da casca ao conteúdo

“Somos [os portugueses] como um cavalheiro que mandou vir um certo automóvel sem motor, ou uma aperfeiçoada ventoinha eléctrica sem ter instalado a energia eléctrica. Despachou os caixotes, abriu, montou o carro, deu-lhe de volante, tocou a buzina, bateu o pé, gesticulou, rugiu, estralejou: «Eh, home! Arreda, arreda, que a coisa agora vai marchar!» – e a traquitana, apesar de tudo, não buliu; acomodou a ventoinha, e ventoinha parada. Depois arrancorou, gemeu, carpiu-se, e concluiu redondamente: «O automóvel é incompatível com o meu Génio; a ventoinha é inadaptável à minha Raça!» (...) Ora, nós imitámos como toda a gente a maquineta da Inglaterra, «a civilizadora do mundo», «o país modelo», como lhe chamou Herculano; avezamos constituição, avezamos câmaras, ministérios saídos dessas câmaras, e uns catitinhas de uns pais da pátria que não são como os ingleses, mas enfim, são pais da pátria; e não são – nem somos – como os ingleses, porque copiamos a maquineta mas esquecemo-nos do motor...”.
António Sérgio, Educação Cívica, 1915



1 comentário:

David Reis Oliveira disse...

Ah...Ah...Ah...