Um país, dois sistemas, ou de como as coisas tendem para os pares




Recebi há dias, pelo correio electrónico, um daqueles filmes que pretendem alertar para um futuro em que a supremacia económica da Ásia colocará os dois gigantes, China e Índia, no topo da pirâmide mundial. O filme referia os muitos estudantes sobredotados que ambos possuem, o facto de estudarem, já, respostas para problemas que ainda não existem mas que se supõem emergentes, e muitos outros aspectos tratados em quantidades astronómicas, do tipo: a China tem mais alunos sobredotados do que a totalidade dos alunos norte-americanos, etc. tudo, portanto, numa escala esmagadora. Curiosamente, o filme não contabiliza o número de vacas à solta nas ruas das cidades indianas, que é coisa que sempre me fez confusão, a mim e a qualquer automobilista português, para não falar nos italianos.


Esta coisa das grandezas trouxe-me agora à memória o José Duque, alentejano que veio para Lagos abraçar a faina marítima na arte do rapa e que, certo dia, em Sagres, olhando a imensidão do mar atlântico desabafou: - que granda pupriedade… e nem um chaparro têin?!


Seguia eu a caminho de ficar preocupado com estas assombrosas revelações, as do filme, quando uma reflexão acidental – que no meu caso deveria classificar como normal, pois, devido a uma queda ocorrida em criança, só reflicto acidentalmente – me fez perceber as mais recentes estratégias político-económicas ocidentais. E esta ponderação abortou o desassossego em progressão.


Tranquilizei-me e sorri, semicerrando os olhos, assim ao estilo de um manchu matreiro, observando um imaginário adversário que se encontraria na minha frente, o que era difícil pois na minha frente está a lareira e… coitado, retomemos o enredo:
- Ah, vocês pensavam que de lojinha em lojinha iam tomar conta disto tudo? Por esta altura o leitor já percebeu que esta fala é minha, quer dizer, sou eu, de olhos semicerrados, tipo fú-manchu com um roupão de veludo azul e vermelho e uns bigodes pendentes, com quase meio metro, unhas enormíssimas e o cabelo num carrapito, a enfrentar o opositor, vou continuar: - Ah… pensavam que os ocidentais decadentes estavam a dormir? Pois bem se vão tramar! O farol da cultura ocidental não dorme em serviço, os nossos amigos americanos já reagiram e, em tempo útil, adoptaram o vosso estratagema: "um país, dois sistemas". Chama-se a isto “passar a perna” ou, para melhor entenderem: “passal a pelna”.


Pois foi, os americanos acabaram de instituir o socialismo para os ricos, com especial atenção às espécies em sobressalto: banqueiros, especuladores e políticos; enquanto mantêm o capitalismo para os pobres. Um país, dois sistemas. Assim é que é!


E em Portugal seguimos o mesmo caminho. Peço desculpa, uma vez que mete socialismo será mais apropriado dizer que “seguimos a mesma via”, assim é que está correcto.


Então, orientais, pensavam que os lusitanos estavam a dormir? Naaa… é que nós temos cá dois partidos de gente astuta, atenta a essas estratégias de levantinos que desejam, desavergonhadamente, roubar o lugar que nos pertence por direito, diritto di vino ainda para mais.


Repare o leitor que sempre foi a argúcia dos nossos governantes que nos salvou aos ditames dos de levante. Ao longo de toda a História sempre assim foi. São estes que cantava o Poeta quando os dizia da ínclita geração, o Camões pois claro. Eu nunca acreditei nessa tese que defende que o Poeta se referia aos filhos da Filipa de Lencastre, digo isto porque fitei demoradamente, e por diversas vezes, com o meu semblante de manchu, o filho que está sentado ali na Praça da Música vai quase para meio século, e não lhe vi jeito de ser ínclito, ainda para mais cagado pelas gaivotas. E veja-se, agora que o taparam ninguém se ofendeu. Ora vá-se lá tapar o Afonso, ao berço da nacionalidade. Esse, sim, um autêntico ínclito. Havia de ser lindo, as mães bragantinas montavam logo um arraial de bordoada como fizeram com as criaturas brasileiras que procuravam ganhar a vida a coberto da lei da economia popular: uma mulher para muitos homens; mas isso é outra história, a que havemos de voltar lá mais para o Natal, ou mesmo na Páscoa se o Carnaval for curto.


