Nevralgia abdominal

Nevralgia abdominal

Uma culposa frase da autoria de João Pedro Vala, publicada na Revista Ler nº 173 (Inverno 2024/2025) e o ambiente de quadra festiva que ora se atravessa, televisivamente dramatizada pelos protagonistas da novela Campanha Eleitoral, acariciaram-me o córtex e incitaram os dedos à ginástica materializadora da diarreia mental que daí resultou. Aqui defeco a produção entérica que o passar dos milénios transformará em coprólito digital para regozijo dos paleoantropólogos cibernéticos do futuro.

“Quaisquer tradições e regras que nos trouxeram até aqui têm a pairar sobre si o anátema da culpa pelo estado a que chegámos.” In Bolo de Bolacha ou uma Ideia de Imitação, de João Pedro Vala.

A crise em que nos encontramos — seja ela moral, social ou política — não pode ser dissociada do legado que herdámos e que, em muitos aspectos, aceitámos sem questionamento. A veneração cega por estruturas antigas, por convenções petrificadas no tempo, tem-se revelado um entrave à renovação necessária para responder aos desafios contemporâneos. Durante demasiado tempo, confundimos respeito pela tradição com imobilismo. Cultuámos o passado como se dele emanasse uma sabedoria inquestionável, esquecendo que até os alicerces mais firmes podem ruir quando não se adaptam às realidades do presente. Não se trata de negar a importância da História, mas de reconhecer que algumas das normas que nos regem foram concebidas para contextos que já não existem. A continuidade cega de tais regras tem perpetuado desigualdades e abafadas vozes dissidentes. É, pois, legítimo interrogar se a fidelidade a esses pilares — jurídicos, culturais, institucionais — nos tem servido ou se, pelo contrário, tem contribuído para o desgaste da identidade social. A responsabilidade não é exclusiva de quem os criou, mas recai sobretudo naqueles que, tendo o poder de os reformular, optam por os manter, temendo o julgamento da ruptura e o incómodo da mudança. Temendo o julgamento popular e a consequente perda de eleitores?!

Toda a tradição, quando transformada em dogma, deixa de ser memória viva para se tornar numa prisão. E é nesse cárcere simbólico que muitas sociedades, inclusive a nossa, permanecem enredadas — incapazes de conceber um futuro diferente, precisamente porque se sentem compelidas a perpetuar os erros do passado sob a capa do respeito. Urge, pois, um acto de coragem: o de revisitar o nosso legado com espírito crítico, resgatando o que nele houver de verdadeiramente valioso, mas rejeitando, sem pejo, aquilo que já não serve. Porque só ao confrontarmos o peso dessas tradições com a honestidade da razão poderemos aspirar a um novo pacto social, mais justo, mais livre e, sobretudo, mais humano.

Persistimos num modelo que privilegia o formalismo sobre a substância, a estabilidade sobre a justiça, a continuidade sobre a renovação. E, ao fazê-lo, traímos a promessa de um sistema (Democracia) que deveria servir o bem comum, e não proteger os interesses de uma elite instalada. A tradição política, que em tempos ofereceu garantias contra o arbítrio, tornou-se ela própria um obstáculo à mudança. O respeito quase sacral pelas instituições herdadas impede que se questionem as suas falhas mais evidentes — o distanciamento dos representantes face aos representados, a captura do Estado por interesses económicos, a opacidade dos mecanismos de decisão, etc.

 

Não surpreende, pois, que a confiança popular nas instituições democráticas se tenha erodido. Quando a norma se torna escudo para a manutenção de privilégios e não instrumento de transformação, instala-se a apatia e, com o passar do tempo, a revolta. E são nestas brechas que florescem os discursos populistas, que, mesmo quando erráticos ou perigosos, se alimentam da justa indignação de quem se sente defraudado ou excluído.

 

O problema não reside apenas nas regras em si, mas na forma como elas foram naturalizadas, como se o regime vigente fosse o culminar inevitável da história. Esquecemos que a democracia é uma construção em permanente aperfeiçoamento, e não um monumento a conservar. O apego dogmático a tradições políticas caducas é, pois, um acto de conservadorismo disfarçado de prudência. E nessas águas navegam os mais apregoados democratas.

A construção do futuro exige rupturas — não irresponsáveis, mas necessárias. Será necessário repensar o papel do Estado, a forma como se organiza o poder, os mecanismos de participação cidadã, e até os fundamentos da própria representação. A política terá de se libertar do peso morto das tradições que já não servem e reencontrar o seu impulso original: o de organizar a convivência humana segundo princípios de justiça, liberdade e dignidade. Considerando o gritante falhanço da Justiça, a falaciosa Liberdade (como, sem autonomia económica?), o atropelo constante à dignidade do indivíduo, sucessivamente ludibriado e espoliado, tal tarefa implica coragem e visão. Mas sobretudo implica reconhecer que, se chegámos até aqui seguindo certas regras, talvez só possamos avançar, avançar no sentido de progredir, questionando-as.

 «Quaisquer tradições e regras que nos trouxeram até aqui têm a pairar sobre si o anátema da culpa pelo estado a que chegámos.». No caso português, esta constatação reveste-se de particular acuidade. O regime democrático, saído da Revolução de Abril, representou um avanço civilizacional incontestável. Porém, passados cinquenta anos, é legítimo perguntar se a arquitectura institucional que então se retocou continua à altura dos desafios actuais.

A realidade mostra-nos um país onde o sistema político permanece excessivamente centrado nos partidos, com escassa abertura à participação cívica directa. Esperar que os cidadãos invadam os partidos para modelar a sua vontade, restabelecer a ética republicana e moralizar a sua actuação é um devaneio pueril. Os mecanismos de representação mantêm-se enraizados num modelo de listas bloqueadas, que perpetua lógicas de obediência interna em detrimento da responsabilidade perante os eleitores. Os deputados eleitos pelos círculos distritais respondem, na prática, mais às direcções partidárias do que às populações que supostamente representam. Esta distorção mina a legitimidade do parlamento e contribui para o crescente afastamento entre governantes e governados.

Ademais, assistimos à cristalização de uma classe política profissionalizada, que transita entre cargos públicos e privados, entre governos e administrações, num movimento que suscita fundadas suspeitas de promiscuidade e conflito de interesses. A regulação ética, embora propagada em discursos e presente no papel, revela-se ineficaz na prática, sendo frequentemente contornada ou ignorada. A constante sucessão de casos mediáticos envolvendo figuras de topo da governação — nomeações duvidosas, negócios opacos, incompatibilidades não declaradas — alimenta um clima de desconfiança e cinismo generalizado. O cidadão assume capacidade crítica, mas não auto-crítica, esquecendo que aqueles políticos são oriundos do mesmo húmus de onde ele provém.

O sistema judicial, por seu turno, embora formalmente independente, não escapa à crítica. A morosidade da justiça, os processos arquivados por prescrição e a percepção de que os poderosos raramente enfrentam consequências reais corroem o sentimento de igualdade perante a Lei. Tudo isto reforça a ideia de que as regras em vigor já não asseguram um funcionamento transparente, justo e eficaz do regime. Neste contexto, torna-se evidente que muitas das tradições e normas que foram essenciais na consolidação da democracia portuguesa revelam hoje sinais de exaustão. A invocação constante do “consenso constitucional” ou da “estabilidade institucional” serve, demasiadas vezes, como escudo contra qualquer tentativa séria de reforma. Fala-se de revisão do sistema eleitoral, de reforço da participação cidadã, de maior transparência na administração pública — mas tudo permanece invariável, refém do medo de tocar nos alicerces.

