Há coisas que… só aos pares.


Manhã cedinho, uma dezena de jovens a caminho da escola e alguns adultos que vão trabalhar aguardam na paragem do bairro. O autocarro detém-se e o homem de meia-idade sobe os degraus, quase empurrado pela impetuosidade dos jovens que procuram ocupar os seus bancos preferidos. Subitamente, um dos sapatos do homem engancha a virola no rebordo do último degrau e salta-lhe do pé; caindo aos trambolhões, regressa ao empedrado da rua. Atrapalhado, o homem não reage com a necessária presença de espírito, alertando o condutor. Ora, este, verificando não haver mais ninguém na paragem, fecha a porta e inicia a marcha, sabendo que a algazarra dos estudantes terminará com o carro em movimento. Ainda meio confuso o homem permanece de pé, imóvel, olhando para o sapato que se afasta, para lá da porta envidraçada. Nos dois lugares contíguos à entrada, dois rapazolas trocam sorrisos cúmplices deliciados com o transtorno do velho.
Transformado o pensamento, vencida a inércia, o homem descalça o outro sapato e, após recuperar o equilíbrio da sacudidela provocada pela mudança de velocidade, abre a janela sobre a cabeça dos jovens, e atira-o para a rua. Estupefactos, os rapazes fitam o homem; ele, sentindo a sua incompreensão, explica: - Assim, se alguém encontrar o primeiro, também encontrará o outro, e pode ser que precise….
Vem isto a propósito de passarmos o tempo a perder coisas e sentirmos esses acontecimentos como uma arrelia, uma injustiça até, resultando por vezes em situação penosa. Ora, associada a qualquer perda está sempre uma mudança (cá está… coisas emparelhadas). E a mudança tanto pode ser negativa, como positiva. Num caso ou noutro, o importante é perceber que uma certa dose de desprendimento das coisas e até, dos conceitos, é desejável, neste mundo de objectos, convencionalismos e atitudes que se permutam por baixo valor e sem grande dispêndio racional.
Prosseguia eu neste desassossego mental quando olhei para a foto que viria a ilustrar este devaneio escrito e logo nova questão surgiu, ao relembrar uma passagem de texto lido há dias: “Um belo par de sapatos faz a mulher sentir-se tão poderosa que pode mudar totalmente a maneira como ela se porta”. Reparem, inadvertidos leitores, como já saltei do sapato de um reformado para os pés de uma mulher.
Não vou procurar explicações para obsessões com sapatos, que isso deve ser coisa vastamente estudada mas, será que o sapato realiza a conquista de um símbolo de identidade e, consequentemente, de afirmação e de poder? É certo que o sapato de salto alto pode fazer prodígios na aparência de uma mulher. Além de a fazer mais alta, altera a postura de outras partes do corpo. Uma suposta pesquisa, publicada na revista inglesa European Urology, indica que o uso do salto alto poderá ajudar a relaxar e a fortalecer os músculos da região pélvica, relacionados com o orgasmo. Um outro estudo, de origem brasileira, conclui que o uso de salto alto pode evitar problemas de varizes pois parece melhorar em cerca de 30% o bombeamento do sangue. Do outro lado da barricada, porém, estão um sem número de ortopedistas que atribuem ao salto alto inúmeros problemas nos pés, como calos, joanetes, inflamações nas unhas e problemas nos tornozelos. Mais um par de teses antagónicas, portanto.
Não faço a mínima ideia – nem isso me interessa –, se as mulheres se submetem aos sapatos para que os homens se submetam a elas (é evidente que deixo fora da equação aspectos simples como o prazer que o conforto de um bom sapato pode proporcionar), se os homens é que são subjugados pelo salto alto das mulheres; tão-pouco me interessa determinar se os automóveis estão para os homens como os saltos altos para as mulheres; nem mesmo explorar outras considerações sobre essas peças com que protegemos os vinte e seis ossinhos de cada pé.
Teria o maior prazer em deixar a imaginação rodar livremente e partilhar os resultados convosco, se não urgisse dar um fim ao episódio do sapato… ou melhor, do par de sapatos deixados na via pública pelo passageiro do autocarro.
Emanuel é uma personagem díspar, bem conhecido no bas-fond citadino. Sem posses, que consumiu há muito: o emprego, o automóvel, o mobiliário e uma panóplia de tarecos; tudo foi diluído em água destilada e injectado nas veias, sob o signo de um pó esbranquiçado. Foi ele que apanhou o sapato que o homem deixara cair do autocarro. Foi Emanuel que lutou com um velho pastor alemão, seu co-domiciliado habitual no jardim central, ali perto, resgatando o outro sapato à bestial dentadura canina. Depois, bastaram dois tacos de madeira e uns pregos, rebuscados no desperdício da carpintaria do Aníbal, para inventar uns proficientes saltos altos. E eis Emanuel com o seu magnetismo animal renovado, confiante, tentando o sucesso e a fortuna, a postos para calcorrear avenidas, entrar em prédios monumentais, fazer-se receber em distintos gabinetes de gente importante que, ouvindo-o, poderá ajudar.
É tudo uma questão de coisas… aos pares.

