A Barca Bela ou de como a bela foi na barca

Martim saltou para a barca e um dos homens firmou as mãos na laje do cais, empurrando-a, afastando a embarcação. A correnteza da maré era tão fraca que nem ajudou a vencer a escassa milha1 que separa o velho cais da foz da ribeira, encastrada nos areais, para lá da praia de S. Roque2. Trabalharam os remos.
Iam para Alvor por mor de reparar o mastro quebrado da barca. Não que não houvesse mãos capazes de o fazer no burgo mas por respeito pelo contrato de assistência da marca. Assim ordenara Gil Eanes interpretando a proverbial avareza do seu amo, o senhor Infante D. Henrique. Para quê pagar tal serviço a artesãos do lugar se, a parca distância, tinham um serviço gratuito?! Assim ajustava o auto de garantia firmado na compra da barca, num stand da feira náutica de Alvor, no dia dezoito de Fevereiro do ano da graça de MCDXXXI (mil quatrocentos e trinta e um - para a malta recém formada pelo sistema de ensino português não entender como um cartão de memória digital).
Não esperava Martim encontrar um ínvido funcionário no estaleiro de Alvor, homem de meia-idade, calvo, de estranho tino e paciência mínima. Que não, que tal reparação nunca poderia ser executada com tal rapidez, argumentava o tonsurado calafate. Que sim, respondia o imberbe marinheiro do escudeiro Eanes, que tal houvera sido combinado uma semana antes entre o seu amo e o mestre do estaleiro. A barca teria de ficar operacional para a empresa que se avizinhava. Era urgente, exclamava o jovem lacobrigense de feição pueril - por vezes enganadora do seu género - ao obstinado alvoreiro.
Descansando da pesada remada que vencera a baía e a corrente do rio, acolhidos na sombra dos decaídos barracos de apetrechos do estaleiro, os oito remadores aguardavam o desenrolar da discussão. Para lá da faixa de sombra projectada no terreiro lamacento, sob a inclemente baforada algarvia do astro rei, fulge o rosto irado do mancebo e rebrilha a calva do recepcionista da instalação náutica. Por esta altura pensarão os remadores que a demanda vai descambar em pancadaria, enquanto deslizam olhares duvidosos na apreciação dos franzinos bicípites do arrais da barca, revelando falta de robustez para brandir convenientemente um remo. A barca assiste, serenamente, ao arrazoado diálogo que o seu mastro partido originou, baloiçando-se, alheada, nas águas cristalinas provenientes da serra de Monchique que ali se caldeiam com as do oceano.
Não se chega a vias de facto, nem saberemos se tal iria acontecer. A intervenção do mestre carpinteiro, entretanto chegado ao bulício, determina que os serventes alem o batel e que se apressem nas reparações.
A companha maruja regressa à cidade a pé, depois de franqueada à margem poente da foz alvorina, desviando-se episodicamente do extenso areal da meia praia para breves incursões aos laranjais e vinhas que bordejam a doirada moldura da baía. O jovem ocupa a frente do pelotão, num porte altivo, sacudido apenas quando enterra um dos pés nas areias quentes que a maré alta deixou por caminho, alheio ao chamamento das guloseimas que amiúde experimentou, então à sorrelfa de trabalhos e empenhamentos ordenados pelo seu amo. Segue orgulhoso, brilhando-lhe os olhos esverdeados onde se reflecte, esbatida, a alvura do casario da cidade que se aproxima.
(…)
O senhor Infante está na Vila! E logo tremeram os serventes da sua casa, os gentis-homens e outros destacados cidadãos da urbe, tremendo crianças e mulheres, das virtuosas às toleradas, senhoras, trapeiras, donzelas de coifa ou descabeladas padeiras, tremeram as alimárias citadinas sob a cangalha das bilhas da água que distribuem, agitaram-se as grasnentas gaivotas e, até, os barcos em manobra ou ancorados estremeceram: desamarra-me! Parecia gritar o barinel. -Que quero partir rio baixo, à deriva. Parecia assim, mas não seria apenas singelo baloiçar das águas em correnteza ditada pela estrela lunar?
Imerecido e injusto juízo é o destas fracas gentes acerca deste dignatário da ínclita geração.
(...)
1 – Inicialmente, igual a mil passos, a milha acabou sendo modificada para cerca de três vezes essa distância. A distância a que aludimos não seria superior a 600m.
2 – Crê-se que a barra da ribeira de Bensafrim terá, ao longo da Idade Média e Moderna, alternado a sua localização entre a indicada no texto e a actual, devido a processos de assoreamento e desassoreamento das referidas barras.

