cenas da Vila em 1429

(...)
A velha caminha lentamente apoiada no braço da jovem sobrinha. Vem a primeira, nesta escalfa para a sua idade, a instâncias da segunda que lhe quer mostrar o homem do chapéu bicudo. O mesmo que invariavelmente à mesma altura do dia a espera na bica de água, sentado no poial do chafariz público, ensimesmado até ao momento em que o seu olhar se troca com o da jovem e os olhos se rasgam em sorrisos. E nos minutos que a bilha leva a encher, escuta, da boca dele, uma voz suave que profere floridos poemas provocados e dirigidos à beleza da jovem. Alcandorada no pino da abóbada celeste, a magna candela ilumina a praça em todos os seus recantos quase derretendo com o seu bafo, as casas, a fonte e as gentes da vila.
(...)
O silêncio do burgo quatrocentista é entrecortado por distantes e ténues sons de ferragens em choque, em urgente apuro de trabalho encomendado que a época da ceifa não deixou o ferreiro terminar em data aprazada.
De uma ruela adjacente à praça soam tagarelices de duas crianças: - Descalça o sapato, descalça já o sapato! O pai disse que te tinha dado a moeda. Um, mais taludo, tenta derrubar o outro para lhe descalçar o sapato, esconderijo do tesouro de que exige a partilha. Protesta o mais novo, com um repetido e breve Não! E ali estão, engavelados por uma moeda.
(...)
A gaivota paira suavemente sobre a torre da Igreja aproveitando a ascensão térmica do ar aquecido cá nas baixuras e, dali, observa o escasso movimento em terra e o débil marulhar das águas no rio.
No empedrado da rua ressoa o rodado de uma carroça que abafa o pisar dos cascos da alimária que a puxa. Perto, um vulto negro, de mulher, detém-se na esquina da rua principal, esgueirando-se de seguida por uma viela estreita em direcção ao rio.
Seguimos a carroça que atravessa o largo da bica e avança pela porta de Portugal, nessa direcção indo e cruzando o improvisado estaleiro onde dois homens, curvados pelo trabalho, calafetam um pequeno barco.
A gaivota reduz o bordo de ataque das suas asas e, perdendo velocidade, desce em direcção à linha serpenteante que a água desenha ao longo da ribeira, rapando o pequeno barco assente no areal lodoso do rio na baixa-mar, onde trabalham os dois homens.
(...)
Na baía, perto da entrada da barra de Dona Joana, uma barca aguarda a enchente para vencer o baixio e penetrar no rio indo depois acostar ao cais.

8 comentários:

deodato santos disse...

com o ambiente criado pelo texto, que me parece ser de sua autoria, parece-me deslocado vir fazer um convite, a si e aos que seguem o seu trabalho - que me desculpem ambos.
prémio experimental de fotografia LAGOS MELANCOLIA OUTONAL
- local- centro histórico: o difuso, o detalhe insólito,o pormenor inesperado,a dedada poética, a surpresa perturbante.
prémios: 60 e 40 € e publicação de todas as obras em edição caseira.
datas: de inscrição - até 31 de dezembro; de entrega da ou das obras:15 de janeiro; entrega dos prémios: 30 de janeiro.
mais info, inscrições e envio das obras para:deodato1936@hotmail.com

francisco disse...

Caro amigo Deodato. Não me importo de participar, ou melhor, de considerar participar, uma vez que isso dependerá da captação, até à data limite, de alguma imagem que eu considere adequada.
Também não me preocupa, como profissional, perder para um amador. Já me preocupa ganhar, e o que certamente alguns dirão depois: que é injusto misturar dois ou três profissionais num universo de amadores. No entanto, se partirmos da condição de que não serei premiado, aceito participar, com muito gosto.

Já o lacónico regulamento não estabelece formatos digitais (JPEG, TIFF - e que resolução?), nem físicos (15X20cm ou 20X30cm?), nem especifica se podem concorrer trabalhos a cores e monocromáticos, se é permitido manipular a imagem alterando elementos da sua composição original. É que pode ser assim mesmo, omisso dessas coisas e livre de espartilhos, mas… e depois?

Chamo a atenção para o facto de pretender recepcionar os trabalhos via e-mail e pretender posteriormente imprimi-los (?) para exibição/publicação (?). Ora, muitas vezes são duas coisas incompatíveis: as fotos que viajam por e-mail raramente têm qualidade suficiente para impressão.

Mas força com isso. É uma acção positiva.

Abraço

francisco disse...

Sim, os excertos do texto são de um conto que vou escrevendo, sobre uma das tentativas de Gil Eanes em dobrar o Bojador.

É mais um exercício de escrita. Há quem crie pombos e quem vá à Bola, eu vou tentando melhorar a forma de escrever. Quando chegar a um nível superior, que me encha as medidas, deixo de escrever.
;D

deodato santos disse...

amigo francisco, já contemplou nesse seu conto o ambiente noturno? é que sempre me atraiu a ideia de estabelecer um paralelo entre o ambiente que imagino ter sido o de ontem - correrias,perseguições mortes,assaltos,vinganças,homens de mão - e o ambiente de hoje, se é que há alguma correspondência.o todo ao estilo nebuloso do passado misturando o nebuloso do presente.coisa que já não farei.o não ter estado no passado e não estar no presente até poderia ser uma vantagem. mas não, guardo as correrias da minha altura: o palco do largo da câmara com o publico noctivago, a cidade recolhida sem portas abertas, e a fala de romeu pacote no centro, dominando a cena, para o artur:" não te rias artur, que amanhã à meia noite tens um duelo comigo na rua da barroca.

deodato santos disse...

amigo francisco: tenho que digerir as informações prestadas sobre o LAGOS MELANCOLIA OUTONAL. as datas vou deixar,que é o mais importante para quem queira entrar na jogo, e porque o outono está no fim. as outras coisas poderão ser melhoradas. até nos podemos encontrar para que me diga pormenores.um abraço e obrigado pela sua participação.

francisco disse...

Ainda vai breve, a escrita. Não explorei ainda o ambiente nocturno, nem sei se tenho material e engenho para isso.
A partir de certa altura a história avançará, espero, por si própria. Como tal é difícil determinar, agora, que caminhos percorrerá - para além do marítimo pelas costas do norte de África.

Essas suas memórias é que deve registar, partilhadas passam a ser memória colectiva.

Abraço.

The extended phenotype und extinct gene sequence disse...

em 1429 andavam calçados?

ora adevia ser um bom burgo

cá no meu em 1980 inda habia gente

qu'andava co'os butes ó léu

francisco disse...

Calçados em 1429? Bem visto, forasteiro.
Vou pensar em descalçá-los todos, se bem que a ficção, mormente a meta ficção historiográfica, me permita estas liberdades.