A regeneração política de Portugal não passará por paliativos nem por reformas cosméticas. Exige uma reflexão profunda sobre a forma como o poder é exercido e fiscalizado, sobre o lugar que se reserva ao cidadão no processo democrático, e sobre a coragem de romper com hábitos que, embora legalmente estabelecidos, já não servem os interesses da colectividade. Só assim poderá o país reencontrar um rumo em que a política seja vista, não como um jogo de interesses privados, mas como um verdadeiro serviço à res publica. 

A crise da participação cidadã em Portugal é hoje um dos sintomas mais preocupantes do desgaste democrático. A crescente abstenção eleitoral, o desinteresse generalizado pelo debate político e a falta de envolvimento nos mecanismos institucionais de decisão denunciam um profundo mal-estar. Muitos portugueses deixaram de acreditar que a sua voz conta — e, quando o cidadão se sente irrelevante, recua, desliga-se, abandona a praça pública. Este alheamento não surgiu por acaso, nem pode ser imputado unicamente a uma suposta indiferença cívica. É, antes, o resultado de décadas de governação centrada nas cúpulas partidárias, de políticas decididas à porta fechada, de uma cultura política que desconfia da participação activa fora das estruturas tradicionais. Os conselhos consultivos municipais, as assembleias de freguesia, os processos de consulta pública são, na maior parte dos casos, inócuos ou meramente decorativos. A participação é frequentemente entendida como um favor concedido pelo poder, e não como um direito pleno dos cidadãos. 

Para combater esta apatia, é necessário transformar profundamente a forma como o Estado se relaciona com a sociedade civil. A participação não pode ser um apêndice opcional da democracia — deve ser um dos seus fundamentos. Isso implica criar canais efectivos de escuta e decisão, dotados de poder vinculativo ou, pelo menos, de influência real sobre as políticas públicas. Exemplos concretos não faltam. A introdução de orçamentos participativos em várias autarquias foi um primeiro passo promissor, mas que carece de maior ambição. Estes mecanismos, quando bem implementados, permitem que os cidadãos definam prioridades de investimento local, promovendo um sentimento de pertença e responsabilidade colectiva. No entanto, muitos destes processos foram esvaziados por falta de financiamento significativo, por regras pouco claras ou por ausência de acompanhamento técnico. 

Outro caminho possível é o reforço das assembleias deliberativas com participação aleatória de cidadãos — fóruns de cidadãos escolhidos por sorteio, com tempo e informação adequados para discutir temas complexos e propor soluções. Estas assembleias, já testadas em países como a Irlanda ou a França, permitem escapar à lógica partidária e aproximar a decisão política do senso comum informado. Em Portugal, experiências incipientes neste domínio (como o Conselho de Cidadãos para o Clima) mostraram potencial, mas ainda não lograram consolidar-se como instrumentos permanentes de governação. 

É também fundamental que o sistema educativo cultive, desde cedo, uma cultura de cidadania activa. A educação para a participação não se pode limitar ao ensino formal sobre instituições; deve incluir práticas concretas de debate, organização, intervenção no espaço público. Uma democracia saudável começa nas escolas, nas associações juvenis, nas colectividades locais. 

Por fim, será preciso reabilitar o valor do compromisso cívico. Isso passa por devolver dignidade à acção colectiva, valorizando quem se envolve no associativismo, no voluntariado, nas causas públicas. E também por garantir que o tempo do cidadão não é desperdiçado com processos burocráticos, consultas simbólicas ou promessas vãs. Quando a participação produz resultados visíveis, o cidadão regressa. Mas quando é ignorado ou manipulado, afasta-se — e com razão. Combater a apatia exige, pois, mais do que campanhas institucionais ou apelos morais. Exige uma reconfiguração do próprio contrato democrático: uma democracia onde o cidadão não seja mero espectador, mas protagonista. Só assim será possível resgatar a confiança perdida e devolver vitalidade à democracia portuguesa. 

Tudo tem de começar por algum lado e a realidade local poderá contribuir para a mudança da sociedade. Assim, e para cativar a participação cívica a nível local devem ser reforçados alguns aspectos já ensaiados nalguns municípios e adoptados outros igualmente importantes, como: 

Orçamentos Participativos com Poder Real e Inclusivo, que muitas câmaras municipais e juntas de freguesia em Portugal já adoptaram mas que, frequentemente, são simbólicos ou subfinanciados. Para torná-los verdadeiramente eficazes será necessário garantir a atribuição de verbas significativas do orçamento municipal destinado a esses projectos propostos e votados pelos cidadãos. 

Implementar Assembleias de Cidadãos por Sorteio, inspiradas nos modelos de democracia deliberativa europeus, que envolvem cidadãos sorteados aleatoriamente para debater temas relevantes e propor recomendações. 

Criar Conselhos Consultivos Locais com Mandato Cívico. Em vez de conselhos nomeados apenas por critérios políticos, seriam criados Conselhos de Bairro ou de Zona com representantes eleitos directamente pelos moradores e lugares reservados a associações locais, escolas, clubes, colectividades e IPSS. Esses representantes teriam mandatos limitados e rotativos. 

Transformar as escolas e espaços culturais em núcleos de cidadania activa, criando oficinas de cidadania em bibliotecas e centros culturais, onde se pudesse dar formação em literacia cívica (especialmente em zonas com baixa participação eleitoral, através de parcerias com universidades, ONGs ou associações culturais). 

Desburocratizar e fortalecer a capacidade dos cidadãos para apresentar propostas concretas através de uma plataforma de petições locais online, integrada nos sites das autarquias, com contagem visível de apoios e um limite de assinaturas acessível, por exemplo, 1% da população residente para obrigar a discussão em assembleia municipal. 

Criar mecanismos de controlo público sobre obras, gastos e contratos, através de comissões de acompanhamento compostas por cidadãos voluntários e entidades independentes. 

Com todas estas medidas em execução, será expectável uma diminuição da abstenção e do desinteresse pela política, uma promoção mais efectiva da transparência na gestão pública e um estímulo inequívoco ao envolvimento cívico dos jovens, acompanhado de uma participação mais abrangente dos cidadãos nos assuntos públicos. Em consequência, fortalecer-se-ia o tecido social e o sentido de pertença à comunidade e ao território. Com efeito, a verdadeira transformação democrática tem início quando os cidadãos deixam de ser meros espectadores para se tornarem co-autores da vida política das suas comunidades. As autarquias, pelo seu carácter de proximidade, encontram-se numa posição privilegiada para liderar este processo de renovação democrática. Se não assumirem esse papel, esta democracia enferma poderá, a breve trecho, extinguir-se em definitivo. 

Prognóstico: O povo está-se nas tintas (incluindo os próprios políticos, que dele fazem parte) e assim continuará, de braços cruzados, aguardando, inconscientemente, a derrocada do circo.




Novembro

 


Grande Angular - Novembro!