15 comentários:

Mena G disse...

Vá lá... um bom começo. Não nos deixes de água na boca!

TheOldMan disse...

"O senhor Infante está na cidade!" - Estou a ver que mais uma vez enveredaste pela narrativa histórica...

Tirando isso, parece apenas um dia normal nos estaleiros da Lisnave (keep up with the good work).

;-)

efe disse...

mena: estas coisas acontecem sem previsão, veremos que rumo toma a barquinha.

efe disse...

Mestre: o exercício de escrita que me propus realizar começou com a publicação do "claustro fobias". Numa segunda publicação pretendo incluir: a reescrita do conto tradicional japonês “A Cadeira Humana” recuperado pelo Edogawa Rampo (mas muito mal traduzido para português), que também já está concluído; um conto sobre Gil Eanes e o Cabo Bojador (podendo ser este post o seu início); um conto sobre a vida de um soldado do regimento de Lagos ao tempo das guerras peninsulares e, eventualmente, um outro conto enquadrado na Lagos do terramoto de 1755. São apenas exercícios para melhorar a escrita. Sem datas agendadas, sem preocupações de conteúdos orientados, sem concessões a nível ético, moral, ou respeitador da verdade histórica. Mantém-se o pano de fundo de cunho histórico, matéria boa para a ironia mas, aqui, manda a imaginação e o engenho possível na arte de escrever. E mai nada.

;)

Bartolomeu disse...

Correm boatos que fosse o infante fanchono, que rejeitaria cono de fêmia como o azeite se afasta de água. Correm ainda boatos de ter sido aquela empresa a que o sr. infante dedicou a alma, lhe ter sido ditada por desígnios superiores, acima ainda daquilo que é temporal e do domínio do entendimento humano.
Será que o sr. infante terá conhecido em seu tempo a pré-visão dos nossos tempos, ou tal como Einstein afirmou, o tempo não existe e ele viveu hoje e nos já vivemos ontem?

efe disse...

Bartolomeu: vá-se lá saber, os desígnios do demiurgo ou a complexidade do Universo assim podem determinar. E esclarecer isto, provavelmente, só num acaso atribuído à serendipidade.
Mais espaço fica para a imaginação explicar, se o entender.
;)

Bartolomeu disse...

provávelmente, caro efe, o processo humano tem dependido unicamente de uma dose infinita de Serendipitia, tomada diáriamente antes e depois das refeições, mesmo sem prescrição.
;)))

efe disse...

E como nós, portugueses, interiorizamos tão bem essa produção farmacológica do Universo, caro Bartolomeu. Afinal, vivemos no berço do acaso, por acaso... até ao ocaso.

;D

Anónimo disse...

:-)
Tereza

PS.. não tenho password aqui

efe disse...

Tereza, podes ter a certeza que o PS não tem aqui password.

;D

bj.

Anónimo disse...

só falta a bela da musiquinha!
http://www.youtube.com/watch?v=ueGmB_CE5kQ

efe disse...

ao anónimo: esse compositor tem músicas muito melhores, e mais adequadas ao post, mas obrigado pela sugestão.

Anónimo disse...

Efe...tá giro..continua..

:-))

RESSACA disse...

Aqui nasceu o Espaço que irá agitar as águas da Passividade Portuguesa...

efe disse...

"O senhor Infante está na cidade!" foi alterado para "O senhor Infante está na Vila!" pois medeiam uns 150 anos entre a cena descrita (1433-1434) e a elevação de Lagos a Cidade (1573).