O Tesouro

Era uma caixa de madeira enorme com os dois rótulos da ordem numa das faces maiores, remetente e destinatário, em papel branco redigido a lapiseira numa letra cuidada, talvez do amanuense da empresa Camionagem Central do Sul.

Terá sido por volta de 1976 ou 1977 que o meu tio Ginésio nos enviou esta encomenda. Mais uma das suas habituais caixas de madeira que usualmente traziam bacalhaus, ananases, cerejas, e outras iguarias que já não recordo. Depois de descarregadas pelos homens da camionagem, ficavam ali no meio da sala aguardando a chegada do meu pai que, então, as abria com uma chave de fendas enorme.

Era cedo, teria de esperar o toque da sirene da fábrica e o ruído da motorizada para depois o ver enfiar a mão pelo postigo e destrancar a porta; perscrutando então e o seu semblante sereno, inalterável, no seu fato azul de “afinador de cravadeiras” e restantes engenhos mecânicos da fábrica conserveira.

Enquanto essa cena não decorria, ali estávamos, eu e a caixa, olhando-nos desconfiados, como perfeitos estranhos. Ela, imóvel, repousando no meio da sala, e eu irrequieto no sofá de onde me levantava amiúde para cheirá-la, tentando detectar algum odor que revelasse o seu conteúdo. Inutilmente.

Mesmo que conhecesse todos os 17 ou 18 irmãos do meu pai, o meu tio Ginésio seria sempre um dos meus favoritos. Logo, porque era dos mais parecidos com o retrato que conhecia do meu avô; um daqueles homens altos, morenos, de cabelo repuxado para trás seguro na brilhantina e bigodes negros ondulantes terminados em pontas retorcidas. Depois, porque possuía um singular magnetismo, completado pelo trato simpático e o olhar sincero, aquele encanto que atrai o próximo e seduz, até, o mais retraído animal. Em sua casa existia, invariavelmente, um papagaio ou um galo da índia amestrado, e a janela abria-se para receber dois ou três pombos que todos os dias pousavam no parapeito e vinham comer à sua mão; e sempre, mas sempre, um cão.
o meu tio em jovem, ainda sem bigode de pontas retorcidas

os meus avós: Maria da Alegria (Celorico da Beira)
e Francisco Lourenço Castelo (Estoi - Faro)
por volta de 1908 (?)

Ao longo da sua última profissão - estucador - deparava muitas vezes com situações em que era necessário vazar as sobras das casas, aquela parte que os proprietários deixavam para trás, como apêndice desnecessário ao prosseguimento das suas vidas.

E foi numa dessas casas lisboetas, que os inquilinos deixaram à consideração dos obreiros, encarregues de lhe dar novo rosto, a tarefa de se desfazerem das sobras que incluíam uma pequena biblioteca escolar em língua francesa.

Ora o meu tio Ginésio, pessoa de pouquíssimas letras mas sabendo-me em idade escolar, tratou de me remeter aquela colecção. Talvez se tenha lembrado de um episódio ocorrido uns dez anos atrás, em que eu, irredutível, exigi aos meus progenitores a compra de um livro que vira no escaparate de uma livraria da capital. Provavelmente impressionado com o facto de um pequeno livro me ter suscitado mais atenção do que a lufa-lufa da grande cidade, ou os seus monumentos e edifícios deslumbrantes. Talvez não tenha esquecido este episódio e, surgida a oportunidade, prendou-me com uns quarenta quilos de livros. Desconhecendo ele a razão do súbito interesse na aquisição do pequeno livro intitulado “O Senhor Cágado”, que o tipo de letra adoptado pela editora fizera sumir o acento e aumentar a minha curiosidade pelo relato de um hipotético senhor cagado que só a meio da viajem de regresso, embalado no ritmo sincopado da ferrovia, descobri não existir; ocupado o protagonismo por uma estranha tartaruga que não lograva dar lugar a nenhum senhor em apuros intestinais.

Aberta a caixa, revelara-se o conteúdo que o meu pai, informado por telefone, já conhecia. Dezenas de livros de uma antiga aluna do Liceu Francês. Assim penso, pois alguns dos volumes, de História ou de Álgebra, tinham um nome feminino aposto no canto superior da primeira página.

Por esta altura, contando eu quatro anos de estudo da língua francesa, já entendia uma leitura directa, e quando o texto agradava recorria ao dicionário para esclarecer alguma palavra mais abstrusa.

Sentir-me-ei eternamente grato ao meu tio Ginésio, por me ter dado um dos mais belos presentes que recebi em toda a vida. Uma caixa de livros usados. Tenho a agradecer-lhe esse momento de magia que foi a descoberta do conteúdo do caixote em que, assombrado, vasculhei avidamente os livros que uma década antes foram esfolheados, lidos, usados por uma jovem aluna do Liceu Charles Lepierre. Talvez no preciso momento em que eu transportava, pelas ruas de Lisboa, de mão dada à minha mãe, um pequeno livro com um intrigante conto de um cágado que ainda não o era.

Hoje, só resta um desses livros, pois ao longo dos tempos ofereci alguns e emprestei outros, que nunca me devolveram. Sobrou este, talvez o mais importante, porque me proporcionou o primeiro contacto, e nalguns casos único, com escritores como: Zola; Baudelaire; Rabelais; Kipling; Voltaire; Verlaine; Rimbaud; Montaigne; Victor Hugo; para citar apenas alguns dos mais famosos. Um autêntico Tesouro.





- - actualizado em: 2010.04.05 - -
Em memória de Ginésio Lourenço Castelo, falecido por volta do dia em que escrevi este texto. Que descanse em paz.

4 comentários:

Marie disse...

J'ai beaucoup aimée ton Histoire , tu décris très bien les sentiments que tu as ressenti au moment de l'évènement vécu , j'écris en français car j'arrive mieux à m'exprimer qu'en portugais!!!C'est sympa de retrouver les photos de nos grands parents et de l'oncle, si tu as d'autres photos de la famille je serais très contente de les voir... Merci à bientôt Madalena

francisco disse...

Merci bien, Madalena.
E toi, qu'est-ce que tu écris au blog? T'as un, non?

à bientot

Ricardo disse...

Obrigado pelo artigo. Gosto do teu estilo. Não nos conhecemos, eu sou o único neto do Ginésio e a "...jovem aluna do Liceu Charles Lepierre" é muito provávelmente a minha mãe, a sua filha Orlanda.

Cumprimentos "familiares".
Ricardo

francisco disse...

Obrigado, eu, pelo teu comentário, Ricardo. Não sabia que a tua mãe estudara no Liceu Francês. Se assim foi é possível que os livros fossem dela, mas não reconheci a assinatura que alguns possuíam.

Da tua mãe, e dos teus avós, tenho algumas fotos no meu arquivo. Se não as recebeste através do Carlos Alberto (o mais novo dos irmãos do teu avô), posso mandar-tas por mail.

Fica à vontade para comentar o que entenderes, ou para emendar alguma coisa que a tua mãe testemunhe de forma diferente do que está escrito neste artigo, que não é mais do que a minha memória, algo difusa, daqueles tempos de juventude e que já vão longínquos neste ano em que completo meio século.

Espero que esteja tudo bem contigo e com restante família.
Abraço.
Francisco Castelo