Por António Barreto

Em 25 de Novembro de 1975, deu-se um confronto político e militar benfazejo. De um lado, tudo o que, sendo de esquerda, não era democrático, era revolucionário, desejava liquidar a iniciativa privada e o capitalismo, impedir a livre elaboração da Constituição, evitar as eleições legislativas previstas para uns meses depois, afastar a ideia de um Parlamento eleito e plural, erguer obstáculos à criação de um regime democrático parlamentar parecido com o que vigorava em praticamente todos os países ocidentais e europeus. Pretendiam transformar em órgãos de soberania os poderes de organismos não eleitos, como as comissões de trabalhadores e de moradores, os sindicatos e outros “órgãos de poder popular”, segundo a terminologia da época. Neste lado, brilhavam o Partido Comunista Português e o MDP, sua excrescência. E também outros epifenómenos revolucionários como a UDP, o MES, a FEC-ML, o PUP e a LCI. E sobretudo oficiais e unidades militares identificados com as facções revolucionárias do MFA. Todos estes activistas menores detinham a iniciativa e a ribalta, mas quem realmente tinha peso era o PCP.

Do outro lado, estavam oficiais e unidades militares comprometidos com o 25 de Abril e entregues definitivamente à ideia democrática, pela qual se tinham elevado um ano antes. Uma grande parte da instituição militar estava interessada no programa de democratização e de Estado de direito. É bem provável que militares afectos ao antigo regime se encontrassem neste campo político e institucional, tal como outros estavam na área revolucionária. Mas a direcção e o protagonismo deste universo político e militar pertenciam sem qualquer dúvida aos militares empenhados no 25 de Abril e que, cada vez mais, se identificavam com a Forças Armadas nacionais e se afastavam do activismo onírico revolucionário.

Ainda deste último lado, na sociedade civil, encontrava-se tudo o que era democrático, a começar pelo Partido Socialista, que muito cedo percebeu que seria a primeira vítima da revolução. Mário Soares compreendeu, desde 1974, que o futuro da democracia em Portugal, assim como dos socialistas, dependia da capacidade de oposição aos projectos comunistas e aos delírios revolucionários. A seguir ao PS, o PPD (futuro PSD), animava vastas áreas de população interessada em resistir ao comunismo e à revolução, tanto quanto em contribuir para uma democracia parlamentar. Outros pequenos partidos e movimentos, várias instituições (a começar pela Igreja Católica) e gente de todas as classes sociais e profissionais, lutavam pela democracia e contra a revolução. Evidentemente que, no meio da multidão, não faltavam, em números insignificantes, gente do antigo regime e fascistas de velha criação ou nova semente. Sentido de oportunidade? Talvez. Mas essas pessoas também tinham direito à vida, que era o que a democracia lhes concedia, como a toda a gente. Como até aos revolucionários antidemocráticos que a queriam derrubar.

Em poucas palavras: em Novembro de 1975, estavam, frente a frente, a revolução e a democracia. Mais precisamente, 20% dos portugueses a favor da revolução contra 80% dos portugueses favoráveis à democracia. Por entre golpes e contragolpes, ameaças e armadilhas, os militares da democracia derrotaram os da revolução. E os democratas derrotaram os revolucionários. Sem apelo nem agravo. E, contrariamente à tradição das revoluções, os vencedores não mataram, não proibiram, não liquidaram os derrotados, deixando-lhes, fazendo disso questão, um lugar no Estado democrático. É disto que se fala, quando se fala do 25 de Novembro. É dos militares do Grupo do Nove, de Melo Antunes, Vasco Lourenço e seus amigos. É dos militares da instituição militar dedicados à democracia, com Ramalho Eanes à cabeça. É dos militares operacionais, como Jaime Neves, que correram riscos pela democracia.

Aquilo a que temos assistido, há vários anos, é esta espécie de entremês medíocre ou de futilidade palerma que é a dança de argumentos e disparates sobre o 25 de Novembro. Mais ou menos importante do que o 25 de Abril? Foi o regresso dos fascistas com a conivência dos socialistas? Foi uma armadilha da direita em que caiu o PS? E como se vai comemorar? Igual a Abril? Ou em vez de Abril? Ou como Abril com menos minutos, menos hino e menos bandeira? E comemora-se na Assembleia, no hemiciclo ou nas enxovias? E se fosse só numa caserna para mostrar que aquilo foi coisa de militares e que nada teve de socialismo nem de democrático?

O que os socialistas fizeram, mais uma vez, mas agora parece que definitivamente, foi entregar o 25 de Novembro à direita. Pagar mais um preço à “geringonça de esquerda”. Colaborar com a ideia de que o 25 de Novembro foi um movimento militar de direita destinado a correr com as esquerdas e com os partidos do 25 de Abril. Aceitar a tese de que os socialistas tiveram esse desvio de direita, mas que hoje estão muito distantes dessas fantasias e que a sua política é à esquerda, com os partidos de esquerda, contra todos os partidos da direita. Confirmar o boato que diz que Mário Soares teve devaneios com a direita, um deles a 25 de Novembro, mas que isso lhe passou depois. Afirmar que o 25 de Novembro não pertence ao património da democracia, muito menos à história do PS. Sublinhar que primeiro vem o socialismo e o partido, só depois vem a democracia e Portugal.

Felizmente que há ainda muitos socialistas que pensam que Novembro salvou e garantiu a democracia. Que sabem que o PS só tinha dois anos em Abril e que, mesmo com as notáveis figuras de Mário Soares e Salgado Zenha, estava longe de mostrar a grandeza real, longe de ser o preferido dos portugueses. Que sabem que foi a luta contra o comunismo e contra a ditadura de esquerdas que fez o PS e que engradeceu Mário Soares. Que sabem que os socialistas estavam à frente de todos, nas unidades e nos regimentos, em Rio Maior, no Porto e em Gaia, em Estremoz e Vendas Novas, na Amadora e na Ajuda, a rechaçar os revolucionários e os comunistas e a defender a democracia. Que sabem que foi com Novembro que os socialistas infligiram aos comunistas a sua maior derrota democrática e que talvez tenha sido o único caso em que os comunistas foram retirados, pacificamente, do poder que dominavam. Felizmente que há quem honre a história, quem respeite os seus, quem cultive os maiores, quem goste de seguir o exemplo dos seus dirigentes históricos, quem tenha a certeza de que a liberdade está acima dos cálculos mesquinhos de oportunidade. 

.Público, 22.11.2024

Umberto e o Eco

 A lucidez mordaz de Umberto Eco

"Acredito que aquilo em que nos transformamos depende do que os nossos pais nos ensinam nos pequenos momentos, quando não estão a tentar ensinar-nos. Somos feitos de pequenos fragmentos de sabedoria." Umberto Eco em O Pêndulo de Focault

"Os livros não são feitos para que alguém acredite neles, mas para serem submetidos à investigação. Quando consideramos um livro, não devemos perguntar o que diz, mas sim o que significa." Umberto Eco em O Nome da Rosa 

"As redes sociais dão o direito de falar a uma legião de idiotas que antes só falavam no bar depois de beberem uns copos de vinho, sem prejudicar a humanidade. Então, eram rapidamente silenciados, mas, agora, têm o mesmo direito e oportunidade de falar do que um galardoado com o prémio Nobel. É a invasão dos imbecis." Umberto Eco ao jornal La Stampa. 

"Hoje, quando despontam os nomes de corruptos e vigaristas, as pessoas não se importam com isso, em consequência só vão para a cadeia os ladrões de galinhas." Umberto Eco à agência EFE 

"Quando os homens deixam de crer em Deus, não significa que não creem em nada: significa que creem em tudo." Umberto Eco





IUC imoral para viaturas que já tinham pago imposto ambiental

Carcaças e papo seco

Joana Amaral Dias

22 Outubro 2023 — 00:15

Quem não tem dinheiro para comprar um carro novo vai pagar mais IUC por guiar um chasso velho. Eis a sinopse da polémico com o Imposto Único de Circulação (IUC) -- que pode aumentar mais de 1000%- uma espécie de nova versão do "não têm pão, comam brioches".

