BRILHANTE !

Raramente tenho certezas absolutas. Ando mais pelos caminhos das moderadas convicções pessoais. Porém, não é isso que demonstro. O vício da provocação leva-me, frequentemente, à afirmação categórica. A ver quem vem à luta. Na expectativa de animar o cinzento dos dias. Na esperança de aprender mais qualquer coisa. E, por vezes, resulta. Noutras, esta atitude redunda em discussões do diabo, com amuos de permeio - da outra parte -, e até corte de relações. Quero lá saber, se amuam são mais parvos do que eu, pelo que não têm muito para me ensinar. Adiante, que o cinismo é uma arte.
Porém, naquelas alturas em que esgrimo convicções mais profundas, mesmo sob a eterna presença da dúvida, ou sobretudo por isso mesmo, é um grande consolo verificar a ocorrência de sintonia entre as minhas certezas e as de outras vozes, mais altas, argutas e doutas. Claro que essas vozes discursam com maior erudição, clareza e recreação. O texto abaixo, de Rogério Casanova, é um desses casos. Brilhante, límpido, e irónico.
Acrescento que não li o "Fúria Divina", mas li o prólogo, e chegou para perceber que Deus deve ter ficado com uma enorme dor de cabeça. Digo eu, que sou religiosamente ateu.


Rodrigues dos Santos prossegue a sua eficaz Jihad contra a prosa.
Uma das muitas características partilhadas por todas as personagens de "Fúria Divina" é a escabrosa incompetência nas funções que desempenham: os investigadores não sabem investigar, os sedutores não sabem seduzir, os terroristas não sabem aterrorizar. Curiosamente, algumas exibem os requisitos mínimos para serem críticos literários; embora nenhuma das personagens seja abençoada com a meta-revelação de que faz parte de um livro sofrível, três delas fazem a segunda observação mais pertinente que é possível fazer sobre o que está a acontecer à sua volta: "isto parece um filme".
Um filme, de facto, e não dos bons. Temos a vítima que aproveita o último fôlego para desenhar uma mensagem críptica no chão; temos o explosivo desactivado no último segundo; temos louras "parecidas" com Meg Ryan e coronéis russos que "dão ares" a Anthony Quinn. O resto do elenco é despachado com pinceladas Benetton: os americanos dizem "hell", "goddamn it", "fucking tarado" ou "fucking génio"; a professora inglesa diz "jolly good"; o cientista alemão diz "Gott in Himmell!"; o agente da Mossad diz "shalom"; o militar russo diz "previt"; um eventual bombista da ETA diria certamente "Olé!" antes de acender o rastilho.
A acção envolve as tentativas de um terrorista islâmico para detonar um engenho nuclear, e as tentativas de uma equipa multinacional para impedir o atentado. "Acção" é talvez um termo demasiado caridoso para aplicar ao que é essencialmente diálogo expositivo. Como num gymnasium para cretinos, as personagens passam grande parte do tempo a informarem-se umas às outras de coisas que já deviam saber, e a chegar às conclusões óbvias vinte páginas depois do leitor, não deixando, para o efeito, de se "fitarem interrogadoramente", ou de assumir "uma expressão interrogadora", ou "uma expressão interrogativa", ou até mesmo, se estiverem com pressa, "uma expressão inquisitiva". Em sucessivas visitas guiadas ao Museu de Pesquisa Rodrigues dos Santos, recebemos extensos memorandos sobre a construção de uma bomba nuclear, a história do Islão, a topografia de Veneza, e a gastronomia dos Açores.
Depois temos a prosa, que é fucking péssima.
Provavelmente consciente da sua deficiente imaginação auditiva e do seu espectacular anti-talento dramático, o autor desenvolveu uma técnica revolucionária de mímica literária, que consiste em distorcer a fisionomia das personagens até esta se acomodar àquilo que a prosa não consegue transmitir sozinha. Isto resulta em sucessivas catástrofes estilísticas, nas quais agentes da CIA e fanáticos religiosos são reduzidos a participantes num sketch dos "Malucos do Riso", "erguendo", "carregando" e "franzindo" as sobrancelhas, "virando", "revirando" e "arregalando" os olhos. O muzak inócuo do romance anterior do autor, "A Vida Num Sopro" (menos mau do que este, no sentido em que uma bomba convencional é "menos má" do que uma bomba nuclear), dá lugar à dissonância e ao feedback. Cabeças "giram pela sala" e olhares são "arremessados" pela janela, sem intervenção de qualquer engenho explosivo. Com o pé apoiado no pedal wah-wah, o autor rasga malhas inacreditáveis sobre, entre outras coisas, baratas que se peidam em francês; trucida frases com rimas internas ("pegou num bule fumegante e deitou chá na chávena do visitante"); e ergue andaimes desnecessários sempre que alguém abre a boca, recorrendo ao seu maneirismo predilecto, aqui completamente fora de controlo. (Uma amostra reduzida: "exclamou, intrigado", "murmurou, atónito", "sussurrou, pensativo", "suspirou, exasperado", "hesitou, desconcertado", "argumentou, combativo", "sorriu, benigno", "abanou a cabeça, frustrado", "gritou, escandalizado", "mordeu o lábio, hesitante", "abriu a boca, estupefacto". Este leitor contou mais dezassete exemplos antes de desfalecer, extenuado).
Exibindo todos os defeitos e nenhuma das virtudes do género a que tenta pertencer, "Fúria Divina" é uma guerra santa sem tréguas, na qual os únicos mártires são os leitores.

