«Extremismo não é apenas ter uma
opinião política muito à direita ou muito à esquerda. Extremismo também é, com
certeza, chegar ao ponto em que deixamos de admitir que alguém razoável possa
olhar para o mesmo problema e chegar a uma conclusão diferente da nossa. É
quando a divergência deixa de ser “acho que estás errado” e passa a ser “não
aceito sequer estar no mesmo espaço que tu”. E há uma diferença enorme entre as
duas coisas.
Se alguém considera que subir ao
mesmo palco de Jerry Seinfeld viola os seus princípios pessoais, tem
evidentemente todo o direito de não subir. Ninguém deve ser obrigado a
trabalhar num espetáculo contra a própria consciência. Mas eu também tenho o
direito de olhar para um movimento coletivo de desistências e perguntar se não
começámos a transformar a discordância política numa espécie de teste de pureza
ideológica.
Porque esta cultura de boicote
permanente, de choque moral e de presunção de que “nós” somos os representantes
oficiais da virtude e quem pensa de maneira diferente passou automaticamente
para o lado do mal… para mim, é profundamente tóxica. Já dura há anos e, em vez
de diminuir a polarização, alimenta-a.
E quando chegamos ao ponto em que a
pessoa deixa de ser simplesmente alguém com uma opinião errada e passa a ser
alguém que deve ser afastado, silenciado ou profissionalmente punido, isso
começa a parecer-me outra coisa.
É totalitarismo ideológico camuflado
de virtude.
(Há uma ironia deliciosa nisto tudo:
quem mais diz querer combater o extremismo é, muitas vezes, quem mais depressa
se comporta como extremista.
Será que nem dão por ela?)»
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