Ele sabia que isto ia ser assim, o Camões, claro. O Magalhães deve ter segredado qualquer coisita. E o leitor sabe como o Magalhães é assim coiso e tal com o nosso primeiro, aquela cena dos dois indicadores a esfregar um no outro, o leitor sabe como é. Embora me pareça que o distinto navegador também passou a “pelna” no nosso primeiro ao ter-lhe apresentado o PC anão como coisa sua, quando apenas se aproveitou do Anoa que é o nome do Classmate PC na Indonésia. Enfim, já um navegador anterior tinha trazido rosas para outro príncipe, mas desconfio que eram rosas falsificadas, a julgar pelo roseiral que depois veio a frutificar cá no jardim à beira mar arroteado. Provavelmente comprou-as na primeira loja chinesa que encontrou ali para o norte de África, sem sequer ter ido lá abaixo ao Bojador, é que nem uma fotografia trouxe que atestasse o feito, caramba. Ora custava alguma coisa fazer umas fotos com o telemóvel? Bom, deixemos em paz esse nosso conterrâneo porque o coitado, envergonhado, escondeu-se dentro de uma saca de serrapilheira, e lá permanece.


O leitor, senão distraído, já reparou que tergiverso, mas em minha defesa digo que não tenho culpa das palavras ganharem independência e atirarem-se assim à maluca para o ecrã, construindo as coisas mais díspares como por exemplo falar neste preciso momento de chinesices, quando as posso comprar baratas ali na loja da esquina, sim, que isso da crise, inflações, deflações e recessões são coisas que qualquer honesto trabalhador pode tratar no divã do psicólogo. Abro um parêntesis, que não o sendo exactamente, serve o propósito, no que toca às inflações e para dizer que algumas se tratavam com as tais brasileiras de Bragança, agora parece que já não.


É tempo de regressar ao assunto principal que me trouxe a este exercício de escrita, e de forma sintética porque já não cabem mais letras na página do jornal.


Assim, venho por este meio apresentar o meu profundo agradecimento ao PS e ao PSD por nos terem colocado no caminho do sistema duplo. Finalmente! Desde o tempo do Scotex, logo copiado pela Renova, que me questionava porque raio não aplicavam tal solução à política?!
Em suma: O que seria deste país sem as vossas figuras gradas, os vossos gestores, administradores, assessores, colaboradores e todo o universo de outros habilidosos obradores que, admiravelmente, conseguiram formar em pouco mais de três décadas de democracia?! Foi tarefa árdua, com cursos intensivos, workshops à descrição, acções de formação incidindo da Informática à apanha de lapas passando pelo aperfeiçoamento técnico do lamber envelopes, e muito dinheiro gasto, muito dinheiro da madame Europa, mas vejam como resultou em cheio.


Caros senhores, acredito que o povinho está convosco, entusiasmado e pronto a prestar qualquer ajuda ou auxílio, ou ambas em simultâneo, que entendais necessário.


Com serenidade e confiança no futuro recordo um antigo desabafo do nosso mais alto magistrado, proferido em contexto que incluía a figura do funcionário público: - só mesmo esperar que morram!


Logo, já sabem, figuras gradas, se precisarem de uma contribuição para esquifes, é só pedir. Eu dou!


E longa vida aos dois sistemas! Já chega de vivermos apenas com um.
Agora quero ver o tal senhor repetir: - É o sistema!!!
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Escrever pelo prazer de escrever. Escrever para melhorar a escrita. Cada vez mais, menos preocupado em "comunicar" com hipotéticos leitores. Porque são poucos os que lêem e desses, nem todos o fazem com a devida atenção.
Este artigo foi publicado num jornal local online e ninguém acusou a incongruência da referência à estátua de Afonso Henriques em Braga. Nenhum dos leitores, que comigo o comentou, se referiu ao “erro”. Continuo, pois, a achar que não vale a pena escrever para os outros. Continuarei a escrever para mim.

2 comentários:

TheOldMan disse...

Mas olha, Francisco de Blog.

Se tivessemos cá o Guterres, este aínda haveria de dizer - "São vidas..." (pelo menos duas, que o tipo até é católico).

;-)

efe disse...

Pois, tipos desses até têm mais do que duas vidas. Mas à maioria dos escravos nem uma vida cabe.

;)