Teatro do Absurdo (revisto em 2007.06.25)

NOTA AOS LEITORES: Considerando o elevado número de leitores deste artigo, cumpre-me alertar para o facto de as ideias aqui expostas não passarem de opiniões do autor, simples espectador de Teatro - e sem qualquer formação académica, ou de outra índole, na área das artes. Alerto especialmente os estudantes para tratarem com a máxima reserva, e profundo sentido crítico, o conteúdo do presente artigo.
"O Futuro está nos Ovos" de Ionesco, por: OMINED, TeatrOficina e Grupo Dramático do Grupo Coral de Lagos - 2005


Teatro do Absurdo é uma designação genérica formulada pelo escritor e crítico (francês) inglês Martin Esslin para designar um importante acontecimento, no Teatro do século XX, que rompe com os conceitos tradicionais do teatro ocidental. O absurdo das situações mas também a desconstrução da linguagem*, enquanto tal, conferiu a este acontecimento um movimento dramático de marcada profundidade. Denunciar a futilidade do quotidiano, a existência despida de significado e colocar em cena a irracionalidade que grassa no mundo e onde a humanidade se perde, são os objectivos principais.

Nesta corrente se inscrevem, desde logo, o teatro de Beckett, Ionesco, Arrabal, e as primeiras peças de Adamov e de Genet. Bebendo nas fontes filosóficas, esta concepção da arte de representar encontra apoio nos escritos teóricos de Antonin Artaud e na noção brechtiana do efeito de distanciamento (um ajustamento da representação dos actores e da organização geral do espectáculo de modo a realçar a expressão da crítica social, tendo como finalidade o fortalecimento de uma consciência de classe nas massas). A aparente condição absurda da vida é um tema existencialista que encontramos também em Sartre e Camus, mas em que estes autores recorrem à dramaturgia convencional, desenvolvendo o tema segundo uma ordem racional.
Nesse ambiente pós-guerra floresce a tentação dos escritores pela experiência de um contacto mais directo com o público, evidenciam-se, pela importância das suas obras: Henri de Montherland (La Reine Morte, Fils de Personne, Malatesta, Le Maître de Santiago, Port-Royale, La Ville dont le Prince est un Enfant, La Guerre Civile); Albert Camus (Calígula, Le Malentendu, Les Justes, LÉtat de Siége, Requiem pour une Nonne, Les Possédes); Jean-Paul Sarte ( Les Mouches, Huis Clos, Morts sans Sépulture, Les Maines Sales, La P. Respectueuse, Le Diable e le Bom Dieu, Nekrassov, Les Séquestrés d’Altona). Depois surgem Jean Genet (Les Bonnes - 1947), E. Ionesco (A Cantora Careca e A Lição – 1950) e S. Beckett (À Espera de Godot - 1953), que iniciam a geração da abordagem expressionista, psicanalítica, que partindo de Rimbaud, Lautréamont, Jarry e Strindberg desaguam em Michaux, Kafka, Artaud e outros. É o tempo em que as angústias existenciais, as revoltas interiores, as tentações niilistas se cristalizam na sátira e na ironia repleta de humor negro. O teatro proclama uma vontade revolucionária de mudar a vida.
Indubitavelmente influenciado pela peça Huis Clos**, de Sartre, o Teatro do Absurdo não foi, porém, nem um movimento nem uma escola e todos os criadores implicados mostram-se extremamente individualistas formando um grupo muito heterogéneo. Em comum, partilham a rejeição do teatro tradicional e a adopção da caracterização psicológica, da coerência estrutural e do poder da comunicação pelo diálogo.

Nos anos 50, Samuel Beckett e Jean Vauthier - herdeiros de Alfred Jarry e dos surrealistas - introduzem o absurdo no seio da própria linguagem, pondo em evidência a dificuldade que temos em comunicar e compreender o verdadeiro sentido das palavras, e a consequente angústia de o não conseguirmos.

Recorrendo a processos de distanciação**** e de despersonalização estas peças desmontam as estruturas da consciência e da lógica da linguagem e expõem os anti-heróis sujeitos à sua fatalidade metafísica, seres errantes destituídos de referenciais, como que aprisionados por forças invisíveis num universo hostil. E é essa fragilidade que se denuncia ao mostrar o abismo que existe entre os princípios nobres que somos capazes de enunciar e eleger e a praxis do quotidiano.