Rogério Casanova»

10 comentários:

Maria de Fátima disse...

também li e pensei: olha que o rapaz parece que tem veia para a crítica literária sem dela ler uma simples linha :) dotes que deus dá e a outros tira...

francisco disse...

E foi preciso ler esta crítica feita por um misterioso Casanova (ao que parece é um crítico a várias mãos), para ficar a saber que o José Rodrigues dos Santos não é mais do que um canastrão na literatura portuguesa?
Pois eu bem estou cagando para tal escrita merdosa, e bem me passava ao lado, como passam muitos outros livros que diariamente são estampados por essas editoras fora. O problema, é que são trapaceiros destes que estão a “sensibilizar para a leitura” as novas gerações. Obviamente, a sensibilizar para uma literatura de merda, a sensibilizar para uma leitura imbecil. Não é o fim do mundo, talvez nem seja muito grave, mas é coisa que não deve passar em branco. Qualquer obra do JRS, ao alcançar o top de vendas, demonstra o estado de iliteracia em que este país se encontra.
Pensar que temos excelentes escritores, mesmo de literatura juvenil, até mesmo de temáticas históricas de feição “mistério-empolgantes” (João Aguiar p. ex.) que, só porque não são figuras “merdiáticas” nem vendem um milésimo deste estropício televisivo. Não alcançam impacto junto dos leitores, não influenciam com a sua qualidade literária. E tudo se deve ao marketing e à obstinada “jumentice” dos leitores.
E depois, fico mais revoltado quando aparecem pessoas, por quem tenho apreço e consideração intelectual, defender esta porcaria, com o argumento de que a literatura também é recreação. Ora a diferenciação não se coloca aí, nas temáticas ou nas finalidades, mas sim na qualidade. E como em qualquer outra área da literatura, também aí a distinção se estabelece entre bom e mau. JRS é mau, ponto final. E não preciso que doutas figuras o venham dizer, porque é coisa que entra pelos olhos adentro. E isto digo eu, que não me tenho por culto e muito menos com queda para a crítica literária (para além da que cabe, obrigatoriamente, ao leitor comum, consciente).

Josefina Maller disse...

O Francisco disse e disse bem. Apenas os mediáticos e os medíocres e os que têm escândalos para contar é que contam na conta dos editores. A Literatura, no nosso país, está morta, mas não enterrada. Apenas adormecida, à espera de um príncipe que lhe dê o beijo da vida.

francisco disse...

Bom... se essa literatura se apresentar assim…jeitosa, eu não me importo de me mascarar de príncipe, ou mesmo de sapo.

Eira-Velha disse...

Já percebi que o amigo Francisco não grama o JRS e ponto final. Eu não digo nada porque ainda ao li absolutamente nada, nem uma linhinha, da sua já extensa produção literária. Também não gramo pose televisiva com aqueles sorrisos estúpidos e aqueles piscar de olhos merdosos...
Mas este post vale pelos comentários e aí o FC está num plano elevadíssimo.
O problema é que há muitos burros que gostam dessa palha e os editores estão-se borrifando para a qualidade, se não veja-se o exemplo daquela coisa de Vila Nova de Gaia...
Parabéns pelo seu excelente e emotivo comentário

francisco disse...

Olhe que só agora tomei consciência disso. E tenho, pois, a obrigação de reconhecer que não gramo o JRS. Mas não era assim. Porque não havia nenhuma indisposição visceral contra o homem. Eu até nem tinha reparado nas gafes que ele debita, de vez em quando, como pivot. E, sabendo-o literariamente produtivo, nunca tal coisa me incomodou, nem alguma vez fiz juízos de valor sobre a sua escrita (porque não a conhecia). Até ao dia em que li o prólogo desta última obra e fiquei aturdido. E incrédulo, quando alguns amigos defenderam a qualidade literária deste senhor.
É inaudito, é profundamente vergonhoso que um tipo recorra ao facto de ser figura pública para encher os bolsos às custas de incautos, inconscientes, jovens, através de uma produção tão rasca quanto gigantesca; enquanto excelentes escritores não alcançam um retorno mínimo para a qualidade daquilo que produzem.
Bem sei que é o sistema mas, então, pelo menos, denunciemos essa realidade. E repare, meu caro Eira-velha, que não me move a inveja ou a constatação de injustiça em relação a mim (que também gosto de escrever), pelo simples facto de que eu, apenas gosto de escrever, não aspirando a ser escritor (por me faltar verve e, sobretudo, vontade de escrever para os outros). Portanto, não se trata da proverbial dor de corno que afecta tantos. É apenas revolta contra o facto de, a escritores que me emocionam com a sua arte apenas caber os sobejos destes figurões do jet-set.

Josefina Maller disse...

E o pior de tudo, meus senhores, é que o JRS até já recebeu um PRÉMIO!

francisco disse...

Josefina: este país está transformado num imenso concurso “Ídolos” com as habituais distribuições dos brindes publicitários, ele é o galardão para o disco de ouro ou para a enésima edição do livro caca na bota, ele é a comenda da ordem de Cristo ou do Infante, ou a medalha de mérito do concelho do sítio do sol-posto. Enfim, é o que resta.

Josefina Maller disse...

E a nós só nos resta esperar que um dia o nosso país seja normal.

Anónimo disse...

«Se adoptarmos uma perspectiva lúdica da literatura, os bons livros serão os que entretêm muita gente. Mas esta é uma perspectiva redutora da literatura. Prefiro pensar que a literatura congrega um conjunto diverso de características que a tornam boa ou má conforme o equilíbrio que se estabeleça entre as mesmas.»