16 comentários:

Mena G disse...

Só te digo: amanhã, sem falta, compro um par de botas de salto alto!
Um par!

efe disse...

Pois, um par é que tá certo.
;)

mariposa do sul disse...

Sapatos de salto alto?
Adoro!
Fazem toda a diferença.

efe disse...

explica-me a diferença, mariposa.

mariposa disse...

Terias de ser nina para entender.
A diferença esta na postura e elegância.
Maquilhagem e saltos altos podem não fazer um par, mas fazem milagres ao ego de uma mulher

efe disse...

Mariposa, mas Maquilhagem e saltos altos fazem mesmo um par.
;p

mariposa disse...

Enganas-te!
Dois pés, dois saltos, um par.
Uma cara, uma maquilhagem.
Matemáticamente a soma perfaz três.
Sou loira mas ainda sei contar até três
;)

Bartolomeu disse...

Estes cavalheiros, caro efe, não conhecem ainda a dupla opção de deixar de fumar e passar a deslocar-se de moto.
Isto sim, é que é um par perfeito!!!
;))

efe disse...

bartolomeu: ...errr... agora ando nuns miniClubmaster vanilla... e na moto, claro. É para fazer par.... hehehe.

efe disse...

mariposa: De um lado dois pés (para ser sincero não gosto nada dos dois pés no mesmo lado - não há nada como um pé para cada lado), e do outro a maquilhagem. è um par.

TheOldMan disse...

Francisco de Blog, os saltos altos foram uma das mais importantes invenções do génio humano.

E que colocaram finalmente a mulher no pedestal que lhe era devido (mais ou menos à mesma altura que o faria a lista das páginas amarelas, mas com muito mais elegância).

;-)

Abraço

Eira-Velha disse...

Será por isso que se usam muito as expressões "par de estalos", "par de tomates", "par de marmelos" e similares?
Que bem que fica, o Emmanuel, de saltos bem altos. Deve ser a metade que falta àquela coisa que dá pelo nome de zecastelobranco para constituirem uma parelha de burras...
Estou a gostar da argumentação do par EFE/Mariposa. A ver em que ficamos...
Um abraço

efe disse...

Mestre, os saltos altos são sem dúvida uma excelente invenção, isso e os saldos, são duas coisas (lá está, um par) que as mulheres adoram.
Essa das páginas amarelas tornarem as mulheres mais altas fez-me lembrar uma das personagens do Frank Gruber (não é o Nero Wolf mas um outro de que não me lembro o nome); um que vendia enciclopédias que tornavam maiores, os homens pequenos. Segundo o mesmo princípio, claro.
;)

efe disse...

É verdade, Eira-velha, a Natureza assim determinou que as coisas, boas e más, fossem servidas aos pares. Relembro também os "pares de jarras", os "pares do reino" o "par de cornos", hehehehe...

A mariposa leva estas coisas para o teste à cor do cabelo quando afinal são coisas da Natureza. O que ela não diz é que o cabelo dela tem um par de cores. O loiro está por cima da cor verdadeira...
;)

Anónimo disse...

Para te ajudar a sair da confusão,
um post da minha amiga Joana Narciso, para leres e meditares sobre o seu conteúdo.
Um abraço

"Um capitão de Abril ou o último dos revolucionários".

Armindo Gaspar

Anónimo disse...

Esqueci o endereço.

http://musicafigosemedronho.blogspot.com/