A falácia da fiscalidade verde continua. Não resolve os problemas ambientais e prejudica sempre os mais desfavorecidos. Taxar à bruta carros antigos não incentiva o abate porque trocar de carro é para quem pode. Ou acham que a esmagadora maioria das pessoas que têm um calhambeque a cair aos pedaços é porque gosta? Claro. Deve adorar as despesas constantes de oficina, as funcionalidades disfuncionais, o desconforto, a insegurança.

Ou acham que os remediados insistem em andar com carros podres e poluentes por défice de consciência ambiental e que será mais esta roubalheira fiscal que lhes meterá juízo e os levará a correr para comprar uma bomba eléctrica reluzente? Por favor.

Esta medida é mais um imposto sobre a pobreza. Entretanto, circulam millhares de viaturas que não pagam IUC e que custam tanto como as casas onde vivem muitos dos que têm os ditos carros velhos agora condenados.

E não venham com a história de que com o dinheiro do abate pode comprar-se um carro mais recente. Tal maquia só dará, na melhor das hipóteses, para adquirir outro chasso. Ou então um carrinho de linhas.

Portanto, os mais carenciados lá arranjam um popó que mal rola, para poder ir trabalhar numa país quase sem transportes públicos e depois pagam impostos para financiar o IVA de carrões eléctricos, de um verde muito duvidoso e de gente rica. Sobre as minas de lítio para estes automóveis, António Costa já não tem nada a dizer, pois não?

Aliás, que tal medidas musculadas dirigidas às empresas mais poluidoras? Meia dúzia dessas teriam, sem dúvida, um efeito muito superior ao que mais este injusto imposto trará. E discutir o incentivo aos jactos privados em Portugal?

É que Tires põe Portugal no "top 3" da intensidade de emissões de CO2 de jactos privados, de acordo com um relatório da consultora ambiental CE Delft e da organização ambientalista Greenpeace.

Mesmo assim, esse Aeródromo constrói agora uma segunda pista exclusiva para aterragem de jactos privados com futebolistas. Foi necessário demolir um bairro inteiro! Note-se que uma viagem média num destes aviões produz CO2 equivalente a conduzir um carro a gasolina de Paris a Roma 16 vezes. Aliás, 1% da população mundial é responsável por mais da metade das emissões da aviação de passageiros.

Enfim, mais desta fiscalidade verde que, tal como eficiência energética das casas ou o vestuário, irá apenas onerar os mais desfavorecidos.

Esta medida do IUC pode ser até inconstitucional e Marcelo - bem como qualquer partido- pode pedir ao Tribunal Constitucional que se pronuncie. Oxalá. Até porque está em causa o princípio da proporcionalidade.

O incentivo ao abate destes até veículos pode ser implantado de modo equilibrado, e não com a punição compulsiva de quem já esta castigado pela vida. Fingir que se salva o ambiente trucidando os pobres é obsceno demais. Mesmo para este governo de Marias Antonietas.

Psicóloga clínica. Escreve de acordo com a antiga ortografia

Descobrir os Descobrimentos

 


A luso-americana Deana Barroqueiro, uma romancista que sabe muito sobre história dos Descobrimentos, deu uma entrevista ao Diário de Notícias que teve um título forte, mas perfeitamente sustentado pelas sucessivas respostas: "Os bem-pensantes querem reduzir os Descobrimentos à escravatura, fazendo tábua rasa de tudo o resto". Foi um sucesso de leitura na edição online do jornal, o que confirma o enorme interesse que a História de Portugal continua a suscitar. Aliás, é esse interesse que também ajuda a explicar a carreira de sucesso da autora, que agora acaba de republicar um livro sobre Bartolomeu Dias, o navegador que em 1488 cruzou o extremo-sul de África, ao qual chamou Cabo das Tormentas, mas depois D. João II preferiu batizar como Cabo da Boa Esperança.

Se o título da entrevista se referia à polémica que procura tornar os Descobrimentos uma espécie de sinónimo de escravatura, parte das reações vieram criar outra polémica, desmentindo mesmo que tenha havido Descobrimentos, pois a maioria das terras estavam já habitadas. Ficaria assim o conceito de Descobrimentos, argumentam alguns, aplicado a meia-dúzia de arquipélagos, como o dos Açores ou o da Madeira, desabitados aquando da chegada das primeiras caravelas.

Com a devida vénia, cito aqui uma das respostas de Deana Barroqueiro como uma boa definição do que os Descobrimentos foram, de facto : "Os Descobrimentos Portugueses - e Espanhóis - com todos os seus defeitos, levaram o conhecimento do Ocidente para o Oriente e vice-versa, fazendo, além disso, a primeira globalização da Época Moderna, que provocou uma espantosa revolução, progresso e transformação do mundo, que já não voltou a ser o mesmo, não só a nível das Ciências, mas também das Artes, das Letras, das técnicas e das mentalidades. E, acima de tudo, na alimentação e na culinária dos povos contactados, que se enriqueceram com a troca dos produtos (e as receitas dos nossos pratos) que os portugueses levaram da Europa, mas também do Novo Mundo (Brasil), para África e Oriente, e que trouxeram de lá para cá. Portugal estava à frente de todas as nações europeias, no período dos Descobrimentos, com saberes não só teóricos, mas de experiências feitos. Tínhamos os melhores cientistas - geógrafos, astrónomos, cartógrafos, biólogos, físicos [médicos], boticários [farmacêuticos], engenheiros e inventores, construtores de navios, historiadores, letrados, entre outros. As suas obras, copiadas pelas nações europeias mais avançadas, desfaziam mitos, superstições e ignorância, consagrados durante toda a Idade Média, abrindo as mentalidades para uma nova era de Conhecimento, apoiado em provas dadas pela experiência de muitos, pela descoberta de mundos e povos desconhecidos, em zonas que se julgavam inabitáveis, pela nova configuração dos continentes, desenhados milha a milha pelos nossos navegadores nas suas cartas de marear, que os espiões estrangeiros procuravam obter a todo o custo."

Entre os tais "defeitos" está a escravatura, sem dúvida, sobretudo o tráfico negreiro transatlântico que os portugueses iniciaram no século XV e os brasileiros, já independentes, praticaram até bem dentro do século XIX. É um legado pesado, que merece reflexão, sendo certo que a escravatura marcou a humanidade em todas as épocas e latitudes até ao extraordinário triunfo do movimento abolicionista.

Descobrir foi um processo em dois sentidos. Lembro uma conversa em Nagasáqui em que japoneses me recordaram que graças aos portugueses descobriram o mundo. Um pouco a ideia que já vi defender um dos nossos mais prestigiados historiadores, João Paulo Oliveira e Costa, quando diz que os Descobrimentos fizeram os europeus descobrir o que havia longe e os que lá viviam e aos que viviam longe descobrir os europeus, na realidade fazendo o mundo autodescobrir-se, pois antes das caravelas portuguesas e espanholas não havia sequer noção do que era.

