Memórias de cá e de lá.

A Maria Alcatraz vivia na Fonte Coberta, numa pequena casinha adossada à antiga barragem construída pelos romanizados. Era pequena e redondinha e trabalhava na fábrica de conservas de peixe do Abel Figueiredo Luís. 
Mais para cá, mas já na encosta do Cerro das Mós, e recordo bem, viviam outros operários da mesma fábrica, como a Conceição do Moinho, e o Joaquim Major.
Falo na Maria porque era muito parecida, fisicamente, com uma outra operária de Olhão, a Esperança do Portinho, que vendia jogo para complementar o magro salário do seu mister. 
Nesse tempo as operárias eram emprestadas de umas fábricas para as outras, sujeitando-se à sazonalidade do trabalho e às vicissitudes de uma realidade industrial que mais devia à servidão medieval do que às novas ideias e valores do progresso.
A minha mãe e a Esperança do Portinho trabalhavam na fábrica do Lázaro mas eram frequentemente emprestadas para a Conserveira do Sul, do Jacinto Ferreira, ou para o Americano, chegando também a trabalhar, nesse regime, na Filtragem do Francisco Cocco (filtragem = estiba: fabrico de filetes de biqueirão). 
Essa ocupação pendular dependia da frequência e quantidade do pescado, factores que obrigavam a outras ocupações de recurso, normalmente ligadas à agricultura, em especial no período do Defeso da pesca.
Mas trago isto à colação para contar que num certo dia a Esperança vendeu à minha mãe um bilhete premiado com 100$00. Como resultado ganhei eu uma samarra canadiana, o meu pai um pullover, e ainda se comeu daqueles 50 cêntimos - pela moeda de hoje. Assim disse a Benilde.


Fábrica Abel Figueiredo Luís em Lagos

Fábrica Conserveira do Sul, de Jacinto Ferreira, em Olhão

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