amiba literata

(…)
Je ne puis jamais m'empêcher de jeter un regard, sinon universellement sympathique, au moins curieux, sur la foule de parias qui se pressent autour de l'enceinte d'un concert public. L'orchestre jette à travers la nuit des chants de fête, de triomphe ou de volupté. Les robes traînent en miroitant; les regards se croisent; les oisifs, fatigués de n'avoir rien fait, se dandinent, feignant de déguster indolemment la musique. Ici rien que de riche, d'heureux; rien qui ne respire et n'inspire l'insouciance et le plaisir de se laisser vivre; rien, excepté l'aspect de cette tourbe qui s'appuie là-bas sur la barrière extérieure, attrapant gratis, au gré du vent, un lambeau de musique, et regardant l'étincelante fournaise intérieure.
C'est toujours quelque chose intéressante que ce reflet de la joie du riche au fond de l'oeil du pauvre. Mais ce jour-là, à travers ce peuple vêtu de blouses et d'indienne, j'aperçus un être dont la noblesse faisait un éclatant contraste avec toute la trivialité environnante.
C'était une femme grande, majestueuse, et si noble dans tout son air, que je n'ai pas souvenir d'avoir vu sa pareille dans les collections des aristocratiques beautés du passé. Un parfum de hautaine vertu émanait de toute sa personne. Son visage, triste et amaigri, était en parfaite accordance avec le grand deuil dont elle était revêtue. Elle aussi, comme la plèbe à laquelle elle s'était mêlée et qu'elle ne voyait pas, elle regardait le monde lumineux avec un oeil profond, et elle écoutait en hochant doucement la tête.
Singulière vision! "A coup sûr, me dis-je, cette pauvreté-là, si pauvreté il y a, ne doit pas admettre l'économie sordide ; un si noble visage m'en répond. Pourquoi donc reste-t-elle volontairement dans un milieu où elle fait une tache si éclatante? " Mais en passant curieusement auprès d'elle, je crus en deviner la raison. La grande veuve tenait par la main un enfant comme elle vêtu de noir; si modique que fût le prix d'entrée, ce prix suffisait peut-être pour payer un des besoins du petit être, mieux encore, une superfluité, un jouet.
Et elle sera rentrée à pied, méditant et rêvant, seule, toujours seule ; car l'enfant est turbulent, égoïste, sans douceur et sans patience ; et il ne peut même pas, comme le pur animal, comme le chien et le chat, servir de confident aux douleurs solitaires.

Porra, basta metade de uma minúscula prosa de Baudelaire para um gajo voltar para debaixo da pedrinha de onde saiu para arengar à Lua. Extasia, e incomoda. É bom, para lembrar o meu lugar no universo.
Ainda assim, aqui fica o resultado dessa breve leitura do Mestre.  Influência subvertida aos sabores de outros tempos e outros desejos (?), pois claro.
 . 

Ele sentou-se num banco do jardim, apartado da multidão, ouvindo a música com que a banda do regimento ornamenta, aos sábados, a Praça da República. Ocupou o centro do banco, com um braço atirado para cada lado, descansando-os sobre a voluta das costas do assento, pernas abertas e casaco desabotoado. O chapéu de palha empinado para trás, desnecessário protector da soalheira na sombra do lódão bastardo que protege o banco e quem nele se senta àquela hora da tarde, rivaliza na sua função protectora com a cobertura esburacada do velho coreto.
Ali, revê em sequência as famílias proeminentes da cidade e a agitação das suas vidas vazias, de endinheirados patos bravos deglutidores de comidas sintéticas nos dias em que os outros trabalham, e petiscos extravagantes aos fins-de-semana. Ignorantes que ostentam, nas raras estantes que decoram as suas mansões e vilas, livros de lombadas alinhadas, luxuosamente encadernados, dos quais por vezes até sabem os títulos ou o nome dos autores.
Imóvel, de olhos semi-cerrados pela canícula que os compassos de uma peça indolente de Sparke calcam ainda mais sobre as pálpebras, mal consegue perceber o vulto que se aproxima cruzando a praça, num percurso tangencial ao banco em que preguiça. É apenas quando o vulto passa, que  liberta a imaginação deixando-a persegui-lo, a ele ou ela, numa indómita vontade de lhe saltar em cima, liberto já das roupas que embaraçam as vontades obscenas.



1 comentário:

David R. Oliveira disse...

O CÃO E O FRASCO

— Meu lindo cachorro, meu bom cão, querido...! Aproxima-te, vem respirar este excelente perfume comprado na casa do melhor perfumista da cidade.

E o cão, sacudindo a cauda —, o que me parece ser nestes pobres seres um sinal correspondente à alegria e ao sorriso —, aproxima-se e pousa o focinho no frasco aberto. Mas depois, recuando bruscamente, assustado, late contra mim, à guisa de censura.

— Ah! cão miserável. Se te tivesse oferecido um punhado de excremento, farejá-lo-ias deliciado e talvez o devorasses. Até tu, indigno companheiro desta minha triste vida, te pareces com o público ao qual nunca se devem apresentar perfumes delicados que o exasperem, mas boldreguices cuidadosamente escolhidas.

~ Charles Pierre Baudelaire ~