Nisto de Descobrimentos, e para ajudar a perceber o conceito, sublinho sempre que a historiografia portuguesa nunca reivindica a descoberta da Austrália, por muito que seja provável (e até possam existir provas) de visitas ou avistamentos da costa norte no século XVI, muito natural para quem chegou a Timor. Não houve descoberta da Austrália pelos portugueses pois a gigantesca ilha não entrou nessa época na pioneira globalização iniciada com Vasco da Gama. Dizer que descobrimos a Austrália seria como dizer que os vikings descobriram a América. Nunca se tratou apenas de chegar a um sítio - fosse a Madeira ou o Japão -, mas sim de esse sítio, e as suas populações havendo-as, passarem a estar em contacto com o resto do mundo.

Estude-se os Descobrimentos. Ou então leia-se um bom romance por eles inspirado. Critique-se o que houver a criticar, mas não se negue o óbvio: foram um momento de transformação do mundo, é impossível pensar o mundo de hoje se não tivesse havido Descobrimentos. Parabéns Deana Barroqueiro pelos belos livros que tem escrito, parabéns também pela entrevista informada e frontal.

Leonídio Paulo Ferreira, 29 Julho 2023


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/29-jul-2023/descobrir-os-descobrimentos-16771387.html?fbclid=IwAR1Iv3WMI8qdUjuXZ9aTyNVtXyd66oVz9Z9wBdD8Qbl4eMF273I14rrwOKk

 

 

 

 

 

 

engenharia da aldrabice

 

Os Engenheiros do Caos, o novo livro de Giuliano da Empoli.

A ascensão dos populismos, na Europa e não só, ganhou a forma de uma dança desenfreada que inverte as regras estabelecidas e as transforma no seu contrário. 

Aos olhos dos eleitores, os defeitos dos líderes populistas são vistos como qualidades, a inexperiência deles é a prova de que não pertencem ao círculo corrupto das elites e a sua incompetência é garantia de autenticidade. Já as fake news que lhes pontuam a propaganda são a marca da sua liberdade de espírito. No mundo de Donald Trump, de Boris Johnson, de Jair Bolsonaro ou de Matteo Salvini cada dia tem a sua gafe, a sua polémica, o seu brilharete. Ao contrário do que se possa pensar, por detrás das aparências de carnaval populista está o trabalho árduo de ideólogos, cientistas e especialistas em big data, sem os quais os líderes populistas dificilmente teriam chegado ao poder. 

Estes são os engenheiros do caos, cujo retrato Giuliano da Empoli pinta. Uma investigação que mostra uma galeria de personagens, muitas delas desconhecidas do público em geral, que estão a mudar as regras do jogo político. Com consequências sociais inegáveis.





25 de Abril ou 25 de Novembro?



O Golpe de Estado de Abril de 1974, não foi uma revolução mas um golpe corporativista gizado por militares profissionais e suscitado por um mal-estar crescente entre a oficialidade da F.A.P. devido às situações que viviam no âmbito das guerras coloniais. Integrando alguns militares mais instruídos e politicamente engajados,  o golpe transformou-se rapidamente num evento revolucionário por acção dos partidos políticos e da doutrinação das populações.

Esse 25 de Abril de 1974 não restabeleceu a democracia em Portugal, mas derrubou o regime corporativista de cunho fascista e viabilizou a possibilidade de se implantar a democracia, o que ocorreu em 25 de Novembro de 1975 - porque a verdadeira Democracia não existe sem Liberdade, e essa só foi conquistada ao jugo comunista em Novembro de 1975. 

Na verdade, aquilo que devemos ao 25 de Abril é que sem ele não teria existido o 25 de Novembro, e foi muito pedagógico e construtivo ter-se vivido aquele período de fervor revolucionário de cariz totalitário socialista-comunista. Foi como uma vacina política de efeito duradouro, aplicada aos portugueses.

Considerando que as esquerdas se apropriaram do 25 de Abril e que, quando governam, não se coíbem de exaltar as suas ideologias destruidoras de riqueza e de nações, não se afigura desejável comemorar o 25 de Abril com maior entusiasmo do que o aplicado nas comemorações do 25 de Novembro.






O triunfo dos porcos continua em boa marcha

 Os wokes, os cancelados mentais e outros grunhos vão tomando conta do mundo. A civilização vai desmoronando.


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Os velhacos do wokismo e cancel-culture continuam a destruir a cultura

 De mal-entendidos se faz uma imensa mistificação

A quem aproveita?

 


João Pedro Marques numa conversa 'incorrecta' com o foco na escravatura, mas abordando também o wokismo, Joan Baez e George Orwell. Foi professor universitário e do ensino secundário e investigador do Instituto de Investigação Científica Tropical. Especialista em História da Escravatura, tem sido uma das principais vozes críticas contra o politicamente correcto em redor das questões raciais.

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Existe a ideia de que foram as revoltas dos escravos que foram determinantes para a abolição da escravatura. Destaca a preponderância do movimento abolicionista na libertação dos escravos nas colónias, do papel dos ocidentais nesse processo e defende que o primeiro país a abolir a escravatura foi o actual Haiti, antigo Saint-Domingue…

Essa opinião está errada. Quer dizer, estritamente falando, está errada. Repare, o jogo aí é utilizar a palavra “país”. É isso que condiciona, deturpa e esconde o que foi a realidade. Os estados do norte dos Estados Unidos da América já estavam a abolir a escravidão. Começaram a fazê-lo na década de 70 [do século XVIII], ou seja, quase 30 anos antes de o Haiti se ter tornado independente [em 1804]. O Vermont, a Pensilvânia, Nova Iorque… A pouco e pouco, esses estados do norte dos Estados Unidos iam abolindo, de uma forma gradual, a escravidão. Mas naquilo que viria a ser o Haiti, já a França tinha abolido a escravidão. Ou seja, o primeiro país a abolir a escravidão, foi a França. Globalmente, foi a França, em 1794, em plena revolução francesa. O comissário francês que na altura estava na colónia francesa então chamada São Domingos [Saint-Domingue ], um indivíduo chamado Sonthonax, em 1803 decretou a abolição da escravidão. No ano seguinte, a Assembleia em Paris ratificou a medida do seu comissário e aboliu em todas as colónias da República Francesa. Portanto, o primeiro país a abolir a escravidão foi a França. É verdade que, adiante, no tempo de Napoleão, a medida foi revertida. Em 1802, Napoleão repôs a escravidão. E quando o Haiti se tornou independente constitucionalmente, em 1804, aboliu definitivamente a escravidão nessa região. Mas, como vê, a história é mais complexa do que essa visão taxativa. De facto, os abolicionistas foram decisivos. Sem os abolicionistas, boa parte dos quais brancos, não teria havido abolição. Isto não é uma opinião exclusivamente minha. Muitas colegas historiadores defendem este ponto de vista, mas são quase todos velhos como eu, não é? Anteriores à chegada do wokismo.


E até que ponto é que os próprios africanos colaboraram, eles próprios, com o tráfico transatlântico de escravos? Porque parece ter-se muito a crença de que os ocidentais forçaram essa prática aos povos africanos.

Que forçaram, e que assumem o ónus de todo o processo, não é? Mas não. Foi um negócio, horrível, de mútuo acordo. Aliás, os ocidentais não tinham possibilidade técnica, material, humana ou médica de penetrar em África. Antes dos anti-malários, e, depois, das vacinas contra a febre amarela, a entrada naqueles territórios era mortífera.

 

Então, eles não teriam sido capazes de levar a cabo este processo sem a colaboração africana?

