Apetecia-me chamar-lhes FILHOS DA PUTA!


Apetecia-me chamar-lhes filhos da puta, mas não vale a pena. Para gente assim até seria um elogio.

Ladravam os cães ajudando os homens no cerco ao bicho. Mostravam os dentes, ameaçadores, mas temiam atacar aquele animal desconhecido. A mulher assomou à porta e, intrigada, acabou por sair a investigar a causa da algazarra. Percorridos os curtos metros que a separavam do bando eufórico deparou com um texugo, agachado, voltando-se à vez para cada um dos cães que ousava aproximar-se mais, assumindo uma posição defensiva que intrigava os canídeos. A mulher, recordando memórias da juventude e do conhecimento das coisas da Serra exclamou: - Ahhh! É um texugo. Deixem o bicho que não faz mal nenhum!

Os homens acabaram com o alarido, chamando os cães e afastando-se do animal, como se o facto de o saberem texugo o transformasse em camarada de jogatanas de cartas ou de exultantes sessões de futebol em frente do televisor. Deixaram o texugo esgueirar-se para as moitas. Não falaram mais sobre o assunto e voltaram ao trabalho. Regressada às lides da cozinha escutou a mulher, uns minutos depois, a voz de um recém-chegado que ouvindo a história pergunta pelo bicho, que nunca vira um, que o queria ver. Os outros indicam-lhe o provável esconderijo do animal e ele para lá se encaminha rapidamente. A mulher, atarefada no seu trabalho, esqueceu o episódio.
Ao meio-dia, quando todos se sentavam à mesa para a refeição que a mulher ia servir, disse o tal retardatário, ignorante do mundo animal, em conversa com os outros: – Nunca tinha visto um bicho assim, com uns riscos no focinho… A mulher interrompeu-o : - Pois eu vi muitos na minha infância. São bonitos, e não fazem mal a ninguém. O homem atalhou de imediato, em voz bem viva e de rosto aberto em largo e generoso riso: - Pois este não faz mesmo mal nenhum, dei cabo dele à porrada.
Assim fizera. Levara consigo um pau comprido, não fosse o tal texugo revelar-se um animal perigoso. Afinal, não parecia nada perigoso mas, pelo sim pelo não, desalojou-o do improvisado covil, sob a densa ramagem de um arbusto enorme e, aproveitando a confusão do animal devido à presença dos cães, assestou-lhe umas valentes pauladas no lombo e na cabeça.
Foi mais ou menos assim que aconteceu no mês de Junho de 2007, na freguesia de Odiáxere, no concelho de Lagos.
Que raio posso dizer sobre isto senão que tal acontecimento é natural num país em que a maioria da população cada vez se afunda mais na mais abjecta ignorância. Tem este país investido largamente no fortalecimento desta prole de bárbaros, idiotas e débeis mentais que medem a inteligência pela capacidade de nomear os melhores e os piores jogadores de futebol, de saber quantos liftings faciais ou rectais fez a Tia asquerosa que só é gente na TV - essa TV que os alimenta a biberão com um inexaurível esgoto, essa televisão nacional que é o veículo privilegiado para a propagação da doutrina maior do regime: instalar e manter a ignorância e a boçalidade; intoxicar e desinformar; controlar assim, facilmente, a dócil manada de asnos.
Era apenas um inofensivo texugo, porra!

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por cima das nuvens



Dia de chuva. Chuva miudinha, da que cai para chatear. Dia de chumbo que acinzenta o ânimo e a alegria. Mas, lá por cima dessas nuvens radia o Sol iluminando o que, cá por baixo, teima em tristeza. Só quem já atravessou estas nuvens numa Asa Delta e descobriu um dia de Verão para lá dessa cortina horizontal de água suspensa percebe quão efémero, falso e enganador é o dia cinzento. Deixo que umas volutas de fumo se soltem do fiel cachimbo e deixo, também, que me enganem essas singelas fumaças, vendo-as ascender e engrossar as névoas suspensas lá em cima. Em breve cairão em lágrimas de um pranto que, esgotado, revelará um sorriso renovado. E amanhã poderá ser dia de praia.