As peças obedecem a uma lógica assente na caracterização psicológica e no estatuto das personagens, no enredo, nos objectos e no espaço – identificado/relacionado com a personagem.

Podemos identificar, na base do Teatro do Absurdo, o contributo de
Alfred Jarry (18731907) e como percursores: Guillaume Apollinaire (18801918); Antonin Artaud (18931948); Roger Vitrac (18991952); Julien Torma (19021933). Dos pioneiros, autores que vão impulsionar verdadeiramente este teatro d’avant-garde, destacam-se: Samuel Beckett (19061989); Arthur Adamov (19081970); Eugène Ionesco (19091994); Jean-Paul Sartre*** (1905 - 1980). E na galeria dos herdeiros constam: Boris Vian (19201959); Edward Albee (1928 – ); Harold Pinter (1930 – ); Slavomir Mrozek (1930 – ); Fernando Arrabal (1932 – ); Tom Stoppard (1937 – ).


* Os textos procuram “corromper” os seus significados tradicionais, criando novos contextos e permitindo novas leituras, por vezes num processo contínuo e vertiginoso.

** Em Hui Clos, Sartre reúne três mortos condenados a dialogar pela eternidade. Cada personagem é o inferno de outro na medida em que passa em revista a sua vida no intuito de a criticar. O inferno é, pois, a obrigação de ver a sua vida julgada pelos outros sem ter possibilidade de a modificar, de corrigir os erros, pois a morte pôs fim à faculdade de escolher. Sarte mostra, assim, que a existência é o lugar essencial para as nossas escolhas e para o exercício da nossa liberdade já que os nossos actos implicam uma responsabilidade à qual não nos podemos eximir.
*** É inquestionável o papel de Sartre no Teatro de Vanguarda. Já esta referência como um dos impulsionadores do Teatro do Absurdo é muito discutível. Porém, na dificuldade em estabelecer as fronteiras entre estes dois fenómenos culturais, e na ausência de conhecimento concreto sobre onde começa e termina a influência do teatro de vanguarda no teatro do absurdo, faço eco desta perspectiva enunciada por uma certa "escola" francesa de história do teatro.
**** "distanciação" no sentido brechtiano do termo, i. e. "afastar a familiaridade, onde possa haver qualquer identificação do espectador com as personagens, e qualquer atitude passiva, para suscitar uma atitude desperta e crítica, capaz de fazer apreender a lição social que a peça comporta" (in pimentanegra).
consultas:
História do Teatro, de Robert Pignarre – Publicações Europa-América, 1979

NOTA AOS LEITORES: Considerando o elevado número de leitores deste artigo, cumpre-me alertar para o facto de as ideias aqui expostas não passarem de opiniões do autor, simples espectador de Teatro - e sem qualquer formação académica, ou de outra índole, na área das artes. Alerto especialmente os estudantes para tratarem com a máxima reserva, e profundo sentido crítico, o conteúdo do presente artigo.

8 comentários:

Anton disse...

Tens uma mania de transformar os teus blogues e sites em arquivos de inutilidades.

efe disse...

sim. e tu cá, empalhado, serias um belo motivo decorativo.

;p

Anónimo disse...

obrigadisssssima...que explicação maravilhosa...obrigada mesmo***

Alan David disse...

Faz bastante tempo que você revisou o texto, quase 3 anos, mas quero te perguntar se tem algum livro de Julien Torma. Me interessei pois meu sobrenome também é Torma e é bem incomum, além de ter achado interessante a história dele.

francisco disse...

Caro Alan David, infelizmente não posso ajudar pois não tenho mais referências sobre o autor em questão. Recomendo-lhe uma visita aos sítios linkados no final do meu artigo, talvez aí encontre mais alguma informação.
Saúde.

Anónimo disse...

livro:
O teatro do absurdo – Martin Esslin

http://rapidshare.com/files/403363076/Esslin__Martin_-_O_teatro_do_absurdo__1968_.rar.html

Anónimo disse...

Martin Esslin não é francês!

francisco disse...

o Anónimo tem razão. Martin Esslin é inglês. E eu segui no erro replicado noutras fontes que o dão como francês. Obrigado pela correcção.