Não, sem haver um sistema montado, nunca teria sido possível transportar aquele número de pessoas para as Américas. Portanto, foi qualquer coisa feita em colaboração estreita, recíproca, e para benefício mútuo – é uma ideia que é importante acentuar – dos dois lados da equação. Os africanos ganhavam de uma forma diferente daquele que era o ganho dos ocidentais. Os ocidentais ganhavam de uma forma que se convertia em moeda, tinham um lucro económico com todo o processo, com foco no tráfico, regra geral, que não era muito lucrativo. E, depois, aproveitando o trabalho dos escravos nas minas e nas plantações, e por aí fora, nas Américas. Isso, de facto, produzia muita riqueza. O açúcar, os produtos coloniais, produziam muita riqueza. Os africanos que estavam envolvidos no tráfico de escravos também ganhavam. Ganhavam num registo que, para nós, ocidentais, não fazia muito sentido, mas que nas sociedades africanas era muito valorizado. Ganhavam em termos de prestígio e de poder político. Aquilo que os ocidentais levavam para lá, que para nós não tinha um valor por aí além – como têxteis ou tabaco de terceira qualidade, que os africanos adoravam, mas que para nós aqui no Ocidente nem sequer era permitido vender – era escoado para a costa de África e, com esses produtos, os africanos competiam. Distribuíam aquilo e obtinham subordinação e fidelidade política e dependentes. E, portanto, isso era, para eles, do ponto de vista social e económico, muito recompensador. Por isso se envolveram naquele negócio, não foram forçados a fazê-lo.


Já tem salientado que a escravatura é imemorial, e que o que foi, de facto, específico ao Ocidente não foi a prática da escravatura – que sempre existiu –, mas sim a sua abolição. Considera assim que, por parte de certos sectores da sociedade, existe uma desvalorização do papel dos europeus na abolição da escravatura, certo?
Isso acontece porque há uma agenda política. Essa agenda política tem como objectivo – o que é compreensível, e até é louvável e respeitável – elevar as comunidades afrodescendentes e colocar os negros no centro da História.


E isso passa por realçar o papel das revoltas escravas?
Sim, realçar todo o papel dos escravos – negros, muitas vezes – e descobrir e enaltecer heróis entre eles e, simultaneamente, reduzir a importância dos povos ocidentais, dos brancos.

E são os próprios ocidentais a fazê-lo, apelando muitas vezes a um sentimento de culpa, não é? Esse movimento de autoflagelação também acontece fora do Ocidente? É comum todos os povos auto-denegrirem o seu passado e a sua História?
Não, é uma doença específica do Ocidente. Nós não vemos os povos muçulmanos fazerem isto, e estiveram envolvidos no processo escravocrata da mesma forma. Enfim, com variações, não é? No Ocidente importavam-se maioritariamente escravos do sexo masculino, força de trabalho para usar nas plantações do açúcar, por exemplo. No mundo muçulmano importavam-se sobretudo mulheres e crianças. Pela sua capacidade reprodutiva, para haréns e coisas desse tipo. Digamos que são complementares, não é? O que sai através do Atlântico é maioritariamente masculino, e o que sai através do deserto Saara e do Oceano Índico, é maioritariamente feminino. Mas as condições de transporte e de exploração, o quantitativo, são muito equivalentes. E ninguém vê o mundo muçulmano a rasgar vestes e a culpabilizar-se por tudo isso que se passou.

E os asiáticos, por exemplo?
Também. A escravatura é qualquer coisa de intemporal e disseminada à escala do planeta. Desde a Coreia até à América, anterior à chegada de Cristóvão Colombo. Saiu recentemente um trabalho de historiografia importante, uma obra colectiva, que faz o ponto da situação no estado actual dos conhecimentos. Chama-se Cambridge World History of Slavery. E vai desde a escravatura antiga, desde a Mesopotâmia, Roma e Grécia, até à escravatura recente, de final do século XIX, princípio do século XX. E encontra lá muitos países. A Turquia, a Coreia, a Índia, o Japão… Havia escravos em todo o lado.

No seu livro fala também da vontade de activistas antirracistas de reescrever alguns pontos da História. Estão a conseguir?
Eu já não dou aulas no secundário há muito tempo, e já não estou muito por dentro. Dei uma olhadadela nos programas, mas já não estou lá. Mas eu suspeito e receio que os activistas estejam a ganhar, e que estejam a impor a sua agenda a pouco e pouco, subterraneamente. O poder político não se tem pronunciado sobre isso, mas eu acho que eles vão cedendo às pressões. Tal como cederam, tanto quanto se consegue perceber, no caso do Museu dos Descobrimentos.

 

Foi prometido por Fernando Medina, quando presidente da autarquia de Lisboa… Entretanto, ficou em águas de bacalhau?
Aparentemente. Nunca mais ninguém falou nisso. O assunto discutiu-se em 2018, fazia parte do programa do governo camarário de Fernando Medina. Em 2018 começou a haver muita contestação, por parte de grupos académicos e de associações de afrodescendentes. E a partir daí deixou de se ouvir falar no Museu dos Descobrimentos.

Em paralelo, há quem defenda a construção de um Memorial da Escravatura.
Exactamente, e eu não tenho nada contra um Memorial da Escravatura, desde que não se encha o país de memoriais da escravatura, não é? As coisas têm a proporção que têm. Agora, uma coisa não deve obstaculizar a outra. Um memorial da escravatura, sim senhor. Um museu dos Descobrimentos, com certeza.

Qual seria a importância de um Museu dos Descobrimentos?
Enorme. Os Descobrimentos têm um papel muito importante na História do nosso país, e da nossa identidade como povo. E na forma como os outros nos reconhecem historicamente, não é? Como nos identificam historicamente. Portanto, querer denegrir os Descobrimentos, e apontar só os seus aspectos nocivos, sangrentos e violentos – que todos os grandes processos históricos infelizmente têm –, é algo inescapável e, trágico. Pondo apenas o foco nisso, e querer, inclusivamente, banir a própria palavra… eu acho isso de uma burrice e de um fanatismo indescritível. Isso corresponde, de facto, a subverter as coisas e a aplicar uma agenda política.

Um dos argumentos contra o uso da palavra Descobrimentos é que os nativos não se sentiram descobertos quando os ocidentais lá chegaram…
Como acontece em qualquer relação interpessoal ou internacional. Quando eu encontro alguém, posso sentir-me de uma determinada maneira, e isso não quer dizer que a outra pessoa se sinta da mesma forma. Mas é a minha maneira, sou eu que sou o narrador.

Tem de se escolher uma perspectiva para contar a História?
Pois, não se pode contar a História de todas as perspectivas em simultâneo. Tem de se ter uma perspectiva. E eu não tenho nem devo abdicar da minha perspectiva só porque aquele senhor ali ao lado não gosta, porque não é a dele. Pois não, é a minha!

No seu livro dá até o exemplo do Museu da Liberdade em França…
Exactamente. Houve muita gente na Revolução Francesa que não se sentiu nada libertada, pelo contrário. E não é por isso que deixa de se chamar Museu da Liberdade ao museu sobre a Revolução. E por aí fora, podíamos aplicar isso a muitas situações… Nunca se agrada a toda a gente, é impossível. Mas não é por isso que temos de abdicar de designações.

