Dom Sebastião e o Vidente

«... Apesar do seu mester de puta, fora sempre uma mulher temente a Deus, nunca deixando de dar esmolas para a Igreja ou de ir nas procissões de penitentes quando o trabalho lho permitia e, durante os anos de encarceramento nas prisões do Santo Ofício, suplicara em vão por um padre que a ouvisse em confissão, mas tal privilégio era apenas concedido aos moribundos e nem esse parco consolo lograra obter dos inquisidores.
Ao contrário de muitas companheiras de ofício, jamais se entregara a práticas de feitiçaria, nem usara receitas ou filtros para prender um amante, como abafar um peixe vivo na madre e servir-lho cozido, feito de que se gabava a amiga Angustias, amassar e moldar uma broa nas nádegas para lha oferecer acabada de sair do forno, segundo aconselhava a azougada Rosália ou ainda fazer-lhe beber uma mistura do seu próprio sémen com o sangue das suas regras, remédio infalível oferecido pela velha Francisca, de um bordel de Sevilha. Os inquisidores tinham certamente arrancado essas acusações à sua criada, às companheiras daquela noite lhe bastara o seu engenho e arte, além da beleza do rosto e da perfeição do corpo que, para bem e para mal dos seus pecados, lhe pusera aos pés, rendida em carne e espírito e com a bolsa aberta, a realeza de Espanha.
À vista do seu corpo nu, nem mesmo os padres inquisidores que lhe davam os tratos haviam escapado à tentação do desejo e ao pecado da luxúria. Apesar do terror e do sofrimento, não pudera deixar de ver o brilho lascivo dos olhos fugidios, o suor e a vermelhidão dos rostos convulsionados pelo alvoroço do sexo e do sangue, enquanto lhe afastavam as coxas e lhe escanhoavam a sedosa cabeleira entre as pernas, metendo-lhe os dedos brutais na vagina ou usando umas agulhas compridas para lhe esquadrinharem os lábios e o clítoris à procura do estigma maléfico, da marca da feiticeira, quando se inclinavam para lhe perguntar onde tens escondida a Garra do Diabo?, as línguas lambendo os beiços secos da volúpia com que observavam as contorções do seu corpo preso ao potro, arqueando-se a cada volta das cordas que lhe esticavam os braços e as pernas, até os seios parecerem rebentar-lhe no peito e as nádegas e coxas abrirem os seus íntimos, resguardos à concupiscência daquelas naturezas que os hábitos negros, os cilícios e os jejuns não logravam amortalhar: fornicaste com o Demo? praticaste o acto nefando da sodomia?
Não saberia dizer se era o remorso, se o medo do Inferno ou apenas a sua torpe perversidade que levava os padres inquisidores a encarniçarem-se com requintes de pasmosa crueza contras as partes do seu corpo que amantes poetas haviam outrora glorificado em canções e vilancicos já olvidados. Com os ossos quebrados e deformados, violada e sodomizada por toda a sorte de objectos rombos ou cortantes da infernal panóplia dos seus algozes que a rasgavam e mutilavam até à inconsciência da dor, usada e abusada na cela pelos carcereiros e guardas na impunidade da escuridão e do abandono, a sua pele de nácar e rosas tornara-se num pergaminho enrugado por roxas cicatrizes, donde pendiam as pregas dos seios queimados, sem mamilos, e a boca do seu corpo, fonte de desejos e duelos, era agora uma fossa pútrida a destilar venenos.
(...)
Um fio do pálido sol de Dezembro incidia nos cabelos do Desejado, arrancando-lhe fulgores de cobre que lhe manchavam o rosto de uma poeira dourada, acentuando o brilho azulado dos olhos. “Bastião! Bastião!”, gritou Luna Diaz com todas as forças do seu peito, erguendo as mãos para a tribuna, mas o nome que a sua dor soltou e a língua mutilada não pôde articular soou como um ronco animalesco de agonia que fez estremecer de asco el-rei D. Sebastião.»

“D. Sebastião e o Vidente”, de Deana Barroqueiro, Porto Editora 2006

13 comentários:

The F Word disse...

