas ou filtros para prender um amante, como abafar um peixe vivo na madre e servir-lho cozido, feito de que se gabava a amiga Angustias, amassar e moldar uma broa nas nádegas para lha oferecer acabada de sair do forno, segundo aconselhava a azougada Rosália ou ainda fazer-lhe beber uma mistura do seu próprio sémen com o sangue das suas regras, remédio infalível oferecido pela velha Francisca, de um bordel de Sevilha. Os inquisidores tinham certamente arrancado essas acusações à sua criada, às companheiras daquela noite lhe bastara o seu engenho e arte, além da beleza do rosto e da perfeição do corpo que, para bem e para mal dos seus pecados, lhe pusera aos pés, rendida em carne e espírito e com a bolsa aberta, a realeza de Espanha.

À vista do seu corpo nu, nem mesmo os padres inquisidores que lhe davam os tratos haviam escapado à tentação do desejo e ao pecado da luxúria. Apesar do terror e do sofrimento, não pudera deixar de ver o brilho lascivo dos olhos fugidios, o suor e a vermelhidão dos rostos convulsionados pelo alvoroço do sexo e do sangue, enquanto lhe afastavam as coxas e lhe escanhoavam a sedosa cabeleira entre as pernas, metendo-lhe os dedos brutais na vagina ou usando umas agulhas compridas para lhe esquadrinharem os lábios e o clítoris à procura do estigma maléfico, da marca da feiticeira, quando se inclinavam para lhe perguntar onde tens escondida a Garra do Diabo?, as línguas lambendo os beiços secos da volúpia com que observavam as contorções do seu corpo preso ao potro, arqueando-se a cada volta das cordas que lhe esticavam os braços e as pernas, até os seios parecerem rebentar-lhe no peito e as nádegas e coxas abrirem os seus íntimos, resguardos à concupiscência daquelas naturezas que os hábitos negros, os cilícios e os jejuns não logravam amortalhar: fornicaste com o Demo? praticaste o acto nefando da sodomia?

Não saberia dizer se era o remorso, se o medo do Inferno ou apenas a sua torpe perversidade que levava os padres inquisidores a encarniçarem-se com requintes de pasmosa crueza contras as partes do seu corpo que amantes poetas haviam outrora glorificado em canções e vilancicos já olvidados. Com os ossos quebrados e deformados, violada e sodomizada por toda a sorte de objectos rombos ou cortantes da infernal panóplia dos seus algozes que a rasgavam e mutilavam até à inconsciência da dor, usada e abusada na cela pelos carcereiros e guardas na impunidade da escuridão e do abandono, a sua pele de nácar e rosas tornara-se num pergaminho enrugado por roxas cicatrizes, donde pendiam as pregas dos seios queimados, sem mamilos, e a boca do seu corpo, fonte de desejos e duelos, era agora uma fossa pútrida a destilar venenos.

(...)

Um fio do pálido sol de Dezembro incidia nos cabelos do Desejado, arrancando-lhe fulgores de cobre que lhe manchavam o rosto de uma poeira dourada, acentuando o brilho azulado dos olhos. “Bastião! Bastião!”, gritou Luna Diaz com todas as forças do seu peito, erguendo as mãos para a tribuna, mas o nome que a sua dor soltou e a língua mutilada não pôde articular soou como um ronco animalesco de agonia que fez estremecer de asco el-rei D. Sebastião.»

“D. Sebastião e o Vidente”, de Deana Barroqueiro, Porto Editora 2006

13.6.08

meio ambiente ou ambiente?

É verdade que a palavra ambiente também é adjectivo e que meios, há muitos, pelo que a expressão meio ambiente não está errada mas, por uma questão de preferência pessoal uso apenas a palavra ambiente para designar aquilo que muitos definem como meio ambiente. Seja o termo meio ambiente um pleonasmo ou não, a verdade é que por força de uso exagerado já não reconheço autenticidade na expressão. Acontece o mesmo com a expressão desenvolvimento sustentado que, abusivamente, se utiliza nas mais disparatadas aplicações. É apenas uma questão de "inflação" do vocabulário.

8.6.08

pensamentros de Lao Tizé

Os trabalhadores mais incapazes são sistematicamente promovidos para o lugar onde possam causar menos danos: a chefia. Eis porque as hierarquias são como as prateleiras, quanto mais altas mais inúteis.

1.6.08

afinal, sou um europeu subsidiado, ou não?


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