Critica também a “febre” da remoção de estátuas e renomeações de ruas, por evocarem pessoas que possuíam escravos, pela sua incoerência. Dá até o exemplo da rebaptização de uma rua de Nova Iorque em homenagem a Jean Jacques Dessalines, que mandou matar milhares de brancos após a Independência do Haiti…
Foi o homem que tornou o Haiti independente. Era um general subordinado de Toussaint Louverture, e ex-escravo. Louverture não era escravo. Ou seja, tinha sido, mas na altura em que surge a revolução, Louverture já era um homem livre e proprietário de escravos. Mas Dessalines teve uma rua baptizada com o seu nome, e foi um torcionário. Ao contrário de Louverture, que era um contemporizador e um indivíduo que queria proteger a comunidade branca da colónia francesa que viria a ser o Haiti… queria harmonizar as tensões entre os brancos, os mestiços e os negros. Este Dessalines, não. Era um tipo vingativo, e terá mandado matar cerca de cinco mil pessoas. É isso que eu digo: as perspectivas são, muitas vezes, diferentes e conflituantes.

Mas, supostamente, o objectivo de renomear ruas é expurgar a violência e as atrocidades do passado…
Expurgar a violência dos brancos, não é a violência dos negros. Não se refere a violência dos negros, mas não imagina o que foi a revolta de escravos do Haiti. Eu não lhe vou dizer para não lhe dar pesadelos. Ninguém fala nisso, mas foi uma coisa verdadeiramente aterradora. A tal ponto aterradora que, no mundo ocidental, ficou, durante décadas, a imagem do Haiti como o pesadelo. O pesadelo no mundo colonial era aquilo. De tal modo que, 70 anos depois, aqui nas cortes portuguesas em Lisboa, quando surgiam casos de escravos em Luanda que mataram um senhor, ou havia pequenos tumultos… nunca houve revoltas escravas em Luanda, mas houve uns incidentes na altura, e o assunto foi discutido nas cortes, no Parlamento de então. E ainda se evocava o caso do Haiti, o caso de São Domingos. Portanto, repare bem até que ponto o que se passou lá ficou marcado e impressionou extraordinariamente as pessoas. Os extremos a que aquilo foi levado.

Não houve mais nenhuma revolta dessa dimensão nas outras colónias africanas?
Houve revoltas escravas, mas com aquela dimensão e com aquele nível de terror, não. Porque a própria colónia estava em guerra, e é preciso dizê-lo, porque esta parte não é contada, não é? É contada como tendo sido a revolta escrava que provocou tudo aquilo. Mas não. A colónia já estava em guerra devido à Revolução Francesa, já estava em tumulto e em conflito. Entre os mestiços e brancos, realistas e republicanos. E, quando a revolta surge, torna tudo muito mais complicado. Pior ainda quando os ingleses e os espanhóis intervêm. Portanto, aquilo foi um tumulto de todo o tamanho. E, mesmo quando o país se tornou independente em 1804, e passou a existir o Haiti em vez da colónia francesa de Saint-Domingue, continuou em guerra civil. Entre o norte, do imperador Dessalines, e a parte sul da colónia, onde prevaleciam os homens livres mestiços. Portanto, continuou com uma guerra civil durante imenso tempo. E o país ficou completamente destruído. Ainda está.

E essa revolta teve um efeito dominó no processo de abolição da escravatura? Foi o que permitiu a libertação que viria a acontecer nas restantes colónias?
Não teve. Nenhuma potência quis reproduzir uma coisa daquelas. Aquilo só é explicável no contexto da Revolução Francesa. Se tivesse sido num outro contexto, não teria acontecido, nem se teria propagado daquela forma. O que acontece é um esfarelamento do poder político francês, com todos aqueles tumultos e convulsões. Sem a Revolução Francesa não é explicável. É explicável uma revolta, mas teria ficado confinada, como, aliás, em vários momentos do processo esteve para ficar. Só não ficou porque os ingleses e os espanhóis entraram na guerra, e Sonthonax, o comissário de que falei, precisou de gente para combater. Então, libertou os escravos. Portanto, é um contexto muito particular. A única coisa onde houve uma influência exterior, foi no apoio que o Haiti já independente deu a Simón Bolívar, na altura das lutas pela independência do que viria a ser a Venezuela. Aí, o Haiti apoiou, com soldados. Mas foi a única coisa, não interferiram em nada. No meu ponto de vista, a revolta do Haiti teve um efeito contraproducente para a liberdade das outras colónias, porque o poder político e os senhores tornaram-se muito mais vigilantes e punitivos do que já eram. Não houve nenhuma repetição daquilo nos anos seguintes. O fim da escravidão nos outros países aconteceu décadas depois, e por um processo completamente diferente.

Outra coisa que salienta, é que muitos dos escravos revoltosos, não se insurgiram contra a escravatura em si, mas apenas contra a sua própria condição de escravos. E refere também que muitos deles, como homens livres, adquiriam escravos. Acha que as pessoas, de modo geral, têm noção disso?
Não, isso é omitido. Mesmo na própria revolta do Haiti, é sempre omitido que Toussaint Louverture tinha escravos, que era livre e tinha escravos. É sempre omitido que os líderes da revolta escrava – que foram várias pessoas ao longo do tempo – mas, antes de Toussaint se ter tornado líder, que eram dois escravos chamados Georges Biassou e Jean-François, faziam comércio de escravos.

Escravos negros?
Escravos negros. Mulheres, sobretudo; vendiam-nas para os espanhóis. Isso é tudo omitido, tudo escondido. Não se refere isso porque, lá está, não convém. Não é politicamente correcto dizê-lo. Mas, para um historiador, essa é que é a verdade. Aliás, esses indivíduos nunca se juntaram, depois, a Toussaint Louverture e aos franceses. Continuaram fiéis à Espanha, e, quando o exército da República Francesa no Haiti, comandado por Louverture, foi ganhando a guerra, eles acabaram por sair da colónia. Jean-François foi aqui para Espanha, Cádis, se não me engano. E Biassou foi para a zona do Louisiana. Portanto, os líderes da revolta escrava continuaram a escravizar. E não queriam a liberdade para os escravos todos, era só para eles e para as famílias.

Na verdade, ainda existe escravatura, com particular destaque para África e a região da Ásia e do Pacífico…
Sim, mas repare, a escravatura tornou-se ilegal em todo o Mundo. Não nos podemos esquecer que antigamente era legal. Implicava uma forma de propriedade legalmente reconhecida. Isso agora tornou-se ilegal. Mesmo em países como a Mauritânia, que ainda a praticam, é ilegal. Mas existem é situações de exploração do trabalho e do corpo, escravatura sexual. Por exemplo, eu às vezes vejo números, com mulheres e crianças, coisas aterradoras. Aos milhões. Mas, tudo isso é ilegal. Agora existem formas de exploração do trabalho que são similares. Trabalho forçado, por exemplo, mas a pessoa não é propriedade daquele que a explora. Enquanto que, antigamente, era. Tinham direitos totais sobre a pessoa, inclusivamente sobre a sua prole. Em princípio, legalmente, isso acabou.

Mas o jornal The Guardian, por exemplo, em 2019 reportava a existência de 40 milhões de pessoas em condição de escravatura moderna. Claro que temos de ter em conta o facto da densidade populacional ser hoje bastante superior…
Mesmo assim, comparado com os 12 milhões e meio que terão ido, ao longo de mais de quatro séculos, de África para as Américas, dá-nos ideia da dimensão do problema.

