Sob um céu azul e luminoso, num pequeno país abeirado ao mar, repleto de prédios e faixas alcatroadas ao longo do litoral, deparo com multidões de gente que caminha curvada, dobrada sobre si própria, sob o peso da dívida que carrega às costas. Perguntei para onde iam, responderam-me que não sabiam, que deambulavam por ali como sempre o tinham feito desde o princípio dos tempos. Certamente tinham um rumo, um objectivo, cumprindo um desígnio definido por alguém, mas que não sabiam, não conheciam tal destino. Rostos tristes, austeros, talhados no tinto e no fado e neles anestesiados, não reclamam, não lamentam, não reagem ao peso do fardo que transportam; aceitando-o como parte do seu ser, porque com ele já nasceram. Em cada esquina o mesmo, em cada rosto a igualdade sem desespero, sem brilho, sem felicidade, ostentando apenas a resignação que cedo lhes foi inculcada. A resignação dos condenados. Em vez de tentar compreender as multidões, integrei-me na fila mais próxima, segurando uma vela na mão direita e suportando o estranho peso que imediatamente me obrigou a dobrar o tronco. Num breve relance enquanto baixava o rosto e o olhar para o chão, ainda vislumbrei umas pessoas por detrás das janelas enormes da vivenda mais próxima, erectas, engravatadas, segurando flutes de champanhe e sorrindo, felizes. E nós lá seguimos entorpecidos num cepticismo imbecil, numa anulação de qualquer esforço mental, caquécticos de oito séculos.
Inspirado em “Cada Um Com a Sua Quimera” in O SPLEEN DE PARIS, de C. Baudelaire