Criar monstros... seja qual for o motivo ou o objectivo... é aquilo que as pessoas sabem fazer melhor... sempre foi.





(Apreciei as receitas para cativar o gajo...)

efe disse...

tinham muita imaginação fword, não havia tv.
;)

Bartolomeu disse...

o estigma da inquisição, sem dúvida... não suportavam que poetas e amantes glorificassem algo que concorria em vantagem natrural com as paneleirices que os caracterizavam.
Época negra que deixou marcas irrecuperáveis neste pais de gentinha pequenina, mesquinha, preconceitoozinha e supersticiozinha...

efe disse...

Eu diria antes, o estigma do catolicismo, Bartolomeu. Esses fazedores de "gentinha pequenina, mesquinha, preconceitoozinha e supersticiozinha", gente que prontamente adopta a resignação e aprende a aguardar a intervenção da divina providência. Era fácil de ver que tais conceitos medravam facilmente em povos da periferia, longe do caldeirão das ideias, dos conflitos e das revoluções centro europeias, motores do confronto, da reforma das ideias, da ousadia e do progresso. E vingaram, neste jardinzito litorâneo. Hoje, manifestam-se nos cultos da mediania (leia-se mediocridade), escorada na emergência do imediato, do fútil e banal, dos preconceitos exacerbados, do afastamento do bom senso colectivo e dos valores éticos, e envenenam a seiva que alimenta a sociedade. Assiste-se à “derrocada mental” da civilização, sem que esta tenha percorrido a parte maior do percurso que consegue/conseguia projectar. Os sonhos, que antes eram vislumbres de aspiração para o futuro, que comandavam vidas são, hoje, coisa para consumo e consolo imediato.
E vá de atear mais fogueiras em festas folguedos e modernos autos de fé.
Assim vai girando a roda.
;)

Bartolomeu disse...

Lamento caro efe, mas não creio no "bom senso colectivo", quanto muito no individual e na dinâmica do universo e nas suas leis de compensação. Quando alguem nasce diminuído numa das suas faculdades, quase sempre a natureza o compensa com uma outra mais habil.
Verifica-se ao longo dos tempos e da nossa história esta constatação e confirmação. No caso da inquisição, tambem a natureza conjuntural humana, se encarregou de fazer vigorar as leis da compensação, colocando À frente dos desígnios desta nação um outro Sebastião o de Carvalho e Melo, que fudeu à fartazana todos esses parrecos abjectos.

Vieira Calado disse...

Oh, Chico!
Belo texto que você achou!
Um abraço

TheOldMan disse...

Tudos se resume a uma simples frase, Francisco de Blog - "Onde houver um homem feliz, encontrarão outro emboscado para o matar por inveja"

Nem é preciso ser católico.

Abraço.

vanus disse...

Já se sabe que a beleza é coisa do diabo; de deus só mesmo a vendo onde ela não há :)

maria_arvore disse...

Parabéns pelo lustre. :) Espero que a luz te ilumine. :)

TheOldMan disse...

Parabéns, Francisco de Blog.

Agora também já pertences ao "Clube Cinco Estrelas".

Abraço

;-)

efe disse...

maria_arvore e TheOldMan: presumo que se refiram a aniversário do blogue?! eu nem sei bem quando começou este blogue, foi algures em 2003, mas depois parou, avancei com o livejournal, depois criei mais uns 6 ou 7 blogues... acho que tenho aniversários para comemorar todos os meses.

este tipo de "velhice não me diz nada, até porque não "cumpro" como bloguista. admiro quem tem paciência e arte para escrever todos os dias, ou quase, coisas interessantes.

agora desculpem mas tenho que voltar às aulas de inquisição de freiras (há que manter esta imagem de fixação pelo assunto).

[enquanto uma das mãos prende as atenções a outra opera o truque - in Manual de Ilusionistas]

;)

vanus disse...

Olha, eu vinha dar os parabéns, mas já que não ligas, também não mando beijinhos :p

efe disse...

vanus, a beijinhos ligo sempre. Obrigado pela "lembradura". Mas como é que vocês sabem dos aniversários dos blogues? Há algum calendário disso no blogspot?

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