Tem conhecimento de alguns destes activistas anti-racistas, que têm condenado diligentemente o passado escravista do Ocidente, fazerem algo para combater o actual flagelo da escravatura moderna?
Não faz parte da agenda deles. A agenda dos activistas antirracistas é, de facto, criar uma narrativa com o homem negro no centro da História. Ainda no ano passado – eu não vi o filme, mas falei disso com o meu filho, que é crítico de cinema no Expresso –, foi lançado um filme chamado A Mulher Rei, que é sobre aqueles regimentos a que os ocidentais chamavam amazonas. Amazonas, por analogia com a mitologia greco-romana. Eram mulheres guerreiras do reino de Daomé, que corresponde ao Benim actual, e existiu mesmo. Foram mesmo reais essas amazonas, essas mulheres guerreiras, que eram um regimento que fazia parte da Guarda do reino… e eram temíveis em combate, até porque os homens, os ocidentais, como os soldados franceses, tinham algum retraimento em matar mulheres. E, portanto, sofriam baixas enormes em combates com elas. O cavalheirismo do século XIX… [risos].

Interessante, é engraçado isso…
É, não é? Mas, de facto, elas eram terríveis, e muito resistentes fisicamente, tinham uma grande capacidade de sacríficio… Mas, no filme, são representadas como combatentes contra o tráfico de escravos. E o reino de Daomé era um cerne do tráfico de escravos! Portanto, a História está completamente pervertida.

Isso acaba por transmitir uma mensagem, apesar de ser ficção.
Passa a mensagem dos negros a combaterem o tráfico de escravos, quando era o contrário, o reino de Daomé vivia disso. Era um reino guerreiro, guerreava os povos em redor, escravizava-os e vendia-os aos ocidentais.

Estes episódios de reescrita do passado que se têm sucedido de diversas formas, levou-o, inclusivamente, a fazer uma comparação com o livro 1984, de George Orwell. Acha mesmo que está a haver essa manipulação da História?
Sim, uma reescrita. Em 1984, o protagonista Winston Smith, do Ministério da Verdade, tinha a função de reescrever as notícias do passado para que elas se ajustassem ao presente. Isto é um pesadelo. Então para um historiador, é um duplo pesadelo. Mas para qualquer pessoa, não é? Porque se perde a noção da espessura do tempo, da diferença, que é para isso que a História serve, para explicar a diferença.

Não é para julgar?
Não, não é para julgar, isso é os tribunais. E, de facto, o que está a haver hoje em dia, na narrativa histórica, mas não só, é um esforço de reescrita inclusiva, de textos do passado.  Pense, por exemplo, que já houve propostas – e que penso que foram levadas avante em certos estados norte-americanos –, de reescrever certas passagens de livros. Por exemplo, o livro do Mark Twain, todas as partes que têm uma linguagem…

Considerada racista…
Sim. É óbvio, aquilo passava-se numa sociedade racista! Portanto, as personagens falam como falavam as pessoas daquela altura. Agora, tem de ser corrigido. Corrigido, suprimido, adaptado ao tempo. Até dei, num artigo para o Diário de Notícias, a propósito das demolições de estátuas e da correção da linguagem, o exemplo de Joan Baez. Baez ainda é viva, mas foi uma cantora de intervenção muito famosa na década de 60. E, em 1971, ela teve uma música de muito sucesso chamada The Night They Drove Old Dixie Down. Ela descreve a noite em que o Sul perde a guerra civil, a bandeira é arriada, o general Robert E. Lee rende-se… E refere Robert E. Lee, comandante das tropas do Sul. Essa letra hoje em dia seria proibida! Isto é aterrador, nós pensarmos que a rainha do progressismo na altura, que era ouvida em todos os campos universitários e estava na primeira fila da contestação e do espírito revolucionário, hoje em dia seria banida.

Ou “cancelada”, como se diz hoje em dia…
Seria cancelada. É impressionante, não é? Isto é pior que 1984.

Há historiadores que defendem este tipo de práticas expurgatórias do passado. No seu círculo, vê mais colegas coniventes com essa ideologia, ou outros que pensam de forma igual a si?
No meu círculo – que é uma coisa restrita, até porque estou fora da Academia já –, são sobretudo aqueles que concordam comigo, muitos dos quais não se pronunciam, por razões que eles saberão. Agora, fora do meu círculo, muitos historiadores activistas e que escrevem sobretudo no Facebook e nas redes sociais. Vejo, nesta área das ciências sociais e humanas, um grande activismo nas universidades. Activismo da parte de uns, silêncio da parte de outros.

E também há activistas que não são historiadores…
Muitos, eu diria que são talvez a maioria, não é? Antropólogos, sociólogos, jornalistas… Eu diria que a maioria não são historiadores. 

Já começou a estudar a escravatura colonial há mais de trinta anos. Quando é que começou a dar-se conta deste movimento revisionista dessa época da História, que se iniciou nos Estados Unidos?
Para mim foi um bocado surpreendente, digo-lhe com toda a franqueza. Comecei a dar-me conta, e escrevi sobre isso, num livro que publiquei em 2006 chamado Revoltas Escravas. Foi a primeira edição desse livro aqui, que depois veio a ser traduzido nos Estados Unidos e em Inglaterra. E, depois, foi reeditado em Portugal no ano passado. Mas, em 2006 dei-me conta do peso disto em França, porque um colega meu francês, que se chamava Olivier Pétré-Grenouilleau, começou a ser alvo de uma pressão enorme. Queriam expulsá-lo da universidade e por aí fora. Ele ainda me pediu para que eu testemunhasse a seu favor, e eu acedi. Portanto, na altura, eu apercebi-me disso em França e nos Estados Unidos, e escrevi.

Chegou a todo o lado.
Eu sabia que iria chegar cá, mais cedo ou mais tarde. Mas, quando chegou, fui colhido de surpresa. E chegou em 2017, na sequência da ida do presidente da República ao Senegal e das declarações que ele fez sobre a escravatura, e sobre Portugal ter abolido a escravatura. E, aí, de repente, houve um sector da opinião pública, ligado sobretudo à extrema-esquerda, que caiu em cima dele. E aí eu percebi a dimensão que aquilo tinha. Fui-me apercebendo. Já mais recentemente, em 2017, cheguei a escrever um artigo onde contei a história do meu colega Olivier Grenouilleau e a pressão enorme que os grupos de activistas de afrodescendentes exerceram, com ameaças à família e por aí fora. E sabe porquê? Porque ele deu uma entrevista em que disse coisas deste género, que para qualquer historiador são óbvias e evidentes: o objectivo dos negreiros não era matar pessoas, era transportá-las vivas, se possível, para o outro lado do Atlântico. Por causa disso, acharam que ele era um perigoso racista, e exerceram imediatamente pressão para que fosse expulso da universidade. Isso gerou, de uma parte dos historiadores franceses, um movimento de solidariedade. Outros historiadores franceses antagonizaram-no, mas os mais prestigiados, diria eu, puseram-se do lado dele e criaram até um movimento chamado Liberté pour l’Histoire, em sua defesa.

A pressão agora é tal que, se fosse hoje, talvez esses historiadores já não tivessem coragem de se insurgir em defesa de Grenouilleau…
Se fosse agora já não seria assim, mas aqui já estou a especular. Em Portugal não tem sido assim, porque isto é um debate que dura desde 2017, portanto já vai para seis anos, e têm sido pouquíssimos os historiadores que se têm pronunciado.
No seu caso, tem-se pronunciado bastante. Isso tem-lhe valido muitas críticas?
Sim, sim [não conseguem cancelar? Difamem]. Nas redes sociais, sim, sou um alvo a abater. Mas eu acho que posso bem com isso.

 

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