prosa poética em carta ao jeito de 600

Mui estimada e formosa donzela, acontecendo continuar a ser alvo de episódicas inquietudes sentimentais provocadas pela preciosa existência da vossa pessoa, e não obtendo qualquer resposta às simples interpelações que vos endereço, resta-me ir suavizando este miserável existir entrecortando momentos de alegre lucidez com irrequietos acometidos de coração, quando não melancólicos e absortos estados de espírito, que muito me mofinam a alma. Confinado assim, por vós, cruel princesa, às coisas do imaginário, quiçá por receio (infundado, vos garanto) de que desatine o coração em bater mais do que deverá, qual corcel em desabrido galope por montes e vales, sem freio nem mão que o tolha, eis-me imaginando interrogativas questões que vos colocaria, se vós fosseis pessoa de dar resposta. Triste sorte a minha, pois que o não sois. Assim me fico na hipotética inquirição.
Ride-vos, entretanto. Que mais não vos posso dar (porque vós não o aceitais, que assim se entenda). Mas ride-vos com gosto, com muita alegria. Por mim, bem deveria rir todo o mundo para vós, juntando em vosso coração a maior felicidade que o Universo permitisse.
Avanço.
E começo, repetindo-me (o que prova que infanções ou homens bons, quando apaixonados, andam igualmente parvos): - Existe algum donzel ou cavaleiro pelo qual vosso coração suspira, sim, ou não? Se existe tal homem, tão cheio de sorte, dizei-me ó mais linda princesa: - Diz-vos ele em cada dia que o Sol brilha, todos os dias da vida, que sois vós a mais linda de todas? Não me respondas que “tal coisa não é preciso”, pois não é uma questão de necessidade, é uma questão de merecimento. Assim o mereceis vós, gentil e doce dama.
E agora intercedo por mim: Se ele não diz tal, posso dizer-vos eu? Todos os dias? Se SIM, mandarei um pombo-correio com tal mensagem. Saiba ele o caminho e evitar a soltura das gaivotas e sereis recebedora dessas justas e puras homenagens de preito.
Sabendo-me homem nem sempre de perfeito juízo e por bastas vezes até um bocado irracional, mas cumprindo também alimentar esse lado menor da personalidade, por isso pergunto: - De que Signo sois? Balança, Aquário ou Capricórnio, ou um dos outros será? Bem gostaria de consultar os astros. Talvez as que brilham na abóbada celeste me respondam, cousa que vós tanto brilhando cá em baixo o não fazeis. Que estrela caprichosa sois, menina.
Uma última questão vos coloco, à qual não respondereis, pois claro. Mas ainda assim aqui deixo: - Querendo convosco conviver um pouco, para o que vos poderei convidar? Para um bailar, um passeio, ou um simples jantar? Dizei-me, amiga (não me dizendo nada, claro está).
E termino.
Bem mandada e entregue deveria ser esta missiva, escrita a pena sobre pergaminho, e devidamente lacrada. Mas assim não será, por receio de espiões dessa gente que não acredita em amores e paixões.
Junto tanta coragem como a que a Gil Eanes usou para passar além do Bojador e… atrevo-me a oferecer-vos um beijo. Aceitai, por amor, amizade, caridade ou … economia. Sim, porque sendo oferta vale a pena aproveitar, neste mundo louco em que até para mandar um beijo para o lixo, também é preciso pagar.
Assim, beijo a vossa linda mão.
PS: E não aguardo resposta. Seria tortura, como da Inquisição.

F. Castelo
;D

1 comentário:

Anónimo disse...

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